Dados de copyright



Baixar 1.69 Mb.
Pdf preview
Página15/21
Encontro18.07.2020
Tamanho1.69 Mb.
1   ...   11   12   13   14   15   16   17   18   ...   21
Ela se foi, se foi, se foi.
No Facebook, escrevo: 
Você está aí?
Violet: 
Estou.
Eu: 
Fui te ver.
Violet: 
Eu sei. Eles estão tão bravos comigo.
Eu: 
Não falei que sempre estrago tudo?
Violet: 
Você não fez isso sozinho — fizemos juntos. É culpa minha. Eu não estava pensando direito.
Eu: 
Estou  deitado,  desejando  que  pudesse  voltar  no  tempo  até  a  manhã  de  ontem.  Quero  que  os  planetas  se  alinhem  de
novo.
Violet: 
Vamos dar um tempo pra eles.
Escrevo: 
Tempo é a única coisa que não tenho
, mas então apago.

COMO SOBREVIVER À AREIA MOVEDIÇA
Na  mesma  noite,  me  mudo  pro  closet  do  meu  quarto,  que  é  quentinho  e  aconchegante,  como
uma caverna. Empurro os cabides pra um canto e estico no chão o edredom da cama. Coloco a
jarra de água medicinal de Mudlavia no chão e uma foto de Violet na parede — ela na Flash
Azul —, junto com a placa que peguei no local do acidente. Então apago a luz. Apoio o laptop
nos joelhos e ponho um cigarro apagado na boca, porque o ar já está escasso aqui.
É  o  Acampamento  Finch  de  Sobrevivência.  Já  estive  aqui  e  conheço  os  passos  como  a
palma da minha enorme mão. Ficarei aqui o tempo que for preciso, o quanto for necessário.
Os  Caçadores  de  Mitos  afirmam  que  não  é  possível  se  afogar  em  areia  movediça,  mas
diga  isso  à  jovem  que  viajou  até  Antígua  pro  casamento  do  pai  (segunda  esposa)  e  foi
sugada  pela  praia  enquanto  assistia  ao  pôr  do  sol.  Ou  aos  adolescentes  que  foram
engolidos por um poço de areia movediça construído na propriedade de um empresário de
Illinois.
Aparentemente, pra sobreviver à areia movediça, é preciso ficar completamente imóvel. Ao
entrar em pânico, você é puxado pra baixo e afunda. Então, talvez se eu ficar parado e seguir
os Oito Passos para Sobreviver à Areia Movediça, vou superar tudo.
1.  Evite a areia movediça. Tá. Tarde demais. Próximo.
2.   Leve  uma  vara  grande  quando  estiver  se  aproximando  de  um  território  de  areia
movediça. A teoria aqui é a de que você pode usar a vara pra testar o chão à frente e até
se erguer caso afunde. O problema é que nem sempre sabemos quando estamos entrando
em  território  de  areia  movediça  até  que  seja  tarde  demais.  Mas  gosto  da  ideia  de  estar
preparado. Imagino que já saí deste passo e passei para:
3.   Largue  tudo  caso  se  encontre  em  areia  movediça.  Se  tiver  algo  pesado  com  você,  é
possível  que  seja  puxado  mais  rápido  pro  fundo.  Arranque  os  sapatos  e  se  livre  de
qualquer outra coisa que esteja carregando. É sempre melhor fazer isso quando sabe de
antemão que vai encontrar areia movediça (veja o número 2), então, em suma, caso esteja
indo  para  algum  lugar  onde  exista  essa  possibilidade,  vá  despido.  Minha  mudança  pro
closet faz parte de “largar tudo”.
4.  Relaxe. Isso remete à máxima fique-completamente-imóvel-pra-não-afundar. Curiosidade
adicional: se você relaxar, seu corpo vai boiar naturalmente. Em outras palavras, é hora
de ficar calmo e deixar o efeito gravitacional de Júpiter-Plutão assumir.
5.  Respire fundo. Isso anda lado a lado com o número 4. O truque, aparentemente, é manter
o máximo de ar possível nos pulmões — quanto mais você respirar, mais vai boiar.
6.  Fique de costas. Se começar a afundar, simplesmente caia pra trás e se espalhe o máximo
que  puder  enquanto  deixa  as  pernas  livres.  Assim  que  se  desprender,  poderá  seguir
devagar até a terra firme e a segurança.
7.   Não  se  apresse.  Movimentos  rápidos  só  vão  prejudicar,  então  se  mexa  devagar  e  com

