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DADOS DE COPYRIG HT
Sobre a obra:
A presente obra é disponibilizada pela equipe 
Le Livros
 e seus diversos parceiros, com  o obj etivo
de oferecer conteúdo para uso parcial em  pesquisas e estudos acadêm icos, bem  com o o sim ples
teste da qualidade da obra, com  o fim  exclusivo de com pra futura.
É expressam ente proibida e totalm ente repudíavel a venda, aluguel, ou quaisquer uso com ercial
do presente conteúdo
Sobre nós:

Le Livros
 e seus parceiros disponibilizam  conteúdo de dom inio publico e propriedade
intelectual de form a totalm ente gratuita, por acreditar que o conhecim ento e a educação devem
ser acessíveis e livres a toda e qualquer pessoa. Você pode encontrar m ais obras em  nosso site:
LeLivros.us
 ou em  qualquer um  dos sites parceiros apresentados 
neste link
.
"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e
poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

S. Bernardo
88ª EDIÇÃO

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
R143c
Ramos, Graciliano, 1892-1953
88ª ed.
S. Bernardo [recurso eletrônico] /
Graciliano Ramos; posfácio de
Godofredo de Oliveira Neto. – 88ª ed. –
Ed. revista. – Rio de Janeiro: Record,
2009.
Formarto: ePub
Requisitos do sistema: Adobe
digital Editions
Modo de acesso: World Wide Web
ISBN: 978-85-01-09125-3 (recurso
eletrônico)
1. Romance brasileiro. 2. Livros
eletrônicos. I. Título.

10-6426
869.93
821.134.3(81)-
3
09.12.10
20.12.10
Copy right © by  herdeiros de Graciliano Ram os
http://www.graciliano.com .br
Reservados todos os direitos de tradução e adaptação
posfácio Godofredo de Oliveira Neto
capa eg.design / Evely n Grum ach
ilustração Darel
foto do autor Arquivo da fam ília
finalização da capa eg.design / Fernanda Garcia
proj eto gráfico de m iolo da versão im pressa eg.design / Evely n
Grum ach e Fernanda Garcia
Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa
Direitos exclusivos desta edição reservados pela
EDITORA RECORD LTDA.
Rua Argentina 171 – Rio de Janeiro, rj  – 20921-380 – Tel.: 2585-
2000
Produzido
no Brasil
ISBN 978-

85-01-09125-
3
PEDIDOS
PELO
REEMBOLSO
POSTAL
Caixa
Postal 23.052
Rio de
Janeiro, RJ –
20922-970

Nota do editor
Esta nova edição de S. Bernardo teve com o base a 3ª edição do rom ance,
publicado pela J. Oly m pio, com  as últim as correções feitas por Graciliano Ram os.
E, tam bém , retom a a grafia original do título. Os originais estão no Fundo
Graciliano Ram os, Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de
São Paulo.
Este proj eto de reedição da obra de Graciliano Ram os é supervisionado por
Wander Melo Miranda, professor titular de Teoria da Literatura da Universidade
Federal de Minas Gerais.

