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ficado acordada a noite toda.
Kate  esperou  que  ela  desaparecesse  na  escada,  então  se  dirigiu  à  porta  do  escritório  de
Anthony. Pôs a mão na maçaneta e sussurrou para si mesma:
– Por favor, não esteja trancada.
Para seu alívio, a porta se abriu assim que ela girou a maçaneta.
– Anthony? – chamou.
Sua  voz  era  baixa  e  hesitante,  e  ela  descobriu  que  não  gostava  daquele  tom.  Não  estava
acostumada a falar baixo e com hesitação.
Não  houve  resposta,  então  Kate  entrou  no  aposento.  As  cortinas  estavam  bem  fechadas  e
apenas  uma  luz  suave  passava  pelo  veludo  pesado.  Ela  examinou  o  cômodo  até  seus  olhos
pousarem  sobre  o  vulto  do  marido,  debruçado  na  escrivaninha,  entregue  a  um  sono
profundo.
Cruzou  o  escritório  em  silêncio  em  direção  à  janela  e  abriu  as  cortinas  parcialmente.  Não
queria cegar Anthony quando ele acordasse, mas, ao mesmo tempo, não gostaria de ter uma
conversa tão importante no escuro. Foi até a escrivaninha e tocou seu ombro com delicadeza.
– Anthony? – murmurou. – Anthony?
A resposta foi mais próxima de um ronco que de qualquer outra coisa.
Kate franziu a testa com impaciência e o balançou com um pouco mais de força.
– Anthony? – chamou gentilmente. – Anthon...
Ele acordou com um movimento brusco, despejando uma série de palavras incoerentes ao

empertigar o tronco.
Kate observou-o piscar para clarear a visão e ele enfim focou nela.
–  Kate  –  falou,  com  a  voz  rouca  de  sono  e  de  mais  alguma  coisa...  álcool,  talvez.  –  O  que
você está fazendo aqui?
– O que você está fazendo aqui? – retrucou ela. – Da última vez que verifiquei, você morava
a quase um quilômetro daqui.
– Eu não queria incomodar você – resmungou ele.
Ela não acreditou nisso nem por um segundo, mas decidiu que não queria discutir. Então,
optou pela abordagem direta e perguntou:
– Por que você saiu ontem à noite?
Um  longo  silêncio  pairou  no  cômodo,  seguido  de  um  suspiro  desanimado  e  cansado.
Depois, enfim, Anthony respondeu:
– É complicado.
Kate combateu a vontade de cruzar os braços.
–  Sou  uma  mulher  inteligente  –  disse  ela  resolutamente.  –  Em  geral,  sou  capaz  de
compreender conceitos complexos.
Anthony não pareceu satisfeito com a ironia.
– Não quero discutir isso agora.
– Quando você quer discutir isso?
– Vá para casa, Kate – retrucou ele, em voz baixa.
– Você está planejando ir comigo?
Anthony  deu  um  suspiro  e  passou  a  mão  pelos  cabelos.  Por  Deus,  ela  era  como  um
cachorro  que  não  largava  o  osso.  A  cabeça  dele  latejava,  a  boca  tinha  gosto  de  cabo  de
guarda-chuva,  tudo  o  que  ele  queria  era  jogar  um  pouco  de  água  no  rosto  e  escovar  os
dentes e sua esposa não parava de interrogá-lo...
– Anthony? – insistiu ela.
Era o bastante. Ele se levantou de forma tão abrupta que a cadeira virou para trás e bateu
no chão com um estrondo.
– Você vai parar de fazer perguntas agora mesmo.
Kate contraiu os lábios em uma expressão furiosa. Mas seus olhos...
Anthony engoliu mais uma vez o gosto amargo da culpa.
Porque os olhos dela estavam cheios de dor.
E a angústia do próprio coração aumentou dez vezes.
Ele não estava pronto. Não ainda. Não sabia o que fazer com ela. Não tinha ideia nem do
que  fazer  consigo  mesmo.  Durante  toda  a  sua  vida  –  ou,  pelo  menos,  desde  que  o  pai
falecera  –,  ele  soubera  que  certas  coisas  eram  verdade,  que  certas  coisas  tinham  que  ser
verdade. E agora Kate virara seu mundo de cabeça para baixo.
Ele não queria amá-la. Droga, não queria amar ninguém. Isso era a única coisa que tinha o
poder  de  fazê-lo  temer  a  própria  mortalidade.  E  quanto  a  Kate?  Ele  prometera  amá-la  e

protegê-la. Como conseguiria fazer isso sabendo, durante todo o tempo, que a abandonaria?
Com  certeza,  não  poderia  contar-lhe  sobre  suas  estranhas  convicções.  Ela  o  consideraria
louco,  e  além  disso  só  ficaria  sujeita  à  mesma  dor  e  ao  mesmo  medo  que  o  estavam
destruindo. Seria melhor deixá-la viver numa ignorância feliz.
Ou seria melhor que ela simplesmente não o amasse?
Anthony  não  sabia  a  resposta.  Precisava  de  mais  tempo.  Não  conseguia  pensar  com  Kate
diante de si, com os olhos cheios de dor sondando seu rosto. E...
– Vá embora – falou com a voz abafada. – Só vá embora.
– Não – disse ela com uma determinação tranquila que o fez amá-la ainda mais. – Não até
você me dizer o que o está incomodando.
Ele saiu de trás da escrivaninha e pegou o braço dela.
– Não posso ficar com você agora – falou com a voz rouca, evitando encará-la. – Amanhã.
Vejo você amanhã. Ou depois de amanhã.
– Anthony...
– Preciso de tempo para pensar.
– Sobre o quê? – gritou ela.
– Não torne as coisas mais difíceis do que...
–  Como  poderiam  ficar  mais  difíceis?  –  indagou  ela.  –  Nem  mesmo  sei  sobre  o  que  você
está falando!
– Só preciso de alguns dias – disse ele.
Tinha que pensar para descobrir o que faria, como viveria sua vida.
Mas ela se aproximou dele, encarou-o e tocou seu rosto com tanta ternura que seu coração
doeu.
– Anthony – murmurou ela –, por favor...
Ele não conseguia dizer uma palavra nem emitir qualquer som.
Kate  deslizou  a  mão  para  a  nuca  dele,  puxou-o  para  mais  perto  e...  ele  não  conseguiu  se
controlar. Desejava-a tanto, queria tanto sentir o corpo dela contra o seu, encostar a boca em
sua pele salgada... Queria sentir seu cheiro, tocá-la,  ouvir o som de sua respiração perto de
seu ouvido.
Ela encostou os lábios nos dele, macios e carentes, e sua língua tocou o canto da boca. Seria
tão fácil perder-se nela, deitar no tapete e...
– Não! – gritou Anthony.
A palavra saiu do fundo de sua garganta e, por Deus, ele não tinha ideia de que ela estava
ali até irromper de sua boca.
– Não! – disse mais uma vez, afastando-a. – Não agora.
– Mas...
Ele não a merecia. Não naquele momento. Não ainda. Não até compreender como viveria
o restante de sua vida. E, se isso significava que teria que negar a si mesmo a única coisa que
poderia salvá-lo, que fosse.

– Vá embora! – ordenou, e sua voz soou mais ríspida do que ele pretendia. – Vá! Falo com
você depois.
E, desta vez, ela foi.
Saiu sem olhar para trás.
Anthony, que acabara de descobrir o que era amar, aprendeu o que era morrer por dentro.
Na manhã seguinte, Anthony estava bêbado. À tarde, estava de ressaca.
Sua  cabeça  latejava,  os  ouvidos  zumbiam  e  seus  irmãos,  surpresos  ao  encontrá-lo  naquele
estado no clube, falavam alto demais.
Anthony tapou os ouvidos e gemeu. Todos falavam alto demais.
–  Kate  o  expulsou  de  casa?  –  indagou  Colin,  pegando  uma  noz  de  um  grande  prato  de
estanho no centro da mesa e partindo-a com um som terrível.
Anthony ergueu a cabeça apenas o suficiente para fitá-lo com ar severo.
Benedict observava o irmão mais velho com as sobrancelhas franzidas e um leve sorriso.
– Com certeza ela o expulsou de casa – disse a Colin. – E me passe uma dessas nozes, sim?
Colin jogou uma para ele e perguntou:
– Quer o quebra-nozes também?
Benedict balançou a cabeça e sorriu ao erguer um livro grosso, com capa de couro.
– É muito mais satisfatório esmagá-las assim.
– Nem pense nisso – ameaçou Anthony, esticando o braço para agarrar o livro.
– Pelo jeito seus ouvidos estão sensíveis hoje, não é?
Se Anthony tivesse uma pistola, teria atirado nos dois para silenciá-los.
– Posso lhe dar um conselho? – falou Colin, mastigando a noz.
– Não – retrucou Anthony. Ergueu os olhos e viu Colin mastigando de boca aberta. Como
esse era um hábito estritamente proibido na casa dos Bridgertons, Anthony imaginou que o
irmão  só  estava  fazendo  isso  para  produzir  mais  barulho.  –  Feche  sua  maldita  boca  –
resmungou ele.
Colin engoliu, estalou os lábios e tomou um gole de chá.
–  O  que  quer  que  tenha  feito,  peça  desculpas.  Eu  conheço  você,  e  estou  começando  a
conhecer Kate, e sabendo o que sei...
– De que diabo você está falando? – resmungou Anthony.
–  Creio  –  disse  Benedict,  recostando-se  à  cadeira  –  que  ele  está  dizendo  que  você  é  um
imbecil.
– Exatamente! – exclamou Colin.
Anthony balançou a cabeça, com um ar cansado.
– É mais complicado do que vocês pensam.
– Sempre é – atalhou Benedict, com uma sinceridade fingida.
– Quando os dois idiotas encontrarem mulheres estúpidas o bastante para se casarem com

vocês – interrompeu Anthony –, então vão poder me oferecer algum conselho. Mas até lá...
calem a boca.
Colin olhou para Benedict.
– Você acha que ele está irritado?
Benedict ergueu uma sobrancelha.
– Ou talvez esteja bêbado.
Colin balançou a cabeça.
– Não, bêbado, não. Não mais, ao menos. Pelo jeito, está de ressaca.
– O que explicaria por que está com tanta raiva – raciocinou Benedict, assentindo com um
ar filosófico.
Anthony pressionou as têmporas com o polegar e o dedo do meio.
– Meu Deus – murmurou. – O que posso fazer para vocês dois me deixarem em paz?
– Vá para casa, Anthony – disse Benedict com a voz surpreendemente gentil.
Anthony  fechou  os  olhos  e  deu  um  longo  suspiro.  Não  havia  nada  que  ele  quisesse  mais,
mas não sabia o que dizer a Kate e, mais importante, não fazia ideia de como se sentiria ao
chegar lá.
–  Isso  mesmo  –  concordou  Colin.  –  Vá  para  casa  e  diga  a  ela  que  você  a  ama.  O  que
poderia ser mais simples?
E, de repente, era simples. Ele precisava dizer a Kate que a amava. Naquele instante. Tinha
que se certificar de que ela soubesse, e jurou passar o resto de sua vida miseravelmente curta
demonstrando isso.
Era tarde demais para mudar o destino de seu coração. Tinha tentado não se apaixonar, e
fracassara.  Como  não  era  provável  que  deixasse  de  amar,  poderia  muito  bem  aproveitar  a
situação  ao  máximo.  Quer  Kate  soubesse  ou  não  de  seu  amor  por  ela,  Anthony  seria
assombrado pela premonição da própria morte. Será que ele não seria mais feliz durante seus
últimos anos de vida se a amasse com sinceridade?
Estava  certo  de  que  ela  se  apaixonara  por  ele  também.  Sem  dúvida,  ficaria  feliz  em  ouvir
que  ele  se  sentia  da  mesma  maneira.  Quando  um  homem  amava  uma  mulher  de  verdade,
com todas as fibras do ser, não era um dever divino tentar fazê-la feliz?
No  entanto,  ele  não  lhe  contaria  sobre  suas  premonições.  Qual  seria  o  sentido  disso?  Ele
poderia sofrer pela consciência de que seu tempo juntos seria interrompido, mas por que ela
deveria? Melhor sentir o golpe da dor súbita com sua morte que sofrer com a expectativa.
Ele morreria. Todas as pessoas, lembrou a si mesmo. Só que ele morreria cedo, em vez de
tarde. Mas, por Deus, desfrutaria de seus últimos anos com a máxima intensidade. Teria sido
mais conveniente não se apaixonar, mas, agora que acontecera, ele não se esconderia.
Era  simples:  Kate  era  tudo  para  ele.  Se  negasse  isso,  poderia  muito  bem  parar  de  respirar
imediatamente.
– Tenho que ir – disse ele, levantando-se tão de repente que suas coxas bateram na beirada
da mesa e espalharam cascas de nozes por todos os lados.

