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português m esm o, ou no que você souber de espanhol, pois certam ente todos falam
ladino, que é um a espécie de espanhol antigo. Está bem , eu concordo, m as tenho
que ligar para três Raphaéis diferentes, até descobrir qual é o certo. Vej a se algum
deles m ora em  Bornava, diz m eu avô, e, se sim , tente esse em  prim eiro lugar.
Nenhum  dos três m ora onde m eu avô indicou, terei que contar com  a sorte.
Escolho o do m eio e telefono com  os dedos cruzados, espero que dessa vez eu
consiga. Um a voz j ovem  atende e, para m eu alívio, afirm a saber francês. Digo que
quero falar com  o Raphael e, quando ele m e diz ser o próprio, desconfio ter
escolhido o Raphael errado. Mas não desisto e digo: vim  do Brasil, estou à procura
de um  prim o do m eu avô, que tem  o m esm o nom e que você, m as com o não tinha
o núm ero de telefone dele tive de olhar na lista telefônica. Então, encontrei três
nom es iguais, e você é o prim eiro para quem  estou ligando. Ele pergunta m eu
nom e e o do m eu avô. Parece surpreso, não devia estar esperando um  telefonem a
tão inusitado. Meu avô tam bém  se cham a Raphael, ele diz, e é verdade que tem
prim os no exterior, que viaj aram  há m uitos anos. Ele se oferece para telefonar ao
avô e tentar descobrir se é ele quem  procuro. Acho ótim a a ideia, assim  não
preciso com eçar tudo de novo. Então m e deixe o telefone de onde está e, assim  que
souber de algo, telefono para avisar.

Quando coloco o aparelho no gancho, sinto o corpo relaxar, penso que devo
estar no cam inho certo. Agora, sim , repito em  silêncio e, sem  acanham ento, sorrio
para m im  m esm a.

Nenhum a palavra dói m ais do que a ausência de palavra. Você não é tolo e
sabia m uito bem  disso. Você m e im punha um  silêncio devastador. Sum ia, não
dava notícias, fazia de propósito, queria m e ver chegar perto da m orte,
paralisada, sem  forças. Eu esperava o telefone tocar, ele não tocava. E se
porventura tocasse não era sua a voz que eu escutava. Esperava o apito do m eu
com putador avisando a chegada de um  novo e-m ail, ele não apitava. Esperava
um a carta, um  sinal de fum aça, um a m ensagem  no celular, esperava que você
aparecesse e trouxesse consigo algum a palavra. Esperava e esperava e
esperava. E você não vinha. Você m e deixava a sós com  esse silêncio que dói
m ais do que um  grito arranhado, do que um  corte profundo na carne, que dói
m ais do que a palavra dor. Eu falava sozinha, cantava no banho, telefonava
para am igos, enlouquecida, atrás de um a voz, de um a palavra. Mas a sua não
aparecia, e, quanto m ais o tem po passava, quanto m ais eu a procurava, m enos
esperança tinha de um  dia voltar a m e m exer.

Prim eiro, tiraram -lhe a roupa toda. Mediram  cada parte de seu corpo, anotando
os detalhes num  caderninho ao qual ela não tinha acesso. Exam inaram  os olhos, a
garganta (diga “a”) e o ventre. Em  seguida, sentaram -na num  banco de m etal. Ela
se arrepiou com  o frio. Em  um a única tesourada, seus cabelos foram  da cintura ao
chão. Ela não sentia ódio, m as tam pouco conseguia sossegar o pensam ento: por que
não tinha partido? Por que havia cedido tanto? Por am or a ele ou ao país? Não
sentia ódio, sentia m edo, um  m edo enorm e, que lhe saltava pelos olhos, pelas
narinas, pelos poros. Queria poder sair de lá: m oço, por favor, deixe-m e ir, não
tenho nada a ver com  essa história, não sou quem  vocês im aginam , sou um a m oça
direita, de boa fam ília, isso aqui é um  engano. Quando sentiu o roçar da m áquina
raspando a cabeça, não resistiu, deixou cair a lágrim a que em  vão guardava para
si. O barulhinho irritante do aparelho confirm ava que estava de fato ali, que sua
via-crúcis estava ainda por com eçar. Afastaram -lhe o braço com  força no
m om ento em  que ela m anifestou a intenção de esfregar a m ão sobre sua nova
cabeça. Já não tinha direitos nem  sobre seu próprio corpo, estava ali ao bel-prazer
dos outros. O serviço concluído, levaram -na pela m ão para outra sala, onde havia
outras m ulheres com o ela, inteiram ente despidas, o couro cabeludo igualm ente
raspado.

Tenho um  segredo m uito grande. Tão grande que às vezes m e tom a o
corpo a ponto de m e fazer repetir sem  parar: não aguento m ais não aguento
m ais não aguento m ais. O silêncio é perigoso, você m e dizia. Vivo esse perigo
diariam ente e sinto o desconforto de não conseguir falar. Sinto o segredo m e
corroendo, m e m utilando lentam ente. É um  segredo terrível, m onstruoso, não
tem  um  resquício sequer de coisa bonita. Fede m ais do que enxofre, do que
com ida podre, do que vôm ito de doente. Se eu pudesse pegá-lo nas m ãos, seria
viscoso feito gosm a, secreção. Sim , é um  segredo feio, m uito feio. E foi por
isso que decidi não lhe contar, porque não queria m ais um a pústula em  seu
corpo carunchoso. Mas foi tam bém  por m edo. Certa vez, contei esse segredo a
outra pessoa, e ela m e disse: você é coraj osa, você é forte de não contar nada
à sua m ãe. Mas a verdade é que não sou coraj osa, sou m edrosa, e por isso
nunca lhe contei. Hoj e vivo ainda os perigos desse silêncio. Carrego em  m eu
corpo paralisado cada pedacinho do segredo, cada palavra nunca pronunciada.
Mesm o agora, m ãe, eu aqui, você aí, não tenho coragem  de lhe dizer. E no
entanto preciso falar, preciso contar a verdade. Mas tenho m edo, m uito m edo,
porque conheço a pontada de cada palavra que escondo, e não quero
m achucá-la.
Você lem bra que, quando eu era pequena, toda vez que queria lhe contar um
segredo — com o a prim eira m enstruação, o prim eiro beij o —, em  vez de falar,
escrevia num  papel e o deixava em  seu quarto para que o encontrasse? Eu m orria
de m edo de falar, lem bra? Mas ao m esm o tem po queria que você soubesse, queria
lhe contar. Então, fazia isso, usava papel e caneta. Sei que j á estou bastante
crescida para essa estratégia, e sei tam bém  que nós tínham os intim idade suficiente
para eu ter olhado nos seus olhos e contado o segredo. Mas tinha m edo de ver o
m edo e a dor estam pados em  seu rosto e m e sentir culpada por isso. Com o não
encontro outra m aneira de revelar o que guardo com igo há tanto tem po, escreverei
um a carta, onde contarei o que tem  m e infligido tanta agonia, esse segredo atroz
que vem  carcom endo m eu corpo até hoj e e que m e faz repetir sem  parar: não
aguento m ais não aguento m ais não aguento m ais. Depois, procurarei um  parque,
um  j ardim , talvez um a floresta, onde vou cavar a terra e enterrar o segredo. Por
cim a da carta, colocarei um  pouco de m el para adocicar o gosto am argo que você
sentirá. Cobrirei o envelope com  terra e, em  seguida, plantarei um a roseira. Essa
roseira será a m ais linda do parque, a m ais vistosa. Assim , m ãe, quando você
encontrar a carta, quando descobrir o segredo e sentir o peito apertar, receba as
rosas que lá estarão com o um  beij o m eu, um  pequeno alento.

Eu acordava e antes de preparar o café ligava o com putador e o celular.
Checava os e-m ails e a secretária eletrônica para ver se havia algum  sinal seu.
Meus pensam entos tinham  um  único obj eto: você. Vinte e quatro horas por dia,
quando com ia, quando trabalhava, quando tom ava banho, quando dorm ia, só
pensava em  você. Depois do café da m anhã, ia direto para o escritório. Lia os
j ornais na internet, um  ou outro blog de am igos e conferia os e-m ails
novam ente. Pegava m eu celular e o repousava na escrivaninha, ao m eu lado.
Então com eçava a escrever. Escrevia um a palavra, depois outra, e depois
pegava novam ente o celular para ver se havia um a m ensagem  ou um a
cham ada não atendida (eu poderia não ouvir, ele poderia não tocar, essas
coisas acontecem ). Apagava as duas palavras da tela e escrevia outras três.
Levantava, ia passear pela sala, pela cozinha. Na m inha cabeça, um  único
pensam ento: você. Um a obsessão. Tom ava um  café, o segundo do dia. Rodava
pela casa em  busca de inspiração, m as só encontrava você, em  todos os cantos,
todas as ideias. Voltava ao escritório e retom ava a escrita. Algum as palavras
surgiam  na tela do com putador, e todas m e pareciam  um a única: você.
Apagava tudo. Checava os e-m ails: propagandas, am igos convidando para sair
ou pedindo favores, inform ações de palestras ou cursos. De você, nada, nem
um a palavra, nem  um  sinal. Esqueça, eu repetia para m im  m esm a, concentre-
se no seu trabalho, escreva. Olhava novam ente para a tela e via o form ato de
um a página em  branco. Mudava a form atação: o espaçam ento, o tipo da fonte.
Às vezes funcionava, eu m udava a letra e conseguia, com o que por m ilagre,
escrever um  parágrafo inteiro, de um a só vez. Depois m e levantava de novo,
passeava de novo pela sala, pela cozinha. O terceiro café. O escritório. Os e-
m ails, o celular: nada. De repente o telefone tocava, eu atendia afoita, quem
sabe não era você? A em presa telefônica oferecendo serviço, m eu pai
perguntando se estava tudo bem , m eu avô, eventualm ente algum  am igo. A tela
do com putador de novo, a incapacidade de escrever. Ia para o quarto e deitava
na cam a ainda desfeita. As cortinas fechadas, com o se fosse noite. Debaixo da
coberta, olhava o teto e m e perguntava se um  dia isso passaria, se um  dia eu
deixaria de pensar em  você.

