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 De que m aneiras se vinculam  as com unidades e as identidades sociais? 2



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1. De que m aneiras se vinculam  as com unidades e as identidades sociais?
2. O que você acha que Ray m ond William s quis dizer com  “o que é notável
sobre a com unidade é que ela sem pre foi”?
3. Seitas e organizações são diferentes? Em  caso afirm ativo, de que m aneiras?
4. Você pensaria em  expor práticas de organizações que considere não éticas?
Em  caso afirm ativo, quando, por que e em  que tipo de circunstâncias?
Sugestões de leitura
DU GAY, Paul. In Praise of Bureaucracy: Weber – Organization – Ethics.
Londres, Sage, 2000.
O autor argum enta que a burocracia pode desem penhar im portante papel em
um a sociedade que estej a em  busca do governo responsável.
GERTH, Hans H. e C. Wright Mills (orgs.). From Max Weber: Essays in
Sociology. Londres, Routledge/Kegan Paul, 1970.
Com o em  nossas sugestões sobre Sim m el e Mead, vale m ais a pena retornar
aos textos originais para assim ilar as m elhores intuições contidas nas ideias de
sociólogos im portantes.
JENKINS, Richard. Social Identity. Londres, Routledge, 1996.
Um a visão geral m uito útil em  sociologia e antropologia das identidades,
m isturada a análises e interpretações do autor.
LYON, David. Surveillance Society: Monitoring Everyday Life. Buckingham ,
Open University  Press, 2001.
Cada vez m ais novas áreas de nossa vida estão suj eitas a vigilância rotineira, e
esse estudo lança luz sobre seu m odo de ser, discutindo suas im plicações.

. Parte II .
Viver nossas vidas: desafi os, escolhas e coerções

. 4 .
Decisões e ações: poder, escolha e dever m oral
Não faltam  questões em  nossas atividades cotidianas. Algum as costum am  surgir
de m aneira razoavelm ente regular e não nos ocupam  por m uito tem po, ao passo
que outras são incitadas por m udanças abruptas em  nossas condições e levam  a
reflexão  m ais  elaborada  e  profunda.  Esses  tipos  de  questão  se  referem   a
m atérias que de m aneira geral não nos preocupam , em bora pontuem  discussões
sobre  quem   som os  e  com o  conferim os  sentido  ao  m undo  ao  nosso  redor.  Às
vezes  esses  questionam entos  provocam   perguntas  a  respeito  do  m otivo  por  que
algo aconteceu. Quando fazem os um a pergunta com o esta, ativam os um  hábito
que todos partilham os e que tam bém  caracteriza a atividade científica – trata-se
do  explicar  eventos  em   term os  de  “causa  e  efeito”.  O  tem a  deste  capítulo  é
com o essas questões se relacionam  e inform am  nossas ações e decisões no dia a
dia.
Tom adas de decisão
Quando se trata de buscar explicações na form a de resultados de um a causa, em
geral j á satisfazem os nossa curiosidade concluindo que o evento era inevitável ou
pelo  m enos  altam ente  provável.  Por  que  ocorreu  um a  explosão  naquela  casa?
Porque  havia  um   escapam ento  na  tubulação  de  gás,  e  o  gás  é  substância
inflam ável, bastando-lhe um a faísca para provocar a explosão. Por que ninguém
ouviu  o  assaltante  quebrar  a  j anela?  Porque  todos  estavam   dorm indo,  condição
em   que  as  pessoas  norm alm ente  não  escutam .  Nossa  busca  de  explicações
em paca quando concluím os que um  evento será sem pre seguido por outro ou que
isso ocorrerá na m aioria das vezes. Assim , no prim eiro caso podem os falar em
“leis”,  porque  não  há  exceção,  enquanto  no  seguinte  estam os  tratando  de
“norm a”, algo que acontece na m aioria dos casos, ainda que não em  todos. Em
am bos,  entretanto,  não  há  possibilidade  de  intervenção  baseada  em   escolha,
porque um  evento é necessariamente seguido por outro.
