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Eu sei o que você estava fazendo na primeira aula, Violet Markey. Seus pais
estão vindo pra cá. Médicos estão de prontidão para levá-la ao instituto psiquiátrico mais
próximo.
Mas começamos como sempre.
— Como você está, Violet?
— Estou bem, e você? — Sento sobre as mãos.
— Também. Mas vamos falar de você. Quero saber como está se sentindo.
—  Tudo  bem.  —  Só  porque  ela  não  tocou  no  assunto,  não  quer  dizer  que  não  saiba.  Ela
quase nunca pergunta as coisas diretamente.
— Como tem dormido?
Os pesadelos começaram um mês depois do acidente. Ela pergunta sobre isso sempre que
nos vemos, porque cometi o erro de contar pra minha mãe, que contou pra ela. Esse é um dos
principais  motivos  pelos  quais  estou  aqui  e  a  razão  pela  qual  parei  de  falar  as  coisas  pra
minha mãe.
— Tenho dormido bem.
A sra. Kresney sempre sorri, não importa o que aconteça. Gosto disso nela.
— Algum sonho ruim?
— Não.
Eu costumava escrever sobre meus pesadelos, mas não escrevo mais. Lembro cada detalhe.
Como o que tive há quatro semanas, em que eu estava literalmente derretendo. No sonho, meu
pai me disse: “Você chegou ao fim, Violet. Chegou ao limite. Todos temos um limite, e o seu é
este”. Mas eu não quero que seja. Vi meus pés virarem poças e desaparecerem. Depois foram
as mãos. Não doía, e me lembro de pensar: Eu não deveria me importar, porque não dói. Só
estou desaparecendo. Mas eu me importei quando, membro a membro, o resto de mim sumiu
antes que eu acordasse.
A  sra.  Kresney  se  mexe  na  cadeira,  com  o  sorriso  fixo  no  rosto.  Me  pergunto  se  ela  sorri
enquanto dorme.
— Vamos conversar sobre a faculdade.
Durante  essa  mesma  época,  no  ano  passado,  eu  adoraria  conversar  sobre  a  faculdade.
Eleanor e eu costumávamos fazer isso de vez em quando, depois que nossos pais iam dormir.

Se  a  temperatura  estivesse  agradável,  sentávamos  do  lado  de  fora;  quando  fazia  frio,
ficávamos  dentro  de  casa  mesmo.  Imaginávamos  os  lugares  para  onde  iríamos  e  as  pessoas
que conheceríamos, bem longe de Bartlett, Indiana, população de 14983 habitantes, onde nos
sentíamos extraterrestres de algum planeta distante.
— Você se inscreveu na 
UCLA
,  Stanford,  Berkeley,  Universidade  da  Flórida,  Universidade
de Buenos Aires, Universidade do Norte Caribenho e Universidade Nacional de Cingapura. É
uma lista bem abrangente, mas e a 
NYU
?
Desde as férias de verão antes do sétimo ano, o curso de escrita criativa da 
NYU
  era  meu
sonho.  Isso  porque  visitei  Nova  York  com  a  minha  mãe,  que  é  professora  universitária  e
escritora. Ela fez pós-graduação na 
NYU
 e durante três semanas nós quatro visitamos a cidade
e  conhecemos  seus  antigos  professores  e  colegas  —  romancistas,  dramaturgos,  roteiristas,
poetas. Meu plano era me inscrever para a admissão antecipada, em outubro. Então o acidente
aconteceu e mudei de ideia.
— Perdi a inscrição. — O prazo para admissão regular foi há uma semana. Preenchi tudo,
até escrevi a dissertação, mas não enviei.
— Vamos conversar sobre sua escrita. Vamos conversar sobre o site.
Ela  está  falando  do  eleanoreviolet.com.  Eleanor  e  eu  começamos  o  site  quando  viemos
morar  em  Indiana.  Queríamos  criar  uma  revista  on-line  que  oferecesse  duas  visões  (muito)
diferentes sobre moda, beleza, garotos, livros, a vida em geral. Ano passado, Gemma Sterling
(estrela  da  websérie  Rant),  amiga  de  Eleanor,  mencionou  nosso  site  em  uma  entrevista,  e  o
número  de  seguidores  triplicou.  Mas  eu  não  encostei  mais  nele  desde  que  Eleanor  morreu.
Afinal, qual seria o objetivo? Era um site sobre irmãs. Além do mais, naquele instante em que
atravessamos a barra de proteção, minhas palavras também morreram.
— Não quero falar sobre o site.
— Soube que sua mãe é escritora. Ela deve dar várias dicas.
— Jessamyn West disse: “Escrever é tão difícil que os autores, tendo passado o inferno na
Terra, escaparão de qualquer punição depois”.
Ela fica instigada com a citação.
— Você acha que está sendo punida?
Ela  está  falando  do  acidente.  Ou  talvez  esteja  se  referindo  a  estar  aqui  nesta  sala,  neste
colégio, nesta cidade.
— Não.
Se eu sinto que deveria ser punida? Sim. Por que mais eu teria cortado a franja?
— Você acha que é responsável pelo que aconteceu?
Arrumo a franja. Está torta.
— Não.
Ela recosta na cadeira. O sorriso desliza uma fração de centímetro. Nós duas sabemos que
estou  mentindo.  Me  pergunto  o  que  ela  diria  se  eu  contasse  que  há  uma  hora  estavam  me
convencendo a sair do parapeito da torre do sino. Agora, tenho quase certeza de que ela não
sabe.
— Você já voltou a dirigir?
— Não.

