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1. Fala-se em  tem pos do “hardware” e do “software”. O que isso significa e
que consequências tem  para as m aneiras com o conduzim os nossa vida?

2.  As  com unicações  estão  libertadas  dos  lim ites  que  lhe  são  im postos  por
“pessoas e obj etos m ateriais”?
3. A designação “am eaça” é endereçada àquilo que se encontra no interior de
um a vizinhança, m as cuj a fonte real está m ais distante?
4.  Quais  são  as  relações  entre  a  atividade  de  resolução  de  problem as  e  as
fronteiras?
Sugestões de leitura
ADAM, Barbara. Timewatch: The Social Analysis of Time. Cam bridge, Polity,
1995.
Um a das prim eiras teóricas sociais do tem po, Barbara Adam  se debruça
sobre as m aneiras com o o tem po conform a nossas vidas em  m uitas áreas, por
exem plo, na saúde e no trabalho.
BAUMAN, Zy gm unt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001.
[Liquid Modernity. Cam bridge, Polity, 1995.]
Um a análise da fluidez da vida, que discutim os aqui, com  relação a tópicos
com o trabalho, tem po e espaço, com unidade, em ancipação e individualidade.
WATERS, Malcolm . Globalization (Key Ideas). Londres/Nova York, Routledge,
1995.
Boa visão geral do conceito de globalização e de suas im plicações para nossa
vida.
WILLIAMS, Ray m ond. Cultura. São Paulo, Paz e Terra, 2000. [Culture. Londres,
Fontana, 1989.]
Ray m ond William s devota sua atenção à ideia de cultura e ao m otivo por que
ela se tornou tão im portante para um a com preensão das relações sociais,
assim  com o analisa o quanto ela se relaciona a sua posição teórica,
denom inada “m aterialism o cultural”.

. 8 .
Traçar fronteiras: cultura, natureza, Estado e território
No  final  do  Capítulo  7,  abrim os  de  m aneira  explícita  um   debate  que  vínham os
tratando  im plicitam ente  até  então  e  que  pode  ser  expressado  nos  seguintes
term os:  a  própria  m aneira  com o  pensam os  um   problem a  e  o  analisam os
originará as soluções que serão consideradas a ele adequadas. Por esse ponto de
vista, pensar diferente não é atividade com placente. Pelo contrário, costum a ser
o prim eiro passo para a construção de soluções m ais práticas e duradouras para
as questões que enfrentam os no m undo contem porâneo.
Natureza e cultura
Considere as ideias debatidas no Capítulo 7 a respeito de um  m odo “m oderno” de
pensar  as  diferenças  entre  natureza  e  cultura,  assim   então  posicionadas  de
m aneira agudam ente distante. Pode-se dizer que a natureza e a sociedade foram
“descobertas”  ao  m esm o  tem po,  em bora  o  que  foi  descoberto  na  verdade  não
tenha  sido  nem   a  natureza  nem   a  sociedade,  m as  a  distinção  entre  elas  e,  em
especial, a diferenciação das práticas que cada um a perm ite ou origina. Com o as
circunstâncias  hum anas  pareceram   cada  vez  m ais  produtos  de  legislação,
adm inistração  e  intervenção  em   geral,  a  “natureza”  assum iu  o  papel  de  um
enorm e  depósito  para  tudo  que  os  poderes  hum anos  não  poderiam   ainda  ter
m oldado  ou  que  para  tal  nem   teriam   am bição.  Esse  “tudo”  significa  o  que  se
considera ser governado por sua própria lógica e deixado pelos seres hum anos a
seus próprios expedientes.
Mudanças no pensam ento social tam bém  se deram  nessa época. Os filósofos
com eçaram   a  falar  sobre  “leis  da  natureza”  para  fazer  analogia  com   as  leis
prom ulgadas  por  reis  ou  parlam entos,  m as  tam bém   para  delas  as  distinguir.
Equiparáveis  às  dos  reis,  as  “leis  naturais”  eram ,  portanto,  obrigatórias,  m as  ao
contrário dos decretos reais, não tinham  autor hum ano concebível. Sua força era
portanto  “sobre-hum ana”,  fossem   estabelecidas  pela  vontade  de  Deus  e  seus
propósitos  inescrutáveis,  fossem   causal  e  diretam ente  determ inadas,  por
incontestável  necessidade,  pela  m aneira  com o  foram   arranj ados  os  assuntos
cósm icos.
Essas  distinções  (com o  j á  sugerim os)  tam bém   estabeleceram   um   m odo  de

form ação  de  fronteiras  sociais  –  por  exem plo,  a  suposição  de  que  os  hom ens
eram   “racionais”  e,  assim ,  capazes  de  transcender  as  dem andas  da  natureza,
enquanto  as  m ulheres  eram   “em ocionais”  e  suj eitas  a  forças  im pulsivas  da
natureza.  Por  equivalência,  havia  países  desenvolvidos,  que  exibiam
determ inados  princípios  capazes  de  distingui-los  de  outros,  cham ados,  segundo
sua perspectiva, de “não civilizados”.
Essas  m udanças  causaram   transform ações  tanto  em   nossas  m aneiras  de  ver
quanto  de  agir.  Considerem os,  por  exem plo,  as  distinções  que  estabelecem os
entre o que supostam ente está subm etido ao “poder hum ano” a fim  de alterá-lo
de  acordo  com   nossos  desej os,  ideais  e  obj etivos.  Elas  são  conform adas  pela
existência de algum  padrão ou norm a a que esse “algo” deva subm eter-se. Há,
portanto,  o  que  pode  ser  m udado  pela  intervenção  hum ana  e  ser  form ado  de
acordo com  expectativas particulares. Essas coisas devem  ser tratadas de m odo
diferente  de  outras,  que  perm anecem   além   do  poder  hum ano.  As  prim eiras
denom inam os cultura,  as  outras,  natureza.  Assim ,  quando  pensam os  que  algo  é
um a questão de cultura m ais que de natureza, estam os inferindo que se trata de
algo m anipulável e, além  disso, que há um  fim  desej ável, “apropriado”, para tal
m anipulação.
Cultura diz respeito a m odificar coisas, tornando-as diferentes do que são e do
que,  de  outra  m aneira,  poderiam   ser,  e  m antê-las  dessa  form a  inventada,
artificial. A cultura tem  a ver com  a introdução e a m anutenção de determ inada
ordem  e com  o com bate a tudo que dela se afaste, com o indicativo de descida ao
caos.  Tem   a  ver,  então,  com   a  substituição  ou  com plem entação  da  “ordem
natural”  (o  estado  das  coisas  sem   interferência  hum ana)  por  outra,  artificial,
proj etada. E a cultura não só prom ove, m as tam bém  avalia e ordena.
Assim , a “solução” vendida para m uitos negócios em  nom e da produtividade
é um a introdução da cultura “correta” em  um  sistem a que, por sua vez, perm eia
toda  a  organização,  perm itindo  a  cada  pessoa  avaliar-se  de  acordo  com   suas
habilidades  de  corresponder  às  expectativas.  Nesse  processo,  o  que  não  está  de
acordo  com   os  ideais  conform adores  dessas  transform ações  ou  que  chega
m esm o  a  questioná-las  é  considerado  im pedim ento  “desordeiro”  à  perseguição
de obj etivos com o “qualidade”, “eficiência” e “efetividade”.
O  ponto  exato  da  linha  divisória  entre  natureza  e  cultura  depende,
naturalm ente,  de  habilidades,  conhecim entos  e  recursos  disponíveis,  e  da
existência  ou  não  de  am bição  de  estendê-los  para  finalidades  previam ente  não
testadas.  Em   geral,  o  desenvolvim ento  da  ciência  e  da  tecnologia  am plia  o
espaço de m anipulação possível e, portanto, o dom ínio da cultura.
Retom ando  um   de  nossos  exem plos  originais,  o  know-how  e  a  prática  da
engenharia  genética,  som ados  à  indústria  quím ica  e  aos  m em bros  da  profissão
m édica,  podem   bem   transferir  os  padrões  conform adores  do  que  sej a  um   ser
hum ano  “norm al”.  Dando-se  um   passo  à  frente  nessa  hipótese,  se  o  controle

genético é aplicado à regulação da altura, poderão os pais decidir quão alta sua
prole será? Ou um a lei aprovada e endossada pela autoridade estatal determ inará
a altura norm al e, portanto, aceitável dos cidadãos? Nesse sentido, a cultura pode
parecer ao indivíduo algo m uito próxim o às leis da natureza: destino contra o qual
ele não se pode revoltar, sendo a rebelião, em  últim a análise, um  gesto fútil.
Observem os  em   m aiores  detalhes  os  “elem entos  feitos  pelo  hom em ”  com
que lidam os em  nossa vida. Eles podem  penetrar o espaço que ocupam os de duas
m aneiras. Em  prim eiro lugar, regulam  e m antêm  em  ordem  o contexto em  que
são  conduzidos  nossos  processos  individuais  de  vida.  Em   segundo  lugar,  podem
dar  form a  aos  m otivos  e  às  finalidades  desses  m esm os  processos.  Um   nos
perm ite  racionalizar  nossas  ações,  tornando-as  um   pouco  m ais  sensíveis  e
razoáveis  em   com paração  a  outras  form as  de  conduta.  O  outro  nos  orienta  em
term os  de  selecionar  determ inados  m otivos  e  finalidades  em   m eio  aos
inum eráveis outros, que podem  até estar além  de nossa im aginação. Eles não são
distintos de outros am bientes com  que nos deparam os, pois cada um a de nossas
ações tem  efeitos sobre outros am bientes que habitam os e com  que interagim os
em  nosso cotidiano. Para tom ar um  exem plo em  term os de tecnologia m oderna,
a introdução dos telefones m óveis teria oferecido ao usuário recursos de m elhor
qualidade  para  sua  com unicação,  ainda  que  em   alguns  contextos  seu  uso  tenha
sido considerado antissocial e até prej udicial.
Podem os  distinguir  a  ordem   possibilitada  pela  intervenção  cultural  da
aleatoriedade ou do caos observando que em  situação de ordem  nem  tudo pode
acontecer.  De  um   conj unto  virtualm ente  infinito  de  eventos  concebíveis,  só  um
núm ero  finito  pode  ocorrer.  Assim ,  diferentes  eventos  apresentam   diferentes
graus  de  probabilidade,  deixando  com o  critério  do  sucesso  para  o
estabelecim ento  da  ordem   a  transform ação  do  outrora  im provável  em
necessário  ou  inevitável.  Nesse  sentido,  proj etar  ordem   significa  m anipular  a
probabilidade dos eventos. Inform am  esse processo preferências e prioridades de
acordo com  valores particulares velados e depois incorporados a todas as ordens
artificiais.  Um a  ordem   entranhada,  sólida  e  segura,  sua  verdade  pode  ser
esquecida, posto que a ordem  passa a ser percebida com o a única im aginável.
Na condição de seres hum anos, todos tem os cotas de interesse na criação e na
m anutenção de um  am biente ordenado. Isso decorre do fato de a m aior parte de
nosso com portam ento ser aprendida e esse aprendizado acum ular-se ao longo do
tem po  graças  à  m em ória  transm itida  por  m eios  com o  narrativas  e  arquivos
docum entais.  Esses  conhecim entos  e  habilidades  acum ulados  perm anecem
benéficos  enquanto  o  contexto  em   que  se  form aram   perm anecer  inalterado.  É
graças  à  constância  do  m undo  à  nossa  volta  que  as  ações  antes  bem -sucedidas
perm aneçam ,  caso  repetidas  hoj e  e  am anhã.  Im agine  que  estrago  seria
produzido se, por exem plo, os significados das cores dos sinais de trânsito fossem
m udados  sem   aviso.  Em   um   m undo  aleatoriam ente  m utável,  m em ória  e