Essa form a de explicar torna-se problem ática quando aplicada ao dom ínio das
condutas  hum anas.  Afinal,  estam os  tratando  de  eventos  causados  pela  ação  de
pessoas cuj as condutas as defrontam  com  a necessidade de fazer escolhas. Um a
vez  que  há  m aneiras  potencialm ente  diferentes  de  atuação,  os  eventos  não

podem   ser  considerados  inevitáveis.  Isso  posto,  não  há  conj unto  de  proposições
gerais a partir do qual esses eventos possam  ser deduzidos com  qualquer grau de
certeza  –  por  conseguinte,  eles  não  são  previsíveis.  É  possível,  porém ,  tentar
com preendê-los  de  m odo  retrospectivo.  Ou  sej a,  com   o  auxílio  da  revisão,
podem os interpretar um a ação em  term os de determ inadas regras ou disposições
contextuais que antes de m ais nada devem  ser seguidas para a ação ser posta em
prática.
Entretanto,  ainda  parece  faltar  algo,  pois  sabem os  por  experiência  que  as
pessoas agem  de acordo com  seus propósitos. Elas têm , portanto, “m otivos” para
criar  ou  responder  a  um a  situação  que,  por  esta  ou  aquela  razão,  lhes  pareça
preferível.  Podem os  dizer  então  que  tem os  a  capacidade  de  escolher  entre
diferentes  cursos  de  ação.  Naturalm ente  dirigir  um   carro  parando  no  sinal
verm elho  constitui  form a  habitual  de  com portam ento,  m as  é  dem onstração  de
um a preferência inform ada por um a razão – no caso, a prevenção de acidentes.
As  ações  hum anas  podem   ainda  variar  sob  condições  sim ilares  com
m otivações  com partilhadas.  As  pessoas  são  capazes  de  extrair  diferentes
conclusões  de  seu  am biente  ou  rej eitar  m otivos  e  ignorar  circunstâncias.
Sabem os  bem   que  um a  m ulher  e  um   hom em   podem   ter  com portam entos
diferentes  em   circunstâncias  obj etivas  idênticas.  Se  desej am os  saber  por  que
um a form a de ação foi escolhida em  vez de outra, devem os voltar nossa atenção
para  o  processo  de  tom ada  de  decisão  daquela  pessoa.  Em bora  atraente,  esta
ainda  não  é  um a  solução  adequada,  porque  supõe  as  decisões  form uladas  de
acordo  com   escolhas  conscientes  visando  a  fins  explicitam ente  declarados.
Exam inem os, então, as ações irrefletidas, não reflexivas, das quais há dois tipos
principais.
Em  prim eiro lugar, com o vim os, há ações habituais – decorrentes de hábito ou
tradicionais.  Nós  nos  levantam os,  escovam os  os  dentes  e,  ainda  m eio
adorm ecidos, agilizam os um a rotina, um  ritual m atutino – não nos ocorre tom ar
decisões conscientes para seguir esses procedim entos, e até podem os pensar em
algo diferente enquanto os cum prim os. Do m esm o m odo, com em os em  horários
regulares  e  desenvolvem os  todo  tipo  de  hábitos  que  se  tornam   parte  de  nossas
ações, sem  dem andar planej am ento ou nos obrigar a pensar. Se essas rotinas são
rom pidas  por  interrupções  inesperadas,  entretanto,  precisam os  tom ar  decisões
porque aquele hábito de repente transform ou-se em  lem brança desagradável.
A conduta habitual representa, assim , o sedim ento da aprendizagem  passada.
E  tam bém ,  graças  à  repetição  regular,  ela  nos  evita  a  necessidade  de  pensar,
calcular  e  tom ar  decisões  em   m uitas  de  nossas  ações,  contanto  que  as
circunstâncias  encontradas  se  m anifestem   segundo  a  regularidade  de  algum
padrão. De fato, nossas ações se tornam  tão habituais que seria difícil descrever
com o  ocorrem   e  as  razões  por  que  ocorrem .  Com o  dissem os,  elas  só  nos
cham am  a atenção quando algo não funciona, isto é, quando a regularidade e a

ordenação dos am bientes em  que as praticam os entram  em  colapso.
