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m aj or possuía um  bacam arte, m as o bacam arte só se desenferruj ava pelos
festej os de S. João.
Ora, essas coisas se passaram  antigam ente.
Mudou tudo. Gente nasceu, gente m orreu, os afilhados do m aj or cresceram  e
foram  para o serviço m ilitar, em  estrada de ferro.
O povoado transform ou-se em  vila, a vila transform ou-se em  cidade, com
chefe político, j uiz de direito, prom otor e delegado de polícia.
Trouxeram  m áquinas — e a bolandeira do m aj or parou.
Veio o vigário, que fechou a capela e construiu um a igrej a bonita. As histórias
dos santos m orreram  na m em ória das crianças.
Chegou o m édico. Não acreditava nos santos. A m ulher de seu Ribeiro
entristeceu, em agreceu e finou-se.
O advogado abriu consultório, a sabedoria do m aj or encolheu-se — e surgiram
no foro num erosas questões.
Efetivam ente a cidade teve um  progresso rápido. Muitos hom ens adotaram
gravatas e profissões desconhecidas. Os carros de bois deixaram  de chiar nos
cam inhos estreitos. O autom óvel, a gasolina, a eletricidade e o cinem a. E im postos.
As m oças e os rapazes não rodeavam , de braço dado, as fogueiras de S. João:
dançavam  o tango, no frevo.
Um  dia seu Ribeiro reconheceu que vivia num a casa grande dem ais. Vendeu-a
e adquiriu outra, pequena. Com o havia agora liberdade excessiva, a autoridade dele
foi m inguando, até desaparecer.
Seu Ribeiro tinha um  filho, que j ogava futebol, e um a filha, que usava fitas,
m uitas fitas. Acharam  o lugar atrasado e fugiram . Seu Ribeiro escondeu-se, cheio
de vergonha. Am ofinou-se um a sem ana, desfez-se dos cacarecos e foi procurar os
filhos. Não os encontrou: andavam  por aí, ela pelas fábricas, ele no exército.
Seu Ribeiro enraizou-se na capital. Conheceu enferm arias de indigentes, dorm iu
nos bancos dos j ardins, vendeu bilhetes de loterias, tornou-se bicheiro e agente de
sociedades ratoeiras. Ao cabo de dez anos era gerente e guarda-livros da Gazeta,
com  cento e cinquenta m il-réis de ordenado, e pedia dinheiro aos am igos.
Quando o velho acabou de escorrer a sua narrativa, exclam ei:
— Tenho a im pressão de que o senhor deixou as pernas debaixo de um
autom óvel, seu Ribeiro. Por que não andou m ais depressa? É o diabo.

O
VIII
caboclo m al-encarado que encontrei um  dia em  casa do Mendonça
tam bém  se acabou em  desgraça. Um a lim peza. Essa gente quase nunca
m orre direito. Uns são levados pela cobra, outros pela cachaça, outros
m atam -se.
Na pedreira perdi um . A alavanca soltou-se da pedra, bateu-lhe no peito, e foi a
conta. Deixou viúva e órfãos m iúdos. Sum iram -se: um  dos m eninos caiu no fogo,
as lom brigas com eram  o segundo, o últim o teve angina e a m ulher enforcou-se.
Para dim inuir a m ortalidade e aum entar a produção, proibi a aguardente.
Concluiu-se a construção da casa nova. Julgo que não preciso descrevê-la. As
partes principais apareceram  ou aparecerão; o resto é dispensável e apenas pode
interessar aos arquitetos, hom ens que provavelm ente não lerão isto. Ficou tudo
confortável e bonito. Naturalm ente deixei de dorm ir em  rede. Com prei m óveis e
diversos obj etos que entrei a utilizar com  receio, outros que ainda hoj e não utilizo,
porque não sei para que servem .
Aqui existe um  salto de cinco anos, e em  cinco anos o m undo dá um  bando de
voltas.
Ninguém  im aginará que, topando os obstáculos m encionados, eu haj a
procedido invariavelm ente com  segurança e percorrido, sem  m e deter, cam inhos
certos. Não senhor, não procedi nem  percorri. Tive abatim entos, desej o de recuar;
contornei dificuldades: m uitas curvas. Acham  que andei m al? A verdade é que
nunca soube quais foram  os m eus atos bons e quais foram  os m aus. Fiz coisas boas
que m e trouxeram  prej uízo; fiz coisas ruins que deram  lucro. E com o sem pre tive a
intenção de possuir as terras de S. Bernardo, considerei legítim as as ações que m e
levaram  a obtê-las.
