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segundos, de forma ritmada, até Mary dizer num impulso:
– Meu Deus, Kate, fique quieta!
– A senhora sabe que não posso – respondeu ela.
Mary apenas suspirou.
Após outro longo silêncio, pontuado somente pela batida de seu pé, Kate acrescentou:
– Edwina ficará solitária sem nós.
Mary nem se deu o trabalho de olhar para ela ao falar:
– Edwina tem um romance para ler. O último daquela tal Jane Austen. Nem perceberá que
saímos.
Isso era verdade. Se a cama pegasse fogo enquanto ela lia, talvez Edwina nem percebesse.
Kate disse, então:
– A música provavelmente será terrível. Depois daquela história dos Smythe-Smiths...
– Quem se apresentou no recital dos Smythe-Smiths foram as filhas deles – retrucou Mary,
soando um pouco impaciente. – Lady Bridgerton contratou um cantor de ópera profissional,
vindo da Itália. É uma honra termos sido convidadas.
Kate  sabia,  sem  dúvida,  que  o  convite  fora  para  Edwina.  Decerto  ela  e  Mary  haviam  sido
incluídas  apenas  por  uma  questão  de  educação.  Mas  a  madrasta  tinha  começado  a  ficar
nervosa, por isso Kate decidiu segurar a língua pelo restante da viagem.
Isso não seria tão difícil, porque já estavam quase diante da Casa Bridgerton.
Kate ficou boquiaberta ao olhar pela janela.
– É imensa – observou.
–  Não  é?  –  disse  Mary,  recolhendo  suas  coisas.  –  O  que  sei  é  que  lorde  Bridgerton  não
mora  aqui.  Embora  a  casa  pertença  a  ele,  o  visconde  permanece  em  aposentos  de  solteiro
para  que  a  mãe  e  os  irmãos  possam  residir  na  mansão.  Não  é  muita  consideração  da  parte
dele?
Consideração e lorde Bridgerton eram duas expressões que Kate não conseguia imaginar na
mesma frase. No entanto, ela assentiu, impressionada demais com o tamanho e a beleza da
construção de pedra para fazer um comentário inteligente.
Quando  a  carruagem  parou,  Mary  e  Kate  receberam  a  ajuda  de  um  dos  criados  dos
Bridgertons, que correu para abrir a porta. Um mordomo pegou o convite e esperou que elas
entrassem. Depois, recolheu suas capas e apontou para o salão de música, que ficava no fim

do corredor.
Kate  já  estivera  em  mansões  londrinas  suficientes  para  não  se  espantar  com  o  luxo  e  a
beleza  óbvios  da  mobília,  mas  mesmo  assim  ficou  impressionada  com  a  elegância  e  a
sobriedade  da  decoração  da  Casa  Bridgerton.  Até  os  tetos  eram  obras  de  arte  –  em  tons
claros  de  verde  e  azul,  com  as  cores  separadas  por  uma  sanca  branca  tão  intricada  que
parecia quase uma renda.
O salão de música também era adorável, com suas paredes de uma agradável tonalidade de
amarelo-limão. Havia fileiras de cadeiras dispostas para os participantes e Kate logo conduziu
a  madrasta  para  uma  das  últimas.  Na  verdade,  não  havia  motivo  para  querer  ficar  em  um
lugar de destaque. Sem dúvida, lorde Bridgerton estaria presente – se todas as histórias sobre
sua  devoção  à  família  fossem  reais  –,  e,  se  Kate  tivesse  sorte,  talvez  ele  nem  notasse  sua
presença.
Mas,  ao  contrário,  Anthony  soube  exatamente  quando  Kate  desceu  da  carruagem  e  entrou
na  casa  de  sua  família.  Estava  no  escritório,  degustando  um  drinque  solitário  antes  de  se
dirigir ao recital anual da mãe. Por uma questão de privacidade, preferira não morar na Casa
Bridgerton enquanto fosse solteiro, mas mantinha um escritório ali. Sua posição de chefe da
família  trazia  grandes  responsabilidades,  e  Anthony  achava  mais  fácil  cuidar  dessas
atribuições na própria mansão.
As  janelas  do  escritório  davam  para  a  Grosvenor  Square  e  ele  se  divertia  observando  as
carruagens chegarem trazendo os convidados. Quando Kate Sheffield desceu da sua, ergueu
os  olhos  para  a  fachada  da  Casa  Bridgerton  e  inclinou  a  cabeça  de  maneira  muito
semelhante à que fizera ao desfrutar do calor do sol no Hyde Park. A luz dos candeeiros, de
ambos os lados da porta principal, banhou sua pele com um brilho tremeluzente.