A
I
ntes de iniciar este livro, im aginei construí-lo pela divisão do trabalho.
Dirigi-m e a alguns am igos, e quase todos consentiram  de boa vontade em
contribuir para o desenvolvim ento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria
com  a parte m oral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a
ortografia e a sintaxe; prom eti ao Arquim edes a com posição tipográfica; para a
com posição literária convidei Lúcio Gom es de Azevedo Gondim , redator e diretor
do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudim entos de agricultura e
pecuária, faria as despesas e poria o m eu nom e na capa.
Estive um a sem ana bastante anim ado, em  conferências com  os principais
colaboradores, e j á via os volum es expostos, um  m ilheiro vendido graças aos
elogios que, agora com  a m orte do Costa Brito, eu m eteria na esfom eada Gazeta,
m ediante lam buj em . Mas o otim ism o levou água na fervura, com preendi que não
nos entendíam os.
João Nogueira queria o rom ance em  língua de Cam ões, com  períodos
form ados de trás para diante. Calculem .
Padre Silvestre recebeu-m e friam ente. Depois da revolução de Outubro,
tornou-se um a fera, exige devassas rigorosas e castigos para os que não usaram
lenços verm elhos. Torceu-m e a cara. E éram os am igos. Patriota. Está direito: cada
qual tem  as suas m anias.
Afastei-o da com binação e concentrei as m inhas esperanças em  Lúcio Gom es
de Azevedo Gondim , periodista de boa índole e que escreve o que lhe m andam .
Trabalham os alguns dias. À tardinha Azevedo Gondim  entregava a redação ao
Arquim edes, trancava a gaveta onde guarda os níqueis e as pratas, tom ava a
bicicleta e, pedalando m eia hora pela estrada de rodagem  que ultim am ente
Casim iro Lopes andava a consertar com  dois ou três hom ens, alcançava S.
Bernardo. Com entava os telegram as dos j ornais, atacava o governo, bebia um  copo
de conhaque que Maria das Dores lhe trazia e, sentindo-se necessário, com andava
com  subm issão:
— Vam os a isso.
Íam os para o alpendre, m ergulhávam os em  cadeiras de vim e e aj eitávam os o
enredo, fum ando, olhando as novilhas caracus que pastavam  no prado, em baixo, e
m ais longe, à entrada da m ata, o telhado verm elho da serraria.
A princípio tudo correu bem , não houve entre nós nenhum a divergência. A
conversa era longa, m as cada um  prestava atenção às próprias palavras, sem  ligar
im portância ao que o outro dizia. Eu por m im , entusiasm ado com  o assunto,
esquecia constantem ente a natureza do Gondim  e chegava a considerá-lo um a
espécie de folha de papel destinada a receber as ideias confusas que m e
fervilhavam  na cabeça.
O resultado foi um  desastre. Quinze dias depois do nosso prim eiro encontro, o
redator do Cruzeiro apresentou-m e dois capítulos datilografados, tão cheios de
besteiras que m e zanguei:
— Vá para o inferno, Gondim . Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está

safado, está idiota. Há lá ninguém  que fale dessa form a!
Azevedo Gondim  apagou o sorriso, engoliu em  seco, apanhou os cacos da sua
pequenina vaidade e replicou am uado que um  artista não pode escrever com o fala.
— Não pode? perguntei com  assom bro. E por quê?
Azevedo Gondim  respondeu que não pode porque não pode.
— Foi assim  que sem pre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente
discute, briga, trata de negócios naturalm ente, m as arranj ar palavras com  tinta é
outra coisa. Se eu fosse escrever com o falo, ninguém  m e lia.
Levantei-m e e encostei-m e à balaustrada para ver de perto o touro lim osino
que Marciano conduzia ao estábulo. Um a cigarra com eçou a chiar. A velha
Margarida veio vindo pelo paredão do açude, curvada em  duas. Na torre da igrej a
um a coruj a piou. Estrem eci, pensei em  Madalena. Em  seguida enchi o cachim bo:
— É o diabo, Gondim . O m ingau virou água. Três tentativas falhadas num  m ês!
Beba conhaque, Gondim .