— Já andou de carro com seus pais?
— Não.
— Mas eles querem que você ande. — Isso não é uma pergunta. Ela fala como se tivesse
conversado com um deles, ou com os dois, o que provavelmente aconteceu.
— Não estou pronta. — Essas são as três palavras mágicas. Descobri que podem me livrar
de praticamente qualquer coisa.
Ela se inclina para a frente.
— Já pensou em voltar para a equipe de torcida?
— Não.
— Grêmio estudantil?
— Não.
— Ainda toca flauta na orquestra?
— Sou a última cadeira. — Essa é uma coisa que não mudou desde o acidente. Sempre fui a
última cadeira porque não sou muito boa na flauta.
Ela se encosta de novo. Por um momento penso que está desistindo. Então, diz:
— Estou preocupada, Violet. Sinceramente, você já deveria ter melhorado um pouco mais.
Você não pode evitar carros pra sempre, principalmente agora no inverno. Não pode parar no
tempo. Precisa lembrar que é uma sobrevivente, e isso quer dizer que…
Nunca  vou  saber  o  que  isso  quer  dizer  porque,  assim  que  ouço  a  palavra  “sobrevivente”,
levanto e saio.
 
 
A caminho da quarta aula. Corredor da escola.
Pelo  menos  quinze  pessoas  —  algumas  eu  conheço,  outras  não,  outras  não  conversam
comigo  há  meses  —  me  param  no  caminho  até  a  sala  para  me  dizer  como  fui  corajosa  de
evitar que Theodore Finch se matasse. Uma das garotas do jornal do colégio quer fazer uma
entrevista.
De todas as pessoas que eu poderia ter “salvado”, Theodore Finch é a pior escolha, porque
é  uma  lenda  do  Bartlett.  Não  o  conheço  muito  bem,  mas  já  ouvi  falar  dele.  Todo  mundo  já
ouviu falar dele. Algumas pessoas o odeiam porque acham que ele é esquisito e se mete em
brigas e toma suspensão e faz o que quer. Algumas pessoas o idolatram porque acham que ele
é esquisito e se mete em brigas e toma suspensão e faz o que quer. Ele toca guitarra em cinco
ou seis bandas diferentes e, no ano passado, gravou uma música. Ele é meio… radical. Tipo,
um dia veio pra aula pintado de vermelho da cabeça aos pés, e nem era dia de jogo. Falou pra
algumas pessoas que estava protestando contra o racismo e pra outras que estava protestando
contra  o  consumo  de  carne.  No  primeiro  ano,  apareceu  de  capa  durante  um  mês  inteiro,
quebrou uma lousa no meio com uma mesa e roubou os sapos do laboratório de biologia e fez
um funeral para eles antes de enterrá-los no campo de beisebol. A grande Anna Faris uma vez
disse que o segredo para sobreviver ao ensino médio é “ficar de boa”. Finch faz o contrário
disso.
Chego  cinco  minutos  atrasada  para  a  aula  de  literatura  russa,  na  qual  a  sra.  Mahone  está
passando  um  trabalho  de  dez  páginas  sobre  Os  irmãos  Karamazov.  Todos  reclamam,  menos

