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Ela balançou a cabeça.
– Improvável, o senhor não acha? Estou muito atrasada, e o jogo já se aproxima do fim.
– A senhorita não quer fazer isso, Srta. Sheffield – advertiu ele.
– Ah – retrucou ela de forma bastante dramática. – Eu quero. Quero muito.
Então,  com  seu  sorriso  mais  maligno,  Kate  afastou  o  taco  e  bateu,  com  toda  a  força,  na
própria  bola,  que  por  sua  vez  atingiu  a  dele  com  um  impulso  impressionante,  lançando-a
para mais longe ainda.
Mais longe...
Mais longe...
Até alcançar o lago.
Prestes  a  pular  de  felicidade,  Kate  observou  a  bola  cor-de-rosa  afundar  na  água.  Uma
emoção  estranha  e  primitiva  a  invadiu  e,  antes  que  percebesse  o  que  estava  fazendo,
começou a saltar feito louca e gritar:
– Isso! Isso! Venci!
– Não venceu, não – retrucou Anthony.
– Ora, é como se tivesse vencido – comemorou ela.

Colin e Daphne, que haviam descido o morro correndo, pararam diante deles.
– Muito bem, Srta. Sheffield! – exclamou Colin. – Eu sabia que era digna do taco da morte!
– Sensacional! – concordou Daphne. – Absolutamente sensacional!
Anthony não teve escolha a não ser cruzar os braços e encará-los com olhos severos.
Colin deu um tapinha solidário nas costas de Kate.
– Tem certeza de que não é uma Bridgerton disfarçada? A senhorita de fato fez justiça ao
espírito do jogo.
–  Eu  não  teria  conseguido  sem  sua  ajuda  –  comentou  Kate  graciosamente.  –  Se  o  senhor
não tivesse lançado a bola dele morro abaixo...
– Eu tinha esperança de que a senhorita assumisse o controle da destruição dele – retrucou
Colin.
Por fim, o duque se aproximou, com Edwina a seu lado.
– Um desfecho muito inesperado – comentou.
– Ainda não acabou – lembrou Daphne.
O marido lançou-lhe um olhar divertido.
– Parece um pouco despropositado continuarmos a jogar, você não acha?
Para surpresa de todos, até Colin concordou.
– Com certeza não posso imaginar nada que supere isso.
Kate sorriu.
O duque olhou para o céu.
– Além disso, está começando a ficar nublado. Quero que Daphne esteja em casa antes que
comece a chover. Por causa de seu estado delicado, sabem?
Kate olhou, surpresa, para a duquesa, que começou a enrubescer. Ela não parecia nem um
pouco grávida.
–  Muito  bem  –  atalhou  Colin.  –  Proponho  que  terminemos  o  jogo  e  declaremos  a  Srta.
Sheffield vencedora.
– Eu estava dois arcos atrás de vocês – objetou ela.
–  Ainda  assim  –  disse  Colin  –,  qualquer  aficionado  pelo  Pall  Mall  dos  Bridgertons
compreenderia  que  lançar  a  bola  de  Anthony  para  o  lago  é  muito  mais  importante  do  que
conseguir  passar  a  própria  bola  por  todos  os  arcos.  Isso  faz  da  senhorita  nossa  vencedora,
Srta. Sheffield. – Olhou em volta, então encarou Anthony. – Alguém discorda?
Ninguém  levantou  qualquer  objeção,  embora  o  visconde  parecesse  muito  próximo  de
recorrer à violência.
– Ótimo – decretou Colin. – Nesse caso, a Srta. Sheffield é a vencedora e Anthony, você é o
perdedor.
Um som estranho e abafado irrompeu da boca de Kate, metade riso e metade engasgo.
– Bem, alguém tem que perder – comentou Colin com um sorriso. – É a tradição.
– É verdade – concordou Daphne. – Somos um bando sedento de sangue, mas gostamos de
seguir a tradição.

– Vocês são todos loucos, isso sim – falou o duque com delicadeza. – Agora, Daphne e eu
devemos ir. Quero levá-la logo para casa, antes que comece a chover. Acredito que ninguém
se importará se sairmos sem ajudar a recolher as coisas, certo?
Ninguém  se  importou,  claro,  e,  pouco  depois,  o  duque  e  a  duquesa  caminhavam  de  volta
para Aubrey Hall.