Nesse momento, Anthony perdeu imediatamente o fôlego.
Apoiou  o  copo  de  vidro  no  amplo  peitoril  com  um  baque  surdo.  Aquilo  estava  ficando
ridículo.  Ele  não  enganaria  a  si  mesmo  dizendo  que  a  tensão  em  seus  músculos  não  tinha
nada a ver com desejo.
Droga. Ele nem sequer gostava daquela mulher. Ela era muito mandona, muito teimosa, e
tirava  conclusões  rápido  demais.  E  não  era  nem  bonita  –  ao  menos  quando  comparada  a
algumas  das  damas  que  estavam  em  Londres  para  a  temporada,  principalmente  a  própria
irmã.
O rosto de Kate era comprido demais, o queixo, muito pontudo, e os olhos, enormes. Tudo
nela era excessivo.  Até  a  boca,  que  o  matara  de  constrangimento  com  seu  fluxo  infinito  de
insultos  e  opiniões,  era  carnuda  demais.  Nas  raras  ocasiões  em  que  ela  a  fechava  e  lhe
proporcionava um abençoado instante de silêncio (já que decerto não conseguia ficar calada
por  mais  que  apenas  um  instante),  tudo  o  que  ele  via  eram  os  lábios,  cheios,  carnudos  e  –
desde que ela os mantivesse fechados, sem dizer uma palavra – eminentemente beijáveis.

Beijáveis?
Anthony  estremeceu.  A  ideia  de  beijar  Kate  Sheffield  era  assustadora.  Na  verdade,  o
simples fato de pensar nisso deveria ser suficiente para mandá-lo para o manicômio.
Ainda assim...
Anthony deixou-se cair numa cadeira.
... ainda assim, sonhara com ela.
Acontecera após o fiasco no lago Serpentine. Ele havia ficado tão furioso com ela que mal
podia falar. Foi surpreendente que, no fim das contas, tivesse conseguido dizer alguma coisa
a  Edwina  durante  o  rápido  percurso  de  volta  à  casa  dela.  Tudo  o  que  conseguira  produzir
fora uma conversa educada: palavras irrefletidas banais que saíam de sua boca sem que ele se
desse conta.
Com  certeza,  fora  uma  bênção,  pois  sua  mente  definitivamente  não  estava  onde  deveria:
em Edwina, a futura esposa.
Ah,  ela  não  havia  aceitado  se  casar  com  ele.  Ele  não  tinha  nem  pedido.  Mas  Edwina
satisfazia  todos  os  pré-requisitos  que  ele  estabelecera  para  que  uma  mulher  se  tornasse  sua
esposa.  Anthony  já  havia  decidido  que  ela  seria  a  pessoa  com  quem  se  casaria.  Era  bonita,
inteligente  e  tranquila.  Atraente  sem  fazer  o  sangue  dele  ferver.  Os  dois  passariam  anos
agradáveis juntos, mas ele nunca se apaixonaria por ela.
Ela era exatamente o que ele precisava.
E ainda assim...
Anthony estendeu a mão para o copo e acabou a bebida em um único gole.
... Ainda assim, ele havia sonhado com a irmã dela.
Tentou  não  se  lembrar  dos  detalhes  do  sonho  –  do  calor  e  do  suor  –,  mas  havia  bebido
apenas  um  drinque  naquela  noite  e  isso  certamente  não  fora  capaz  de  apagar  suas
lembranças.  Embora  não  tivesse  intenção  de  beber  mais,  a  ideia  de  se  entregar  ao
esquecimento começava a lhe parecer atraente.
Qualquer coisa seria atraente se significasse que ele não se lembraria.
Mas  ele  não  tinha  vontade  de  beber.  Havia  anos  que  não  se  embriagava.  Parecia  coisa  de
jovens, nem um pouco atraente para um homem de quase 30 anos. Além disso, mesmo que
decidisse buscar a amnésia temporária em uma garrafa, ela não viria rápido o suficiente para
afastar a lembrança dela.
Lembrança? Rá. Nem era uma lembrança real. Fora apenas um sonho, recordou-se. Apenas
um sonho.
