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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por
dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

Para minha mãe, Penelope Niven, meu lugar mais incrível

[...] o mundo quebra a cada um deles
e eles ficam mais fortes nos lugares quebrados.
Ernest Hemingway

ESTOU DESPERTO MAIS UMA VEZ. DIA 6.
Será que hoje é um bom dia para morrer?
Eu me pergunto isso todas as manhãs quando acordo. E durante a terceira aula, quando tento
manter os olhos abertos enquanto o sr. Schroeder fala sem parar. À mesa de jantar, ao passar a
salada. E à noite, na cama, sem sono porque meu cérebro não desliga.
Hoje é o dia?
E, se não hoje, quando?
Estou me perguntando agora, em pé sobre um murinho estreito a seis andares de altura. É tão
alto que praticamente me sinto no céu. Olho para a calçada lá embaixo e o mundo se inclina.
Fecho os olhos e sinto tudo girar. Talvez desta vez eu vá em frente, deixe o ar me levar para
longe. Será como flutuar em uma piscina, adormecendo até que não exista nada.
Não me lembro de ter subido até aqui. Na verdade, não me lembro de quase nada antes de
domingo, pelo menos nada do que aconteceu neste inverno. Acontece comigo direto — apagar,
acordar. Sou como aquele velho barbudo, Rip van Winkle. Num instante você me vê, no outro
não. Talvez eu já devesse ter me acostumado, mas essa última vez foi a pior de todas, porque
não fiquei adormecido por dois ou três dias nem uma ou duas semanas… Apaguei durante as
festas de fim de ano inteiras, ou seja, Ação de Graças, Natal e Ano-Novo. Não sei dizer o que
houve de diferente, mas, quando acordei, me sentia mais morto que o habitual. Acordado, sim;
mas  completamente  vazio,  como  se  alguém  tivesse  drenado  meu  sangue.  Hoje  é  o  sexto  dia
desde que despertei, e esta é a minha primeira semana no colégio desde 14 de novembro.
Abro os olhos e o chão ainda está lá, duro e estático. Estou na torre do sino do colégio, em
pé sobre a borda que tem mais ou menos dez centímetros de largura. A torre é bem pequena,
talvez não tenha nem um metro de piso ao redor do sino, e há esse parapeito baixo, de pedra,
que  escalei  para  chegar  aqui.  De  vez  em  quando  bato  a  perna  contra  o  parapeito  só  pra
lembrar que ele está ali.
Estendo os braços como se estivesse dando um sermão e toda esta cidadezinha chatíssima
fosse minha congregação.
— Senhoras e senhores — grito —, gostaria de apresentar-lhes a minha morte!
Talvez o esperado fosse dizer “vida”, já que acabei de despertar, mas é exatamente quando
estou desperto que penso em morrer.
Grito  como  um  velho  pregador,  sacudindo  a  cabeça  e  enrolando  o  final  das  palavras,  e
quase perco o equilíbrio. Me seguro no parapeito atrás de mim, feliz porque ninguém parece
notar; verdade seja dita, é difícil parecer destemido quando se está agarrado a um parapeito
como um frangote.
—  Eu,  Theodore  Finch,  por  não  estar  em  pleno  gozo  das  minhas  faculdades  mentais,  por
meio desta lego meus bens a Charlie Donahue, Brenda Shank-Kravitz e minhas irmãs. Todas as
outras pessoas podem se f… — Lá em casa, desde cedo minha mãe nos ensinou a usar esse