Edwina, que ficara em silêncio durante toda a conversa (embora não parasse de olhar para
os  irmãos  Bridgertons  como  se  tivessem  acabado  de  fugir  de  um  manicômio),  de  repente
pigarreou.
– Vocês acham que deveríamos tentar recuperar a bola? – perguntou, estreitando os olhos
na direção do lago.
O restante do grupo apenas fitou as águas calmas como se nunca tivessem pensado numa
ideia tão bizarra.
–  Ela  não  deve  ter  chegado  ao  meio  do  lago  –  continuou  ela.  –  Talvez  ainda  esteja  na
beirada.
Colin coçou a cabeça. Anthony continuava com uma expressão zangada.
–  Decerto  vocês  não  querem  perder  outra  bola  –  insistiu  Edwina.  Quando  ninguém
respondeu, ela jogou o próprio taco no chão, ergueu os braços para o alto e falou: – Muito
bem! Vou eu mesma pegar aquela bola velha e ridícula.
Isso tirou os homens de seu estupor e ambos correram para ajudá-la.
– Não seja tola, Srta. Sheffield – disse Colin de modo galante ao ir atrás dela. – Eu pego.
– Pelo amor de Deus – resmungou Anthony. – Deixem que eu pego a maldita bola.
Então desceu o morro e ultrapassou depressa o irmão. Apesar de toda a ira, de fato ele não
podia culpar Kate pelo que ela fizera. Ele teria agido da mesma forma – a única diferença é
que bateria na bola com força suficiente para afundá-la no meio do lago.
Mesmo assim, era humilhante ser vencido por uma mulher, em especial por ela.
Ele chegou à margem do lago e começou a procurar. A bola cor-de-rosa era tão chamativa
que deveria aparecer sob a água, desde que se encontrasse num local raso o suficiente.
– Consegue vê-la? – perguntou Colin, parando ao lado do irmão.
Anthony balançou a cabeça.
– De qualquer forma, é uma cor idiota. Ninguém iria querer ficar com a cor-de-rosa.
Colin assentiu.
– Até a roxa era melhor – prosseguiu Anthony, dando alguns passos para a direita a fim de
examinar outro trecho da margem. De repente, ergueu os olhos e encarou o irmão. – E, por
falar nisso, o que diabo aconteceu com o taco roxo?
Ele deu de ombros.
– Não faço a menor ideia.
–  Tenho  certeza  –  resmungou  Anthony  –  que  ele  vai  reaparecer  como  por  milagre  no
conjunto de Pall Mall amanhã à noite.
–  Você  pode  ter  razão  –  observou  Colin,  animado,  passando  pelo  irmão  e  mantendo  os

olhos na água durante todo o caminho. – Se tivermos sorte, talvez até hoje à tarde.
– Um dia eu ainda vou matá-lo – comentou Anthony de modo casual.
–  Não  tenho  a  menor  dúvida.  –  Colin  continuou  avaliando  a  água,  em  seguida  apontou
para ela com o dedo indicador. – Achei! Lá está!
De fato, a bola cor-de-rosa encontrava-se na parte rasa, a cerca de 2 metros da beirada do
lago.  Parecia  estar  a  uns  30  centímetros  de  profundidade.  Anthony  praguejou  baixinho.
Teria  que  tirar  as  botas  e  pisar  na  água.  Tinha  a  impressão  de  que  Kate  Sheffield  estava
sempre obrigando-o a tirar as botas e entrar na água.
Não, pensou. Na verdade, ele não tivera tempo de se descalçar quando fora jogado dentro
do lago Serpentine para salvar Edwina. O couro ficara totalmente arruinado, fazendo um dos
criados quase desmaiar ao ver seu estado horrível.
Com  um  grunhido,  Anthony  sentou-se  em  uma  pedra  para  tirar  as  botas.  Imaginava  que
salvar Edwina valesse um par de botas caras. Já recuperar uma ridícula bola cor-de-rosa de
Pall Mall não valia nem o esforço de molhar os pés.
– Você parece estar no controle da situação – concluiu Colin –, portanto vou ajudar a Srta.
Sheffield a recolher os arcos.
Anthony apenas assentiu, resignado, e entrou na água.
– Está fria?
Era uma voz feminina.
Por Deus, era ela. Ele deu meia-volta e viu Kate Sheffield parada à margem.
–  Pensei  que  a  senhorita  fosse  recolher  os  arcos  –  comentou  ele,  com  um  pouco  de
impaciência.