cuidado até ficar livre de novo.
8.  Faça pausas. Sair da areia movediça pode ser um processo demorado, então certifique-
se  de  fazer  pausas  quando  sentir  o  fôlego  chegando  ao  fim  ou  o  corpo  cansando.  Fique
com a cabeça erguida pra ganhar tempo.

A SEMANA SEGUINTE
Volto pras aulas imaginando que todos já sabem. Ando pelos corredores e paro em frente ao
meu armário e sento na sala e espero que professores e colegas me olhem como quem sabe ou
digam “Acho que alguém não é mais virgem”. Na verdade, chega a ser decepcionante quando
isso não acontece.
A  única  que  percebe  é  Brenda.  Sentamos  na  cantina  beliscando  os  burritos  que  algum
cozinheiro de Indiana tentou preparar, e ela pergunta o que fiz no final de semana. Minha boca
está cheia de burrito, e tento decidir se engulo ou cuspo, então não respondo na hora. Ela diz:
— Ai, meu Deus, você transou com ele.
Lara e as três Brianas param de comer. Quinze ou vinte cabeças se viram na nossa direção
porque Brenda sempre fala muito alto.
—  Você  sabe  que  ele  nunca  vai  contar  nada  pra  ninguém,  né?!  Quer  dizer,  ele  é  um
cavalheiro. Caso esteja se perguntando. — Ela abre o refrigerante e manda metade da latinha
pra dentro.
Tudo bem, eu estava me perguntando um pouco. Afinal, foi a minha primeira vez, mas não a
dele. Confio em Finch, mas a gente nunca sabe — os caras costumam falar — e apesar de o
Dia D não ter sido depravado, me sinto um pouco depravada, mas também meio adulta.
Quando estamos saindo da cantina, pra mudar de assunto, conto sobre a Semente e pergunto
se ela gostaria de participar.
Ela estreita os olhos, como se tentasse descobrir se estou brincando.
— Estou falando sério. Ainda tem muita coisa pra ser decidida, mas quero que a Semente
seja original.
Bren joga a cabeça pra trás e ri, quase diabólica.
— Tá bom — ela diz, recuperando o fôlego. — Eu topo.
Quando vejo Finch na aula de geografia, ele parece cansado, como se não tivesse dormido
nada. Sento ao lado dele, no lado oposto de Amanda, Roamer e Ryan, e depois da aula ele me
arrasta pra debaixo da escada e me beija como se estivesse com medo que eu desaparecesse.
Tem  algo  de  proibido  nisso  tudo  que  faz  as  correntes  elétricas  serem  ainda  mais  fortes,  e
quero  que  a  escola  acabe  pra  sempre  pra  gente  nunca  mais  ter  que  vir  pra  cá.  Digo  a  mim
mesma que a gente pode simplesmente sair com o Tranqueira para o oeste, o leste, o norte ou o
sul, até deixar Indiana lá pra trás. Vamos andar pelo país e pelo mundo, Theodore Finch e eu.
Mas por enquanto, pelo resto da semana, nos vemos só na escola, nos beijamos embaixo das
escadas ou em cantos escondidos. À tarde vamos cada um pra um lado. À noite conversamos
pela internet.
Finch: 
Alguma novidade?
Eu: 
Se está falando dos meus pais, não.
Finch: 
Quais são as chances de eles perdoarem e deixarem pra lá?