O segundo tipo de ação não reflexiva é aquela que brota das em oções fortes.
As  ações  afetivas  são  caracterizadas  por  suspensão  dos  cálculos  racionais  que
inform am  as finalidades e as possíveis consequências da ação; são com pulsórias
e  surdas  à  voz  da  razão.  Entretanto,  com   o  passar  do  tem po,  as  paixões  podem
arrefecer, e seus atos ser interrom pidos por deliberação. Com o resultado dessas
form as de ação, podem os m agoar quem  am am os e aqueles de quem  cuidam os.
Se, porém , o ato fosse prem editado, não poderia ser considerado afetivo, porque
contem plaria o resultado de decisão calculada. Então é possível afirm ar que um a
ação é afetiva quando perm anece não reflexiva, espontânea, não prem editada, e
quando  nela  se  em barca  antes  de  qualquer  ponderação  de  argum entos  ou
proj eção de consequências.
Ações  habituais  e  afetivas  são  frequentem ente  descritas  com o  “irracionais”.
Isso  não  im plica  que  sej am   insensatas,  ineficazes,  equivocadas  ou  prej udiciais.
Nem   sugere  qualquer  avaliação  de  utilidade,  pois  m uitas  rotinas  são  eficazes  e
úteis.  Certam ente,  elas  nos  perm item   realizar  as  atividades  práticas  relevantes
em  nosso cotidiano, assim  com o nos poupam  da eventual carga de ter que refletir
sobre  todas  as  nossas  ações  antes  de  em preendê-las.  De  m odo  sim ilar,  um a
explosão  de  raiva  sem   a  devida  ponderação  das  consequências  pode  acabar
contribuindo  para  fazer  as  pessoas  com preenderem   com o  nos  sentim os  sobre
algum  evento, ação ou questão. Desse ponto de vista, um a ação irracional pode
ser m ais eficaz que um a racional.
A ação racional é caracterizada por escolha consciente de um  plano de ação,
entre  diversas  alternativas  orientadas  para  a  realização  de  determ inado  fim .
Nessa  leitura  “racional-instrum ental”,  ou  “racional  orientada  segundo  fins”,  os
meios são selecionados j ustam ente de acordo com  as exigências de determ inados
fins.  Outra  form a  desse  tipo  tam bém   dependerá  da  escolha  dos  m eios  para  os
fins,  m as,  nesse  caso,  alguns  fins  são  considerados  m ais  valiosos  que  outros.  A
“ação racional orientada segundo valores” é, assim , m otivada por considerações
do que é “caro ao coração de alguém ”, atraente, desej ável e m ais estreitam ente
vinculado  à  necessidade  do  m om ento.  Essas  duas  form as  com partilham   a
escolha  dos  m eios,  m edida  em   relação  aos  fins  visados,  bem   com o  o  fato  de  o
acordo entre am bos ser o critério final na escolha entre um a decisão considerada
certa e um a errada. Além  disso, baseia-se no fato de que a escolha é voluntária
porque o ator a praticou por livre opção, sem  ser incentivado, em purrado, puxado
ou tiranizado, nem  o fez por hábito ou súbita irrupção de paixão.
Ao  escolher  nossos  cursos  de  ação  por  m eio  de  deliberação  consciente  e
racional,  tam bém   antecipam os  prováveis  resultados.  Isso  exige  o  exam e  da
situação  real  na  qual  a  ação  terá  lugar  e  dos  efeitos  que  com   ela  esperam os
alcançar.  Para  tanto,  norm alm ente  levam os  em   conta  tanto  os  recursos
disponíveis  quanto  os  valores  que  orientam   nossas  condutas.  Pierre  Bourdieu

classifica os tipos de capital em pregados em  nossas ações em  sim bólico, cultural
e  econôm ico.  O  capital  sim bólico  refere-se  ao  poder  de  conferir  significado  a
obj etos, atributos e características; o capital cultural é o conj unto de habilidades e
conhecim entos  que  possuím os  e  podem os  utilizar  em   nossas  ações;  e  o  capital
econôm ico diz respeito ao acesso que tem os a riquezas e recursos m ateriais.
