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S
abe o que eu acho? – perguntou Kate ao sentar-se na penteadeira mais tarde naquela
noite, para escovar os cabelos.
Anthony estava de pé, apoiado na moldura da janela, e olhava lá para fora.
–  Hum?  –  disse  ele,  muito  distraído  com  os  próprios  pensamentos  para  formular  uma
resposta mais coerente.
– Acho que da próxima vez que houver uma tempestade, vou ficar bem – falou animada.
Ele se virou devagar.
– É mesmo?
Kate assentiu.
– Não sei por que acho isso. Intuição, suponho.
–  As  maiores  certezas  vêm  da  intuição  –  comentou  ele  com  uma  voz  que  soou  estranha  e
inexpressiva aos próprios ouvidos.
–  Estou  sentindo  um  otimismo  esquisito  –  disse  ela,  balançando  a  escova  de  cabelo
prateada no ar ao falar. – Durante toda a vida, tive uma sensação terrível pairando acima de
mim.  Eu  nunca  lhe  contei...  a  ninguém,  na  verdade...  mas  sempre  que  havia  uma
tempestade e eu tremia de medo, pensava... bem, eu não pensava apenas. De algum modo,
eu sabia...
– O que, Kate? – indagou ele, temendo a resposta sem nem imaginar o porquê.
–  De  alguma  maneira  –  continuou  ela,  pensativa  –,  enquanto  eu  tremia  e  soluçava,
simplesmente sabia que ia morrer. Não havia como passar por aquele horror e sobreviver até
o dia seguinte.
Ela inclinou a cabeça ligeiramente para o lado  e seu rosto assumiu uma leve expressão de

tensão, como se ela não soubesse muito bem como dizer o que queria.
Mas Anthony entendeu. E isso fez seu sangue gelar.
–  Você  deve  estar  achando  isso  a  coisa  mais  idiota  que  alguém  já  imaginou  –  falou  ela,
dando  de  ombros  com  constrangimento.  –  Você  é  tão  racional,  inteligente  e  prático...  Não
acho que poderia entender uma coisa dessas.
Se  ela  soubesse...  Anthony  esfregou  os  olhos,  sentindo  uma  estranha  sensação  de
embriaguez.  Caminhou  com  dificuldade  até  uma  cadeira,  torcendo  para  que  Kate  não
percebesse seu desequilíbrio, e sentou-se.
Felizmente, a atenção dela estava concentrada nos vários vidros e adornos na penteadeira.
Ou  talvez  ela  estivesse  muito  envergonhada  para  fitá-lo,  achando  que  ele  desprezaria  seus
medos irracionais.
– Sempre que a chuva passava – continuou Kate, virada para o móvel –, eu sabia que tinha
agido  como  uma  tola  e  que  a  ideia  era  ridícula.  Afinal,  eu  passara  por  tempestades  antes  e
nenhuma delas havia me matado. Mas essa racionalização nunca parecia me ajudar. Entende
o que quero dizer?
Anthony tentou concordar, embora não soubesse de fato se entendia.
– Quando chovia – disse ela –, nada realmente existia a não ser a tempestade. E, claro, meu
medo.  Então  o  sol  saía  e  eu  percebia  mais  uma  vez  que  tinha  sido  uma  boba.  Mas  era  só
chover de novo para eu ter certeza de que morreria.
Anthony  ficou  nauseado.  Seu  corpo  parecia  estranho,  como  se  não  pertencesse  a  ele.
Mesmo que tentasse, não conseguiria dizer nada.
–  Na  verdade  –  prosseguiu  ela,  virando  a  cabeça  para  fitá-lo  –,  a  única  vez  que  senti  que
sobreviveria foi na biblioteca em Aubrey Hall. – Ela se levantou, foi até ele, ajoelhou-se à sua
frente e apoiou o rosto em seu colo. – Com você – murmurou.
Anthony  afagou  seus  cabelos.  Agiu  mais  por  reflexo  que  por  qualquer  outra  coisa.  Não
estava consciente de suas ações.
Não fazia ideia de que Kate tinha noção da própria mortalidade. A maioria das pessoas não
tem. Isso dera a Anthony uma estranha sensação de isolamento ao longo dos anos, como se
ele  entendesse  uma  verdade  terrível  e  fundamental  que  se  ocultava  do  restante  da
sociedade.