Alcancei m ais do que esperava, m ercê de Deus. Vieram -m e as rugas, j á se vê,
m as o crédito, que a princípio se esquivava, agarrou-se com igo, as taxas desceram .
E os negócios desdobraram -se autom aticam ente. Autom aticam ente. Difícil? Nada!
Se eles entram  nos trilhos, rodam  que é um a beleza. Se não entram , cruzem  os
braços. Mas se virem  que estão de sorte, m etam  o pau: as tolices que praticarem
viram  sabedoria. Tenho visto criaturas que trabalham  dem ais e não progridem .
Conheço indivíduos preguiçosos que têm  faro: quando a ocasião chega,
desenroscam -se, abrem  a boca — e engolem  tudo.
Eu não sou preguiçoso. Fui feliz nas prim eiras tentativas e obriguei a fortuna a
ser-m e favorável nas seguintes.
Depois da m orte do Mendonça, derrubei a cerca, naturalm ente, e levei-a para
além  do ponto em  que estava no tem po de Salustiano Padilha. Houve reclam ações.
— Minhas senhoras, seu Mendonça pintou o diabo enquanto viveu. Mas agora é
isto. E quem  não gostar, paciência, vá à j ustiça.
Com o a j ustiça era cara, não foram  à j ustiça. E eu, o cam inho aplainado, invadi
a terra do Fidélis, paralítico de um  braço, e a dos Gam a, que pandegavam  no
Recife, estudando direito. Respeitei o engenho do dr. Magalhães, j uiz.
Violências m iúdas passaram  despercebidas. As questões m ais sérias foram

ganhas no foro, graças às chicanas de João Nogueira.
Efetuei transações arriscadas, endividei-m e, im portei m aquinism os e não
prestei atenção aos que m e censuravam  por querer abarcar o m undo com  as
pernas. Iniciei a pom icultura e a avicultura. Para levar os m eus produtos ao
m ercado, com ecei um a estrada de rodagem . Azevedo Gondim  com pôs sobre ela
dois artigos, cham ou-m e patriota, citou Ford e Delm iro Gouveia. Costa Brito
tam bém  publicou um a nota na Gazeta, elogiando-m e e elogiando o chefe político
local. Em  consequência m ordeu-m e cem  m il-réis.
Não obstante essa propaganda, as dificuldades surgiram . Enquanto estive
esburacando S. Bernardo, tudo andou bem ; m as quando varei quatro ou cinco
propriedades, caiu-m e em  cim a um a nuvem  de m aribondos. Perdi dois caboclos e
levei um  tiro de em boscada. Ferim ento leve, tenho a cicatriz no om bro.
Exasperado, m andei m ais cem  m il-réis a Costa Brito e procurei João Nogueira e
Gondim :
— Desorientem  essas cavalgaduras. Olhem  que estou fazendo obra pública e
não cobro im posto. É um a vergonha. O m unicípio devia auxiliar-m e. Fale com  o
prefeito, dr. Nogueira. Vej a se ele m e arranj a um as barricas de cim ento para os
m ata-burros.
Não recebi o cim ento, m as construí os m ata-burros. Com o os m eus planos
eram  volum osos e adotei processos irregulares, as pessoas com odistas j ulgaram -
m e doido e deixaram -m e em  paz.
Tive por esse tem po a visita do governador do Estado. Fazia três anos que o
açude estava concluído — burrice, na opinião do Fidélis.
Para que açude onde corre um  riacho que não seca?
Realm ente parecia não servir. Mas saiu dali, num a levada, a água que foi
m ovim entar as m áquinas do descaroçador e da serraria.
O governador gostou do pom ar, das galinhas Orpington, do algodão e da
m am ona, achou conveniente o gado lim osino, pediu-m e fotografias e perguntou
onde ficava a escola. Respondi que não ficava em  parte nenhum a. No alm oço, que
teve cham panhe, o dr. Magalhães gem eu um  discurso. S. excia. tornou a falar na
escola. Tive vontade de dar uns apartes, m as contive-m e.
Escola! Que m e im portava que os outros soubessem  ler ou fossem  analfabetos?