Os pesadelos m e tom am  a noite toda, e entre eles há apenas o curto tem po
do susto, em  que acordo e percebo m eu corpo m olhado de suor. Depois volto a
dorm ir e tenho outro pesadelo. Estou num a casa que desconheço, m as onde
reconheço m uitas coisas: o retrato do m eu avô na parede, os copos de cristal da
m inha avó, os tapetes turcos da m inha própria casa, fotografias em  preto e
branco, a m esa de vidro, o cheiro de coisas guardadas. A casa é toda de
m adeira escura, o chão coberto por tapetes bordados à m ão. Um a escada m e
levaria ao segundo andar, onde não sei o que há. É a casa onde passei toda a
m inha vida, a casa onde nunca estive. Estou sozinha, e tenho m edo da solidão.
Passei a vida sozinha e fui obrigada a m e acostum ar com  a solidão, apesar do
m edo. Passei a vida nessa casa de onde tento em  vão sair, desde sem pre. A
porta está trancada à chave, e não a encontro. As paredes são sólidas, devem
ser feitas de pedra. A porta é pesada, grande, com o se tivesse diferentes
cam adas. Não desisto de procurar a chave, vasculho os m esm os lugares
repetidas vezes, as m esm as gavetas, os m esm os cantos. Não a encontro. Tento
gritar por socorro, m as j á não tenho voz. Não sei o que há do lado de fora, nem
m esm o sei se há algo, ou se estou num a casa abandonada em  m eio ao nada.
Queria ser Alice para sair pelo buraco da fechadura, ver o outro lado do
m undo. Queria ver o céu e as árvores que devem  estar lá fora. Queria
encontrar alguém  e andar de m ãos dadas sob a noite. Queria ver o rosto de
quem  am o e poder lhe dizer: te am o. Queria cam inhar pelo j ardim  que
im agino haver em  volta da casa e colher m orangos na m inha própria saia.
Queria poder m e afastar da casa, ver o que nunca vi e não sei com o é. Mas a
porta está fechada e não há j anelas. Meu corpo definha: tenho m inha história
entranhada nas paredes e a m orte que m e aguarda.

A dor está em  tudo, espalhada por todos os cantos do planeta, por todos os
cantos de nós. Não existe nem  m esm o um  poro da pele que não carregue dor.
Os sentim entos m udam , m as a dor persiste. Em  tudo o que experim entei, lá
estava ela, de um  j eito ou de outro. No am or, na alegria, na tristeza, no
sofrim ento, no luto, nos sonhos: nunca conheci nada disso sem  dor. Não
concordo quando você diz que sou eu que levo as coisas para o lado da dor.
Não sou eu: é a vida, m ãe, é ela que é assim .
Essa viagem  que faço, esse país estranho onde vim  parar, tudo isso dói. É
bonito, é interessante, é engraçado, m as dói. Essa herança dói. O que trago com igo
sem  escolha dói. Essa nossa conversa, m ãe, tam bém  dói. A história de am or que
m e arrancou a carne dói. A história do m eu avô, a sua história, a tortura, o exílio,
tudo dói. E, sobretudo, dói falar da dor. Dói escrever esta história: cada nova
palavra que encontro dói. Escrever, m ãe, dói im ensam ente: dói tanto quanto é
necessário.

Não nos víam os havia m ais de um  m ês. Você m e ligou e disse: preciso vê-
la. Eu não queria, m as tam bém  precisava, tam bém  queria. Quando ouvi a
cam painha, senti que tinha um  encontro m arcado. Quis fugir pela j anela, m as
não havia j eito. Estrem ecia de m edo, de pavor, de desej o, de saudades de
você. Pode entrar, eu disse, a porta está aberta. Eu estava na sala, sentada no
sofá. Quando o vi, m e levantei feito bicho am eaçado. À espreita. Você se
aproxim ou e disse: saudades. Você sabia com o m e desarm ar. Eu era ainda um
bicho am eaçado, m as j á não tinha m eios de m e defender. Meu corpo todo
trem ia por dentro, o sangue correndo acelerado. Por fora, era apenas um a
m enina desprotegida. Seu corpo estava m uito próxim o ao m eu, quase colado,
eu sentia sua respiração, seu cheiro, sua presença, m as não conseguia m e
m exer. Você está linda, ouvi. E esse foi o seu segundo golpe. O terceiro foi
abrir os botões da m inha blusa, os seios à m ostra. Nos m eus olhos havia
lágrim as que não escorriam . Naquele m om ento tudo era extrem o: o desej o a
alegria o prazer a dor. Tudo j unto, tudo m isturado, tudo um  só e enorm e, tudo
im enso, todos os sentim entos a correr nas m inhas veias, no m eu corpo
paralisado. Você tirou m inha blusa e a deixou caída no chão. Depois
desabotoou m inha calça, você a tirou e tam bém  a deixou no chão. Por fim
desceu m inha calcinha e m e deixou sem  nada. Era com o se você tocasse m eus
órgãos diretam ente, m eu sangue, m inha carne, sem  qualquer proteção. Foi
assim  quando você deslizou as m ãos nos m eus seios no m eu ventre nas m inhas
coxas entre as coxas, quando m e acariciou o rosto e m e puxou o cabelo
suavem ente, quando passou seus lábios pelo m eu corpo todo, quando m e
penetrou, quando m e apertou as pernas, quando m e m olhou e eu tam bém  o
m olhei. Foi assim  do início ao fim : você m e tocava a pele, e eu não tinha pele.

Num  quarto de três m etros quadrados, ligaram  o arcondicionado na
potência m áxim a. Queriam  transform ar o am biente num a geladeira. Ela
experim entava pela prim eira vez frio tão áspero. Sentia o rosto rachar, o corpo
nu prestes a se transform ar em  farelos. Trem ia. Os dentes um  contra o outro.
Pressentiu o fim : arrependeu-se de ter entrado nessa vida, não queria m orrer.
Logo em  seguida não se arrependeu m ais: se m orresse, seria pela causa certa.
Os braços pareciam  querer fugir do corpo, tanto ela tiritava. Teve um a ideia:
pôs-se a fazer polichinelos, a pular sem  pausa. Durante quase duas horas,
exercitou-se até conseguir dim inuir a sensação de frio. Aquecida, sentouse
para descansar. Então, o frio foi dim inuindo, dim inuindo. De repente, ela
percebeu que o ar-condicionado não estava m ais ligado. Será que a tirariam  de
lá? O coração acelerou, ninguém  podia im aginar o quanto ansiava por ver a luz
do dia. Encheu-se de esperança, veria seu m arido novam ente, seus pais, seus
am igos. Prom eteu a si m esm a que dali para a frente não colocaria m ais a vida
em  risco, nem  a sua nem  a da fam ília. O pai sem pre lhe dissera: dei-lhe do
bom  e do m elhor para isso? Para você colocar tudo a perder? Foi para isso que
você se casou? Com o fará para m e dar netos nessas condições? Mas é por eles
que faço isso, pelos filhos que um  dia terei, ela repetia. Sentia que o m om ento
chegava, que poderia rever os que lhe faziam  falta, seria levada para fora do
quarto, seria entregue de volta a casa. Mas de repente sentiu o pescoço quente,
estava suando. A testa m elada, gotas de suor com eçavam  a escorrer pelo
corpo. O calor aum entando, até se transform ar num  bafo opressor. Não, não
sairia de lá. O aquecim ento ligado na potência m áxim a, o quarto agora se
transform ava num  forno.

Se m e perguntassem , diria que nunca tinha pensado em  viaj ar em  busca do
passado. Sem pre acreditei que de nada adianta cutucar as ruínas do que não
existe m ais. Toda lem brança é um  vestígio de lágrim as, e, com  o passar do
tem po, essas lágrim as secam  no rosto de quem  j á se foi. Agora, saindo do hotel
após ter conseguido um a pista sobre m inha fam ília, sinto que as lágrim as que
escorrem  não são apenas m inhas e que, ao contrário do que im aginava, ainda
não secaram .
Pelo que m e falaram  no hotel, Esm irna é um a cidade pequena, com  alguns
atrativos turísticos, m as nada com parável a Istam bul. Talvez não haj a grandes
m onum entos para ver, m as cada pedacinho dessa cidade, cada porta, cada casa,
cada pessoa, m e deixa com  o coração apertado. Penso que, por onde passo, em
outra época passaram  m eus ancestrais. Penso que poderia ter nascido aqui e esta
poderia ter sido a m inha cidade. Cam inho pelo porto, pela Rua Ataturk Caddesi, e
fico pensando que deve ter sido j ustam ente nesse local que m eu avô pegou o vapor
para o Brasil. O im enso navio do qual ele m e falou j á esteve nesse m ar, aportado
nessas m esm as águas. A cidade devia ser m uito diferente, im agino, sem  os carros
que hoj e bloqueiam  o trânsito, sem  tantos prédios, tanta urbanização. Penso que, na
verdade, não era essa a cidade do m eu avô. Que as cidades, assim  com o nós,
tam bém  têm  suas lem branças, seus próprios vestígios de lágrim as.
O rosto de Esm irna m e parece m ais seco do que o m eu. O sol forte — não tanto
quanto em  Istam bul — ilum ina a Praça do Konak, onde fica a torre do relógio.
Deito no m uro que separa o asfalto do m ar e acabo cochilando um  pouco. Só
acordo quando um  m enino m e cutuca, querendo saber se não quero com prar um a
de suas caixas de passa. Tenho fom e, e aceito a oferta. Atrás do relógio, existe um a
cidade que ainda não conheço, m as que quase adivinho em  seus desenhos, seus
cheiros, suas cores.
Sento num  café ali m esm o, na praça, e peço um  chá de m açã. Hoj e estou sem
vontade de conhecer a cidade, prefiro ficar olhando o m ar e im aginando com o
deve ter sido sair daqui. Depois, fico refletindo se o avô do Raphael é realm ente o
prim o do m eu avô, se vou chegar a conhecêlo, a conversar com  ele. É essa a
cidade que procuro, não a cidade dos tapetes e ouros, não a cidade do tabaco e da
boa com ida, m as a cidade da m inha fam ília.

