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Era uma vez um garoto que vivia num closet… Mas paro por aí.
Não  sou  claustrofóbica,  mas  quando  abro  a  porta  e  saio  pro  quarto,  sinto  o  alívio  de
respirar de novo.
Na hora do jantar, minha mãe pergunta:
—  Você  se  divertiu?  —  Levanta  a  sobrancelha  pro  meu  pai.  —  Violet  foi  até  a  casa  da
Shelby depois da aula. Dirigindo.
Meu pai brinda comigo.
— Estou orgulhoso de você, V. Talvez esteja na hora de conversarmos sobre ter seu próprio
carro.
Eles  estão  tão  animados  que  me  sinto  ainda  mais  culpada  por  ter  mentido.  Me  pergunto  o
que  fariam  se  eu  contasse  onde  realmente  estava  —  transando  com  o  garoto  que  eles  não
querem que eu veja, no closet onde ele está morando.

DIA 75
“A cadência do sofrimento começou.” — Cesare Pavese
Eu
estou
em
pedaços.

20 DE MARÇO
Depois da aula de geografia, Amanda diz pro Roamer ir na frente que ela já o alcança. Não
troquei uma palavra com ele desde que Finch foi expulso.
— Preciso contar uma coisa — ela diz pra mim.
— O quê? — A gente não tem conversado muito também.
— Você não pode contar pra ninguém.
— Amanda, vou me atrasar pra aula.
— Jura que não vai contar.
— Tá bom. Eu juro.
Ela fala tão baixo que quase não consigo ouvir.
—  Vi  Finch  num  grupo  que  frequento.  Estou  frequentando  há  um  tempo,  apesar  de  não
precisar de verdade, mas minha mãe está, tipo, me obrigando. — Ela suspira.
— Que grupo?
—  Chama  Vida  É  Vida.  É  um…  um  grupo  de  apoio  a  adolescentes  que  já  pensaram  em
suicídio ou já tentaram…
— E você viu Finch lá? Quando?
— No domingo. Ele disse que estava lá porque tomou um monte de remédio e teve que ir
pro hospital. Achei que você devia saber.
Fico  até  a  última  aula,  só  porque  tenho  prova.  Depois  pego  Leroy  e  vou  direto  pra  casa
dele.  Finch  não  sabe  que  estou  indo  e  quando  chego  lá  ninguém  atende  a  porta.  Acho  uns
cascalhos na entrada da garagem e jogo na janela dele, e a cada toc toc meu coração dispara.
Então  sento  na  entrada,  esperando  que  a  mãe  ou  as  irmãs  apareçam  e  me  deixem  entrar.
Continuo  sentada  lá  depois  de  vinte  minutos,  a  casa  fechada  e  silenciosa  como  quando
cheguei, e finalmente vou pra casa.
No quarto, nem tiro o casaco e o lenço. Abro o laptop e mando uma mensagem no Facebook.
Ele responde na hora, como se estivesse esperando. 
Então, amanhã é meu aniversário…
Quero perguntar onde ele estava e se estava lá esse tempo todo e se sabia que eu estava na
frente da casa. Quero perguntar sobre o hospital, mas minha preocupação é que ele não fale
mais nada e desapareça se eu perguntar alguma coisa. Então, em vez disso, escrevo: 
Como vamos
comemorar?
Finch: 
É surpresa.
Eu: 
Mas é seu aniversário, não meu.
Finch: 
Não importa. Venha pra cá às seis. Traga sua fome.