A
II
bandonei a em presa, m as um  dia destes ouvi novo pio de coruj a — e
iniciei a com posição de repente, valendo-m e dos m eus próprios recursos e
sem  indagar se isto m e traz qualquer vantagem , direta ou indireta.
Afinal foi bom  privar-m e da cooperação de padre Silvestre, de João Nogueira e
do Gondim . Há fatos que eu não revelaria, cara a cara, a ninguém . Vou narrá-los
porque a obra será publicada com  pseudônim o. E se souberem  que o autor sou eu,
naturalm ente m e cham arão potoqueiro.
Continuem os. Tenciono contar a m inha história. Difícil. Talvez deixe de
m encionar particularidades úteis, que m e pareçam  acessórias e dispensáveis.
Tam bém  pode ser que, habituado a tratar com  m atutos, não confie suficientem ente
na com preensão dos leitores e repita passagens insignificantes. De resto isto vai
arranj ado sem  nenhum a ordem , com o se vê. Não im porta. Na opinião dos
caboclos que m e servem , todo o cam inho dá na venda.
Aqui sentado à m esa da sala de j antar, fum ando cachim bo e bebendo café,
suspendo às vezes o trabalho m oroso, olho a folhagem  das laranj eiras que a noite
enegrece, digo a m im  m esm o que esta pena é um  obj eto pesado. Não estou
acostum ado a pensar. Levanto-m e, chego à j anela que deita para a horta. Casim iro
Lopes pergunta se m e falta algum a coisa.
— Não.
Casim iro Lopes acocora-se num  canto. Volto a sentar-m e, releio estes períodos
chinfrins.
Ora vej am . Se eu possuísse m etade da instrução de Madalena, encoivarava isto
brincando. Reconheço finalm ente que aquela papelada tinha préstim o.
O que é certo é que, a respeito de letras, sou versado em  estatística, pecuária,
agricultura, escrituração m ercantil, conhecim entos inúteis neste gênero.
Recorrendo a eles, arrisco-m e a usar expressões técnicas, desconhecidas do
público, e a ser tido por pedante. Saindo daí, a m inha ignorância é com pleta. E não
vou, está claro, aos cinquenta anos, m unir-m e de noções que não obtive na
m ocidade.
Não obtive, porque elas não m e tentavam  e porque m e orientei num  sentido
diferente. O m eu fito na vida foi apossar-m e das terras de S. Bernardo, construir
esta casa, plantar algodão, plantar m am ona, levantar a serraria e o descaroçador,
introduzir nestas brenhas a pom icultura e a avicultura, adquirir um  rebanho bovino
regular. Tudo isso é fácil quando está term inado e em bira-se em  duas linhas, m as
para o suj eito que vai com eçar, olha os quatro cantos e não tem  em  que se pegue,
as dificuldades são terríveis. Há tam bém  a capela, que fiz por insinuações de padre
Silvestre.
Ocupado com  esses em preendim entos, não alcancei a ciência de João
Nogueira nem  as tolices do Gondim . As pessoas que m e lerem  terão, pois, a
bondade de traduzir isto em  linguagem  literária, se quiserem . Se não quiserem ,
pouco se perde. Não pretendo bancar escritor. É tarde para m udar de profissão. E o
pequeno que ali está chorando necessita quem  o encam inhe e lhe ensine as regras

de bem  viver.
— Então para que escreve?
— Sei lá!
O pior é que j á estraguei diversas folhas e ainda não principiei.
— Maria das Dores, outra xícara de café.
Dois capítulos perdidos. Talvez não fosse m au aproveitar os do Gondim , depois
de expurgados.