A verdade é que as chances não são muito grandes. Mas não quero dizer isso porque ele já
está  preocupado  o  suficiente,  e  desde  aquela  noite  tem  alguma  coisa  velada  nele,  como  se
estivesse atrás de uma cortina.
Eu: 
Eles só precisam de tempo.
Finch: 
Odeio me sentir em
 
Romeu e Julieta, mas quero ficar sozinho com você. Tipo, não cercado por todos os alunos do
Bartlett.
Eu: 
Se  você  viesse  aqui  e  eu  saísse  escondida  ou  botasse  você  pra  dentro,  aí  é  que  eles  iam  me  trancar  em  casa  pra
sempre mesmo.
Ficamos uma hora pensando em situações loucas pra nos encontrarmos, incluindo fingir uma
abdução alienígena, acionar o alarme de furacão da cidade e cavar um túnel subterrâneo que
iria da casa dele até a minha.
É uma hora da manhã quando digo que preciso dormir, mas acabo deitada na cama de olhos
abertos. Meu cérebro está desperto e agitado, como costumava ser antes da última primavera.
Acendo  a  luz  e  rabisco  ideias  pra  Semente  —  uma  seção  de  dúvidas  respondidas  por  pais,
playlists de livros, trilhas sonoras mensais, listas de lugares onde garotas como eu podem se
reunir. Uma das coisas que quero criar é uma seção de andanças, pra que os leitores mandem
fotos ou vídeos de seus lugares preferidos — grandiosos, pequenos, bizarros, poéticos, nada
comuns.
Mando  um  e-mail  pra  Brenda  e  uma  mensagem  pro  Finch,  pro  caso  de  ele  ainda  estar
acordado.  Então,  mesmo  que  esteja  me  precipitando  um  pouco,  escrevo  pra  Jordan
Gripenwaldt,  Shelby  Padgett,  Ashley  Dunston,  as  três  Brianas  e  a  repórter  Leticia  Lopez,
convidando-as  a  contribuir.  Mando  também  pra  Lara,  amiga  de  Brenda,  e  outras  garotas  que
sei  que  são  escritoras  ou  artistas  ou  têm  algo  original  a  dizer:  Prezada  Chameli,  Olivia,
RebekahEmilySa’iydaPriscillaAnnalise… Eleanor e eu éramos eleanoreviolet.com, mas,
na minha opinião, quanto mais vozes melhor.
Penso  em  chamar  Amanda.  Escrevo  uma  carta  pra  ela  e  deixo  na  pasta  de  rascunhos.  De
manhã, ao acordar, deleto.
 
 
No sábado, tomo café da manhã com meus pais e depois digo que vou de bicicleta até a casa
da  Amanda.  Eles  não  me  perguntam  por  que  quero  conversar  com  essa  garota  de  quem  mal
gosto  nem  o  que  estamos  pensando  em  fazer  nem  a  que  horas  vou  voltar.  Por  algum  motivo,
eles confiam em Amanda Monk.
Passo reto pela casa dela e continuo a atravessar a cidade em direção à casa de Finch, e é
tudo muito fácil, apesar de eu sentir uma pontada estranha no peito por ter mentido pros meus
pais. Quando chego lá, Finch me faz subir pela escada de incêndio e entrar pela janela pra não
encontrar a mãe nem as irmãs.
— Você acha que elas viram? — Bato a poeira da calça.
— Duvido. Elas nem estão em casa. — Ele ri quando belisco seu braço, e de repente suas
mãos estão no meu rosto e ele está me beijando, o que faz a pontada desaparecer.
Como  a  cama  está  cheia  de  roupas  e  livros,  ele  tira  um  edredom  do  closet  e  deitamos  no
chão,  enrolados  na  coberta.  Cobertos,  tiramos  a  roupa  e  nos  esquentamos,  e  depois
conversamos  como  crianças,  cobrindo  a  cabeça.  Ficamos  ali,  sussurrando,  como  se  alguém