E, embora a percepção de Kate não fosse semelhante à dele – a dela era passageira, causada
por  uma  rajada  temporária  de  vento,  chuva  e  raios,  enquanto  a  dele  nunca  o  deixava  e
estaria com ele até o dia de sua morte –, ela conseguira superá-la.
Kate lutara contra seus demônios e vencera.
Anthony sentiu muita inveja dela.
Não  era  uma  reação  nobre,  ele  sabia.  Gostando  dela  como  gostava,  estava  satisfeito,
aliviado e feliz por ela ter vencido seus temores mais profundos, mas ainda assim a invejava.
Muito.
Kate vencera.

E ele, que sabia quais eram seus demônios mas se recusava a temê-los, estava petrificado de
terror. Tudo isso por causa da única coisa que jurara que nunca aconteceria.
Ele se apaixonara pela esposa.
Agora,  a  ideia  de  morrer,  de  deixá-la,  de  saber  que  seus  momentos  juntos  formariam  um
curto  poema,  em  vez  de  um  romance  longo  e  apaixonado,  era  mais  do  que  ele  podia
suportar.
Não sabia em quem pôr a culpa. Queria apontar o dedo para o pai, por ter morrido jovem e
o  deixado  como  portador  dessa  terrível  maldição.  Queria  censurar  Kate,  por  entrar  em  sua
vida e fazê-lo temer o próprio fim. Ora, ele poderia culpar até um estranho na rua se achasse
que isso adiantaria alguma coisa.
Mas a verdade era que ninguém era culpado, nem mesmo ele. Sentiria-se muito melhor se
pudesse  acusar  alguém  –  qualquer  um.  Era  uma  necessidade  infantil,  mas  todos  tinham  o
direito de ser infantis de vez em quando, não é?
– Estou tão feliz... – murmurou Kate, com a cabeça apoiada em seu colo.
Anthony  também  queria  ser  feliz.  Desejava,  com  todas  as  forças,  que  tudo  fosse  mais
simples,  que  a  felicidade  fosse  apenas  felicidade  e  nada  mais.  Gostaria  de  desfrutar  das
vitórias  recentes  sem  ter  que  pensar  nas  próprias  preocupações.  Queria  perder-se  no
momento, esquecer o futuro, tomar Kate em seus braços e...
De forma abrupta, não premeditada, ele se pôs de pé e ergueu Kate.
– Anthony? – disse ela, piscando, surpresa.
Em  resposta,  ele  a  beijou.  Seus  lábios  tomaram  os  dela  numa  explosão  de  paixão  e  desejo
que  confundiu  sua  mente  até  que  apenas  seu  corpo  estivesse  no  controle.  Ele  não  queria
pensar, não queria ser capaz de pensar. Tudo o que queria era aquele momento.
E ele queria que o momento durasse para sempre.
Pegou Kate no colo e caminhou com dificuldade até a cama. Então deitou-a no colchão e
cobriu o corpo dela com o seu meio segundo depois. Ela estava deslumbrante debaixo dele,
suave  e  forte  a  um  só  tempo,  consumida  pelo  mesmo  fogo  que  ardia  nele.  Ela  podia  não
compreender o que detonara aquela necessidade súbita, mas se sentia da mesma maneira.
Kate  já  estava  vestida  para  dormir,  e  Anthony  abriu  facilmente  seu  penhoar  com  dedos
experientes.  Precisava  tocá-la,  senti-la,  ter  certeza  de  que  ela  estava  ali,  sob  o  corpo  dele,  e
que  ele  estava  ali  para  fazer  amor  com  ela.  Ela  vestia  uma  camisola  de  seda  azul-clara,  de
alcinhas,  que  envolvia  suas  curvas.  Era  o  tipo  de  roupa  capaz  de  fazer  qualquer  homem
incendiar de paixão, e Anthony não era exceção.
Havia  algo  muito  erótico  em  sentir  a  pele  morna  dela  através  da  seda,  e  as  mãos  dele
percorreram  sem  parar  o  corpo  de  Kate,  tocando,  apertando,  fazendo  qualquer  coisa  que  a
unisse a ele.
Se ele pudesse arrastá-la para dentro dele, faria isso e a manteria ali para sempre.
– Anthony – arfou Kate no breve instante em que ele afastou os lábios do dela –, está tudo
bem?