– Edwina foi.
–  Acho  que  existem  Srtas.  Sheffields  demais  –  murmurou.  –  Deveria  haver  uma  lei  que
proibisse irmãs de debutarem na mesma temporada.
– O que o senhor disse? – perguntou ela, inclinando a cabeça para o lado.
Ele mentiu:
– Eu disse que estou congelando.
– Ah. Sinto muito.
Isso chamou a atenção dele.
– Não. Não sente, não.
–  Bem,  não  –  admitiu  Kate.  –  Não  pela  derrota,  pelo  menos.  Mas  não  pretendia  que  o
senhor congelasse os pés na água.
De repente, Anthony foi tomado por um desejo incontrolável de ver os pés dela. Era uma
ideia terrível. Ele não deveria desejar aquela mulher. Nem mesmo gostava dela.
Suspirou.  Isso  não  era  verdade.  Achava  que  gostava  dela  de  um  modo  estranho  e
paradoxal.  E  pensou  estranhamente  que  talvez  ela  estivesse  começando  a  gostar  dele  da
mesma maneira.
– No meu lugar, você teria feito a mesma coisa – falou ela.

Ele não disse nem uma palavra, apenas continuou a caminhar devagar dentro do lago.
– Teria, sim! – insistiu Kate.
Ele se abaixou e pegou a bola, molhando a manga da camisa. Droga.
– Eu sei – respondeu.
– Ah – retrucou ela parecendo surpresa, como se não esperasse uma confissão.
Anthony  saiu  do  lago,  dando  graças  a  Deus  pelo  fato  de  o  solo  próximo  à  margem  estar
bem compactado e, portanto, a terra não aderir a seus pés.
– Tome – disse Kate, estendendo-lhe o que parecia um cobertor. – Estava no galpão. Parei
lá antes de descer o morro. Achei que talvez o senhor fosse precisar de algo para secar os pés.
Anthony  abriu  a  boca  mas,  curiosamente,  nenhum  som  saiu.  Depois  de  alguns  instantes,
enfim conseguiu dizer “Obrigado” e pegou o cobertor das mãos dela.
– Sabe, não sou uma pessoa tão horrível assim – comentou ela, sorrindo.
– Nem eu.
– Talvez – admitiu Kate –, mas o senhor não deveria ter se atrasado tanto com Edwina. Sei
que só fez isso para me aborrecer.
Anthony  levantou  uma  sobrancelha  ao  sentar-se  na  pedra  para  secar  os  pés,  depois  de
largar a bola no solo perto de si.
– A senhorita não acha possível que meu atraso tenha tido alguma coisa a ver com o desejo
de passar um tempo com a mulher que desejo tornar minha esposa?
Kate enrubesceu um pouco. Em seguida, murmurou:
– Talvez essa seja a coisa mais egoísta que eu já disse, mas não, acho que o senhor queria
mesmo me aborrecer.
Ela estava certa, mas ele não iria admitir.
– Para dizer a verdade – falou ele –, foi Edwina que se atrasou. Não sei o motivo. Só achei
que  seria  pouco  educado  ir  atrás  dela  em  seu  quarto  e  exigir  que  se  apressasse,  portanto
aguardei no escritório até que ela estivesse pronta.
Fez-se um longo momento de silêncio, depois ela falou:
– Obrigada por me contar.
Ele sorriu com ironia.
– Sabe, não sou uma pessoa tão horrível assim.
Ela suspirou.
– Eu sei.
Algo na expressão resignada dela fez com que ele sorrisse.
– Talvez um pouco horrível, então? – provocou Anthony.
Ela se animou e o retorno à frivolidade claramente a deixou muito mais confortável com a
conversa.
– Ah, com certeza.
– Ótimo. Odiaria ser entediante.
Kate  deu  um  sorriso,  observando-o  calçar  as  meias  e  as  botas.  Abaixou-se  e  pegou  a  bola

cor-de-rosa.
– Melhor levar isso de volta para o galpão.
– Caso eu seja dominado por uma vontade incontrolável de jogá-la de volta no lago?
Ela assentiu.
– Algo assim.
– Muito bem. – Ele se pôs de pé. – Vou levar o cobertor também.
–  Uma  troca  justa.  –  Quando  se  virou  para  subir  o  morro,  Kate  avistou  Colin  e  Edwina
desaparecendo ao longe. – Ah!