21 DE MARÇO E ALÉM
Bato na porta do quarto dele, mas ninguém abre. Bato de novo.
— Finch?
Bato de novo e de novo e finalmente ouço uma movimentação, um barulho de alguma coisa
caindo,  um  droga!,  e  a  porta  se  abre.  Finch  está  de  terno.  Cortou  o  cabelo  bem  curtinho,  e
somando à barba ele parece diferente, mais velho e, sim, bem gostoso.
Dá um sorrisinho e diz:
— Ultravioleta. A única pessoa que quero ver.
Ele abre espaço pra eu entrar.
O quarto ainda parece de hospital, e sinto uma angústia porque ele esteve no hospital e não
me contou, e tem alguma coisa em todo aquele azul que faz com que eu me sinta sufocada.
— Preciso falar com você.
Finch  me  dá  um  beijo  de  oi  e  seus  olhos  estão  mais  brilhantes  do  que  na  noite  passada,
talvez porque não está de óculos. Toda vez que ele muda tenho que me acostumar. Me beija de
novo e se apoia de um jeito sexy contra a porta, como se soubesse como está bonito.
— Primeiro as coisas mais importantes. Preciso saber o que você acha de viajar no tempo e
de comida chinesa.
— Nessa ordem?
— Não necessariamente.
— Acho que um é interessante, e o outro, delicioso.
— Tá bom. Tira o sapato.
Tiro o sapato, o que faz com que eu fique quatro ou cinco centímetros mais baixa.
— Tira a roupa, tampinha.
Dou um tapa nele.
— Tá, deixa pra depois, mas não pense que vou esquecer. Certo. Agora feche os olhos.
Fecho. Imagino qual seria a melhor maneira de falar sobre o Vida É Vida. Mas ele parece
ele mesmo de novo, mesmo com a aparência diferente, e penso que, quando abrir os olhos, as
paredes do quarto estarão pintadas de vermelho e os móveis estarão de volta e a cama estará
arrumada, porque é ali que ele dorme.
Ouço a porta do closet abrir e ele me conduz alguns passos à frente.
— Fique de olhos fechados.
Por  instinto,  estendo  as  mãos  à  frente,  e  Finch  as  abaixa.  Está  tocando  Slow  Club,  uma
banda que eu gosto, ousada e agridoce e meio excêntrica. Como Finch, penso. Como nós.
Ele  me  ajuda  a  sentar  sobre  alguma  coisa  que  parece  uma  pilha  de  travesseiros.  Ouço  e
sinto ele se mexendo à minha volta quando a porta se fecha, e então seus joelhos estão contra
os meus. Tenho dez anos de novo, de volta aos meus dias de construir esconderijos secretos.
— Pode abrir.

Abro.
Estou no espaço, tudo brilhando como a Cidade das Esmeraldas. As paredes e o teto estão
pintados  com  planetas  e  estrelas.  Nossos  post-its  ainda  estão  colados.  O  edredom  azul  está
perto  dos  nossos  pés,  e  o  chão  inteiro  brilha.  Pratos  e  talheres  e  guardanapos  estão
empilhados perto de caixas de comida. Uma garrafa de vodca está no gelo.
— Como você…?
Finch aponta para a luz negra no teto.
—  Se  prestar  atenção  —  ele  diz  e  levanta  uma  mão  pro  céu  —,  Júpiter  e  Plutão  estão
perfeitamente alinhados em relação à Terra. Aqui é a câmara gravitacional de Júpiter-Plutão.
Onde tudo flutua.
A única coisa que sai da minha boca é:
— Meu Deus.
Eu estava tão preocupada com ele, com esse garoto que tanto amo, mais preocupada do que
jamais estive, até este exato momento, quando olho para o sistema solar. É a coisa mais linda
que alguém já fez pra mim. Coisa de cinema. Parece, de certa forma, épico e frágil ao mesmo
tempo, e quero que a noite dure pra sempre, e saber que não vai durar já me deixa triste.
A comida é do Happy Family. Não pergunto como ele conseguiu, se foi até lá dirigindo ou
se  pediu  pra  Kate  buscar,  mas  prefiro  acreditar  que  ele  foi  até  lá  porque  não  precisa  ficar
dentro do closet se não quiser.
Ele  abre  a  vodca  e  revezamos  dando  goles.  O  gosto  é  seco  e  amargo,  como  folhas  de
outono. Gosto do jeito como queima meu nariz e minha garganta.
— Onde conseguiu isso? — Mostro a garrafa.
— Tenho meus contatos.
—  É  perfeito.  Não  só  isso…  tudo.  Mas  é  seu  aniversário,  não  meu.  Eu  é  que  devia  ter
preparado algo assim pra você.
Ele me beija.
Eu o beijo.
As coisas que não dizemos pairam no ar, e me pergunto se ele também sente isso. Ele está
tão  agradável  e  tão  Finch  que  digo  a  mim  mesma  que  devo  deixar  pra  lá,  não  pensar  mais
nisso. Talvez Amanda esteja errada. Talvez só tenha me contado sobre o grupo pra me chatear.
Talvez ela tenha inventado a história toda.
Ele serve nossos pratos e enquanto comemos conversamos sobre tudo, menos como ele se
sente. Conto o que ele perdeu na aula de geografia e falo sobre os lugares que ainda temos que
conhecer.  Entrego  o  presente  de  aniversário,  a  primeira  edição  de  As  ondas  que  encontrei
numa  livrariazinha  de  Nova  York.  Na  dedicatória,  escrevi: 
Você  também  faz  eu  me  sentir  dourada,
fluindo. Amo você. Ultravioleta Markante.
Ele diz:
—  Era  este  o  livro  que  eu  estava  procurando  na  Bookmarks,  nas  bibliotecas  móveis.
Sempre que ia a uma livraria.
Ele me beija.
Eu o beijo.
Sinto as preocupações irem embora. Estou relaxada e feliz — mais feliz do que me sentia há
algum tempo. Estou no agora. Estou aqui.