– Eu quero você – grunhiu ele, puxando a camisola até as coxas dela. – Quero você agora.
Ela  arregalou  os  olhos  de  choque  e  excitação,  e  ele  se  sentou  sobre  ela  com  as  pernas
abertas, apoiando o peso do corpo nos joelhos para não esmagá-la.
– Você é tão linda... – sussurrou. – Tão inacreditavelmente linda...
Kate se iluminou ao ouvir essas palavras. Levou as mãos ao rosto de Anthony e passou os
dedos sobre a barba por fazer. Ele pegou uma das mãos dela e beijou-lhe a palma, enquanto
ela fazia a outra descer pelo pescoço dele.
Os  dedos  de  Anthony  encontraram  as  delicadas  alças  da  camisola  nos  ombros  dela,
amarradas  em  laços  frouxos.  Só  foi  necessário  um  leve  puxão  para  desfazê-los,  e  assim  que
eles se soltaram Anthony puxou a peça de roupa até os pés dela, deixando-a completamente
nua diante de seus olhos.
Com um gemido entrecortado, ele arrancou a camisa, fazendo os botões voarem pelos ares,
e só levou alguns segundos para tirar a calça. E então, quando não havia mais nada na cama
além  da  pele  gloriosa  de  Kate,  ele  voltou  a  cobri-la,  abrindo  as  pernas  dela  com  suas  coxas
musculosas.
– Não consigo esperar – disse ele com a voz rouca. – Não vou conseguir fazer isto ser bom
para você.
Kate deu um gemido febril ao agarrá-lo pelos quadris, dirigindo-o para sua abertura.
– É bom para mim – arfou. – Não quero que você espere.
Nesse  momento,  as  palavras  cessaram.  Anthony  soltou  um  grito  gutural,  primitivo,  ao  se
lançar  dentro  dela,  enterrando-se  completamente  em  um  longo  e  poderoso  golpe.  Kate
arregalou  os  olhos  enquanto  sua  boca  formava  um  gemido  de  choque  pela  rápida  invasão.
Mas ela já estava pronta para ele – mais do que pronta. Havia algo no ritmo incansável dele
ao  fazer  amor  que  despertava  uma  paixão  profunda  nela,  até  que  precisasse  dele  com  um
desespero que a deixava sem fôlego.
Eles  não  foram  delicados  nem  sutis.  Estavam  quentes,  suados,  necessitados,  e  seguravam
um ao outro como se pudessem fazer o tempo durar para sempre só pela força de vontade.
Quando chegaram ao clímax, foi selvagem e simultâneo, ambos os corpos arqueando-se com
os gritos de liberação que se misturaram à noite.
Assim que terminaram, aninharam-se nos braços um do outro, lutando para normalizar a
respiração. Nesse momento, Kate fechou os olhos, satisfeita e rendida à exaustão.
Anthony, não.
Ele  a  observou  se  afastar,  e  então  adormecer.  Fitou  o  modo  como  seus  olhos,  às  vezes,  se
moviam sob as pálpebras fechadas. Mediu o ritmo de sua respiração, contando quantas vezes
o peito dela subia e descia. Ouviu com atenção cada suspiro, cada murmúrio.
Havia  certas  recordações  que  um  homem  queria  gravar  no  próprio  cérebro,  e  aquela  era
uma delas.
Mas, quando ele teve certeza de que ela tinha adormecido, Kate fez um barulho estranho
ao se aninhar mais profundamente em seu abraço e enfim abriu os olhos, bem devagar.

–  Você  ainda  está  acordado  –  sussurrou  com  a  voz  rouca  e  suave  por  ter  acabado  de
acordar.
Ele admitiu, perguntando-se se a estava segurando com força demais. Não queria soltá-la.
Nunca iria querer soltá-la.
– Você deveria dormir – disse ela.
Anthony assentiu mais uma vez, mas não fechou os olhos.
Kate bocejou.
– Isso é bom.
Ele beijou sua testa, fazendo um som de concordância.
Ela levantou a cabeça, deu-lhe um beijo nos lábios, então ajeitou-se no travesseiro.
– Espero que fiquemos sempre assim – murmurou ela, bocejando de novo enquanto o sono
a dominava. – Para sempre.
Anthony ficou paralisado.
Sempre.
