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não queria sabê-lo. Passei todas as noites lutando contra o sono, inventando
m aneiras de perm anecer com  os olhos bem  abertos. Ainda que o quarto fosse
escuro, havia algum a lum inosidade vinda do lado de fora. Às vezes, eu acendia o
abaj ur e passava a m adrugada lendo, você nem  se dava conta. Eram  tantas
inj eções, tantos m edicam entos que, chegada a noite, você apagava. Enquanto isso,
eu m e esforçava para m e m anter insone, pois tinha m edo de acordar e descobrir
que algo tinha m udado. Quando você despertava, m eu coração disparava: e então?
Com o está? Você consegue ver as horas? Fazíam os sem pre o m esm o teste. À sua
frente, havia um  relógio de parede com  núm eros grandes. Se você fosse capaz de
m e dizer as horas, estava tudo bem . Aí, era só aguardar o decorrer de m ais um  dia.
[Eu sabia que a batalha chegava ao fim , que era o m om ento de repousar as arm as.
O m edo é im enso enquanto lutam os, m as quando sabem os que não há m ais por
onde ele se esvai, evapora leve no ar. Eu j á não tinha m edo.] Eu m orria de m edo,
j am ais sentira pânico parecido. Era m ais grave do que se fosse eu m esm a a perder
a visão, era você a perdê-la, eu com  as m ãos abanando, sem  nada a fazer. Queria
entender exatam ente o que você sentia, estar no seu lugar. [No m eu lugar? E o que
você faria?] Não sei, m as queria saber com o era a sua dor e não podia. Era essa a
angústia que m e inchava o peito. Quando eu fechava os olhos, um  pouco do seu
sofrim ento se pronunciava. Ele m e parecia tão enorm e, que eu abria os olhos às
pressas, era inj usto que você fosse obrigada a passar por isso. [Não vou dizer que
não sofri, seria m entira. Mas tam bém  vivi naquele hospital a alegria m ais profunda.
Nós duas fechadas no m esm o quarto durante duas sem anas, eu nunca tinha sentido
am or tão aflorado, tão à superfície. Cada gesto, por m enor que fosse, tinha a
intensidade de um a declaração. Eu estava desprovida do m edo e da angústia, então
podia sentir tudo o que você m e oferecia: o am or. Existe alegria m aior? Você
deitada na cam a com igo, subvertendo as regras do hospital. Você lendo em  voz alta
aquele rom ance epistolar, lem bra-se? Nós duas j ogando cartas enquanto ainda m e
era possível. Você m e deixando ganhar, com o fazem  os pais com  os filhos
pequenos. Você supervisionando o m eu soro. Você m e contando as suas aventuras.
Você controlando se as enferm eiras seguiam  à risca as ordens do m édico. Você
m e dando banho de gato, passando pom ada na m inha vagina, tocando o m eu corpo

em  chagas, m eu corpo carunchoso repleto de pus, m eu corpo cheirando a acidez,
cheirando a m orte, você o tocando sem  asco, com o se fosse seu o m eu corpo, o
nosso.] É verdade, você tem  razão. Tam pouco eu conhecia a extensão de nosso
sentim ento. Era com o se o esticássem os a cada dia um  pouco e, quanto m ais o
esticávam os, m ais entendíam os que ele iria até onde quiséssem os. Ele não tinha
fronteiras, não tinha tam anho, era um a presença que se fazia m ais forte do que a
precariedade da carne. Tam bém  não tinha tem po, e foi só m ais tarde, quando eu j á
não tem ia a sua m orte, que com preendi o que na época ainda estava m isturado
com  a dor. Hoj e, sei exatam ente o que significa esse sentim ento entre nós. Hoj e,
m ãe, sou eu que a carrego no ventre.

Eu estava saindo do banheiro quando você m e forçou a voltar. De frente
para o espelho, eu adm irava o reflexo do seu rosto enquanto você afastava as
m inhas pernas.

