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anos intoleráveis – provar da felicidade e saber que ela lhe seria arrancada. Talvez tenha sido
por isso que, quando Anthony enfim reagiu às palavras dela, não a puxou para si e a beijou
até deixá-la sem ar, nem pressionou os lábios contra seu ouvido e incendiou a pele dela com
seu hálito, para ter certeza de que ela perceberia que ele ardia por ela, não pela irmã.
Nunca pela irmã.
Em  vez  disso,  apenas  a  fitou  de  modo  impassível,  com  os  olhos  muito  mais  seguros  que  o
coração, e falou:
– Fico muito aliviado.
Mas disse essas palavras com a estranha sensação de que não estava ali de fato, e sim que
assistia à cena – nada mais que uma farsa – de fora do corpo, enquanto se perguntava que
diabo estava acontecendo.
Ela deu um sorriso fraco e retrucou:
– Achei mesmo que fosse ficar.
– Kate, eu...

Ela nunca saberia o que ele queria dizer. Na verdade, nem ele mesmo sabia. Não tinha nem
se dado conta de que ia dizer algo até pronunciar o nome dela.
Mas  suas  palavras  permaneceriam  sem  ser  ditas  para  sempre,  porque  nesse  momento  ele
ouviu  um  pequeno  zumbido.  O  tipo  de  som  que  a  maioria  das  pessoas  considera
ligeiramente desagradável.
Nada, para Anthony, poderia ser mais assustador.
– Não se mova – murmurou ele, com a voz rouca de medo.
Kate  estreitou  os  olhos  e  é  claro  que  se  mexeu,  tentando  descobrir  o  que  acontecia  à  sua
volta.
– Do que o senhor está falando? Qual é o problema?
– Só fique parada – pediu Anthony mais uma vez.
Ela virou os olhos para a esquerda, em seguida girou o queixo apenas poucos milímetros.
–  Ah,  é  só  uma  abelha!  –  afirmou  ela,  dando  um  sorriso  de  alívio  e  depois  ergueu  a  mão
para afugentá-la. – Pelo amor de Deus, Anthony, não faça isso de novo. Por um momento,
você me assustou.
Ele agarrou o pulso dela com toda a força.
– Eu falei para não se mover – sibilou ele.
– Anthony – retrucou Kate, rindo –, é só uma abelha.
Ele  a  manteve  imóvel  com  um  aperto  firme  e  doloroso,  os  olhos  fixos  naquela  criatura
nojenta,  observando-a  zumbir  com  determinação  em  torno  da  cabeça  de  Kate.  Estava
paralisado de medo, raiva e mais alguma coisa que não conseguiu identificar com precisão.
Não  que  Anthony  não  tivesse  entrado  em  contato  com  abelhas  ao  longo  dos  onze  anos
desde que o pai morrera. Afinal, não era  possível viver na Inglaterra e esperar evitá-las por
completo.
De  fato,  até  aquele  momento  ele  se  forçara  a  lidar  com  elas  de  uma  maneira  estranha  e
fatalista. Sempre suspeitara que poderia estar condenado a seguir os passos do pai em todos
os  aspectos.  Se  era  para  ser  vencido  por  um  simples  inseto,  por  Deus,  ele  passaria  por  isso
encarando a situação, sem fugir. Ele ia morrer cedo ou... bem, cedo, e não ia correr por causa
de um maldito inseto. Então, sempre que uma abelha voava a seu redor, ele ria, debochava,
praguejava e a espantava com a própria mão, ousando enfrentá-la.
E nunca tinha sido picado.
Mas  ver  uma  delas  voando  tão  perigosamente  perto  de  Kate  –  roçando  o  cabelo  dela,
pousando  na  manga  de  renda  do  vestido  –  era  terrível,  quase  hipnotizante.  Sua  mente
antecipou-se e ele viu o minúsculo monstro afundar o ferrão na pele macia, depois Kate com
falta de ar, caindo no chão.
Ele a viu ali em Aubrey Hall deitada na mesma cama que servira de primeiro caixão ao pai.
– Só fique quieta – murmurou ele. – Vamos nos levantar bem devagar. Depois vamos sair
daqui.
–  Anthony  –  chamou  ela  franzindo  a  testa  de  maneira  impaciente  e  confusa  –,  qual  é  o

problema?
Ele puxou a mão dela, tentando obrigá-la a se levantar, mas Kate resistiu.