— Esses hom ens de governo têm  um  parafuso frouxo. Metam  pessoal letrado
na apanha da m am ona. Hão de ver a colheita.
Levantando-se da m esa, Padilha, de olho vidrado, pediu-m e em  voz baixa
cinquenta m il-réis.
— Nem  um  tostão.
E fui m ostrar ao ilustre hóspede a serraria, o descaroçador e o estábulo.
Expliquei em  resum o a prensa, o dínam o, as serras e o banheiro carrapaticida. De
repente supus que a escola poderia trazer a benevolência do governador para certos
favores que eu tencionava solicitar.
— Pois sim  senhor. Quando V. excia. vier aqui outra vez, encontrará essa gente
aprendendo cartilha.

Mais tarde, enquanto dos alicerces da igrej a olhávam os a paisagem , cham ei de
parte o advogado:
— Ó dr. Nogueira, m ande-m e cá o Padilha am anhã. Preciso falar com  ele,
m as esse desgraçado nem  se aguenta nas pernas. Não se esqueça, ouviu? Am anhã,
quando ele curtir o pileque.
S. excia. despediu-se, e aquela data ficou célebre. Os autom óveis rolaram  na
estrada. Olhando a nuvem  de poeira que levantavam , esfreguei as m ãos:
— Com  os diabos! Esta visita m e traz um a penca de vantagens. Um  capital.
Quero ver quanto rende.
A verdade é que, aparentando segurança, eu andava assustado com  os
credores. Ia bem , sem  dúvida, o ativo era superior ao passivo, m as se aqueles
m alvados quisessem , capavam -m e. Agora os receios dim inuíam . A escola seria
um  capital. Os alicerces da igrej a eram  tam bém  capital.
Continuei a esfregar as m ãos. Com  os diabos! E decidi proteger as Mendonça.
A m inha prosperidade com eçara depois da m orte do pai delas. Naquele tem po
algum as braças de m assapê valiam  m uito para m im . Ninharia o m assapê.
Senti pena das Mendonça. Mandaria no dia seguinte dar um a lim pa no algodão
de Bom -Sucesso, enfezado, coberto de m ato. Muito por baixo, as Mendonça. O pai
era safado, m as que culpa tinham  as pobres? Resolvi abrir o olho para que vizinhos
sem  escrúpulos não se apoderassem  do que era delas. Mulheres quase nunca se
defendem . Pois se qualquer daqueles patifes tentasse prej udicá-las, estava
em brulhado com igo.

N
IX
o outro dia, de volta do cam po, encontrei no alpendre João Nogueira,
Padilha e Azevedo Gondim  elogiando um as pernas e uns peitos. Elevaram  a
conversa.
— Mulher educada, afirm ou João Nogueira. Instruída.
— E sisuda, acrescentou Azevedo Gondim . Padilha não achou qualidade que se
com parasse aos peitos e às pernas.
— Realm ente, m urm urou esgaravatando as unhas com  um  fósforo.
João Nogueira lem brou-se de que era hom em  de responsabilidades. Bacharel,
m ais de quarenta anos, um a calvície respeitável. Às vezes m etia-se em  badernas.
Mas com  os clientes só negócios. E a m im , que lhe dava quatro contos e oitocentos
por ano para aj udar-m e com  leis a m elhorar S. Bernardo, exibia ideias corretas e
algum  pedantism o.
Eu tratava-o por doutor: não poderia tratá-lo com  fam iliaridade. Julgava-m e
superior a ele, em bora possuindo m enos ciência e m enos m anha. Até certo ponto
parecia-m e que as habilidades dele m ereciam  desprezo. Mas eram  úteis — e havia
entre nós m uita consideração.
— Acom panham os o nosso Padilha, disse Nogueira. Viem os andando. Com o o
passeio era agradável, com  a fresca da tarde, cheguei cá, para consultá-lo.
Convidei-o silenciosam ente olhando um a j anela por onde se viam , sobre livros
de escrituração, as suíças brancas e os óculos de seu Ribeiro. Entram os no
escritório. Estávam os em  princípio de m ês. Abri o cofre e entreguei ao advogado
duas pelegas de duzentos. Seu Ribeiro trem eu no borrador um  lançam ento
circunstanciado e afastou-se discretam ente. João Nogueira sentou-se, passou o
recibo, tirou papéis da pasta e explicou-m e o estado de vários processos. Logo no
prim eiro convenci-m e de que os quatrocentos m il-réis tinham  sido gastos com
proveito. Os outros tam bém  iam  em  bom  cam inho. O tabelião é que não inspirava
confiança. E o oficial de j ustiça. Aram e.