Estava andando sob o calor escaldante de Istam bul quando m e deparei com
um a barraca de pepinos. Um  senhor descascava habilm ente o legum e e o
vendia por alguns centavos. Pepinos pequenos, m édios e grandes. Inteiros,
apenas com  sal. Não acreditei, era a prim eira vez que via algo do gênero. No
entanto, nada m e era tão fam iliar. Pepino inteiro com  sal, para ser com ido
com o coelhos com em  cenoura em  desenho anim ado. Quando era pequena,
não alm oçava nem  j antava se não houvesse um  pepino de entrada, inteiro e
com  sal. No lanche da tarde, pepino. Por favor, eu quero um , disse ao senhor.
De qual tam anho? Pequeno, respondi, costum am  ser m elhores, m ais crocantes.
Pedi para tirar um a foto ao lado dele, atrás da barraca. Ficou engraçada: o
senhor estava sério, com penetrado, o longo bigode seguindo o contorno
fechado da boca, e eu, um a boba, faceira com  a descoberta. Com ecei a pensar
que sim , havia um  sentido nessa viagem . O passado não era apenas do m eu
avô, não era apenas daqueles que tinham  em igrado. O pepino com provava.
Depois da m orte da irm ã, o caçula lhe escreveu ainda algum as cartas, todas
m anchadas pelo sangue seco de quem  se fora. Eram  cartas de dor, de lam ento. E
assim  a passagem  do carteiro se transform ou num a espera indesej ada. Até o dia
em  que o irm ão escreveu não para falar da casa em  luto, m as de um a decisão que
tom ara: vou ao Brasil, vou m e j untar a você, é chegada a m inha hora. A alegria lhe
subiu ao peito, encheu seu corpo de um  frescor leve, algo com o um  banho de
chuva num  dia quente de verão. Receberia Sabi na terra que era j á a sua, e assim
poderia aj udá-lo a se estabelecer, a crescer aqui com o ele havia crescido. Sim ,
poderia aj udá-lo a ser alguém  na vida, e isso o deixava entusiasm ado. Enfim  um a
boa notícia!
No dia previsto, não foi ao trabalho, pediu para o funcionário tom ar conta da
loj a (a essa altura j á era dono da sua própria loj a de ferram entas). Acordou cedo,
tom ou um  banho, colocou seu m elhor perfum e, com o se fosse ao encontro da
m ulher am ada, e vestiu-se com  terno e gravata, pois queria receber o irm ão com o
ele m erecia. Mal conseguiu tom ar café, tam anha era a ansiedade que lhe rem exia
o estôm ago. Saiu de casa apressado, queria estar na Praça Mauá antes das dez,
hora em  que o navio aportaria. Ficou quase duas horas debaixo do sol escaldante,
olhando ansioso para o horizonte, na tentativa de avistar um a em barcação grande
com o a que o trouxera anos antes.
Estava sonolento num  banco da praça, quase dorm indo, quando ouviu o apito
que esperava: era ele, era seu irm ão que chegava. Levantou-se e foi correndo até a
beira do píer, queria vê-lo logo, acenar ao irm ão para assegurálo de sua presença.
Enquanto o casco do navio fazia ondulações na água do m ar, ele balançava o braço
e gritava seu nom e: Sabi, Sabi. Com  o chapéu de feltro na m ão, o irm ão respondeu
ao aceno. Com o estava m udado! Com o tinha crescido, m eu deus! Era j á um
hom em !
Abraçaram -se durante longo tem po, beij aram  os rostos m elados, o suor
escorrendo pelo corpo todo. Riam , choravam . Mazal tov, repetiam  um  ao outro,
desej ando a sorte futura, a sorte na terra nova. Sabi tinha o ar m aduro, estava

disposto a fazer o necessário para não se arrepender da escolha feita. Ele, seu
irm ão m ais velho, estava orgulhoso, sentia-se um  pouco pai do caçula. Sabia que
teria m uitas obrigações e cuidados em  relação a ele, m as isso não o assustava, ao
contrário, dava-lhe ânim o, um a felicidade que poucas vezes havia sentido.