Esses  recursos  podem   estar  voltados  para  m uitos  usos  e  diferem   entre  si  por
com portar diferentes graus de atração e ser atraentes por várias razões. O capital
sim bólico  conferirá  significado  a  obj etos  e  atributos  viabilizando  a  avaliação  do
que  é  valioso  e  por  que  razões.  Podem os  então  escolher  aplicar  nossas
habilidades  na  busca  daqueles  obj etivos  que  parecem   os  m ais  úteis  ou  que
possam   aum entar  o  volum e  de  recursos  a  nossa  disposição  e,  assim ,  am pliar
nossa gam a de liberdades futuras. Finalm ente, são nossos valores que presidem  a
decisão  de  despender  dinheiro  extra  em   um   novo  equipam ento  de  som ,  em
program a  de  férias  ou  na  com pra  de  livros  de  sociologia.  Fazer  o  balanço  de
nossos recursos e valores m ostra-nos os graus de liberdade de que desfrutam os,
ou sej a, o que podem os fazer e o que está fora de questão.
Valores, poder e ação
Falar sobre o que podem os fazer tem  a ver com  nossa capacidade de atuar em
relação ao que, com  nossa habilidade de m onitorar nossas ações, com preende as
duas  dim ensões  da  ação  social.  Podem os  ter  a  habilidade  de  m onitorar  nossas
ações, m as a gam a de liberdades de que desfrutam os para conseguir concretizar
essas  ações  é  diferencialm ente  distribuída.  De  m odo  m uito  sim ples,  as  pessoas
possuem   diversos  graus  de  liberdade.  O  fato  de  elas  serem   diferentes  em   suas
liberdades  de  escolha  diz  respeito  à  desigualdade  social  –  referida  m ais
recentem ente  e  em   contexto  m ais  am plo  pela  expressão  “exclusão  social”.
Algum as pessoas desfrutam  de gam a m ais larga de escolhas devido ao acesso a
m ais recursos, e podem os nos referir a isso em  term os de poder.
Com preende-se  m elhor  o  poder  com o  a  busca  de  obj etivos  livrem ente
escolhidos  para  os  quais  nossas  ações  são  orientadas  e  do  controle  dos  m eios
necessários para alcançar esses fins. O poder é, consequentem ente, a capacidade
de  ter  possibilidades.  Quanto  m ais  poder  alguém   tem ,  m ais  vasto  é  o  leque  de
escolhas  e  m ais  am pla  a  gam a  de  resultados  realisticam ente  buscáveis.  Ser
m enos  poderoso  ou  não  ter  poder  algum   significa  que  talvez  sej a  necessário
m oderar  e  até  reduzir  as  esperanças  realistas  em   relação  aos  resultados  das
ações.  Assim ,  ter  poder  é  ser  capaz  de  atuar  m ais  livrem ente,  enquanto  ser
relativam ente  m enos  poderoso,  ou  im potente,  corresponde  a  ter  a  liberdade  de
escolha lim itada por decisões alheias – de quem  tenha capacidade de determ inar
nossas ações. O exercício da autonom ia de um  indivíduo pode levar os dem ais à
experiência de heteronom ia. A desvalorização da liberdade do outro na busca de

am pliação da própria liberdade pode ser resultado de dois m étodos.
O  prim eiro  é  a  coerção,  que  com preende  a  m anipulação  das  ações  de  tal
m aneira que os recursos de outras pessoas se tornem  inadequados ou ineficazes
no contexto em  questão, por m aiores que possam  parecer em  outros casos. Um
j ogo inteiram ente novo é criado pela m anipulação de um a situação de m odo que
quem   a  m anipula  possa  então  assum ir  a  dianteira:  por  exem plo,  se  a  vítim a  de
um   ladrão  é  um   banqueiro  rico  ou  um   político  poderoso,  seus  respectivos
recursos,  que  lhes  asseguram   alto  grau  de  liberdade  em   outras  circunstâncias,
perdem  a “capacidade de possibilidades”, quando um  ou outro é confrontado, em
um a rua escura e deserta, com  um a faca ou com  o poder físico superior de um
assaltante.