aprendizado  se  transform ariam   de  bênção  em   m aldição.  Nesse  contexto,
aprender com  a experiência anterior seria de fato um  ato suicida.
A  ordem   do  m undo  que  nos  cerca  tem   suas  contrapartidas  na  disposição
ordenadora  de  nosso  próprio  com portam ento.  Em   geral,  escolhem os  vias
diferentes para andar e dirigir. Não nos com portam os em  um a festa da m esm a
m aneira  que  em   um   sem inário  acadêm ico  ou  em   um a  reunião  de  negócios.
Conduzim o-nos de m odo diferente na casa de nossos pais durante as festas e em
um a visita form al a pessoas que não conhecem os. Usam os tom  de voz e palavras
diferentes  se  estam os  falando  com   nosso  chefe  ou  conversando  com   nossos
am igos. Há palavras que dizem os em  um a ocasião, m as evitam os em  outra. Há
coisas  que  fazem os  em   público,  m as  algum as  atividades  “privadas”  só
praticam os quando tem os certeza de não estarm os sendo observados.
Digno  de  nota,  porém ,  é  o  fato  de  que,  tendo  escolhido  um a  conduta
“apropriada”  para  determ inada  ocasião,  nos  encontrarm os  em   com panhia  de
outros,  que  se  com portam   exatam ente  com o  nós.  Assim ,  não  são  frequentes  os
afastam entos em  relação às aparentem ente regras, e isso confere certo grau de
previsibilidade  a  nossas  condutas,  à  dos  outros  e  à  das  instituições  com   que
tratam os e que orientam  nossas vidas.
A cultura, com o o trabalho que inventa a ordem  artificial, exige distinções, ou
sej a, separar coisas e pessoas por m eio de atos de segregação e discrim inação.
Em  um  deserto intocado pela atividade hum ana e indiferente aos propósitos dos
hom ens, não há placas nem  cercas que tornem  as partes do solo diferentes. Em
outras  palavras,  ele  é  am orfo.  Em   am bientes  suj eitos  à  ação  da  cultura,
entretanto,  um a  superfície  uniform e  e  plana  é  dividida  em   áreas  que  reúnem
algum as pessoas, m as repelem  outras, ou em  faixas destinadas só a veículos ou
apropriadas unicam ente a pedestres. O m undo adquire assim  um a estrutura  que
orienta as atividades.
As pessoas são classificadas em  superiores e inferiores, agentes da autoridade
e leigos, os que falam  e os que escutam  e devem  tom ar conhecim ento do que é
dito. De m odo sim ilar, o tem po corre em  fluxo uniform e por m eio de sua divisão
segundo  determ inadas  atividades  –  por  exem plo,  hora  do  café,  pausa  para  o
cafezinho, hora do alm oço, lanche e j antar. Em  term os de espaço, a delim itação
faz-se  de  acordo  com   com posição  e  localização  “físicas”  de  reuniões
particulares – estar em  um  sem inário, um a conferência, um  festival de cervej a,
um  j antar ou um a reunião de negócios.
Essas  distinções  são  traçadas  em   dois  planos.  O  prim eiro  é  a  “form a  do
m undo”  na  qual  a  ação  tem   lugar.  O  segundo  é  a  própria  ação.  As  partes  do
m undo são diferentes entre si, assim  com o diferentes em  si próprias, dependendo
dos  períodos  distinguidos  no  fluxo  do  tem po  (o  m esm o  edifício  pode  ser  um a
escola  pela  m anhã  e  um a  quadra  de  badm inton  à  noite).  As  ações  nelas
praticadas  são  tam bém   diferenciadas.  A  conduta  à  m esa  varia  radicalm ente,

dependendo do que for servido e em  que circunstâncias e com panhia se estiver. E
m esm o  essas  m aneiras  à  m esa  diferem   de  acordo  com   a  form alidade  ou
inform alidade  da  refeição,  assim   com o  com   o  status  social  dos  participantes,
com o Erving Goffm an e Pierre Bourdieu, entre outros, apontaram  nos resultados
de  seus  estudos  sociológicos.  Observam os,  entretanto,  que  a  divisão  em   dois
planos  é  produto  de  abstração.  Afinal,  eles  não  são  realm ente  independentes,
posto que não haveria j antares form ais se os com ensais não se com portassem  de
m aneira form al.
Podem os expressar esses atos de coordenação de outra m aneira, observando
que tanto o m undo social culturalm ente organizado quanto  o  com portam ento  de
indivíduos  treinados  pela  cultura  estruturam -se  no  sentido  de,  com   a  aj uda  das
oposições, ser “articulados” em  contextos sociais destacados. Em  resposta, esses
contextos  clam am   por  m anifestações  distintivas  de  conduta  e  classificam   os
padrões  de  com portam ento  considerados  apropriados  para  cada  ocasião.  Além
disso, essas duas articulações “correspondem ” um a à outra, ou, para usar term o
m ais técnico, elas são isom órficas. O dispositivo que garante a “sobreposição” de
estruturas  da  realidade  social  e  do  com portam ento  culturalm ente  regulado  é  o
código cultural.
Com o você provavelm ente j á se deu conta a esta altura, o código é sobretudo
um   sistem a  de  oposições.  Colocam -se  em   oposição  nesse  sistem a  os  signos  –
obj etos ou ocorrências perceptíveis por visão, audição, tato e olfato, com o luzes
de diferentes cores, elem entos de vestim enta, letreiros, declarações orais, tons de
voz,  gestos,  expressões  faciais,  perfum es  e  assim   por  diante.  Esses  signos
vinculam  o com portam ento dos atores e as figurações sociais por eles m antidas.
Eles apontam  dois sentidos ao m esm o tem po: para as intenções dos atores e para
um   dado  segm ento  da  realidade  social  em   que  eles  atuam .  Nenhum   dos  dois  é
m ero  reflexo  do  outro  ou  ocupa  posição  de  destaque  ou  secundária.  Am bos,
perm itam -nos  repetir,  só  existem   em   conj unto,  fundam entados  nas  m esm as
instalações do código cultural.
Pense, por exem plo, em  um  aviso de “proibida a entrada” afixado na porta de
um   escritório.  Ele  aparece,  em   regra,  só  de  um   lado  da  porta,  em   geral
destrancada  (fosse  a  porta  im possível  de  abrir,  não  haveria  necessidade  do
aviso).  Por  conseguinte,  a  m ensagem   não  fornece  inform ação  sobre  o  “estado
obj etivo”  da  porta.  Trata-se  m ais  de  um a  instrução,  com   o  obj etivo  de  criar  e
sustentar um a situação que, de outra m aneira, não teria lugar. O que as palavras
“proibida a entrada” fazem , na verdade, é distinguir os dois lados da porta, os dois
tipos  de  pessoas  que  dela  se  aproxim am   por  lados  opostos  e  os  dois  tipos  de
conduta esperados ou perm itidos. O espaço localizado atrás da face em  que está
o aviso é barrado àqueles que dele se aproxim am ; às pessoas do lado oposto (as
de  dentro  da  sala),  ao  contrário,  nenhum a  lim itação  é  im posta.  O  signo
representa  precisam ente  essa  distinção.  Sua  façanha  é  prom over  a

