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redação, lá nos entendem os m elhor.
Em  resposta passei-lhe os gadanhos no cachaço e dei-lhe um  bando de
chicotadas. Juntaram -se m uitas pessoas, um  guarda civil apitou, houve protestos,
gritos, afinal Costa Brito conseguiu escapulir-se e azulou pelo Com ércio, em
direção aos Martírios.
Encam inhei-m e ao hotel, m as nem  tive tem po de alm oçar, porque fui cham ado
à polícia. Apertaram -m e com  interrogatórios redundantes, perdi o trem  das três e
não consegui dem onstrar ao delegado que ele era ranzinza e estúpido. Aborrecido,

aporrinhado, recorri a um  bacharel (trezentos m il-réis, fora despesas m iúdas com
autom óvel, gorj etas, etc.) e em barquei vinte e quatro horas depois, levando nos
ouvidos um  serm ão do secretário do interior, que m e seringou liberdade de
im prensa e outros disparates.
No vagão com prei os j ornais do dia. Nenhum  noticiava o espalhafato.
Cam aradas. Com ecei a ler um as coisas interessantes sobre a apicultura. Pouco a
pouco esqueci as burrices do delegado e o liberalism o do secretário. E reconciliado
com  o Brito, confessei a m im  m esm o que ele tinha bom  coração e provavelm ente
não reincidiria. Concentrei-m e na leitura. Efetivam ente as abelhas seriam  para nós
um a fonte de riqueza.
Nesse ponto veio sentar-se a m eu lado um a senhora vestida de preto. Com o o
sol a incom odasse, baixei a portinhola.
— Agradecida.
Reparando nela, reconheci a m ulher que, um  m ês antes, em  casa do dr.
Magalhães, escutava o rom ance de d. Marcela.
— Não tem  de quê, d. Glória.
Notei que ela estava com  um  pacote a furar-se nos j oelhos agudos e pedi-o,
coloquei-o j unto à m inha bagagem . Era um a velha acanhada: sorriso insignificante
e m odos de pobre. O trem  pôs-se em  m ovim ento. E encetam os um  diálogo que se
foi anim ando até nos tornarm os am igos.
— Esta Great Western é um a j oça. Porcaria! Isto nunca foi carro. Que
chiqueiro!
Inicio de ordinário com  frases assim  as m inhas viagens a trem . D. Glória
sobressaltou-se, receando que a com panhia ouvisse. Em  tom  confidencial, achou
que os carros não eram  bons.
— Péssim os, d. Glória.
Ela atentou em  m im  com  respeito:
— Creio que j á nos vim os. Não m e lem bro. A m inha m em ória é um a lástim a.
— Em  casa do j uiz, o m ês passado. A senhora e um a m ocinha loura...
Arregalou os olhos:
— Ah! sim .
E a conversa caiu. Para levantá-la, abri o j ornal e preguei-lhe um  dedo:
— Está aqui um  artigo baita sobre a apicultura. O autor disto é osso.
Não com preendeu. De repente exclam ou:
— Agora m e recordo. O senhor estava com  o dr. Nogueira, discutindo política.
— É isso m esm o.
Houve um a pausa.
— O senhor m ora na capital?
— Não, m oro no interior.
— Em  Viçosa?
— É.
— Eu tam bém , há pouco tem po. Mas cidade pequena... Horrível, não é?
— A cidade pequena? E a grande. Tudo é horrível. Gosto do cam po, entende?