–  É  uma  abelha  –  disse  ela  com  a  voz  exasperada.  –  Pare  de  agir  de  modo  tão  estranho.
Pelo amor de Deus, ela não vai me matar.
As palavras dela pesaram no ar, quase como se fossem um objeto sólido, pronto a desabar
no  chão  e  destruir  os  dois.  Depois,  por  fim,  quando  Anthony  se  acalmou  o  suficiente  para
conseguir falar, afirmou com a voz baixa e intensa:
– Ela poderia, sim.
Kate ficou paralisada, não porque quisesse obedecê-lo, mas porque algo nele, algo em seus
olhos, fez com  que ela  se arrepiasse.  Anthony parecia  diferente, como  se estivesse possuído
por um demônio desconhecido.
– Anthony – falou, tentando soar calma mas firme –, me solte agora mesmo.
Ela puxou, mas ele não soltou e a abelha continuou a zumbir, incansável, ao redor dela.
– Anthony! – exclamou ela. – Pare com isso agora...
O restante da frase se perdeu quando, de algum modo, ela conseguiu se libertar do aperto
dele.  Quando  puxou  a  mão,  Kate  perdeu  o  equilíbrio  e,  ao  agitar  os  braços  no  ar  tentando
recuperá-lo, bateu na abelha, fazendo-a ir parar na pele nua acima do corpete de seu vestido
vespertino.
–  Ah,  pelo  amor  de...  Ai!  –  gritou  Kate  quando  o  inseto,  sem  dúvida  furioso  com  a
agressão,  enfiou  o  ferrão  em  sua  pele.  –  Ora,  mas  que  droga!  –  xingou  ela,  ignorando  a
linguagem apropriada a uma dama. Era apenas uma picada de abelha, claro, nada que já não
houvesse  sofrido  muitas  vezes  antes,  mas,  droga,  aquilo  doía.  –  Maldição  –  resmungou,
baixando  o  queixo  contra  o  peito  para  conseguir  ver  melhor.  –  Agora  terei  que  entrar  para
pôr um cataplasma e meu vestido vai ficar todo sujo...
Com  um  suspiro  irritado,  ela  deu  um  tapinha  na  abelha  morta  para  tirá-la  da  saia  do
vestido e murmurou:
– Bem, pelo menos essa coisinha irritante está morta. Acho que é a única justiça nessa...
Foi então que ela levantou a cabeça e olhou para Anthony, que estava branco. Não pálido –
branco.
– Ah, meu Deus – murmurou ele, e o mais estranho foi que seus lábios não se moveram. –
Ah, meu Deus.
–  Anthony?  –  chamou  ela,  inclinando-se  para  ele,  esquecendo-se  por  um  momento  da
picada dolorida no peito. – Anthony, qual é o problema?
Qualquer  que  fosse  o  transe  em  que  ele  fora  lançado,  de  repente  Anthony  voltou  à
consciência e deu um pulo para a frente, agarrou o ombro dela com uma das mãos e, com a
outra, puxou o corpete do vestido para ver melhor a ferida.
– Milorde! – gritou Kate. – Pare!
Anthony  não  disse  uma  palavra,  mas  sua  respiração  estava  entrecortada  e  acelerada
enquanto ele a obrigava a recostar-se no banco ao mesmo tempo em que mantinha o vestido

dela  puxado  para  baixo,  não  tanto  que  a  expusesse,  mas  decerto  mais  do  que  permitia  a
decência.
– Anthony! – repetiu ela, esperando que o uso do primeiro nome lhe chamasse a atenção.
Ela  não  conhecia  aquele  homem  –  não  era  a  mesma  pessoa  que  se  sentara  ao  lado  dela
apenas alguns minutos antes. Estava agitado, frenético, e ignorava todos os protestos dela.
– Você quer calar a boca? – sibilou ele, sem nem erguer os olhos.
Estava totalmente concentrado no círculo vermelho e inchado no peito dela. Com as mãos
trêmulas, puxou o ferrão de sua pele.
– Anthony, eu estou bem! – insistiu ela. – O senhor precisa...
Ela arfou. Ele tinha movido um pouco uma das mãos enquanto, com a outra, retirava um
lenço do bolso, e agora, de modo bastante indelicado, agarrava-lhe o seio inteiro.
– Anthony, o que está fazendo?