discrim inação, num  espaço que de outra m aneira seria uniform e, entre pessoas
igualm ente uniform es.
Podem os dizer, portanto, que conhecer o código é compreender o significado
dos signos, o que, por sua vez, significa saber com o proceder em  um a situação na
qual  eles  aparecem ,  além   de  com o  utilizá-los  para  provocar  tal  situação.
Com preender  é  ser  capaz  de  agir  efetivam ente  e,  desse  m odo,  sustentar  a
coordenação  entre  a  estrutura  da  situação  e  nossas  próprias  ações.  Diz-se  com
frequência que com preender um  signo é “captar” seu significado; entretanto, isso
não  corresponde  a  invocar  um   pensam ento  com o  im agem   m ental  dentro  de
nosso cérebro. Um  pensam ento, m anifestado talvez na form a de um a espécie de
“leitura em  voz alta” do signo em  nossa cabeça, pode certam ente acom panhar o
olhar  ou  o  som   do  signo;  “captar  o  significado”,  no  entanto,  quer  dizer  saber
com o agir; nem  m ais, nem  m enos.
Resulta daí que o significado de um  signo reside, por assim  dizer, na diferença
que faz sua presença ou sua ausência. Dito de outra m aneira, o significado de um
signo  reside  em   sua  relação  com   outros  signos.  Há  quem   dê,  com o  Jacques
Derrida, um  passo à frente sugerindo que, derivados exclusivam ente da relação
entre  signos,  os  significados  j am ais  podem   ser  fixos  ou  fixados.  Som os  inábeis
para  decidir  com   base  na  ideia  de  différance.  Nesse  sentido,  os  significados
fixados  sem pre  fazem   alusão  a  nós  ao  longo  do  tem po,  pela  necessidade  de
contínuos esclarecim entos e definições.
Na prática, o signo não costum a conter inform ação suficiente para fixar um a
relação  a  ponto  de  potencializar  um a  ação.  Um   signo  pode  ser  lido  de  m odo
incorreto, e, se isso ocorre, não há o que corrij a o erro. Por exem plo, a visão de
um  uniform e m ilitar revela, em  term os inequívocos, que a pessoa diante de nós
pertence  às  Forças  Arm adas.  Para  a  m aioria  dos  civis,  essa  inform ação  seria
suficiente para “estruturar” o encontro; entretanto, para esse m em bro das Forças
Arm adas,  com   sua  com plexa  hierarquia  de  poder  e  distribuição  de  deveres,  a
inform ação  veiculada  pelo  uniform e  pode  não  ser  suficiente,  e,  assim ,  outros
sinais de dem onstração de hierarquia são “em pilhados” sobre o signo prim eiro e
m ais geral (o uniform e), a fim  de com plem entar inform ações.
Em   determ inadas  casos,  o  excedente  de  signos  é  tam anho  que  pouco
acrescenta  à  inform ação  j á  repassada.  Determ inadas  táticas  de  m arketing,  por
exem plo,  em   sua  busca  de  distinção  de  produtos,  sim plesm ente  duplicam   a
inform ação j á contida em  outros signos.
Nesses casos, podem os recorrer à redundância dos signos. Nela encontram os
um   seguro  contra  erros,  baseado  na  elim inação  da  am bivalência  potencial
produzida  por  equívocos  de  leitura.  Não  fosse  a  redundância,  a  acidental
distorção  ou  om issão  m esm o  que  de  apenas  um   signo  poderia  disparar  o  tipo
indevido  de  com portam ento.  Caberia  até  sugerir  que,  quanto  m ais  im portantes
forem   as  oposições  entre  signos  para  a  m anutenção  e  o  avanço  da  ordem

estabelecida,  m ais  redundância  é  esperável.  Em   certo  nível,  isso  reduz  os
problem as  associados  ao  signo  m al  lido  e  procura  reduzir  o  mal-entendido  pelo
excesso  de  signos.  Esse  excesso,  contudo,  pode  ao  m esm o  tem po  aum entar  a
am biguidade  e  tornar  m ais  provável  o  surgim ento  de  significados  alternativos.
Assim ,  quando  se  busca  a  efetividade  com unicacional  para  coordenar  ações,
forçar  m uito  esse  em preendim ento  poderá  incluir  o  risco  de  introduzir  a
am biguidade e, a partir daí, um a com unicação distorcida.
Repetim os: é a oposição entre os signos que produz sentido, e não apenas um
signo tom ado isoladam ente. Isso dem anda que os significados a serem  “lidos” e
com preendidos residam  no sistem a de signos – no código cultural com o um  todo,
nas  distinções  que  faz,  e  não  na  suposta  ligação  especial  entre  o  signo  e  seu
referente.  Com o  foi  m encionado  em   relação  aos  argum entos  de  Derrida,  os
signos  têm ,  em   m eio  a  suas  características,  a  arbitrariedade,  traço  que  localiza
aqueles  culturalm ente  produzidos  (todo  o  sistem a  de  significação  hum anam ente
construído) afastados de qualquer coisa que se possa encontrar na natureza. Por
isso, o código cultural é algo de fato sem  precedentes.
Em   term os  da  m aneira  com o  adquirim os  o  conhecim ento  de  fenôm enos
naturais,  costum am os  nos  referir  a  “signos”  cuj a  natureza  nos  “inform a”  a
respeito  deles  próprios  e  que  têm   de  ser  lidos  a  fim   de  se  extrair  a  inform ação
que contêm . Assim , olham os para as gotas d’água que escorrem  pela vidraça da
j anela  e  concluím os:  “Está  chovendo.”  Ou  observam os  o  asfalto  m olhado  e
supom os que tenha chovido, e assim  por diante.
O  peculiar  em   signos  com o  estes  é  que,  ao  contrário  dos  culturais,  que
apresentam os antes, são todos determinados, isto é, são efeitos de suas respectivas
causas.  A  chuva  lança  gotas  d’água  na  vidraça  e  m olha  as  estradas;  a  doença
m uda  a  tem peratura  do  corpo  e  aquece  a  testa,  levando-nos  à  conclusão  de
febre.  Um a  vez  conhecidas  tais  conexões  causais,  podem os  reconstruir  os
m otivos  “invisíveis”  dos  efeitos  observados.  Para  evitar  confusão,  talvez  fosse
m elhor  falar  de  índices,  e  não  apenas  de  signos  quando  nos  referirm os  a
indicações determ inadas em  nosso raciocínio quanto a causas.
Sugerim os  que  as  causas  naturais  apontadas  em   nossos  exem plos  anteriores
im põem   lim itações  às  interpretações  do  fenôm eno  em   questão.  Antes,  porém ,
precisam os  especificar  dois  aspectos.  Em   prim eiro  lugar,  os  estudos  sociais  da
prática da ciência sugeriram  que m uito do que aparece com o interpretação nada
problem ática  dos  cham ados  eventos  naturais  é  na  verdade  socialm ente
produzido. O trabalho realizado em  laboratórios científicos, por exem plo, é um a
atividade  social  em   que  significados  sociais  desem penham   grande  e  im portante
papel, ao passo que m uitas inferências das ciências físicas são feitas a partir de
fenôm enos  nunca  observados.  Neste  últim o  exem plo,  não  são  colocadas
lim itações a interpretações possíveis pela observação.
Em  segundo lugar, dar-se conta do caráter arbitrário dos signos culturais não

sugere que eles não sej am  reais em  seus efeitos, isto é, eles im põem  coerções a
nosso com portam ento e às possibilidades com  que todos som os confrontados na
vida  social.  Nessa  m edida,  eles  ao  m esm o  tem po  potencializam   e  restringem
nossas atividades e a m aneira com o seus efeitos podem  variar de acordo com  o
contexto e nosso eventual poder para alterar esses efeitos.
Ser definido com o “pobre”, por exem plo, diz respeito não só a um a categoria
cultural  arbitrária,  m as  à  capacidade  dem onstrada  pelas  pessoas,  em   term os
m ateriais,  de  ser  capazes  de  possuir  dinheiro  suficiente  para  satisfazer  suas
necessidades diárias de acordo com  os padrões básicos da sociedade em  que se
encontram .
Assim ,  o  fato  de  os  signos  culturais  serem   arbitrários  não  equivale  à  total
liberdade  de  escolha.  Os  signos  m ais  livres  são  os  que  só  realizam   sua  função
discrim inatória  cultural  sem   servir  a  qualquer  outra  necessidade  além   da
com unicação hum ana. Trata-se, sobretudo, dos signos da linguagem , sistem a de
signos especializado na função de com unicação. Na linguagem  (e nela apenas),
por conseguinte, a arbitrariedade dos signos não im põe coerção algum a.
Os  sons  vocais  que  os  seres  hum anos  são  capazes  de  produzir  podem   ser
m odulados em  infinito núm ero de m aneiras totalm ente arbitrárias, um a vez que
existem  em  quantidade
suficiente  para  produzir  as  oposições  necessárias.  As  m esm as  oposições,  em
várias línguas, podem  ser interpretadas com  a aj uda de pares com o “m enino” e
“m enina”,  “quente”  e  “frio”,  “grande”  e  “pequeno”,  e  assim   por  diante.  A
linguagem  e o poder, com o Michel Foucault, Pierre Bourdieu e todos os linguistas
críticos  apontaram ,  tam bém   se  vinculam   de  m odo  a  lim itar  o  que  pode  ser
falado.
Os  sistem as  de  signos  podem   estar  intim am ente  relacionados  a  outras
necessidades  hum anas  e,  assim ,  ligar-se  por  outras  funções.  O  vestir-se,  por
exem plo,  é  atividade  carregada  de  signos  arbitrários,  m as  que  oferece  abrigo
contra os caprichos de um  clim a im piedoso, preserva o calor do corpo, garante
proteção  adicional  às  partes  vulneráveis  da  pele  e  confirm a  os  padrões
considerados obrigatórios de decência.
De  m odo  sim ilar,  por  m ais  ricas  e  precisas  que  sej am   as  distinções  de
significação  im pressas  nos  vários  tipos  de  alim ento  e  refeição,  há  lim ites  ao
m aterial  em   que  as  discrim inações  culturais  podem   ser  expressas,  porque  nem
toda  m atéria  pode  se  tornar  com estível,  dadas  as  peculiaridades  do  sistem a
digestivo  hum ano.  Além   disso,  um   chá  ou  um   j antar,  sej am   form ais  ou
inform ais, devem , além  de representar a natureza específica da ocasião, conter
substâncias nutritivas. Afinal, trata-se tam bém  de ingestão de alim entos.
Enquanto a capacidade discursiva hum ana é utilizada apenas para finalidades
com unicativas,  outros  m eios  de  com unicação  com partilham   sua  função
semiótica  (no  sentido  de  carregar  e  transferir)  com   a  m anutenção  de  outras