Aj udou-o a carregar as m alas e o acom panhou à im igração, onde Sabi
preencheu todos os papéis e m ostrou sua docum entação. O irm ão j á era
naturalizado, o que facilitava a aquisição do visto. Ainda assim , dem oraram  lá
dentro, a fila era grande, e as perguntas, interm ináveis. Mas, quando saíram  da sala
— os papéis do caçula nas m ãos —, deixaram  os aborrecim entos da espera e do
calor lá m esm o. Tinham  coisas dem ais a falar um  ao outro para perder tem po com
ninharias burocráticas. Ele queria saber com o estavam  pai, m ãe e irm ão; com o
tinha sido a viagem ; se estava bem  e disposto a com eçar a trabalhar no dia seguinte
m esm o. Sabi queria saber com o funcionavam  as coisas no Rio de Janeiro; onde
m oraria; se era difícil aprender o português e se podia com eçar a trabalhar no dia
seguinte m esm o.
Mas que não se afobassem , teriam  ainda m uito tem po para conversas e
aprendizados. Tinham , j untos, um  futuro pela frente, um  futuro de m uita sorte, de
acontecim entos inesperados, de am ores, de fam ílias form adas, de trabalho, m uito
trabalho. Um  futuro tam bém  de perdas e dores, com o todos os futuros. Mas que
im portância isso tinha naquele m om ento? Apenas queriam  m atar as saudades
acum uladas, serem  irm ãos novam ente, botar em  dia o afeto distante. E planej ar o
futuro, m esm o que, m ais tarde, ele viesse a ser com pletam ente outro.

Não sei se houve um  m om ento específico em  que as brigas com eçaram .
Talvez elas tenham  sido sem pre inerentes a nós dois. Da m esm a m aneira que
não conseguíam os viver sem  o corpo um  do outro, tam pouco conseguíam os vi
ver sem  brigar. Às vezes nos m achucávam os. Quase sem pre term inávam os.
Quase sem pre você term inava, porque eu não saberia o que fazer com  o m eu
corpo sem  o seu. Na verdade, você tam bém  não, m as fazia parte do seu teatro
m e m ostrar que, ao contrário de m im , você poderia viver bem  sozinho, você
viveria m elhor sozinho. Então, cada vez que percebia que eu estava apegada
dem ais, você dizia: assim  não dá, assim  não quero, não sei o que fazer com
tanta cobrança, precisam os de um  tem po, precisam os viver cada um  a sua
vida. Eu m e desesperava, eu berrava: m as a m inha vida é a sua, a m inha vida
é a nossa. E durante horas continuávam os o que para um  espectador seria
apenas um a encenação, m as para m im  era a própria experiência da m orte.
Até que chegava o m om ento em  que, entre palavras de ódio, surgiam  palavras
doces. E essas palavras doces acabavam  se transform ando em  beij os doces
(desesperados), em  toques doces (desesperados), em  carinhos doces
(desesperados). Então, fazíam os am or (doce, desesperado) com o nunca antes.
Devorávam o-nos com o se tivéssem os acabado de nos conhecer, com o se entre
nós não houvesse rancores. Os corpos m elados sobre a cam a, o cheiro de sexo
no quarto inteiro. Depois de m uito tem po, decidíam os tom ar um  banho gelado,
e era com o se fôssem os duas crianças, com o se nunca tivéssem os brigado,
com o se nunca tivéssem os term inado, com o se sem pre tivéssem os sido um  do
outro, com o se fôssem os para sem pre um  do outro.

Na entrada, nenhum a das m ulheres falava inglês. Estranharam  a m inha
presença no local, o que ficou evidente em  seus olhares tortos: não
costum avam  receber estrangeiras. Ainda assim  não precisei de m uitos gestos
para fazê-las entender que eu queria participar do am biente delas. Custei a
descobrir um  banho turco tradicional, frequentado apenas por m uçulm anas. No
ônibus, aproxim ei-m e de um a m oça e, tim idam ente, pergunteilhe se poderia
m e indicar um  ham m am  local. Isso é coisa de turista, as m ulheres turcas há
m uito j á não frequentam  ham m am s, ela m e respondeu com  um  largo sorriso,
zom bando da m inha ignorância. Recuei, sem  graça, e fui procurar um  lugar na
traseira do ônibus. Mas, antes de descer, com o que arrependida por um a certa
indelicadeza, ela m e entregou um  papel com  um  nom e anotado: Yildiz. Lá,
você ainda poderá encontrar o que está procurando, ela m e disse.
A senhora da recepção apontou para a m inha vestim enta, pedindo para tirá-la.