palavrão  (quando  for  de  fato  necessário),  mas  sempre  só  a  primeira  letra.  Infelizmente,  o
costume pegou.
Apesar  de  o  sinal  já  ter  tocado,  alguns  alunos  permanecem  no  pátio.  Estamos  na  primeira
semana do segundo semestre do último ano e a maioria age como se já estivesse se formando.
Um garoto olha na minha direção, como se tivesse me ouvido, mas os outros não, porque não
me viram ou porque sabem que estou aqui e Ah, é só o Theodore Aberração.
Então  ele  olha  para  o  outro  lado  e  aponta  para  o  céu.  De  início,  acho  que  está  apontando
para mim, mas então a vejo. A garota está a alguns metros de distância, do outro lado da torre,
também na beirada, cabelo loiro escuro balançando ao vento, a barra da saia inflando como
um paraquedas. Apesar de ser inverno em Indiana, ela está descalça, de meia-calça, segurando
as botas e olhando fixo para os pés ou para o chão… não sei dizer. Parece paralisada.
Com minha voz normal, não a de pregador, digo, o mais calmamente possível:
— Vai por mim, o pior que você pode fazer é olhar pra baixo.
Bem devagar, ela vira a cabeça na minha direção, e eu percebo que a conheço, que já a vi
pelos corredores. Não resisto e pergunto:
— Vem sempre aqui? Porque esse lugar é como se fosse a minha casa, e não me lembro de
ter visto você aqui.
Ela nem pisca, só olha pra mim por trás daqueles óculos grossos que quase cobrem o rosto
inteiro.  Tenta  dar  um  passo  para  trás,  mas  seu  pé  bate  no  parapeito.  Ela  se  desequilibra  um
pouco e, antes que entre em pânico, eu digo:
— Não sei por que veio, mas pra mim a cidade fica mais bonita vista daqui, e as pessoas
parecem  melhores…  mesmo  as  piores  parecem  quase  gentis.  Tirando  o  Gabe  Romero  e  a
Amanda Monk e toda aquela galera com quem você anda.
O nome dela é Violet Alguma Coisa. Ela é superpopular — uma dessas garotas que a gente
jamais  imaginaria  encontrar  em  um  parapeito  a  seis  andares  do  chão.  Atrás  dos  óculos
ridículos,  ela  é  bonita,  quase  uma  boneca  de  porcelana.  Olhos  grandes,  rosto  delicado  em
formato  de  coração,  boca  esboçando  um  sorriso  perfeito.  Ela  é  do  tipo  que  sai  com  caras
como Ryan Cross, destaque do time de beisebol, e senta com Amanda Monk e outras meninas
populares no almoço.
— Mas não estamos aqui por causa da vista. Você é a Violet, não é?
Ela pisca uma vez, e eu encaro como “sim”.
— Theodore Finch. Acho que estávamos na mesma turma de matemática no ano passado.
Ela pisca de novo.
—  Odeio  matemática,  mas  não  foi  por  isso  que  subi  aqui.  Sem  ofensa,  se  for  esse  seu
motivo. Você deve ser melhor em exatas que eu, porque quase todo mundo é, mas tudo bem,
não  tenho  problemas  com  isso.  Sabe,  eu  me  destaco  em  coisas  mais  importantes…  guitarra,
sexo  e  decepcionar  meu  pai  constantemente,  por  exemplo.  Aliás,  parece  que  é  verdade  que
não serve pra nada na vida. A matemática, quero dizer.
Continuo  falando,  sem  perceber  que  minhas  forças  estão  se  esvaindo.  Primeiro,  preciso
fazer xixi, então minhas palavras não são a única coisa querendo sair. (Nota mental: Antes de
tentar  se  matar,  lembrar  de  tirar  água  do  joelho.)  Segundo,  está  começando  a  chover  e,  a
essa temperatura, a chuva provavelmente vira granizo antes de alcançar o chão.