eu,  porque  apesar  do  que  a  sra.  Kresney  parece  pensar,  tenho  minhas  circunstâncias
atenuantes.
Nem escuto quando a sra. Mahone explica o que devemos fazer. Em vez disso, arranco um
fio solto da saia. Estou com dor de cabeça. Provavelmente por causa dos óculos. A miopia de
Eleanor era mais alta que a minha. Tiro os óculos e os apoio na mesa. Ficavam estilosos nela.
Ficam feios em mim. Principalmente agora que tenho franja. Talvez, se usá-los o bastante, eu
consiga ser como ela. Consiga ver o que ela via. Talvez eu seja nós duas ao mesmo tempo, e
ninguém vai sentir falta dela, nem mesmo eu.
Tenho  dias  bons  e  dias  ruins.  Quase  me  sinto  culpada  por  dizer  que  não  são  todos  ruins.
Alguma  coisa  me  pega  desprevenida  —  um  programa  na 
TV
,  uma  piada  do  meu  pai,  um
comentário na aula — e rio como se nada tivesse acontecido. Volto ao normal, o que quer que
“normal” signifique. Algumas manhãs acordo e me pego cantarolando enquanto me arrumo. Ou
aumento  o  volume  do  rádio  e  danço.  Na  maior  parte  dos  dias,  vou  andando  pra  aula.  Em
outros, pego  a  bicicleta, e  às  vezes minha  cabeça  me  engana e  penso  que sou  só  uma  garota
comum dando uma volta à toa.
Emily  Ward  cutuca  minhas  costas  e  me  passa  um  bilhete.  Como  a  sra.  Mahone  recolhe  os
celulares  no  início  das  aulas,  temos  que  conversar  à  moda  antiga,  arrancando  folhas  do
caderno.
É verdade que você impediu que Finch se suicidasse? Bj. Ryan.
 Só tem um Ryan na sala — alguns diriam
que só existe um Ryan no colégio inteiro, talvez até no mundo —, e é Ryan Cross.
Levanto  a  cabeça  e  vejo  que  ele  está  olhando  pra  mim,  duas  fileiras  adiante.  Ele  é  lindo.
Ombros  largos,  cabelo  castanho-dourado,  olhos  verdes  e  sardas  suficientes  para  que  pareça
acessível. Até dezembro, ele era meu namorado, mas agora estamos dando um tempo.
Deixo  o  bilhete  em  cima  da  mesa  por  cinco  minutos  antes  de  responder.  Finalmente,
escrevo: 
Só  calhou  de  eu  estar  lá.  Bj.  V.
 Menos de um minuto depois, o bilhete volta pra mim, mas
desta vez não abro. Penso em quantas garotas adorariam receber um bilhete de Ryan Cross. A
Violet Markey da última primavera teria sido uma delas.
Quando o sinal toca, fico pra trás. Ryan demora um pouco pra sair, esperando pra ver o que
vou fazer, mas quando vê que fiquei sentada, pega o celular e vai embora.
A sra. Mahone diz:
— Pois não, Violet?
Antes,  dez  páginas  não  eram  nada  de  mais.  O  professor  pedia  dez  e  eu  escrevia  vinte.  Se
pedisse vinte, eu entregava trinta. Escrever era o que eu fazia de melhor, melhor até do que ser
filha ou namorada ou irmã. Escrever fazia parte de mim. Mas agora escrever é só mais uma
das coisas que não consigo fazer.
Não preciso dizer quase nada, nem mesmo “Não estou pronta”. Está no livro não escrito de
regras  da  vida,  no  capítulo  “Como  reagir  quando  um  aluno  perde  um  ente  querido  e,  nove
meses depois, ainda está passando por um momento difícil”.
A sra. Mahone suspira e devolve meu celular.
— Entregue uma página ou um parágrafo, Violet. Ao menos tente.
Minhas circunstâncias atenuantes salvam o dia.
Do  lado  de  fora  da  sala,  Ryan  me  espera.  Vejo  na  cara  dele  que  está  tentando  resolver  o

enigma e me transformar na namorada divertida que eu costumava ser. Ele diz:
— Você está linda hoje.
Ele é gentil e não repara no meu cabelo.
— Obrigada.
Por  sobre  o  ombro  de  Ryan,  vejo  Theodore  Finch  passar  como  um  pavão.  Acena  com  a
cabeça, como se soubesse de algo que não sei, e segue em frente.