Fiz com o as duas m eninas ao m eu lado, tirei peça por peça, ficando apenas com  a
calcinha, e as coloquei num a das prateleiras de um  pequeno corredor que ligava a
entrada e a sala do banho. Em  seguida, surgiu um a m ulher que arranhava algum as
palavras em  inglês perguntando se eu queria algum  dos serviços que ela oferecia:
m assagem  ou esfoliação. Faz parte da lim peza islâm ica esfregar a pele para tirar o
que está m orto. Aceitei os dois. Ela m e pegou pela m ão e, j untas, atravessam os a
cortina que dava para a sala do banho. Lá dentro, um  choque: não tinha nada a ver
com  o que eu esperava. Claro que eu não im aginava encontrar nenhum  padrão
cinco-estrelas, afinal, tinha escolhido entrar num  banho tradicional, m as tam bém
não im aginava que poderia ser tão desleixado e, principalm ente, tão suj o. Fios de
cabelo espalhados pelo chão, vidros vazios de xam pu, em brulhos de sabonete e
um a água escura que escorria pelo côm odo. Um  calor infernal. Por um  átim o,
vacilei, quase dei m eia-volta: a senhora m e desculpe, I’m  so sorry , m as tenho que
ir, esqueci que tinha um  com prom isso. Controlei m eu ím peto e disse a m im
m esm a: se essas m ulheres estão aqui, vivas e com  um a aparência tão alegre, por
que não eu? Se eu quisesse de fato experim entar o m undo delas, teria de deixar o
m eu na porta.
Com o você se cham a? Sihem . Com o? Sihem . Foi preciso um  certo esforço para
que eu conseguisse, depois de três ou quatro tentativas, pronunciar corretam ente
seu nom e. Ela sabia que eu estava nervosa, era evidente, o m edo rasgava m eus
olhos. Eu seria capaz de m e agachar naquele m esm o instante e m e pôr aos prantos,
pedindo para m e tirarem  de lá. Ela tam bém  sentia um  certo tem or, bem  m enor do
que o m eu, é verdade, e por isso quase podia escondê-lo. Vínham os de dois m undos
distintos, e a nossa falta de j eito — de um a com  a outra — nos lem brava a cada
instante que eu era estrangeira. Mas aos poucos fom os nos aproxim ando, rom pendo
a distância, e assim  com ecei a m e sentir m ais confortável, disposta a participar
passo a passo do ritual.
Elas deveriam  ser em  torno de dez ou doze. Todas — sem  exceção — m e
devoraram  com  o olhar. Riram  entre si, cochicharam  palavras que eu não podia
entender. Não saberia definir se estavam  contentes ou insatisfeitas com  a m inha

presença. Mesm o sem  querer, a verdade é que eu era um a intrusa. Sihem  ainda
m e segurava a m ão. Atravessam os o prim eiro côm odo, onde o calor era m ais
am eno, e fom os ao segundo, onde se faz a esfoliação. Ela m e deu um  tapetinho de
plástico para não ter contato direto com  o chão. Sentei no tapete (não sem  certo
noj o) e abracei as pernas contra o peito. Enquanto eu aguardava, Sihem  enchia um
balde d’água, m isturando a quente com  a fria. De repente, sem  que eu esperasse,
ela j ogou a água de um a só vez sobre m im . Perdi o ar com  o líquido entrando nas
m inhas narinas e com ecei a tossir. Ela nem  se incom odou e continuou seu trabalho
sem  reticência. Com  um  sabonete em  pasta, esfregou m eu corpo: do rosto aos pés.
Nesse m om ento, com ecei a relaxar um  pouco e até achei agradável a sensação
provocada pelo sabão, que deixava a pele escorregadia. Em  seguida, tom ei outro
banho de balde, m as dessa vez prendi a respiração, para não m e atrapalhar
novam ente.