Me avise antes de gozar? Estávam os os dois com  cheiro de banho tom ado,
m eu cabelo ainda m olhado, o seu quase seco. Seu corpo por cim a do m eu, na
posição m ais óbvia, porém  insubstituível. As toalhas repousavam  ao nosso lado,
deixando úm ido o lençol. Era um  sábado de m anhã, e o banho tinha sido um a
tentativa de nos curarm os da ressaca de um a sexta-feira noite adentro. Já estou
quase. Segure um  pouco, pedi, aproxim ando m eus lábios do seu ouvido. Você
tirou lentam ente seu sexo do m eu e, com eçando pelos lábios, m e beij ou o
corpo inteiro. Na véspera, tínham os com em orado dois anos de relação (quem
diria que ficaríam os tanto tem po j untos?, a pérola que você m e disse durante o
j antar). Risoto de funghi regado a cham panhe. De sobrem esa, petit gâteau de
goiabada com  sorvete de queij o. Coloque de novo, eu disse. Venha por cim a,
você m e pediu. Sorri, você sabia o quanto eu gostava de tê-lo por debaixo de
m im , devorando-o do m eu j eito, no m eu ritm o. Encaixei nossos sexos
lentam ente, feito o espreguiçar de m anhã, na tentativa de esticar o tem po
quando querem os que ele não passe. Minhas m ãos se arrastavam  pelo seu peito
quase liso e quase branco, o verm elho do verão j á gasto. Venha, você disse,
quero gozar com  você. Então espere, respondi com  a voz de quem  anuncia que
não será preciso esperar m uito, só m ais um  pouquinho. Depois do restaurante,
tínham os saído para dançar, o que não fazíam os havia algum  tem po. Boate de
verdade: m úsica eletrônica, pista repleta de m ulheres com  suas m inissaias ou
seus j eans j ustos, topes m ostrando o piercing no um bigo, hom ens com  os
prim eiros botões da cam isa abertos, gel no cabelo, caipirinhas e cervej as
derram adas no chão, nas roupas. Nós dois lá com o se fôssem os assíduos,
dançando a noite inteira, esfregando nossos corpos nos nossos e em  outros, nos
beij ando com  a língua à m ostra, expondo o tesão em  público. Estou quase, eu
disse, e você tirou um a das m ãos do quadril para colocá-la no m eu sexo, que
antes roçava a sua pele. Mordi os lábios e fechei os olhos com  força. Pensei
nos nossos corpos sua dos dançando, no corpo grande e m usculoso do hom em
que sem  pudor encostou na m inha bunda e m e apertou a cintura, nos seios
indiscretos que você apalpou disfarçadam ente. Vou gozar, você disse, fazendo
vir o m eu gozo, o seu gozo, nossos espasm os j untos, nossos gem idos. Depois
não falam os m ais nada, nem  pensam os em  nada, nem  quisem os nada, apenas
deixam os o tem po passar, saboreando o térm ino de um a noite inteira de
desej os acum ulados.

Respire: rápido, antes que m ergulhem  novam ente a sua cabeça na bacia
funda. Aguente firm e, você pode aguentar. Eram  três hom ens, três carrascos à
sua volta. Ela j á nem  era m ulher, era apenas um  corpo desm ilinguido, quase
sem  carne, a pele frouxa se esforçando para segurar os ossos. Cada vez que
afundavam  a sua cabeça, as pernas se desequilibravam , bam bas. Então, para
que ela não caísse, um  dos carrascos apertava a cabeça com  m ais força, feito
para com pensar a falta de apoio dos pés. Ela ouvia vozes distorcidas pela água
e, m esm o que fosse capaz de fazer algum  esforço, não entenderia o que
falavam . Respire: rápido, antes que m ergulhem  novam ente a sua cabeça na
bacia funda. Aguente firm e, você pode aguentar. Não pensava em  nada
preciso, as im agens lhe surgiam  difusas e sem  explicação. Já tinha ouvido falar
que antes de m orrer a pessoa vê a vida inteira com o um  film e, plano depois de
plano. Será que era isso? Que estava m orrendo? Que as im agens que via eram
as derradeiras? Ela não reagia (não tinha com o) e apenas se deixava levar.
Quando lhe erguiam  a cabeça, não tinha tem po (nem  a intenção) de falar,
pedir que parassem  porque iria contar o que eles queriam  ouvir. Respire:
rápido, antes que m ergulhem  novam ente a sua cabeça na bacia funda.
Aguente firm e, você pode aguentar. Repetiram  o m esm o gesto dezenas de
vezes seguidas: cabeça na água, cabeça erguida. Até o m om ento em  que
perceberam  seus olhos fechados, os m em bros sem  reação algum a, e então
pararam . Deixaram  seu corpo abandonado no chão frio para que um
funcionário o tirasse de lá, arrastado, e o levasse à cela, onde ficaria à espera
de um  novo cham ado.

Tenho m edo de ser feliz quero ser feliz tenho m edo de ser feliz quero ser
feliz tenho m edo.

Estam os no carro e o cam inho é longo. Raphael m e pergunta se gostei do
j antar e m e pede desculpas pelo inconveniente. Educadam ente, digo que foi
ótim o, não houve problem a algum . Enquanto ele dirige, fico observando seus
gestos, o contorno de seu rosto, sua m aneira de falar. Penso que poderia ser
ele, que poderia estar no seu lugar. Que se tivesse nascido aqui certam ente
seria um a verdadeira j udia, falaria a língua deles, casaria com  um  j udeu. Que
se tivesse nascido aqui não teria sido colocada contra a parede: m as você não
fala a nossa língua? Todos m e olhando com  ar de recrim inação, com o se
tivesse com etido um a falta grave, se não m ortal. Eu, acuada, ouvindo-os,
inconform ados, falar entre si na língua que não falo. Raphael, sem  j eito, à
m inha frente, m e olhando com  cum plicidade, com o quem  pensa que poderia
ser eu, que talvez pudesse ter nascido em  outro país e não falar a língua dos
avós. Eu olhava nos seus olhos e m e apoiava neles, m e esforçando para ficar
alheia ao que os outros falavam , em bora entendesse um a palavra ou outra. Em
algum  m om ento quis m e j ustificar: é um a questão de sobrevivência. Meu avô
precisou esquecer o passado e por isso nunca falou ladino com  m inha m ãe.
Um  verdadeiro j udeu não esquece o passado, retrucou, firm e, o Raphael avô.
Talvez m eu avô não fosse um  verdadeiro j udeu, pensei, sem  dizer nada.
Você sabe com o são as pessoas m ais velhas, m e diz Raphael assim  que o carro
para num  sinal verm elho. Não fazem  por m al, m as por m edo. É, respondo, deve
ser isso m esm o. E fico pensando se de fato era m edo o que seu avô sentia quando
afirm ou que só falariam  ladino durante o j antar, que qualquer outra língua estava
proibida. Ninguém  discordou, nem  o Raphael, nem  a Judith, esposa do Raphael avô,
nem  a Marta, viúva do Salom on. Tive vontade de sair correndo, gritar, em
português, que não tinha nada para fazer lá. Mas em  vez disso acatei a decisão,
sorri e disse, em  portunhol, que iria tentar. Apesar desse incidente inicial, aos
poucos fui percebendo afinidades entre nós. Quando disse que em  casa fazíam os
aquela m esm a com ida, o Raphael avô se soltou um  pouco, sorriu pela prim eira vez,
feito pensasse que o passado não está só na língua.
Já estam os em  frente ao hotel quando ele m e pergunta se quero ir a Bornava no
dia seguinte para conhecer o bairro onde m oravam  m eus avós. A casa não está
m ais lá, foi destruída há cerca de quinze anos, m as ainda há outras m uito parecidas,
construídas na m esm a época, no m esm o estilo. Tiro a chave da bolsa, seguro-a,
observo-a e penso que se j á não há m ais casa, não tenho m otivo para continuar a
viagem . Ele entende sem  que eu diga um a palavra sequer. Fico pensando se
voltarem os a nos ver e talvez ele tam bém  estej a pensando nisso. Seu nariz é fino
com o o m eu, m as som os m uito diferentes. Jam ais diria que som os prim os. Ele m e
agradece com  um  dos sorrisos m ais bonitos que j á vi, e nesse m om ento tenho
vontade de lhe dar um  beij o. Vontade de lhe dar vários beij os, de abraçá-lo, de
convidá-lo para subir, de passar a noite toda com  ele. Mas nos despedim os com
singelos beij os no rosto, dizendo que esperam os nos encontrar em  breve. Fecho a
porta do carro e, enquanto cam inho até o quarto do hotel, penso que j á não tenho o
que fazer neste país, que nem  m esm o sei se um  dia tivera.

Com  raiva, com  ódio, j ogo a m áquina de escrever no chão e rasgo todas as
folhas escritas. E tam bém  as brancas, para não correr o risco de continuar
escrevendo. Percebo o quão inútil é escrever essa viagem  de volta às origens. Não
quero escrever nem  m ais um a vírgula, quero destruir o que foi escrito. Essa
viagem  não tem  por que existir: nem  de verdade nem  no papel.

Havia finais de sem ana em  que passávam os o tem po todo em  casa, apenas
nos deliciando um  com  o outro. Você m e tocava com o hom em  algum . Você
m e fazia gozar com o hom em  algum . Você m e fazia acreditar que era isso o
am or. Eu acreditava que o am ava. Acreditava que você m e am ava. Nesses
dias, sim plesm ente esquecia que tinha o corpo aberto por feridas, que você
havia m e rasgado a pele. Nesses dias, fingia ter o corpo inteiro e o entregava a
você. Você sabia tocá-lo sem  m e m achucar, sem  pôr a m ão nas m inhas
feridas. Você tam bém  esquecia, tam bém  fingia. Ainda hoj e não sei se havia
am or nessa loucura, m as procuro m e dizer que não, isso não é am or, procuro
acreditar que o am or é outra coisa, que ele não devasta o corpo dessa m aneira,
não arranca a pele nem  nos deixa tão vulneráveis, a carne à m ostra. Procuro
acreditar nisso, m as tenho m edo de estar enganada. Na verdade, m orro de
m edo, m edo de que o am or sej a de fato essa dor a nos invadir, a nos devorar o
corpo, a alm a.