– Acho que você deve – murmurou Colin.
Benedict apenas sorriu e falou:
– Vá.
Seus irmãos, Anthony percebeu, eram um pouco mais espertos do que demonstravam.
– Falamos com você daqui a mais ou menos uma semana, certo? – perguntou Colin.
Anthony  teve  que  sorrir.  Ele  e  seus  irmãos  haviam  se  encontrado  todos  os  dias  no  clube
durante  as  últimas  duas  semanas.  A  pergunta  “inocente”  de  Colin  só  podia  significar  uma
coisa: que era óbvio que Anthony entregaria seu coração por completo à esposa e planejava
passar  pelo  menos  os  sete  dias  seguintes  demonstrando  isso  a  ela.  E  que  a  família  que  ele
estava criando tornara-se tão importante quanto aquela na qual nascera.
– Duas semanas – retrucou ele, pegando seu casaco. – Talvez três.
Os irmãos apenas riram.
Contudo, quando Anthony atravessou a porta de casa, quase sem fôlego depois de subir os
degraus de três em três, descobriu que Kate havia saído.
– Aonde ela foi? – perguntou ao mordomo.
Tolamente, ele nem pensara na possibilidade de ela não estar em casa.
– Foi dar um passeio no parque com a irmã e um tal Sr. Bagwell – retrucou o homem.
– O admirador de Edwina – murmurou Anthony para si mesmo.
Droga. Imaginou que devia ficar feliz pela cunhada, porém o momento não podia ser mais
inadequado. Ele tomara uma decisão que mudaria sua vida e a da esposa. Seria bom se ela
estivesse em casa.
– Aquela criatura dela também foi – completou o mordomo, estremecendo.
Ele nunca conseguira tolerar o que considerava a invasão do Corgi a sua casa.
– Quer dizer que ela levou Newton, hã? – murmurou Anthony.
– Imagino que voltarão em uma ou duas horas.
Anthony  bateu  a  ponta  da  bota  no  chão  de  mármore.  Não  queria  esperar  tanto  tempo.
Droga, não queria esperar nem um minuto.
– Vou atrás deles – disse com impaciência. – Não deve ser difícil encontrá-los.
O  mordomo  aprovou,  passou  pela  porta  aberta  e  se  dirigiu  à  pequena  carruagem  na  qual
Anthony chegara em casa.
– O senhor vai precisar de outra carruagem?
Anthony balançou a cabeça.
– Não, vou cavalgando. Será mais rápido.
– Muito bem. – O criado fez uma pequena mesura. – Vou lhe trazer a montaria.
Anthony o observou seguir devagar, com toda a tranquilidade, até os fundos da casa, então
a impaciência o dominou.
– Pode deixar que eu cuido disso sozinho – rosnou.

Em seguida, saiu correndo para pegar o cavalo.
Anthony  estava  confiante  ao  chegar  ao  Hyde  Park.  Mal  podia  esperar  para  encontrar  a
esposa,  segurá-la  nos  braços  e  ver  sua  expressão  quando  lhe  contasse  que  a  amava.  Rezou
para  que  ela  dissesse  algo  que  retribuísse  o  sentimento.  Achava  que  ela  faria  isso  –  vira  o
amor em seus olhos em mais de uma ocasião. Talvez ela estivesse apenas esperando que ele
se  declarasse  primeiro.  Se  fosse  o  caso,  não  podia  culpá-la  depois  do  alarde  que  ele  fizera
sobre o fato de não ser um casamento por amor, dois dias antes da cerimônia.
Ele agira como um idiota.
Ao entrar no parque, decidiu virar a montaria e seguir em direção a Rotten Row. A agitada
trilha parecia o destino mais provável do trio. Kate com certeza não teria razão para encorajar
um caminho mais deserto.
Fez o cavalo diminuir a velocidade a fim de que pudesse conduzi-lo com segurança dentro
dos  limites  do  parque,  tentando  ignorar  os  cumprimentos  e  acenos  de  outros  cavaleiros  e
pedestres.
Então, justo quando acreditou que logo encontraria Kate, ouviu uma voz feminina, idosa e
muito imperiosa chamá-lo:
– Bridgerton! Bridgerton! Pare agora mesmo! Estou falando com você!
Ele  deu  meia-volta  resmungando.  Lady  Danbury,  o  dragão  da  alta  sociedade.  Não  havia
meio  de  ignorá-la.  Ele  não  fazia  ideia  de  quantos  anos  ela  tinha.  Sessenta?  Setenta?  Não
importava a idade, ela era uma força da natureza e ninguém a ignorava.
–  Lady  Danbury  –  falou,  tentando  não  parecer  resignado  ao  controlar  seu  cavalo  –,  que
bom vê-la.
– Meu Deus, rapaz – gritou ela –, você fala como se tivesse acabado de vir de um enterro.
Anime-se!
Anthony deu um sorriso sem graça.
– Onde está sua esposa?
– Estou procurando-a neste momento – retrucou ele. – Ou, pelo menos, estava.
Lady  Danbury  era  muito  inteligente  para  não  ter  entendido  a  indireta,  portanto,  ele  só
podia imaginar que o ignorara de propósito ao dizer:
– Gosto de sua esposa.
– Eu também.
–  Nunca  consegui  entender  por  que  você  quis  cortejar  a  irmã  dela.  Mocinha  bonita,  mas
não era para você. – Ela revirou os olhos e deu um suspiro indignado. – O mundo seria um
lugar muito melhor se as pessoas simplesmente me ouvissem antes de se casar – acrescentou.
– Eu poderia encontrar os pares de todos os que querem se casar em uma semana.
– Tenho certeza de que sim.
Ela estreitou os olhos.

– Você está sendo condescendente?
– Eu nem sonharia com isso – respondeu ele com total sinceridade.
–  Ótimo.  Você  sempre  pareceu  um  rapaz  ajuizado.  Eu...  –  Ela  ficou  boquiaberta.  –  Que
diabo é aquilo?
Anthony  seguiu  o  olhar  horrorizado  de  Lady  Danbury  até  que  deparou  com  uma
carruagem saindo de controle enquanto fazia a curva em duas rodas. Estava muito distante
para que se visse o rosto dos ocupantes, mas então ele ouviu um grito e o latido assustado de
um cachorro.
Seu sangue gelou nas veias.
Sua esposa estava naquela carruagem.
Sem dizer nem sequer uma palavra a Lady Danbury, ele esporeou o cavalo e galopou a toda
a velocidade. Não tinha certeza do que faria  ao se aproximar do veículo. Talvez tomasse as
rédeas  das  mãos  do  infeliz  condutor.  Talvez  conseguisse  retirar  alguém  em  segurança.  A
única coisa que sabia era que não podia ficar parado assistindo à colisão do veículo.
Ainda assim, foi exatamente o que aconteceu.
Anthony estava na metade do caminho até a carruagem desgovernada quando ela mudou
de direção, passou por cima de uma imensa rocha, desequilibrou-se e caiu de lado.
Anthony só pôde observar, horrorizado, enquanto a esposa morria diante de seus olhos.

CAPÍTULO 22
Ao contrário da opinião popular, esta autora sabe muito bem que é considerada cínica.
Mas isso, querida leitora, não poderia estar mais longe da verdade. Esta autora não deseja
mais nada além de um final feliz. E, se isso a torna uma tola romântica, que seja.
C
15
N
o momento em que Anthony alcançou a carruagem tombada, viu que Edwina conseguira
engatinhar para fora dos escombros e usava um pedaço de madeira partido para tentar abrir
um  buraco  do  outro  lado  do  veículo.  A  manga  de  seu  vestido  estava  rasgada  e  a  bainha,
esfarrapada  e  suja,  mas  ela  parecia  não  perceber,  puxando  a  porta  de  forma  frenética.
Newton pulava e se contorcia a seus pés, e seus latidos eram agudos e nervosos.
– O que aconteceu? – perguntou Anthony, apavorado, enquanto descia do cavalo.
–  Não  sei  –  arfou  Edwina,  secando  as  lágrimas.  –  O  Sr.  Bagwell  não  é  um  condutor
experiente,  acho,  e  então  Newton  se  soltou,  e  depois  não  sei  o  que  aconteceu.  Em  um
minuto nós estávamos passeando e, no seguinte...
– Onde está Bagwell?
Ela apontou para o outro lado da carruagem.
– Foi lançado para fora. Bateu a cabeça, mas vai ficar bem. Só que Kate...
–  O  que  aconteceu  com  Kate?  –  Anthony  ajoelhou-se  e  tentou  olhar  para  dentro  dos
destroços. A carruagem tinha rolado, amassando todo o lado direito. – Onde ela está?
Edwina  engoliu  em  seco  várias  vezes  e  sua  voz  era  pouco  mais  que  um  sussurro  quando
falou:
– Acho que está presa embaixo da carruagem.
Nesse momento, Anthony sentiu o gosto da morte. Era amargo, metálico e áspero. Rasgava-
o  por  dentro  como  uma  faca,  sufocando-o  e  oprimindo-o,  expulsando  todo  o  ar  de  seus
pulmões.
Puxou os destroços com toda a força, tentando abrir um buraco maior. A situação não era
tão  grave  quanto  parecera  durante  a  batida,  mas  isso  não  ajudou  a  acalmar  seu  coração
acelerado.
– Kate! – chamou, tentando parecer calmo. – Kate, está me ouvindo?
O único som que obteve em resposta, porém, foi o relinchar agitado dos cavalos. Droga. Ele
teria  que  desatrelá-los  e  soltá-los  antes  que  entrassem  em  pânico  e  começassem  a  tentar
arrastar os destroços.
– Edwina? – disse Anthony com a voz severa, olhando para ela por cima do ombro.

– Sim?
– Você sabe desatrelar os cavalos?
Ela assentiu.
– Não sou muito rápida, mas sei.
Anthony  virou  a  cabeça  na  direção  das  pessoas  que  vinham  correndo  para  ver  o  que
acontecera.
– Veja se alguém pode ajudá-la.
Ela anuiu mais uma vez e começou a seguir suas orientações depressa.
–  Kate?  –  chamou  Anthony  de  novo.  Ele  não  conseguia  vê-la  porque  um  banco  estava
bloqueando a abertura. – Você consegue me ouvir?
Nenhuma resposta.
– Tente do outro lado – sugeriu Edwina, assustada. – A abertura não está tão amassada.
Anthony  se  pôs  de  pé  com  um  pulo  e  correu  por  trás  da  carruagem  até  o  outro  lado.  A
porta  já  saíra  das  dobradiças,  deixando  um  buraco  grande  o  suficiente  para  que  ele
introduzisse o tronco.
– Kate? – gritou, tentando ignorar o som agudo de pânico na própria voz.
Cada expiração que saía de seus lábios parecia muito alta e reverberava no espaço apertado,
lembrando-o de que Kate continuava em silêncio.
Então, ao mover com todo o cuidado a almofada do banco que virara de lado, Anthony a
viu. Ela estava assustadoramente imóvel, mas o pescoço não parecia quebrado e ele não viu
sangue.
Isso  só  podia  ser  um  bom  sinal.  Não  sabia  muito  sobre  medicina,  mas  agarrou-se  a  esse
pensamento como a um milagre.
–  Você  não  pode  morrer,  Kate  –  disse  ele,  puxando  os  destroços,  apavorado,  desesperado
para  abrir  o  buraco  o  suficiente  para  puxá-la  por  ele.  –  Você  está  me  ouvindo?  Não  pode
morrer!
Cortou as costas da mão em um pedaço de madeira irregular, mas nem percebeu o sangue
escorrer enquanto retirava outro pedaço quebrado.
–  É  bom  que  você  esteja  respirando  –  advertiu  ele  com  a  voz  trêmula  e  entrecortada  por
soluços. – Isso não deveria estar acontecendo com você. Nunca deveria acontecer com você.
Não é sua hora, entendeu?
Arrancou outro pedaço quebrado de madeira e esticou o braço pelo buraco que acabara de
abrir para agarrar a mão dela. Conseguiu encontrar seu pulso e sentir seus batimentos, que
pareciam estáveis, mas ainda era impossível dizer se ela estava sangrando, se tinha quebrado
a coluna, se tinha batido a cabeça ou...
Ele  estremeceu.  Havia  tantos  modos  de  perecer...  Se  uma  abelha  podia  derrubar  um
homem no auge da vida, com certeza um acidente de carruagem seria capaz de matar uma
mulher frágil.
Anthony  agarrou  o  último  pedaço  de  madeira  que  se  encontrava  em  seu  caminho  e