Quando terminamos de comer, Finch tira o paletó e deitamos lado a lado no chão. Enquanto
ele examina o livro e lê partes em voz alta pra mim, olho pro céu. De repente, ele coloca o
livro sobre o peito e diz:
— Você lembra do Sir Patrick Moore?
— O astrônomo britânico do programa de 
TV
? — Ergo os braços em direção ao teto. — O
homem a quem devemos agradecer pelo efeito gravitacional de Júpiter-Plutão.
—  Tecnicamente,  devemos  agradecer  a  nós  mesmos,  mas,  sim,  esse  cara.  Em  um  dos
programas ele explica a existência de um buraco negro gigante no centro da nossa galáxia. É
algo muito importante. Ele foi a primeira pessoa a explicar a existência de um buraco negro de
um jeito que uma pessoa leiga no assunto entendesse. Quer dizer, ele explica de um jeito que
até Roamer entenderia.
Ele sorri pra mim. Sorrio pra ele. Ele diz:
— Merda, onde eu estava?
— Sir Patrick Moore.
— Isso. Sir Patrick Moore ordena que um mapa da Via Láctea seja desenhado no chão do
estúdio.  Com  as  câmeras  rodando,  ele  anda  até  o  centro  descrevendo  a  teoria  geral  da
relatividade  de  Einstein  e  acrescenta  algumas  informações:  buracos  negros  são  restos  de
antigas estrelas; são tão densos que nem mesmo a luz consegue escapar; se escondem dentro
de todas as galáxias; são a força mais destrutiva do cosmos; enquanto um buraco negro passa
pelo  espaço,  engole  tudo  que  chega  muito  perto:  estrelas,  cometas,  planetas.  Tudo  mesmo.
Quando  planetas,  luz,  estrelas,  o  que  for,  passam  do  ponto  sem  volta,  é  o  que  chamamos  de
horizonte de eventos, o ponto após o qual a fuga é impossível.
— Parece mais ou menos com um buraco azul.
—  É,  acho  que  sim.  Então,  enquanto  explica  tudo  isso,  Sir  Patrick  Moore  faz  a  maior
façanha de todos os tempos: caminha até o coração do buraco negro e desaparece.
— Efeitos especiais.
—  Não.  É  tipo  superestranho.  O  cinegrafista  e  outras  pessoas  da  produção  dizem  que  ele
simplesmente desapareceu.
Ele pega minha mão.
— Como?
— Mágica.
Ele sorri pra mim.
Sorrio de volta.
Ele diz:
—  Ser  sugado  pra  dentro  de  um  buraco  negro  seria  o  jeito  mais  legal  de  morrer.  Não  há
ninguém  que  tenha  experienciado  isso,  e  os  cientistas  não  conseguem  decidir  se,  depois  de
atingir o horizonte de eventos, a pessoa passaria semanas flutuando antes de ser despedaçada
ou se viraria uma espécie de turbilhão de partículas e acabaria queimada viva. Fico pensando
como  seria  se  fôssemos  engolidos.  De  repente,  nada  mais  importaria.  Nunca  mais  nos
preocuparíamos  com  coisas  tipo  aonde  ir  ou  o  que  vai  acontecer  ou  se  vamos  decepcionar
alguém de novo. Tudo isso… simplesmente… desapareceria.
— E não haveria nada.