Ela  segurou  sua  mão,  tentando  afastá-la,  porém  a  força  do  visconde  era  muito  superior  à
dela.
Ele  a  fez  recostar-se  com  mais  firmeza  ainda  contra  o  banco,  com  a  mão  praticamente
achatando o seio dela.
– Fique parada! – gritou, então começou a pressionar o lenço contra a picada inchada.
– O que o senhor está fazendo? – perguntou ela, tentando se afastar.
Ele não ergueu o rosto.
– Retirando o veneno.
– Há veneno?
– Deve haver – murmurou ele. – Tem que haver. Alguma coisa vai matá-la.
Ela ficou boquiaberta.
– Matar? O senhor está louco? Nada vai me matar. É só uma picada de abelha.
Mas ele a ignorou, concentrado demais na tarefa de tratar a ferida.
– Anthony – falou ela, com a voz mais tranquila, tentando argumentar com ele. – Agradeço
sua preocupação, mas já fui picada por abelhas pelo menos meia dúzia de vezes, e...
– Ele também já tinha sido picado – interrompeu o visconde.
Algo na voz dele a fez estremecer.
– Quem? – perguntou ela.
Anthony apertou com mais firmeza, segurando o lenço contra o líquido claro que escorria.
– Meu pai – falou –, e ele morreu.
Ela mal podia acreditar.
– Uma abelha?
– Sim, uma abelha – atalhou ele. – Você não estava prestando atenção?
– Anthony, uma abelhinha não tem o poder de matar um homem.
Ele  fez  uma  pausa  nos  cuidados  por  um  breve  segundo  e  a  fitou.  Seu  olhar  era  intenso,
sombrio.
– Posso lhe garantir que pode – insistiu.

Kate não conseguia acreditar que fosse verdade, mas também não achava que ele estivesse
mentindo, então ficou imóvel por um instante, entendendo que ele precisava tratar a picada
muito mais do que ela precisava dissuadi-lo de sua preocupação.
–  Ainda  está  inchado  –  murmurou  ele,  apertando  ainda  mais  o  lenço.  –  Não  acho  que
tenha tirado tudo.
–  Tenho  certeza  de  que  vou  ficar  bem  –  retrucou  ela  com  delicadeza,  com  a  raiva  se
transformando numa preocupação quase maternal.
A  testa  dele  ainda  estava  franzida  de  concentração  e  seus  movimentos  continuavam  um
pouco  frenéticos.  Ele  estava  paralisado  de  medo,  ela  percebeu,  apavorado  com  a
possibilidade de ela morrer ali mesmo, vencida por uma abelha minúscula.
Parecia impossível. No entanto, era verdade.
Ele balançou a cabeça.
– Ainda não está bom – falou com voz rouca. – Tenho que tirar tudo.
– Anthony, eu... O que você está fazendo?
Ele levantara o queixo dela e agora aproximava cada vez mais a cabeça de seu colo, quase
como se fosse beijá-la.
– Vou ter que sugar o veneno para fora – falou com determinação. – Fique quieta.
– Anthony! – gritou ela. – Você não pode...
Ela arfou, incapaz de terminar a frase ao sentir os lábios dele sobre sua pele, aplicando uma
pressão  suave  mas  implacável,  puxando-a  para  sua  boca.  Kate  não  soube  como  reagir  –  se
devia repeli-lo ou puxá-lo mais para si.
No fim, porém, ela simplesmente ficou imóvel, pois, quando levantou a cabeça e olhou por
cima do ombro dele, viu três mulheres fitando-os com a mesma expressão de choque.
Mary.
Lady Bridgerton.
E a Sra. Featherington, sem dúvida a maior fofoqueira da sociedade.
Nesse  momento  Kate  soube,  sem  sombra  de  dúvida,  que  sua  vida  nunca  mais  seria  a
mesma.

CAPÍTULO 14
E, se um escândalo surgiu mesmo no grupo de Lady Bridgerton, os que permaneceram em
Londres  podem  ficar  certos  de  que  todas  as  notícias  chegarão  a  nossos  ouvidos  na  maior
velocidade  possível.  Com  tantas  fofocas  notórias  acontecendo,  nós  garantimos  relatos
completos e detalhados.
C
4
P
or uma fração de segundo, todos permaneceram imóveis como em um quadro. Kate fitou
as três matronas, em choque. Elas retribuíram seu olhar completamente horrorizadas.
