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seu nome. Você será uma mulher casada. Uma viscondessa. Depois de amanhã, não será a
mesma mulher, Kate, e depois de amanhã à noite...
– Chega, Edwina.
– Mas...
– Você não está fazendo nada para me tranquilizar.
– Ah. – Edwina deu um sorriso sem graça. – Desculpe.
– Tudo bem – garantiu Kate.
Edwina conseguiu manter a boca fechada por alguns segundos antes de perguntar:
– Mamãe já esteve aqui para conversar com você?
– Ainda não.
–  Ela  deve  vir,  não  acha?  Amanhã  você  vai  se  casar,  e  tenho  certeza  de  que  há  uma
infinidade de coisas que precisa saber. – Edwina tomou um grande gole de leite, ficando com
um  inadequado  bigode  branco,  em  seguida  empoleirou-se  na  beira  da  cama,  virada  para
Kate.  –  Sei  que  há  uma  infinidade  de  coisas  que  eu  não  sei.  E,  a  menos  que  você  tenha
aprontado alguma coisa e não tenha me contado, não vejo como você poderia saber.
Kate refletiu se seria falta de educação calar a boca da irmã com uma das peças de lingerie
que Lady Bridgerton escolhera. Parecia haver uma bela justiça poética em tal manobra.
–  Kate?  –  chamou  Edwina,  piscando  com  curiosidade.  –  Kate?  Por  que  você  está  olhando
para mim de modo tão estranho?
Kate se lembrou da lingerie com ar sonhador.
– Você não vai querer saber.
– Humpf. Bem, eu...

Os resmungos de Edwina foram interrompidos por uma batida de leve na porta.
– Deve ser a mamãe – disse a caçula com um sorriso malicioso. – Mal posso esperar.
Kate  revirou  os  olhos  para  Edwina  quando  se  levantou  para  abrir  a  porta.  De  fato,  Mary
estava parada no corredor, com duas canecas fumegantes na mão.
– Achei que você pudesse querer um pouco de leite quente – disse ela com um leve sorriso.
Kate ergueu a caneca em resposta.
– Edwina teve a mesma ideia.
– O que ela está fazendo aqui? – perguntou Mary, entrando no quarto.
–  Desde  quando  preciso  de  uma  razão  para  vir  conversar  com  minha  irmã?  –  retrucou
Edwina.
Mary lançou-lhe um olhar irritado antes de voltar a atenção para Kate.
– Hum – murmurou. – Parece que temos um excesso de leite quente.
– Este aqui já está morno – comentou Kate, apoiando a caneca em um dos baús já fechados
e substituindo-a depois pela que estava na mão de Mary. – Edwina pode levar a outra para a
cozinha quando sair.
– Como? – perguntou Edwina, um pouco distraída. – Ah, claro, fico feliz em ajudar.
Mas não fez menção de se levantar. Na  verdade, seu único movimento foi olhar de Mary
para Kate e de volta para Mary.
– Preciso falar com Kate – disse Mary.
Edwina concordou, entusiasmada.
– Sozinha – completou Mary.
Edwina piscou.
– Tenho que sair?
Mary aquiesceu e estendeu-lhe a caneca morna.
– Agora?
A jovem parecia abatida, então sua expressão se desanuviou em um sorriso cauteloso.
– Vocês estão brincando, não é? Posso ficar, certo?
– Errado – retrucou Mary.
Edwina virou os olhos suplicantes para Kate.
– Não tenho nada a ver com isso – disse Kate, mal conseguindo disfarçar o sorriso. – Ela é
quem decide, afinal é ela quem vai falar. Eu só vou ficar ouvindo.
– E fazendo perguntas – observou Edwina. – E eu também tenho dúvidas. – Virou-se para
a mãe. – Um monte delas.
– Tenho certeza disso – retrucou Mary –, e ficarei feliz em respondê-las na véspera do seu
casamento.
Edwina se levantou de má vontade.
– Não é justo – resmungou, pegando a caneca da mão de Mary.
– A vida não é justa – comentou Mary com um sorriso.
– Eu que o diga – reclamou Edwina, arrastando os pés ao cruzar o quarto.

– E não fique ouvindo atrás da porta! – gritou Mary.