— Talvez. Ou talvez haveria um outro mundo, que não podemos nem imaginar.
Sinto  a  maneira  como  sua  mão,  quente  e  firme,  envolve  a  minha.  Ele  pode  mudar  sempre,
mas isso nunca muda.
Digo:
— Você é o melhor amigo que já tive, Theodore Finch.
E é mesmo, mais até que Eleanor.
De  repente  começo  a  chorar.  Me  sinto  uma  idiota  porque  odeio  chorar,  mas  não  consigo
evitar. Toda a preocupação vem à tona e simplesmente deságua no chão do closet.
Finch se aproxima e meio que me põe no colo.
— Ei, o que foi?
— Amanda me contou.
— Contou o quê?
— Sobre o hospital e os remédios. Sobre o Vida É Vida.
Ele não me solta, mas seu corpo fica tenso.
— Ela contou?
— Estou preocupada, quero que você fique bem, mas não sei o que fazer pra ajudar.
— Você não precisa fazer nada. — E aí ele me solta. Se afasta e senta, olhando pra parede.
—  Mas  tenho  que  fazer  alguma  coisa,  porque  você  pode  precisar  de  ajuda.  Não  conheço
ninguém que entra no closet e fica morando lá. Você precisa conversar com seu orientador ou
talvez com Kate. Você pode conversar com meus pais, se quiser.
— É… isso não vai acontecer. — Na luz negra, seus dentes e seus olhos brilham.
— Estou tentando ajudar você.
— Não preciso de ajuda. E não sou Eleanor. Só porque você não pôde salvá-la, não tente
me salvar.
Começo a ficar brava.
— Isso não é justo.
— Só estou dizendo que estou bem.
— Está mesmo? — Olho em volta.
Ele me encara com um sorriso duro e terrível.
—  Sabia  que  eu  daria  tudo  pra  ser  você  por  um  dia?  Eu  só  ia  viver  e  viver  e  nunca  me
preocupar e ficaria grato pelo que tenho.
—  Você  acha  que  não  tenho  nada  com  que  me  preocupar?  —  Ele  só  olha  pra  mim.  —
Porque  com  o  que  Violet  poderia  se  preocupar?  Afinal  de  contas,  foi  Eleanor  quem  morreu.
Violet ainda está aqui. Ela foi poupada. Tem sorte porque tem toda a vida pela frente. Muita
muita sorte.
— Escuta, eu sou a aberração. Eu sou o aloprado. Eu sou o problemático. Eu me meto em
brigas. Eu decepciono as pessoas. O que quer que faça, não deixe Finch bravo. Ah, lá vai ele
de  novo,  em  uma  daquelas  fases.  Finch  mal-humorado.  Finch  irritado.  Finch  imprevisível.
Finch louco. Mas não sou um conjunto de sintomas. Não sou uma vítima de pais horríveis e de
uma composição química mais horrível ainda. Não sou um problema. Não sou um diagnóstico.
Não sou uma doença. Não sou uma coisa que precisa ser salva. Sou uma pessoa. — Ele dá o
sorriso terrível de novo. — Aposto que agora você se arrepende de ter escolhido justo aquela

torre justo aquele dia.
— Não faça isso. Não fale assim.
Então o sorriso desaparece.
— Não consigo evitar. É o que sou. Eu avisei que aconteceria. — Sua voz começa a ficar
fria  e  não  mais  com  raiva,  o  que  é  pior  porque  é  como  se  ele  tivesse  parado  de  sentir.  —
Sabe,  agora  estou  achando  o  closet  meio  apertado,  como  se  talvez  não  fosse  tão  espaçoso
quanto eu pensava…
Levanto.
— Não seja por isso.
Saio e bato a porta, sabendo muito bem que ele não pode me seguir, embora diga pra mim
mesma: Se ele me ama de verdade, vai dar um jeito.
 