E  Anthony  continuava  tentando  sugar  o  veneno  da  picada  de  abelha,  sem  perceber  que
tinham uma plateia.
Kate  foi  a  primeira  a  encontrar  a  própria  voz  –  e  força  –,  então  empurrou  o  ombro  de
Anthony com todas as forças ao mesmo tempo que dava um grito exaltado:
– Pare!
Pego de surpresa, ele caiu sentado no chão, os olhos ainda tomados pela determinação de
salvá-la do que considerava um destino fatal.
– Anthony? – chamou Lady Bridgerton, arfando e com a voz trêmula, como se não pudesse
acreditar no que via.
Ele se virou.
– Mãe?
– Anthony, o que você está fazendo?
– Ela foi picada por uma abelha – explicou ele.
– Eu estou bem – insistiu Kate, puxando o vestido para cima. – Eu falei que não tinha sido
nada grave, mas ele não me ouviu.
Os olhos de Lady Bridgerton ficaram enevoados ao ouvir isso.
–  Entendo  –  retrucou,  numa  voz  triste  e  baixa,  e  Anthony  soube  que  ela  de  fato
compreendia.
Talvez fosse a única pessoa que poderia compreender.
– Kate – chamou Mary, finalmente, tropeçando nas palavras –, a boca dele estava no seu...
no seu...
–  Seio  –  completou  a  Sra.  Featherington,  prestativa,  cruzando  os  braços  sobre  o  busto
amplo.
Franziu a testa em reprovação, mas ficou claro que se divertia muitíssimo.
–  Não  estava,  não!  –  exclamou  Kate,  fazendo  um  esforço  para  se  levantar,  o  que  não  era

uma tarefa fácil, considerando-se que Anthony tinha aterrissado bem na sua frente quando
ela o empurrara. – Eu fui picada aqui!
Ela apontou de forma frenética para a marca vermelha e redonda que ainda crescia na pele
fina de sua clavícula.
As três senhoras olharam a picada de abelha e o rosto delas assumiu o mesmo tom suave de
vermelho do machucado.
– Não foi nem um pouco perto do meu seio! – protestou Kate, horrorizada demais com o
rumo da conversa para envergonhar-se de sua linguagem bastante anatômica.
– Mas também não foi longe – assinalou a Sra. Featherington.
– Alguém quer fazer essa mulher calar a boca? – atalhou Anthony.
– Ora! – irritou-se a Sra. Featherington. – Eu?
– Sim, a senhora! – respondeu Anthony.
– Mas que desaforo! – disse a Sra. Featherington, cutucando o braço de Lady Bridgerton.
Quando a viscondessa não reagiu, ela se virou para Mary e fez a mesma coisa.
Mas Mary só tinha olhos para a filha.
– Kate, venha aqui agora mesmo! – ordenou.
Kate obedeceu e foi para o lado da madrasta.
– E então? – indagou a Sra. Featherington. – O que vamos fazer?
Quatro pares de olhos viraram-se para ela, incrédulos.
– Nós? – perguntou Kate em voz baixa.
– Não consigo imaginar o que a senhora  poderia  ter  a  dizer  sobre  esse  assunto  –  retrucou
Anthony.
A Sra. Featherington emitiu um fungado de desdém alto e anasalado.
– O senhor vai ter que se casar com ela – falou.
– O quê? – gritou Kate. – A senhora deve estar louca.
– Eu devo ser a única pessoa sensata no jardim, isso sim – retrucou a Sra. Featherington de
modo rude. – Ora, minha jovem, ele estava com a boca nos seus peitos, e todas nós vimos.
– Não estava, não! – resmungou Kate. – Fui picada por uma abelha. Uma abelha!
– Portia – atalhou Lady Bridgerton –, não creio que seja necessário usar uma linguagem tão
explícita.
–  Não  adianta  sermos  delicados  agora  –  respondeu  a  Sra.  Featherington.  –  Não  importa
como  a  senhora  descreva,  vai  ser  uma  bela  fofoca.  O  solteiro  mais  cobiçado  da  alta
sociedade,  vencido  por  uma  abelha.  Devo  dizer,  milorde,  que  não  foi  bem  assim  que
imaginei.
–  Não  vai  haver  fofoca  alguma  –  resmungou  Anthony,  avançando  para  ela  com  uma
expressão  de  ameaça  –,  porque  ninguém  vai  dizer  nada.  Não  verei  a  reputação  da  Srta.