DIA 6 DESPERTO (AINDA)
No almoço, toda a escola já sabe que Violet Markey salvou Theodore Finch na torre do sino.
No  corredor,  a  caminho  da  aula  de  geografia,  ando  atrás  de  um  grupo  de  garotas  que  não
param de falar disso, sem imaginar que sou o próprio Theodore Finch.
Elas falam todas ao mesmo tempo, num tom de voz agudo que parece sempre terminar em
interrogação, tipo: Ouvi dizer que ele estava armado? E que ela teve que arrancar a arma
da  mão  dele?  Minha  prima  Stacey,  que  estuda  no  New  Castle,  disse  que  ela  e  uma  amiga
estavam em Chicago e ele estava tocando em um bar e, tipo, ficou com as duas? Bom, meu
irmão  estava  lá  quando  ele  acendeu  os  fogos  de  artifício  e  contou  que  antes  de  a  polícia
aparecer, ele disse: “A não ser que vocês me reembolsem pelos fogos, vou ficar para o grand
finale”?
Aparentemente,  sou  trágico  e  perigoso.  É  isso  aí,  penso.  Isso  mesmo.  Estou  aqui,  agora,
não só acordado, mas desperto, e todos vão ter que aprender a lidar com isso. Chego mais
perto e digo:
— Ouvi dizer que ele fez isso por causa de uma garota — e sigo com passos firmes para a
aula.
Já na sala, sento no meu lugar, me sentindo infame e invencível e inquieto e estranhamente
animado, como se tivesse acabado de escapar… da morte. Olho ao redor, mas ninguém está
prestando atenção em mim ou no sr. Black, nosso professor, que é literalmente o maior homem
que  já  vi.  Ele  tem  a  cara  vermelha,  bem  vermelha,  então  sempre  parece  que  está  com
insolação ou à beira de um ataque cardíaco, e fica sem fôlego quando fala.
Durante  todo  esse  tempo  que  vivi  em  Indiana,  ou  seja,  minha  vida  inteira  —  os  anos  de
purgatório, como sempre digo —, aparentemente estivemos a apenas dezessete quilômetros do
ponto  mais  alto  do  estado.  Ninguém  nunca  me  disse  isso,  nem  meus  pais  nem  minhas  irmãs
nem  meus  professores,  até  agora,  neste  exato  minuto,  na  seção  “Sobre  Indiana”  da  aula  de
geografia  —  instituída  pela  diretoria  este  ano  como  uma  tentativa  de  “ensinar  aos  alunos  a
riqueza histórica do próprio estado e inspirar o orgulho de nascer em Indiana”.
É sério.
O sr. Black se acomoda na cadeira e limpa a garganta.
— Será que existe… um jeito melhor e mais… apropriado de iniciar… o semestre do que
começando… pelo ponto mais alto?
É difícil dizer se o sr. Black está mesmo impressionado com a informação que transmite ou
se está apenas com falta de ar.
— O monte Hoosier está… 383 metros acima do nível do mar… e fica no quintal… de uma
casa de família… Em 2005, um escoteiro de Kentucky… obteve permissão para… abrir uma
trilha e montar… uma área para piquenique… e colocou uma placa…
Levanto a mão, mas sou ignorado pelo sr. Black.