–  Eu  nem  sonharia  em  fazer  isso  –  disse  Edwina.  –  Não  que  vocês  fossem  falar  alto  o
suficiente para que eu ouvisse alguma coisa, de qualquer forma.
Mary  suspirou  quando  a  filha  saiu  para  o  corredor  e  fechou  a  porta,  proferindo  uma
torrente constante de resmungos ininteligíveis.
– Vamos ter que sussurrar – falou para Kate.
Ela assentiu, mas era leal o suficiente à irmã para dizer:
– Talvez ela não tente ouvir.
Mary lhe lançou um olhar bastante duvidoso.
– Você quer abrir a porta para descobrir?
Kate deu um sorriso involuntário.
– Tudo bem, a senhora ganhou.
Mary sentou-se na cama e encarou Kate.
– Com certeza, você sabe por que estou aqui.
Kate admitiu que sim.
Mary  tomou  um  grande  gole  de  leite  e  ficou  em  silêncio  por  um  longo  instante  antes  de
dizer:
–  Quando  eu  me  casei  pela  primeira  vez,  não  tinha  ideia  do  que  esperar  no  leito  nupcial.
Não era... – Ela fechou os olhos por um momento e fez uma careta de sofrimento. – Minha
falta  de  conhecimento  tornou  tudo  mais  difícil  –  concluiu,  e  a  vagarosidade  com  que  disse
essas  palavras  cuidadosamente  escolhidas  deixou  claro  a  Kate  que  “difícil”  devia  ser  um
eufemismo.
– Entendo – murmurou Kate.
Mary olhou fixamente para ela.
– Não, não entende. E espero que nunca entenda. Mas não é essa a questão. Sempre jurei
que nenhuma filha minha se casaria sem saber o que ocorre entre o marido e a mulher.
– Já tenho uma ideia básica – admitiu Kate.
Claramente surpresa, Mary perguntou:
– Tem?
Kate concordou.
– Não deve ser muito diferente dos animais.
Mary balançou a cabeça e contraiu os lábios em um sorriso um pouco divertido.
– Sim, não é.
Kate imaginou qual seria a melhor maneira de fazer a próxima pergunta. Pelo que vira na
fazenda  de  um  vizinho  em  Somerset,  o  ato  de  procriação  não  parecia,  de  modo  algum,
agradável.  Porém,  quando  Anthony  a  beijara,  teve  a  sensação  de  que  estava  perdendo  o
juízo. E quando ele a beijou mais uma vez, ela nem mesmo tinha certeza se queria o juízo de
volta!  Todo  o  seu  corpo  estremeceu,  e  ela  suspeitava  que,  se  os  últimos  encontros  tivessem
acontecido  em  locais  mais  apropriados,  ela  teria  deixado  que  ele  prosseguisse  sem  nem  um

protesto sequer.
Mas então ela se lembrou da pobre égua gritando na fazenda... Sinceramente, as peças do
quebra-cabeça não se encaixavam.
Enfim, depois de pigarrear várias vezes, ela comentou:
– Não parece muito prazeroso.
Mary fechou os olhos de novo e seu rosto assumiu a mesma expressão de antes. Era como
se ela estivesse se lembrando de algo muito bem-guardado nos recantos obscuros da própria
mente. Quando os abriu, afirmou:
– O prazer de uma mulher só depende do marido.
– E o de um homem?
– O ato de amor – prosseguiu Mary, corando – pode e deve ser uma experiência prazerosa
para  ambos.  No  entanto...  –  disse  ela,  depois  tossiu  e  tomou  um  gole  do  leite  –  eu  não  me
perdoaria se não lhe contasse que uma mulher nem sempre tem prazer.
– Mas um homem tem?
Mary fez que sim com a cabeça.
– Não parece justo – comentou Kate.
Mary deu um sorriso amargo.
– Você lembra que acabei de dizer a Edwina que a vida nem sempre é justa?
Kate franziu a testa, fitando o leite.
– Bem, isso realmente não parece justo.
–  Mas  não  significa  –  acrescentou  Mary  bem  rápido  –  que  a  experiência  precise  ser
desagradável  para  a  mulher.  E  tenho  certeza  de  que  não  será  desagradável  para  você.
Imagino que o visconde já a tenha beijado.
Kate assentiu, sem erguer os olhos.
Quando Mary falou, ela sentiu que a madrasta sorria.
– Pelo seu rubor – disse Mary –, acho que você gostou.
