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com  cada  fibra  de  seu  ser  –  que  ele  não  se  referira  a  coisas  imateriais,  mas  a  seus  próprios
medos, algo muito específico que o assombrava a cada minuto de todos os dias.
Algo  sobre  o  qual  ela  sabia  não  ter  o  direito  de  perguntar.  Mas  ela  desejava  –  ah,  como
desejava – que, quando ele estivesse pronto para enfrentar os próprios temores, ela pudesse
ajudá-lo.
Contudo,  isso  não  iria  acontecer.  Ele  se  casaria  com  outra  pessoa  –  talvez  até  Edwina  –,  e
apenas sua esposa teria o direito de conversar com ele sobre problemas pessoais.
– Acho que já estou pronta para subir – disse ela.
De repente se tornou muito difícil ficar na presença dele, e era doloroso demais saber que
ele pertenceria a outra pessoa.
Anthony curvou os lábios num sorriso infantil.
– Você está dizendo que eu posso finalmente rastejar de debaixo desta mesa?
– Ah, meu Deus! – Ela levou uma das mãos ao rosto, com uma expressão constrangida. –
Sinto muito. Pelo jeito, esqueci onde estávamos. O senhor deve me achar uma tola.
Ele balançou a cabeça, sem deixar de sorrir.
–  Nunca  a  achei  tola,  Kate.  Mesmo  quando  a  considerava  a  criatura  mais  insuportável  de
todo o planeta, nunca duvidei de sua inteligência.
Kate, que estava começando a sair de debaixo da mesa, fez uma pausa.
– Não sei se devo ver isso como um elogio ou como um insulto.
– Talvez as duas coisas – admitiu ele –, mas, pelo bem de nossa amizade, vamos optar pelo
elogio.
Ela  se  virou  para  fitá-lo,  sabendo  muito  bem  que  sua  posição  –  apoiada  nas  mãos  e  nos

joelhos – era estranha, mas o momento parecia importante demais para adiar.
– Então nós somos amigos? – murmurou.
Ele assentiu enquanto se punha de pé.
– Por mais estranho que pareça, acho que somos.
Kate sorriu ao segurar a mão dele, que a ajudou a levantar-se.
–  Fico  feliz.  O  senhor...  o  senhor  realmente  não  é  o  demônio  que  pensei  que  fosse  no
início.
Ele ergueu uma sobrancelha e assumiu uma expressão muito maligna.
–  Bem,  talvez  seja  –  corrigiu  ela,  pensando  que  era  bem  provável  que  fosse  mesmo  o
libertino e patife que a sociedade pintara. – Mas pode ser um homem bom também.
– Bom parece tão sem graça... – refletiu ele.
– Bom – retrucou Kate – é bom. E, considerando minha opinião anterior, o senhor deveria
ficar satisfeito com o elogio.
Ele deu uma risada.
–  Se  existe  uma  coisa  que  eu  posso  dizer  sobre  você,  Kate  Sheffield,  é  que  nunca  é  uma
pessoa enfadonha.
– Enfadonha é tão sem graça... – brincou ela.
Ele  sorriu.  Era  um  gesto  sincero,  verdadeiro,  não  a  expressão  irônica  que  ele  costumava
assumir nos eventos sociais. De repente, Kate sentiu um bolo na garganta.
–  É  melhor  que  eu  não  a  acompanhe  até  seu  quarto  –  comentou  ele.  –  Se  alguém  nos  vir
juntos a uma hora dessas...
Kate  assentiu.  Eles  haviam  criado  uma  amizade  improvável,  mas  ela  não  queria  ser
obrigada a se casar com ele, certo? Nem era preciso dizer que ele não queria se casar com ela.
Anthony fez um gesto na direção dela.
– Sobretudo considerando seus trajes...
Kate  baixou  os  olhos  e  arfou,  depois  puxou  o  robe  com  força.  Ela  tinha  se  esquecido  por
completo que não estava vestida de maneira adequada. Sua camisola não era reveladora nem
indecente, especialmente com o robe grosso por cima, mas era uma camisola.
– A senhorita vai ficar bem? – indagou ele em voz baixa. – Ainda está chovendo.
Kate  parou  e  ouviu  com  atenção.  A  chuva  tinha  se  transformado  em  um  delicado
tamborilar nas janelas.
– Acho que a tempestade já passou.
Ele assentiu e deu uma olhada no corredor.