necessidades.  Seu  código  é,  por  assim   dizer,  entalhado  na  superfície  de  outras
funções não prim ariam ente com unicativas.
Com o tem os sinalizado, o que provê a possibilidade para a ação é tam bém  o
que  pode  servir  para  confinar  nosso  potencial  ao  estabelecer  lim ites  às
possibilidades.  Nessa  m edida,  a  cultura  é  m ais  eficaz  quando  disfarçada  com o
natureza. O que é artificial parece enraizar-se na própria “natureza das coisas” e,
assim ,  torna-se  algo  que  nenhum a  decisão  ou  ação  hum ana  pode  pensar  em
m udar.
Práticas  distintas  de  colocação  e  tratam ento  de  hom ens  e  de  m ulheres,
inscritas desde sua infância, tornam -se estabelecidas e seguras quando se aceita a
ideia  de  que  a  relação  entre  os  sexos  é  de  algum   m odo  predeterm inada.  As
diferenças  sociais  culturalm ente  produzidas  entre  os  dois  gêneros  parecem   tão
naturais  quanto  as  diferenças  biológicas  em   órgãos  e  funções  de  procriação  de
m achos e fêm eas.
Tais  processos  ocorrem   se  o  caráter  arbitrário  das  norm as  propagadas  pela
cultura  não  é  exposto.  A  cultura  observa  e  age  com o  natureza  se  qualquer
convenção  alternativa  é  visível  e  sabida.  Virtualm ente,  porém ,  qualquer  um   de
nós  sabe  que  há  m uitas  e  diferentes  form as  de  viver.  À  nossa  volta,  as  pessoas
vestem -se,  falam   e  se  com portam   diferentem ente  de  nós.  Sabem os  que  não
existe  um a  só  cultura,  m as  várias.  Assim ,  o  que  esse  conceito  representa  é
incapaz  de  m anter  m ão  firm e  sobre  a  conduta  hum ana,  com o  se  isso  fosse
condição  universal,  livre  das  ordens  alternativas.  Nesse  processo,  podem os  nos
deparar  com   períodos  e  épocas  de  dúvida,  que  exigem   explicações  e
j ustificações para determ inada situação. Essas questões, se podem  ser abordadas
por  um a  cultura  aberta  e  questionadora,  tam bém   são  capazes  de  estabelecer
im posição ainda m ais vigorosa do que se supõe ser a ordem  natural das coisas.
Estado, nações e nacionalism o
Durante um  processo de questionam ento e de busca de j ustificações, pode surgir
a incerteza – o que raram ente constitui condição agradável, não sendo, portanto,
raras  as  tentativas  de  a  ela  escapar.  A  pressão  para  conform ar-se  às  norm as
prom ovidas  pelo  treinam ento  cultural  pode  ser  acom panhada  de  esforços  no
sentido  de  desacreditar  e  denegrir  as  norm as  de  outras  culturas.  Em   um a  ponta
do  espectro,  propaga-se  certa  “naturalidade”,  reforçada  pela  retórica  de
“pureza” e “contam inação”; e, no extrem o oposto, o direito a viver um a cultura,
de m odo independente das dem ais.
Ainda  que  outras  m aneiras  de  viver  sej am   reconhecidas  com o  culturas
viáveis  em   si  m esm as,  elas  podem   ser  retratadas  com o  estranhas  e  vagam ente
am eaçadoras. Talvez aceitáveis para quem  exige m enos de seus povos, não são,
contudo, suficientes para pessoas distintas. O que testem unham os aqui são graus

variáveis  de  xenofobia  (aversão  ao  estrangeiro)  ou  do  heterofobia  (aversão  ao
diferente) com o m étodos para defender algum a ordem  contra a am bivalência.
Com   as  distinções  entre  “nós”  e  “eles”,  “aqui”  e  “lá”,  “dentro”  e  “fora”,
“nativo”  e  “estrangeiro”,  frequentem ente  assistim os  à  delim itação  de  um
território  para  o  qual  se  reivindica  regra  exclusiva  e  a  intenção  de  oferecer
segurança contra toda com petição em  nom e de um a cultura estabelecida e sem
problem as. A tolerância cultural costum a ser exercitada a distância. Quando isso
é am eaçado, um a retórica de invasão e pureza em  geral se disfarça com  sutileza
em  outra, que proclam a o direito de toda pessoa viver sua vida com o desej ar –
contanto que em  seu “próprio país”.
Tem -se  referido  a  esse  tipo  de  atividade  com o  um   processo  de  hegemonia
cultural.  A  expressão  indica  sutil  m as  eficaz  processo,  visando  a  garantir  o
m onopólio das norm as e dos valores sobre os quais se erigem  ordens particulares.
A  partir  disso,  a  cultura  pode  se  transform ar  em   atividade  de  captação  de
prosélitos, obj etivando a conversão por induzir seus alvos ao abandono de velhos
hábitos  e  opiniões,  substituindo-os  por  outros.  Ou,  alternativam ente,  m altratando
outras culturas com  base na presum ida superioridade da sua própria.
Por outro lado, naquelas situações em  que os esquem as de cultura coexistem
sem   linhas  claras  delim itando  seus  cam pos  de  influência,  deparam os  com
condições  de  “pluralism o  cultural”.  Nessas  situações,  a  tolerância  m útua,
exem plificada  no  reconhecim ento  da  validade  e  m erecim ento  do  outro  lado,  é
atitude necessária para a coexistência construtiva e pacífica.
Cidadania e Estado
Esses  tipos  de  questão  vinculam -se  ao  tem a  da  identidade,  por  sua  vez
relacionada à cidadania, que pode ser algo para o qual um a pessoa é qualificada
em   virtude  de  seu  local  de  nascim ento.  Além   disso,  a  cidadania  pode  ser
conferida  a  alguém   em   consequência  de  um   pedido  form al  a  um   país  ou  em
virtude  de  algum a  associação  passada  ou  serviços  prestados  que  sej am
apropriadam ente  recom pensados.  Em   outros  exem plos,  as  pessoas  podem
refugiar-se  de  perseguição  pedindo  asilo  político  e  residência.  A  considerar  tais
questões,  cultura,  nação  e  crenças  a  respeito  do  nacionalism o  conform arão  o
status conferido a alguém  e a concessão ou recusa de seu pedido. Se aceito, pode
ocorrer um a ligação entre a identidade pessoal e o pertencim ento, no sentido de a
pessoa em  questão tornar-se parte de um a nação.
Considere todos os form ulários que de hábito som os obrigados a preencher ao
fazer  inscrições  ou  dem andas  em   geral.  Pedem -nos  m uitos  detalhes  sobre  nós,
incluindo m uitas vezes um a pergunta sobre a nacionalidade, à qual respondem os
“am ericana”, “alem ã”, “italiana”, “francesa”, “portuguesa” e assim  por diante.
Entretanto,  ao  responder  “britânica”,  pode-se  tam bém   responder  “inglesa”  (ou

“galesa”,  ou  “escocesa”,  ou  “irlandesa”  ou  m esm o  “j udia”  ou  “grega”).  No
desenrolar  da  história,  todas  essas  respostas  são  apropriadas  à  pergunta  sobre  a
nacionalidade, m as se referem  a coisas diferentes.
Quando  se  responde  “nacionalidade  britânica”  indica-se  ser  um   “indivíduo
britânico”, isto é, um  cidadão do Estado cham ado Grã-Bretanha ou Reino Unido.
Quando  a  resposta  é  “inglesa”,  relata-se  o  fato  de  que  se  pertence  à  nação
inglesa. Um a pergunta sobre a nacionalidade faz am bas as respostas possíveis e
aceitáveis,  e  dem onstra  com o  as  duas  sociedades  não  são  claram ente  distintas
um a da outra, podendo ser confundidas. Contudo, em bora Estado e nação possam
sobrepor-se,  são  coisas  diferentes,  e  o  pertencim ento  de  algum as  pessoas  as
envolve em  tipos m uito diferentes de relacionam ento.
Podem os  em   prim eiro  lugar  observar  que  não  há  Estado  sem   território
específico  m antido  unido  por  um   centro  de  poder.  Cada  residente  da  área  sob
autoridade  do  Estado  a  ele  pertence,  verbo  que  nesse  caso  tem   antes  de  m ais
nada  um   significado  legal.  “Autoridade  de  Estado”  diz  respeito  à  habilidade  de
prom ulgar  e  fazer  cum prir  as  “leis  da  terra”.  Trata-se  das  regras  a  serem
observadas  por  todos  os  subm etidos  a  essa  autoridade  (a  m enos  que  o  próprio
Estado  os  isente  de  tal  obediência),  incluindo  aqueles  que,  m esm o  não  podendo
ser seus cidadãos, ocupam  seu território em  virtude da presença física.
Quem  não respeita as leis é passível de punição – é forçado a obedecer, goste
disso  ou  não.  Parafraseando  Max  Weber,  o  Estado  detém   o  legítim o  m onopólio
dos m eios de violência. Portanto, reivindica o direito exclusivo de aplicar a força
coercitiva (usar arm as em  defesa da lei, privar o praticante de um  delito de sua
liberdade e, finalm ente, m atar, se a possibilidade de recuperação for nula ou se a
desobediência à lei for tão grave que a form a de punição sej a a própria m orte).
Nessas instâncias,  quando as  pessoas são  executadas por  ordem  do  Estado,  a
execução é considerada punição legítim a, e não assassinato. Essa interpretação,
contudo,  é  passível  de  forte  discussão.  O  outro  lado  do  m onopólio  da  coerção
física pelo Estado é que todo uso de força não atestado por ele ou com etido por
quem   não  sej a  seu  agente  autorizado  será  condenado  com o  ato  de  violência.
Naturalm ente nada disso é para sugerir que quem  atua em  nom e do Estado não
sej a capaz de praticar atos ilegítim os considerados violentos e de terror.
As  leis  prom ulgadas  e  protegidas  pelo  Estado  determ inam   os  deveres  e  os
direitos de seus cidadãos. Um  dos m ais im portante desses deveres é o pagam ento
de im postos – ceder parte de nossa renda ao Estado, que a tom a e aplica aos m ais
variados  fins.  Os  direitos,  por  outro  lado,  podem   ser  civis,  em   que  se  inclui  a
proteção de nossos corpos e de nossas posses – a m enos que controladas, de outra
m aneira, pela decisão de órgãos autorizados do Estado –, assim  com o o direito de
professar nossas próprias opiniões e crenças. Eles tam bém  podem  ser políticos no
sentido  de  influenciar  a  com posição  e  a  política  dos  órgãos  de  Estado:  por
exem plo,  participando  da  eleição  do  corpo  de  representantes,  que  se