 
Em casa, meus pais estão na sala assistindo 
TV
.
— Chegou cedo — minha mãe diz. Ela levanta do sofá pra dar espaço pra mim.
— Tem uma coisa que vocês precisam saber. — Ela senta de novo, exatamente no mesmo
lugar,  e  meu  pai  desliga  a 
TV
.  Me  sinto  mal  imediatamente  porque  antes  de  eu  entrar  eles
estavam  tendo  uma  noite  feliz  e  tranquila  e  agora  estão  preocupados  porque  percebem  pelo
meu tom de voz que o que tenho pra falar não é nada bom.
— No primeiro dia de aula depois do Natal, subi no parapeito da torre do sino. Foi lá que
conheci  Finch.  Ele  estava  lá  em  cima  também,  mas  foi  ele  quem  me  convenceu  a  descer,
porque quando eu percebi onde estava, fiquei assustada e não conseguia me mexer. Eu poderia
ter  caído  se  ele  não  estivesse  lá  pra  me  ajudar.  Não  caí  graças  a  ele.  Bom,  agora  ele  está
naquele parapeito. Não literalmente — digo ao meu pai, antes que ele corra até o telefone. —
E precisamos ajudá-lo.
Minha mãe diz:
— Então vocês têm se encontrado?
— Sim. E eu sinto muito, sei que vocês estão bravos e decepcionados, mas eu amo Finch, e
ele me salvou. Podem me dizer mais tarde como estão chateados comigo e como decepcionei
vocês, mas agora preciso fazer o que for possível pra garantir que ele fique bem.
Conto tudo, depois minha mãe pega o telefone e liga pra mãe do Finch. Ela deixa um recado
e, quando desliga, diz:
— Seu pai e eu vamos pensar o que fazer. Tem um psiquiatra na universidade, amigo do seu
pai. Eles estão conversando agora. Sim, estamos decepcionados com você, mas fico feliz por
ter nos contado. Fez a coisa certa.
 
 
Fico  acordada  na  cama  por  pelo  menos  uma  hora,  chateada  demais  pra  pegar  no  sono.
Quando adormeço, me reviro na cama e meus sonhos são uma confusão triste e distorcida. De
repente acordo. Me viro e adormeço de novo, e nos sonhos escuto… o som distante e fraco de
pedras batendo na janela.
Não saio da cama, porque está frio e estou sonolenta e, de qualquer forma, o som não é real.

Agora não, Finch, digo no sonho. Vá embora.
Então acordo completamente e penso: E se ele estava mesmo aqui? E se ele realmente saiu
do closet e veio me ver? Mas quando olho pela janela, a rua está vazia.
 
 
Passo  o  dia  com  meus  pais,  checando  o  Facebook  obsessivamente  pra  ver  se  tem  uma
mensagem nova dele enquanto finjo estudar e trabalhar na Semente. Tive retorno de todas as
garotas  que  convidei  —  sim,  sim,  sim.  As  mensagens  estão  na  caixa  de  entrada,  ainda  sem
resposta.
Minha  mãe  pega  o  telefone  de  vez  em  quando  e  tenta  falar  com  a  sra.  Finch.  Quando  dá
meio-dia e ela ainda não entrou em contato, meu pai e minha mãe vão à casa dele. Ninguém
atende, e eles são obrigados a deixar um bilhete. O psiquiatra tem (um pouco) mais de sorte.
Ele  consegue  falar  com  Decca.  Ela  deixa  o  médico  na  linha  enquanto  vê  se  Finch  está  no
quarto  ou  no  closet,  mas  diz  que  ele  não  está.  Me  pergunto  se  ele  está  escondido  em  algum
lugar. Mando uma mensagem, dizendo que sinto muito. À meia-noite ele ainda não respondeu.
 
 
Segunda-feira, Ryan me encontra no corredor e me acompanha até a aula de literatura russa.
— Já teve resposta de todas as universidades? — pergunta.
— Só de algumas.
—  E  Finch?  Vocês  vão  pro  mesmo  lugar?  —  Ele  está  tentando  ser  legal,  mas  tem  algo
mais… talvez a esperança de que eu diga “não, a gente terminou”.
— Não sei o que ele vai fazer. Acho que nem ele sabe.
Ele concorda com a cabeça e troca os livros de mão e agora a mão livre é a que está do meu
lado. De vez em quando, sinto sua pele encostar na minha. A cada passo que damos, mais ou
menos cinco pessoas chamam o nome dele ou acenam com a cabeça. Os olhares desviam dele
pra mim, e me pergunto o que veem.
Eli Cross vai dar uma festa. Você podia vir comigo.
Me pergunto se ele lembra que era da festa do irmão dele que eu e Eleanor estávamos indo
embora quando sofremos o acidente. Então imagino por um instante como seria ficar com ele
de novo, se seria possível voltar para alguém como Ryan, bom e estável, depois de ficar com
Theodore Finch. Ninguém nunca vai chamar Ryan Cross de aberração nem dizer coisas ruins
sobre ele pelas costas. Ele usa as roupas certas e diz as coisas certas e vai pra universidade
certa depois que tudo isso acabar.
 