ergueu-o, mas ele não cedeu.
– Não faça isso comigo! – murmurou. – Não agora. Não é sua hora. Está me ouvindo? Não
é sua hora! – Ele sentiu as faces úmidas e percebeu que eram lágrimas. – Era para ser eu –
disse, engasgando com as palavras. – Deveria ser eu no seu lugar.
Quando  Anthony  se  preparava  para  dar  outro  puxão  no  último  pedaço  de  madeira,  os
dedos  de  Kate  apertaram  seu  pulso  feito  garras.  Ele  fitou  seu  rosto  e  viu  os  olhos  dela  se
abrirem e clarearem, sem nem piscar.
– De que diabo você está falando? – perguntou ela, parecendo bastante lúcida e totalmente
desperta.
O alívio inundou o peito de Anthony tão rápido que foi quase doloroso.
– Você está bem? – indagou, com a voz trêmula.
Kate fez uma careta e retrucou:
– Vou ficar.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, refletindo sobre a resposta dela.
– Mas o que você está sentindo?
Ela tossiu baixinho e se contraiu de dor.
– Aconteceu alguma coisa com minha perna. Mas não acho que esteja sangrando.
– Você vai desmaiar? Está tonta? Fraca?
Ela balançou a cabeça.
– Só estou sentindo dor. O que você está fazendo aqui?
Ele sorriu em meio às lágrimas.
– Vim atrás de você.
– Veio? – murmurou ela.
Ele assentiu.
–  Vim  para...  isto  é,  eu  percebi...  –  Ele  engoliu  em  seco  várias  vezes.  Nunca  sonhara  que
chegaria o dia em que diria estas palavras a uma mulher e que elas tomariam seu coração de
tal  forma  que  ele  mal  conseguiria  pronunciá-las.  –  Eu  amo  você,  Kate  –  disse,  com  a  voz
embargada.  –  Levei  muito  tempo  para  perceber,  mas  eu  a  amo  e  precisava  lhe  contar  isso
hoje.
Ela deu um sorriso nervoso e fez um gesto com o queixo indicando o restante do corpo.
– Não podia ter aparecido em hora melhor.
Anthony sorriu de volta para ela.
– Quase valeu a pena o fato de eu ter esperado tanto, não é? Se eu tivesse me declarado na
semana passada, hoje não teria vindo atrás de você no parque.
Ela  lhe  deu  a  língua,  o  que,  considerando  as  circunstâncias,  fez  com  que  a  amasse  ainda
mais.
– Apenas me tire daqui.
– Aí você vai dizer que me ama? – provocou ele.
Kate ofereceu-lhe um sorriso caloroso e cheio de desejo e concordou.

Com  certeza,  aquilo  era  tão  bom  quanto  uma  declaração,  e,  embora  ele  estivesse  se
arrastando  em  meio  aos  destroços  de  uma  carruagem  e  Kate  estivesse  presa  no  maldito
veículo, talvez com uma perna quebrada, de repente Anthony foi tomado por uma enorme
sensação de alegria e paz.
Então  percebeu  que  não  se  sentira  assim  por  quase  doze  anos,  desde  a  tarde  fatídica  em
que entrara no quarto dos pais e vira Edmund deitado na cama, gelado e imóvel.
–  Vou  puxar  você  agora  –  falou,  deslizando  os  braços  por  trás  de  suas  costas.  –  Acho  que
sua perna vai doer, mas não posso evitar.
– Já está doendo – retrucou ela com um sorriso corajoso. – Só quero sair daqui.
Anthony  assentiu  com  seriedade,  depois  apoiou  as  mãos  nas  laterais  do  corpo  dela  e
começou a puxar.
–  Como  estão  as  coisas  aí?  –  perguntou,  com  um  aperto  no  coração  cada  vez  que  a  via  se
encolher de dor.
– Bem – disse ela com um ofego, mas podia perceber que só estava fingindo ser corajosa.
– Vou ter que virá-la – observou Anthony.
Seria  difícil  tirá-la  dali.  Não  estava  preocupado  em  rasgar  sua  roupa  –  diabos,  ele  lhe
compraria  uma  centena  de  vestidos  novos  se  ela  lhe  prometesse  nunca  mais  entrar  numa
carruagem conduzida por outra pessoa que não ele. Mas não suportava a ideia de machucá-
la ainda mais. Ela já sofrera o suficiente.
– Você vai precisar ficar de bruços para que eu a puxe – falou. – Você acha que consegue se
virar para que eu possa segurá-la por baixo dos braços?
Ela consentiu, trincando os dentes e girando os quadris da esquerda para a direita.
– Ótimo – disse Anthony com a voz encorajadora. – Agora vou...
– Só faça de uma vez! – berrou Kate. – Não precisa explicar.
– Muito bem – retrucou ele, recuando até que os joelhos estivessem apoiados na grama.
Depois de contar mentalmente até três, cerrou os dentes e começou a puxá-la para fora.
Parou um segundo depois, quando Kate soltou um grito ensurdecedor. Se ele não estivesse
tão  convencido  de  que  morreria  nos  próximos  nove  anos,  poderia  jurar  que  ela  o  fizera
perder dez anos de vida.
– Você está bem? – indagou, preocupado.
– Estou – garantiu ela.
Mas respirava com dificuldade e todo o seu rosto estava tenso de dor.
– O que aconteceu? – perguntou uma voz do lado de fora da carruagem. Era Edwina, que
terminara de desatrelar os cavalos e parecia muito agitada. – Ouvi Kate gritar.
– Edwina? – chamou Kate, esticando o pescoço para tentar ver do lado de fora. – Você está
bem? – Ela puxou a manga de Anthony. – Minha irmã está bem? Está ferida? Precisa de um
médico?
– Ela está bem – respondeu ele. – É você quem precisa de um médico.
– E o Sr. Bagwell?

–  Como  está  o  Sr.  Bagwell?  –  indagou  Anthony  a  Edwina  com  a  voz  ríspida  enquanto  se
concentrava em tirar Kate dos destroços.
– Levou uma pancada na cabeça, mas já está de pé de novo.
– Não foi nada. Posso fazer algo para ajudar? – disse uma voz masculina preocupada.
Anthony tinha a sensação de que o acidente fora muito mais culpa de Newton que do Sr.
Bagwell, mas, ainda assim, o jovem estava na direção na hora do acidente e Anthony não se
sentia muito inclinado a ser bondoso com ele agora.
– Eu aviso se precisar – falou simplesmente, antes de se virar de novo para Kate e observar:
– Bagwell está bem.
– Não acredito que me esqueci de perguntar por eles – comentou Kate.
–  Estou  certo  de  que  seu  lapso  será  perdoado,  considerando  as  circunstâncias  –  garantiu
Anthony,  afastando-se  ainda  mais,  até  ficar  com  o  corpo  quase  todo  do  lado  de  fora  da
carruagem.  Agora  Kate  estava  posicionada  na  abertura,  e  bastaria  apenas  mais  um  puxão  –
muito longo e doloroso – para tirá-la dali.
– Edwina? Edwina? – chamou ela. – Você tem certeza de que não se machucou?
A jovem enfiou o rosto pela abertura.
– Estou bem – afirmou com a voz tranquilizadora. – O Sr. Bagwell foi jogado para fora, e eu
consegui...
Anthony cutucou-a com o cotovelo para que saísse do caminho.
– Trinque os dentes, Kate – ordenou ele.
– O quê? Eu... Aaaaaaaai!
Com  um  único  puxão,  ele  a  livrou  por  completo  dos  destroços  e  ambos  aterrissaram  no
gramado, ofegantes. Porém, se Anthony estava tendo dificuldade para respirar pelo cansaço
extremo, não restava dúvida de que Kate sofria com uma dor intensa.
– Meu Deus! – exclamou Edwina quase gritando. – Veja a perna dela!
Anthony olhou para Kate e sentiu um embrulho no estômago. A perna dela estava torta e
curvada,  evidentemente  quebrada.  Ele  engoliu  em  seco  várias  vezes,  tentando  não
demonstrar preocupação. Pernas fraturadas podiam ser curadas, mas ele também ouvira falar
de homens que perderam os membros por causa de infecções e de um péssimo atendimento
médico.
–  Qual  é  o  problema  com  minha  perna?  –  indagou  Kate.  –  Está  doendo,  mas...  Ah,  meu
Deus!
– É melhor você não olhar – disse Anthony, tentando virar a cabeça dela para o outro lado.
A  respiração  dela,  já  acelerada  pela  tentativa  de  controlar  a  dor,  tornou-se  errática  e
assustada.
– Ah, meu Deus – ofegou. – Dói muito. Não percebi quanto doía até ver...
– Não olhe! – interrompeu Anthony.
– Ah, meu Deus. Ah, meu Deus.
– Kate? – chamou Edwina com a voz preocupada. – Você está bem?

– Olhe para minha perna! – respondeu Kate quase gritando. – Ela parece bem para você?
– Na verdade, eu me referia a seu rosto. Você está meio verde...
Mas Kate não conseguiu responder. Sua respiração tinha se acelerado demais. Então, com
Anthony, Edwina, o Sr. Bagwell e Newton fitando-a, ela revirou os olhos e desmaiou.
Três horas depois, Kate estava deitada em sua cama, sem dúvida não muito confortável, mas
com  um  pouco  menos  de  dor  graças  ao  láudano  que  Anthony  a  forçara  a  tomar  assim  que
chegaram  em  casa.  Sua  perna  tinha  sido  posta  no  lugar  pelos  três  cirurgiões  que  Anthony
chamou (todos eles afirmaram não ser necessário mais do que um cirurgião para pôr um osso
no  lugar,  mas  Anthony  cruzou  os  braços  de  modo  implacável  e  os  encarou  até  que  se
calassem),  e  um  clínico  geral  apareceu  para  deixar  várias  receitas  que  jurou  terem  a
capacidade de acelerar o processo de junção do osso.
Anthony  não  saíra  de  perto  dela,  contestando  cada  movimento  dos  médicos,  até  que  um
deles teve a audácia de perguntar-lhe quando ele recebera o diploma da Faculdade Real de
Medicina.
Anthony não gostara nem um pouco.
Contudo,  depois  de  toda  a  confusão,  a  perna  de  Kate  foi  posta  no  lugar  e  imobilizada.
Agora ela precisaria ficar, na melhor das hipóteses, um mês na cama.
– Na melhor das hipóteses? – resmungou para Anthony quando o último dos cirurgiões se
foi. – Como essa pode ser a melhor das hipóteses?
– Você vai pôr a leitura em dia – sugeriu ele.
Ela  deixou  escapar  um  suspiro  impaciente  pelo  nariz  –  era  difícil  respirar  pela  boca
enquanto trincava os dentes.
– Não sabia que minha leitura estava atrasada.
Se ele sentiu vontade de rir, conseguiu disfarçar muito bem.
– Talvez você possa costurar um pouco.
Ela  apenas  o  olhou  de  cara  feia.  Como  se  a  perspectiva  de  costurar  fosse  fazê-la  sentir-se
melhor.
Anthony sentou-se cautelosamente na beirada da cama e afagou a mão dela.
–  Vou  lhe  fazer  companhia  –  prometeu  com  um  sorriso  encorajador.  –  Já  decidi  reduzir
meu tempo no clube.
Kate suspirou. Estava exausta, com raiva e com dor, e não parava de descontar no marido,
o que não era nada justo. Virou a mão para cima e entrelaçou os dedos nos dele.
– Eu amo você, sabia? – falou baixinho.
Ele  apertou  a  mão  dela,  assentindo,  e  o  calor  de  seus  olhos,  fixos  nos  dela,  era  mais
significativo do que qualquer palavra.
– Você me disse para não amá-lo – comentou Kate.
– Eu fui um idiota.