transform am   então  em   controladores  ou  adm inistradores  das  instituições  do
Estado.  E  podem   tam bém ,  com o  sugeriu  o  sociólogo  T.H.  Marshall,  ser  direitos
sociais,  aqueles  garantidos  pelo  Estado  em   term os  de  m eios  de  subsistência
básicos  e  de  necessidades  essenciais  que  não  sej am   alcançáveis  pelos  esforços
de determ inados indivíduos.
Devem os  cham ar  a  atenção  neste  m om ento  para  o  fato  de  que  os  direitos
sociais  podem   desafiar  outros  direitos,  os  de  propriedade,  com   que  estão
associados,  para  em pregar  a  fam osa  distinção  proposta  pelo  filósofo  britânico
Isaiah Berlin entre dois conceitos de liberdade, “liberdade negativa e positiva”. O
prim eiro  denota  liberdade  em   relação  à  interferência  baseada  na  posse  da
propriedade. É usado para garantir a um a pessoa o direito a suas terras e posses
com   m ínim a  interferência  do  Estado  sobre  os  m eios  com   que  dispõe  de  suas
riquezas.  “Liberdade  positiva”,  por  outro  lado,  atesta  às  pessoas  certo  direitos,
independentem ente  da  posse,  o  que  pode,  claro,  ser  m ero  acidente  de
nascim ento.
A doação caritativa é passível de ser associada à prim eira form a de liberdade,
em   que  aqueles  com   riquezas  escolhem   dar  um a  pequena  proporção  de  sua
renda  às  causas  que  consideram   m erecedoras.  Para  quem   recebe,  entretanto,
essa  doação  vem   sob  a  form a  de  “presente”,  m ais  que  de  “direito”  em
consequência de sua cidadania. Tais questões dão form a a slogans de cam panha
que  com   frequência  envolvem   a  erosão  ou  a  reivindicação  de  direitos.  Por
exem plo,  “Direitos,  não  caridade”  e  “A  educação  é  um   direito,  não  um
privilégio”.
A  com binação  de  direitos  e  deveres  é  o  que  faz  do  indivíduo  um   cidadão  do
Estado.  A  prim eira  coisa  que  aprendem os  a  respeito  de  ser  cidadãos  é  que,  por
m ais  que  não  gostem os  disso,  tem os  de  pagar  im posto  sobre  a  renda,  im postos
m unicipais  ou  sobre  o  valor  agregado.  Podem os  tam bém ,  por  outro  lado,  nos
queixar  às  autoridades  e  buscar  seu  auxílio  se  nossos  corpos  são  am eaçados  ou
nossas  posses  roubadas.  Podem os,  ainda,  dependendo  do  país  em   que  vivem os,
esperar  ter  acesso  à  educação  prim ária  e  ao  ensino  secundário,
independentem ente da possibilidade de pagar, assim  com o a um  serviço de saúde
(o Serviço Nacional de Saúde britânico, por exem plo, é instituição extraordinária,
estabelecida  precisam ente  para  que  todas  as  pessoas  tenham   acesso  a  cuidados
m édicos,  assim   assegurando  um a  população  m ais  saudável  para  o  bem -estar
econôm ico e social geral).
Depreende-se  do  que  foi  dito  o  potencial  da  sensação  individual  de
concom itantes  proteção  e  opressão.  Desfrutam os  de  relativa  tranquilidade  na
vida,  que  sabem os  se  dever  à  força  aterradora  sem pre  alerta  que  repousa  em
algum  lugar, pronta a entrar em  ação, a ser m obilizada contra os perturbadores
da  paz.  Em   nossa  era  nuclear,  durante  a  Guerra  Fria,  esse  equilíbrio  foi
determ inado  por  um   processo  que  chegou  a  ser  conhecido  com o  destruição

m utuam ente assegurada – MAD (louco) na sigla em  inglês.1 Pois um a vez que o
Estado é o único poder com  perm issão para m anter separados o perm issível e o
não  perm issível,  e  que  a  aplicação  da  lei  por  seus  órgãos  é  o  único  m étodo  de
m anter  essa  distinção  perm anente  e  segura,  acreditam os  que,  se  o  Estado
retirasse  seu  punho  punitivo,  a  violência  universal  e  a  desordem   passariam   a
im perar.
Acreditam os  dever  ao  poder  do  Estado  nossa  segurança  e  nossa  paz  de
espírito,  que,  sem   ele,  não  existiriam .  Em   m uitas  ocasiões,  entretanto,  nos
ressentim os  da  inoportuna  interferência  do  Estado  em   nossa  vida  privada.  Se  o
cuidado protetor  do  Estado  nos  perm ite  fazer  m uito  –  planej ar  nossas  ações  na
crença  de  que  os  planos  podem   ser  executados  sem   obstáculo  –,  sua  função
opressiva  soa  m ais  com o  im pedim ento.  Nossa  vivência  do  Estado  é,  por
conseguinte,  inerentem ente  am bígua:  dela  podem os  gostar  e  necessitar,  e,  ao
m esm o tem po, desgostar e nos ressentir.
A  m aneira  com o  essas  em oções  contraditórias  são  equilibradas  depende  de
nossas  condições.  Se  som os  abastados  e  para  nós  dinheiro  não  é  problem a,
podem os  considerar  a  perspectiva  de  nos  garantir  serviço  de  saúde  m elhor  que
aquele  oferecido  ao  cidadão  m édio.  Logo,  no  contexto  britânico,  podem os  nos
ressentir do fato de o Estado nos taxar para m anter o Serviço Nacional de Saúde.
Se, por outro lado, nossa renda é m uito m odesta para pagar um  plano de saúde
privado,  podem os  bendizer  o  Estado  com o  dispositivo  protetor  em   períodos  de
saúde prej udicada.
Assim , podem os não perceber com o em  geral os sistem as fiscal e de auxílio
associados ao Estado nacional afetam  de diferentes m aneiras as possibilidades de
vida. Nosso foco se m antém  em  nós m esm os e no m odo com o som os afetados
por  nossas  condições,  o  que,  claro,  se  com preende  perfeitam ente.  Com o,
entretanto,  alguém   teria  recursos  para  pagar  um   plano  de  saúde  privado  no
contexto  britânico  se  o  Serviço  Nacional  de  Saúde  não  treinasse  m édicos  e
enferm eiros e, com  isso, fornecesse as habilidades e o conhecim ento requeridos
pelo  setor  privado?  De  m odo  sim ilar,  com o  a  econom ia  poderia  desem penhar
efetivam ente  seu  papel  se  o  setor  de  educação  do  Estado  não  abastecesse  o
m ercado de trabalho com  indivíduos com petentes?
Essa  discussão  perm ite  sugerir  que,  dependendo  de  sua  situação,  algum as
pessoas talvez experim entem  aum ento na liberdade em  consequência das ações
do  Estado,  que  assim   am pliam   seu  cam po  de  escolha,  enquanto  outras  poderão
considerar  a  m esm a  ação  opressiva  e,  com o  tal,  redutora  de  sua  gam a  de
escolhas.  Entretanto,  no  geral,  qualquer  um   preferiria  o  m áxim o  de
potencialização possível e a opressão estritam ente necessária. O que é percebido
com o potencializado e opressivo diferirá, m as não o im pulso de controlar ou pelo
m enos  de  influenciar  a  com posição  da  m istura.  Quanto  m aior  a  parte  de  nossa
vida  que  depende  das  atividades  do  Estado,  m ais  difundido  e  intenso  é  provável

que sej a esse im pulso.
Ser cidadão, além  de se constituir indivíduo portador de direitos e deveres na
form a  que  o  Estado  os  definiu,  significa  ter  voz  na  determ inação  da  política  do
Estado que conform a aqueles direitos e deveres. Ou sej a, a cidadania se refere à
capacidade de influenciar a atividade do Estado e de participar da definição e da
adm inistração  da  “lei  e  da  ordem ”.  Para  exercitar  na  prática  tal  influência,  os
cidadãos  devem   desfrutar  de  certo  grau  de  autonom ia  com   referência  à
regulação.  Deve  haver,  em   outras  palavras,  lim ites  à  capacidade  do  Estado  de
interferir nas ações dos indivíduos.
Aqui,  m ais  um a  vez,  defrontam o-nos  com   as  tensões  entre  os  aspectos
potencializador e  opressivo da  atividade do  Estado. Por  exem plo, os  direitos  dos
cidadãos  não  podem   ser  exercidos  inteiram ente  se  as  atividades  do  Estado  são
cercadas pelo sigilo e se as “pessoas com uns” não têm  conhecim ento algum  das
intenções  e  das  ações  de  seus  governantes.  Um   governo  que  confunda  seus
obj etivos com  os do Estado, na form a dos direitos de seus cidadãos, pode m inar
esses m esm os direitos, negando-lhes o acesso aos fatos que perm itam  avaliar as
consequências reais das ações do Estado.
Por essas e outras razões, as relações entre o Estado e seus suj eitos são m uitas
vezes  tensas,  posto  que  os  suj eitos  se  veem   obrigados  a  em penhar-se  para  se
transform ar  em   cidadãos  ou  para  proteger  seu  status  quando  ele  é  am eaçado
pelas am bições crescentes do Estado. Os principais obstáculos encontrados nessa
luta são os relativos ao cham ado com plexo de tutela e às atitudes terapêuticas do
Estado, respectivam ente.
O com plexo de tutela se refere à tendência a tratar os suj eitos com o incapazes
de determ inar o que é bom  para eles e agir de m aneira que sirva a seus m elhores
interesses.  As  atitudes  terapêuticas  do  Estado  dizem   respeito  à  inclinação  das
autoridades estatais a tratar os suj eitos da m esm a m aneira que os m édicos tratam
seus  pacientes,  que  se  tornam ,  assim ,  indivíduos  carregados  de  problem as  que
não  podem   eles  m esm os  resolver.  Assum e-se,  então,  que  sej a  necessária
orientação  de  especialistas,  com   a  fiscalização  para  tratar  questões  residentes,
por  assim   dizer,  “dentro”  do  paciente.  O  tratam ento  é  assim   instrução  e
supervisão, a fim  de que funcionem  em  seus corpos de acordo com  as ordens do
m édico.
Disso podem os depreender a tendência, do ponto de vista do Estado, de ver os
indivíduos  com o  obj etos  de  regulação.  Pode-se  então  considerar  que  a  conduta
desses  indivíduos  necessita  de  constante  proscrição  e  prescrição.  Se  eles  não  se
com portam   com o  devem ,  então  há  algo  errado  com   os  próprios  suj eitos,  em
oposição  ao  contexto  em   que  se  encontram .  Essa  tendência  a  individualizar
problem as  sociais  m anifesta-se  contra  um   cenário  de  relações  assim étricas.
Ainda que os pacientes tenham  perm issão para escolher seus m édicos, um a vez
isso feito, espera-se que quem  estej a em  tratam ento ouça e obedeça. E o m édico