C
III
om eço declarando que m e cham o Paulo Honório, peso oitenta e nove
quilos e com pletei cinquenta anos pelo S. Pedro. A idade, o peso, as
sobrancelhas cerradas e grisalhas, este rosto verm elho e cabeludo têm -m e
rendido m uita consideração. Quando m e faltavam  estas qualidades, a consideração
era m enor.
Para falar com  franqueza, o núm ero de anos assim  positivo e a data de S. Pedro
são convencionais: adoto-os porque estão no livro de assentam entos de batizados da
freguesia. Possuo a certidão, que m enciona padrinhos, m as não m enciona pai nem
m ãe. Provavelm ente eles tinham  m otivos para não desej arem  ser conhecidos. Não
posso, portanto, festej ar com  exatidão o m eu aniversário. Em  todo o caso, se
houver diferença, não deve ser grande: m ês a m ais ou m ês a m enos. Isto não vale
nada: acontecim entos im portantes estão nas m esm as condições.
Sou, pois, o iniciador de um a fam ília, o que, se por um  lado m e causa algum a
decepção, por outro lado m e livra da m açada de suportar parentes pobres,
indivíduos que de ordinário escorregam  com  um a sem -vergonheza da peste na
intim idade dos que vão trepando.
Se tentasse contar-lhes a m inha m eninice, precisava m entir. Julgo que rolei por
aí à toa. Lem bro-m e de um  cego que m e puxava as orelhas e da velha Margarida,
que vendia doces. O cego desapareceu. A velha Margarida m ora aqui em  S.
Bernardo, num a casinha lim pa, e ninguém  a incom oda. Custa-m e dez m il-réis por
sem ana, quantia suficiente para com pensar o bocado que m e deu. Tem  um  século,
e qualquer dia destes com pro-lhe m ortalha e m ando enterrá-la perto do altar-m or
da capela.
Até os dezoito anos gastei m uita enxada ganhando cinco tostões por doze horas
de serviço. Aí pratiquei o m eu prim eiro ato digno de referência. Num a sentinela,
que acabou em  furdunço, abrequei a Germ ana, cabritinha sarará danadam ente
assanhada, e arrochei-lhe um  beliscão retorcido na popa da bunda. Ela ficou-se
m ij ando de gosto. Depois botou os quartos de banda e enxeriu-se com  o João
Fagundes, um  que m udou o nom e para furtar cavalos. O resultado foi eu arrum ar
uns cocorotes na Germ ana e esfaquear João Fagundes. Então o delegado de polícia
m e prendeu, levei um a surra de cipó de boi, tom ei cabacinho e estive de m olho,
pubo, três anos, nove m eses e quinze dias na cadeia, onde aprendi leitura com  o
Joaquim  sapateiro, que tinha um a bíblia m iúda, dos protestantes.
Joaquim  sapateiro m orreu. Germ ana arruinou. Quando m e soltaram , ela estava
na vida, de porta aberta, com  doença do m undo.
Nesse tem po eu não pensava m ais nela, pensava em  ganhar dinheiro. Tirei o
título de eleitor, e seu Pereira, agiota e chefe político, em prestou-m e cem  m il-réis
a j uro de cinco por cento ao m ês. Paguei os cem  m il-réis e obtive duzentos com  o
j uro reduzido para três e m eio por cento. Daí não baixou m ais, e estudei aritm ética
para não ser roubado além  da conveniência.
De bicho na capação (falando com  pouco ensino), esperneei nas unhas do
Pereira, que m e levou m úsculo e nervo, aquele m alvado. Depois vinguei-m e:

hipotecou-m e a propriedade e tom ei-lhe tudo, deixei-o de tanga. Mas isso foi m uito
m ais tarde.
A princípio o capital se desviava de m im , e persegui-o sem  descanso, viaj ando
pelo sertão, negociando com  redes, gado, im agens, rosários, m iudezas, ganhando
aqui, perdendo ali, m archando no fiado, assinando letras, realizando operações
em brulhadíssim as. Sofri sede e fom e, dorm i na areia dos rios secos, briguei com
gente que fala aos berros e efetuei transações com erciais de arm as engatilhadas.
Está um  exem plo. O dr. Sam paio com prou-m e um a boiada, e na hora da onça
beber água deu-m e com  o cotovelo, ficou palitando os dentes. Andei, virei, m exi,
procurei em penhos — e ele duro com o beira de sino. Chorei as m inhas desgraças:
tinha obrigações em  penca, aquilo não era trato, e tal, enfim , etc. O safado do
velhaco, turuna, hom em  de facão grande no m unicípio dele, passou-m e um
esbregue. Não desanim ei: escolhi uns rapazes em  Cancalancó e quando o doutor ia
para a fazenda, caí-lhe em  cim a, de supetão. Am arrei-o, m eti-m e com  ele na
capoeira, estraguei-lhe os couros nos espinhos dos m andacarus, quipás, alastrados e
rabos-de-raposa.
— Vam os ver quem  tem  roupa na m ochila. Agora eu lhe m ostro com  quantos
paus se faz um a canoa.
O doutor, que ensinou rato a furar alm otolia, sacudiu-m e a j ustiça e a religião.
— Que j ustiça! Não há j ustiça nem  há religião. O que há é que o senhor vai
espichar aqui trinta contos e m ais os j uros de seis m eses. Ou paga ou eu m ando
sangrá-lo devagarinho.
Dr. Sam paio escreveu um  bilhete à fam ília e entregou-m e no m esm o dia trinta
e seis contos e trezentos. Casim iro Lopes foi o portador. Passei o recibo, agradeci e
despedi-m e:
— Obrigado, Deus o acrescente. Sinto m uito ter-lhe causado incôm odo. Adeus.
E não m e venha com  a sua j ustiça, porque se vier, eu viro cachorro doido e o
senhor m orre na faca cega.
Não tornei a aparecer por aquelas bandas. Se tornasse, era um  tiro de pé de pau
na certa, a cara esfolada para não ser reconhecido quando m e encontrassem  com
os dentes de fora, fazendo m unganga ao sol, e a supressão da m inha fortuna, que eu
conduzia dentro de um  chocalho grande, arrolhado com  folhas e pendurado no
arção da sela. Ali estava em  segurança: se o dinheiro e as folhas caíssem , o
chocalho tocava.
Afinal, cansado daquela vida de cigano, voltei para a m ata. Casim iro Lopes,
que não bebia água na ribeira do Navio, acom panhou-m e. Gosto dele. É coraj oso,
laça, rastej a, tem  faro de cão e fidelidade de cão.