Ela não negou, e o sorriso dele deixou claro que isso não lhe passou despercebido. Depois
de um instante de silêncio, Kate continuou:
– Você não estava falando coisa com coisa no parque.
Anthony continuou com a mão entrelaçada na dela, mas se afastou um pouco.
– Não sei sobre o que você está falando – retrucou.
– Acho que sabe, sim – disse ela em voz baixa.
Anthony  fechou  os  olhos  por  um  momento,  então  se  levantou,  os  dedos  se  afastando  aos
poucos da mão dela, até que enfim não se tocavam mais. Por tantos anos ele tivera o cuidado
de manter suas estranhas convicções para si mesmo... Sempre lhe parecera a melhor atitude,
porque as pessoas poderiam acreditar nele e ficar preocupadas ou então o considerariam um
louco.
Nenhuma das opções era muito interessante.
Porém,  no  calor  daquele  terrível  momento,  ele  revelou  tudo  à  esposa.  Não  se  lembrava
exatamente  do  que  dissera  no  parque,  mas  fora  o  suficiente  para  despertar  a  curiosidade
dela,  e  Kate  não  era  do  tipo  que  deixasse  para  lá.  Ele  poderia  evitar  quanto  quisesse,  no
entanto uma hora ela conseguiria fazê-lo falar. Ainda não nascera mulher mais teimosa.
Ele  caminhou  até  a  janela  e  inclinou-se  no  peitoril,  olhando  à  frente  com  o  rosto
inexpressivo,  como  se  pudesse  de  fato  ver  os  arredores  através  das  pesadas  cortinas  cor  de
vinho que estavam fechadas havia bastante tempo.
– Há algo a meu respeito que você deveria saber – murmurou.
Ela não disse nada, mas ele soube que o ouvira. Talvez tivesse sido o som que Kate fez ao
mudar de posição na cama, ou talvez a atmosfera no quarto. De alguma maneira, ele soube.
Deu  meia-volta.  Seria  mais  fácil  falar  para  as  cortinas,  mas  ela  merecia  mais  do  que  isso.
Kate  estava  sentada  na  cama,  com  a  perna  machucada  sobre  alguns  travesseiros,  os  olhos
arregalados e o coração cheio de uma mistura dolorosa de curiosidade e preocupação.
– Não sei como lhe contar isso sem parecer ridículo – disse ele.
–  Às  vezes,  a  maneira  mais  fácil  é  apenas  dizer  –  retrucou  ela  baixinho,  dando  tapinhas  a
seu lado na cama. – Quer sentar perto de mim?
Ele balançou a cabeça. A proximidade só tornaria tudo mais difícil.
– Quando meu pai morreu, aconteceu uma coisa comigo – começou.
– Vocês eram muito próximos, não eram?
Ele assentiu.
– Mais do que eu já fui de qualquer outra pessoa, até conhecer você.
Os olhos de Kate brilharam.
– O que aconteceu?
– Foi muito inesperado – respondeu ele. Sua voz era baixa, como se estivesse contando uma
notícia ruim, e não falando sobre o acontecimento mais perturbador de sua vida. – Foi uma
abelha, como eu já lhe disse.
Ela aquiesceu.

– Quem pensaria que uma abelha seria capaz de matar um homem? – perguntou Anthony
com uma risada sarcástica. – Seria engraçado se não fosse tão trágico.
Kate ficou em silêncio. Apenas olhou para o marido com uma compaixão que lhe partiu o
coração.
–  Fiquei  com  ele  a  noite  toda  –  prosseguiu  ele,  virando-se  ligeiramente  para  não  ter  que
encará-la.  –  Ele  estava  morto,  claro,  mas  eu  precisava  de  um  pouco  mais  de  tempo.  Fiquei
apenas  sentado  ao  lado  dele,  observando-o.  –  Deu  uma  risada  raivosa.  –  Meu  Deus,  como
fui tolo... Acho que esperava que fosse abrir os olhos a qualquer momento.
–  Não  acho  que  tenha  sido  tolice  –  retrucou  Kate  em  voz  baixa.  –  Já  vi  a  morte  de  perto
também. É difícil acreditar que alguém se foi quando parece tão normal e tranquilo.
– Não sei quando aconteceu – continuou Anthony –, mas pela manhã eu tinha certeza.
– De que ele estava morto? – quis saber ela.
– Não – disse ele com a voz rouca. – De que eu morreria também.
Ele  esperou  que  ela  respondesse  algo,  que  chorasse,  que  fizesse  alguma  coisa,  porém  Kate
só ficou sentada ali, fitando-o sem nenhuma mudança perceptível na expressão, até que ele
enfim teve que falar:
– Não sou um homem tão bom quanto meu pai foi.
– Talvez ele discordasse disso – sugeriu ela em voz baixa.
– Bem, ele não está aqui para fazer isso, não é? – observou Anthony.
Mais uma vez, Kate ficou em silêncio. E de novo ele se sentiu insignificante.
Praguejou  em  voz  baixa  e  pressionou  as  têmporas  com  os  dedos.  Sua  cabeça  começava  a
latejar. Sentia-se tonto e percebeu que não lembrava a última vez que comera.
– Cabe a mim julgar isso – disse ele baixinho. – Você não o conheceu.
Ele se apoiou na parede com um suspiro longo e cansado, e prosseguiu:
– Apenas deixe-me falar tudo. Não me interrompa nem dê opiniões. Já é difícil o bastante
sem isso. Você pode fazer isso por mim?
Ela concordou.
Anthony inspirou, trêmulo.
– Meu pai foi o melhor homem que conheci. Não há um só dia em que eu não chegue à
conclusão de que não vivo de acordo com os padrões dele. Eu sempre soube que ele era tudo
a que eu poderia almejar. Posso nunca chegar a seus pés, mas, se conseguisse me aproximar
ao menos um pouco de sua grandeza, ficaria satisfeito. Isso é tudo o que eu sempre quis.
Sem  saber  muito  bem  por  quê,  ele  olhou  para  Kate.  Talvez  quisesse  se  tranquilizar,  ou
então buscar sua compreensão. Talvez desejasse apenas ver seu rosto.
–  Se  há  uma  coisa  que  eu  sempre  soube  –  murmurou  ele,  conseguindo  encontrar,  de
alguma  maneira,  coragem  para  encará-la  –,  era  que  jamais  o  superaria.  Nem  mesmo  em
idade.
– O que você está tentando me dizer? – disse ela baixinho.
Ele deu de ombros, impotente.

–  Sei  que  não  faz  sentido  e  que  não  posso  oferecer  nenhuma  explicação  racional,  mas  a
questão  é  que,  desde  a  noite  em  que  me  sentei  com  o  cadáver  de  meu  pai,  soube  que  não
poderia viver mais que ele.
– Entendo – retrucou ela, tranquila.
– Entende?
E então, como se uma represa tivesse se rompido, as palavras jorraram dele. Anthony falou
sobre tudo: por que era tão contrário ao casamento por amor, a inveja que sentira ao ver que
ela conseguira enfrentar seus demônios e vencer.
Observou Kate levar uma das mãos à boca e morder a ponta do polegar. Já a vira fazer isso,
lembrou, sempre que estava perturbada ou muito concentrada nos próprios pensamentos.
– Quantos anos seu pai tinha quando morreu? – perguntou ela.
– Trinta e oito.
– Quantos anos você tem agora?
Ele a olhou com curiosidade. Kate sabia sua idade. Mas, de qualquer maneira, ele disse:
– Vinte e nove.
– Então, pelos seus cálculos, ainda temos nove anos.
– No máximo.
– E você acredita mesmo nisso?
Anthony assentiu.
Ela cerrou os lábios e respirou profundamente. Por fim, depois do que pareceu um silêncio
infinito, voltou a fitá-lo.
– Bem, você está errado.
Curiosamente,  o  tom  objetivo  dela  era  tranquilizador.  Anthony  sentiu  um  dos  cantos  de
sua boca se erguer em um sorriso fraco.
– Você acha que não sei como isso é ridículo?
–  Em  minha  opinião,  não  é  ridículo.  Na  verdade,  parece  uma  reação  bastante  normal,
sobretudo considerando que você adorava seu pai. – Ela deu de ombros e inclinou a cabeça
ligeiramente para o lado. – Ainda assim, está errado.
Anthony não disse nada.
– A morte de seu pai foi um acidente – prosseguiu Kate. – Um acidente. Um acaso terrível
do destino, que ninguém poderia prever.
Ele deu de ombros com um ar fatalista.
– É provável que a mesma coisa aconteça comigo.
–  Ora,  mas  que...  –  Kate  conseguiu  morder  a  língua  uma  fração  de  segundo  antes  de
blasfemar.  –  Anthony,  eu  também  posso  morrer  amanhã.  Poderia  ter  morrido  hoje,  no
acidente com a carruagem.
Ele empalideceu.
– Nem me lembre disso.
– Minha mãe morreu quando eu tinha 3 anos – recordou Kate com rispidez. – Já pensou

nisso? De acordo com seu raciocínio, eu já deveria estar morta.
– Não seja...
– Tola? – completou ela.
O silêncio durou um minuto inteiro.
Finalmente, Anthony disse, pouco mais alto que um sussurro:
– Não sei se posso superar isso.
–  Você  não  precisa  superar  –  retrucou  Kate.  Ela  mordeu  o  lábio  inferior,  que  começara  a
tremer, então pôs a mão a seu lado na cama. – Você poderia vir até aqui para que eu possa
segurar sua mão?
Anthony  obedeceu  de  imediato,  então  o  calor  do  toque  dela  o  invadiu,  penetrando  seu
corpo  até  tocar  sua  alma.  Naquele  momento,  ele  percebeu  que  aquilo  era  muito  mais  que
amor.  Aquela  mulher  fizera  dele  uma  pessoa  melhor.  Ele  era  bom,  forte  e  generoso  antes,
mas, com Kate a seu lado, era algo mais.
Juntos, eles conseguiriam fazer qualquer coisa.
Isso  quase  o  fez  pensar  que  chegar  aos  40  anos  poderia  não  ser  um  sonho  impossível  de
realizar.
– Você não precisa superar – repetiu ela, as palavras pairando com suavidade entre eles. –
Para ser sincera, não vejo como poderia deixar esse medo para trás até completar 39 anos. No
entanto,  o  que  pode  fazer  –  completou,  apertando  sua  mão,  e  Anthony,  por  alguma  razão,
sentiu-se mais forte que alguns instantes atrás – é não permitir que isso domine sua vida.
– Cheguei a essa conclusão hoje de manhã – sussurrou ele –, quando soube que tinha que
lhe dizer que a amava. Mas, de algum modo, agora eu tenho certeza.
Kate assentiu e Anthony viu seus olhos se encherem de lágrimas.
–  Precisamos  viver  cada  momento  como  se  fosse  o  último,  como  se  fôssemos  imortais  –
afirmou  ela.  –  Quando  meu  pai  adoeceu,  tinha  tantos  arrependimentos...  Ele  me  disse  que
havia tantas coisas que queria ter feito... Sempre imaginara que teria mais tempo. Nunca me
esqueci  disso.  Por  que  você  acha  que  resolvi  aprender  a  tocar  flauta  numa  idade  tão
avançada? Todos disseram que eu era velha demais, que para ser realmente boa eu deveria
ter  começado  quando  criança.  Mas  a  questão  é  que  não  preciso  ser  boa.  Só  tenho  que  me
divertir com isso. E saber que tentei.
Anthony sorriu. Ela era uma flautista horrível. Nem Newton suportava ouvi-la.
–  Mas  o  contrário  também  é  verdade  –  acrescentou  Kate  em  voz  baixa.  –  Você  não  pode
evitar novos desafios ou esconder-se do amor porque talvez não esteja aqui para realizar seus
sonhos. No fim, terá tantos arrependimentos quanto meu pai.
–  Eu  não  queria  amá-la  –  murmurou  Anthony.  –  Era  o  que  eu  mais  temia.  Já  estava
bastante  acostumado  a  meu  curioso  modo  de  ver  a  vida.  Era  muito  conveniente,  para  ser
sincero. Mas o amor...
Ele  se  interrompeu,  e  o  som  abafado  que  produziu  parecia  pouco  viril,  deixando  evidente
sua vulnerabilidade. Mas Anthony não se importava, porque era Kate ali com ele.