Kate voltou a anuir, e agora suas bochechas ardiam.
–  Se  você  gostou  do  beijo  –  prosseguiu  a  mais  velha  –,  então  tenho  certeza  de  que  outros
carinhos não a incomodarão. Decerto ele será gentil e atencioso com você.
“Gentil” não capturava a essência dos beijos de Anthony, mas Kate não acreditava que esse
fosse  o  tipo  de  coisa  que  deveria  compartilhar  com  Mary.  Na  verdade,  a  conversa  já  estava
constrangedora o suficiente sem isso.
– Homens e mulheres são muito diferentes – continuou Mary, como se isso não fosse óbvio
–, e os homens, mesmo aqueles fiéis à esposa, o que sem dúvida o visconde será, podem ter
prazer com praticamente qualquer mulher.
Isso era perturbador, e não era o que Kate queria ouvir.
– E uma mulher? – perguntou de forma abrupta.
–  Com  a  mulher  é  diferente.  Já  ouvi  falar  que  algumas  mulheres  maliciosas  têm  prazer
como se fossem homens, nos braços de qualquer um, mas não acredito nisso. Creio que uma

mulher precise gostar do marido para desfrutar do leito nupcial.
Kate ficou em silêncio por um instante.
– Você não amava seu primeiro marido, não é?
Mary balançou a cabeça.
– Isso faz toda a diferença, querida. Isso e o cuidado de um marido com a esposa. Mas já vi
o  visconde  com  você.  Entendo  que  seu  casamento  foi  súbito  e  inesperado,  mas  ele  a  trata
com carinho e respeito. Você não terá nada a temer. Ele vai tratá-la bem.
Depois de dizer isso, Mary beijou Kate na testa e deu-lhe boa-noite. Em seguida, recolheu
as canecas de leite vazias e saiu do quarto. Kate continuou sentada na cama, fitando a parede
por alguns minutos com o olhar vazio.
Mary estava errada, ela não tinha dúvida. Tinha muito a temer, sim.
Odiava  não  ser  a  primeira  opção  de  Anthony,  mas  era  prática,  pragmática,  e  sabia  que
certas coisas na vida simplesmente deveriam ser encaradas como um fato. Consolava-a com a
lembrança  do  desejo  que  sentira  –  e  que  achara  que  Anthony  também  experimentara  –
quando estava nos braços dele.
Agora  parecia  que  o  desejo  dele  não  estava  necessariamente  ligado  a  ela,  sendo,  em  vez
disso, algum tipo de necessidade primitiva que todo homem sente por qualquer mulher.
E Kate nunca saberia se, quando Anthony soprasse as velas e a levasse para a cama, fecharia
os olhos...
E imaginaria o rosto de outra mulher.
O  casamento,  realizado  na  Casa  Bridgerton,  foi  uma  cerimônia  simples,  para  poucos
convidados. Bem, tão poucos quanto possível, com toda a família Bridgerton presente, desde
Anthony até a pequena Hyacinth, de 11 anos, que assumiu o papel de dama de honra com
muita seriedade. Quando seu irmão Gregory, de 13 anos, tentou virar sua cesta de pétalas de
rosas,  ela  o  acertou  direto  no  queixo,  atrasando  a  cerimônia  em  cerca  de  dez  minutos  mas
acrescentando um ar muito bem-vindo de leveza e graça.
Bem,  pelo  menos  essa  foi  a  opinião  de  todos,  exceto  Gregory,  que  ficou  ofendido  com  o
episódio  e  decerto  não  estava  rindo,  muito  embora  tivesse  sido  ele  quem  começara,  como
Hyacinth logo deixara claro a quem estivesse ouvindo – e sua voz era alta o suficiente para
que não houvesse de fato a opção de não ouvir.
Kate  viu  tudo  de  sua  posição  privilegiada  no  saguão,  onde  espiava  através  de  uma
rachadura  na  porta.  Isso  a  fez  rir,  o  que  foi  ótimo,  considerando  que  seus  joelhos  estavam
tremendo  havia  mais  de  uma  hora.  Ela  agradecia  à  própria  sorte  pelo  fato  de  Lady
Bridgerton  não  ter  insistido  numa  cerimônia  grandiosa,  para  muitas  pessoas.  Kate,  que
nunca tinha se considerado uma pessoa ansiosa, provavelmente teria morrido de nervosismo.