Ela não podia saber o que essa palavra significava para ele. Cinco anos? Seis? Talvez sete ou
oito.
Para sempre.
Essas palavras, juntas, não lhe diziam nada, eram algo que ele simplesmente não conseguia
compreender.
De repente, Anthony não conseguiu respirar.
A coberta era como uma parede de tijolos sobre ele, e o ar ficou mais denso.
Ele tinha que sair dali. Tinha que ir embora. Tinha que...
Levantou-se  da  cama  e  então,  tropeçando  e  sufocando,  pegou  as  próprias  roupas,  jogadas
de qualquer maneira no chão, e começou a enfiar as pernas nos buracos apropriados.
– Anthony?
Ele  deu  um  pulo.  Kate  se  esforçava  para  se  erguer  na  cama,  bocejando.  Mesmo  na
escuridão, ele viu que os olhos dela revelavam sua confusão. E sua mágoa.
– Você está bem? – perguntou ela.
Ele fez um aceno rápido com a cabeça.
– Então por que está enfiando a perna na manga da camisa?
Anthony olhou para baixo e disse um palavrão que nunca imaginara pronunciar na frente
de uma mulher. Praguejou mais uma vez, então enrolou a irritante peça de linho, formando
uma bola enrugada, e jogou-a no chão, fazendo uma pausa de menos de um segundo antes
de começar a vestir a calça.
– Aonde você vai? – perguntou Kate, ansiosa.
– Tenho que sair – resmungou ele.
– Agora?
Ele não respondeu, porque não sabia o que dizer.
– Anthony?

Ela se levantou e esticou a mão para tocá-lo, mas, um instante antes de alcançar-lhe o rosto,
Anthony  recuou,  cambaleando  para  trás  até  se  chocar  contra  uma  das  barras  da  cama  de
dossel. Ele viu a mágoa no rosto dela, a dor causada pela rejeição, porém sabia que, se ela o
tocasse, ele estaria perdido.
– Mas que droga! – praguejou. – Onde estão minhas camisas?
– Em seu quarto de vestir – disse ela, nervosa. – Onde sempre ficaram.
Ele saiu para pegar outra camisa, incapaz de suportar o tom de voz dela. Não importava o
que ela dissesse, Anthony só ouvia sempre e para sempre.
E isso o estava matando.
Quando  saiu  do  quarto  de  vestir,  com  o  casaco  e  os  sapatos  nas  partes  apropriadas  do
corpo, Kate andava sem parar pelo quarto, puxando a fita azul do penhoar com nervosismo.
– Tenho que sair – repetiu ele com a voz inexpressiva.
Ela não respondeu, e ele achava que era isso que queria, mas em vez de sair, ficou parado
ali, sem conseguir se mover, esperando que ela falasse alguma coisa.
– Quando você volta? – perguntou Kate, por fim.
– Amanhã.
– Isso é... bom.
Ele aquiesceu.
– Não posso ficar aqui – anunciou. – Tenho que sair.
Ela engoliu em seco.
– Sim – retrucou, e o som de sua voz era dolorosamente baixo –, você já disse isso.
E então, sem olhar para trás e sem ter ideia de onde iria, ele partiu.
Kate  foi  devagar  até  a  cama  e  fitou-a.  Por  alguma  razão,  parecia  errado  deitar  sozinha,  se
cobrir e afofar as cobertas a seu redor. Achou que deveria chorar, mas não havia lágrimas em
seus  olhos.  Em  seguida  caminhou  até  a  janela,  abriu  as  cortinas  e  olhou  lá  para  fora,
surpreendendo-se ao dizer uma oração em voz baixa, pedindo uma tempestade.
Anthony se fora, e, embora ela tivesse certeza de que seu corpo retornaria, não estava tão
confiante a respeito do espírito. Então compreendeu que precisava de algo – da tempestade –
para provar a si mesma que podia ser forte, que conseguiria se virar por si só.
Não  queria  ficar  sozinha,  mas  talvez  não  tivesse  escolha.  Anthony  parecia  determinado  a
manter distância. Ele tinha seus demônios, e ela temia que fosse preferir não encará-los em
sua presença.
Porém, se ela estava destinada a ficar sozinha, mesmo com um marido ao lado, então, por
Deus, enfrentaria isso e seria forte.