—  Está  começando  a  chover  —  digo,  como  se  ela  não  soubesse.  —  Acho  que  podemos
considerar que a água vai lavar o sangue, então a sujeira vai ser menor. É a parte da sujeira
que me intriga. Não sou vaidoso, mas sou humano; não sei quanto a você, mas não quero que,
ao me ver no velório, as pessoas pensem que fui triturado por uma máquina de serragem.
Ela está tremendo de frio ou de nervoso, não sei dizer, então me aproximo devagar, torcendo
pra não cair antes de chegar lá, porque a última coisa que quero é me fazer de idiota na frente
dessa garota.
— Deixei claro que quero ser cremado, mas minha mãe não acredita nisso.
E meu pai faz tudo o que ela manda pra ela não ficar mais irritada do que normalmente é e,
além  do  mais,  Você  é  muito  novo  pra  pensar  nisso,  você  sabe  que  a  vovó  viveu  até  os
noventa e oito anos. Não precisamos falar disso agora, Theodore, não chateie sua mãe.
—  Então  meu  caixão  vai  estar  aberto,  o  que  significa  que,  se  eu  pular,  não  vai  ficar  nada
bonito. Além do mais, eu meio que gosto do meu rosto assim, dois olhos, um nariz, uma boca,
todos os dentes… que, pra ser honesto, são uma das minhas melhores qualidades. — Sorrio
pra ela conferir. Tudo em seu devido lugar, pelo menos do lado de fora.
Como ela não diz nada, continuo me aproximando e conversando.
—  Acima  de  tudo,  tenho  pena  do  agente  funerário.  Já  deve  ser  um  trabalho  de  merda,  aí
imagina ter que lidar com um imbecil como eu?
Lá de baixo, alguém grita:
— Violet? É a Violet lá em cima?
— Ai, meu Deus — ela diz, tão baixo que eu mal consigo ouvir. — Ai-meu-Deus-ai-meu-
Deus-ai-meu-Deus. — O vento sopra contra sua saia e seu cabelo e parece que ela vai voar
para longe.
Começa um burburinho lá embaixo, e eu grito:
— Não tente me salvar! Você vai acabar se matando!
Depois digo bem baixinho, só pra ela:
— Acho que devemos fazer o seguinte… — Estou a mais ou menos um passo dela agora. —
Jogue  as  botas  em  direção  ao  sino  e  agarre  o  parapeito,  agarre  pra  valer,  e,  assim  que
conseguir, se apoie nele e passe o pé direito por cima. Entendeu?
—Tá bom. — Ela faz que sim com a cabeça e quase perde o equilíbrio.
— Não balance a cabeça.
— Tá bom.
—  E  não  vá  para  o  lado  errado  nem  dê  um  passo  à  frente  em  vez  de  um  passo  atrás.  Vou
contar e você vai no três. Tudo bem?
—  Tudo  bem.  —  Ela  joga  as  botas  em  direção  ao  sino  e  elas  caem  fazendo  tum  tum  no
concreto.
— Um. Dois. Três.
Ela agarra a pedra e meio que se escora nela e então levanta a perna e a passa por cima até
sentar no parapeito. Olha para o chão, e eu percebo que está paralisada de novo, então digo:
— Ótimo. Muito bom. Só pare de olhar pra baixo.
Ela desvia o olhar pra mim devagar e tenta alcançar o chão da torre com o pé direito. Assim
que alcança, digo:

— Agora passe a perna esquerda do jeito que conseguir. Não solte do parapeito. — Neste
momento, ela está tremendo tanto que eu escuto os dentes batendo, mas vejo o pé esquerdo se
juntar ao direito, e ela está a salvo.
Agora  só  eu  estou  do  lado  de  fora.  Olho  para  baixo  uma  última  vez,  para  além  dos  pés
tamanho quarenta e cinco que não param de crescer — hoje estou usando tênis com cadarço
florescente —, para além das janelas abertas do quarto andar, do terceiro, do segundo, além
de  Amanda  Monk,  que  está  cacarejando  na  escadaria  em  frente  ao  prédio  e  balançando  o
cabelo loiro como se fosse um pônei, com os livros sobre a cabeça, tentando chamar a atenção
e se proteger da chuva ao mesmo tempo.
Passando por tudo isso, olho para o chão, que está liso e úmido, e me imagino deitado lá.
Eu poderia simplesmente dar um passo à frente. Em segundos, acabaria com tudo. Nunca
mais “Theodore Aberração”. Nunca mais dor. Nunca mais nada.
Tento  contornar  a  interrupção  inesperada  para  salvar  uma  vida  e  voltar  ao  que  estava
fazendo.  Por  um  minuto,  sinto  uma  paz  conforme  minha  mente  se  aquieta,  como  se  eu  já
estivesse morto. Estou leve e livre. Nada e ninguém a temer, nem eu mesmo.
Então, uma voz atrás de mim diz:
—  Quero  que  você  agarre  o  parapeito  e,  assim  que  conseguir,  se  apoie  nele  e  passe  o  pé
direito por cima.
Simples assim, sinto o momento passar, talvez já tenha passado, e agora parece uma ideia
idiota, a  não  ser pelo  fato  de imaginar  a  cara  da Amanda  quando  eu caísse  perto  dela.  Esse
pensamento me faz rir. Rio tanto que quase perco o equilíbrio, e isso me assusta — tipo, me
assusta mesmo — então me apoio no parapeito e Violet me segura enquanto Amanda olha pra
cima.
— Aloprado! — alguém grita.
O grupinho da Amanda ri. Ela faz uma concha com a mão ao lado da boca e olha pra cima.
— Você está bem, V?
Violet se inclina sobre o parapeito, ainda segurando minhas pernas.
— Estou.
A  porta  no  topo  das  escadas  da  torre  se  abre  e  meu  melhor  amigo,  Charlie  Donahue,
aparece.  Charlie  é  negro.  Bem  negro  mesmo.  E  faz  mais  sexo  do  que  qualquer  outra  pessoa
que eu conheço. Como se eu não estivesse em pé no parapeito a seis andares do chão, com os
braços abertos e uma garota agarrada nos meus joelhos, ele diz:
— Eles estão servindo pizza hoje.
— Por que não acaba com isso de uma vez, aberração? — Gabe Romero, mais conhecido
como Roamer, mais conhecido como Babaca, grita lá de baixo. Mais risadas.
Porque  tenho  um  encontro  com  a  sua  mãe  mais  tarde,  penso,  mas  não  digo,  porque,
sejamos  honestos,  é  uma  resposta  ridícula,  e  também  porque  ele  poderia  subir  e  bater  na
minha cara e me jogar daqui, o que estraga a ideia de eu mesmo fazer isso.
Em vez disso, agradeço.
— Obrigado por me salvar, Violet. Não sei o que faria se você não tivesse vindo. Acho que
estaria morto.
O último rosto que vejo lá embaixo é o do meu orientador pedagógico, o sr. Embry. Quando