pudesse ouvir, e pela primeira vez conto a ele sobre a Semente.
— Acho que pode realmente virar uma coisa bacana, e é por sua causa — digo. — Quando
conheci você, tinha parado com tudo isso e nem me importava.
— Primeiro: você acha que tudo é só pra preencher o tempo, mas as palavras que escreve
vão continuar aqui quando você morrer. Segundo: você tinha parado com muitas coisas, mas ia
voltar ao normal, me conhecendo ou não.
Por algum motivo, não gosto do que ele diz, como se pudesse existir um universo em que eu
não o conhecesse. Mas aí estamos embaixo da coberta de novo falando de todos os lugares do
mundo onde gostaríamos de fazer andanças, o que de alguma forma vira todos os lugares do
mundo onde gostaríamos de transar.
— A gente vai botar o pé na estrada — Finch diz, acariciando em círculos meu ombro, meu
braço, até meu quadril. — Vamos andar por todos os estados, e depois atravessar o oceano e
fazer andanças por lá também. Vai ser uma andançaratona.
— Andançamania.
— Andançarama.
Sem  pesquisar  no  computador,  listamos  os  lugares  aonde  poderíamos  ir.  E  então  tenho
aquela  sensação  de  novo,  como  se  ele  tivesse  se  escondido  atrás  de  uma  cortina.  E  aí  a
pontada volta e não consigo evitar pensar em tudo o que fiz pra estar aqui — sair escondida
de meus pais, mentir pra eles.
De repente, digo:
— É melhor eu voltar pra casa.
Ele me beija.
— Você podia ficar um pouco mais.
Então eu fico.

RECESSO DE PRIMAVERA
Meio-dia. Campus da 
NYU
. Nova York, 
NY
.
Minha mãe diz:
— Seu pai e eu estamos felizes em passar esse tempo com você, querida. É bom pra todos
nós dar uma escapada. — Ela parece se referir à nossa casa, mas acho que, mais que isso, ela
quer dizer escapar de Finch.
Trouxe nosso caderno de andanças pra fazer anotações sobre as construções e a história e
tudo de interessante que possa querer compartilhar com ele. Meus pais estão discutindo sobre
eu me inscrever pra entrar na primavera do ano que vem e me transferir da faculdade que eu
escolher pro outono.
Estou  mais  preocupada  com  o  fato  de  Finch  não  ter  respondido  às  minhas  três  últimas
mensagens. Me pergunto se é assim que vai ser ano que vem se eu vier pra Nova York ou for
pra qualquer outro lugar — eu tentando me concentrar na faculdade, na vida, sendo que tudo o
que faço é pensar nele. Me pergunto se ele virá comigo ou se nosso fim inevitável é o ensino
médio.
Minha mãe diz:
— Logo o momento vai chegar e não estou pronta. Acho que nunca estarei pronta.
—  Não  vai  chorar,  mãe.  Você  prometeu.  Ainda  tem  muito  tempo  até  isso  acontecer,  e  não
sabemos pra onde eu vou.
Meu pai diz:
— Vai ser só uma desculpa pra gente visitar você e passar um tempo na cidade. — Mas seus
olhos também se enchem de lágrimas.
Apesar  de  não  falarem  nada,  sinto  toda  a  expectativa  e  o  peso  nas  nossas  costas.  Porque
eles  não  tiveram  a  chance  de  fazer  isso  com  a  filha  mais  velha.  Nunca  puderam  levá-la  pra
universidade nem desejar um bom primeiro ano, se cuida, venha nos visitar, qualquer coisa é
só  ligar.  É  só  mais  um  momento  que  foi  roubado,  mais  um  que  tenho  que  compensar  porque
sou tudo o que restou.
Antes que a gente perca a linha bem ali, no meio do campus, digo:
— Pai, conta um pouco da história da 
NYU
?
 