espera disciplina, não discussão. O Estado j ustifica sua própria reivindicação para
im plem entar  sem   contestação  suas  instruções  com   referência  ao  que  configura
os  interesses  do  cidadão.  Isso  é  o  que  pode  ser  denom inado  exercício  de  poder
pastoral, que protege o indivíduo contra suas próprias inclinações.
Nesse processo, pode ser invocada com o j ustificação a necessidade de reter
inform ações  para  o  bem   dos  cidadãos.  Essa  prática  de  confidencialidade  cerca
as  inform ações  detalhadas  que  o  Estado  recolhe,  arm azena  e  processa,  grande
parte  das  quais,  naturalm ente,  é  proj etada  para  aj udar  na  form ulação  e  na
execução de políticas. Contudo, ao m esm o tem po, dados sobre as próprias ações
do  Estado  podem   ser  classificados  com o  “segredos  oficiais”,  cuj a  traição  é
punida  com   processos.  Com o  o  acesso  a  esse  tipo  de  inform ação  é  vedado  à
m aioria  dos  indivíduos,  os  poucos  autorizados  detêm   vantagem   distinta  sobre  os
dem ais.  A  liberdade  estatal  para  coletar  inform ações,  associada  à  prática  da
confidencialidade, pode aprofundar m ais ainda a assim etria das relações m útuas.
Dado esse potencial, a cidadania traz em  si a tendência a resistir à posição de
com ando aspirada pelo Estado. Esses esforços podem  ser m anifestados em  duas
direções diferentes, ainda que relacionadas. A prim eira é o regionalismo, em  que
o  poder  do  Estado  pode  ser  considerado  adversário  da  autonom ia  local.  A
especificidade  dos  interesses  e  das  questões  locais  passa  a  ser  apontada  com o
razão  suficiente  para  as  aspirações  à  autodeterm inação  dos  negócios  locais.
Nesse  contexto  instala-se  a  dem anda  de  instituições  representativas  locais,  m ais
próxim as das pessoas da área e m ais sensíveis e suscetíveis a suas preocupações
regionais.
A segunda m anifestação é a desterritorialização, em  que encontram os a base
territorial do poder do Estado sendo aberta ao questionam ento. Outros traços são
então  prom ovidos,  considerados  m ais  significativos  do  que  m ero  espaço  de
residência.  Por  exem plo,  a  afiliação  étnica  e/ou  racial,  a  religião  e  a  língua
podem  ser  escolhidas com o  atributos de  m ais densa  relevância na  totalidade  da
vida  hum ana.  O  direito  à  autonom ia,  para  colocar  a  adm inistração  à  parte,  é
exigido, então, contra a pressão por uniform idade do poder territorial unitário.
Com o resultado dessas propensões, e m esm o sob a m elhor das circunstâncias,
perm anece  um   resíduo  de  tensão  e  desconfiança  entre  o  Estado  e  os  indivíduos
que  lhe  pertencem .  O  Estado  precisa  portanto  garantir  sua  legitimidade,
convencendo  as  pessoas  de  que  há  razões  válidas  pelas  quais  elas  devem
obedecer a seus com andos. Considera-se que a legitim ação assegura a confiança
dos  indivíduos  no  fato  de  o  que  provém   das  autoridades  estatais  m erecer
obediência, com  a convicção de que as próprias autoridades tam bém  devem  ser
acatadas.  Nessa  m edida,  a  legitim ação  visa  a  desenvolver  incondicional
fidelidade  ao  Estado,  transparecendo  a  segurança  no  pertencim ento  a  um a
“pátria” de cuj as riquezas e forças o cidadão individual pode tirar proveito. Daí
pode advir o patriotismo com o guia para ações traduzidas em  term os de am or à

pátria e desej o geral de m antê-la forte e feliz. Considera-se que a com binação de
consenso e disciplina deixará todos os cidadãos em  m elhor situação, e que ações
com binadas, m ais do que divisões, são benéficas a todos os cidadãos.
Se  a  obediência  patriótica  é  exigida  em   nom e  da  razão,  pode-se  bem   ser
tentado  a  suj eitar  o  argum ento  a  algum a  análise  de  racionalidade,  no  m esm o
sentido  em   que  todo  cálculo  sugere  um a  prova  real.  É  possível  com parar  os
custos  da  obediência  a  um a  política  im popular  aos  ganhos  potenciais  de  um a
resistência  ativa.  E,  então,  dar-se  conta  ou  se  convencer  de  que  a  resistência  é
m enos  custosa  e  prej udicial  que  a  obediência.  A  desobediência  civil  não  pode
sim plesm ente ser elim inada com o aspiração distorcida daqueles que incorreram
em   algum   engano,  pois  ela  tem   lugar  naqueles  espaços  criados  por  esforços  de
legitim ação  das  atividades  do  Estado.  Com o  esse  processo  quase  nunca  é
conclusivo  e  raram ente  tem   fim ,  esses  tipos  de  ação  podem   servir  com o
barôm etro  para  avaliar  a  extensão  em   que  as  políticas  se  tornam   dem asiado
opressivas.
Esse foi um  dos aspectos particularm ente destacados por Ém ile Durkheim  ao
escrever sobre tem as com o Estado, crim e e desvio. De fato, o grande legado de
Durkheim  foi a sugestão de que a sociedade é um a força m oralizante ativa que,
naturalm ente, pode ser m inada ou prom ovida por atividades e políticas do Estado,
tanto quanto os interesses econôm icos.
Nações e nacionalism o
Lealdade incondicional a um a nação, em  contraste com  o que j á argum entam os,
está livre das contradições internas que transform am  em  fardo a disciplina com
relação ao Estado. O nacionalismo não precisa apelar para a razão ou o cálculo –
em bora  possa  recorrer  aos  ganhos  obtidos  com   a  obediência,  em   geral  é
caracterizado pela obediência com o valor em  si. O pertencim ento a um a nação é
com preendido  com o  destino  m ais  poderoso  que  o  indivíduo.  E,  com o  tal,  não  é
qualidade  que  não  possa  ser  atribuída  ou  retirada  com   base  na  vontade.  O
nacionalism o  im plica  ser  a  nação  quem   concede  aos  m em bros  individuais  sua
identidade.  Ao  contrário  do  Estado,  a  nação  não  é  um a  associação  em   que  se
ingresse  a  fim   prom over  interesses  com uns.  Pelo  contrário,  é  a  unidade  da
nação, seu destino com um , que precede toda a avaliação de interesses e, m ais, é
o que dá significado aos interesses.
Dependendo de sua com posição e da situação com  que se depara, um  Estado
nacional pode explorar o potencial do nacionalism o em  vez de tentar legitim ar-se
pela  referência  ao  cálculo  de  benefícios.  O  Estado  nacional  exige  obediência
com  base na ideia de que fala em  nom e da nação. Dessa form a, a disciplina com
relação  ao  Estado  é  um   valor  que  não  serve  a  outro  obj etivo  senão  à  busca  de
seus  próprios  propósitos.  Nessa  situação,  desobedecer  a  esse  ente  torna-se  algo

bem   pior  do  que  agir  contra  a  lei.  Transform a-se  em   ato  de  traição  da  causa
nacional  –  ato  odioso,  im oral,  que  arranca  toda  dignidade  dos  culpados  e  os
expulsa dos lim ites da com unidade hum ana.
Talvez  pelas  razões  da  legitim ação  e,  m ais  geralm ente,  pelo  assegurar  a
unidade da conduta, configura-se um  tipo de atração m útua entre Estado e nação.
O  Estado  tende  a  cooptar  a  autoridade  da  nação  para  reforçar  sua  própria
dem anda de disciplina, enquanto as nações tendem  a se constituir em  Estados a
fim  de aproveitar o potencial de reforço que eles têm  para a sustentação de seu
clam or por lealdade. Isso considerado, nem  todos os Estados são nacionais e nem
todas as nações possuem  seu próprio Estado.
O que é um a nação? Essa é pergunta difícil, provavelm ente sem  resposta que
a todos satisfaça. A nação não é um a “realidade” da m aneira que o Estado pode
ser definido. Ele é “real” no sentido de que possui fronteiras claram ente traçadas,
nos m apas e no chão. Os lim ites em  geral são protegidos pela força, de m odo que
a  passagem   aleatória  de  um   Estado  a  outro,  entrando  e  saindo,  encontra
resistência  m uito  real,  tangível,  o  que  lhes  confere  a  sensação  de  si  próprios
com o algo concreto, por m eio de suas práticas lim itadoras. No interior dos lim ites
do Estado, está m ontado um  conj unto de leis. E, m ais um a vez, esse conj unto é
real  no  sentido  em   que,  não  obstante  sua  presença,  com portar-se  com o  se  não
existisse  pode  “m achucar”  e  “ferir”  o  acusado  em   grande  m edida  da  m esm a
m aneira que qualquer obj eto m aterial.
Isso,  entretanto,  não  pode  ser  dito  sobre  a  nação.  Ela  é  um a  “com unidade
im aginária”  porque  existe  com o  entidade  conquanto  seus  m em bros  “se
identifiquem ”  m ental  e  em ocionalm ente  com o  um   corpo  coletivo.  Verdadeiras,
as  nações  em   geral  ocupam   território  contínuo  que  com   razão  elas  acreditam
lhes em prestar caráter especial. Raram ente, entretanto, isso confere ao território
uniform idade  com parável  àquela  im posta  pela  unidade  da  “lei  da  terra”,
prom ovida  pelo  Estado.  Quase  nunca  as  nações  se  podem   vangloriar  de
m onopólio de residência em  algum  território. Virtualm ente em  qualquer território
há  pessoas  que,  vivendo  lado  a  lado,  se  definem   com o  pertencentes  a  nações
diferentes  e  cuj a  lealdade  é  reivindicada  por  diferentes  nacionalism os.  Em
m uitos  territórios,  nenhum a  nação  pode  realm ente  pleitear  a  m aioria,  m enos
ainda  posição  suficientem ente  dom inante  para  definir  m inuciosam ente  o
“caráter nacional” da terra.
É  tam bém   verdadeiro  o  fato  de  as  nações  serem   em   geral  distinguidas  e
unidas por língua com um . O que, contudo, se considera língua distinta e com um  é
em   grande  parte  um a  questão  de  decisão  nacionalista  (e  com   frequência
contestada).  Os  dialetos  regionais  tanto  podem   ser  idiossincrásicos  em   seus
vocabulários, sintaxes e expressões com o quase m utuam ente incom preensíveis, e
ainda assim  suas identidades são negadas ou ativam ente suprim idas por m edo de
com prom eter a unidade nacional.