– Está vazio – falou.
– É melhor que eu me vá.
Ele se afastou para deixá-la passar.
Kate se afastou, mas, quando alcançou a escada, parou e deu meia-volta.
– Lorde Bridgerton.
– Anthony – retrucou ele. – Pode me chamar de Anthony. Creio que já a chamei de Kate.

– É mesmo?
– Quando a encontrei. – Ele fez um gesto com a mão na direção do escritório. – Não creio
que você tenha ouvido algo do que eu disse.
– O senhor tem razão. – Ela deu um sorriso hesitante. – Anthony.
O nome soou estranho em seus lábios.
Ele se inclinou um pouco para a frente com um brilho estranho, quase diabólico, nos olhos.
– Kate – falou, retribuindo o tratamento.
–  Só  queria  lhe  agradecer  –  continuou  ela.  –  Por  me  ajudar  hoje.  Eu...  –  Ela  pigarreou.  –
Teria sido muito mais difícil sem o senhor.
– Eu não fiz nada – retrucou ele de forma brusca.
– Não. O senhor fez tudo.
E,  então,  antes  que  sentisse  a  tentação  de  ficar,  ela  apertou  o  passo  e  subiu  correndo  as
escadas.

CAPÍTULO 13
Não há muito a falar sobre Londres, pois várias pessoas estão em Kent, na casa de campo
dos Bridgertons. Esta autora mal pode imaginar todas as fofocas que, em breve, vão chegar
à  cidade.  Haverá  um  escândalo,  não  é?  Sempre  há  um  escândalo  numa  reunião  em  uma
casa de campo.
C
4
A
  manhã  seguinte  foi  do  tipo  que  em  geral  se  segue  a  uma  tempestade  violenta:  clara  e
límpida, mas com uma névoa fina e úmida que assentava sobre a pele, refrescando-a.
Anthony  esquecera-se  do  tempo  depois  de  passar  a  noite  em  claro  fitando  a  escuridão  e
vendo apenas o rosto de Kate. Finalmente, quando os primeiros raios da aurora surgiram no
céu, ele conseguiu pegar no sono. Apesar de ter acordado depois de meio-dia, não se sentia
descansado.  Seu  corpo  tinha  sido  dominado  por  uma  estranha  combinação  de  cansaço  e
energia  nervosa.  Os  olhos  pareciam  pesados  e  entorpecidos,  e  mesmo  assim  ele  tamborilou
sobre a cama, movendo a mão para a beirada, como se os dedos, sozinhos, pudessem puxá-lo
e fazê-lo ficar de pé.
Por  fim,  quando  seu  estômago  roncou  tão  alto  que  ele  poderia  jurar  que  vira  o  gesso  do
teto  estremecer,  Anthony  levantou-se  com  dificuldade  e  vestiu  o  robe.  Com  um  bocejo
sonoro,  foi  até  a  janela,  não  porque  quisesse  procurar  alguém  ou  algo  em  particular,  mas
apenas porque a visão era melhor que qualquer coisa em seu quarto.
Mesmo assim, na fração de segundo antes de baixar os olhos e fitar o terreno, ele sabia, de
alguma maneira, o que ia ver.
Kate. Ela caminhava lentamente pelo gramado, muito mais devagar do que de costume. Em
geral, ela andava como se disputasse uma corrida.
Ela  estava  muito  longe  para  que  ele  pudesse  ver  seu  rosto  –  só  uma  parte  de  seu  perfil,  a
curva da bochecha, era visível. Ainda assim, não conseguiu tirar os olhos dela. Suas formas
eram  mágicas  –  havia  uma  graça  estranha  no  modo  como  o  braço  pendia  quando  ela
caminhava, uma habilidade artística na posição dos ombros.
Anthony percebeu que ela seguia para o jardim.
E soube que precisava se juntar a ela.
O  tempo  permaneceu  instável  durante  a  maior  parte  do  dia,  fazendo  dois  grupos  se
formarem  na  casa:  os  que  insistiam  que  a  ausência  de  chuva  convidava  a  atividades  ao  ar

livre e os que queriam evitar a grama molhada e o ar úmido, preferindo o clima mais seco e
quente da sala de estar.