Todos repousaram  o garfo no prato e olharam  na m inha direção quando
perguntei: a casa do m eu avô ainda existe? Raphael titubeou, depois ergueu a
cabeça e, sem  pestanej ar, respondeu: não. Quando sua bisavó se m udou para o
Brasil, deixou a casa vazia. Ela ficou abandonada durante m uitos anos e depois
acabou sendo destruída. Você queria conhecê-la?, ele perguntou. Contei-lhe
então que m eu avô tinha m e dado a chave para tentar abrir a porta da sua
antiga casa. Ele m e olhou com  ar desconfiado: seu avô não sabia que a casa
tinha sido destruída? Pega de surpresa, gaguej ei e, vacilando, disse: acho que
não. Mas saí de lá com  a pulga atrás da orelha.

Não se levantou para abrir a porta, nem  m esm o se abalou com  o sonido.
Fazia tem po que ele desistira de conferir quem  tocava a cam painha, sem pre as
m esm as pessoas querendo consolá-lo. Quando se convenceu de que nada
poderia, abandonou-se ao desalento. Só ia à rua para com prar o necessário à
sobrevivência. Sentia-se dem asiadam ente culpado para conseguir retom ar a
vida. Nunca deveria tê-la deixado sozinha. Por que não a tinha acom panhado?
Por que não aceitara seus tantos pedidos de exílio? O asilo na Em baixada da
Costa Rica? A escolha pela luta era sua, não dela. Sentia-se culpado.
A cam painha continuava tocando, m as dessa vez havia algo de diferente: o
intervalo entre um  toque e outro era longo dem ais, sem  a insistência frenética
habitual, m as ao m esm o tem po nunca tinham  insistido tanto. O sonido lhe parecia
um  lam ento, um  pedido derradeiro de alguém  sem  forças. Só então, depois de um a
ou duas horas, pressentiu que… Sim , era ela do outro lado da porta, vestida com o
no dia em  que havia partido, o m esm o j eans, a m esm a cam iseta cinza, a m esm a
bolsa de couro atravessada no corpo. Mas e o resto? O que tinham  feito com  seus
cabelos? Com  seus olhos? Seu sorriso? Era ela, agachada na entrada de casa, a
cabeça nua entre as pernas. Ela. Ele ainda de pé. Precisou de algum  esforço para
levá-la ao sofá em  seus braços igualm ente fracos. Deitou-a com  cuidado e se
estirou ao seu lado. Não conseguia parar de chorar. E ela: m uda, seca. Não se sabe
quanto tem po se passou enquanto eles ficaram  abraçados no sofá, ele em  prantos,
ela inerte, sem  expressão. Talvez um  ou dois dias, talvez m eses, anos, talvez para
sem pre. Sem  trocar um a palavra, abraçados, vivendo a m esm a dor, dores tão
diferentes.

Estou grávida, eu disse. Então tire, você afirm ou, sem  pudor algum . Tirar?
Não tiro. Com o assim  não tira? Você acha que terei um  filho agora? Acho, não,
respondi, você vai. Ah, m as não vou m esm o, você m e assegurou. Ah, vai, sim ,
retruquei, convencida. Verem os, você disse. E não tocam os m ais no assunto,
cada um  seguro de sua certeza.
Um a sem ana depois entendi a contradição de nossos desej os. Até hoj e não sei
se foi você quem  fez isso ou se foi o m eu m edo. Tom ávam os café da m anhã
j untos, com o de costum e, quando senti um a pontada aguda no ventre, feito cólica
m enstrual, porém  m uito m ais intensa. Com  as m ãos na barriga, m e contorci e tive
raiva. Você se m ostrou preocupado, veio próxim o a m im  e m e abraçou: o que
você tem ? Não respondi, apenas urrava de dor e o afastei para longe. No m eu
peito, só havia espaço para o ódio e a certeza de que era você. Fiquei com  o corpo
vergado, a dor a m e tom ar o ventre, até o m om ento em  que vi, com  a cabeça entre
as pernas, um  j orro de sangue saindo de m im , um a poça verm elha m e m anchando
a pele, escorrendo pela cadeira. Sem  levantar o rosto, chorei em  desespero a m orte
do filho que eu j á am ava. Nem  por um  segundo nas horas que se passaram  — nem
m esm o quando j á estava no hospital, refeita, certa de não correr perigo algum  —
ergui a cabeça, nem  por um  segundo olhei nos seus olhos: eu tinha m edo de
encontrar a resposta que eu refutava, de descobrir algum a confissão inóspita. Sim ,
eu tinha m edo de que você não soubesse m entir bem  o suficiente para m e esconder
a verdade.

Entre a sobrem esa e o chá, Raphael m e perguntou: m as por que seu avô
não veio, ele m esm o, tentar abrir a porta?

O m esm o sonho: repete-se. Estou dorm indo, você chega e se senta na
cam a, ao m eu lado. Afaga m eu cabelo em  silêncio. Eu acordo e a vej o. Antes
que tenha tem po de m e sobressaltar, você se precipita e diz: voltei. Você diz
certeira em  m eus olhos: tive que viaj ar, m as agora estou de volta. Aperto a sua
m ão com  força, para que dessa vez não m ais m e escape, enrugo a testa e
pergunto: quer dizer que a escolha foi sua?

Estou novam ente sozinha, passeando pela cidade. Penso em  tudo o que fiz
até agora. O encontro com  a fam ília ainda atravessa m inhas ideias, num a
m istura de decepção, contentam ento e graça. Não posso dizer que tenha ficado
realm ente frustrada com  a ausência da casa, a falta de diálogo com  os m eus
parentes. Nunca im aginei que fosse ser diferente, nunca pensei que haveria
um a casa à m inha espera, aguardando apenas o encaixe perfeito da chave na
fechadura. Quanto ao encontro, tam pouco esperava um a história em ocionante,
dessas que enchem  nossos olhos de lágrim as.
Cam inho pelas ruas de Esm irna pensando que j á realizei a prim eira parte da
viagem . Não tenho m ais o que fazer na Turquia e quero ainda ir a Portugal, onde
não há parentes nem  casa para procurar. De qualquer m aneira, é o país de onde
veio a m inha fam ília e tam bém  onde nasci. Eu tinha nove m eses quando saí de lá,
nos braços da m inha m ãe. Certam ente, o tem po foi curto, não deu para form ar
lem branças, m as ainda assim  acredito que possa encontrar em  Lisboa alguns
sentidos para o m eu corpo, a m inha história.

Eles tinham  ficado quase um  m ês no consulado sem  contato com  o m undo,
sem  poder sair, telefonar, receber visitas, nada. Era véspera da partida para a
Costa Rica. O vice-cônsul veio bater à porta do quarto onde dorm iam : vocês
sabem , visitas são proibidas, m as ela insistiu, assum iu o risco e veio visitá-los,
disse que não perm itiria que a filha partisse sem  antes lhe dizer adeus. Vou
conceder a visita porque vocês deixam  o país am anhã, e não sabem os até
quando, m as sej am  breves, quinze m inutos serão o suficiente. Ela olhou para o
m arido, os olhos úm idos: m inha m ãe está aqui, m eu deus, ela é louca. Sentia-se
orgulhosa pela coragem  da m ãe. Colocou um  lenço por cim a dos om bros e foi
ao encontro dela. Quinze m inutos, não m ais do que isso, repetiu o vice-cônsul.
Não se viam  havia m ais de um  ano. Falavam -se às vezes por telefone, quando
ela conseguia ligar de um  orelhão. Mas sem pre às pressas, um a conversa estranha,
quase codificada, sem  nom es nem  locais, apenas para dizer: está tudo bem , não se
preocupe, vai dar tudo certo. Do outro lado, a voz da m ãe, chorosa, insegura, a
ponto de desabar: m inha filha, não fique aqui, vá em bora do país.
A m ãe estava de pé, os om bros curvos com o um  gancho. A sala era grande, e a
filha teve de correr para alcançá-la sem  dem ora. A m ãe era m enor do que a filha
e por isso ficou encaixada em  seus braços feito criança. Choravam , as duas,
soluçavam . Não diziam  nada, apenas se abraçavam  e choravam . Qualquer coisa
que dissessem , qualquer palavra pronunciada seria m uito m enos do que tudo o que
tinham  a dizer um a para a outra. A saudade que sentiam , o aperto no coração, a
vida clandestina de um a, a vida pacata da outra, os planos, os proj etos, a casa, a
falta de casa. Você é louca, m am ãe, você sabe os riscos que corre ao vir aqui? Ela
não respondeu, sabia de tudo, é lógico, m as com o m edir os riscos? Com o deixar de
ver a filha? No dia em  que fosse m ãe certam ente a entenderia. O papai sabe? Não,
ele não teria m e deixado vir. Ela balançou a cabeça, feito reprim isse um a criança
levada. Elas se tocavam , m isturavam  as m ãos, confundiam  os rostos, os carinhos.
Quanta saudade, m inha filha, quanta saudade, m am ãe.
Sentaram -se no sofá. A m ãe estava ficando velhinha, as pernas roxas de
varizes, rechonchudas, j á não se sustentava m uito tem po em  pé. Ficava cansada à
toa, eram  m uitos os problem as de saúde, os m édicos, os rem édios, com prim idos a
cada refeição. Com o você está, m inha filha? Estou bem . Partim os am anhã, não
terem os m ais que nos esconder, estou aliviada. Você vem  nos visitar assim  que
puder, não vem ? Claro, estarem os lá, eu e seu pai. Telefone, escreva, m ande
notícias. Pegarem os o prim eiro avião. Ela sorriu, respirou com  vontade,
distendendo o corpo. Deixou ali naquela sala, no sofá, os m edos, as angústias e a
dor da separação. Em bora fossem  se separar novam ente, dessa vez carregava no
peito a certeza de que reveria a m ãe. E a cada vez que lhe vinha um a certeza, era
um  m edo que se ia. O vice-cônsul chegou à porta da sala: o tem po acabou. Elas se
olharam  enternecidas, não queriam  se despedir j á, quinze m inutos não eram  nada
depois de m ais de um  ano de distância. Ela se levantou, aproxim ou-se do senhor
austero que a aguardava hirto ao lado da porta, e disse: que diferença faz se são
quinze m inutos ou um a hora? Ela j á está aqui, nada m ais pode acontecer. Faz m uito