R
IV
esolvi estabelecer-m e aqui na m inha terra, m unicípio de Viçosa, Alagoas,
e logo planeei adquirir a propriedade S. Bernardo, onde trabalhei, no eito,
com  salário de cinco tostões.
Meu antigo patrão, Salustiano Padilha, que tinha levado um a vida de econom ias
indecentes para fazer o filho doutor, acabara m orrendo do estôm ago e de fom e
sem  ver na fam ília o título que am bicionava. Com o quem  não quer nada, procurei
avistar-m e com  Padilha m oço (Luís). Encontrei-o no bilhar, j ogando bacará,
com pletam ente bêbedo. Está claro que o j ogo é um a profissão, em bora censurável,
m as o hom em  que bebe j ogando não tem  j uízo. Aperuei m eia hora e percebi que o
rapaz era pexote e estava sendo roubado descaradam ente.
Travei am izade com  ele e em  dois m eses em prestei-lhe dois contos de réis, que
ele sapecou depressa na orelha da sota e em  folias de bacalhau e aguardente, com
fêm eas ratuínas, no Pão-sem -Miolo. Vi essas m aluqueiras bastante satisfeito, e
quando um  dia, de novo quebrado, ele m e veio convidar para um  S. João na
fazenda, afrouxei m ais quinhentos m il-réis. Ao ver a letra, fingi desprendim ento:
— Para que isso? Entre nós... Form alidades.
Mas guardei o papel.
Achei a propriedade em  cacos: m ato, lam a e potó com o os diabos. A casa-
grande tinha paredes caídas, e os cam inhos estavam  quase intransitáveis. Mas que
terra excelente!
À noite, enquanto a negrada sam bava, num  forrobodó em pestado, levantando
poeira na sala, e a m úsica de zabum ba e pífanos tocava o hino nacional, Padilha
andava com  um  lote de caboclas fazendo voltas em  redor de um  tacho de canj ica,
no pátio que os m uçam bês invadiam . Tirei-o desse interessante divertim ento:
— Por que é que você não cultiva S. Bernardo?
— Com o? perguntou Padilha esfregando os olhos por causa da fum aça e
encostando-se a um  m am oeiro que m urchava ao calor do fogo.
— Tratores, arados, um a agricultura decente. Você nunca pensou? Quanto
j ulga que isto rende, sendo bem  aproveitado?
Luís Padilha revelou com  a m ão e com  o beiço ignorância lastim ável num
proprietário e, sem  ligar im portância ao assunto, voltou às rodas interrom pidas e às
caboclas. Mas de m adrugada, num a carraspana terrível, im portunou-m e gem endo
palavras desconexas. A cada solavanco do carro de bois que nos conduzia à cidade,
levantava a cabeça:
— Tudo rico, seu Paulo. Vai ser um a desgraceira.
Agarrava-se a um  fueiro do carro e punha-se a vom itar. Depois pegava no sono
para acordar agoniado e arrotando:
— Arados, não há nada com o os arados.
Apareceu-m e no dia seguinte, ainda com  vestígios do pifão:
— Seu Paulo Honório, venho consultá-lo. O senhor, hom em  prático...
— Às ordens.
— Creio que j á lhe disse que resolvi cultivar a fazenda.