A  fraqueza,  pensou,  ao  apoiar  a  cabeça  contra  o  vidro  frio  da  janela,  não  levava  a  lugar
algum.
Anthony não tinha nenhuma lembrança do caminho cheio de tropeços que percorrera para

sair de casa, mas, de alguma maneira, ele se viu descendo a escada principal, cujos degraus
estavam  escorregadios  por  causa  do  leve  nevoeiro.  Atravessou  a  rua  sem  ter  ideia  de  para
onde  ia,  sabendo  apenas  que  tinha  que  ficar  longe.  No  entanto,  quando  chegou  à  calçada
oposta, algum demônio o obrigou a erguer os olhos na direção da janela do quarto.
Eu não devia tê-la visto foi o único pensamento que lhe ocorreu. Ela deveria estar deitada,
ou  as  cortinas  deveriam  estar  fechadas,  ou  então  ele  deveria  estar  a  caminho  do  clube
naquele momento.
Mas Anthony a viu e a dor atordoante em seu peito ficou cada vez mais forte. Era como se
seu coração estivesse sendo arrancado do peito – e ele teve a mais terrível sensação de que a
mão que segurava a faca era a sua.
Ele a observou por um minuto – ou, talvez, por uma hora. Não achou que ela o tivesse visto
–  nada  em  sua  postura  indicava  isso.  Estava  longe  demais  para  que  ele  visse  seu  rosto,  mas
imaginou que os olhos dela estavam fechados.
Provavelmente, está torcendo para que não haja uma tempestade, pensou ele, erguendo os
olhos para o céu nublado. Achava que as preces dela não seriam atendidas. A neblina já se
transformava em gotas de umidade em sua pele e parecia apenas uma breve transição para a
chuva forte.
Anthony sabia que devia ir embora, mas algo o impedia. Mesmo depois que Kate se afastou
da janela, ele permaneceu no mesmo lugar, olhando para a casa. A vontade de retornar era
quase impossível de negar. Queria correr de volta, cair de joelhos diante dela e implorar seu
perdão.  Queria  levá-la  para  a  cama  e  fazer  amor  com  ela  até  os  primeiros  raios  da  aurora
tocarem o céu. Mas tinha a consciência de que não podia fazer nada disso.
Ou, talvez, todas essas coisas fossem algo que ele não devia fazer. Não sabia mais.
Então, depois de ficar paralisado por quase uma hora, depois que a chuva começou a cair e
o vento, a soprar rajadas de ar frio, Anthony enfim partiu.
Foi embora sem se dar conta do frio ou da chuva, que desabava com força surpreendente.
Partiu sem sentir coisa alguma.

CAPÍTULO 21
Tem sido comentado que lorde e Lady Bridgerton foram obrigados a se casar, mas, mesmo
que isso seja verdade, esta autora se recusa a acreditar que sua união não foi por amor.
C
15
E
ra estranho, pensou Kate, enquanto fitava o café da manhã servido na mesinha lateral da
pequena  sala  de  jantar,  como  podia  estar,  ao  mesmo  tempo,  morrendo  de  fome  e  sem
apetite.  Seu  estômago  exigia  alimento  e,  ainda  assim,  tudo  –  dos  ovos  aos  bolinhos,  dos
pedaços de peixe defumado à carne de porco assada – adquirira uma aparência horrível.
Com um suspiro deprimido, pegou uma torrada e afundou na cadeira com uma xícara de
chá. Anthony não voltara para casa na noite anterior.
Ela deu uma pequena mordida na torrada e  se forçou a engolir. Tinha esperanças de que
ele  ao  menos  aparecesse  para  o  café  da  manhã.  Kate  esperara  o  máximo  que  pudera  –  já
eram quase onze horas, e ela costumava comer às nove –, mas o marido não retornara.
– Lady Bridgerton?
Kate  ergueu  o  olhar  e  piscou.  Havia  um  criado  de  pé  diante  dela  segurando  um  pequeno
envelope bege.
– Isto chegou para a senhora há alguns minutos – disse ele.
Kate  murmurou  um  agradecimento  e  pegou  o  envelope,  fechado  com  um  pouco  de  cera
rosa-clara. Olhando mais de perto, ela distinguiu as iniciais EOB. Seria alguém da família de
Anthony?  A  letra  E  deveria  ser  de  Eloise,  claro,  já  que  os  primeiros  nomes  de  todos  os
Bridgertons correspondiam a uma letra diferente, em ordem alfabética.