De m aneira sim ilar, forçar a reavaliação de valores incorporados pode levar
as pessoas à sensação de que suas práticas estão agora m ais suj eitas à avaliação
e  ao  questionam ento  daqueles  cuj a  autoridade  não  reconhecem .  Assim ,  outros
valores passam  a predom inar na reação a essa situação. Nas condições extrem as
de  cam pos  de  concentração,  por  exem plo,  o  valor  da  autopreservação  e  da
sobrevivência pode bem  ofuscar as dem ais escolhas.
O  segundo  m étodo  consiste  na  estratégia  de  cooptar  os  desej os  do  outro  em
favor dos obj etivos de alguém . O que caracteriza essa form a é a m anipulação da
situação de m aneira tal que só se podem  alcançar os valores visados seguindo as
regras estabelecidas pelo detentor do poder. Assim , o zelo e a eficiência com  que
inim igos são m ortos são recom pensados, destacando-se a posição social do bravo
soldado  com   m edalhas  e  citações  honoríficas.  Os  operários  podem   assegurar
m elhores  padrões  de  vida  (aum entos  de  salário)  desem penhando  seu  trabalho
com   m ais  dedicação  e  intensidade  e  obedecendo,  sem   questionar,  aos
regulam entos  adm inistrativos.  Os  valores  dos  subordinados  transform am -se,
então, nos recursos de seus superiores hierárquicos. Não são avaliados com o fins
em   si  m esm os,  m as  com o  m eios  a  m obilizar  a  serviço  dos  obj etivos  dos
detentores  do  poder.  Quem   está  suj eito  a  essas  m anipulações  não  tem   outra
escolha senão capitular, abrindo m ão de parte considerável de sua liberdade.
As  ações  alheias  afetam   tanto  os  valores  que  inform am   os  fins  que
perseguim os  quanto  nossa  avaliação  de  quão  realista  é  a  possibilidade  de  os
alcançarm os. O que cham am os de “realista” e o que cham am os de “sonhos” são
inform ados  por  nossas  relações  com   os  outros  e  com   os  recursos  que  podem os
esperar  m obilizar  em   nossas  ações.  Entretanto,  para  com eço  de  conversa,  de
onde  vêm   esses  valores?  Afinal,  por  que  atribuím os  recom pensa  especial  a
alguns obj etivos e negligenciam os ou m enosprezam os outros? Os valores que nos
orientam   são  de  fato  de  nossa  livre  escolha?  Essas  perguntas  são  fundam entais
para  a  com preensão  de  nós  m esm os,  dos  contextos  em   que  interagim os  e  das
influências sobre nossa conduta. Considerem os um  exem plo.
Pretendem os,  ao  term inar  a  escola,  com eçar  im ediatam ente  a  universidade.

Nossos  am igos,  entretanto,  decidiram   outra  coisa  e,  na  discussão  sobre  nossas
respectivas  escolhas,  convencem -nos  de  que  m elhor  será  com eçarm os  logo  a
trabalhar,  em   vez  de  nos  condenar  a  três  anos  de  sacrifício,  de  quase  fom e  e
consequente  endividam ento.  Mudam os  então  de  ideia  e  procuram os  trabalho
para ganhar dinheiro; por um  tem po, aproveitam os os benefícios oferecidos pela
situação. A gerência, entretanto, anuncia um a reorganização no escritório, o que
produzirá  duplicação  de  funções,  m as  afirm a  que,  apesar  de  tudo,  nosso  cargo
estará seguro, e as oportunidades de prom oção são prom issoras. Com o m em bros
de  um   sindicato,  nossos  colegas  votam   por  um a  greve,  e  a  direção  responde
com unicando  que,  em   caso  de  paralisação,  se  perderão  serviços  im portantes.