Sheffield ser destruída dessa maneira.
A Sra. Featherington arregalou os olhos com incredulidade.
– O senhor acha que conseguirá manter segredo sobre algo assim?

–  Eu  não  vou  dizer  nada,  e  duvido  que  a  Srta.  Sheffield  vá  –  falou,  pondo  as  mãos  nos
quadris  e  lançando-lhe  um  olhar  severo.  Era  o  tipo  de  olhar  que  fazia  com  que  homens
adultos se curvassem, mas a Sra. Featherington ou era implacável ou simplesmente estúpida,
por  isso  ele  continuou:  –  Muito  menos  nossas  mães,  que  têm  interesse  de  proteger  nossa
reputação.  Só  nos  resta,  então,  a  senhora  como  o  único  membro  de  nosso  pequeno  e
aconchegante grupo que poderia sair tagarelando por aí sobre o que viu.
A Sra. Featherington ficou vermelha.
–  Qualquer  pessoa  pode  ter  visto  de  dentro  da  casa  –  falou  rispidamente,  relutando  em
perder uma fofoca dessas.
Ela  seria  festejada  por  um  mês  como  a  única  testemunha  do  escândalo.  A  única  que
contaria sobre ele, claro.
Lady Bridgerton lançou um olhar à casa e ficou pálida.
– Ela tem razão, Anthony – afirmou. – Vocês estavam a plena vista da ala dos convidados.
–  Foi  uma  abelha  –  protestou  Kate.  –  Só  uma  abelha!  Não  podemos  ser  obrigados  a  nos
casar por causa de uma abelha!
A  única  resposta  à  sua  explosão  foi  o  silêncio.  Ela  olhou  para  Mary,  depois  para  Lady
Bridgerton,  e  as  duas  a  fitavam  com  uma  expressão  que  era  um  misto  de  preocupação,
bondade  e  pena.  Então  ela  olhou  para  Anthony,  cuja  expressão  era  rígida,  fechada,
completamente indecifrável.
Kate fechou os olhos, infeliz. Não era assim que deveria acontecer. Mesmo quando dissera
que ele poderia se casar com sua irmã, ela desejara que ele pudesse ser seu, mas não daquela
maneira.
Ah, Deus, não daquela maneira. Não de modo que ele se sentisse numa armadilha. Não de
modo que passasse o resto da vida olhando para ela e desejando que fosse outra pessoa.
– Anthony? – murmurou Kate.
Talvez, se ele falasse com ela, se simplesmente olhasse para ela, ela poderia ter alguma pista
sobre o que ele estava pensando.
– Nós nos casaremos na semana que vem – disse ele.
Sua voz era firme e clara, mas desprovida de emoção.
–  Ah,  meu  Deus!  –  disse  Lady  Bridgerton  muito  aliviada,  batendo  palmas.  –  A  Sra.
Sheffield e eu começaremos os preparativos agora mesmo.
–  Anthony  –  murmurou  Kate  mais  uma  vez,  dessa  vez  com  mais  urgência  –,  você  tem
certeza?
Ela  segurou  o  braço  dele  e  tentou  afastá-lo  das  matronas.  Conseguiu  por  apenas  alguns
centímetros, mas ao menos eles não as estavam encarando mais.
Anthony a fitou com olhos implacáveis.
– Nós vamos nos casar – falou simplesmente, e sua voz era a do aristocrata que não admitia
protesto e esperava ser obedecido. – Não há mais nada a fazer.
– Mas você não quer se casar comigo – objetou ela.

Ele ergueu uma das sobrancelhas.
– E você quer se casar comigo?
Kate não respondeu. Não havia nada a dizer, se quisesse manter um resquício de orgulho.
– Acho que vamos nos dar muito bem – continuou ele, com a expressão se suavizando um
pouco. – Nós nos tornamos amigos, afinal. Isso é mais do que a maioria das pessoas tem no
início de uma união.
– Você não pode querer isso – insistiu ela. – Você queria se casar com Edwina. O que vai
dizer a ela?
Ele cruzou os braços.
–  Nunca  prometi  nada  a  Edwina.  E  imagino  que  simplesmente  diremos  a  ela  que  nos
apaixonamos.
Kate revirou os olhos.
– Ela nunca vai acreditar nisso.
Ele deu de ombros.