— Claro. Faça prom essas, dr. Nogueira. Não adiante um  vintém . Prom eta. O
pagam ento no fim , se eles forem  honestos.
Inteirei-m e de particularidades pouco interessantes, dei um as instruções a seu
Ribeiro e voltam os ao alpendre, onde Luís Padilha tinha recom eçado com  Azevedo
Gondim  os elogios às pernas.
— De quem  são as pernas?
— Da Madalena, respondeu Gondim .
— Quem ?
— Um a professora. Não conhece? Bonita.
— Educada, atalhou João Nogueira.
— Bonita, disse outra vez Gondim . Um a lourinha, aí de uns trinta anos.
— Quantos? perguntou João Nogueira.
— Uns trinta, pouco m ais ou m enos.
— Vinte, se tanto.
— É porque você não viu de perto, interrom peu Gondim . Se tivesse visto, não

sustentava sem elhante barbaridade.
— Com o não? Vi m uito de perto, em  casa do Magalhães, no aniversário da
Marcela. Tem  vinte.
— É porque você viu à noite. De m anhã é diferente. Tem  trinta.
Padilha, observando com  tristeza as novilhas que pastavam  no capim -gordura, à
m argem  do riacho, e o açude, onde patos nadavam , suspirou e propôs vinte e cinco:
— É o que ela tem . Vinte e cinco.
Estirei os braços, fatigado de haver passado o dia inteiro ao sol, brigando com  os
trabalhadores:
— Muito bem , Padilha, vinte e cinco para acabar. Vocês j antam , não j antam ?
Voltam  no autom óvel. Preciso falar com  você, Padilha.
Luís Padilha tinha recebido o recado e desde a véspera rem exia o quengo,
curioso.
— É isto. Creio que estou com  vontade de abrir um a escola.
— Magnífico! exclam ou Azevedo Gondim  com  um  sorriso que lhe achatou
m ais o nariz. Aceitou o m eu conselho, hem ? Não há nada com o a instrução.
O advogado passou os dedos pela testa e pressagiou, distraído, que a escola teria
grande utilidade.
Encolhi os om bros:
— Sei lá! Não acredito. Tanto que resolvi aproveitar o Padilha. Está claro que
se poderia arranj ar um a boa escola rural, com  ensino razoável de agricultura e
pecuária. Mas onde vou encontrar técnicos? E que dinheirão! Por enquanto é
apenas um  bocado de leitura, escrita e conta. Você estará em  condições de
encarregar-se disso, Padilha?
Luís Padilha inform ou-se do ordenado e declarou que vivia cheio de ocupações.
Devagarinho, foram  clareando as lâm padas da ilum inação elétrica. Luzes
tam bém  nas casas dos m oradores. Se aqueles desgraçados que se apertavam  lá
em baixo, ao pé das cercas de Bom -Sucesso, tinham  nunca pensado em  alum iar-se
com  eletricidade! Luz até m eia-noite. Conforto! E eu pretendia instalar telefones.
Casim iro Lopes aproxim ou-se, capengando.
— Vam os j antar. Mandei cham á-lo porque j ulguei que você necessitasse,
Padilha. Desde que está ocupado, ponto final. Vam os para a m esa.
Durante o j antar Azevedo Gondim  referiu o m otivo da sua visita: tinha-se
descoberto o paradeiro da velha Margarida.
— Que está dizendo! E você calado, Gondim !
Azevedo Gondim  encheu o copo:
— Mora em  Jacaré-dos-Hom ens.
— Onde é isso?
— Em  Pão-de-Açúcar. Recebi hoj e um a carta. Os sinais, a idade, a cor, tudo
confere. Vive com  um a fam ília que faz queij os. Já retirei o anúncio do Cruzeiro.
— Está direito. Vocês conhecem  alguém  em  Pão-de-Açúcar? Conhece alguém
em  Pão-de-Açúcar, seu Ribeiro?
Não conheciam .