Com preensivelm ente,  procuram os  evitar  tal  possibilidade,  m as  a  m aioria  de
nossos colegas, ao votar a favor da decisão, parece ter colocado a solidariedade
acim a da segurança de seus próprios em pregos. Ao refletir sobre nossa posição,
reconhecem os que nossos interesses vinculam -se aos de nossos colegas, e assim
votam os pela greve. A consequência é a possibilidade de perder o em prego – e
com  ele a liberdade que a renda nos perm itiu usufruir.
O que acontece nessa situação? Os valores adotados para orientar e j ustificar
as  ações  transform am -se  no  curso  da  interação  social  em   diferentes  contextos.
As pessoas são influenciadas de m aneiras específicas. Isso se m anifesta por m eio
de um a alteração na hierarquia da im portância atribuída a determ inados valores.
O que significa que elas selecionam , conscientem ente ou por padrão, alguns fins
em  vez de outros. De qualquer form a, o resultado é que os obj etivos considerados
prioritários podem  ser j ustificados com o m ais satisfatórios, dignos e m oralm ente
enobrecedores. Ficam os dessa m aneira afinados com  nosso sentido do que sej a
conduta própria e im própria em  nosso dia a dia.
Com o  vim os,  nem   todos  os  valores  são  escolhidos  conscientem ente,  porque
m uitas  de  nossas  ações  são  habituais  e  rotineiras.  Porquanto  as  ações
perm anecem  habituais, raram ente nos detem os para questionar os valores a que
elas  servem .  A  ação  habitual  não  dem anda  j ustificação  a  m enos  que  sej am os
obrigados  a  prestar  contas  por  outras  pessoas  ou  por  m udanças  abruptas  nas
circunstâncias  em   que  agim os.  Essas  j ustificações  discursivas  –  as  que  dizem
respeito  a  nossas  ações  –  podem   ser  de  difícil  sustentação.  Se  pressionados,
podem os responder com  algo com o “É assim  que as coisas sem pre foram  feitas”
ou  “Isso  é  assim   m esm o”.  O  que  estam os  fazendo  é  sugerir  que  a  longevidade
desses  hábitos  em presta-lhes  um a  autoridade  norm alm ente  não  questionada.
Lem brem o-nos,  entretanto,  de  que  essas  são  explicações  “forçadas”  posto  que
incitadas por questionam ento.
Testem unham os,  então,  o  fato  de  a  ação  perm anecer  habitual  contanto  que
não sej a intim ada a se legitim ar, isto é, que não se exij a referência aos valores e
às  finalidades  aos  quais  se  supõe  que  ela  sirva.  Ela  continua  se  repetindo,  em
geral de acordo com  o m esm o padrão, apenas pela força do hábito. Os valores

que  inform am   essas  ações  estão  sedim entados  no  nível  inconsciente,  e  só  nos
tornam os  cientes  de  sua  influência  quando  se  trata  de  escolhas  deliberadas,  por
exem plo,  nas  situações  em   que  os  valores  a  que  obedecem os  são  desafiados,
provocados  e  questionados,  sendo  cham ados  à  legitim ação.  Nesse  ponto,  a
autoridade daqueles valores é questionada.
Pode-se dizer que quem  ocupa posições de com ando sobre outros – posições
circunscritas  por  regras,  exercita  a  autoridade  –  tem   nítida  influência  sobre  a
conduta  alheia,  m as  a  especificidade  dessa  relação  é  dada  pelas  regras  que
cercam  as relações entre subordinado e superior hierárquico. Assim , retom ando
a  discussão  sobre  burocracia,  podem os  ver  com o  as  regras  relativas  à  divisão
hierárquica  de  trabalho  nas  organizações  preparam   sua  autoridade.  Ser  aceito
com o  legítim o,  entretanto,  exige  não  só  que  a  relação  se  conform e  a  regras
específicas, m as tam bém  que sej a j ustificada pelas crenças partilhadas por todos
aqueles a elas suj eitos e que concordem  voluntariam ente com  a relação. O fato
de estarem  satisfeitas as três condições – regras, j ustificações e consentim ento –
significa  que  alguém   se  subm ete  à  autoridade  e  aos  valores  que  sustentam   sua
existência.