– Então, conte-lhe a verdade. Fale que você foi picada por uma abelha, eu fui tentar ajudá-
la e nós fomos pegos numa posição comprometedora. Diga-lhe o que você quiser. Ela é sua
irmã.
Kate afundou no banco de pedra e suspirou.
–  Ninguém  vai  acreditar  que  você  queria  se  casar  comigo  –  retrucou  ela.  –  Todos  vão
pensar que caiu numa armadilha.
Anthony  lançou  um  olhar  às  três  mulheres,  que  ainda  os  fitavam  cheias  de  interesse.
Quando pediu que lhes dessem licença, Violet e Mary se afastaram de imediato, mas a Sra.
Featherington permaneceu no  mesmo lugar.  Violet, então,  voltou e  lhe deu  um puxão que
quase arrancou o braço dela.
Anthony sentou-se perto de Kate e disse:
– Não há muito que possamos fazer para evitar que as pessoas falem, sobretudo com Portia
Featherington como testemunha. Não confio nessa mulher para manter a boca fechada nem
por um minuto depois que voltarmos à casa. – Ele se recostou e apoiou o tornozelo esquerdo
no  joelho  direito.  –  Então,  nós  podemos  tirar  o  máximo  proveito  disso.  Eu  tenho  que  me
casar este ano...
– Por quê?
– Por que o quê?
– Por que você tem que se casar este ano?
Ele fez uma pausa. Não havia uma resposta para essa pergunta. Por isso, retrucou:
–  Porque  sim,  e  isso  é  uma  boa  razão  para  mim.  Quanto  a  você,  um  dia  vai  ter  que  se
casar...
Ela voltou a interrompê-lo:
– Para ser sincera, eu já imaginava que nunca me casaria.
Anthony sentiu os músculos se retesarem e precisou de alguns segundos para perceber que

o que sentia era raiva.
– Você planejava viver como uma solteirona?
Ela assentiu, com os olhos inocentes e sinceros ao mesmo tempo.
– Parecia uma possibilidade definitiva, sim.
Ele  permaneceu  imóvel  por  alguns  segundos,  pensando  que  seria  capaz  de  matar  todas  as
pessoas – homens ou mulheres – que a comparavam a Edwina e a consideravam sem graça.
Kate não fazia ideia de como podia ser atraente e desejável por seus próprios atributos.
Quando  a  Sra.  Featherington  anunciara  que  eles  deveriam  se  casar,  sua  primeira  reação
tinha sido a mesma de Kate: total horror. Sem contar a sensação de orgulho ferido. Nenhum
homem  quer  ser  obrigado  a  se  casar,  sendo  particularmente  humilhante  ser  forçado  a  isso
por causa de uma abelha.
No  entanto,  parado  ali,  observando  Kate  protestar  (não  era,  pensou  ele,  a  mais  lisonjeira
das reações, mas ela também tinha direito a um pouco de orgulho), uma estranha satisfação
tomou conta dele.
Anthony a queria.
Desesperadamente.
Nunca  teria  se  permitido,  nem  em  um  milhão  de  anos,  escolhê-la  como  esposa.  Ela  era
perigosa demais para sua paz de espírito.
Mas o destino interviera e agora, pelo jeito, ele teria que se casar com ela. Bem, não parecia
fazer muito sentido criar uma grande confusão. Havia destinos bem piores que se casar com
uma mulher inteligente e divertida, qualidades que se desejaria depois de um tempo.
Só precisava garantir que não se apaixonaria por ela. Não seria impossível, seria? Deus sabia
que  ela  o  deixava  louco  metade  do  tempo  com  discussões  intermináveis.  Poderiam  ter  um
casamento prazeroso. Desfrutaria de sua amizade e de seu corpo, e manteria as coisas nesse
pé. Não seria necessário ir além.
E não poderia ter pedido uma mulher melhor para cuidar dos filhos dele depois que ele se
fosse. Isso era muito importante.
– Vai dar certo – garantiu. – Você vai ver.
Ela  parecia  hesitante,  mas  assentiu.  Sem  dúvida,  não  havia  muito  que  pudesse  fazer.
Simplesmente  fora  flagrada  pela  maior  fofoqueira  de  Londres  enquanto  um  homem  estava
com a boca em seu seio. Se ele não se oferecesse para se casar com ela, Kate estaria perdida
para sempre.
E, se ela se recusasse a se casar com ele... Bem, então seria chamada de perdida e idiota.

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