do cam po.
D. Glória fechou a cara:
— Mato? Santo Deus! Mato só para bicho. E o senhor vive no m ato?
— Em  S. Bernardo.
D. Glória não conhecia S. Bernardo, e essa ignorância m e ofendeu, porque para
m im  S. Bernardo era o lugar m ais im portante do m undo.
— Um a boa fazenda. Não há lá essa água podre que se bebe por aí. Lam a. Não
senhora, há conforto, há higiene.
D. Glória retificou a espinha, ergueu a voz e desfez o ar apoucado:
— Não m e dou. Nasci na cidade, criei-m e na cidade. Saindo daí, sou com o
peixe fora da água. Tanto que estive cavando transferência para um  grupo da
capital. Mas é preciso m uito pistolão. Prom essas...
— Ah! É professora?
— Não. Professora é m inha sobrinha.
— Aquela m oça que estava com  a senhora em  casa do dr. Magalhães?
— Sim .
— E com o é a graça de sua sobrinha, d. Glória?
— Madalena. Vej a o senhor. Fez um  curso brilhante...
— Espere lá. O Nogueira e o Gondim  m e falaram  nela. Mulher prendada,
bonita. Perfeitam ente. O Gondim  falou m uito. O Gondim  do Cruzeiro, um  da venta
chata.
— Sei.
E recolheu, sorrindo, os elogios à sobrinha.
— Pois um a m enina com o aquela encafuar-se num  buraco, seu...
— Paulo Honório, d. Glória. Faz pena. Isso de ensinar bê-á-bá é tolice. Perdoe a
indiscrição, quanto ganha sua sobrinha ensinando bê-á-bá?
D. Glória baixou a voz para confessar que as professoras de prim eira entrância
tinham  apenas cento e oitenta m il-réis.
— Quanto?
— Cento e oitenta m il-réis.
— Cento e oitenta m il-réis? Está aí! É um a desgraça, m inha senhora. Com o
diabo se sustenta um  cristão com  cento e oitenta m il-réis por m ês? Quer que lhe
diga? Faz até raiva ver um a pessoa de certa ordem  suj eitar-se a sem elhante
m iséria. Tenho em pregados que nunca estudaram  e são m ais bem  pagos. Por que
não aconselha sua sobrinha a deixar essa profissão, d. Glória?
D. Glória referiu-se à dificuldade de arranj ar em pregos e ao m ontepio.
— Que m ontepio! Isso vale nada! E em pregos... Vou indicar um  m eio de sua
sobrinha e a senhora ganharem  dinheiro a rodo. Criem  galinhas.
D. Glória form alizou-se, e um  passageiro próxim o, com o eu gritava
entusiasm ado, pôs-se a rir. Era um  m ocinho de bigodinho e rubi no dedo.
Aproxim ei dele o rosto cabeludo e a m ão cabeluda:
— O senhor está rindo sem  saber de quê. Vej o que possui um a carta. Quanto
lhe rende? Se não tem  pai rico, deve ser prom otor público. Faria m elhor negócio

criando galinhas.
O m ocinho encabulou.
— Boa ocupação, d. Glória, ocupação decente. Se quiser dedicar-se a ela,
recom endo-lhe a Orpington. Escola! Bestidade. Abri um a na fazenda e entreguei-a
ao Padilha. Sabe quem  é? Um  idiota. Mas diz ele que há progresso. E eu acredito.
Pelo m enos o Gondim  e padre Silvestre estiveram  lá exam inando a m olecoreba e
acharam  tudo em  ordem .
D. Glória enrugou e desenrugou a cara:
— Cada qual tem  o seu m eio de vida.
— História! Dê um  salto a S. Bernardo para eu lhe m ostrar o que é um a lavoura
de fazer água na boca.
Essa conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo com o está no papel. Houve
suspensões, repetições, m al-entendidos, incongruências, naturais quando a gente
fala sem  pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que j ulgo interessante. Suprim i
diversas passagens, m odifiquei outras. O discurso que atirei ao m ocinho do rubi, por
exem plo, foi m ais enérgico e m ais extenso que as linhas chochas que aqui estão. A
parte referente à enxaqueca de d. Glória (e a enxaqueca ocupou, sem  exagero,
m etade da viagem ) virou fum aça. Cortei igualm ente, na cópia, num erosas tolices
ditas por m im  e por d. Glória. Ficaram  m uitas, as que as m inhas luzes não
alcançaram  e as que m e pareceram  úteis. É o processo que adoto: extraio dos
acontecim entos algum as parcelas; o resto é bagaço. Ora vej am . Quando arrastei
Costa Brito para o relógio oficial, apliquei-lhe uns quatro ou cinco palavrões
obscenos. Esses palavrões, desnecessários porque não aum entaram  nem
dim inuíram  o valor das chicotadas, sum iram -se, conform e notará quem  reler a
cena da agressão, cena que, expurgada dessas indecências, está descrita com
bastante sobriedade.
Um a coisa que om iti e produziria bom  efeito foi a paisagem . Andei m al.
Efetivam ente a m inha narrativa dá ideia de um a palestra realizada fora da terra.
Eu m e explico: ali, com  a portinhola fechada, apenas via de relance, pelas outras
j anelas, pedaços de estações, pedaços de m ata, usinas e canaviais. Muitos
canaviais, m as este gênero de agricultura não m e interessa. Vi tam bém  novilhos
zebus, gado que, na m inha opinião, está acabando de escangalhar os nossos
rebanhos.
Hoj e isso form a para m im  um  todo confuso, e se eu tentasse um a descrição,
arriscava-m e a m isturar os coqueiros da lagoa, que apareceram  às três e quinze,
com  as m angueiras e os caj ueiros, que vieram  depois. Essa descrição, porém , só
seria aqui em butida por m otivos de ordem  técnica. E não tenho o intuito de
escrever em  conform idade com  as regras. Tanto que vou com eter um  erro.
Presum o que é um  erro. Vou dividir um  capítulo em  dois. Realm ente o que se
segue podia encaixar-se no que procurei expor antes desta digressão. Mas não tem
dúvida, faço um  capítulo especial por causa da Madalena.