Enquanto ele continua falando, deixo a mão levantada e penso: E se eu fosse até lá e ficasse
em  pé  no  ponto  mais  alto?  As  coisas  pareceriam  diferentes  a  383  metros  de  altura?  Não
deve  ser  tão  alto  assim,  mas  as  pessoas  têm  orgulho  disso,  e  quem  sou  eu  para  dizer  que
383 metros não são suficientes para impressionar alguém?
Finalmente, ele acena com a cabeça pra mim, com os lábios tão cerrados que parece que os
engoliu.
— Sim, sr. Finch? — Ele solta um suspiro que parece ter saído de um homem de cem anos e
lança um olhar apreensivo e desconfiado.
—  Sugiro  uma  excursão.  Precisamos  ver  os  lugares  maravilhosos  de  Indiana  enquanto
podemos, porque pelo menos alguns dos que estão nesta sala vão se formar e ir embora deste
grandioso  estado  no  fim  do  ano,  e  como  poderemos  divulgá-lo  se  só  tivermos  a  formação
básica  oferecida  por  um  dos  piores  sistemas  educacionais  do  país?  Além  do  mais,  é  difícil
compreender  a  grandeza  de  um  lugar  sem  vê-lo.  É  como  o  Grand  Canyon  ou  o  Parque
Yosemite: é preciso estar lá para apreciar de verdade seu esplendor.
—  Obrigado,  sr.  Finch  —  diz  o  sr.  Black  em  um  tom  que  indica  exatamente  o  oposto  de
agradecimento, apesar de eu estar sendo apenas vinte por cento sarcástico. Começo a desenhar
montanhas no caderno em homenagem ao ponto mais alto do estado, mas elas parecem bolotas
disformes ou cobras voadoras, sei lá.
—  Theodore  tem  razão…  Alguns  de  vocês…  vão  embora  daqui…  no  fim  do  ano…  para
estudar.  Deixarão  nosso…  grande  estado  e…  antes  de  ir  embora…  vocês  deveriam…
conhecê-lo. Deveriam… andar por aí…
Um barulho vindo do outro lado da sala o distrai. Alguém chegou atrasado e derrubou um
livro  e,  na  hora  de  apanhá-lo,  derrubou  todos  os  outros.  O  que  segue  são  risadas,  porque
estamos  no  ensino  médio,  o  que  significa  que  somos  previsíveis  e  quase  qualquer  coisa  é
engraçada,  principalmente  se  causar  a  humilhação  pública  de  alguém.  Quem  derrubou  o
material foi Violet Markey, a garota da torre do sino. Ela fica roxa de vergonha e parece que
quer morrer. Não uma morte do tipo pulando de uma torre, mas sim do tipo Por favor, Terra,
abra um buraco e me engula.
Conheço  essa  sensação  melhor  do  que  conheço  minha  mãe  ou  minhas  irmãs  ou  Charlie
Donahue.  Andamos  juntos  a  vida  inteira.  Como  a  vez  em  que  bati  a  cabeça  e  tive  uma
concussão na frente da Suze Haines na aula de educação física; ou a vez em que ri tanto que
uma coisa saiu voando do meu nariz e aterrissou em Gabe Romero; ou o oitavo ano inteiro.
Então, como estou acostumado com isso e essa tal de Violet vai chorar se derrubar mais um
lápis  que  seja,  jogo  um  livro  no  chão.  Todos  os  olhos  se  voltam  pra  mim.  Me  inclino  para
recolher e jogo todos os outros de propósito — eles batem na parede, na janela, na cabeça dos
outros — e, só pra garantir, inclino a cadeira e me jogo no chão. A cena é acompanhada de
risadinhas e aplausos e alguns gritos de “aberração”, e o sr. Black diz, ofegante:
— Se já terminou… Theodore… eu gostaria de continuar.
Levanto, arrumo a cadeira, faço uma reverência, junto os livros, faço outra reverência, sento
e sorrio para Violet, que me olha de um jeito que só pode ser descrito como surpresa e alívio
e  alguma  outra  coisa  —  preocupação,  talvez.  Eu  gostaria  de  acreditar  que  tem  um  pouco  de
desejo ali também, mas seria só ilusão. Abro o melhor sorriso que posso, aquele que faz com