O que Sihem  fazia com igo as outras faziam  entre si: um a j ogava água na outra,
esfregava o corpo da outra, esfoliava a pele da outra. Apenas um a senhora,
encostada à parede esquerda, tom ava seu banho sozinha. Era rechonchuda, a
barriga se desfazendo em  dobras. Fiquei m e perguntando se era por isso que
ninguém  a aj udava. Talvez. Mas talvez não. Será que era infeliz? Ou sim plesm ente
gostava de estar sozinha? Para cada um a das m ulheres que estavam  ali, ao m eu
redor, pus-m e a im aginar um a história: inventei m aridos, traições, filhos, viagens,
trabalhos, solidão; inventei tristezas e alegrias; invej ei-as e m e senti aliviada por não
ser nenhum a delas.
Entre tantas m ulheres, um a m e prendeu a atenção. Morena, os cabelos
com pridos, a boca carnuda, m ais j ovem  do que a m aioria das m ulheres presentes,
ela se ensaboava com o se acariciasse o próprio corpo. Não falava nada, m as
interagia com  quem  fosse preciso. Eu não conseguia tirar os olhos dela. Corpo
perfeito, com o que esculpido. Os seios m ais lindos que j am ais vi, que j am ais quis
tocar. Mam ilos pequenos e redondos. Corpo sensual em  sua falta de vontade de ser
sensual. Tentei disfarçar, m as ela percebeu. Tive m edo de invadir seu espaço, de
im por um  olhar não desej ado. Ela deixou claro que não, eu não im punha nada. Ao
contrário, ela tam bém  m e olhava, m e exam inava com  o m esm o despudor. Em
m eio a corpos alheios à sexualidade, corpos que apenas se entregavam  à lim peza,
estabelecem os nosso laço.
Sihem  balançou m eus pés: lay  down, que eu deitasse de barriga para cim a, o
que fiz sem  vacilar. Ela se pôs a m e esfregar com  um a luva, arrancando m inha
pele. Pensei que fosse sangrar, tam anha a força com  que m e esfoliava. Com  olhos
de espanto e a m ão agitada, pedi que fosse m ais gentil. Ela riu, feito para dizer que
eu não entendia nada. Ignorou m eu pedido e continuou seu trabalho. Que eu não
trouxesse m eus costum es para lá: se a escolha era m inha, que m e deixasse levar.
Ela não falou nada, m as tam bém  não precisava, sim plesm ente m e conduzia a seu
bel-prazer, pouco se im portando se as m inhas vontades eram  diferentes. Então,
decidi term inar o em bate. Se continuasse a tentar m e im por não chegaria a lugar
algum . Perderia sem pre. Que eu relaxasse de vez e aproveitasse a experiência. Até

porque, depois de alguns esfregões, acabei m e acostum ando e j á não sentia dor. Na
perna, até era gostoso, fazia um a cosquinha agradável.
Quando term inou de m e esfoliar, Sihem  m e fez levantar e olhar para o chão:
espalhados, vários pedaços de pele, feito tiras de barbante. Está vendo quanto
espaguete? Ri: espaguete? Até lem brava um  pouco, m as era um a associação
bastante estranha, im aginar que saíam  espaguetes do corpo! Ela fez questão de
m ostrar que eu tinha m uito m ais pele m orta do que as outras, com o quem  diz: está
vendo com o som os lim pas?, o que m e pareceu levem ente irônico; afinal, quando
chegara ali, tudo havia se revelado um a im undice sem  tam anho, e, de repente, sou
eu a acusada de falta de lim peza. Sou cham ada de suj a porque tenho m ais
“espaguetes” do que as outras!
Com  o olhar ainda capturado pela beleza da m enina que acabara de descobrir,
fiquei im aginando com o deveria ser tocar a sua pele viva, porque é verdade que
depois da esfoliação ficam os com  o corpo m ais deslizante, m acio. Nossa
cum plicidade era explícita: ela ria da m inha falta de j eito, do m eu estranham ento
diante de experiência tão nova; eu ria em  resposta, contente por tê-la ali, no m esm o
am biente, com o testem unha do m eu prim eiro banho turco. Ria da sua beleza,
encantada com  a sua ternura, quase a dar gargalhadas: nunca antes vira m ulher tão
bela.
De pé, tom ei m eu terceiro banho de balde. Já m e sentia à vontade para
esfregar m eu próprio corpo diante de todas. Perguntei a Sihem  se poderia, eu
m esm a, virar o balde sobre a cabeça. Ela o encheu novam ente e m e entregou
faceira, satisfeita consigo própria, certa de que era um a conquista sua, eu estar
curtindo o ritual. Vi que as outras m ulheres m e olhavam  e, então, algum as
com eçaram  a m e dar dicas, explicando-m e com  gestos com o deveria fazer.