Não  importava  que  ela  visse  suas  lágrimas  mais  profundas,  porque  Anthony  sabia  que
continuaria amando-o. Era um sentimento sublime de libertação.
–  Eu  conheci  o  amor  verdadeiro  –  continuou  ele.  –  Eu  não  era  o  sujeito  cínico  que  a
sociedade me fazia parecer. Sabia que esse sentimento existia. Minha mãe... meu pai...
Parou mais uma vez e inspirou com dificuldade. Era a coisa mais difícil que já tinha feito. E,
ainda assim, sabia que precisava dizer aquilo. Tinha consciência de que, por mais difícil que
fosse, no fim, seu coração estaria livre.
– Eu tinha tanta certeza de que o amor era a única coisa que poderia fazer isso... isso... essa
consciência  de  mortalidade...–  prosseguiu.  Passou  a  mão  pelos  cabelos,  procurando  as
palavras.  –  O  amor  era  a  única  coisa  que  tornaria  essa  consciência  insuportável.  Como  eu
poderia amar alguém de maneira profunda e verdadeira sabendo que estou condenado?
– Mas você não está condenado – garantiu Kate, apertando sua mão.
– Eu sei. Quando me apaixonei por você, eu soube. Mesmo que eu esteja certo, ainda que
esteja destinado a morrer com a mesma idade de meu pai, sei que não estou condenado. –
Ele se inclinou e deu um beijo de leve nos lábios dela. – Eu tenho você – murmurou –, e não
vou desperdiçar nem um segundo que temos juntos.
Os lábios de Kate se abriram num sorriso.
– O que isso significa?
–  Significa  que  o  amor  não  tem  nada  a  ver  com  o  medo  de  que  tudo  acabe,  mas  com
encontrar alguém que o complete, que faça de  você um ser humano melhor do que jamais
sonhou ser. É olhar nos olhos de sua esposa e ter a certeza de que ela é a melhor pessoa que
você já conheceu.
–  Ah,  Anthony  –  sussurrou  Kate,  com  lágrimas  escorrendo  pelo  rosto.  –  É  assim  que  me
sinto em relação a você.
– Quando achei que você tinha morrido...
– Não diga isso – pediu ela com a voz abafada. – Você não precisa lembrar isso mais uma
vez.
– Não – retrucou ele. – Preciso, sim. Tenho que lhe dizer. Foi a primeira vez, mesmo depois
de  todos  esses  anos  esperando  minha  morte,  que  eu  realmente  soube  o  que  significava
morrer. Porque, se você não tivesse sobrevivido... eu não veria mais motivo para viver. Não
sei como minha mãe aguentou.
– Ela tinha os filhos – recordou Kate. – Não podia abandonar vocês.
– Eu sei – falou Anthony em voz baixa. – Mas a dor que ela deve ter sentido...
– Acho que o coração humano é mais forte do que nós imaginamos.
Anthony  encarou-a  por  um  longo  tempo,  os  olhos  fixos  nos  dela,  até  sentir  que  eles  só
podiam ser uma única pessoa. Então, com a mão trêmula, segurou-a pela nuca e inclinou-se
para beijá-la. Adorava os lábios dela, e ofereceu-lhe todo o amor, a devoção, a reverência e a
oração que sentia em sua alma.
– Eu amo você, Kate – murmurou ele, com os lábios roçando sua boca. – Amo demais.

Ela assentiu, incapaz de dizer qualquer coisa.
– E, neste momento, eu queria... queria...
E  então  a  coisa  mais  estranha  aconteceu.  Uma  gargalhada  jorrou  de  dentro  de  Anthony.
Ele  foi  tomado  pela  felicidade  do  instante  e  rir  foi  tudo  o  que  pôde  fazer  para  não  tomá-la
nos braços e girá-la no ar.
– Anthony? – chamou Kate, parecendo ao mesmo tempo confusa e divertida.
–  Você  sabe  o  que  mais  significa  amar?  –  perguntou  ele  baixinho,  apoiando  as  mãos  nas
laterais de seu corpo e encostando o nariz no dela.
Kate balançou a cabeça.
– Não poderia nem arriscar uma resposta.
– Significa que acho essa sua perna quebrada um grande aborrecimento – resmungou ele.
–  Não  tanto  quanto  eu,  milorde  –  retrucou  ela,  lançando  um  olhar  triste  ao  membro
engessado.
Anthony franziu a testa.
– Nenhum exercício vigoroso pelos próximos dois meses, hein?
– No mínimo.
Ele sorriu e, naquele momento, parecia o libertino que ela certa vez o acusara de ser.
– Com certeza, vou ter que ser muito, muito delicado – murmurou.
– Hoje à noite?
Ele balançou a cabeça.
– Nem eu tenho o talento necessário para me expressar com essa delicadeza.
Kate  deu  uma  risadinha.  Não  pôde  evitar.  Ela  amava  aquele  homem  e  ele  a  amava,  e,
mesmo  que  Anthony  duvidasse  disso,  os  dois  envelheceriam  juntos.  Era  o  suficiente  para
deixar uma garota – apesar da perna quebrada – muito risonha.
– Você está rindo de mim? – indagou ele, arqueando a sobrancelha de modo arrogante ao
se aproximar ainda mais dela.
– Nem sonharia em fazer isso.
– Ótimo. Porque tenho coisas importantes a lhe dizer.
– É mesmo?
Ele concordou com seriedade.
– Posso não poder demonstrar hoje à noite quanto a amo, mas posso lhe dizer isso.
– Nunca me cansarei de ouvir – sussurrou ela.
– Ótimo. Porque, depois que lhe disser, vou falar como gostaria de lhe mostrar isso.
– Anthony! – gritou ela com a voz aguda.
–  Acho  que  começaria  pelo  lóbulo  de  sua  orelha  –  refletiu  ele.  –  Sim,  com  certeza  pelo
lóbulo. Eu o beijaria, depois daria mordidinhas, então...
Kate arfou, em seguida contorceu-se na cama. E se apaixonou por ele mais uma vez.
Enquanto Anthony sussurrava doces bobagens em seu ouvido, ela teve a mais estranha das
sensações, quase como se pudesse ver todo o futuro diante de si. Cada dia seria mais rico e

pleno que o anterior, e em todos eles ela se apaixonaria...
Seria possível apaixonar-se pela mesma pessoa sempre, todos os dias?
Kate  suspirou  ao  se  acomodar  nos  travesseiros  e  deixou  que  aquelas  palavras  maliciosas
tomassem conta dela.
Por Deus, ela ia tentar.

EPÍLOGO
Lorde Bridgerton comemorou seu aniversário – acreditamos que tenha sido o 39º – em casa
com a família.
Esta autora não foi convidada.
De qualquer forma, detalhes da celebração chegaram aos nossos ouvidos atentos, e parece
ter sido uma festa muito divertida. O dia começou com um breve concerto: lorde Bridgerton
no  trompete  e  Lady  Bridgerton  na  flauta.  A  Sra.  Bagwell  (irmã  de  Lady  Bridgerton)
aparentemente ofereceu-se para assumir o piano, mas a oferta foi recusada.
De  acordo  com  a  nobre  viscondessa,  nunca  se  realizou  uma  apresentação  musical  mais
desarmônica,  e  soubemos  que  a  certa  altura  o  jovem  Miles  Bridgerton  subiu  na  cadeira  e
implorou que seus pais parassem de tocar.
Também  ouvimos  dizer  que  ninguém  censurou  o  garoto  por  sua  falta  de  educação.  Ao
contrário, todos deram suspiros de alívio quando seus progenitores puseram os instrumentos
de lado.
C
17

 
E
la só pode ter um espião na família – disse Anthony à esposa, balançando a cabeça.
Kate riu enquanto escovava os cabelos, preparando-se para deitar-se.
– Ela não percebeu que seu aniversário é hoje, não ontem.
– Apenas um detalhe – resmungou ele. – Ela deve ter um espião. Não há outra explicação.
– Todo o resto está correto – observou Kate. – Vou lhe contar uma coisa: sempre admirei
essa mulher.
– Não tocamos tão mal assim – protestou Anthony.
– Foi horrível. – Ela colocou a escova de lado e foi até ele. – Nunca tocamos bem. Mas, pelo
menos, tentamos.
Anthony  pôs  os  braços  ao  redor  da  cintura  da  esposa  e  apoiou  o  queixo  no  alto  de  sua
cabeça.  Poucas  coisas  lhe  deixavam  mais  em  paz  que  segurá-la  nos  braços.  Ele  não  sabia
como um homem conseguia sobreviver sem amar uma mulher.
– Já é quase meia-noite – murmurou Kate. – Seu aniversário está quase acabando.
Anthony assentiu. Trinta e nove anos. Nunca pensara que veria esse dia.
Não. Isso não era verdade. Desde o momento em que deixara Kate entrar em seu coração,
seus  temores  foram  desaparecendo  aos  poucos.  Ainda  assim,  era  bom  fazer  39  anos.
Tranquilizador. Ele passara boa parte do dia no escritório, fitando o retrato do pai. E então
falara  com  ele.  Durante  incontáveis  horas,  conversara  com  Edmund.  Contara-lhe  sobre  os

três  filhos,  o  casamento  dos  irmãos  e  os  filhos  deles.  Falara  sobre  a  mãe  e  contara  que  ela
recentemente começara a pintar com tinta a óleo – e que, na verdade, era bastante talentosa.
E falara sobre Kate – sobre como ela libertara sua alma e como ele a amava.
Isso sempre fora, Anthony percebeu, o que o pai desejara para ele.
O  relógio  na  lareira  começou  a  tocar,  mas  nem  Anthony  nem  Kate  falaram  até  a  12ª
badalada.
– Então é isso – murmurou ela.
Ele aquiesceu.
– Vamos para a cama.
Kate se afastou e ele pôde ver que sorria.
– É assim que você quer comemorar? – disse ela.
Ele segurou sua mão e levou-a aos lábios.
– Não consigo imaginar modo melhor. E você?
Kate balançou a cabeça, então deu uma risadinha ao correr para a cama.
– Você leu o que mais ela escreveu na coluna?
– A tal Whistledown?
Ela concordou.
Anthony pôs as mãos nas laterais do corpo da esposa e a fitou de esguelha.
– Era sobre nós?
Kate negou com a cabeça.
– Então não me interessa – retrucou ele.
– Era sobre Colin.
Anthony soltou um suspiro.
– Ela parece escrever um bocado sobre Colin.
– Talvez goste dele – sugeriu Kate.
– Lady Whistledown? – Ele revirou os olhos. – Aquela velhota tagarela?
– Talvez não seja velha.
Anthony deu uma risada irônica.
– Ela é uma velhota encarquilhada e você sabe disso.
– Não sei, não – disse Kate, soltando-se das mãos dele e indo para debaixo das cobertas. –
Eu acho que ela pode ser jovem.
– E eu acho – anunciou Anthony – que não quero falar sobre Lady Whistledown.
Kate sorriu.
– Não?
Ele deslizou na cama para o lado dela e pousou os dedos na curva de seu quadril.
– Tenho coisas melhores para fazer.
– Ah, é?
– Muito melhores. – Seus lábios encontraram a orelha dela. – Infinitamente melhores.

Em um quarto pequeno e decorado com elegância, não muito distante da Casa Bridgerton,
uma mulher – não mais nos primeiros anos da juventude, mas com certeza nem um pouco
enrugada e velha – sentava-se à escrivaninha com uma pena e um vidrinho de tinta e pegava
uma folha de papel.
Alongando o pescoço para um lado e para o outro, pousou a pena sobre o papel e escreveu:
Crônicas da sociedade de Lady Whistledown, 19 de setembro de 1823
Ah, querida leitora, chegou aos ouvidos desta autora...