Naquela  noite,  ele  adormecera  depressa  ao  retornar  para  casa.  Tirara  as  roupas  e
mergulhara  em  uma  banheira  de  água  quente  por  quase  uma  hora,  tentando  afastar  o  frio
que ia até os ossos. Não tinha mergulhado por completo no lago Serpentine, como Edwina,
mas  suas  pernas  haviam  ficado  encharcadas,  assim  como  uma  das  mangas,  e  a  sacudida
estratégica de Newton garantira que nem um centímetro de seu corpo permanecesse quente
durante a volta à casa das Sheffields no cabriolé emprestado.

Após  o  banho,  ele  se  metera  na  cama  sem  se  importar  com  o  fato  de  que  ainda  era  cedo
para  dormir  e  que  ainda  seria  ao  menos  por  uma  hora.  Estava  exausto  e  sua  intenção  era
adormecer profundamente, sem sonhar com nada, até os primeiros sinais da aurora.
Mas, em algum momento durante a noite, seu corpo fora tomado pela inquietude e avidez.
E  a  mente  traiçoeira  se  enchera  de  imagens  terríveis.  Ele  as  observava  como  se  flutuassem
próximo  ao  teto,  e  ainda  assim  sentia  tudo:  seu  corpo  nu  movendo-se  sobre  uma  forma
feminina flexível, as mãos acariciando e apertando a carne quente, a confusão agradável de
braços  e  pernas,  o  aroma  almiscarado  de  dois  corpos  apaixonados  –  tudo  isso  estivera  ali,
quente e vívido em sua cabeça.
E então ele se movera. Um pouco apenas, talvez para beijar a orelha da mulher cujo rosto
estava oculto. No entanto, quando se afastara para o lado, a fisionomia dela aos poucos ficara
evidente. Primeiro, apareceu uma mecha densa de cabelos castanho-escuros, encaracolando-
se suavemente e fazendo cócegas em seu ombro. Então ele se afastou mais ainda...
E a viu.
Kate Sheffield.
Anthony  acordara  no  mesmo  instante  e  sentara-se  muito  ereto  na  cama,  tremendo
horrorizado. Fora o sonho erótico mais vívido que já tivera.
E seu pior pesadelo.
Tateou  os  lençóis  com  uma  das  mãos,  de  forma  frenética,  temendo  encontrar  a  prova  de
sua  paixão.  Que  Deus  tivesse  piedade  se  ele  realmente  houvesse  ejaculado  enquanto
sonhava com a mais terrível das mulheres que conhecia.
Graças ao Senhor, os lençóis estavam limpos. Assim, com o coração disparado e a respiração
ofegante, ele voltou a se reclinar nos travesseiros com movimentos lentos e cautelosos, como
se isso, de alguma maneira, pudesse evitar a repetição do sonho.
Fitara  o  teto  durante  horas,  primeiro  conjugando  verbos  em  latim  e  depois  contando  até
mil, numa tentativa de manter o cérebro concentrado em algo que não fosse Kate Sheffield.
E, para sua surpresa, conseguira exorcizar a imagem da mente e adormecer.
Mas agora ela voltara. Estava ali. Em sua casa.
Era um pensamento terrível.
E onde diabo estava Edwina? Por que não acompanhara a mãe e a irmã?
Os primeiros acordes de um quarteto de cordas passaram por debaixo da porta, dissonantes
e  confusos.  Sem  dúvida,  era  o  aquecimento  dos  músicos  que  a  mãe  contratara  para
acompanhar Maria Rosso, a última soprano que tomara Londres de assalto.
Anthony  com  certeza  não  dissera  isso  à  mãe,  mas  ele  e  Maria  haviam  tido  um  agradável
interlúdio  da  última  vez  que  ela  viera  à  cidade.  Talvez  ele  devesse  considerar  renovar  a
amizade dos dois. Se a beleza italiana exuberante não curasse o que o afligia, nada poderia.
Ele  se  levantou  e  empertigou  os  ombros,  consciente  de  que  parecia  se  preparar  para  uma
batalha. Droga, era assim que se sentia.  Talvez,  se  tivesse  sorte,  conseguisse  evitar  qualquer
contato com Kate Sheffield. Imaginava que ela não teria interesse em interromper o que quer

que  estivesse  fazendo  para  entabular  uma  conversa  com  ele.  Já  ficara  muito  claro  que  a
opinião que ele tinha dela era recíproca.
Sim, era isso que faria. Evitaria Kate Sheffield. Não podia ser difícil, não é?