Por  outro  lado,  m esm o  as  diferenças  locais  com parativam ente  m ínim as
podem   ser  enfatizadas,  sua  peculiaridade  exagerada,  de  m odo  que  um   dialeto
possa ser elevado ao posto de língua distinta e, com o tal, característica distintiva
de  um a  nação  em   particular.  (As  diferenças  entre,  por  exem plo,  as  línguas
norueguesa  e  sueca,  o  holandês  e  o  flam engo,  o  ucraniano  e  o  russo  são,
argum enta-se,  não  m uito  m ais  conspícuas  do  que  as  diferenças  entre  m uitos
dialetos “internos” apresentados – se reconhecidos – com o variedades da m esm a
língua nacional.) Adicionalm ente, grupos de pessoas podem  adm itir com partilhar
a m esm a língua e ainda assim  se considerar elem entos de nações distintas (pense
nos galeses ou nos escoceses de língua inglesa, o uso com partilhado do inglês por
m uitas nações do antigo commonwealth e o uso com um  do alem ão por austríacos
e suíços).
Mas  há  ainda  outra  razão  pela  qual  o  território  e  a  língua  são  insuficientes
com o  fatores  definidores  da  configuração  da  “realidade”  da  nação.  Muito
sim plesm ente,  qualquer  um   pode  m over-se  para  dentro  e  fora  deles.  Em
princípio, pode-se declarar um a m udança de fidelidade nacional. As pessoas se
m udam   e  adquirem   residência  em   nações  a  que  não  pertencem   e  podem
aprender sua língua. Se o território de residência (lem bre-se: não se trata de um
território  com   fronteiras  guardadas)  e  a  participação  em   um a  com unidade
linguística  (lem bre-se:  ninguém   é  obrigado  a  usar  um a  língua  nacional  pelo
sim ples fato de que nenhum a outra língua é adm itida pelos detentores do poder)
fossem   as  únicas  características  de  constituição  da  nação,  ela  seria  m uito
“porosa”  e  “subdefinida”  para  reivindicar  a  fidelidade  absoluta,  incondicional  e
exclusiva dem andada por todo nacionalism o.
Esta  últim a  dem anda  é  na  m aior  parte  das  vezes  persuasiva  se  a  nação  é
concebida  com o  destino,  m ais  do  que  escolha.  Supõe-se  então  que  ela  sej a  tão
firm em ente  estabelecida  no  passado  que  nenhum a  intervenção  hum ana  poderá
m udá-la.  Em bora  posicionada  para  além   do  que  pode  ser  considerado  caráter
arbitrário da cultura, os nacionalism os obj etivam  alcançar essa crença com  o uso
do mito de origem na condição de m ais poderoso instrum ento para esse fim . Esse
m ito  sugere  que  ainda  que  tenha  havido  em   algum   m om ento  um a  criação
cultural,  no  curso  da  história  a  nação  se  transform ou  em   um   verdadeiro
fenôm eno “natural” e, com o tal, em  algo além  do controle hum ano.
Os m em bros atuais da nação – assim  diz o m ito – são ligados por um  passado
com um   do  qual  não  podem   escapar.  O  espírito  nacional  é  considerado
propriedade com partilhada e exclusiva, que une as pessoas e tam bém  as coloca à
parte  de  todas  as  dem ais  nações  e  de  todos  os  indivíduos  que  possam   aspirar  a
entrar  em   sua  com unidade.  Segundo  o  sociólogo  e  historiador  am ericano  Craig
Calhoun, a ideia de nação torna-se então estabelecida “tanto com o um a categoria
de indivíduos sim ilares quanto com o um  tipo de ‘supraindivíduo’”.
O  m ito  de  origem   ou  a  reivindicação  de  “naturalidade”  de  um a  nação  e  da

natureza atribuída e herdada do pertencim ento nacional não pode senão enredar
o nacionalism o em  um a contradição. Por um  lado, entende-se que a nação sej a
veredicto da história e realidade tão obj etiva e sólida quanto qualquer fenôm eno
natural. Por outro lado, isso é precário, porque sua unidade e sua coerência estão
sob  constante  am eaça,  em   virtude  da  existência  de  outras  nações,  cuj os
m em bros  podem   integrar  suas  fileiras.  A  nação  responderá  então,  defendendo
sua existência contra as usurpações dos “outros” – não pode, portanto, sobreviver
sem  vigilância e esforço constantes.
Em   consequência  disso,  os  nacionalism os  em   geral  dem andam   poder  –  o
direito a usar a coerção –, a fim  de assegurar a preservação e a continuidade da
nação.  O  poder  do  Estado  é  dessa  m aneira  m obilizado,  e  (com o  vim os)  isso
significa  m onopólio  sobre  os  instrum entos  de  coerção.  Só  o  poder  do  Estado  é
capaz de proteger as regras uniform es de conduta e prom ulgar as leis a que seus
cidadãos  se  devem   subm eter.  Logo,  assim   com o  o  Estado  precisa  do
nacionalism o  para  sua  legitim ação,  o  nacionalism o  precisa  do  Estado  para  sua
efetividade. O Estado nacional é o produto dessa atração m útua.
Quando  o  Estado  é  identificado  com   a  nação  –  com o  seu  órgão  de
autodeterm inação –, a perspectiva de sucesso do nacionalism o aum enta bastante.
Nesse  caso,  ele  j á  não  tem   de  confiar  apenas  no  poder  de  persuasão  de  seus
argum entos,  um a  vez  que  o  poder  do  Estado  representa  a  possibilidade  de
reforçar o uso exclusivo da língua nacional nas repartições públicas, nas cortes e
nas  assem bleias  de  representantes.  Os  recursos  públicos  passam   a  ser
m obilizados  para  im pulsionar  as  possibilidades  com petitivas  da  principal  cultura
nacional  em   um   plano  geral  e  em   particular  na  literatura  e  nas  artes  nacionais.
Tam bém   significa,  sobretudo,  controle  sobre  a  educação,  tornada  ao  m esm o
tem po  livre  e  obrigatória,  de  m odo  que  ninguém   sej a  excluído  nem   tam pouco
autorizado a  escapar a  sua influência.  A universalização  da educação  perm ite  a
todos os habitantes do território do Estado treinam ento nos valores da nação que o
dom ina.  Com   variados  graus  de  sucesso,  busca-se  realizar  na  prática  o  que  foi
solicitado na teoria, a saber, a “naturalidade” da nacionalidade.
O  efeito  com binado  de  educação,  pressão  cultural  de  pensam ento
ubiquam ente difuso e regras de conduta reforçadas pelo Estado é a vinculação ao
estilo  de  vida  associado  à  “filiação  nacional”.  Essa  ligação  espiritual  pode  se
m anifestar  em   etnocentrismo  consciente  e  explícito.  O  característico  dessa
atitude é a convicção de que nossa nação, bem  com o tudo a ela relacionado, é o
que há de correto, m oralm ente louvável e belo. Em  term os de estabelecê-la por
contraste, isso tam bém  é exem plificado pela crença de ela ser m uito superior a
qualquer alternativa. E, m ais ainda, aquilo que é bom  para nossa nação deve ter a
precedência sobre os interesses de qualquer um  e de qualquer outra coisa.
O etnocentrism o não pode ser pregado abertam ente, m as perm anece bastante
difundido para quem  chega a um  am biente específico e culturalm ente form atado

e  nele  tende  a  se  sentir  em   casa  e  em   segurança.  Por  hábito,  pode  ser
perpetuado.  As  condições  que  se  desviam   do  fam iliar  desvalorizam   as
habilidades  adquiridas  e  podem   causar  sensação  de  desconforto,  de  vago
ressentim ento  e  m esm o  de  evidente  hostilidade  direcionada  aos  “estrangeiros”,
que passam  a ser responsabilizados pela confusão. É, então, “o j eito deles” o que
exige  m udança.  Nisso  podem os  ver  com o  o  nacionalism o  inspira  a  tendência
para  cruzadas  culturais  por  m eio  dos  esforços  para  m udar  as  m aneiras
estrangeiras,  a  fim   de  convertê-las,  forçá-las  à  subm issão  à  autoridade  cultural
da nação dom inante.
A  finalidade  geral  da  cruzada  cultural  é  a  assimilação,  term o  em prestado  da
biologia e que denota com o, a fim  de se alim entar, um  organism o vivo assim ila
elem entos  do  am biente  e,  assim ,  transform a  substâncias  “estrangeiras”  em   seu
próprio corpo, fazendo-as “sim ilares” a si – dessa m aneira, o que costum ava ser
diferente  torna-se  sem elhante.  Para  dizer  a  verdade,  todo  nacionalism o  tem
sem pre  a  ver  com   assim ilação,  assim   com o  a  nação  com   que  o  m ovim ento
declara ter “unidade natural” tem  que ter sido prim eiro criada pelo agrupam ento
de  um a  população  m uitas  vezes  indiferente  e  diversificada  em   torno  do  m ito  e
dos sím bolos da distinção nacional.
Os  esforços  de  assim ilação  estão  em   seu  grau  m ais  explícito  e  expõem
com pletam ente  suas  contradições  internas  quando  um   nacionalism o  triunfante,
aquele  que  conseguiu  a  dom inação  do  Estado  sobre  um   determ inado  território,
encontra  entre  os  residentes  algum   grupo  “estrangeiro”  –  ou  sej a,  aqueles  que
declaram   um a  identidade  nacional  distinta  ou  são  tratados  com o  distintos  e
nacionalm ente estranhos por um a população que j á tenha atravessado o processo
de  unificação  cultural.  Nesses  casos  a  assim ilação  pode  ser  apresentada  com o
um a  m issão  de  proselitism o,  em   grande  m edida  da  m esm a  m aneira  com o  o
pagão deve ser convertido a um a religião “verdadeira”.
Paradoxalm ente,  os  esforços  de  conversão  podem   ser  hesitantes.  Afinal,  um
sucesso  exagerado  pode  carregar  a  m arca  da  contradição  interna  sem pre
presente  no  olhar  nacionalista.  De  um   lado,  o  nacionalism o  reivindica  a
superioridade  de  sua  própria  nação,  de  sua  cultura  e  seu  caráter  nacionais.  Por
conseguinte,  a  atração  que  um a  nação  tão  superior  exerce  sobre  os  povos
vizinhos  é  algo  a  ser  esperado  e,  no  caso  de  um   Estado  nacional,  tam bém
m obiliza  a  sustentação  popular  para  a  autoridade  estatal  e  m ina  todas  as  fontes
restantes de autoridade resistentes à uniform idade prom ovida pelo Estado.
De outro lado, o influxo de elem entos estrangeiros para dentro da nação, em
particular  quando  facilitado  pelos  “braços  abertos”,  a  atitude  hospitaleira  da
nação  anfitriã,  lança  dúvidas  sobre  a  “naturalidade”  da  sociedade  nacional  e,
assim ,  provoca  erosão  nas  próprias  fundações  da  unidade  nacional.  As  pessoas
passam  então a m udar sua posição à vontade: “eles” podem  se transform ar em
“nós”  diante  de  nossos  próprios  olhos.  É  com o  se  a  nacionalidade  fosse  m era