Kate, sem dúvida, estava no primeiro grupo, embora não quisesse companhia. Encontrava-
se  num  estado  reflexivo  demais  para  ter  uma  conversa  educada  com  pessoas  que  mal
conhecia,  por  isso  se  afastou  da  casa  e  seguiu  para  os  jardins  espetaculares  de  Lady
Bridgerton.  Chegando  lá,  acomodou-se  em  um  local  bem  silencioso,  num  banco  de  pedra
perto  de  um  arco  de  rosas.  O  banco  estava  frio  e  um  pouco  úmido,  mas  ela  sentia-se
cansada, e era melhor que ficar de pé.
E era, percebeu com um suspiro, praticamente o único lugar onde poderia ficar sozinha. Se
não saísse de casa, decerto seria obrigada a juntar-se ao grupo de senhoras que tagarelavam
na  sala  de  estar  enquanto  escreviam  cartas  para  os  amigos  e  a  família  ou,  pior,  teria  que
acompanhar o grupo que fora ao jardim de inverno para bordar.
Quanto aos entusiastas do ar livre, eles se subdividiram em dois grupos. O primeiro partiu
apressadamente para o povoado a fim de fazer compras e passear pelos lugares mais famosos
enquanto  o  outro  quis  fazer  uma  caminhada  até  o  lago.  Como  Kate  não  tinha  nenhum
interesse  em  fazer  compras  (e  já  estava  bastante  familiarizada  com  o  lago),  evitou  a
companhia deles também.
Por isso a solidão no jardim.
Ela ficou vários minutos apenas olhando um botão de rosa sem de fato vê-lo, com os olhos
de certa forma vazios. Era bom ficar sozinha, sem ter que cobrir a boca ou disfarçar os ruídos
que fazia ao bocejar. Era bom não ter ninguém por perto para comentar sobre suas olheiras,
ou sobre seu silêncio incomum e sua pouca disposição para a conversa.
Sobretudo,  era  bom  estar  ali  sentada  sozinha  para  tentar  refletir  sobre  a  confusão  de
sentimentos  relacionados  ao  visconde.  Era  uma  tarefa  difícil,  que  preferiria  adiar,  mas  que
não podia.
Ainda  que,  na  verdade,  não  houvesse  muito  sobre  o  que  refletir.  Tudo  o  que  ela  vira
recentemente conduzia sua mente a uma única direção: ela sabia que não podia mais se opor
ao desejo de Bridgerton de cortejar Edwina.
Nos  últimos  dias,  ele  se  mostrara  sensível,  gentil  e  íntegro.  E  até  mesmo  heroico,  pensou
com  um  sorriso  se  formando  nos  lábios  ao  se  recordar  do  brilho  nos  olhos  de  Penelope
Featherington quando ele a salvara dos insultos de Cressida Cowper.
Era um homem dedicado à família.
Usara sua posição social e seu poder não para mandar nos outros, mas apenas para poupar
uma pessoa dos desaforos que estava sofrendo.
Ele  a  ajudara  durante  uma  de  suas  crises  de  fobia  com  uma  graciosidade  e  sensibilidade
que, agora que ela via a situação com a mente clara, a surpreendeu.
Podia ter sido um libertino e um patife – podia ainda ser um libertino e um patife – mas era
óbvio que seu comportamento não o definia como homem. E a única objeção de Kate a seu
casamento com Edwina era...

Ela engoliu em seco. Havia um enorme bolo em sua garganta.
Sua única objeção era porque, no fundo, ela queria o visconde para si.
Mas  isso  era  egoísmo,  e  Kate  passara  a  vida  tentando  não  ser  egoísta.  Sabia  que  nunca
poderia pedir à irmã que não se casasse com Anthony por isso. Se Edwina soubesse que Kate
se sentia minimamente atraída pelo visconde, poria um fim à corte dele no mesmo instante.
E  de  que  isso  adiantaria?  Anthony  simplesmente  encontraria  outra  mulher  solteira  e  bela
para desposar. Havia muitas para escolher em Londres.
Considerando que ele não pediria Kate  em  casamento,  o  que  ela  ganharia  ao  impedir  um
casamento entre ele e a caçula?
Nada,  a  não  ser  a  agonia  de  vê-lo  casado  com  a  irmã.  E  isso  diminuiria  com  o  passar  do
tempo, não é? Tinha que diminuir. Ela mesma dissera na noite anterior que o tempo curava
todas  as  feridas.  Além  disso,  a  dor  seria  a  mesma  de  vê-lo  casado  com  qualquer  outra
mulher. A única diferença era que ela o veria em feriados, batizados e datas especiais.