que minha mãe me perdoe por chegar muito tarde ou por ser estranho. (Às vezes, pego minha
mãe me olhando — quando me olha — como se pensasse: De onde é que você surgiu? Com
certeza puxou isso do seu pai.)
Violet sorri de volta. Imediatamente me sinto melhor, porque ela se sente melhor e por causa
do jeito que olha pra mim, como se não precisasse me evitar. Essa é a segunda vez, em um dia,
que a salvo. Todo generoso, esse Theodore, minha mãe sempre diz. Generoso demais para o
seu próprio bem. Ela diz isso em tom de crítica e é assim que eu encaro.
O sr. Black fixa os olhos em Violet e depois em mim.
— Como eu ia dizendo… o projeto para esta… aula é escrever sobre… pelo menos duas,
preferencialmente três… maravilhas de Indiana.
Quero  perguntar  “E  a  excursão?”,  mas  estou  muito  ocupado  olhando  para  Violet  enquanto
ela se concentra na lousa, com o canto da boca ainda denunciando um sorriso.
O  sr.  Black  continua  falando  sobre  como  quer  que  a  gente  fique  à  vontade  para  escolher
lugares  que  agucem  a  imaginação,  mesmo  que  sejam  obscuros  ou  distantes.  Nossa  missão  é
visitar  cada  um,  tirar  fotos,  filmar,  pesquisar  sua  história  a  fundo  e  contar  exatamente  o  que
nesses  lugares  nos  deixou  orgulhosos  por  ser  de  Indiana.  Se  for  possível  relacioná-los  de
algum  jeito,  melhor.  Temos  o  resto  do  semestre  pra  terminar  o  projeto  e  precisamos  levar  a
sério.
— Vocês vão trabalhar… em duplas. O trabalho vale… trinta e cinco por cento… da nota
final…
Levanto a mão de novo.
— Podemos escolher as duplas?
— Sim.
— Escolho Violet Markey.
— Você pode combinar… com ela depois da aula.
Me viro para ela, cotovelo apoiado nas costas da cadeira.
— Violet Markey, queria ser sua dupla.
Seu rosto fica vermelho quando todos olham pra ela.
—  Sr.  Black,  eu  pensei  em  talvez  fazer  outra  coisa,  quem  sabe  pesquisar  e  escrever  uma
breve dissertação — ela fala baixo, mas parece um pouco irritada —, pois não estou pronta
pra…
Ele a interrompe:
— Srta. Markey, vou lhe fazer… o maior favor… possível e… vou dizer… não.
— Não?
— Não. Começamos um novo ano… é hora de retomar as rédeas… do seu burrico…
Algumas pessoas riem. Violet olha pra mim e percebo que, sim, ela está irritada, e é aí que
me lembro do acidente. Violet e a irmã, na última primavera. Violet sobreviveu, mas a irmã
morreu. É por isso que ela está assim.
O  sr.  Black  passa  o  restante  da  aula  falando  sobre  lugares  de  que  podemos  gostar  e  que,
independente  de  qualquer  coisa,  precisamos  visitar  antes  da  formatura  —  pontos  turísticos,
como  o  Parque  Histórico  Conner  Prairie,  a  casa  de  Levi  Coffin,  o  Museu  Lincoln  e  a  casa
onde  James  Whitcomb  Riley  passou  a  infância  —,  mas  sei  que  a  maioria  de  nós  ficará  aqui

nesta cidade até morrer.
Tento chamar a atenção de Violet de novo, mas ela não levanta mais o rosto. Em vez disso,
se encolhe na cadeira e olha fixo pra frente.
 
 
Fora  da  sala,  Gabe  Romero  bloqueia  minha  passagem.  Como  sempre,  não  está  sozinho.
Amanda Monk espera logo atrás, jogando o quadril pro lado, entre Joe Wyatt e Ryan Cross.
Ryan é tranquilo, decente, do bem, atleta, aluno exemplar, representante da turma. Seu maior
defeito é que, desde o jardim de infância, ele sabe exatamente quem é.
— É bom eu não pegar você olhando pra mim de novo — diz Roamer.
— Eu não estava olhando pra você. Pode acreditar que tem uma centena de coisas naquela
sala que chamariam minha atenção antes de você, incluindo o bundão do sr. Black.
— Bicha.
Como Roamer e eu somos inimigos declarados desde o fundamental, ele derruba os livros
que  estou  segurando  e,  apesar  de  isso  ser  bullying  digno  do  sexto  ano,  sinto  uma  chama  de
raiva familiar — como uma velha amiga — se acender em meu estômago, a fumaça espessa e
tóxica subindo e se espalhando pelo meu peito. A mesma sensação que tive no ano passado um
instante antes de pegar uma mesa e arremessá-la — não no Roamer, como ele quer que todos
acreditem, mas na lousa da sala do sr. Geary.
—  Cata  aí,  bichinha  —  Roamer  passa  por  mim  e,  com  o  ombro,  bate  forte  no  meu  peito.
Quero bater a cabeça dele em um armário e enfiar a mão em sua garganta e puxar seu coração
pela boca, porque estar desperto faz com que tudo na gente esteja vivo e pulsante e compense
pelo tempo perdido.
Em  vez  disso,  conto  até  sessenta,  com  um  sorriso  idiota  estampado  na  minha  cara  idiota.
Não  vou  tomar  advertência.  Não  vou  ser  expulso.  Vou  ficar  na  boa.  Vou  ficar  calmo.  Vou

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