CAPÍTULO 6
O  recital  de  Lady  Bridgerton  mostrou  ser,  decididamente,  um  evento  musical  (esta  autora
garante  que  nem  sempre  essa  é  a  regra  nos  recitais).  A  artista  convidada  era  ninguém
menos que Maria Rosso, a soprano italiana que fez sua estreia em Londres há dois anos e
voltou agora depois de um breve período nos palcos de Viena.
Com cabelos volumosos e negros e olhos escuros reluzentes, a Srta. Rosso mostrou ser tão
graciosa  nas  formas  quanto  na  voz,  e  mais  de  um  (na  verdade,  mais  de  uma  dúzia)  dos
chamados  cavalheiros  da  sociedade  teve  muita  dificuldade  em  afastar  os  olhos  de  sua
pessoa, mesmo depois do fim da apresentação.
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ate soube o minuto exato em que ele entrou na sala.
Tentou dizer a si mesma que não tinha nada a ver com uma percepção exaltada do sujeito.
Ele  era  lindo,  e  isso  era  um  fato,  não  uma  opinião.  Kate  tinha  certeza  de  que  todas  as
mulheres tomavam conhecimento de sua presença imediatamente.
Ele  chegou  atrasado.  Só  um  pouco  –  a  soprano  ainda  não  tinha  avançado  muito  na
apresentação. Mas atrasado o suficiente para tentar não fazer barulho ao se sentar em uma
cadeira na primeira fila, perto da família. Kate permaneceu imóvel em seu lugar na parte de
trás,  quase  certa  de  que  ele  não  a  vira  ao  se  acomodar  para  assistir  à  apresentação.  Não
olhara  na  direção  dela  e,  além  disso,  várias  velas  tinham  sido  apagadas,  deixando  a  sala
banhada por um brilho pálido e romântico. As sombras decerto obscureciam seu rosto.
Kate tentou se concentrar na Srta. Rosso durante toda a apresentação. Não adiantou muito,
porém, porque a cantora não tirava os olhos de lorde Bridgerton. De início, Kate pensara que
o  fascínio  da  mulher  pelo  visconde  fosse  fruto  de  sua  imaginação,  mas,  no  meio  da
performance,  não  teve  mais  como  duvidar.  Maria  Rosso  estava  fazendo  ao  visconde  um
convite com os olhos.
Kate não sabia por que isso a incomodava tanto. Afinal, era apenas mais uma prova de que
ele era o libertino que ela sempre soubera que era. Devia se sentir orgulhosa. Vingada.
Em  vez  disso,  tudo  o  que  sentia  era  decepção.  Experimentava  uma  sensação  aguda,
incômoda em seu coração, que a fazia afundar um pouco na cadeira.
Quando  a  apresentação  acabou,  ela  não  pôde  deixar  de  notar  que  a  soprano,  depois  de
receber os aplausos da forma mais graciosa, caminhou descaradamente até o visconde e lhe
ofereceu um daqueles sorrisos sedutores que Kate nunca aprenderia a dar, mesmo que uma
dúzia de cantoras de ópera tentasse lhe ensinar. Não havia como confundir o que a cantora

queria dizer com aquele sorriso.
Por Deus, o sujeito nem precisava ir atrás das mulheres. Elas praticamente caíam a seus pés.
Era nojento. Muito nojento.
Ainda assim, Kate não conseguia parar de olhar.
Lorde  Bridgerton  dirigiu  à  Srta.  Rosso  um  daqueles  seus  meio  sorrisos  misteriosos.  Então
esticou a mão e colocou um cacho dos cabelos negros atrás da orelha dela.
Kate estremeceu.
Ele  tinha  se  inclinado  e  murmurava  algo  em  seu  ouvido.  Kate  sentiu  as  próprias  orelhas
esticando-se  na  direção  deles,  embora  fosse  obviamente  impossível  ouvir  qualquer  coisa
daquela distância.
Mas, ainda assim, era um crime ser tão curiosa? E...
Por Deus, será que ele tinha beijado o pescoço dela? Por certo não faria algo assim na casa
da própria mãe. Bem, ela sabia que a Casa Bridgerton pertencia, tecnicamente, a ele, mas a
mãe  morava  ali,  bem  como  muitos  de  seus  irmãos.  Na  verdade,  o  sujeito  deveria  ter  um
pouco mais de consideração. Algum decoro na presença da família não seria demais.