Violet  mencionara  a  possibilidade  de  um  grande  evento  como  meio  de  combater  os
rumores  que  circulavam  a  respeito  de  Kate,  Anthony  e  o  casamento  inesperado.  A  Sra.

Featherington  mantivera  a  promessa  e  não  revelara  os  detalhes  do  assunto,  mas  fizera
insinuações  suficientes  para  que  todos  soubessem  que  o  noivado  não  ocorrera  do  modo
tradicional.
Por isso, todos estavam comentando, e Kate sabia que era apenas uma questão de tempo até
que  a  Sra.  Featherington  não  conseguisse  mais  se  controlar.  Quando  isso  acontecesse,  a
verdadeira história de sua ruína nas mãos – ou melhor, no ferrão – de uma abelha seria de
conhecimento público.
Entretanto, no fim, Violet decidira que um casamento rápido seria a melhor opção, e, como
seria  impossível  preparar  uma  grande  festa  em  uma  semana,  a  lista  de  convidados  ficara
restrita  à  família.  Kate  fora  acompanhada  por  Edwina,  Anthony  contara  com  o  irmão
Benedict e eles foram declarados marido e mulher.
Era  estranho,  Kate  pensou  no  fim  da  tarde,  ao  fitar  a  aliança  que  se  juntara  ao  anel  de
diamante na mão  esquerda, como  tudo podia  mudar tão  depressa. A  cerimônia fora breve,
passando por sua mente feito um borrão confuso, e ainda assim sua vida se modificara para
sempre.  Edwina  estava  certa.  Tudo  era  diferente.  Agora  ela  era  uma  mulher  casada,  uma
viscondessa.
Lady Bridgerton.
Mordeu  o  lábio  inferior.  Aquele  nome  parecia  ser  de  outra  pessoa.  Quanto  tempo  levaria
para que alguém dissesse “Lady Bridgerton” e ela entendesse que falavam com ela, não com
a mãe de Anthony?
Tinha se tornado esposa dele, com responsabilidades de esposa.
Isso a apavorou.
Depois  que  a  cerimônia  terminou,  Kate  pensou  nas  palavras  de  Mary  na  noite  anterior  e
percebeu que ela tinha razão. Em muitos aspectos, ela era a mulher mais sortuda do mundo.
Anthony a trataria bem. Trataria qualquer mulher bem. Esse era o problema.
Agora  ela  estava  numa  carruagem,  percorrendo  a  curta  distância  entre  a  mansão  dos
Bridgertons,  onde  a  recepção  ocorrera,  e  a  casa  de  Anthony,  que  não  poderia  mais  ser
chamada de “residência de solteiro”.
Ela lançou um olhar ao novo marido. Ele olhava fixamente para a frente, com o rosto sério
de uma forma curiosa.
– Você planeja a mudança para a Casa Bridgerton agora que nos casamos? – perguntou ela
em voz baixa.
Anthony assustou-se, quase como se tivesse se esquecido de que ela estava ali.
– Sim – retrucou, virando-se para encará-la –, embora prefira esperar alguns meses. Achei
que poderíamos ter um pouco de privacidade no início do casamento, não concorda?
– Claro – murmurou Kate.
Ela  baixou  os  olhos  para  as  mãos,  que  estavam  agitadas  em  seu  colo.  Tentou  deixá-las
paradas, mas era impossível. Era de admirar que ainda não tivesse tirado as luvas.
Anthony  acompanhou  o  olhar  dela  e  colocou  a  mão  sobre  as  suas.  Ela  ficou  imóvel  no

mesmo instante.
– Está nervosa? – indagou.
– Você pensou que eu não estaria? – retrucou ela, tentando manter a voz áspera e irônica.
Ele sorriu em resposta.
– Não há o que temer.
Kate  quase  irrompeu  numa  risada  nervosa.  Pelo  jeito,  estava  destinada  a  ouvir  aquela
bobagem muitas vezes.
– Talvez – disse –, mas ainda há muito para me deixar nervosa.
O sorriso dele se alargou.
– Touché, minha querida esposa.
Kate engoliu em seco de forma convulsiva. Era estranho ser a esposa de alguém, sobretudo
daquele homem.
– E você está nervoso? – perguntou.