Para transform ar-se em  autoridade, um a pessoa ou organização deve produzir
form a de legitim ação ou argum ento capaz de dem onstrar por que sua opinião e
não outra deve ser seguida. Já nos deparam os com  esse tipo de legitim ação, na
form a  da  tradição,  no  sentido  de  ser  testada  e  honrada  pelo  tem po.  A  história,
disseram -nos, une seus herdeiros. E o que foi unido nenhum a presunção hum ana
deve  separar.  Entretanto,  m ais  que  a  consagração  dos  valores  por  sua  idade
avançada,  os  que  procuram   a  aceitação  popular  para  os  princípios  que  pregam
vão  em   algum a  extensão  escavar  algum a  evidência  histórica  genuína,  putativa,
de  sua  antiguidade.  A  im agem   do  passado  histórico  é  sem pre  seletiva,  e  a
deferência  das  pessoas  com   relação  a  ele  pode  ser  listada  entre  as  ações  de
disputas contem porâneas sobre valores. Um a vez que se aceite que determ inados
valores  eram   m antidos  por  nossos  antepassados,  eles  se  tornam   m enos
vulneráveis  à  crítica  contem porânea.  A  legitimação  tradicionalista  torna-se
particularm ente  atrativa  em   períodos  de  m udanças  aceleradas  que  só  geram
inquietação  e  ansiedade,  quando  parece,  então,  oferecer  um   conj unto  de
escolhas relativam ente seguro, m enos angustiante.
A  alternativa  seria  defender  valores  novos  com o  um a  espécie  de  revelação.
Esse tipo de argum ento está associado à legitimação carismática. O carism a foi a
prim eira  qualidade  notada  no  estudo  das  influências  profundas  e  indiscutíveis
exercidas  pela  Igrej a  sobre  o  fiel.  Seu  conceito  neste  exem plo  refere-se  à
convicção do fiel de que sua Igrej a foi dotada de acesso privilegiado à verdade.
O  carism a,  entretanto,  não  precisa  ser  confinado  às  crenças  religiosas  e  às
instituições.  Podem os  m encioná-lo  sem pre  que  a  aceitação  de  determ inados
valores  é  m otivada  pela  crença  de  que  o  pregador  desses  valores  está  investido

de poderes privilegiados e que garantem  a verdade de sua visão e a propriedade
de sua escolha. Em  consequência, é a razão para pessoas com uns não possuírem
m eios  para  avaliar  essas  reivindicações  e,  assim ,  nenhum   direito  a  duvidar  do
poder de sua percepção.
Quanto  m ais  forte  for  o  carism a  dos  líderes,  m ais  difícil  é  questionar  seus
com andos e m ais confortável para os seguidores de suas ordens quando expostos
a situações de incerteza.
Vivem os  supostam ente  um a  era  de  crescente  ansiedade,  na  qual  as  relações
entre  a  confiança  e  o  risco  estão  em   perm anente  m udança.  Anthony   Giddens
afirm ou  que  o  controle  sobre  a  vida  nas  sociedades  tradicionais  passou  para  a
alçada  de  agências  externas,  com   consequente  aum ento  da  sensação  de
im potência. Quanto m ais aprendem os sobre nosso am biente – graças ao trabalho
da m ídia de converter detalhes de resultados científicos em  consciência cotidiana
–,  m ais  nos  cientificam os  de  que  as  form as  de  autoridade  precedentes  não  são
tão invulneráveis quanto j á pensam os.
O sociólogo alem ão Ulrich Beck escreveu sobre essa tendência da sociedade
m oderna sob a expressão “sociedade de risco”. Podem os observar que ela pode
ser  acom panhada  de  certa  dem anda  de  soluções  carism áticas  para  os
com plicados  problem as  dos  valores,  e  nesse  sentido  alguns  partidos  políticos  e
m ovim entos  sociais  intensificam   suas  ações  para  proporcionar  serviços
substitutos.  Essas  organizações  podem   então  transform ar-se  em   portadores
coletivos  da  autoridade  carism ática  e  exercer  influência  em   um a  base
com pletam ente nova, m ais estável, que em  princípio pode sobreviver ao próprio
líder carism ático.