CARTA DA AUTORA
P
rezado leitor,
Vamos  encarar  os  fatos:  lemos  romances  para  nos  apaixonar.  Sobretudo  pelo  herói.  Sem
dúvida, as heroínas são importantes – na verdade, em minha opinião, se a mocinha não for
alguém que poderia ser minha melhor amiga, o livro não faz sentido.
No  entanto,  com  os  heróis,  a  história  é  outra.  Espero  que  fique  bem  claro  que  amo  meu
marido  (apesar  do  tempo  que  ele  levou  para  “consertar”  meu  computador),  mas  lamento:
dê-me Orgulho e preconceito e vou me apaixonar sempre pelo Sr. Darcy.
Foi  por  isso  que,  quando  me  sentei  para  escrever  O  visconde  que  me  amava,  estava
radiante.  Passaria  os  seis  meses  seguintes  com  Anthony  Bridgerton,  um  personagem  que  já
conhecia  e  por  quem  me  apaixonei  em  O  duque  e  eu.  Ele  era  lindo,  inteligente,  e  sempre
conseguia tudo o que queria. Em outras palavras: o perfeito herói romântico.
Mas  não  gosto  de  personagens  perfeitos.  A  perfeição  leva  ao  tédio  e,  em  minha  opinião,
não  constrói  grandes  romances.  Por  isso,  tomei  uma  decisão.  Anthony  ainda  seria  lindo  e
inteligente,  porém  não  mais  perfeito.  E,  desta  vez,  definitivamente  não  conseguiria  tudo  o
que queria.
A reação dele à morte do pai é muito comum, sobretudo entre o sexo masculino. (Em um
grau  muito  inferior,  mulheres  que  perderam  a  mãe  cedo  respondem  de  maneira
semelhante.)  Homens  na  situação  de  Anthony  costumam  sentir-se  dominados  pela  certeza
de  que  terão  o  mesmo  destino.  Muitas  vezes,  sabem  que  seus  medos  são  irracionais,  mas  é
quase  impossível  conseguirem  superá-lo  até  que  cheguem  à  idade  da  morte  do  pai  –  ou  a
ultrapassem.
Como a maioria de meus leitores é do sexo feminino, e como o problema de Anthony é –
para usar uma expressão moderna – “coisa de homem”, tive medo de que as mulheres não se
solidarizassem  com  a  situação  dele.  Como  autora  de  romances,  vejo-me  com  frequência
cruzando  um  limite  tênue  entre  criar  heróis  totalmente  heroicos  e  fazê-los  reais.  Com
Anthony,  espero  ter  chegado  a  um  equilíbrio.  É  fácil  olhar  de  cara  feia  para  um  livro  e
resmungar: “Supere isso!”, mas a verdade é que, para grande parte dos homens, não é fácil
“resolver” a morte súbita e prematura de um pai amado.
As leitoras mais atentas perceberão que a picada de abelha que matou Edmund Bridgerton
foi, na verdade, a segunda que ele levou na vida. O que aconteceu é verossímil do ponto de
vista  médico  –  alergias  a  picadas  de  abelha  não  se  manifestam,  em  geral,  até  a  segunda
ocorrência. Como Anthony só foi picado uma vez na vida, é impossível saber se ele é alérgico
ou  não.  Como  autora  deste  livro,  porém,  gostaria  de  acreditar  que  tenho  certo  controle
criativo sobre o quadro de saúde de meus personagens, por isso decidi que Anthony não tem

alergia alguma e que, além disso, viverá até os 92 anos.
Com amor,

CONHEÇA O PRÓXIMO LIVRO DA SÉRIE
Um perfeito cavalheiro

 
 
A temporada de 1815 já começou e, embora se pudesse crer que todas as conversas seriam
em  torno  de  Wellington  e  Waterloo,  na  verdade  houve  poucas  mudanças  em  relação  às
conversas do ano anterior, que giravam em torno do eterno tema da sociedade...
Como  sempre,  as  esperanças  matrimoniais  das  debutantes  estão  centradas  na  família
Bridgerton, mais especificamente no mais velho dos irmãos solteiros, Benedict. Ele pode não
possuir um título, mas o rosto bonito, a forma agradável e o bolso cheio parecem compensar
tranquilamente  essa  falha.  Na  verdade,  em  mais  de  uma  ocasião  esta  autora  ouviu  uma
mamãe  ambiciosa  dizendo  sobre  a  filha:  “Ela  vai  se  casar  com  um  duque...  ou  um
Bridgerton.”
De  sua  parte,  o  Sr.  Bridgerton  parece  bastante  desinteressado  das  jovens  frequentadoras
dos eventos sociais. Ele comparece a quase todas as festas e, no entanto, tudo que faz é olhar
para as portas, provavelmente esperando alguém especial.
Quem sabe...
Uma noiva potencial.
C
12
PRÓLOGO
T
odo mundo sabia que Sophie Beckett era uma bastarda.
Todos  os  criados  sabiam.  Mas  amavam  a  pequena  Sophie.  Eles  a  amaram  desde  que  ela
chegou a Penwood Park aos 3 anos de idade, uma trouxinha enrolada num casaco enorme,
deixada nos degraus de entrada da casa numa  noite chuvosa de julho. E, como a amavam,
fingiam que ela era exatamente o que o sexto conde de Penwood dizia que ela era – a filha
órfã  de  um  velho  amigo.  Não  importava  que  os  olhos  verde-musgo  e  os  cabelos  louro-
escuros de Sophie fossem incrivelmente parecidos com o da recém-falecida mãe do conde ou
que seu sorriso fosse uma réplica precisa do da irmã dele. Ninguém queria magoar Sophie –
ou arriscar o emprego – fazendo esse tipo de observação.
O conde, um certo Richard Gunningworth, nunca falava sobre Sophie ou suas origens, mas
ele devia saber que ela era sua bastarda. Ninguém tinha conhecimento do que estava escrito
na carta que a governanta encontrara no bolso da menina quando ela foi descoberta naquela
noite  chuvosa.  O  conde  queimara  a  missiva  segundos  depois  de  ler.  Ficou  observando  o
papel desaparecer nas chamas e então ordenou que um quarto fosse preparado para Sophie

perto da ala infantil. Foi onde ela permaneceu desde então. Ele a chamava de Sophia e ela o
chamava de “milorde”, e eles se viam algumas vezes por ano, sempre que o conde voltava de
Londres, o que não era muito frequente.
Mas  talvez  o  mais  importante  fosse  que  Sophie  sabia  que  era  uma  bastarda.  Não  tinha
muita  certeza  como,  mas  sabia,  e  provavelmente  soubera  durante  toda  a  vida.  Ela  tinha
poucas lembranças da vida antes de sua chegada a Penwood Park, mas se lembrava de uma
longa  viagem  de  carruagem  pela  Inglaterra  e  se  lembrava  da  avó,  tossindo  e  arfando,
terrivelmente  magra,  dizendo  que  ela  ia  viver  com  seu  pai.  Mais  do  que  tudo,  ela  se
lembrava  de  ficar  parada  nos  degraus  de  entrada  sob  a  chuva,  sabendo  que  a  avó  estava
escondida nos arbustos esperando para ver se Sophie era levada para dentro da casa.
O  conde  tocou  o  queixo  da  menininha,  virou  seu  rosto  para  a  luz  e  naquele  momento  os
dois souberam a verdade.
Todo  mundo  sabia  que  Sophie  era  uma  bastarda,  ninguém  falava  sobre  isso,  e  todos
estavam satisfeitos com esse esquema.
Até que o conde decidiu se casar.
Sophie  ficou  muito  alegre  quando  soube  da  novidade.  A  governanta  contou  que  o
mordomo  dissera  que  a  secretária  do  conde  disera  que  o  conde  estava  planejando  passar
mais  tempo  em  Penwood  Park,  agora  que  se  tornaria  um  homem  de  família.  E  embora
Sophie  não  sentisse  exatamente  falta  do  conde  quando  ele  não  estava  em  casa  –  era  difícil
sentir  saudade  de  alguém  que  não  prestava  muita  atenção  a  ela  mesmo  quando  estava
presente  –,  ela  achava  que  poderia  sentir  sua  falta  se  tivesse  a  oportunidade  de  conhecê-lo
melhor e que, se isso acontecesse, talvez ele não viajasse tanto. Além disso, a arrumadeira do
andar de cima dissera que a governanta comentara que o mordomo dos vizinhos dissera que
a pretendente do conde já tinha duas filhas e que elas tinham mais ou menos a mesma idade
de Sophie.
Depois  de  sete  anos  sozinha  na  ala  infantil,  Sophie  estava  encantada.  Ao  contrário  das
outras  crianças  do  distrito,  ela  nunca  era  convidada  para  festas  e  eventos  locais.  Ninguém
chegava a chamá-la de bastarda – já que fazer isso seria o equivalente a chamar o conde, que
fizera a declaração de que a menina era sua tutelada e depois nunca mais tocara no assunto
novamente, de mentiroso.
Mas, ao mesmo tempo, o conde nunca fez qualquer grande tentativa de forçar a aceitação
de Sophie. Assim, aos 10 anos, os melhores amigos da menina eram lacaios e criadas, e seus
pais poderiam muito bem ser a governanta e o mordomo.
Mas agora ela iria ganhar irmãs de verdade.
Ah, ela sabia que não poderia chamá-las de irmãs. Sabia que seria apresentada como Sophia
Maria  Beckett,  a  tutelada  do  conde,  mas  elas  pareceriam  irmãs.  E  isso  era  o  que  realmente
importava.
Assim,  numa  tarde  de  fevereiro,  Sophie  se  viu  esperando  no  grande  hall  junto  com  a
criadagem reunida, esperando pela janela que a carruagem do conde parasse na entrada da

casa trazendo a nova condessa e suas duas filhas. E, é claro, o conde.
–  Você  acha  que  ela  vai  gostar  de  mim?  –  sussurrou  Sophie  para  a  Sra.  Gibbons,  a
governanta. – A esposa do conde, quero dizer.
– É claro que ela vai gostar de você, querida – murmurou a Sra. Gibbons em resposta. Mas
seu  olhar  não  tinha  tanta  certeza  quanto  seu  tom  de  voz.  A  nova  condessa  poderia  não
gostar da presença da filha ilegítima do marido.
– E eu vou ter aulas com as filhas dela?
– Não há por que vocês terem aulas separadas.
Sophie  assentiu  pensativamente,  e  então  começou  a  se  contorcer  quando  viu  a  carruagem
chegando.
– Eles chegaram! – sussurrou ela.
A Sra. Gibbons estendeu a mão para acariciar sua cabeça, mas Sophie já havia corrido até a
janela, praticamente colando o rosto ao vidro.
O conde desceu primeiro, estendeu a mão e então ajudou as duas menininhas a descerem.
As duas estavam vestindo casacos pretos iguais. Uma tinha um laço cor-de-rosa na cabeça, a
outra, um laço amarelo. Então, depois que as duas meninas se afastaram, o conde estendeu a
mão para ajudar uma última pessoa a descer da carruagem.
Sophie prendeu a respiração enquanto esperava que a nova condessa aparecesse. Cruzou os
dedinhos e sussurrou um único “Por favor”, bem baixinho.
“Por favor, faça com que ela me ame.”
Se  a  condessa  a  amasse,  talvez  o  conde  também  pudesse  amá-la.  E,  quem  sabe,  não  a
chamaria de filha, tratando-a como tal, e eles formariam uma verdadeira família.
Com  Sophie  observando  pela  janela,  a  nova  condessa  desceu  da  carruagem.  Seus
movimentos eram tão graciosos e sutis que a menina pensou na delicada cotovia que às vezes
ia  se  banhar  na  fonte  de  pássaros  do  jardim.  O  chapéu  da  recém-chegada  inclusive  era
enfeitado por uma longa pena, e sua pluma turquesa reluzia sob o débil sol de inverno.
–  Ela  é  linda  –  sussurrou  Sophie,  que  olhou  rapidamente  para  a  Sra.  Gibbons,  tentando
avaliar  a  reação  dela,  mas  a  governanta  estava  parada,  muito  atenta,  com  os  olhos  fixos  à
frente,  esperando  que  o  conde  levasse  a  nova  família  para  dentro  de  casa  e  fizesse  as
apresentações.
Sophie  engoliu  em  seco,  não  exatamente  certa  sobre  onde  deveria  ficar.  Todos  os  demais
pareciam ter um lugar designado. Os criados estavam alinhados de acordo com a posição, do
mordomo até a mais rasa faxineira. Até mesmo os cães estavam obedientemente sentados no
canto, com as guias bem presas pelo cuidador.
Mas Sophie não tinha raízes. Se fosse verdadeiramente a filha da casa, estaria parada com
sua tutora, esperando pela nova condessa. Se fosse realmente a tutelada do conde, estaria no
mesmo  lugar.  Mas  Srta.  Timmons  havia  pegado  um  resfriado  e  se  recusara  a  deixar  a  ala
infantil  e  descer.  Nenhum  dos  criados  acreditou  por  um  instante  que  a  tutora  estivesse
realmente  doente.  Ela  estava  perfeitamente  bem  na  noite  anterior,  mas  ninguém  a  culpou