Kate suspirou. Foi um suspiro longo, triste e cansado que lhe roubou todo o ar dos pulmões
e fez com que seus ombros se curvassem.
Seu coração doía.
Então uma voz entrou em seus ouvidos. A voz dele, baixa e suave, como uma espiral cálida
ao redor dela.
– Meu Deus, como você está séria.
Kate se levantou com tanta rapidez que a parte de trás de suas pernas bateram na beirada
do banco de pedra, fazendo-a se desequilibrar.
– Milorde – falou.
Ele curvou os lábios em uma insinuação de sorriso.
– Achei que poderia encontrá-la aqui.
Ela  arregalou  os  olhos  ao  se  dar  conta  de  que  ele  a  procurara  de  forma  deliberada.  Seu
coração começou a bater mais rápido, mas ao menos isso ela podia esconder dele.
Anthony  relanceou  o  banco  de  pedra  e  fez  um  gesto  para  que  ela  ficasse  à  vontade  para
voltar a se sentar.
–  Na  verdade,  eu  a  vi  da  janela  do  meu  quarto.  Queria  me  certificar  de  que  a  senhorita
estava melhor – explicou em voz baixa.
Kate  se  sentou,  a  decepção  invadindo-a.  Ele  estava  apenas  sendo  educado.  Claro  que  ele
estava  apenas  sendo  educado.  Como  ela  fora  tola  de  sonhar  sequer  por  um  momento  que
poderia  haver  algo  mais.  Ele  era,  Kate  percebeu  finalmente,  uma  pessoa  gentil,  e,  como
qualquer  pessoa  gentil,  queria  ter  certeza  de  que  ela  estava  bem  depois  do  que  ocorrera  na
noite anterior.
– Estou – respondeu. – Muito melhor. Obrigada.
Se ele reparou nas frases mal articuladas, não demonstrou.
–  Fico  feliz  –  retrucou  ele,  e  se  sentou  a  seu  lado.  –  Fiquei  muito  preocupado  com  a
senhorita durante boa parte da noite.

O coração dela, que já batia muito rápido, se acelerou ainda mais.
– Ficou?
– Claro. Por que não ficaria?
Kate  engoliu  em  seco.  Lá  estava,  mais  uma  vez,  aquele  excesso  de  gentileza.  Ah,  ela  não
duvidava que seu interesse e preocupação fossem verdadeiros. Apenas a magoava o fato de
serem despertados pela empatia natural a qualquer ser humano, e não por algum sentimento
especial que nutrisse por ela.
Não que ela esperasse algo diferente. Mas achava impossível não esperar alguma coisa.
– Lamento tê-lo incomodado tão tarde da noite – falou baixinho, principalmente por achar
que era algo que deveria dizer.
Na verdade, estava felicíssima por ele ter aparecido lá.
–  Não  seja  tola  –  falou  ele,  empertigando-se  um  pouco  e  fitando-a  com  um  olhar  muito
severo.  –  Detesto  pensar  em  você  sozinha  durante  uma  tempestade.  Fico  satisfeito  por  ter
estado lá para ajudá-la.
– Em geral, fico sozinha durante as tempestades – admitiu ela.
Anthony franziu a testa.
– Sua família não a conforta quando chove?
Ela parecia um pouco constrangida ao responder:
– Elas não sabem que eu sinto medo.
Ele assentiu devagar.
– Sei. Algumas vezes... – Anthony fez uma pausa para pigarrear, um recurso que empregava
com  frequência  quando  não  tinha  certeza  do  que  queria  dizer.  –  Acho  que  você  se  sentiria
melhor se procurasse a ajuda de sua mãe e de sua irmã, mas eu sei... – Pigarreou de novo.
Sabia muito bem como era amar alguém da família e ainda assim não conseguir compartilhar
os  medos  mais  profundos.  Isso  causava  uma  sensação  de  isolamento,  de  estar  sozinho  em
uma multidão barulhenta e amada.– Eu sei – falou de novo com a voz firme e suave – que,
muitas vezes, é difícil compartilhar nossos temores com aqueles que mais amamos.
Os  olhos  castanhos  dela,  sábios,  calorosos  e  inegavelmente  sensíveis,  fixaram-se  nos  dele.