 
Tenho  um  quarto  só  pra  mim  no  hotel.  É  estreito,  tem  duas  janelas,  uma  cômoda  e  uma
estante gigante que parece que vai cair e me esmagar enquanto durmo.
As  janelas  estão  bem  fechadas,  mas  mesmo  assim  ouço  os  barulhos  da  cidade,  bem
diferentes dos que ouço em Bartlett — sirenes, gritos, música, caminhões de lixo pra cima e
pra baixo.
—  Então,  você  tem  alguém  especial  na  sua  cidade?  —  a  agente  da  minha  mãe  pergunta

durante o jantar.
— Não — respondo, e meus pais trocam um olhar de alívio e convicção de que, sim, eles
fizeram a coisa certa ao me afastar de Finch.
A única luz no quarto vem do laptop. Folheio nosso caderno, cheio de anotações, e depois
vasculho nossas mensagens no Facebook — são tantas agora — e escrevo mais uma, citando
Virginia Woolf: “
[…] vamos rodopiar até as cadeiras douradas. […] Lua, não somos agradáveis? Não somos adoráveis
sentados aqui juntos…?
”.

DIA 64 DESPERTO
No último domingo do recesso de primavera neva de novo e por mais ou menos uma hora tudo
fica  branco.  Passamos  a  manhã  com  a  minha  mãe.  Ajudo  Decca  a  construir  no  jardim  um
homem metade de neve, metade de lama, depois caminhamos seis quadras pra andar de trenó
na  colina  que  fica  atrás  da  escola  onde  fiz  o  jardim  de  infância.  Apostamos  corrida  e  deixo
Decca ganhar todas as vezes porque isso a deixa feliz. No caminho pra casa, ela diz:
— Espero que não tenha me deixado ganhar.
— Jamais. — Coloco o braço em volta dos ombros dela e Decca não se afasta.
— Não quero ir pra casa do papai — diz.
—  Nem  eu.  Mas  você  sabe  que  no  fundo  isso  é  muito  importante  pra  ele,  mesmo  que  não
demonstre.  —  Minha  mãe  me  disse  isso  uma  vez.  Não  sei  se  acredito,  mas  talvez  Decca
acredite. Por mais durona que seja, ela precisa se apegar a alguma coisa.
À tarde, vamos pra casa dele, ficamos lá sentados, espalhados pela sala, assistindo hóquei
em mais uma tela plana gigante que foi pendurada na parede.
Meu  pai  alterna  entre  gritar  com  a  televisão  e  ouvir  Kate  contar  sobre  Colorado.  Josh
Raymond  está  sentado  ao  lado  dele,  assistindo  o  jogo  e  mastigando  cada  garfada  quarenta  e
cinco vezes. Sei disso porque estou tão entediado que comecei a contar.
Em  determinado  momento,  levanto  e  vou  ao  banheiro,  menos  por  vontade  e  mais  pra
esvaziar  a  cabeça  e  mandar  uma  mensagem  pra  Violet,  que  volta  hoje.  Fico  ali  sentado
esperando  que  ela  responda,  abrindo  e  fechando  as  torneiras.  Lavo  as  mãos,  lavo  o  rosto,
vasculho os armários, estou indo pra prateleira do boxe quando meu celular vibra.
Cheguei! Vou até aí?
Escrevo: 
Ainda não. Por enquanto estou no inferno, mas vou embora o quanto antes.
Trocamos mensagens por um tempo e depois saio pelo corredor, em direção ao barulho e às
pessoas. Passo pelo quarto de Josh Raymond e a porta está entreaberta e ele está lá. Bato e ele
diz, desafinado:
— Pode entrar.
Entro no que parece ser o maior quarto que um garoto de sete anos poderia ter. É tão gigante
que me pergunto se ele precisa de um mapa, e está cheio de todo tipo de brinquedo, a maioria
a bateria.
— Você tem um quarto e tanto, Josh Raymond. — Tento não deixar que isso me incomode
porque a inveja é um sentimento ruim e desagradável que nos destrói por dentro e não preciso
ficar  aqui,  com  quase  dezoito  anos  e  uma  namorada  muito  gostosa,  ainda  que  ela  não  tenha
mais  permissão  pra  me  ver,  me  preocupando  com  o  fato  de  que  meu  meio-irmão  parece  ter
milhares de Legos.
— É legal. — Ele está vasculhando um baú que contém, acredite ou não, mais brinquedos,
quando  vejo  dois  cavalinhos  de  pau  antigos,  um  preto  e  um  cinza,  esquecidos  em  um  canto.