pelo  fingimento.  Sophie  era,  afinal,  a  bastarda  do  conde,  e  ninguém  queria  ser  a  pessoa  a
fazer um insulto potencial à nova condessa apresentando-lhe a filha ilegítima do marido.
E a condessa teria de ser cega, burra ou as duas coisas para não se dar conta num instante
de que Sophie era algo mais do que a tutelada do conde.
Subitamente  dominada  pela  timidez,  Sophie  se  encolheu  num  canto  quando  dois  lacaios
abriram  as  portas  da  frente  com  um  floreio.  As  duas  meninas  entraram  primeiro  e  então
foram para o lado, enquanto o conde convidava a condessa a entrar. Ele apresentou a esposa
e as filhas ao mordomo, e o mordomo as apresentou aos criados.
E Sophie ficou esperando.
O mordomo apresentou os lacaios, o chef, a governanta, os cavalariços.
E Sophie ficou esperando.
Ele apresentou as criadas da cozinha, as criadas do andar de cima, as arrumadeiras.
E Sophie ficou esperando.
E  então,  finalmente,  o  mordomo  –  que  se  chamava  Rumsey  –  apresentou  a  criada  de
menor  posição,  uma  arrumadeira  chamada  Dulcie,  que  havia  sido  contratada  apenas  uma
semana  antes.  O  conde  fez  um  aceno  de  cabeça,  murmurou  um  agradecimento,  e  Sophie
ainda estava esperando, absolutamente sem saber o que fazer.
Então ela limpou a garganta e deu um passo à frente com um sorriso nervoso nos lábios. Ela
não  passava  muito  tempo  com  o  conde,  mas  era  levada  para  vê-lo  sempre  que  ele  visitava
Penwood  Park,  e  ele  sempre  lhe  dedicava  alguns  minutos  de  seu  tempo,  perguntando-lhe
sobre as lições antes de mandá-la de volta para a ala infantil.
Ele certamente ainda iria querer saber como estavam indo seus estudos, mesmo agora que
estava  casado.  Ele  certamente  iria  querer  saber  que  ela  havia  dominado  a  ciência  da
multiplicação  de  frações  e  que  a  Srta.  Timmons  havia  afirmado  recentemente  que  seu
sotaque francês era “perfeito”.
Mas ele estava ocupado dizendo alguma coisa às filhas da condessa e não a escutou. Sophie
limpou a garganta novamente, desta vez mais alto, e disse:
– Milorde? – numa voz que saiu um pouco mais esganiçada do que ela pretendia.
O conde se virou.
– Ah, Sophia – murmurou ele. – Eu não vi que você estava aqui.
Sophie ficou radiante. Ele não a estava ignorando, afinal.
– E quem é essa? – perguntou a condessa, dando um passo à frente para olhar melhor.
– É a minha tutelada – respondeu o conde. – Srta. Sophia Beckett.
A condessa olhou para Sophie e a avaliou. Então seus olhos se estreitaram.
E se estreitaram.
E se estreitaram um pouco mais.
– Entendo – disse por fim.
E todo mundo que estava na sala soube imediatamente que ela entendia mesmo.
–  Rosamund  –  disse  a  condessa,  virando-se  para  suas  duas  meninas  –,  Posy,  venham

comigo.
As meninas foram imediatamente para o lado da mãe. Sophie arriscou um sorriso para elas.
A menorzinha sorriu de volta, mas a mais velha, que tinha os cabelos cor de ouro, pegou a
deixa da mãe, empinou o nariz e olhou com firmeza para outro lado.
Sophie  engoliu  em  seco  e  sorriu  de  novo  para  a  menina  amistosa,  mas  dessa  vez  a
menininha mordeu o lábio inferior com indecisão e então olhou para o chão.
A condessa se virou de costas para Sophie e disse ao conde:
– Imagino que tenha mandado preparar quartos para Rosamund e Posy.
Ele assentiu.
– Perto da ala infantil. Bem ao lado do de Sophie.
Houve um longo silêncio, e então a condessa deve ter decidido que algumas batalhas não
deveriam ser travadas na frente dos criados, porque tudo o que disse foi:
– Eu gostaria de subir agora.
E saiu, levando o conde e as filhas com ela.
Sophie observou a nova família subindo a escada e, então, quando eles desapareceram, ela
se virou para a Sra. Gibbons e perguntou:
–  Você  acha  que  eu  devo  subir  para  ajudar?  Eu  poderia  mostrar  a  ala  infantil  para  as
meninas.
A Sra. Gibbons balançou a cabeça.
– Elas parecem cansadas – mentiu. – Estou certa de que estão precisando de um cochilo.
Sophie  franziu  a  testa.  Disseram  a  ela  que  Rosamund  tinha  11  anos,  e  Posy,  10.  Elas
certamente estavam um pouco velhas para tirar cochilos durante o dia.
A Sra. Gibbons deu uns tapinhas em suas costas.
– Por que você não vem comigo? Seria bom ter um pouco de companhia, e a cozinheira me
contou que acabou de preparar uma fornada de amanteigados. Acho que ainda está quente.
Sophie  assentiu  e  a  seguiu.  Teria  bastante  tempo  para  conhecer  as  duas  meninas  naquela
noite.  Ela  lhes  mostraria  a  ala  infantil,  e  então  elas  se  tornariam  amigas.  E  não  demoraria
muito para que fossem como irmãs.
Sophie sorriu. Seria uma glória ter irmãs.
Acontece que Sophie não encontrou Rosamund e Posy – ou o conde e a condessa, inclusive
– até o dia seguinte. Quando entrou na ala infantil para jantar, percebeu que a mesa havia
sido posta para dois, não para quatro, e a Srta. Timmons (que milagrosamente se recuperara
do mal-estar) disse que a nova condessa havia lhe informado que Rosamund e Posy estavam
cansadas demais da viagem para comer naquela noite.
Mas  as  meninas  precisavam  ter  aulas.  Assim,  na  manhã  seguinte,  chegaram  à  ala  infantil,
vindo  logo  atrás  da  condessa.  Sophie  já  estava  fazendo  suas  atividades  havia  uma  hora  e
levantou  o  olhar  da  lição  de  aritmética  bastante  interessada.  Dessa  vez,  não  sorriu  para  as

meninas.
De alguma maneira, parecia melhor não sorrir.
– Srta. Timmons – disse a condessa.
Srta. Timmons fez um aceno de cabeça e murmurou:
– Milady.
– O conde me disse que você ensinará as minhas filhas.
– Farei o melhor possível, milady.
A  condessa  fez  um  sinal  para  a  menina  mais  velha,  a  que  tinha  cabelos  dourados  e  olhos
azuis. Sophie pensou que ela era tão bonita quanto a boneca de porcelana que o conde havia
mandado de Londres para seu aniversário de 7 anos.
– Esta – informou – é Rosamund. Ela tem 11 anos. E esta – ela fez então um sinal para a
outra menina, que não havia tirado os olhos dos sapatos – é Posy. Ela tem 10.
Sophie olhou para Posy com muito interesse. Ao contrário da mãe e da irmã, ela tinha os
cabelos e os olhos muito escuros e o rosto um pouco rechonchudo.
– Sophie também tem 10 anos – respondeu a Srta. Timmons.
A condessa apertou os lábios.
– Eu gostaria que você mostrasse a casa e o jardim para as meninas.
A Srta. Timmons assentiu.
– Muito bem. Sophie, deixe sua lousa aí. Poderemos retornar à aritmética...
– Apenas as minhas meninas – interrompeu a condessa, com a voz de certa forma quente e
fria ao mesmo tempo. – Quero falar com Sophie a sós.
Sophie  engoliu  em  seco  e  tentou  fitar  os  olhos  da  condessa,  mas  não  conseguiu  passar  do
queixo.  Enquanto  a  Srta.  Timmons  levava  Rosamund  e  Posy  para  fora  da  sala,  ela  se
levantou, aguardando novas orientações da nova esposa do pai.
– Eu sei quem você é – disse a condessa no instante em que a porta se fechou.
– M-milady?
– Você é a bastarda dele, e não tente negar.
Sophie  não  disse  nada.  Era  a  verdade,  é  claro,  mas  ninguém  jamais  havia  falado  em  voz
alta. Pelo menos não diretamente a ela.
A condessa segurou o queixo de Sophie, apertou e puxou até que Sophie foi forçada a olhá-
la nos olhos.
– Ouça bem – disse ela, em tom ameaçador. – Você pode viver aqui em Penwood Park e
pode ter aulas com as minhas filhas, mas não passa de uma bastarda, e é tudo o que sempre
será. Nunca, jamais, cometa o erro de pensar que é tão boa quanto o restante de nós.
Sophie  soltou  um  pequeno  gemido.  As  unhas  da  condessa  estavam  machucando  seu
queixo.
–  O  meu  marido  –  continuou  a  condessa  –  tem  uma  espécie  de  dever  equivocado  em
relação  a  você.  É  admirável  da  parte  dele  assumir  os  próprios  erros,  mas  para  mim  é  um
insulto  tê-la  na  minha  casa  alimentada,  vestida  e  educada  como  se  fosse  sua  filha  de

verdade.
Mas ela era filha dele de verdade. E aquela casa era dela muito antes de ser da condessa.
Abruptamente, a condessa soltou o queixo de Sophie.
–  Eu  não  quero  ver  você  –  sibilou  ela.  –  Você  nunca  deve  falar  comigo  e  deve  tratar  de
nunca estar perto de mim. Além disso, não deve falar com Rosamund e Posy fora das aulas.
Elas são as filhas da casa agora, e não devem ter de se associar a gente da sua laia. Você tem
alguma pergunta?
Sophie negou com a cabeça.
– Ótimo.
Com isso, ela saiu da sala, deixando Sophie com as pernas bambas, os lábios trêmulos...
E um monte de lágrimas.
Com  o  tempo,  Sophie  aprendeu  um  pouco  mais  sobre  sua  posição  precária  na  casa.  Os
criados sempre sabiam de tudo, e tudo acabava chegando aos ouvidos dela.
A condessa, cujo nome de batismo era Araminta, insistira naquele primeiro dia que Sophie
fosse  retirada  da  casa.  O  conde  se  recusara  a  obedecê-la.  Araminta  não  precisava  amar
Sophie, ele dissera friamente. Não precisava sequer gostar dela. Mas teria de suportá-la. Ele
havia  reconhecido  sua  responsabilidade  para  com  a  menina  durante  sete  anos  e  não  iria
parar agora.
Rosamund e Posy obedeceram às ordens de Araminta e trataram Sophie com hostilidade e
desdém, embora o coração de Posy claramente não fosse afeito a tortura e crueldade como o
de  Rosamund.  Esta  última  adorava  beliscar  e  torcer  a  pele  da  parte  de  cima  da  mão  de
Sophie quando a Srta. Timmons não estava olhando. Sophie nunca dizia nada. Duvidava que
a  tutora  tivesse  coragem  de  repreender  Rosamund  (que  certamente  iria  correndo  até
Araminta com alguma história falsa), e se alguém percebeu que as mãos de Sophie estavam
eternamente marcadas com manchas roxas e azuladas, ninguém jamais disse nada.
Posy às vezes demonstrava alguma bondade, ainda que com frequência apenas suspirasse e
dissesse:
– Minha mamãe me diz para não ser boa com você.
Quanto ao conde, ele nunca intervinha.
A vida de Sophie continuou dessa forma por quatro anos, até o conde surpreender a todos
e  levar  a  mão  ao  peito  enquanto  tomava  chá  no  jardim  de  rosas,  arfar  com  força  e  cair  de
rosto no piso de pedras.
Ele nunca mais recuperou a consciência.
Todo mundo ficou chocado. O conde tinha apenas 40 anos. Quem poderia saber que seu
coração pararia em tão tenra idade? Ninguém ficou mais perplexo que Araminta, que vinha
tentando desesperadamente, desde a noite de núpcias, conceber o indispensável herdeiro.
– Eu posso estar esperando um filho! – se apressou ela em dizer aos advogados do conde. –

Vocês  não  podem  entregar  o  título  a  algum  primo  distante.  Eu  poderia  muito  bem  estar
esperando um filho.
Mas  ela  não  estava  esperando  um  filho,  e  quando  o  testamento  do  conde  foi  lido  no  mês
seguinte (os advogados quiseram garantir à condessa tempo suficiente para saber ao certo se
estava grávida), Araminta foi forçada a se sentar ao lado do novo conde, um jovem bastante
desregrado que passava mais tempo bêbado do que sóbrio.
A  maioria  dos  desejos  do  falecido  conde  eram  justos  e  tradicionais.  Ele  deixou  legados  a
criados leais. Estabeleceu fundos para Rosamund, Posy e até mesmo para Sophie, garantindo
que todas as três tivessem dotes respeitáveis.
E então o advogado chegou ao nome de Araminta.
“À minha esposa, Araminta Gunningworth, Condessa de Penwood, deixo uma renda anual
de duas mil libras...”
– Só isso? – gritou Araminta.
“... a menos que ela concorde em abrigar e cuidar de minha tutelada, a Srta. Sophia Maria
Beckett, até que esta atinja os 20 anos. Neste caso, sua renda anual deverá ser triplicada para
seis mil libras.”
– Eu não a quero – sussurrou Araminta.
– A senhora não precisa aceitá-la – lembrou-lhe o advogado. – A senhora pode...
– Viver com miseráveis dois mil por ano? – disparou ela. – Acho que não.
O advogado, que vivia com uma renda consideravelmente menor do que dois mil por ano,
não disse nada.
O novo conde, que estava bebendo consistentemente ao longo da reunião, apenas encolheu
os ombros.
Araminta se levantou.
– Qual é a sua decisão? – perguntou-lhe o advogado.
– Eu fico com ela – disse em voz baixa.
– Devo procurar a menina e contar a ela?
Araminta sacudiu a cabeça.
– Eu mesma digo.
Mas quando Araminta encontrou Sophie, deixou de fora alguns fatos importantes...