Anthony deu meia-volta para ver o que tinha acontecido.
– O que foi? Ah, entendi. Parece que sua irmã e meu irmão decidiram voltar sem nós.
Kate  lançou  um  olhar  severo  aos  dois  que  se  afastavam.  Em  seguida,  deu  de  ombros,
resignada, quando começou a subir o morro com dificuldade.
–  Suponho  que  eu  possa  tolerar  sua  companhia  por  mais  alguns  minutos,  se  o  senhor
conseguir tolerar a minha.
Ele  não  disse  nada,  o  que  a  surpreendeu.  Parecia  o  tipo  de  comentário  para  o  qual  o
visconde teria uma resposta espirituosa e talvez até mordaz. Ela se virou a fim de olhar para
ele, então recuou alguns passos, surpresa. Anthony a fitava da maneira mais estranha...
– Está... está tudo bem, milorde? – indagou, hesitante.
Ele assentiu.
– Tudo ótimo.
Mas ele parecia bastante distraído.
Fizeram o restante da caminhada até o galpão em silêncio. Ao chegarem lá, Kate colocou a
bola  cor-de-rosa  em  seu  lugar  no  carrinho  do  jogo  e  reparou  que  Colin  e  Edwina  haviam
recolhido  e  arrumado  tudo  de  modo  ordenado,  incluindo  o  taco  e  a  bola  roxos  perdidos.
Lançou um olhar a Anthony e não pôde deixar de sorrir. Era óbvio, pelo franzir da testa, que
ele também notara.
– O cobertor estava aqui, milorde – falou, disfarçando o sorriso e afastando-se dele.
Anthony não se importou.
– Vou levá-lo para a casa. Deve estar precisando muito ser lavado.
Kate concordou, eles fecharam a porta e partiram.

CAPÍTULO 11
Não  há  nada  como  uma  pitada  de  competição  para  despertar  o  pior  num  homem  –  ou  o
melhor numa mulher.
C
4
A
nthony  assobiava  quando  se  aproximaram  a  passos  lentos  da  trilha  que  levava  à  casa,
olhando  para  Kate  sempre  que  ela  não  podia  flagrá-lo.  À  sua  maneira,  era  uma  mulher
muito  atraente.  Ele  não  sabia  por  que  esse  fato  sempre  o  surpreendia,  mas  era  o  que
acontecia. A lembrança dela nunca fazia justiça à encantadora realidade de suas feições. Elas
estavam sempre em movimento – em um sorriso, um franzir da testa ou uma contorção dos
lábios.  Kate  não  sabia  manter  a  expressão  plácida  e  serena  a  que  todas  as  jovens  damas
aspiram.
Anthony  caíra  na  mesma  armadilha  que  o  restante  da  sociedade  ao  pensar  nela  em
comparação  com  a  irmã  mais  nova.  E  Edwina  era  tão  deslumbrante,  tão  maravilhosa  que
qualquer  mulher  a  seu  lado  ficaria  em  segundo  plano.  Era,  ele  admitia,  difícil  olhar  para
outra pessoa quando a jovem estava presente.
Ainda assim...
Ele franziu a testa. Ainda assim, mal lançara um olhar a Edwina durante todo o jogo. Isso
poderia se explicar pelo fato de ser o Pall Mall dos Bridgertons, que trazia à tona o pior de
qualquer membro da família. Ora, era provável que não olhasse nem para o príncipe regente,
caso ele se dignasse a aparecer.
Mas  aquela  justificativa  não  era  boa  o  bastante,  porque  sua  mente  estava  cheia  de  outras
imagens.  Kate  curvando-se  sobre  o  taco,  com  o  rosto  tenso  e  concentrado.  Kate  rindo
quando alguém errava a jogada. Kate comemorando com Edwina quando a bola rolara pelo
arco  –  um  traço  nada  semelhante  aos  Bridgertons.  E,  claro,  Kate  sorrindo  com  malícia  um
segundo antes de lançar a bola dele na direção do lago.
Sabia  que,  mesmo  que  não  tivesse  conseguido  lançar  um  olhar  que  fosse  a  Edwina,  fitara
Kate diversas vezes.
Isso era perturbador.
Voltou a olhar para ela. Dessa vez, seu rosto estava ligeiramente inclinado para o céu e ela
franzia a testa.
– Algo errado? – indagou com educação.
Ela balançou a cabeça.