— Ó Gondim , j á que tom ou a em preitada, peça ao vigário que escreva ao
padre Soares sobre a rem essa da negra. Acho que acom panho vocês, vou falar a
padre Silvestre. É conveniente que a m ulher sej a rem etida com  cuidado, para não
se estragar na viagem . E quando ela chegar, pode encom endar as m içangas,
Gondim . Com o se cham am ?
— Clichês. Clichês e vinhetas.
— Pois sim . Mande buscar os clichês e as vinhetas, quando tiverm os a velha.
— Estava aqui pensando na escola, m urm urou Padilha.
— E eu. Tirou-m e a palavra da boca, atalhou João Nogueira. Convide a
Madalena, seu Paulo Honório. Excelente aquisição, m ulher instruída.
— Até lhe enfeita a casa, seu Paulo, gritou Azevedo Gondim .
— Tolice. Ando lá procurando bibelôs?
Padilha, m eio desconcertado, rosnou, agarrando-se ao osso:
— Eu não disse que não aceitava. O que disse é que tenho m uitas ocupações.
Mas perguntei qual é o ordenado.
Entretido em  desarticular um a asa de galinha, não respondi.
— Perguntei qual é o ordenado, tornou Padilha tim idam ente.
Coitado! Tão m iúdo, tão chato, parecia um  percevej o.
— Conform e. Nem  sei quanto você vale. Uns cem  m il-réis por m ês. Ponham os
cento e cinquenta a título de experiência. Casa, m esa, boas conversas, cento e
cinquenta m il-réis por m ês e oito horas de trabalho por dia. Convém ? Mas aviso
logo: serviço é serviço, e aqui ninguém  bebe. Aqui só bebem  os hóspedes.
— Perfeitam ente, m astigou Padilha encabulado. Vou refletir. Quanto à bebida
dispenso recom endação, que não bebo. Bebo nas refeições, nem  sem pre, e lá um a
vez ou outra um  cálice, por insistência de am igos. Talvez aceite.
Acabam os o j antar em  silêncio. Maria das Dores trouxe o café e retirou os
pratos. Abri a caixa de charutos, acendi o cachim bo e fom os para o salão.
Seu Ribeiro desdobrou a Gazeta. Instintivam ente escondi-m e num  canto,
afastado das portas abertas. Não consegui evitar um a j anela. Quis fechá-la, m as
sosseguei: Casim iro Lopes, que vigiava a casa, sentou-se num a das paredes
com eçadas da igrej a, acom odou o rifle entre as pernas e ficou im óvel, farej ando.
— Vai o nosso Padilha voltar a S. Bernardo, disse João Nogueira.
— E concluir o livro, acrescentou Azevedo Gondim . Você, com  a vida
regularizada, escreve à beça, Padilha.
— Qual nada!
Envergonha-se de com por uns contos que publica no Cruzeiro, com
pseudônim o, e quando lhe falam  neles, im agina que é esculham bação e atrapalha-
se. Aprum ou-se, lançou um  olhar am argurado às cadeiras, ao soalho, às lâm padas:
— O ordenado é pequeno, não chega para os livros. Mas venho. Venho porque
se trata de instrução e tenho em bocadura para o m agistério.
Seu Ribeiro virava a folha do j ornal, m ovia os beiços, às vezes gesticulava.
Indecente, aquela Gazeta. E o Brito, a pedir dinheiro, estava-se tornando
insuportável.

Azevedo Gondim , cansado por duas léguas a pé, bocej ou e espreguiçou-se:
— Então os candidatos do Pereira são derrotados, hem ? Eleição m unicipal.
— Não interessa. Bico de pena!
Torcidas de verdade, sim : m andava os m eus eleitores às urnas e recebia em
troca os agradecim entos do partido. Tricazinhas locais, não. Se o Pereira tinha
pisado em  casca de banana, pior para ele: caía, vinha outro e arranj ava-se nova
chapa.
— Bem  feito, resm ungou Padilha, que não perdoa ao Pereira ter desconfiado
dos seus proj etos de agricultura. Aquilo é um  j um ento.
— Que inj ustiça! bradou João Nogueira sorrindo. O Pereira até agora foi um
suj eito de tino.
Todo o m undo gabava a prudência dele. Hoj e o Padilha tacha-o de j um ento.
— Hom em , aventurou Azevedo Gondim  coçando a barba, não é só o Padilha.