 
 
CAPÍTULO 1
O  convite  mais  procurado  deste  ano  deve  certamente  ser  o  do  baile  de  máscaras  dos
Bridgertons,  a  ser  realizado  na  próxima  segunda-feira.  De  fato,  não  é  possível  dar  dois
passos sem ser obrigado a ouvir alguma mamãe da sociedade especulando sobre quem irá
participar e, talvez ainda mais importante, quem vestirá o quê.
Nenhum dos assuntos mencionados acima, no entanto, é tão interessante como o dos dois
irmãos Bridgertons solteiros, Benedict e Colin. (Antes que alguém diga que há um terceiro
irmão Bridgerton solteiro, permitam que A Autora lhes assegure que tem plena consciência
da  existência  de  Gregory  Bridgertons.  Ele,  no  entanto,  tem  14  anos  e,  portanto,  não  é
pertinente a essa coluna em particular, que trata, como as colunas d’A Autora costumam
tratar, do mais sagrado dos esportes: caça a maridos.)
Embora  os  Senhores  Bridgertons  sejam  apenas  isso  –  apenas  Senhores  –,  eles  ainda  são
considerados  dois  dos  melhores  partidos  da  temporada.  Sabe-se  bem  que  ambos  possuem
respeitáveis fortunas, e não é necessária visão perfeita para saber que eles também possuem,
da mesma forma que todos os oito irmãos Bridgertons, a beleza da família.
Será que alguma jovem afortunada usará o mistério de uma noite de máscaras para fisgar
um dos cobiçados solteiros?
A Autora não tentará sequer especular.
D
31

 
S
ophie! Sophieeeeeeeeeeeeeee!
No  que  dizia  respeito  a  guinchos,  aquele  seria  suficiente  para  estilhaçar  vidros.  Ou  pelo
menos um tímpano.
–  Estou  indo,  Rosamund!  Estou  indo!  –  Sophie  levantou  as  barras  das  saias  de  lã  crua  e
correu  escada  acima,  escorregando  no  quarto  degrau  e  mal  conseguindo  se  segurar  no
corrimão  antes  de  cair  sentada.  Ela  deveria  ter  se  lembrado  de  que  a  escadaria  estaria
escorregadia,  já  que  havia  ajudado  a  arrumadeira  do  andar  de  baixo  a  encerá-la  naquela
manhã.
Parando  diante  da  porta  do  quarto  de  Rosamund  ainda  tentando  recuperar  o  fôlego,
Sophie disse:

– Sim?
– Meu chá está frio.
O que Sophie queria dizer era “Estava quente quando eu o trouxe para você há uma hora,
sua demônia preguiçosa”, mas o que disse foi:
– Trarei outro bule.
Rosamund bufou.
– É melhor mesmo.
Sophie esticou os lábios no que apenas algum cego poderia chamar de sorriso e recolheu o
serviço de chá.
– Deixo os biscoitos? – perguntou ela.
Rosamund sacudiu a bela cabeça.
– Quero biscoitos frescos.
Com  os  ombros  ligeiramente  arqueados  por  conta  do  peso  do  serviço  de  chá
sobrecarregado,  Sophie  saiu  do  quarto,  cuidando  para  não  começar  a  resmungar  antes  de
chegar ao corredor. Rosamund estava sempre pedindo chá, sem se preocupar em tomá-lo até
ter passado uma hora. Quando, é claro, ele estava frio, e então pedia mais um bule.
O que significava que Sophie estava sempre subindo e descendo a escada, para cima e para
baixo, para cima e para baixo. Às vezes, parecia que era tudo que ela fazia da vida.
Para cima e para baixo, para cima e para baixo.
E  tinha,  é  claro,  os  remendos  para  fazer,  as  roupas  para  passar,  os  cabelos  a  pentear,  os
sapatos para limpar, as costuras, as camas para arrumar...
– Sophie! – Sophie se virou e viu Posy vindo em sua direção. – Sophie, eu venho querendo
perguntar se você acha que esta cor me favorece.
Sophie avaliou a fantasia de sereia de Posy. O corte não estava muito bom para a moça, que
nunca perdera toda a sua gordurinha de infância, mas a cor realmente destacava muito bem
a sua pele.
– É um tom muito bonito de verde – respondeu Sophie com toda sinceridade. – Deixa as
suas bochechas bem rosadas.
–  Ah,  ótimo.  Que  bom  que  você  gostou.  Você  tem  um  bom  jeito  para  escolher  minhas
roupas.  –  Posy  sorriu  ao  estender  o  braço  e  pegar  um  biscoito  açucarado  na  bandeja.  –  A
mamãe está perturbando a semana inteira com esse baile de máscaras, e sei que ela não vai
parar  enquanto  eu  não  estiver  com  a  melhor  aparência  possível.  Ou  –  o  rosto  de  Posy  se
contorceu  numa  careta  –  ela  achar  que  eu  estou  com  a  melhor  aparência  possível.  Ela  está
decidida que uma de nós fisgue um dos últimos irmãos Bridgertons, sabia?
– Eu sei.
– E, para piorar as coisas, aquela tal Whistledown anda escrevendo sobre eles novamente. E
isso  –  Posy  terminou  de  mastigar  o  biscoito  e  fez  uma  pausa  para  engolir  –  só  aumenta  o
apetite dela.
– A coluna desta manhã estava boa? – perguntou Sophie, apoiando a bandeja no quadril. –

Eu ainda não consegui ler.
– Ah, o de sempre – disse Posy com um aceno de mão. – Na verdade, ela às vezes pode ser
bastante maçante, sabe.
Sophie  tentou  sorrir,  mas  não  conseguiu.  Não  haveria  nada  que  ela  gostaria  mais  do  que
viver um dia da vida maçante de Posy. Bem, talvez ela não fosse querer Araminta como mãe,
mas não se importaria de levar uma vida de festas, jantares e saraus.
–  Vamos  ver  –  pensou  Posy.  –  Havia  uma  resenha  do  recente  baile  de  Lady  Worth,  um
pouco sobre o Visconde Guelph, que parece estar bastante impressionado com uma moça da
Escócia, e um texto mais longo sobre o próximo baile de máscaras dos Bridgertons.
Sophie  suspirou.  Ela  vinha  lendo  sobre  o  próximo  baile  de  máscaras  havia  semanas,  e
embora  não  passasse  de  uma  camareira  (e  às  vezes  arrumadeira  também,  sempre  que
Araminta decidia que ela não estava trabalhando duro o bastante), ela não podia deixar de
desejar ir ao baile.
–  Eu,  por  exemplo,  vou  adorar  se  aquele  visconde  Guelph  ficar  noivo  –  observou  Posy,
pegando outro biscoito. – Será um solteiro a menos em que a mamãe vai ficar falando sem
parar como um marido potencial. Não que eu tenha qualquer esperança de atrair a atenção
dele, de qualquer maneira. – Ela deu uma mordida no biscoito, fazendo barulho com a boca.
– Espero que Lady Whistledown esteja certa a respeito dele.
– Ela provavelmente está – respondeu Sophie. Ela lia o Diário Social de Lady Whistledown
desde  sua  estreia  em  1813,  e  a  colunista  de  fofoca  estava  quase  sempre  correta  quando  se
tratava de questões do mercado de casamentos.
Não, é claro, que Sophie jamais tivera chance de ver o mercado de casamentos. Mas quem
lia  Whistledown  com  frequência  suficiente  quase  podia  se  sentir  parte  da  Sociedade  de
Londres  sem  de  fato  ir  aos  bailes.  Na  verdade,  ler  Whistledown  era  um  dos  passatempos
realmente  divertidos  de  Sophie.  Ela  já  havia  lido  todos  os  livros  da  biblioteca,  e  como  nem
Araminta, Rosamund ou Posy gostavam muito de ler, não tinha como esperar que um novo
livro entrasse na casa.
Mas  Whistledown  era  muito  divertida.  Ninguém  conhecia  a  verdadeira  identidade  da
colunista.  Quando  o  jornal  de  folha  única  estreou  dois  anos  antes,  as  especulações
grassaram.  Mesmo  agora,  sempre  que  Lady  Whistledown  publicava  alguma  fofoca
particularmente  interessante,  as  pessoas  começavam  a  falar  e  a  fazer  apostas  de  novo,
imaginando quem, afinal, era capaz de informar com tamanha velocidade e precisão.
E, para Sophie, Whistledown era um vislumbre irresistível do mundo que poderia ter sido
dela se seus pais tivessem legalizado sua união. Ela teria sido a filha de um conde, não sua
bastarda. Seu nome seria Gunningworth em vez de Beckett.
Apenas uma vez ela gostaria de ser ela a entrar numa carruagem para ir a um baile.
Em vez disso, ela era a que vestia outras para as noites na cidade, apertando o corpete de
Posy, arrumando os cabelos de Rosamund ou limpando os pares de sapatos de Araminta.
Mas  ela  não  podia  –  ou  pelo  menos  não  devia  –  reclamar.  Ela  podia  ter  de  ser  criada  de

Araminta e suas filhas, mas pelo menos tinha uma casa. Que era mais do que a maioria das
meninas em sua posição tinha.
Quando seu pai morreu não deixou nada para ela. Bem, nada além de um teto sobre sua
cabeça.  Seu  testamento  garantira  que  ela  não  poderia  ser  mandada  embora  antes  de
completar  20  anos.  De  forma  alguma  Araminta  abriria  mão  de  quatro  mil  libras  por  ano
expulsando Sophie.
Mas aquelas quatro mil libras eram de Araminta, não dela, e Sophie não havia visto sequer
um centavo delas. Não havia mais as boas roupas que ela costumava vestir, substituídas pela
lã  crua  dos  criados.  E  ela  comia  o  mesmo  que  as  demais  empregadas  –  o  que  quer  que
Araminta, Rosamund e Posy decidissem deixar sobrar.

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Queda de gigantes e Inverno do mundo, de Ken Follett
Não conte a ninguém, Desaparecido para sempre, Confie em mim e Cilada, de Harlan Coben
A cabana e A travessia, de William P. Young
A farsa, A vingança e A traição, de Christopher Reich
Água para elefantes, de Sara Gruen
Inferno,  O  símbolo  perdido,  O  Código  Da  Vinci,  Anjos  e  demônios,  Ponto  de  impacto  e
Fortaleza digital, de Dan Brown
Julieta, de Anne Fortier
O guardião de memórias, de Kim Edwards
O guia do mochileiro das galáxias; O restaurante no fim do universo; A vida, o universo e tudo
mais; Até mais, e obrigado pelos peixes! e Praticamente inofensiva, de Douglas Adams
O nome do vento e O temor do sábio, de Patrick Rothfuss
A passagem e Os doze, de Justin Cronin
A revolta de Atlas, de Ayn Rand
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SUMÁRIO
PRÓLOGO
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
CAPÍTULO 21
CAPÍTULO 22
EPÍLOGO
CARTA DA AUTORA

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