tem po que não nos vem os, e ainda não sabem os quanto tem po ficarem os sem  nos
ver. Poderia argum entar que som os m ãe e filha, que tem os m uito a falar, m as
apenas pergunto: que diferença faz? Ele ficou sério, m udo durante alguns segundos,
refletindo sobre o que acabara de ouvir. Está bem , vocês ficam  m ais um  tem po,
m as daqui a quarenta e cinco m inutos retornarei. E aí pedirei à sua m ãe que se
retire.
Elas se abraçaram  novam ente e então desataram  a falar, contaram  tudo o que
não tinham  contado nos quinze m inutos passados. A m ãe contava com o estavam  os
outros filhos, os netos que tinham  nascido, com o estavam  o pai e a loj a do pai,
contava sobre as obras que tiveram  de fazer na casa devido a um a infiltração,
contava do seu cansaço, m as tam bém  dos seus passeios na orla, de com o gostava
de ver o pôr do sol no Leblon, de passear pela cidade quando o seu corpo perm itia.
Ela não tinha grandes novidades, falava sobretudo da tensão, do m edo, dos
esconderij os, m as tam bém  da esperança de que sua situação m elhorasse de agora
em  diante. A m ãe sabia que estivera presa, m as não sabia (não queria saber?) o
que havia acontecido lá dentro: era dem ais para o seu coração de m ãe, para o seu
corpo frágil. Um  dia a filha lhe contaria tudo, porque ela acha que as dores têm  de
ser ditas, que o silêncio é m uito perigoso. Ela lhe contaria tudo o que se passou
quando esteve presa, m as não hoj e, não nesse dia de encontro e despedida, não
depois de tanto tem po sem  se verem . Não queria afligir a m ãe
desnecessariam ente. Aguardaria, então, o m om ento certo, quando ela estivesse no
exílio, não m ais na Costa Rica, m as em  Portugal. Quando a m ãe fosse visitá-la e
elas tivessem  tem po, m uito tem po, o tem po delas, não o do relógio do vice-cônsul,
aquele senhor austero que, pontualm ente, voltava à porta para avisar que dessa vez
não poderia m ais estender os m inutos, que j á tinha sido flexível dem ais, que havia
chegado o m om ento, elas deveriam  se separar, dizer adeus, m as que não se preo
cupassem , não tardaria para que pudessem  se reencontrar. Ele falou isso tudo e em
seguida abaixou a cabeça, sabendo que então elas davam  o abraço derradeiro, que
se apertavam  com  força, que se tocavam  com  am or e que choravam  de saudades
antecipadas, com o fazem  m ãe e filha quando precisam  dizer adeus.

Entre nós não havia am or. Havia m edo.

Quando você se foi era com o se eu soubesse desde sem pre. Sim , você pode
dizer que todos sabem , todos sabem os: a m orte é nossa única certeza. Mas há
algo que está além  dessa certeza, um a certeza ainda m aior, m aior do que a
certeza da m orte. E era dela que vinha m eu m edo. Quando você m orreu, foi
um a confirm ação, com o se a m orte tivesse passado o tem po todo nos
espreitando, nos acom panhando em  cada passo. Quando ela chegou, eu sabia
que tinha de ser assim , sem pre soube, desde o princípio. Mas essa certeza
nunca m e trouxe paz, ao contrário, trouxe-m e o m edo m ais profundo, a revolta
m ais gritante, um  desconforto pungente.

Quero gritar, m as tenho a boca am ordaçada. Meu corpo esparram ado na
cam a deste quarto podre e solitário é um  corpo em  silêncio.

Duvido que exista alguém  que nunca tenha sentido vontade de m atar.
Talvez poucos tenham  sentido tão im ensa vontade quanto eu, é verdade, m as
im agino que ao m enos um a vez na vida todos sintam  o desej o m acabro de ver
no olho alheio o m edo da m orte. Cheguei a arquitetar planos nas m inhas noites
de insônia. Não queria apenas que você m orresse, queria que fosse eu a m atá-
lo. Queria ver seus olhos de desespero ao perceber que perderia a vida nas
m inhas m ãos. Com o num  film e, num  livro. Com o num  desses j ornais baratos
que podem os com prar todas as m anhãs e que trazem  na capa a notícia de um
assassinato descabido, um  filho que m atou a m ãe ou um  m arido que m atou a
m ulher por tê-la encontrado na cam a com  outro. Queria ser eu nos noticiários
do dia seguinte: j ovem  m ata nam orado durante briga do casal. Tudo planej ado,
a briga, o local, a arm a, o m otivo do crim e (legítim a defesa: ele m e m atou
prim eiro). Às vezes observava seu corpo dorm indo, o ronco atrapalhando o
m eu sono, o ar saindo em  exagero pela boca, e ficava im aginando com o seria
perfurar o estôm ago de alguém , ver o sangue j orrando, a vida lhe escapando,
correndo solta por entre m eus dedos. Às vezes passavam -se horas e eu ainda a
olhá-lo. Às vezes você acordava e m e perguntava: o que foi? Nada, só não
consigo dorm ir. Você então m e puxava para perto de si, colava o seu corpo ao
m eu, de lado, as pernas se m isturando um as às outras, e m e beij ava o pescoço.
Sussurrava-m e palavras doces que eu m al com preendia e voltava a dorm ir.
Eu, encolhida em  seus braços, continuava a arquitetar m eus planos, à espera da
prim eira luz da m anhã.

Vim  a Portugal descobrir m inhas origens e o que descobri foi outra coisa:
não tenhas m edo da palavra am or. Ele m e disse isso com  os olhos verdes quase
a arder os m eus, disse-m e a palavra am or m esm o sabendo que não m e am ava
(não ainda), e o am or ficou ecoando no quarto, ressoando, ressoando. Quis
segurar a frase, prender os sons entre os braços. Não sei se algum  dia tive
m edo do am or, m as a palavra assim , solta no quarto, nunca ouvira nada tão
doce. Não tenhas m edo da palavra am or.
Não, não tenho m edo.

Com o é cruel (e bonito) que a vida continue depois de você.

Era sábado à noite, e a m úsica estava no volum e m áxim o. Eu dançava só
de calcinha enquanto Linda Scott cantava I’ve Told Every  Little Star. Um a
cervej a na m ão e várias latinhas vazias em  cim a da m esa. Dançar é com o
fazer sexo, eu disse antes de colocar a m úsica. Você fingiu não m e ouvir, não
gostava de dançar. Deixou-m e sozinha na sala quando aum entei o som . Não
faz m al, pensei, adoro dançar sozinha. Poucas coisas são m elhores para um
sábado à noite do que cervej a e m úsica e solidão. Vá fazer outra coisa e m e
deixe a sós, não m e incom odo. Eu dançava e não pensava nisso, não pensava
em  nada. Sorria e sorria e m e m exia e sorria. Conduzia o corpo ora para um
lado, ora para o outro, a m ão encostando de leve o quadril.
Você não dem orou para voltar, você não aguentava a sua solidão quando eu
estava bem  com  a m inha. Apareceu no corredor com  o sorriso sarcástico de
sem pre, um a cervej a e um  cigarro num a das m ãos e um  CD na outra. Desligou o
som  e disse: vou botar aquela m úsica que você adora. Concordei, sorrindo,
gostando da ideia, sem  saber ainda que m úsica seria. Você veio para perto de m im
e com eçou a m e acariciar o pescoço, afastando m eu cabelo com prido, e m e
beij ou e encostou a cervej a gelada nos m eus seios e derram ou um  pouco de
cervej a nos m eus seios e m e chupou o seio e perguntou: quer dizer que dançar é
com o fazer sexo? Eu ri, riso de bêbada, riso alegre, riso feliz. Hein, quer dizer que
dançar é com o fazer sexo? Ri m ais e m ais. Você j ogou a cervej a toda em  cim a de
m im , m e deu um  banho de cervej a gelada e se afastou. Então, pude ouvir a
m úsica, a nossa m úsica. My  baby  shot m e down. Você tinha o olhar que m e
aterrorizava. Bang bang. Você m irou em  m im  e atirou, você nem  precisava de
arm a, você atirava e atirava e atirava e tinha as m ãos livres. Você m e acertou e j á
não pude dançar, j á não pude m e m exer. Você se foi, m e deixou novam ente
sozinha e eu nem  soube por quê. Estirada no chão até o am anhecer, chorei a m inha
própria m orte.