Kate rompeu o selo com cuidado e puxou o conteúdo – uma única folha de papel dobrada
com cuidado pela metade.
Kate,
Anthony está aqui e a aparência dele é péssima. Sem dúvida, isso não é assunto meu, mas
achei que você gostaria de saber.
Eloise
Kate  contemplou  o  bilhete  por  alguns  segundos,  então  empurrou  a  cadeira  para  trás  e  se
levantou. Era hora de visitar a casa dos Bridgertons.
Para  sua  surpresa,  quando  ela  bateu  na  porta  da  Casa  Bridgerton,  quem  a  abriu  não  foi  o

mordomo, mas Eloise, que disse no mesmo instante:
– Você veio rápido!
Kate  olhou  ao  redor  do  saguão,  esperando  que  um  ou  dois  dos  irmãos  de  Anthony
pulassem sobre ela.
– Você estava me esperando?
Eloise assentiu.
– Você não precisa bater antes de entrar. A Casa Bridgerton pertence a Anthony, afinal. E
você é a mulher dele.
Kate deu um sorriso sem graça. Não se sentia uma esposa naquela manhã.
– Espero que você não me ache uma grande intrometida – continuou Eloise, dando o braço
a  Kate  e  conduzindo-a  para  dentro  –,  mas  Anthony  está  com  uma  aparência  horrível  e
imaginei que você não soubesse que ele estava aqui.
– Por que você pensou isso? – perguntou Kate, sem conseguir evitar.
– Bem – retrucou Eloise –, ele não contou que estava aqui nem para nós.
Kate fitou a cunhada com um olhar desconfiado.
– E isso significa...?
Eloise corou.
– Significa que... hã... que só sei que ele está aqui porque andei espionando. Acho que nem
minha mãe sabe que ele veio para cá.
Kate começou a piscar depressa.
– Você andou nos espionando?
– Não, claro que não. Mas, por acaso, eu estava acordada e ouvi alguém entrar, aí saí para
investigar e vi a luz acesa por baixo da porta do escritório de Anthony.
– Então, como sabe que ele está com uma aparência horrível?
Eloise deu de ombros.
– Imaginei que uma hora ele sairia para comer ou se aliviar, por isso fiquei esperando nos
degraus por mais de uma hora...
– Mais de uma hora? – repetiu Kate.
–  Três  horas,  na  verdade  –  admitiu  Eloise.  –  Não  parece  muito  tempo  quando  se  está
interessada na questão. Além disso, eu tinha um livro para me ajudar a passar o tempo.
Kate balançou a cabeça com admiração relutante.
– A que horas ele chegou?
– Por volta de quatro da manhã.
– E o que você fazia acordada tão tarde?
Eloise deu de ombros mais uma vez.
– Não consegui dormir. Muitas vezes, não consigo. Eu tinha descido para pegar um livro na
biblioteca quando ele chegou. Então, finalmente, por volta das sete horas... na verdade, acho
que foi um pouco antes das sete, logo eu não esperei por três horas...
Kate começou a ficar tonta.

–...  ele  saiu.  Não  foi  na  direção  do  salão  de  café  da  manhã,  portanto  imagino  que  tenha
saído  por  outras  razões.  Depois  de  um  minuto  ou  dois,  apareceu  de  novo  e  voltou  ao
escritório. Onde – Eloise terminou com um floreio – está desde então.
Kate olhou para ela por uns dez segundos.
– Você já pensou em oferecer seus serviços ao Departamento de Guerra?
A jovem deu um sorriso tão parecido com o de Anthony que Kate quase chorou.
– Como espiã? – indagou.
Kate confirmou.
– Eu seria ótima, você não acha?
– Sensacional.
Eloise deu um abraço repentino em Kate.
– Estou tão feliz por você ter se casado com meu irmão... Agora vá ver o que está errado.
Kate assentiu, empertigando os ombros, e deu um passo na direção do escritório. Então se
virou, apontou um dedo para Eloise e disse:
– Não vá ficar ouvindo atrás da porta.
– Eu nem sonharia em fazer isso – retrucou ela.
– Estou falando sério!
Eloise suspirou.
– É melhor eu ir para a cama, de qualquer forma. Um cochilo vai cair bem, depois de ter

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