Por uma fração de segundo, Anthony teve a estranha sensação de que ela, de alguma forma,
sabia tudo sobre ele, cada detalhe desde o nascimento até sua certeza a respeito da própria
morte.  Naquele  pequeno  instante  em  que  Kate  estava  com  o  rosto  voltado  para  ele  e  os
lábios  entreabertos,  pareceu  que  ela,  mais  que  qualquer  um  que  já  colocara  os  pés  sobre  a
Terra, o conhecia verdadeiramente.
Era emocionante.
E, mais que isso, era apavorante.
– O senhor é um homem muito sábio – sussurrou ela.
Ele  precisou  de  um  momento  para  se  lembrar  do  que  estavam  falando.  Ah,  claro,  medos.
Ele conhecia os medos. Forçou um sorriso ao ouvir o elogio:
– Na maior parte do tempo, sou um homem muito tolo.

Ela balançou a cabeça.
– Não. Acho que, como se diz, o senhor acertou na mosca. Sem dúvida, eu não diria nada a
Mary nem a Edwina. Não quero perturbá-las.
Ela mordeu o lábio inferior por um momento. Foi um movimento rápido e engraçado que
ele considerou curiosamente sedutor.
– Na verdade – acrescentou Kate –, para ser bem sincera, confesso que meus motivos não
são tão altruístas. Uma grande parte de minha relutância em confessar meu medo reside no
desejo de não ser considerada fraca.
– Isso não é um pecado tão terrível – murmurou ele.
– Não se comparado a outros pecados, suponho – falou Kate com um sorriso. – Mas eu me
arriscaria a dizer que o senhor sofre do mesmo mal.
Ele não disse nada. Apenas assentiu.
– Todos temos papéis a desempenhar na vida – continuou ela –, e o meu sempre foi o de
ser forte e ajuizada. Esconder-me debaixo da mesa durante uma tempestade não é nenhuma
das duas coisas.
– Talvez sua irmã – retrucou ele baixinho – seja muito mais forte do que você pensa.
Ela  olhou  para  ele.  Será  que  ele  estava  tentando  lhe  dizer  que  se  apaixonara  por  Edwina?
Ele  já  havia  elogiado  a  graça  e  a  beleza  da  irmã,  porém  nunca  se  referira  à  personalidade
dela.
Kate  fitou-o  enquanto  sua  coragem  durou,  mas  não  viu  nada  que  revelasse  seus
verdadeiros sentimentos.
– Eu não quis dizer que não era – respondeu, por fim. – Mas sou a irmã mais velha. Sempre
tive  de  ser  forte  por  mim  e  por  ela,  enquanto  Edwina  precisava  ser  forte  apenas  por  si
mesma. – Ela voltou a encará-lo e percebeu que ele a observava com tanta intensidade que
era quase como se pudesse ver sua alma. – Você também é o filho mais velho – continuou. –
Tenho certeza de que sabe o que quero dizer.
Ele concordou e seus olhos pareceram, ao mesmo tempo, divertidos e resignados.
– Sei exatamente.
Ela lhe sorriu em resposta, o tipo de sorriso compartilhado entre pessoas com experiências e
provações semelhantes. E, conforme ela se sentia cada vez mais à vontade perto dele, quase
como se pudesse se aconchegar no calor de seu corpo, sabia que não poderia adiar por mais
tempo sua tarefa.
Precisava lhe dizer que não se opunha mais ao casamento dele com Edwina. Não seria justo
com  ninguém  guardar  esse  segredo  só  porque  queria  mantê-lo  para  si  ao  menos  por  mais
alguns momentos ali no jardim.
Ela respirou fundo, levantou os ombros e se virou para ele.
Ele a olhou, ansioso. Era óbvio, afinal, que ela tinha algo a lhe dizer.
Kate abriu a boca, mas nenhum som saiu.
– O que foi? – indagou ele, parecendo bastante divertido.

– Milorde – falou ela.
– Anthony – corrigiu ele, com delicadeza.
–  Anthony  –  repetiu  ela,  perguntando-se  por  que  chamá-lo  pelo  primeiro  nome  tornava
tudo aquilo ainda mais difícil. – Eu preciso conversar sobre uma coisa com o senhor.
Ele sorriu.
– Eu percebi.
Os  olhos  dela  fixaram-se  inexplicavelmente  em  seu  pé  direito,  que  traçava  meias-luas  na
terra compactada do jardim.