– Kate? Kate?
Fora  um  beijo  breve,  apenas  uma  roçada  dos  lábios  leve  como  pena  sobre  a  pele  da  Srta.
Rosso, mas ainda assim um beijo.
– Kate!
– Sim! Pois não?
Ela  deu  um  pulo  quando  girou  na  cadeira  para  encarar  Mary,  que  a  observava  com  uma
expressão irritada.
– Pare de olhar para o visconde – sussurrou a madrasta.
–  Eu  não  estava  olhando  para  ele.  Ora,  está  bem,  eu  estava,  mas  você  viu?  –  cochichou
Kate. – É um descarado.
Ela  virou  a  cabeça  para  ele,  que  ainda  flertava  com  Maria  Rosso  e,  obviamente,  não  se
importava com os olhares que atraía.
Mary ficou bem séria e então disse:
– Tenho certeza de que o comportamento dele não é problema nosso.
– Claro que é problema nosso. Ele quer se casar com Edwina.
– Não sabemos se isso é verdade.
Kate lembrou-se de suas conversas com lorde Bridgerton.
– Eu diria que há uma grande probabilidade de ser.
– Bem, pare de vigiá-lo. Com certeza ele não quer nada com você depois do fiasco no Hyde
Park.  Além  disso,  há  um  bom  número  de  cavalheiros  disponíveis  aqui.  Você  faria  um  bem
enorme se parasse de pensar em Edwina o tempo todo e começasse a olhar ao redor.
Kate  sentiu  os  ombros  se  arquearem.  A  mera  ideia  de  tentar  atrair  um  admirador  era
desgastante.  Todos  queriam  Edwina,  de  qualquer  forma.  E,  mesmo  que  ela  não  estivesse
nem um pouco interessada no visconde, se incomodou ao ouvir Mary dizer que tinha certeza

de que ele não queria nada com ela.
Mary  agarrou  o  braço  da  enteada  com  uma  firmeza  que  não  dava  abertura  a  nenhum
protesto.
– Vamos, Kate – falou em voz baixa. – Vamos cumprimentar nossa anfitriã.
Kate engoliu em seco. Lady Bridgerton? Ela teria que falar com Lady Bridgerton? A mãe do
visconde? Já era difícil acreditar que uma criatura como ele tivesse uma mãe.
Contudo, educação era educação, e, por mais que Kate quisesse se dirigir ao saguão e sair
dali, sabia que devia agradecer à anfitriã por preparar uma apresentação tão agradável.
E  fora  mesmo  agradável.  Ainda  que  relutasse  em  admitir,  especialmente  pelo  fato  de  a
mulher em questão estar pendurada no visconde, Maria Rosso tinha a voz de um anjo.
Conduzida com determinação por Mary, Kate chegou à frente do salão e aguardou a vez de
cumprimentar  a  viscondessa.  Ela  parecia  uma  mulher  adorável,  com  cabelos  louros  e  olhos
claros,  e  muito  baixinha  para  gerar  filhos  tão  altos.  O  falecido  visconde  devia  ter  sido  um
homem grande, concluiu.
Enfim  elas  chegaram  à  frente  da  pequena  multidão  e  Lady  Bridgerton  segurou  a  mão  de
Mary.
– Sra. Sheffield – falou com a voz branda –, que prazer vê-la mais uma vez. Gostei tanto de
nosso  encontro  no  baile  de  Hartside,  na  última  semana...  Fico  muito  feliz  que  a  senhora
tenha aceitado meu convite.
– Nem sonharíamos em passar a noite em outro lugar – retrucou Mary. – Gostaria de lhe
apresentar minha filha.
Ela apontou para Kate, que deu um passo à frente e inclinou-se numa mesura respeitosa.
– É um prazer conhecê-la, Srta. Sheffield – disse Lady Bridgerton.
– Sinto-me igualmente honrada – respondeu Kate.
Lady Bridgerton fez um gesto para uma jovem a seu lado.
– E essa é minha filha Eloise.
Kate sorriu de modo afetuoso para a garota, que parecia ter a idade de Edwina. Os cabelos
eram  da  mesma  cor  dos  de  seus  irmãos  mais  velhos  e  o  rosto  estava  iluminado  por  um
sorriso largo e simpático. Kate gostou dela de imediato.
– Como vai, Srta. Bridgerton? – falou Kate. – É sua primeira temporada?
Eloise assentiu.