Eram meus cavalinhos de pau, aqueles com os quais brincava por horas quando era mais novo
que ele, fingindo ser Clint Eastwood em um dos filmes antigos que meu pai costumava assistir
na nossa 
TV
 de tubo pequena. Aquela que, coincidentemente, ainda temos e usamos lá em casa.
—  Esses  cavalinhos  são  incríveis  —  digo.  Lembro  que  os  nomes  eram  Meia-Noite  e
Sentinela.
Ele olha em volta, pisca duas vezes e diz:
— São legais.
— Como eles chamam?
— Eles não têm nome.
De  repente  tenho  vontade  de  pegar  os  cavalinhos  de  pau,  marchar  até  a  sala  e  bater  na
cabeça  do  meu  pai  com  eles.  E  depois  levá-los  pra  casa.  Eu  daria  atenção  a  eles  todos  os
dias. Andaria com eles por toda a cidade.
— De onde eles vieram?
— Meu pai comprou pra mim.
Não seu pai, quero dizer. Meu pai. Vamos esclarecer isso aqui e agora. Você já tem um pai,
e ainda que o meu não seja muito legal, é o único que eu tenho.
Mas aí olho pra esse garoto, pro rosto fino e pro pescoço fino e pros ombros magros, e ele
tem  sete  anos  e  é  pequeno  pra  idade,  e  lembro  como  isso  me  fazia  sentir.  E  também  lembro
como foi crescer com a companhia do meu pai.
—  Sabe,  eu  tive  dois  cavalos  há  um  tempo,  não  tão  legais  quanto  estes,  mas  eram  bem
durões. Meia-Noite e Sentinela.
— Meia-Noite e Sentinela? — Ele olha pros cavalos. — São nomes bacanas.
— Se quiser, pode colocar nos seus.
— Sério? — Ele olha pra mim de olhos arregalados.
— Claro.
Josh Raymond encontra o brinquedo pelo qual estava procurando — um tipo de carro-robô
— e quando saímos pela porta ele pega minha mão.
De volta à sala, meu pai abre seu sorriso de programa de 
TV
 e acena pra mim.
—  Você  devia  trazer  sua  namorada  aqui  —  diz,  como  se  nada  tivesse  acontecido  e  nós
fôssemos melhores amigos.
— Não vai dar. Ela é muito ocupada aos domingos.
Imagino a conversa entre meu pai e o sr. Markey.
O delinquente do seu filho está com a minha filha. Provavelmente, graças a ele, ela está
jogada numa vala qualquer neste exato momento.
O que você esperava? Ele é mesmo delinquente, e criminoso, e um desastre emocional, e
uma aberração decepcionante e problemática. Dê graças a Deus pela filha que tem, senhor,
porque, acredite, você não ia querer meu filho. Ninguém quer.
Vejo que meu pai está pensando em alguma coisa pra dizer.
—  Bom,  pode  ser  qualquer  dia,  não  é,  Rosemarie?  Mas  convide  quando  der.  —  Está  em
uma de suas melhores fases, e Rosemarie concorda com a cabeça e sorri. Ele bate a mão no
braço  da  poltrona.  —  Traga  ela  aqui,  vamos  colocar  uns  filés  na  grelha  e  preparar  alguma
coisa com grãos e vegetais pra você.