N
XIV
a estação d. Glória apresentou-m e a sobrinha, que tinha ido recebê-la.
Atrapalhei-m e e, para desocupar a m ão, deixei cair um  dos pacotes que ia
entregar ao ganhador.
— Muito prazer. Eu j á conhecia a senhora de nom e. E de vista. Mas não sabia
que era um a pessoa só. Encontram o-nos há dias.
— Há um  m ês.
— Perfeitam ente. Estive conversando sobre isso com  sua tia, ótim a
com panheira de viagem . Sim  senhora, m uito prazer.
Dirigi-m e ao hotel. E com o a casa delas era no m eu cam inho, saím os j untos.
— D. Marcela disse-m e que o senhor tem  um a propriedade bonita, com eçou
Madalena.
— Bonita? Ainda não reparei. Talvez sej a bonita. O que sei é que é um a
propriedade regular.
E em buchei, afobado. Até então os m eus sentim entos tinham  sido sim ples,
rudim entares, não havia razão para ocultá-los a criaturas com o a Germ ana e a
Rosa. A essas azunia-se a cantada sem  rodeios, e elas não se adm iravam , m as um a
senhora que vem  da escola norm al é diferente. Em burrei, pois, e contei os
em brulhos que o ganhador equilibrava na cabeça. Fiz um  esforço para endereçar
am abilidades a d. Glória:
— O convite está de pé, sim  senhora, e eu tenho a sua prom essa de ir passar uns
dias na fazenda. Espero que leve a professora. Vem  um  autom óvel, em  dez
m inutos estão lá.
D. Glória não tinha prom etido nada. Madalena espantou-se:
— Ah! não.
— Por quê? Agora com  as férias...
— Passeios... Isso é para rico.
E, sorrindo:
— Que diria sua fam ília se o senhor m etesse duas desconhecidas em  casa?
Aí quem  se espantou fui eu:
— Mas não tenho fam ília, m inha senhora, nunca tive. Vivo só, com  Deus.
— Então é pior, respondeu Madalena.
— Inconveniente, declarou d. Glória.
Cocei a barba:
— É pena. Um  lugar tão bom  para um a pessoa se refazer! Acabou-se. Se é
inconveniente, fica o dito por não dito.
Depois tornei:
— Mas inconveniente por quê? Pois eu tinha m uito gosto em  m ostrar a d. Glória
uns m arrecos-de-pequim  que são m esm o um a beleza. Já viu os m arrecos-de-
pequim , d. Madalena?
— Ainda não.
— Está aí! resm unguei. Estudam  a vida inteira nem  sei para quê.
— Descansar um  pouco? disse d. Glória.