ele olha pra mim, penso: Ótimo. Maravilha.
Violet me ajuda a pular o parapeito e chegar no concreto. Lá embaixo, alguns aplausos, não
pra mim, mas pra ela, a heroína. De perto, consigo ver que sua pele é lisa e clara, exceto por
duas pintas na bochecha direita, e que seus olhos são de um verde-cinza que lembra o outono.
São  os  olhos  que  me  prendem.  São  grandes  e  impressionantes,  como  se  pudessem  ver  tudo.
Por  mais  que  sejam  ternos,  são  inquietos,  um  olhar  direto,  do  tipo  que  enxerga  você  por
dentro,  o  que  percebo  claramente,  mesmo  através  dos  óculos.  Ela  é  bonita  e  alta,  mas  não
muito  alta,  com  pernas  longas  e  quadril  curvilíneo,  que  eu  acho  atraente.  Muitas  garotas  do
ensino médio parecem meio meninos.
— Eu só estava sentada ali — ela diz. — No parapeito. Não subi aqui pra…
— Deixa eu te perguntar uma coisa: você acha que existe um dia perfeito?
— O quê?
— Um dia perfeito. Do início ao fim. Quando nada de terrível ou triste ou comum acontece.
Você acha que é possível?
— Não sei.
— Você já teve um?
— Não.
— Também nunca tive, mas estou em busca dele.
Ela sussurra:
— Obrigada, Theodore Finch.
Fica  na  ponta  dos  pés  e  me  dá  um  beijo  no  rosto,  e  sinto  o  cheiro  do  xampu,  que  lembra
flores. Então, diz no meu ouvido:
— Se contar a verdade a alguém, mato você.
Segurando as botas, ela se afasta correndo pra se proteger da chuva, voltando à porta que dá
nas  escadas  escuras  e  instáveis  que  levam  a  um  dos  muitos  corredores  iluminados  e
abarrotados da escola.
Charlie fica olhando pra ela e, quando a porta fecha, vira pra mim.
— Cara, por que você faz isso?
— Porque todos vamos morrer um dia. Eu só quero estar preparado.
Esse não é o motivo, claro, mas a explicação foi suficiente pra ele. A verdade é que existem
muitos motivos, que mudam diariamente, como as treze crianças assassinadas no início desta
semana quando um 
FDP
 entrou atirando no ginásio de uma escola, ou a garota dois anos mais
nova que eu que acabou de morrer de câncer, ou o homem que eu vi chutando um cachorro na
frente do shopping, ou simplesmente meu pai.
Charlie pode até pensar que sou aloprado, mas não diz nada, por isso é meu melhor amigo.
Tirando esse fato, não temos muito em comum.
 
 
Tecnicamente,  este  ano  estou  sob  provação.  Isso  se  deve  a  uma  bobagem  envolvendo  uma
mesa e uma lousa. (Só pra constar, uma lousa custa mais caro do que se imagina.) Também se
deve a um incidente com uma guitarra em um evento escolar, ao uso ilegal de fogos de artifício
e  talvez  a  uma  ou  duas  brigas.  Como  resultado,  tive  de  concordar  com  o  seguinte:

aconselhamento  semanal;  manter  média  B;  e  participar  de  pelo  menos  uma  atividade
extracurricular.  Escolhi  crochê  porque  sou  o  único  cara  no  meio  de  vinte  garotas  até  que
bonitas,  o  que  considerei  uma  boa  oportunidade.  Também  tenho  que  me  comportar,  interagir
bem com os outros, me abster de atirar mesas por aí e de entrar em quaisquer “disputas físicas
violentas”. E devo sempre, sempre, não importa o que eu faça, segurar a língua, porque não
segurar,  aparentemente,  é  o  início  dos  problemas.  Se  eu  f…  com  alguma  coisa  a  partir  de
agora, é expulsão.
Na  sala  de  orientação  pedagógica,  falo  com  a  secretária  e  sento  em  uma  das  cadeiras
desconfortáveis  de  madeira  até  que  o  sr.  Embry  esteja  pronto  para  me  atender.  Se  bem
conheço o Embrião — é como o chamo secretamente —, e de fato o conheço, ele vai querer
saber  exatamente  o  que  diabos  eu  estava  fazendo  na  torre  do  sino.  Se  eu  tiver  sorte,  não
teremos tempo pra falar sobre mais nada.
Em poucos minutos ele me chama. É um homem baixo e troncudo como um touro. Ao fechar
a porta, desfaz o sorriso. Senta, se debruça sobre a mesa e fixa os olhos em mim como se eu
fosse um suspeito a interrogar.
— Que diabos você estava fazendo na torre?
O que eu gosto no Embrião é que, além de ser previsível, ele vai direto ao ponto. Nós nos
conhecemos desde que eu estava no segundo ano.
— Queria apreciar a vista.
— Estava pensando em se jogar?
— Não no dia de pizza, que é um dos melhores cardápios da semana.
Devo mencionar que sou um brilhante desviador de assunto. Tão brilhante que conseguiria
bolsa integral na faculdade pra me formar nisso, mas pra quê? Já sou mestre nessa arte mesmo.
Espero ele perguntar sobre Violet, mas em vez disso ele diz:
— Preciso saber se você planejava ou está planejando se matar. Estou falando muito sério.
Se o diretor Wertz souber disso, você estará fora daqui antes que consiga dizer “suspensão”.
Isso sem falar que, se eu não prestar atenção e você decidir voltar lá em cima e pular, vou ser
processado, e com o salário que eles me pagam, acredite, não tenho dinheiro para me defender
judicialmente.  Isso  vai  acontecer  se  você  pular  da  torre  do  sino  ou  de  qualquer  outra  torre,
seja propriedade da escola ou não.
Passo a mão no queixo, como se estivesse imerso em algum pensamento.
— Uma torre fora do colégio. É uma ótima ideia.
Ele não mexe um músculo, só me encara estreitando os olhos. Como a maioria das pessoas
do Meio-Oeste, o Embrião não tem senso de humor, principalmente no que se refere a temas
delicados.
— Não é engraçado, sr. Finch. Não é assunto para piada.
— Não, senhor. Me desculpe.
— Os suicidas não pensam no próprio velório. Nem nos pais, irmãos, amigos, namoradas,
colegas, professores.
Gosto como ele parece achar que tenho tantas, tantas pessoas dependendo de mim, incluindo
não apenas uma, mas várias namoradas.
— Eu só estava brincando. Concordo que provavelmente não foi o melhor jeito de matar a