Ele se inclinou para ela, com os olhos escuros ardentes pela promessa do que viria.
–  Ah,  desesperadamente  –  murmurou.  Então  diminuiu  o  espaço  entre  eles,  com  os  lábios
encontrando a cavidade sensível da orelha dela. – Meu coração está esmurrando o peito.
O corpo de Kate pareceu tensionar-se e derreter-se ao mesmo tempo. E então ela arriscou:
– Acho que deveríamos esperar.
Ele mordiscou sua orelha.
– Esperar o quê?
Kate  tentou  afastar-se.  Ele  não  compreendeu.  Se  tivesse  entendido,  teria  ficado  furioso,  e
não parecia furioso.
Ainda.
– P-pelo casamento – gaguejou.
Isso pareceu diverti-lo e ele brincou com os anéis dela, que agora repousavam por cima da
luva.
– É um pouco tarde para isso, não acha?
– Pela noite de núpcias – explicou ela.
Ele recuou, com uma expressão talvez um pouco irritada.
– Não – respondeu apenas.
Mas não fez nenhum gesto para se aproximar dela de novo.
Kate tentou pensar em como o faria entender, mas não era fácil – não tinha certeza de que
ela mesma entendia. E estava quase certa de que Anthony não acreditaria se ela lhe dissesse
que  não  tinha  pretendido  pedir  isso  –  a  pergunta  simplesmente  escapara,  movida  por  um
pânico que ela nem soubera que existia até aquele momento.
–  Não  peço  que  seja  para  sempre  –  falou,  detestando  o  fato  de  estar  quase  gaguejando.  –
Apenas por uma semana.
Isso chamou a atenção de Anthony e ele ergueu uma das sobrancelhas em um ar irônico de
dúvida.

– E o que, pelo amor de Deus, você espera ganhando uma semana?
– Não sei – respondeu ela, com sinceridade.
Ele a encarou com olhos severos, ardentes e sarcásticos.
– Você vai ter que se explicar melhor que isso – disse.
Kate  não  queria  fitá-lo.  Não  queria  a  intimidade  com  que  ele  a  oprimia  quando  fixava  os
olhos escuros nela. Era fácil disfarçar os sentimentos quando podia olhar para seu queixo ou
seus ombros, mas quando precisava fitá-lo direto nos olhos...
Ela temia que ele pudesse enxergar sua alma.
– Foi uma semana de grandes mudanças na minha vida – começou ela, torcendo para saber
onde queria chegar com essa frase.
– Na minha também – interrompeu ele em voz baixa.
– Nem tanto – retrucou Kate. – As intimidades do casamento não são novidade para você.
Ele deu um sorriso enviesado e ligeiramente arrogante.
– Pois saiba, minha senhora, que nunca fui casado.
– Não foi isso que eu quis dizer, e você sabe disso.
Ele não a contradisse.
– Eu só gostaria de um tempo para me preparar – prosseguiu ela, cruzando as mãos no colo
de forma rígida, porém sem conseguir parar de mexer os polegares, que demonstravam seu
estado de nervos.
Anthony a observou por um longo momento, em seguida reclinou-se e apoiou o tornozelo
esquerdo de forma despreocupada no joelho direito.
– Está bem – falou.
– Mesmo?
Ela retesou-se, surpresa. Não esperava que Anthony fosse concordar com tanta facilidade.
– Desde que... – continuou ele.
Ela afundou no banco. Deveria ter imaginado que haveria uma condição.
–... que você me explique uma coisa.
Ela engoliu em seco.
– E o que seria, milorde?
Ele se inclinou para a frente e a fitou com olhos muito diabólicos.
– Como exatamente você planeja se preparar?
Kate olhou pela janela, então praguejou baixinho ao perceber que eles nem sequer haviam
chegado à rua de Anthony. Não havia meio de evitar sua pergunta: ela ainda estaria presa na
carruagem por, pelo menos, mais cinco minutos.
– B-b-b-b-bem – gaguejou –, não entendi o que você quer dizer.
Ele deu uma risada.
– Tenho certeza de que não.
Kate olhou para ele com uma careta. Nada era pior que servir de piada para outra pessoa,
sobretudo sendo uma noiva no dia do próprio casamento.

– Agora você está se divertindo à minha custa – acusou ela.