questão  de  um a  escolha  que  poderia,  em   princípio,  ser  diferente  do  que  era  e
m esm o  ser  revogada.  Esforços  eficazes  de  assim ilação  põem   em   relevo  o
caráter  precário,  voluntário  da  nação  e  da  sociedade  nacional  –  situação  que  o
nacionalism o procura disfarçar.
Com o um  conj unto de práticas, a assim ilação produz ressentim entos contra o
próprio povo que a cruzada cultural obj etiva atrair e converter. No processo, elas
são construídas com o am eaça à ordem  e segurança, pois sua existência desafia o
que  é  considerado  poder  e  controle  extra-hum anos.  Fronteira  alegadam ente
natural é exposta não só com o artificial com o, pior ainda, perm eável. Os atos de
assim ilação  nunca  são  com pletados,  pois  aos  olhos  daqueles  que  procuram   sua
transform ação, as pessoas assim iladas aparecerão com o potenciais vira-casacas.
Afinal, elas podem  fingir ser o que não são. Apesar de seus obj etivos, o sucesso
dessas  práticas  dá  crédito  à  ideia  de  que  as  fronteiras  são  perm anentes  e  a
verdadeira “assim ilação” não é de fato possível.
Reconhecim ento  e  respeito  pela  diferença  não  se  tornam ,  portanto,  opção
para aqueles com  tendências nacionalistas que, quando confrontados com  algum
insucesso, podem  recuar para um a linha de defesa m ais dura, m enos vulnerável
e  m ais  racista.  Diferente  da  nação,  a  raça  é  evidente  e  inequivocam ente
percebida com o elem ento da natureza e provê assim  distinções nem  construídas
pelo hom em  nem  suj eitas à m udança por esforços hum anos. Am iúde se atribui à
raça  significado  puram ente  biológico,  por  exem plo,  na  ideia  de  que  caráter,
habilidade  e  inclinação  individuais  são  relacionados  de  m odo  íntim o  às
características perceptíveis, extrínsecas e geneticam ente determ inadas. Em  todos
os  casos,  entretanto,  esse  conceito  se  refere  às  qualidades  consideradas
hereditárias e, assim , quando confrontada com  a raça, a educação deve render-
se. O que a natureza decidiu, nenhum a instrução hum ana pode m udar.
Diferente da nação, a raça não pode ser assim ilada e, assim , é aparente em
m eio  àqueles  que  procuram   m anter  ou  construir  lim ites  usando  com o  bases  a
linguagem  da “pureza” e da “poluição”. Para afastar um  evento tão m órbido, as
raças  estrangeiras  devem   ser  segregadas,  isoladas  e,  m elhor  ainda,  rem ovidas
para  um a  distância  segura  a  fim   de  im possibilitar  a  m istura  e  assim   proteger  a
raça de alguém  dos efeitos da dos “outros”.
Em bora a assim ilação e o racism o pareçam  estar em  posições radicalm ente
opostas,  eles  provêm   da  m esm a  fonte,  isto  é,  das  tendências  construtoras  de
fronteiras  inerentes  às  preocupações  nacionalistas.  Cada  um   enfatiza  um   dos
polos  da  contradição  interna.  Dependendo  das  circunstâncias,  um   ou  outro  lado
pode  ser  desdobrado  na  form a  de  táticas  na  perseguição  de  obj etivos
nacionalistas.  Am bos,  porém ,  estão  sem pre  potencialm ente  presentes  em   toda
cam panha nacionalista e, assim , m ais do que excluir, podem  se im pulsionar e se
reforçar m utuam ente.
Nisso  tam bém   a  força  do  nacionalism o  deriva  do  papel  de  conexão  que

desem penha na prom oção e na perpetuação da ordem  social com o definida pela
autoridade  do  Estado.  O  nacionalism o  “sequestra”  a  heterofobia  difusa  –  o
ressentim ento do diferente j á discutido – e m obiliza esse sentim ento a serviço da
lealdade e da sustentação do Estado e disciplina para a autoridade estatal.
Utilizando esses m eios, o nacionalism o torna a autoridade estatal m ais eficaz;
sim ultaneam ente,  desdobra  os  recursos  do  poder  do  Estado  para  dar  form a  à
realidade  social  de  tal  m aneira  que  novas  fontes  de  heterofobia  e,  a  partir  daí,
novas  oportunidades  de  m obilização  podem   ser  geradas.  Dado  que  o  Estado
detém   seu  m onopólio  de  coerção,  ele  proíbe,  com o  regra,  qualquer  conj unto
privado de aj uste de contas, tais com o a violência étnica e racial. Na m aioria dos
casos, ele tam bém  recusaria e m esm o puniria iniciativas privadas com o form as
m esquinhas de discrim inação. Com o seus outros recursos, o nacionalism o poderá
ser desenrolado com o veículo de única ordem  social, sustentada e reforçada ao
perseguir concom itantem ente suas m anifestações difusas, espontâneas e, assim ,
potencialm ente desordenadas. O potencial de m obilização do nacionalism o pode
então ser incorporado à política estatal apropriada. Os exem plos de tal atividade
incluem   vitórias  m ilitares,  econôm icas  ou  esportivas  pouco  custosas,  porém
prestigiosas,  assim   com o  leis  restritivas  de  im igração,  repatriam ento  forçado  e
outras  as  m edidas  que  ostensivam ente  refletem ,  ao  reforçar  a  heterofobia
popular.
Síntese
Discutim os várias form as de fronteiras, com o são construídas, com  que efeitos e
m obilizando  que  recursos.  Em   todos  os  casos,  elas  têm   efeitos  reais  sobre  a
m aneira  com o  vem os  os  m undos  social  e  natural.  A  atividade  de  construção
cultural  tem   com o  obj etivo  não  só  a  conquista  de  unidade  em   m eio  a  um a
população,  m as  tam bém   o  controle  do  m eio  am biente.  Este,  entretanto,  tem
com o  nos  lem brar  de  sua  força:  m ediante  inundações,  terrem otos,  erupções
vulcânicas  e  crises  de  fom e.  As  culturas,  entretanto,  conform am   não  apenas
ações,  m as  tam bém   reações.  E  dado  nosso  relacionam ento  com   o  planeta  que
habitam os  e  seus  recursos  finitos,  fica  a  pergunta:  qual  pode  ser  um a  m aneira
apropriada e sustentável de se viver j unto?
Ao  exam inar  esses  tipos  de  questões,  encontram os  variações  extraordinárias
em  usos nacionais de energia, assim  com o no acesso a bens que m uitos acabam
por não poder considerar indiscutíveis, com o água lim pa para beber. Isso provoca
perguntas quanto aos efeitos das culturas sobre o m eio am biente e a distribuição
de  recursos  entre  nações.  Questões  com o  essas  se  referem   à  necessidade  de
reconhecer diferentes culturas e à distribuição dos recursos entre elas. Logo, não
é surpresa que o quanto tem os que m udar sej a tem a acaloradam ente disputado,
pois am eaça aqueles países que desfrutaram  de relacionam ento não sustentável

com  o am biente.
Quanto à nação, ela e o Estado historicam ente se fundiram  em  grandes partes
do  m undo.  Os  Estados  têm   usado  sentim entos  nacionais  para  reforçar  tanto  sua
dom inação  sobre  a  sociedade  quanto  a  ordem   que  prom ovem .  Cada  um   era
autocongratulatório  a  respeito  da  ordem   que  criara,  aludindo  a  um a  unidade
supostam ente natural. A aplicação da força não foi necessária em  tais situações.
É digno de nota, entretanto, que o fato de a fusão de Estado e nação ter ocorrido
historicam ente  não  é  prova  de  sua  inevitabilidade.  A  lealdade  étnica  e  ter  um
vínculo com  línguas e costum es em  particular não são redutíveis à função política
que lhes foi atribuída por sua aliança com  o poder do Estado.
O  casam ento  de  Estado  e  nação  não  é  de  m aneira  algum a  predestinado  –  é
antes de conveniência. Com o resultado, sua fragilidade pode ser m anifestada em
atos  tanto  secretos  quanto  evidentes  de  violência  e  dos  quais  advêm
consequências  desastrosas.  Entretanto,  com o  esse  relacionam ento  m udou  no
passado, da m esm a form a pode fazê-lo no futuro, e o j ulgam ento a respeito dos
efeitos  benéficos  e  prej udiciais  de  todas  as  novas  configurações  será  feito  no
porvir.
Questões para refletir

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