Ele não sabia de nada, não sabia o que eu estava fazendo em  Lisboa, por
que estava lá. Quando nos conhecem os, eu ainda carregava a m ala, e ele sabia
apenas que eu chegava. E pensava que isso era tudo. Que não havia nada antes
nem  depois disso. Eu estava na Brasileira, tinha acabado de tom ar um  café e
resolvi pedir a quem  passava para tirar um a fotografia m inha ao lado do
Fernando Pessoa. Ele cam inhava sozinho, sem  nada nas m ãos, então pedi: por
favor, será que poderia tirar um a foto m inha? Ele sorriu, da m esm a m aneira
que eu tam bém  sorriria se m e pedissem  para tirar um a fotografia em  frente ao
Pão de Açúcar. Não disse nada, apenas tirou o retrato. Depois quis conferir:
com o faço para ver se está bem ? Peguei a m áquina de volta: é assim , basta
girar esse botão. O que pensas? Hum , refleti: poderia tirar outra? Ele riu
novam ente e concordou. Convidei-o para tom ar algo, se não tivesse nada a
fazer, se tivesse tem po. Sim , m as que tal se m udássem os de am biente? Dessa
vez, fui eu quem  riu: sem  problem as. Mas você se incom odaria se não
fôssem os m uito longe? É que estou carregando um a m ala m eio pesada.
Continuam os o j ogo de sorrisos, um  a rir do que o outro falava, com o se
fôssem os duas figuras exóticas, m as tam bém  com o se nos entendêssem os
perfeitam ente e um  soubesse o que o outro queria.
O bar era um  pouco distante, m as ao m enos não precisei carregar a bagagem :
carrego para ti, ele ofereceu gentilm ente. O am biente era certam ente m enos
turístico e, talvez por isso, m ais sim pático. Não tínham os nada a falar um  ao outro:
poderíam os falar tudo, qualquer coisa. Tínham os as nossas vidas inteiras para
serem  contadas, m as era com o se nada disso im portasse m uito, com o se tudo ou
nada fosse a m esm a coisa. Então, não falam os. Pedim os duas im periais e
sim plesm ente bebem os. E nos olham os. E o silêncio entre nós foi aum entando,
durando m ais e m ais, até se transform ar num  silêncio enorm e, quase absoluto,
interrom pido apenas pelo eventual barulho dos goles de cervej a ou dos nossos olhos
a pestanej ar. Quando o silêncio cresce sem  freios, quando ele é assim  m uito
grande, torna-se ainda m ais perigoso. E foi isso o que aconteceu entre nós: o
silêncio foi aum entando, aum entando, e o perigo tam bém . O silêncio j á estava lá
havia tanto tem po que se falássem os perderíam os tudo o que j á tínham os
construído, com o se qualquer palavra pudesse nos transform ar em  dois seres feios
e sem  graça. Im plicitam ente, estabelecem os o pacto de não destruir o silêncio,
apesar dos perigos, pelos perigos. Não ouvim os as pessoas que gritavam  ao nosso
lado, os hom ens que entravam  e saíam , as m ulheres que riam  exageradam ente, o
rapaz que brigava com  o garçom  porque o sanduíche não estava com o ele queria.
Não ouvim os o garçom  nos perguntando se estávam os satisfeitos, nem  o copo
caindo da bandej a e se quebrando no chão. Ouvíam os apenas o nosso silêncio e o
sangue a circular com  força pelas veias, a esquentar o corpo, a nos dar desej o, um
enorm e desej o de correr perigos. Era com o se o m undo ao nosso redor não fosse o
m undo, com o se o m undo fosse apenas aquilo que existia entre nós. Não
conhecíam os nada um  do outro, senão o silêncio e o olhar, e por isso não houve
pudor, não houve vergonha, não houve m edo: houve apenas desej o, silêncio e

perigo quando dem os o nosso prim eiro beij o.

A anistia veio em  agosto de 79. Um  m ês depois, ela desem barcou no
Galeão j unto com  um a dezena de exilados políticos. Flashes da m aior parte dos
j ornais e revistas cariocas estavam  lá para cobrir a euforia dos que chegavam
e dos que recebiam . O bebê que ela carregava não se incom odou com  a
m ultidão, nem  m esm o se assustou com  a quantidade de pessoas que o
pegavam  no colo. Era com o se ele reconhecesse a casa que ainda não
conhecia. Quando saiu a aprovação da Lei da Anistia, ela ponderou: não
precisam os voltar agora, estam os bem  aqui. A revista tem  gostado do m eu
trabalho com o correspondente, você tem  feito contatos com  o partido no
m undo inteiro. E a nossa filha ainda é m uito pequena, é cedo para viaj ar de
avião, m udar de am biente. Ele bateu pé: nosso lugar é lá. E é lá que quero
fazer a revolução.
Ela acabou se convencendo de que era m esm o o m om ento de voltar, fazia
tem po que não via a fam ília e os am igos, que não com ia pão de queij o nem  bebia
um a caipirinha. Não foi fácil arrum ar a m ala, afinal, haviam  sido cinco anos de
exílio. Tiveram  de se desfazer de m uita coisa, quadros, sofás, fogão, geladeira.
Outras tantas — tapetes, livros, cerâm icas — m andaram  por navio. As roupas
vieram  no avião. Ela veio prim eiro com  a filha, enquanto ele ficaria ainda dois
m eses resolvendo a últim a papelada e cum prindo algum as obrigações do partido.
Antes de ir em bora, ela reuniu os am igos m ais próxim os e disse que, se estava feliz
pela certeza de reencontrar quem  não via fazia m uito, estava triste por deixá-los.
Havia um a am iga que lhe era especialm ente querida (tinham  se conhecido na
Albânia, onde, num  j antar do partido, se entreolharam  e seguraram  o riso ao ver
um a m osca m ergulhando na sopa do líder, que pronunciava um  discurso pom poso
e arrastado) e de quem , estava certa, sentiria im ensa falta. Suas filhas tinham  quase
a m esm a idade, e doía pensar que não cresceriam  lado a lado, com o tinha
im aginado tantas vezes.
Ao desem barcar, ela sentiu um  frio subindo a espinha, o coração acelerando.
Quem  estaria lá para recebê-la? Enquanto esperava a bagagem , o tem po lhe
parecia interm inável, em bora ela estivesse de papo com  um  conhecido que
encontrara. Queria sair logo, chegar de verdade. Quando percebeu que era possível
ver quem  estava do outro lado, aproxim ou-se do vidro que im pedia a passagem .
Com  os olhos de azeitona afoitos, procurou algum  conhecido. Até que levou um
susto: arrastando de m ansinho a m ão pelo vidro, seu pai chegou até ela. Quanto
tem po fazia que não se viam ! Ela diria que ele estava igual — igualzinho —, não
fossem  algum as rugas a m ais e a coluna m ais curva do que na últim a vez em  que
se encontraram . Os olhos dos dois estavam  m olhados, em bora as lágrim as não caís
sem . Im itando seu gesto, ela encostou a m ão no vidro feito fosse segurar a dele.
Trocaram  carinhos, e era com o se o vidro não existisse, até podiam  sentir o calor
da m ão um  do outro. De repente, com o se ainda não tivesse se dado conta, ele
apontou para a neta, era a prim eira vez que a via. Ela ficou olhando para os dois,
seu pai e sua filha, pensando em  coisas óbvias dem ais, sim ples dem ais, coisas que
lhe davam  a certeza de que voltar tinha sido a m elhor escolha.

Sentiu um a m ão lhe tocar o om bro, era o conhecido com  quem  conversara
havia pouco se despedindo: vá dar um a olhada, talvez suas m alas j á tenham
chegado. Ela se desconcertou, sentia-se zonza. Ai, que bom , suspirou, vou lá ver
então. E desej aram  boa sorte um  ao outro, felicidades. Enquanto tirava a bagagem
da esteira, não pensava em  outra coisa, queria sair de lá correndo e abraçar o pai,
sem  se incom odar com  o tum ulto que a aguardava, os flashes, os am igos querendo
saber com o ela estava, a filha passando de colo em  colo. Queria apenas sentir que
havia chegado.

Você não vai acreditar onde estive hoj e. [Onde?] Passeando pela Praça do
Rossio, de repente vi, em  letras encarnadas e grandes, o nom e Pastelaria Suíça.
[Não pode ser! Você foi à Pastelaria Suíça?] Pois é, você falava tanto dos
doces de ovos desse lugar, que o nom e ficou gravado na m inha m em ória. Não
acreditei quando, sem  querer, m e deparei com  a grande esplanada, cheia de
m esinhas e garçons passando com  bandej as fartas de guloseim as. [Eu adorava
sentar num a dessas m esas e tom ar um  café bem  forte com  algum  doce. Cada
dia escolhia um  diferente.] É aqui, pensei, é esse o lugar do qual a m inha m ãe
sem pre falava. [E com o poderia não falar? Lem bro com o se fosse hoj e: a sua
avó tinha m orrido em  outubro de 77. Em  j unho de 78, num a tarde ensolarada
de prim avera, luz radiante, a Praça do Rossio repleta de pessoas, nervosam ente
entrei na Farm ácia Estácio para pegar o resultado do teste de gravidez.
“Positivo”, indicava. “Está grávida”, afirm ava o papelzinho com  todas as
letras. Pulei, ri sozinha, não cabia em  m im . Nunca o Rossio exibiu-se tão lindo.
Um a resposta de vida. Fui com em orar na Pastelaria, onde com i até não poder
m ais.] E foi exatam ente o que fiz, sentei num a m esa ao ar livre, em  pleno
burburinho da praça, dos turistas, da gente que passeava ou se apressava por
qualquer razão. E pedi dois doces de ovos: um  para m im , outro para você.

Não sei se nos encontram os algum a vez, se houve algum  m om ento em  que
pudem os dizer que o am or entre nós existia com o certeza e felicidade, ou se
apenas peram bulam os um  pela vida do outro com o os personagens em baçados
de um  certo cineasta chinês que m ostra o am or com o im possibilidade. Toda
vez que vej o seus film es, penso em  nós, no nosso am or im possível, no nosso
am or irrealizado apesar dos anos j untos, e m e pergunto se haveria algum a
chance de ter sido de outra m aneira, ou se a força do nosso am or não estava
j ustam ente na sua im possibilidade. Nas vezes em  que nos abraçávam os e
recaía sobre m eu peito a dor de um a certeza: você não era m eu. Nas vezes em
que fazíam os am or e, m esm o gozando j untos, eu sentia que não era um  com  o
outro, que a distância entre nós não era um  vão, m as um  abism o. Com o se eu
pegasse a sua m ão e você não tivesse m ão, com o se eu quisesse m e declarar e
você não tivesse ouvidos. Ainda que m orássem os na m esm a casa, que
dividíssem os a m esm a cam a, que fizéssem os tantas e tantas coisas j untos, era
com o se entre nós houvesse um a faca afiada nas duas extrem idades,
afirm ando que para nos aproxim arm os teríam os de nos rasgar ao m esm o
tem po no único abraço possível: o abraço da m orte suj a de sangue.