Me esforço para não explodir pela sala. Tento me manter pequeno e contido. Conto o mais
rápido que posso.
Felizmente,  o  jogo  recomeça  e  ele  se  distrai.  Fico  ali  por  mais  alguns  minutos  e  então
agradeço Rosemarie pela refeição, pergunto a Kate se ela pode levar Decca de volta pra casa
e digo que as encontro lá.
 
 
Em  vez  de  voltar  direto,  dirijo  sem  rumo.  Sem  mapa,  sem  propósito.  Parece  que  fico
rodando por horas, passando por campos brancos. Vou em direção ao norte e depois ao oeste e
depois ao sul e depois ao leste, com o Tranqueira chegando a cento e quarenta. Quando o sol
se  põe,  volto  pra  Bartlett,  cortando  o  coração  de  Indianápolis,  fumando  o  quarto  cigarro
seguido.  Dirijo  rápido  demais,  mas  não  parece  o  suficiente.  De  repente  odeio  o  Tranqueira
por me segurar quando preciso ir, ir, ir.
A nicotina arranha minha garganta, que já está rouca, e sinto que vou vomitar, então encosto
e  caminho  um  pouco.  Me  curvo,  apoiando  as  mãos  nos  joelhos.  Espero.  Não  vomito,  então
olho  pra  estrada  à  frente  e  começo  a  correr.  Corro  o  mais  rápido  que  posso,  deixando  o
Tranqueira  pra  trás.  Corro  tão  rápido  que  parece  que  meus  pulmões  vão  explodir.  Aumento
ainda  mais  a  velocidade.  Desafio  meus  pulmões  e  minhas  pernas  a  desistirem  de  mim.  Não
consigo  lembrar  se  tranquei  o  carro  e,  Deus,  odeio  meu  cérebro  quando  ele  faz  isso  porque
agora só consigo pensar na porta do carro e na fechadura, então corro ainda mais rápido. Não
lembro onde está minha jaqueta, ou ao menos se trouxe uma.
Vai dar tudo certo.
Vai dar tudo certo.
Nada vai desmoronar.
Vai dar tudo certo.
Vai ficar tudo bem.
Estou bem. Bem. Bem.
De  repente,  estou  cercado  de  fazendas  de  novo.  Em  determinado  momento  passo  por  uma
série de estufas e viveiros comerciais. Não estão abertos porque é domingo, mas corro até a
entrada de um que parece um negócio familiar. Há uma casa branca de dois andares nos fundos
da propriedade.
A  entrada  está  cheia  de  carros  e  caminhões,  e  ouço  risadas  lá  dentro.  Me  pergunto  o  que
aconteceria  se  eu  simplesmente  entrasse  e  sentasse  e  fingisse  que  estou  em  casa.  Vou  até  a
porta  e  bato.  Respiro  com  dificuldade  e  devia  ter  esperado  pra  bater  depois  de  recuperar  o
fôlego, mas penso: 
Baixar 1.69 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   11   12   13   14   15   16   17   18   ...   21




©bemvin.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Prefeitura municipal
santa catarina
Universidade federal
prefeitura municipal
pregão presencial
universidade federal
outras providências
processo seletivo
catarina prefeitura
minas gerais
secretaria municipal
CÂmara municipal
ensino fundamental
ensino médio
concurso público
catarina município
reunião ordinária
Dispõe sobre
Serviço público
câmara municipal
público federal
Processo seletivo
processo licitatório
educaçÃo universidade
seletivo simplificado
Secretaria municipal
sessão ordinária
ensino superior
Universidade estadual
Relatório técnico
Conselho municipal
técnico científico
direitos humanos
científico período
pregão eletrônico
Curriculum vitae
espírito santo
Sequência didática
Quarta feira
conselho municipal
prefeito municipal
distrito federal
língua portuguesa
nossa senhora
educaçÃo secretaria
Pregão presencial
segunda feira
recursos humanos
educaçÃO ciência
Terça feira
agricultura familiar