– É... hã... sobre Edwina.
Anthony ergueu as sobrancelhas e seguiu o olhar dela até seu pé, que desistira das meias-
luas e agora traçava linhas onduladas.
– Há algo errado com sua irmã? – indagou ele, gentil.
Ela balançou a cabeça e ergueu os olhos de novo.
–  Não,  nada.  Acho  que  ela  está  na  sala  escrevendo  para  nosso  primo  em  Somerset.  As
damas gostam de fazer isso, sabe?
Ele piscou.
– Fazer o quê?
– Escrever cartas. Eu não sou uma boa correspondente – disse ela, as palavras saindo de sua
boca  com  uma  rapidez  estranha  –,  porque  nunca  tenho  paciência  para  me  sentar  à
escrivaninha  e  ficar  imóvel  por  tempo  suficiente  para  escrever  uma  carta  inteira.  Sem  falar
que  minha  caligrafia  é  muito  ruim.  Mas  a  maioria  das  damas  passa  boa  parte  do  dia
redigindo correspondências.
Ele tentou não sorrir.
– Você queria me dizer que sua irmã gosta de escrever cartas?
– Não, decerto que não – resmungou ela. – É que o senhor perguntou se ela estava bem e
eu  falei  que  sim,  aí  lhe  expliquei  onde  ela  estava,  e  então  nós  fugimos  completamente  do
assunto e...
Ele pôs a mão sobre a dela, interrompendo-a.
– O que você precisa me dizer, Kate?
Ele observou com atenção quando ela enrijeceu os ombros e cerrou os dentes. Parecia estar
se preparando para uma tarefa abominável. Então ela falou, às pressas:
– Só queria que o senhor soubesse que não me oponho mais à sua corte a Edwina.
De repente, ele sentiu um vazio no peito.
–  Eu...  entendo  –  retrucou,  não  porque  de  fato  entendesse,  mas  porque  tinha  que  dizer
alguma coisa.
–  Admito  que  tinha  um  grande  preconceito  em  relação  ao  senhor  –  prosseguiu  Kate
depressa –, mas tive a oportunidade de conhecê-lo melhor desde que cheguei a Aubrey Hall,
e  em  sã  consciência  não  poderia  permitir  que  o  senhor  continuasse  a  pensar  que  eu  me
colocaria em seu caminho. Não seria... não seria justo de minha parte.

Anthony  apenas  a  encarou,  perdido  como  nunca  se  sentira.  Havia,  percebeu,  algo
decepcionante na permissão para que se casasse com Edwina, considerando que ele passara a
maior parte dos últimos dois dias lutando contra o desejo sem sentido de beijá-la.
Por outro lado, não era isso que ele queria? Edwina seria a esposa perfeita.
Kate, não.
Edwina preenchia todos os critérios que ele estabelecera ao decidir-se, enfim, que era hora
de se casar.
Kate, não.
E ele sem dúvida não poderia flertar com Kate se quisesse se casar com Edwina.
Ela  estava  lhe  oferecendo  o  que  ele  queria  –  exatamente  o  que  ele  queria,  já  que,  com  a
benção da irmã, Edwina se casaria com ele na próxima semana, se ele assim desejasse.
Então,  por  que  diabo  Anthony  queria  agarrá-la  pelos  ombros  e  sacudi-la,  sacudi-la  e
sacudi-la até que ela voltasse atrás em cada uma daquelas malditas palavras?
Era  a  tal  centelha.  A  infeliz  centelha  que  parecia  nunca  se  apagar  entre  eles.  Aquela
comichão irritante que ardia sempre que ela entrava num cômodo, ou suspirava, ou esticava
o pé. Aquele sentimento insistente de que ele podia, caso se permitisse, amá-la.
Era justamente o que ele mais temia.
Talvez a única coisa que temia.
Era irônico, mas a morte era a única coisa de que Anthony não tinha medo. A morte não
era  assustadora  para  um  homem  solitário.  O  outro  lado  da  vida  não  tinha  o  poder  de
despertar nenhum temor em alguém que não tivesse ligações na Terra.
O amor era algo verdadeiramente sagrado, impressionante. Anthony sabia disso. Ele vira tal
sentimento todos os dias em sua infância, sempre que os pais trocavam olhares ou tocavam
as mãos um do outro.
Mas o amor era o inimigo dos mortais. Era a única coisa capaz de tornar o restante de seus

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