Im itei-as com  esm ero. De repente, um a delas veio até m im , m e entregou sua luva
e pediu que esfregasse suas costas. Trem i: não tinha a m enor ideia de com o fazer
aquilo. Tinha m edo, só. Ela ficou esperando que eu a esfoliasse, com o Sihem  havia
acabado de fazer com igo. Cansada de aguardar, virou o corpo, pegou a luva da
m inha m ão e, fazendo gestos no ar, m e explicou a tarefa. Nada com plicado,
bastava entrar no j ogo. A luva era áspera e tinha de ser esfregada com  força para
fazer algum  efeito. Tinha a sensação de a estar m achucando, m as era evidente que
não. Ela estava acostum ada, provavelm ente deveria frequentar o ham m am  um a
vez por sem ana, com o de costum e na religião. Já estava com eçando a m e cansar,
quando ela m e pediu a luva de volta, abrindo um  sorriso de aprovação.
No outro côm odo, o calor era m ais suportável. Foi lá que recebi a m assagem .
Deitada de bruços, sentia a m ão de Sihem  m e relaxando os m úsculos. Eu estava
tensa, com o de hábito. A lom bar dolorida, o pescoço e os om bros duros, pedras
incrustadas no corpo. Você carrega o m undo nas costas?, ela m e perguntou. Disse-
lhe que sem pre m e perguntavam  isso, m as não, não é o m undo: carrego m eu
passado, carrego um a história que é e não é m inha, e por isso estou aqui, na
Turquia. Contei-lhe que m eu avô tinha em igrado de Esm irna. Que eu estava lá em
busca do m eu passado e da casa da m inha fam ília. Ela m e escutou com  atenção e

foi com o se, naquele m om ento, nos tornássem os iguais pela prim eira vez. Então
você é turca? Não exa tam ente. Você fala turco? Não. Nem  um  pouco? Não,
nadinha m esm o. Ainda assim  você é turca, tem  cara de turca, eu j á tinha reparado
em  seus traços. Crec, crec, alguns ossos estalados e um a respiração de alívio. Sua
m ão era um  pouco pesada para m eu corpo pequeno, m e causando certo incôm odo,
m as eu não reclam aria de form a algum a, m uito m enos agora que o elo entre nós
havia sido legitim ado. Depois de eu ter contado os m otivos de estar na Turquia, ela
intensificou ainda m ais a m assagem , feito para fazer a sua parte na tentativa de m e
desvencilhar do passado. Sentia que ela não estava apenas distendendo m eus
m úsculos, m as tam bém  lutando contra tudo o que eu acabara de contar.
Estava deitada de bruços quando a m enina se foi. Nem  sequer pude dizer adeus,
olhar em  seus olhos um a últim a vez. Quando Sihem  term inou a m assagem , ela não
estava m ais lá. Procurei-a, tensa. Não, ela não poderia ter desaparecido assim .
Com o poderei prosseguir a viagem  sem  ela? Sem  os seus seios que j am ais toquei?
Sem  a sua boca que j am ais beij ei? Não, ela não poderia ter ido sem  m e dizer
adeus.
Acho que Sihem  ficou com igo m ais do que o de costum e: quase um a hora,
im agino. Eu estava exaurida da viagem , de tantas novidades. Exausta só de pensar
em  tudo o que viria pela frente. Será que encontraria a casa dos m eus
antepassados? Que a chave ainda seria a m esm a? Eu tentava acreditar nessa
história que tinha inventado para m im  m esm a, nessa história que ainda invento e
que é a única capaz de m e dar algum a resposta. Nessa história que pode ser a m ais
descabida, m as tam bém  a m ais real. Não sei até que ponto são verdadeiras as
histórias do m eu avô, até que ponto é verdadeiro o que vivo agora. Nem  m esm o sei
se é verdadeira a m inha viagem . Parece que quanto m ais m e aproxim o dos fatos
m ais m e afasto da verdade.
Hoj e m e m asturbei pensando em  você com  outra. Será que estou ficando

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