– Oficialmente, deveria ser apenas no ano que vem, mas minha mãe me permitiu participar
de alguns eventos aqui na Casa Bridgerton.
– Que sorte a sua – comentou Kate. – Eu adoraria ter ido a algumas festas no ano passado.
Nesta primavera, quando cheguei a Londres, tudo era tão novo... Minha cabeça dá um nó só
de tentar lembrar o nome de todos.
Eloise sorriu.
– Na verdade, minha irmã Daphne debutou há dois anos, e descreveu a tudo e a todos com
tantos detalhes que sinto como se já conhecesse praticamente todo mundo.

– Daphne é sua filha mais velha? – perguntou Mary a Lady Bridgerton.
A viscondessa assentiu.
– Casou-se com o duque de Hastings no ano passado.
Mary sorriu.
– A senhora deve ter ficado encantada.
–  Decerto  que  sim.  Ele  é  um  duque,  e,  mais  importante,  é  um  bom  homem,  que  ama
minha filha. Espero apenas que meus outros rebentos tenham casamentos tão maravilhosos
quanto  o  dela.  –  Lady  Bridgerton  inclinou  a  cabeça  levemente  para  o  lado  e  virou-se  para
Kate. – Ouvi dizer, Srta. Sheffield, que sua irmã não pôde vir esta noite.
Kate tentou conter um gemido. Era evidente que Lady Bridgerton já imaginava Anthony e
Edwina caminhando para o altar.
– Infelizmente, ela pegou um resfriado na semana passada.
– Nada sério, espero – disse a viscondessa para Mary, num tom de mãe para mãe.
–  Não,  de  forma  alguma  –  respondeu  Mary.  –  Na  verdade,  ela  está  quase  curada.  Mas
achei  que  deveria  convalescer  por  mais  um  dia  antes  de  sair  ao  ar  livre.  Não  seria  bom  ter
uma recaída.
– Não, claro que não. – Lady Bridgerton fez uma pausa e em seguida sorriu. – Bem, é uma
pena. Eu estava ansiosa para conhecê-la. Edwina, não é?
Kate e Mary assentiram.
– Ouvi dizer que ela é adorável.
Ao mesmo tempo que Lady Bridgerton dizia essas palavras, lançava um olhar para o filho –
que flertava enlouquecidamente com a cantora de ópera italiana – e franzia a testa.
Kate  sentiu  um  embrulho  no  estômago.  De  acordo  com  os  números  recentes  do
Whistledown,  Lady  Bridgerton  estava  em  uma  missão  para  casar  o  filho.  E,  embora  o
visconde não parecesse o tipo de homem que satisfizesse a vontade da mãe (ou de qualquer
pessoa, aliás), Kate tinha a sensação de que a senhora conseguiria exercer alguma pressão, se
quisesse.
Após  alguns  instantes  conversando  sobre  amenidades,  Mary  e  Kate  deixaram  Lady
Bridgerton à vontade para cumprimentar o restante dos convidados. Em pouco tempo, a Sra.
Featherington  –  que,  como  mãe  de  três  filhas  solteiras,  sempre  tinha  muito  a  dizer  a  Mary
sobre uma ampla variedade de assuntos – se aproximou das duas. Mas, enquanto a mulher
gorducha avançava na direção delas, seus olhos pousaram em Kate.
Kate na mesma hora começou a avaliar possíveis rotas de fuga.
–  Kate!  –  gritou  a  mulher.  Havia  muito  ela  se  considerava  íntima  dos  Sheffields.  –  Que
surpresa vê-la por aqui!
– E por que razão, Sra. Featherington? – indagou Kate, confusa.
– Com certeza você leu o Whistledown de hoje.
Kate sorriu sem graça. Ou fazia isso ou se encolhia.
– Ah, a senhora se refere ao pequeno incidente envolvendo meu cachorro?

A Sra. Featherington ergueu as sobrancelhas.
– Pelo que ouvi dizer, foi mais que um “pequeno incidente”.
– Não foi nada de mais – retrucou Kate com firmeza, embora, para dizer a verdade, achasse
difícil não rosnar diante daquela mulher indiscreta. – E devo dizer que fiquei ressentida com
Lady Whistledown por se referir a Newton como um cão de raça indeterminada. Pois saiba a
senhora que ele é um Corgi de raça pura.
– Isso era o menos importante – comentou Mary, enfim tomando a defesa de Kate. – Fico

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