Estávam os à porta da casa delas, na Canafístula.
— Obrigado. Vou chegando ao hotel.
Dem orei-m e ainda um  m inuto:
— Estão as senhoras aqui pessim am ente instaladas. Adeus. E se resolverem  ir a
S. Bernardo, avisem , para m andar o autom óvel.
— Perfeitam ente, disse d. Glória. E m uito agradecida pela com panhia.
— Não tem  de quê.
No hotel m archei para o banheiro, fui tirar o carvão e o suor. E ia-m e sentando
à m esa quando chegaram  João Nogueira, Azevedo Gondim  e padre Silvestre.
— Então que desordem  foi essa? perguntou Azevedo Gondim . Soubem os ontem
à noite.
— Im agine com o nos assustam os, acrescentou o vigário. Um  escândalo! É
verdade que o Brito andou m al.
— Andou. Necessidade. Ele não é ruim . Queria duzentos m il-réis, coitado, e eu
torci o corpo. Tolice: gastei bem  seiscentos, sem  contar a aporrinhação de dois dias.
O diabo é que, se ele recebesse os duzentos, havia de pedir m ais duzentos e assim
por diante.
— A notícia que circulou ontem  foi que ele estava no hospital, com  um a
punhalada, inform ou padre Silvestre. Constou até que tinha m orrido. Felizm ente
hoj e sossegam os. Ferim entos leves, não?
— Que ferim entos! O que houve foi troca de palavras. O Brito disse uns
desaforos, eu disse outros, j untou-se gente e a polícia entrou na questão, que não
era com  ela. Não houve nada.
— Logo vi, bradou padre Silvestre. Um  hom em  prudente com o o senhor não ia
provocar barulho.
— Essa agora! gritou Azevedo Gondim . Pois eu tinha escrito duas colunas sobre
o caso para o núm ero de dom ingo.
João Nogueira aproxim ou-se e falou-m e ao ouvido:
— Francam ente, que foi que houve?
— Um a arenga sem  im portância.
E, pegando a ocasião:
— Ó dr. Nogueira, quem  é aquela d. Glória?
— A tia da professora?
— Sim . Que tal é essa fam ília?
— Em  que sentido?
— Em  tudo, respondi evasivam ente. A velha viaj ou hoj e com igo, no trem . É
sim pática.
— Mas que interesse tem  o senhor...
— É que a m ulher, indiretam ente, tocou-m e num a pretensão: transferência da
sobrinha. Eu nunca vi o diretor da instrução pública, m as dou-m e com  o Silveira,
que faz regulam entos. Talvez não fosse im possível conseguir a transferência. Se
elas m erecem , está claro.
— Mas é um a excelente professora, seu Paulo, e um  nobre caráter. O senhor

quer retirá-la! Que lem brança! Se ela sair, sabe o que acontece? Mandam  para cá
um a velha analfabeta.
— Tem  razão.
E, em  voz alta:
— Jantar?
Agradeceram  e despediram -se. Padre Silvestre abraçou-m e:
— O am igo num a entalação dessa! A culpa foi do Brito. Ele é m eio esquentado,
m as ultim am ente a orientação que vem  dando à Gazeta é boa.
Acom panhei-os:
— Ó Gondim , eu precisava falar com  você.
Ficou.
— Estou m orrendo de fom e, Gondim . Dois dias quase sem  com er! Calcule.
Vam os j antar?
Recusou o j antar, m as aceitou um  copo de cervej a. Quando cheguei à
sobrem esa, ele ia na terceira garrafa.
— Ó Gondim , você m e falou há tem po num a professora.
— A Madalena?
— Sim . Encontrei-a um a noite destas e gostei da cara. É m oça direita?
Azevedo Gondim  encetou a quarta garrafa de cervej a e desm anchou-se em
elogios.
— Mulher superior. Só os artigos que publica no Cruzeiro!
Desanim ei:
— Ah! faz artigos!
— Sim , m uito instruída. Que negócio tem  o senhor com  ela?
— Eu sei lá! Tinha um  proj eto, m as a colaboração no Cruzeiro m e esfriou.
Julguei que fosse um a criatura sensata.
— Essa agora! bradou Gondim  picado. O senhor tem  cada um a!
— Está bem . Para você não há segredo. Ouça. Estou aborrecido com  o Padilha.
— Algum a carraspana que ele tom ou?
— Pior. Anda querendo botar socialism o na fazenda. Surpreendi-o dizendo
besteiras. Não liguei im portância, tanto que o conservei, m as, o caso bem  pensado,
talvez fosse m elhor arranj ar para ele outra colocação, fora.
— E convidar a Madalena.
— Sim , estive pensando. Não sei. Se ela for m oça de bons costum es.
— De bons costum es? Claro. O diabo é que talvez não aceite. Morar nas
brenhas!
— Isso são bobagens da tia, um a velha tonta. Mas a outra, se tem  j uízo com o
você diz, aceita.
Azevedo Gondim  m astigava am endoins torrados e bebia cervej a:
— É, pode ser. Vantagem  para ela, com  certeza, aum ento de ordenado.
— Sem  dúvida.
— Pode ser. Eu só tenho pena do pobre do Padilha.
— Não. Cavo um a colocação para ele. Já não lhe disse? É um  canalha, coitado.