Perguntei-lhe pelo cavalo branco, ele disse não ter nenhum . E a roupa de
príncipe? Tam bém  não tenho. E o nom e de príncipe? Tam bém  não. Tem  um
buquê de flores então? Tam pouco o tenho. Mas isso é fácil de resolver, espera
um  bocadinho. Quando voltou, trazia escondido atrás do corpo um  buquê de
flores do cam po, de cores variadas, de cheiro bom . Com  as duas m ãos para
trás, pediu-m e: escolhe um a. A esquerda, eu arrisquei. E esticando a direita,
ele disse: tom a, é para ti. Eram  lindas, as flores. Eu sorri: sorri m uito, de
verdade. Ele pegou o buquê da m inha m ão e o repousou cuidadosam ente no
chão, ao nosso lado. Então nos beij am os: um  beij o terno, doce. E depois
tivem os de ir em bora, de m ãos dadas, eu e ele, sabendo que não éram os
eternos, que não éram os príncipe e princesa, m as que nossos lábios se
entendiam , que as nossas bocas finas levem ente coladas um a à outra eram
feito am or de príncipe e princesa. Eram , talvez, o am or.

Tenho certeza que m e com preenderá. Você esteve sem pre ao m eu lado e
conhece bem  os m eus passos. Nossas m ãos cam inharam  dadas até aqui, e
tenho as m inhas m olhadas pelo seu suor. Farem os tudo com  calm a, m uita
calm a. Olhe para m im , nos m eus olhos, agora sou eu quem  lhe diz: não tenha
m edo. Acaricio o seu rosto com  a m inha m ão livre. Sinto que você m e aperta a
outra. Não tenha m edo, repito. Você não diz nada, tem  os olhos cheios d’água,
com o costum am  ser os olhos de quem  se despede. Estam os no quarto. Você
olha à sua volta, e eu não tiro os olhos de você. Não quero m e esquecer de
nada, de nem  um  detalhe sequer, m esm o sabendo que um  dia m e esquecerei,
que um  dia não saberei m ais precisar o tam anho do seu nariz, o contorno da
sua boca, a espessura dos seus cabelos. Mesm o sabendo que um  dia precisarei
de um a fotografia para m e lem brar das pequenas coisas. Eu lhe agradeço um a
últim a vez e prom eto m anter viva a sua m em ória. Tam bém  tenho os olhos
cheios d’água. Mas j á não tenho m edo, tenho algum as certezas.
Delicadam ente, vou desgarrando a sua m ão da m inha. Olham o-nos. Sofrem o-
nos. Am am o-nos. Sinto um  leve alívio quando nossas m ãos se separam . Digo:
espere. Com  m ais delicadeza ainda, retiro seu anel e o coloco em  m eu dedo.
Você sorri, aprovando m eu gesto. Digo que saberei tom ar conta dele, da
m esm a m aneira que um  dia você tom ou conta de m im . Você alarga o sorriso.
Eu a tom o em  m eus braços e, j untas, deitam os aos poucos na cam a. Arrum o
seu corpo para que se sinta confortável e escorrego a m ão por seus cabelos,
seu rosto. Passo a m ão sobre seus olhos e você m e entende, você os fecha.
Beij o-a forte um a últim a vez. Em  seguida, seguro as duas pontas do lençol
enroscado ao pé da cam a e puxo-o para cim a de você, cobrindo-a
inteiram ente, fosse um  sudário.

Não sei quantas taças de vinho havíam os bebido. Estávam os sem  roupa
havia m uitas horas: nuinhos, com o ele gosta de dizer. Esparram ados no chão na
cam a no sofá. Falando de coisas sem  im portância, coisas m uito im portantes.
Tocando o corpo um  do outro suavem ente, sem  pressa. Sabíam os, os dois, da
eternidade das horas que passavam . Perguntei-lhe: então, vem  você m orar no
Rio ou venho eu para Lisboa? E rim os, os dois, rim os m uito, gargalham os.
Tam bém  sabíam os da brevidade do tem po, o que nos perm itia brincar com o
dois m eninos, dois adolescentes que fazem  planos m esm o quando têm  a
certeza de que nunca se realizarão. Façam os o seguinte, ele disse: passam os
um a sem ana em  cada cidade. Todo dom ingo à noite, vam os ao aeroporto e
m udam os de continente. Assim  não precisam os nos desfazer de nada,
m antem os as duas casas, acho que é o m ais j usto. E o m ais divertido,
acrescentei. Rim os de novo e bebem os m ais vinho e dem os m ais beij os e
fizem os m ais carinhos e traçam os m ais planos e nos encontram os m ais e nos
perdem os m ais e fom os m ais e m ais felizes. De tão feliz, eu sentia o peito
apertar, um a dor que eu não sabia existir quando se tratava de felicidade.

Preciso falar com  você, eu disse. Fale. Venha aqui, respondi, o que tenho
para dizer é sério. Você se sentou ao m eu lado no sofá. Segurei a sua m ão e
com ecei a discorrer, num  rom pante, tudo o que havia planej ado e decorado
fazia m ais de um a sem ana. Falava sem  pausas, sem  lhe deixar qualquer
brecha para m e interrom per. Você sabe o quanto eu te am o o quanto você é
im portante para m im  tudo o que m e ensinou tudo o que aprendi com  você você
sabe bem  que m e apaixonei desde o prim eiro instante que seu olhar m e
capturou você sabe m elhor do que ninguém  que nenhum  hom em  antes havia
m e dado tanto prazer você sabe o quanto o adm iro o quanto respeito a pessoa
linda que você é você sabe que pode e sem pre poderá contar com igo porque
você é e sem pre será m uito especial para m im  você sabe que sem pre haverá
um  espaço para você no m eu coração você sabe disso tudo de todo o m eu
sentim ento por você o m eu am or por você e por isso acho que você vai
entender claro que você vai entender você tam bém  deve pensar a m esm a
coisa que eu você deve concordar com igo não é m eu am or você tam bém  deve
pensar com o eu que apesar de todo o am or que sentim os um  pelo outro
infelizm ente não dá m ais nunca conseguirem os ser felizes talvez porque o
nosso am or sej a grande dem ais não sei talvez porque sej am os pequenos
dem ais para suportar tanto am or talvez ele não caiba em  nós por isso tenho a
certeza de que você tam bém  quer isso você tam bém  quer a separação assim
com o eu você tam bém  deve achar que precisam os nos afastar para dar um a
chance a nós m esm os para cicatrizar as feridas e serm os felizes ainda que
distantes um  do outro ainda que im possibilitados de viver o nosso am or. Você
m e m ostrou um  sorriso sarcástico, era evidente que não m e entregaria de
bandej a o que era inteiram ente seu. Nunca assum iria um a derrota. Você não
disse um a palavra sequer. Sim plesm ente arrancou a m inha blusa e m e
em purrou com  força no sofá, obrigando-m e a esticar o corpo. Arrancou-m e a
calcinha com  m ovim entos bruscos e penetrou im ediatam ente seu dedo no m eu
sexo seco. No m eu rosto, apenas terror. No m eu corpo, a im possibilidade de
m ovim ento. Eu j á tinha esgotado as m inhas forças, e você sabia disso. Você se
aproveitava disso. Abaixou o short e ali m esm o, naquele sofá onde outras vezes
nos am am os, deitou-se em  cim a de m im . Eu estava abandonada, entregue à
sua vontade, feito m e culpasse pelo que acabara de falar. Tinha o sexo áspero,
e nem  a sua saliva era capaz de um edecê-lo. Você se rej ubilava com  a m inha
dor. Você m e perguntou: então, não é bom ? Não respondi. Não é bom ?, você
insistiu. Perm aneci m uda. Não é bom ? Não, eu disse, finalm ente. Então, com o
que para calar a m inha resposta, você saiu de dentro de m im  e m e penetrou a
boca com  um a violência ríspida, eu quase sem  conseguir respirar. Você m e
penetrou a boca até gozar e só retirou seu sexo quando teve a confirm ação de
que eu j á havia engolido tudo. Depois m e segurou o rosto com  força e, com  o
olhar transbordando ironia, afirm ou: está vendo com o podem os ser felizes
j untos?

Estávam os j untos havia quatro dias quando ele m e perguntou: m as, afinal,
por que estás aqui? Era de m anhã e tínham os acabado de tom ar café. Do lado
de fora estava cinza. Era a prim eira vez que eu via Lisboa sem  sol. Pouco
tem po antes, quando havia saído para com prar pão e doces portugueses (gosto
tanto que sou capaz de devorálos m esm o de m anhã: barriga de freira, pastel de
nata, guardanapo, travesseiro, ninho de ovos, entre tantos outros), estranhara a
pouca lum inosidade na cidade. Está feio o tem po hoj e, não?, com entei com  o
padeiro, que m e respondeu que gostava im enso de dias nublados. Saí de lá com
um  pacote repleto de delícias e fui recebida de volta com  um  largo sorriso.
Levantei da m esa e deitei no sofá para responder à sua pergunta. Enrolando os
cachos do cabelo, contei-lhe tudo: da m inha paralisia, do m eu corpo doente, da
chave que m eu avô m e dera. Contei-lhe que tinha ido à Turquia e que agora estava
em  Portugal atrás do m eu passado. Disse-lhe que precisava acertar as contas de
gerações anteriores, acertar as m inhas contas. Nasci aqui em  Lisboa, sabia? Não! É
verdade ou estás a gozar? É verdade, disselhe sorrindo. Nasci em  j aneiro de 79 e
fui para o Brasil em  setem bro. Mas guardei o sotaque lisboeta, não percebes? Ele
m e olhou torto e veio m e fazer cosquinhas, m e dar beij inhos: então és alfacinha?
Sim , eu disse, um a verdadeira alfacinha. Tenho até o passaporte, quer ver? Passe a
m inha bolsa, por favor. Tirei o passaporte e m ostrei-lhe. Está vendo? Ele o folheou,
descobriu a m inha foto m onstruosa — com o quase todas as fotos de passaporte — e
leu em  voz alta: Local de nascim ento: São Dom ingos de Benfica, Lisboa. Então é
m esm o verdade, ele disse. Sim , respondi, m as agora m e deixe term inar de contar a
história. Perguntou, agora escute.
Então, continuei a lhe contar. Contei com o tinha sido a viagem  à Turquia, as
pessoas que tinha encontrado, a casa que não estava m ais lá. Contei que tinha feito
esse percurso para tentar sair do lugar, porque havia m uito eu não m e levantava da
cam a, no Brasil. Contei tam bém  da m orte da m inha m ãe, da dor, do luto. Disse-lhe
que falo com  ela ainda hoj e. Falo com  os m ortos, afirm ei, com  os m ortos que m e
acom panham . E depois contei do am or que m e m atou: um  dia eu am ei um
hom em , e esse hom em  m e m atou. Contei da violência, dos rasgos que ele fez na
m inha carne, e m ostrei as m arcas, as cicatrizes todas. E disse: se o am or é isso,
prefiro não am ar. Então ele m e abraçou, deitou ao m eu lado no sofá, e ficam os os
dois agarrados, esprem idos num  espaço m enor do que os nossos corpos j untos. E,
enrolando os cachos do m eu cabelo, ele disse: não, o am or não é isso. Não tenhas
m edo.