– Só estava pensando se vai chover.

Ele olhou para cima.
– Acho que não tão cedo.
Ela assentiu devagar.
– Detesto chuva.
Algo na expressão dela – que lembrava a de uma criança de 3 anos frustrada – o fez rir.
– A senhorita mora no país errado, então, Srta. Sheffield.
Ela se virou para ele com um sorriso envergonhado.
– Chuviscos não me incomodam. Só não gosto nem um pouco quando chove forte.
– Sempre apreciei as tempestades – murmurou ele.
Ela  lhe  lançou  um  olhar  assustado,  mas  não  disse  nada.  Depois,  voltou  a  fitar  as  pedras  a
seus  pés.  Vinha  chutando  uma  ao  longo  de  toda  a  trilha,  interrompendo  o  passo  ou
afastando-se para o lado de tempos em tempos para mantê-la sempre rolando à sua frente.
Havia  algo  encantador  nisso,  uma  delicadeza  no  modo  como  a  bota  dela  aparecia  por
debaixo da bainha de seu vestido a intervalos regulares e encostava na pedrinha.
Anthony  observava-a  com  curiosidade  e,  em  dado  momento,  esqueceu-se  de  desviar  os
olhos quando ela o fitou.
– O senhor acha... Por que o senhor está olhando para mim desse jeito? – indagou Kate.
– Eu acho o quê? – retrucou ele, ignorando a segunda parte da pergunta de propósito.
Ela contraiu os lábios, irritada. Anthony estremeceu um pouco com a vontade de rir.
– O senhor está rindo de mim? – perguntou Kate, desconfiada.
Ele negou com a cabeça.
Ela interrompeu a caminhada.
– Eu acho que está.
– Eu lhe garanto que não – respondeu ele, sem conseguir disfarçar o desejo de rir.
– É mentira.
– Não é men... – Ele teve de se interromper.
Se continuasse, sabia que explodiria numa gargalhada. E o mais estranho era que não tinha
a menor ideia do porquê.
– Ora, pelo amor de Deus – murmurou ela. – Qual é o problema?
Anthony  encostou-se  no  tronco  de  um  olmo,  com  o  corpo  inteiro  se  sacudindo  em  uma
alegria mal disfarçada.
Kate pôs as mãos nos quadris e seus olhos ficaram um pouco mais curiosos. Um pouco mais
furiosos, também.
– Então qual é a graça?
Nesse momento, o visconde cedeu à vontade de rir e mal conseguiu dar de ombros.
– Não sei. – Ele ofegou. – A expressão em seu rosto... é...
Ele percebeu que ela sorria. Adorava quando ela fazia isso.
– A expressão em seu rosto também não deixa de ter sua graça, milorde – observou ela.
– Ora, tenho certeza disso.

Anthony  respirou  fundo  algumas  vezes  e  então,  quando  conseguiu  retomar  o  controle,
empertigou-se.  Olhou  para  Kate  e,  ao  ver  que  ela  ainda  estava  um  pouco  desconfiada,
percebeu que tinha de saber o que estava pensando dele.
Não poderia esperar até o dia seguinte. Não poderia esperar nem até a noite.
Ele  não  tinha  certeza  de  como  acontecera,  mas  a  opinião  dela  significava  muito  para  ele.
Sem  dúvida,  precisava  de  sua  aprovação  para  cortejar  Edwina  –  algo  que  vinha
negligenciando  bastante  –,  mas  havia  algo  mais.  Ela  o  insultara,  quase  o  afogara  no  lago
Serpentine,  humilhara-o  no  Pall  Mall  e,  mesmo  assim,  ele  desejava  que  ela  tivesse  uma
opinião favorável a seu respeito.
Anthony não conseguia se lembrar da última vez que a opinião de alguém significara tanto.
Na verdade, era deprimente.
–  Acredito  que  a  senhorita  me  deva  uma  vantagem  –  falou,  afastando-se  da  árvore  e  se
ajeitando.
Sua mente trabalhava a toda a velocidade. Ele precisava ser esperto. Tinha que saber o que
ela pensava, mas, ao mesmo tempo, não queria que soubesse quanto isso significava para ele.
Não até que Anthony descobrisse por que significava tanto.
– O que disse?
– Uma vantagem. Por causa do jogo.
Ela suspirou, depois se apoiou na árvore e cruzou os braços.