–  Não  –  disse  ele  de  forma  maliciosa.  –  Eu  gostaria  de  me  divertir  com  você.  Existe  uma
grande diferença.
– Gostaria que não falasse assim – resmungou ela. – Você sabe que eu não entendo.
Os  olhos  dele  se  concentraram  nos  lábios  dela  enquanto  a  língua  umedecia  os  próprios
lábios.
–  Você  saberia  –  murmurou  –  se  apenas  cedesse  ao  inevitável  e  esquecesse  seu  pedido
ridículo.
– Não gosto de ser tratada com condescendência – disse Kate, com firmeza.
Os olhos dele brilharam.
– E eu não gosto que me neguem meus direitos – replicou, com a voz fria.
Seu rosto era uma representação de poder aristocrático.
– Não estou lhe negando nada – insistiu ela.
– Ah, é mesmo?
A pergunta era desprovida de humor.
– Só estou pedindo um adiamento. Um adiamento breve, temporário, breve... – Ela repetiu
a  palavra,  caso  o  cérebro  dele  estivesse  entorpecido  demais  pelo  orgulho  masculino  para
compreendê-la da primeira vez. – Decerto você não me negaria um pedido tão simples.
–  Não  acho  que  seja  eu  quem  está  negando  algo  por  aqui  –  retrucou  ele  com  a  voz
entrecortada.
Droga,  ele  tinha  razão,  e  Kate  não  soube  o  que  mais  poderia  dizer.  Estava  consciente  de
que não tinha o direito de pedir aquilo – ele poderia jogá-la sobre o ombro, arrastá-la para a
cama e trancá-la no quarto durante uma semana, se assim desejasse.
Ela  agira  feito  uma  tola,  presa  à  própria  insegurança  –  sentimento  que  nem  sabia  ter  até
conhecer Anthony.
Durante  toda  a  vida,  ela  fora  aquela  a  receber  o  segundo  olhar,  a  segunda  saudação,  o
segundo  beijo  na  mão.  Como  irmã  mais  velha,  deveria  ser  cumprimentada  antes  da  irmã
mais nova, mas a beleza de Edwina era tão impressionante, e o azul puro e perfeito de seus
olhos  tão  surpreendente,  que  as  pessoas  simplesmente  se  esqueciam  de  todo  o  restante  em
sua presença.
Quando qualquer pessoa era apresentada a Kate, costumava murmurar um “Muito prazer”
sem graça enquanto os olhos se fixavam no rosto radiante da irmã.
Kate nunca ligara muito para isso. Se Edwina tivesse sido mimada ou fosse geniosa, poderia
ter sido difícil, e também, para falar a verdade, a maioria dos homens que ela conhecera era
superficial e ridícula, então ela não se importava muito que eles só se dignassem a olhar para
ela depois de conhecer a mais nova.
Até agora.
Ela  queria  que  os  olhos  de  Anthony  se  iluminassem  quando  ela  entrasse  no  aposento.
Queria que ele procurasse seu rosto na multidão. Não precisava que ele a amasse – ou, pelo

menos, era o que dizia a si mesma –, mas queria desesperadamente ser a primeira em seus
afetos, a primeira em seus desejos.
Tinha  a  desagradável  e  terrível  sensação  de  que  tudo  isso  significava  que  ela  estava  se
apaixonando.
Apaixonar-se pelo marido – quem pensaria que isso poderia ser um desastre?
– Vejo que você ficou sem argumento – comentou Anthony em voz baixa.
A carruagem parou, felizmente liberando-a da necessidade de resposta. Contudo, quando
um lacaio de libré se adiantou para abrir a porta, Anthony voltou a fechá-la com força, sem
desviar os olhos do rosto dela.
– Como, milady? – insistiu ele, repetindo a pergunta.
– Como o quê? – retrucou ela.
Já tinha se esquecido do que ele indagara.
–  Como  –  repetiu  ele  com  a  voz  áspera  mas,  ao  mesmo  tempo,  muito  ardente  –  você
planeja preparar-se para a noite de núpcias?
– Eu... Eu não pensei nisso – admitiu Kate.
– Achei que não.
Ele  soltou  a  maçaneta  da  porta  e  ela  se  abriu,  revelando  os  rostos  de  dois  lacaios  que
claramente  faziam  um  grande  esforço  para  não  demonstrar  curiosidade.  Kate  permaneceu

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