E a respeito da m oça...
— O senhor entendeu-se com  ela?
— Não, hom em . Se m e tivesse entendido, não estava consultando você. Ó
Gondim , faça-m e um  favor. Foi j ustam ente para isso que lhe pedi que ficasse.
Sonde a m ulher.
Azevedo Gondim  resistiu, encarecendo o serviço que ia prestar:
— Mas eu não tenho intim idade com  ela. Fale o senhor.
— Im possível. Há dois dias que estou ausente. Preciso chegar a S. Bernardo
hoj e. E não sei a m aneira de tratar com  essa gente. Muitas voltas... Peite a m oça,
Gondim , faça-m e o favor.
— Pois sim . Arrum o-lhe a paisagem , a poesia do cam po, a sim plicidade das
alm as. E se ela não se convencer, sapeco-lhe um  bocado de patriotism o por cim a.

D
XV
epois do convite, tornei-m e quase íntim o das duas m ulheres. Madalena
não se decidiu logo. E eu, a pretexto de saber a resposta, com ecei a
frequentar a casinha da Canafístula. Um  dia dei uns toques a d. Glória:
— Por que é que sua sobrinha não procura m arido?
Melindrou-se:
— Minha sobrinha não é feij ão bichado para se andar oferecendo.
— Nem  eu digo isso, m inha senhora. Deus m e livre. É um  conselho de am igo.
Garantir o futuro...
D. Glória em pinou a coluna vertebral, e o peito cavado se achatou. Esse
m ovim ento de dignidade repentina fazia-lhe o vestido preto, j á gasto, ficar esticado
na barriga e frouxo nas costas. Resm ungou palavras im perceptíveis. Pouco a pouco
voltou à posição norm al, a om oplata adaptou-se novam ente ao pano coçado e o
gargarej o tornou-se com preensível:
— Está visto que o casam ento para as m ulheres é um a situação...
— Razoável, d. Glória. E até é bom  para a saúde.
— Mas há tantos casam entos desastrados... Dem ais isso não é coisa que se
im ponha.
— Não, infelizm ente. É preciso propor. Tudo m al organizado, d. Glória. Há lá
ninguém  que saiba com  quem  deve casar?
— Quanto a m im , acho que em  questões de sentim ento é indispensável haver
reciprocidade.
— Qual reciprocidade! Pieguice. Se o casal for bom , os filhos saem  bons; se for
ruim , os filhos não prestam . A vontade dos pais não tira nem  põe. Conheço o m eu
m anual de zootecnia.
Depois dessa conversa, a colheita do algodão prendeu-m e duas sem anas em  S.
Bernardo. Refleti algum as vezes no caso. Era provável que d. Glória houvesse
batido com  a língua nos dentes. Que teria dito? Apareci a Madalena com  m edo de
ser m al recebido por causa da sugestão. Fui bem  recebido:
— Com o vai a lavoura?
— Vai regularm ente. Creio que vai regularm ente: ainda não posso prever o
resultado da safra. E a sua escola? Os m eninos, a d. Glória, sem  novidade? Estim o.
O que é certo é que a senhora não se im porta com  lavoura, e eu vinha tratar de
outro assunto.
— O convite que m e fez pelo Gondim ?
Vacilei:
— Mais ou m enos.
— Já lhe devia ter respondido que não aceito.
— Que diabo! Mas o aum ento do ordenado, filha de Deus?
— Não convém . Estou em  seis anos de m agistério, não deixo o certo pelo
duvidoso. Essas escolas particulares hoj e se abrem , am anhã se fecham ...
Fiz-lhe um  cum prim ento:
— Felicito-a pela sua prudência. Efetivam ente a senhora arriscava a ficar sem