– Se um de nós deve uma vantagem a alguém, é o senhor a mim. Afinal, eu venci.
– Ah, mas eu fui o humilhado.
– É verdade – concordou ela.
–  A  senhorita  não  estaria  sendo  correta  se  não  admitisse  isso  –  comentou  ele  com  a  voz
áspera.
Kate lançou-lhe um olhar sério.
– Uma dama deve sempre ser sincera.
Quando ela fitou o rosto dele, viu que um dos cantos de sua boca estava curvado em um
sorriso indulgente.
– Ainda bem que a senhorita disse isso – murmurou Anthony.
Kate ficou inquieta.
– Por quê?
–  Porque  minha  vantagem,  Srta.  Sheffield,  é  lhe  fazer  uma  pergunta,  qualquer  uma  de
minha escolha, que a senhorita deverá responder com a maior sinceridade.
Ele  apoiou  uma  das  mãos  na  árvore,  muito  próximo  do  rosto  dela,  e  inclinou-se  para  a
frente. De repente, Kate sentiu-se presa, embora fosse fácil sair correndo.
Com um toque de desespero e um tremor de agitação, ela percebeu que se sentia presa pelo
olhar dele, que ardia, sombrio e cálido, dentro do dela.
– Acha que pode fazer isso, Srta. Sheffield? – disse ele bem baixinho.
–  Q-qual  é  a  pergunta?  –  indagou  ela,  sem  perceber  que  sussurrava  até  prestar  atenção  à

própria voz, entrecortada e estridente.
Ele virou a cabeça ligeiramente para o lado.
– Agora, lembre-se, a senhorita tem que responder com sinceridade.
Ela  assentiu.  Ou,  pelo  menos,  pensou  que  sim.  Ela  queria  assentir,  mas,  para  falar  a
verdade, não estava muito convencida de sua capacidade de se mexer.
Anthony  se  inclinou  mais  para  a  frente,  não  tanto  que  ela  pudesse  sentir  sua  respiração,
mas o bastante para fazê-la estremecer.
– Esta, Srta. Sheffield, é minha pergunta.
Kate entreabriu os lábios.
– A senhorita – ele chegou mais perto – ainda – mais um centímetro – me odeia?
Kate engoliu em seco repetidas vezes. Não importava o que estivesse esperando que ele lhe
perguntasse, não era nada parecido com isso. Ela passou a língua pelos lábios, preparando-se
para  responder,  embora  não  tivesse  ideia  do  que  iria  dizer,  mas  não  conseguiu  emitir
nenhum som.
Anthony curvou os lábios bem devagar em um típico sorriso masculino.
– Vou interpretar isso como um não.
E então, com uma rispidez que fez a cabeça dela girar, ele afastou-se da árvore e disse de
forma brusca:
– Bem, então acho que é hora de entrarmos e nos prepararmos para a noite, não é?
Kate continuou apoiada na árvore, totalmente sem energia.
– A senhorita deseja permanecer ao ar livre por alguns minutos? – Pôs as mãos nos quadris
e  ergueu  os  olhos  para  o  céu  em  uma  postura  pragmática  e  eficiente,  sem  dúvida  bem
diferente do sedutor lascivo de apenas dez segundos antes. – Acho que deveria. Não parece
que vai chover, afinal. Pelo menos não nas próximas horas.
Ela apenas o fitou. Ou perdera o juízo ou se esquecera como falar. Ou ambos, talvez.
– Ótimo. Sempre admirei mulheres que apreciam ar fresco. Eu a verei no jantar, não é?
Kate assentiu. Ficou surpresa por ter conseguido.
– Excelente. – Ele estendeu a mão, pegou a dela e deu-lhe um beijo abrasador na parte de
baixo do pulso, o único trecho de pele nua que havia entre a luva e a manga do vestido. –
Até mais tarde, Srta. Sheffield.
Então saiu, deixando-a com a sensação esquisita de que algo muito importante acabara de
acontecer.
Mas, por sua vida, ela não tinha ideia do quê.
Naquela noite, às sete e meia, Kate considerou ficar mortalmente doente. Às 19h45, refinou
o plano para um ataque apoplético. No entanto,  às 19h55, quando a sineta do jantar soou,
avisando  aos  convidados  que  era  hora  de  se  reunirem  na  sala  de  estar,  ela  se  empertigou  e
saiu do quarto para encontrar-se com Mary no corredor.

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