Você devia estar dorm indo há algum as horas. Eu escutava seu ronco, o que m e
dava ainda m ais coragem  para fazer aquilo que j á não podia esperar. Meu corpo
trem ia, m as m eu coração estava seguro. Levantei-m e da cam a com  todo o
cuidado para não acordá-lo. Fui à cozinha, e quando voltei seu corpo estava virado
para o outro lado. Tive receio de que tivesse acordado. Sussurrei seu nom e, m as
você não respondeu. Aproxim ei m eu corpo do seu e pensei que você era bonito
enquanto dorm ia. Seu corpo nu enrolado em  si m esm o m e dava um a serenidade
que seu corpo acordado não tinha. Você era branco, branco, e seus pelos eram
apenas um a leve penugem  que acariciava sua pele m acia. Suas m ãos pareciam
m ãos de bebê, e de repente senti um a enorm e vontade de segurá-las, m as tive
m edo que você acordasse. Passei m uitos dias m e perguntando se o que sentia por
você era am or. Olhando seu corpo em  cim a da cam a pensei que sim , de algum a
m aneira eu o am ava. E foi com  esse sentim ento que, m uito delicadam ente, virei
seu corpo, a barriga para cim a. Você grunhiu algo incom preensível, m as logo em
seguida retom ou o sono profundo. Estava quente, m as não m uito. Estiquei seus
braços e suas pernas. De leve, toquei no seu rosto e encostei m eus lábios nos seus.
Sussurrei seu nom e novam ente, m as você não respondeu. Tive um a certeza que
nunca antes tivera, e m eu corpo não trem ia m ais. Segurei as duas pontas do lençol
enroscado ao pé da cam a e puxei-o para cim a de você, cobrindo-o inteiram ente,
fosse um  sudário. Em  seguida, peguei a faca que havia buscado na cozinha e,
segurando-a com  as duas m ãos, atravessei seu ventre. Senti o m etal rasgando sua
pele m acia, perfurando a carne, o estôm ago. Senti o m etal roçando os ossos da sua
costela, e então larguei a faca. Você deu um  grito de dor e levantou a cabeça,
descobrindo a parte de cim a do lençol. Você tinha os olhos abertos. Nossos olhos se
encontraram  pela últim a vez, e então pude ver a raiva, o m edo e a derrota
estam pados em  seu rosto. Em  seguida, vi sua cabeça pendendo para o lado e seus
olhos se fechando para sem pre. Alarguei o olhar e vi o quarto inteiro, vi todos os
obj etos que um  dia tinham  sido nossos. No centro da im agem , a nossa cam a. Do
lado esquerdo da cam a, seu corpo branco coberto por um  lençol branco. No centro
do seu corpo, a faca com  a qual eu rasgara a sua pele. No centro do seu corpo, o
seu corpo era verm elho, o lençol era verm elho. E era esse verm elho que m e
reforçava a certeza, que m e garantia não haver outro final possível para a nossa
história.

Se não te incom odas, prefiro não te levar ao aeroporto. Por quê? Você tam bém
não gosta de se despedir, é isso? Odeio despedidas, ele respondeu. Prefiro ficar
com  a lem brança do que vivem os cá e com  a certeza de que um  dia nos
reencontrarem os. Você acha? Ele tinha o sorriso confiante quando m e disse: verás
que sim . Está bem , então não m e leve, m as você fica com igo até o últim o
m om ento? Ele respondeu m e dando um  abraço longo e m uitos beij inhos
pequeninos. Eu estava ansiosa: m ais um a despedida para encarar. Vim  a Portugal
desfazer velhos laços e acabei fazendo novos, e agora teria de dizer adeus
novam ente. Mas, enfim , se ele tinha certeza de que nos reencontraríam os, eu
tentava não pensar no avião que m e aguardava. Eu gostava de um  dia m orar no
Rio, ele falou. E eu em  Lisboa. Então podem os trocar de casa? Rim os. Mas
podem os tam bém  coincidir um  bocadinho, não é? Sim , claro, respondi. E depois
engatei: você ainda tem  um  vinho alentej ano aí? Tenho, queres? Quero. Podem os
beber um a garrafa até a hora de ir ao aeroporto, não?
Ele pegou duas garrafas. Abriu um a e, segurando a outra, disse: tom a, abre no
Brasil e pensa em  m im  quando tom ares. Agradeci, você é um  am or. Tu é que és. E
com eçam os a brincar: m eu docinho de coco. Meu pastel de Belém . Meu
chuchuzinho. Meu ninho de ovos. Até o m om ento em  que ficam os sem  roupa, e aí
j á não dizíam os nada. Tínham os a m esm a graça e a m esm a leveza: não nas
palavras, m as nos gestos. Fazíam os am or com o se brincássem os, estávam os
sem pre a inventar novas coisas, a nos deliciar a cada toque — de m ãos, línguas,
sexos, pelos, peles, narizes, queixos, olhos, pestanas. Havia algo de especial quando
estávam os j untos, talvez essa leveza pueril: podíam os ser crianças sem  m edo, ser
crianças sendo m uito velhos. E foi o que fizem os nas nossas últim as horas j untos.
Bebem os as duas garrafas de vinho (e agora, com o vou fazer para m e lem brar de
você no Brasil?), rim os, fizem os am or, gozam os um  do outro, um  com  o outro, até
que, lutando contra a m inha vontade, tive de dizer: acho m elhor cham ar o táxi,
senão vou acabar perdendo o avião. Então fom os tom ados por um a certa
seriedade, enquanto ele procurava o núm ero de telefone e eu m e vestia.
Quinze m inutos, ele disse. Torci o nariz: por que tão rápido? Porque os serviços
em  Portugal funcionam , ele respondeu, rindo de si m esm o. Foi apenas o tem po de
eu term inar de m e vestir, pegar as m alas e lhe dar um  abraço apertado e alguns
beij os m olhados. E deslizar a m ão pelo seu rosto algum as vezes. E olhar dentro de
seus olhos verdes e sentir os m eus ardendo. E dizer: tenho m uito carinho por você.
E ouvir: tam bém  tenho m uito carinho por ti. E de sentir suas m ãos atravessando
m eus cabelos, brincando de fazer cachos. E dizer adeus, até logo, até breve, breve.
Ficam os nos olhando até o táxi partir, m esm o depois de o táxi ter partido. Eu
tinha o coração cheio de alegria, m as tam bém  com  um  pouco de tristeza. Minha
cabeça m artelava: por que, quando é bom , não pode dar certo? E depois era eu
m esm a quem  m e dizia: pare de pensar assim , j á foi bom  e j á deu certo. Fiquei
desse j eito, oscilando entre pensam entos bons e ruins, durante algum  tem po. Até
m e lem brar da frase que um  am igo m eu sem pre dizia: am or não é para guardar,
m as para espalhar. Quando lhe contava m inhas histórias e depois falava dos m eus

sonhos de príncipe e princesa, ele sem pre afirm ava: m as você não é m ulher de um
am or só, você tem  que am ar m uitas vezes, espalhar essa sua capacidade de am ar
por aí. Pensei que se lhe contasse esta história ele certam ente se exaltaria: não
disse? Pense que agora você tem  um  pouquinho de am or em  Lisboa, em  m ais um a
cidade. E um a cidade tão especial para você. Enquanto m eus pensam entos
reviravam  com  essas ideias todas, ouvi m eu celular apitar: nova m ensagem . No
cabeçalho, o nom e dele, e logo abaixo o texto: acho que tenho toda a ternura e todo
o carinho dentro do peito. Obrigado por existires. Beij inhos.
E assim  pude partir em  paz, voltar para o Brasil com  a certeza de que a m inha
relação com  Portugal não era m ais um a relação com  o passado, nem  do passado.

Meu avô entra no quarto reclam ando do cheiro acre e perguntando se estou
pronta para a viagem . Um a luz serena entra pelas frestas da persiana, anunciando
que o sol se porá em  breve. Penso que m ais um  dia term ina e que os dias
term inando parecem  um  único e m esm o dia. Olho ao m eu redor, enquanto m eu
avô fala e aguarda um a resposta, e m e digo em  silêncio que preciso botar o
cobertor para lavar, tirar as roupas do chão e o m ofo das paredes. Estou enoj ada do
m eu próprio casulo.
Ele insiste, quer saber se estou pronta ou não. Cham o-o para perto e, receoso,
ele se senta ao m eu lado. Vej o o quanto está envelhecido e pela prim eira vez penso
que não há diferença entre seu rosto e suas m ãos, são todos a m esm a pele m urcha.
Sem  m e levantar, pego a caixinha na m esa de cabeceira. Dentro dela, em  m eio a
pó, bilhetes velhos, m oedas e brincos, descansa a chave. Ele estica o olhar e vê o
m esm o que eu. Ele m e encara, e j á não preciso dizer nada. Pego a chave, assopro
a poeira em  que está m ergulhada e, esticando o braço, alcanço a m ão do m eu avô.
Seguro-a com  força, e perm anecem os com  as m ãos coladas, a chave entre nosso
suor, selando e separando as nossas histórias.

Este livro foi composto na tipologia
ClassGaramond, em corpo 11/15, e impresso
em papel off-white 90g/m2 no Sistema Cameron
da Divisão Gráfica da Distribuidora Record.

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