 
Quando  chego  pra  aula  de  geografia,  Finch  não  está  lá,  claro,  porque  foi  expulso,  e  não
consigo me concentrar em nada do que o sr. Black diz. Charlie e Brenda não falam com Finch
há uns dois dias, mas não parecem ligar, porque é assim que ele é, é isso que ele faz, é assim
que ele sempre foi.
O  sr.  Black  começa  a  nos  chamar,  um  a  um,  passando  pelas  fileiras,  perguntando  sobre  o
progresso dos nossos projetos. Quando chega em mim, digo:

— Finch não está aqui.
—  Sei  muito  bem…  que  ele  não  está  aqui…  e  não  vai…  voltar  pra  escola…  Como  você
está… se saindo com… o trabalho, srta. Markey?
Penso em todas as coisas que poderia mencionar: Finch está morando no closet. Acho que
tem  alguma  coisa  muito  errada  com  ele.  Não  temos  conseguido  andar  por  aí  ultimamente  e
ainda tem quatro ou cinco lugares no mapa que não visitamos.
— Estamos aprendendo sobre nosso estado. Não tinha visto muita coisa de Indiana antes de
começar. Mas agora conheço muito bem a região.
O  sr.  Black  parece  feliz  com  isso,  então  segue  pra  próxima  pessoa.  Embaixo  da  mesa,
escrevo uma mensagem pro Finch: 
Por favor, me diga se você está bem.
 
 
É  terça-feira  e  ainda  não  tive  resposta,  então  vou  à  casa  dele.  Desta  vez,  uma  garotinha
atende a porta. Ela é baixinha, tem cabelo escuro, chanel, e os mesmo olhos azuis de Finch e
Kate.
— Você deve ser a Decca — digo, parecendo o tipo de adulto que odeio.
— Quem é você?
— Violet. Sou amiga do seu irmão. Ele está? — Ela abre mais a porta e me dá passagem.
No andar de cima, passo pela parede cheia de fotografias de Finch e bato, mas não espero
resposta. Abro a porta e entro com pressa e sinto na hora: não tem ninguém. O quarto não só
está vazio — tem um silêncio estranho no ar, como se fosse uma casca vazia deixada pra trás
por um animal.
— Finch? — Meu coração começa a acelerar. Bato na porta do closet, então entro, e ele não
está. O edredom também não está, nem a guitarra ou o amplificador, os cadernos e as pilhas de
papel,  as  pilhas  de  post-its  em  branco,  a  jarra  de  água,  o  laptop,  o  livro  que  dei  pra  ele,  a
placa  de  carro  ou  minha  foto.  As  palavras  que  ele  escreveu  nas  paredes  e  os  planetas  e  as
estrelas que criou estão lá, mas mortos e inertes e não brilham mais.
Não posso fazer mais nada a não ser olhar ao redor de novo e de novo, procurando alguma
coisa,  qualquer  coisa  que  ele  possa  ter  deixado  como  pista  pra  que  eu  descubra  aonde  foi.
Pego meu celular e ligo pra ele, mas cai direto na caixa postal.
—  Finch,  sou  eu.  Estou  no  closet,  mas  você  não  está  aqui.  Por  favor,  me  liga.  Estou
preocupada.  Sinto  muito.  Eu  amo  você.  E  não  sinto  muito  por  te  amar  porque  nunca  me
arrependeria disso.
No quarto, começo a abrir as gavetas. No banheiro, abro os armários. Ele deixou algumas
coisas, mas não sei se significa que vai voltar ou se são só coisas que ele não queria mais.
No  corredor,  passo  de  novo  pelas  fotos  dele  na  escola,  os  olhos  me  seguindo  enquanto
desço a escada tão rápido que quase caio. Meu coração bate tão forte que não consigo ouvir
nada  além  das  batidas  que  enchem  meus  ouvidos.  Na  sala,  encontro  Decca  assistindo 
TV
  e
pergunto:
— Sua mãe está em casa?
— Ainda não chegou.
— Você sabe se ela ouviu a mensagem da minha mãe?

— Ela não ouve muito as mensagens. Kate provavelmente ouviu.
— Kate está em casa?
— Ainda não. Você encontrou o Theo?
— Não. Ele não está lá.
— Ele faz isso às vezes.
— Some?
— Ele vai voltar. Ele sempre volta. — 
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