m el nem  cabaço.
— Se o senhor reconhece...
— Reconheço. E venho trazer-lhe outra proposta. Para ser franco, essa história
de escola foi tapeação.
Madalena esperava, com  um a rugazinha entre as sobrancelhas.
— O que vou dizer é difícil. Deve com preender... Enfim , para não estarm os
com  prólogos, arreio a trouxa e falo com  o coração na m ão.
Tossi, encalistrado:
— Está aí. Resolvi escolher um a com panheira. E com o a senhora m e quadra...
Sim , com o m e engracei da senhora quando a vi pela prim eira vez...
Engasguei-m e. Séria, pálida, Madalena perm aneceu calada, m as não parecia
surpreendida.
— Já se vê que não sou o hom em  ideal que a senhora tem  na cabeça.
Afastou a frase com  a m ão fina, de dedos com pridos:
— Nada disso. O que há é que não nos conhecem os.
— Ora essa! Não lhe tenho contado pedaços da m inha vida? O que não contei
vale pouco. A senhora, pelo que m ostra e pelas inform ações que peguei, é sisuda,
econôm ica, sabe onde tem  as ventas e pode dar um a boa m ãe de fam ília.
Madalena foi à j anela e esteve algum  tem po debruçada, olhando a rua. Quando
se voltou, eu passeava pela sala, enchendo o cachim bo.
— Deve haver m uitas diferenças entre nós.
— Diferenças? E então? Se não houvesse diferenças, nós seríam os um a pessoa
só. Deve haver m uitas. Com  licença, vou acender o cachim bo. A senhora aprendeu
várias em brulhadas na escola, eu aprendi outras quebrando a cabeça por este
m undo. Tenho quarenta e cinco anos. A senhora tem  uns vinte.
— Não, vinte e sete.
— Vinte e sete? Ninguém  lhe dá m ais de vinte. Pois está aí. Já nos
aproxim am os. Com  um  bocado de boa vontade, em  um a sem ana estam os na
igrej a.
— O seu oferecim ento é vantaj oso para m im , seu Paulo Honório, m urm urou
Madalena. Muito vantaj oso. Mas é preciso refletir. De qualquer m aneira, estou
agradecida ao senhor, ouviu? A verdade é que sou pobre com o Jó, entende?
— Não fale assim , m enina. E a instrução, a sua pessoa, isso não vale nada?
Quer que lhe diga? Se chegarm os a acordo, quem  faz um  negócio supim pa sou eu.

U
XVI
m a sem ana depois, à tardinha, eu, que ali estava aboletado desde m eio-
dia, tom ava café e conversava, bastante satisfeito. No m elhor da conversa
Azevedo Gondim  entrou sem  cerim ônia e atirou um a inconveniência que não
tinha tam anho:
— Ah! O senhor está aqui? Eu vinha dar os parabéns a d. Madalena. Foi bom
encontrá-lo. Minhas felicitações.
— Que história é essa? perguntei estrem ecendo.
— O casam ento, explicou Azevedo Gondim . É em  que se fala. O senhor não
tinha dito nada... Quando é isso?
Não respondi. Madalena contou os fios do bordado. D. Glória im obilizou-se,
com  um a xícara na m ão. Tive desej o de torcer o pescoço do Gondim , que,
percebendo a tolice, se encostou à parede, raspando o queixo. Levantei-m e,
cheguei à j anela para disfarçar o constrangim ento. Com o Gondim  se aproxim asse,
rosnei:
— Você está bêbedo?
— Julguei que não fosse segredo. Todo o m undo sabe.
— Idiota.
E voltei a sentar-m e. Acanhado, as orelhas num  fogaréu, agarrei-m e ao
hospital de Nossa Senhora da Conceição e ao Grêm io Literário e Recreativo, que
levava um a existência precária, com  as estantes cheias de traças e abrindo-se um a
vez por ano para a posse da diretoria.
— Que utilidade tem  isso?
Azevedo Gondim  sentou-se, pouco a pouco serenou:
— É um a sociedade que presta bons serviços, seu Paulo.
— Lorota! O hospital, sim  senhor. Mas biblioteca num  lugar com o este! Para
quê? Para o Nogueira ler um  rom ance de m ês em  m ês. Um a literatura
desgraçada...
Azevedo Gondim , aferrando-se a um a ideia, gira em  redor dela, com o peru:
— A instrução é indispensável, a instrução é um a chave, a senhora não
concorda, d. Madalena?
— Quem  se habitua aos livros...
— É não habituar-se, interrom pi. E não confundam  instrução com  leitura de

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