Eu tam bém . E você. Num  m om ento com o este dar m urro em  faca de ponta! Se
tivéssem os um a eleição federal de cabala, vá. Mas quando o governo não faz caso
de votos, querer sacudir padre Silvestre na prefeitura! O Padilha tem  razão.
— Ora essa! atalhei. Você não sustentou a candidatura do vigário no j ornal,
Gondim ?
— Sustentei. Sustentei por dever de solidariedade política. Mas particularm ente
discordei. O Nogueira está aí para atestar. E quanto a dizer que era disparate, era.
Sabia que padre Silvestre falara em  cortar a subvenção de cento e cinquenta
m il-réis m ensais que o m unicípio dava ao Cruzeiro. Tinha esta am eaça atravessada
na garganta. E, cheio de raiva, defendia o vigário, exaltando-lhe as virtudes e
esquecendo o resto de propósito.
— Um  desastre. Bom  hom em . É pouco. Muito ingênuo, em prenha pelos
ouvidos, inteligência de peru novo, besta com o aruá.
— Padres! exclam ou Luís Padilha com  desprezo.
Era ateu e transform ista. Depois que eu o havia desem baraçado da fazenda,
m anifestava ideias sanguinárias e pregava, cochichando, o exterm ínio dos
burgueses.
— Canalha!
E roeu as unhas com  furor.
Seu Ribeiro, os óculos atentos, com entava em  silêncio, com  gestos de
desagrado, a prosa ruim  do Brito.
— O que eu não com preendo, estranhei, é a razão dessa rasteira no vigário.
Estava quase eleito, reconhecido, em possado, e de repente — zás! — no chão. Por
que foi?
— Padre Silvestre é revolucionário, explicou João Nogueira. Pretende salvar o
país por processos violentos.
Estrem eci. Casim iro Lopes, de binga na m ão, acendia o cigarro. O luar estava
m uito branco. Um  pedaço de m ata aparecia, longe, e distinguiam -se as flores
am arelas dos paus-d’arco.
Levantei-m e, fiz um  sinal a João Nogueira e aproxim am o-nos da j anela.

— Ó dr. Nogueira, diga-m e cá, perguntei em  voz baixa, essa história da queda
do Pereira é certa?
João Nogueira aceitou um  charuto e declarou que não havia dúvida nenhum a.
— O governador estava razoável e propôs um  acordo m etendo o padre no
conselho. O Pereira j ogou no padre e levou taboca.
— Pois, dr. Nogueira, m urm urei abafando m ais a voz, cuido que chegou a
ocasião de liquidar os m eus negócios com  o Pereira. Tenho m arom bado, espiado
m aré, porque o chefe era ele. Mas se foi ao barro, acabou-se. Está aqui enrascado
num a conta de cabelos brancos. Vou entregar-lhe a conta. Vej a se m e consegue
um a hipoteca.
— Perfeitam ente, concordou João Nogueira.
E entusiasm ou-se:
— Perfeitissim am ente! Passe a procuração. O senhor vai prestar ao partido um
grande serviço. Aperte o Pereira, seu Paulo Honório.

A
X
qui nos dias santos surgem  viagens, doenças e outros pretextos para o
trabalhador gazear. O dom ingo é perdido, o sábado tam bém  se perde, por
causa da feira, a sem ana tem  apenas cinco dias, que a Igrej a ainda reduz. O
resultado é a paga encolher e essa cam bada viver com  a barriga tinindo.
Num  feriado de m entira, não tendo podido encontrar gente para tirar baronesas
do açude e brocar um  pedaço de capoeira, distraí-m e ouvindo Padilha e Casim iro
Lopes conversarem  a respeito de onças.
Não se entendem . Padilha, hom em  da m ata e franzino, fala m uito e adm ira as
ações violentas; Casim iro Lopes é coxo e tem  um  vocabulário m esquinho. Julga o
m estre-escola um a criatura superior, porque usa livros, m as para m anifestar esta
opinião arregala os olhos e dá um  pequeno assobio. Gaguej a. No sertão passava
horas calado, e quando estava satisfeito, aboiava. Quanto a palavras, m eia dúzia
delas. Ultim am ente, ouvindo pessoas da cidade, tinha decorado alguns term os, que
em pregava fora de propósito e deturpados. Naquele dia, por m ais que forcej asse,

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