— Mais ou m enos.
— Resolvi. Aquilo com o está não convém . Produz bastante, m as poderá
produzir m uito m ais. Com  arados... O senhor não acha? Tenho pensado num a
plantação de m andioca e num a fábrica de farinha, m oderna. Que diz?
Burrice. Estragar terra tão fértil plantando m andioca!
— É bom .
E não prestei m ais atenção ao caso, deixei que ele se entusiasm asse só e fosse
discutir o seu proj eto no Gurganem a, à noite, ao som  do violão. Realm ente
transform ou-se. Nas pedras do Paraíba, com  um a garrafa de cachaça, aperreava
os com panheiros de farra — declam ando sem entes e adubos quím icos. Tornou-se
regularm ente vaidoso, desej ava aprender agronom ia, e em  pouco tem po a cidade
inteira conheceu as plantações, as m áquinas, a fábrica de farinha.
— Com o vai a lavoura, Padilha?
A princípio respondia, depois com preendeu o ridículo e deu para se esquivar,
m agoado com  as perfídias dos am igos.
— Selvagens! rosnava aguentando as batotas no bacará. Vam os para diante.
E a gente ficava sem  saber se ele se referia aos parceiros que o pelavam  ou aos
cam aradas que m angavam  dele. Procurou-m e e desabafou:
— Selvagens! Um  em preendim ento de vulto, o senhor está vendo, e esses
burros vêm  com  picuinha. Aqui ninguém  entende nada, seu Paulo, isto é um  lugar
infeliz. Aqui só se cogita de safadeza e pulhice.
Cheio de am argura, abalada a decisão dos prim eiros dias, confessou-m e que
tinha tentado contrair um  em préstim o com  o Pereira.
— Cavalo! Fiz um a exposição m inuciosa, dem onstrei cabalm ente que o negócio
é m agnífico. Não acreditou, disse que estava no pau da arara. E eu calculei que
talvez a transação lhe interessasse. Quer desem bolsar aí uns vinte contos?
Exam inei sorrindo aquele bichinho am arelo, de beiços delgados e dentes
podres.
— Ó Padilha, gracej ei, você j á fechou cigarros?
Padilha com prava cigarros feitos.
— É m ais côm odo, concordei, m as é m ais caro. Pois, Padilha, se você tivesse
fechado cigarros, sabia com o é difícil enrolar um  m ilheiro deles. Im agine agora
que dá m ais trabalho ganhar dez tostões que fechar um  cigarro. E um  conto de réis
tem  m il notas de dez tostões. Vinte contos de réis são vinte m il notas de dez tostões.
Parece que você ignora isto. Fala em  vinte contos assim  com  essa carinha, com o se
dinheiro fosse papel suj o. Dinheiro é dinheiro.
Padilha baixou a cabeça e resm ungou am uado que sabia contar. Saiu, voltou
outras vezes, insistindo.
— Eu sou capitalista, hom em ? Você quer-m e arrasar?
Padilha rezingava e oferecia a hipoteca de S. Bernardo.
— Bobagem ! S. Bernardo não vale o que um  periquito rói. O Pereira tem  razão.
Seu pai esbagaçou a propriedade.
Afinal prom eti vagam ente:

— Está bem . Vou refletir.
No outro dia ainda estava refletindo:
— Vam os ver, Padilha. Dinheiro é dinheiro.
Passei um a sem ana nesse j ogo, colhendo inform ações sobre a idade, a saúde e
a fortuna do velho Mendonça. Quando m e decidi, suj eitos prudentes j uraram  que

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