primeira aula.
Ele pega uma pasta e joga com força na mesa e começa a folhear os arquivos. Eu espero, e
então ele olha pra mim de novo. Me pergunto se está contando os dias para as férias de verão.
Fica em pé, como um policial de filme, e dá a volta na mesa até chegar perto de mim. Se
apoia  nela,  com  os  braços  cruzados,  e  eu  olho  atrás  dele,  procurando  pelo  espelho  falso
escondido.
— Preciso chamar sua mãe?
— Não. E repito: não. — Não, não, não. — Olha só, foi uma coisa idiota. Eu só queria ver
qual é a sensação de subir lá e olhar pra baixo. Nunca pularia da torre do sino.
— Se acontecer de novo, se você cogitar fazer isso de novo, vou ligar pra ela. E você vai
fazer um exame toxicológico.
— Obrigado pela preocupação, senhor. — Tento parecer o mais sincero possível, porque a
última  coisa  que  quero  é  um  holofote  maior  e  mais  brilhante  em  cima  de  mim,  me  seguindo
pelos  corredores  da  escola,  pela  vida.  E,  na  verdade,  gosto  do  Embrião.  —  Quanto  a  essa
questão das drogas, não precisa perder seu tempo precioso. De verdade. A não ser que cigarro
conte. Drogas? Não me dou muito bem com elas. Acredite, já experimentei. — Cruzo as mãos
como um bom menino. — Quanto à torre do sino, apesar de não ter sido, de jeito nenhum, o
que você está pensando, prometo que não vai acontecer de novo.
— Isso mesmo… não vai. E quero você aqui duas vezes por semana. Você vem segunda e
sexta e conversa comigo pra eu ver como está indo.
— Ficaria feliz em vir, senhor. Eu gosto muito dessas conversas, sabe, mas estou bem.
—  Não  é  negociável.  Agora  vamos  falar  sobre  o  fim  do  semestre  passado.  Você  perdeu
quatro, quase cinco semanas de aula. Sua mãe me disse que você estava gripado.
Na  verdade,  quem  disse  foi  minha  irmã,  Kate,  mas  ele  não  sabe  disso.  Foi  ela  que  ligou
para  a  escola  enquanto  eu  estava  apagado,  porque  minha  mãe  já  tem  muito  com  que  se
preocupar.
— Se é isso o que ela diz, quem somos nós para discutir?
A verdade é que eu estava mesmo doente, mas não com uma simples gripe. De acordo com
minha experiência, as pessoas são muito mais compreensivas se conseguem ver a sua doença,
e  pela  milionésima  vez  na  vida  eu  desejei  ter  sarampo  ou  varíola  ou  alguma  outra  coisa
facilmente verificável só pra ficar mais fácil pra mim e pra todo mundo. Qualquer coisa seria
melhor que a verdade: Desliguei de novo. Apaguei. Num minuto, tudo estava girando e, no
instante  seguinte,  minha  mente  se  arrastava  em  círculos,  como  um  cão  velho  com  artrite
tentando se deitar. Então simplesmente desliguei e dormi, mas não como você faz todas as
noites. Pense em um sono longo e profundo, durante o qual você nem sonha.
Mais uma vez, o Embrião estreita os olhos e me encara, tentando captar alguma hesitação.
— Posso acreditar que você vai vir e vai ficar longe de problemas este semestre?
— Com certeza.
— E que vai fazer os trabalhos?
— Sim, senhor.
— Vou combinar o exame toxicológico com a enfermeira. — Ele aponta pra mim num gesto
brusco.  —  Provação  significa  “período  para  testar  a  adequação  de  uma  pessoa;  período  em

que  a  pessoa  precisa  melhorar”.  Se  não  acredita  em  mim,  pesquise  e,  pelo  amor  de  Deus,
fique vivo.
O que não digo é o seguinte: quero viver. E o motivo para não dizer é que, considerando a
pasta  repleta  de  ocorrências  na  frente  dele,  o  sr.  Embry  jamais  acreditaria  em  mim.  E  tem
outra coisa na qual ele não acreditaria: estou lutando para permanecer neste mundo caótico de
merda. Ficar no parapeito da torre do sino não é pra morrer. É pra ter controle. É pra nunca
mais dormir de novo.
O  Embrião  procura  pela  mesa  e  reúne  uma  pilha  de  panfletos  para  “adolescentes
problemáticos”. Então me diz que não estou sozinho e que posso conversar com ele sempre,
que  sua  porta  está  aberta,  que  ele  está  ali  e  que  me  espera  na  segunda.  Quero  dizer  “sem
ofensa,  mas  isso  não  me  conforta  muito”.  Mas  simplesmente  agradeço,  por  causa  de  suas
olheiras  e  rugas  de  fumante  ao  redor  da  boca.  Provavelmente  vai  acender  um  cigarro  assim
que eu sair. Pego alguns panfletos e o deixo com seu cigarro. Ele nem mencionou Violet, ainda
bem.

154 DIAS PARA A FORMATURA
Manhã  de  sexta.  Escritório  da  sra.  Marion  Kresney,  orientadora  pedagógica,  que  tem  olhos
pequenos  e  gentis  e  um  sorriso  que  quase  não  cabe  no  rosto.  De  acordo  com  o  certificado
pendurado  na  parede,  ela  trabalha  no  colégio  Bartlett  há  quinze  anos.  Esta  é  nossa  décima
segunda reunião.
Meu  coração  está  acelerado  e  minhas  mãos  ainda  tremem  por  ter  subido  no  parapeito  da
torre  do  sino.  Meu  corpo  inteiro  está  gelado  e  tudo  o  que  eu  quero  é  deitar.  Espero  a  sra.
Kresney dizer: 

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