O centro da autoridade carism ática parece ter se deslocado da arena religiosa
e  política,  em bora  isso  não  queira  dizer  que  não  haj a  ainda  forte  pressão  pela
prim eira  com   exem plos  ocasionais  de  seitas  que  rotineiram ente  exigem   o
suicídio  m aciço  de  seus  m em bros  com o  derradeiros  atos  de  fé.  O  advento  das
m ídias de m assa tem  papel nesse desvio, e os efeitos dessas situações provam -se
dem olidores.  A  exposição  pura  e  m aciça  de  personalidades  da  televisão  ou  de
figuras  públicas  vistas  pela  tevê  dem onstra-se  poderosa  influência  nessa
tendência. Tanto quanto antigos líderes carism áticos, a esses indivíduos costum a-
se dar o crédito pela capacidade superior de j ulgam ento, exem plificada pelo fato
de se terem  tornado os ditadores de tendências de estilos de vida particulares. O
significativo  núm ero  de  pessoas  procurando  em   personalidades  públicas
orientação  e  aconselham ento  para  suas  próprias  escolhas  reforça  esse  poder  e
torna m ais vigorosa a validação dessas fontes.
As  duas  form as  de  legitim ação  consideradas  até  agora  –  a  tradicional  e  a
carism ática  –  com partilham   algum as  características:  am bas  im plicam   a
desistência  de  nosso  direito  a  fazer  escolhas  com   base  em   valores  e  podem   ser
associadas  a  abrir  m ão  da  responsabilidade.  Alguém   fez  as  escolhas  por  nós,

podendo,  portanto,  ser  considerado  responsável  pelas  consequências  de  nossas
ações.
Há,  entretanto,  um a  terceira  form a  de  legitim ação,  a  qual  j á  chegam os  a
aludir.  Trata-se  da  dom inação  racional-legal  (ou  burocrática),  segundo  a  qual
algum as organizações e as pessoas autorizadas a falar em  seu nom e têm  o direito
de dizer-nos que tipo de ação deve ser em preendido, sendo nosso dever obedecer
sem   argum entar.  Nesse  caso,  a  sim ples  questão  da  sabedoria  ou  da  qualidade
m oral do conselho parece ter perdido sua im portância. Pode então transform ar-
se  em   lei,  e  é  o  com ando  legal  que  seleciona  para  nós  a  autoridade  que  vai
determ inar  nossa  ação.  A  legitim ação  racional-legal  separa  ação  e  escolha
valorativa,  parecendo  assim   liberar  de  valores  nossas  opções.  Quem   cum pre
um a  ordem   não  precisa  exam inar  a  m oralidade  da  ação  que  foi  requisitado  a
executar, nem  se sentir responsável se ela não for aprovada em  um  teste m oral.
Em   postura  de  autolegitim ação,  reagiria  com   indignação  a  toda  reprim enda
nesse  sentido,  sob  a  j ustificativa  de  que  estava  “apenas  cum prindo  ordens
recebidas de superiores hierárquicos legalm ente reconhecidos”.
A  legitim ação  racional-legal  é  fértil  em   consequências  potencialm ente
sinistras,  pela  sua  tendência  a  absolver  os  atores  de  sua  responsabilidade  de
escolher com  base em  valores m orais. Os assassinatos em  m assa e o genocídio
na  Segunda  Guerra  Mundial  e  de  um   grande  núm ero  de  guerras  posteriores
fornecem   os  m ais  conspícuos,  em bora  de  m aneira  algum a  originais  e
excepcionais,  exem plos  de  tais  consequências.  Aqueles  que  perpetraram
assassinato  recusam -se  a  aceitar  a  responsabilidade  m oral,  apontando
preferivelm ente a determ inação legal de sua obediência ao com ando. E, ao fazer
isso, rej eitam  o fato de que a decisão de obedecer era, na verdade, um a escolha
m oral de sua parte.
Rem over  da  vista  dos  atores  os  valores  de  que  as  ações  se  servem ,  pelo
sim ples  expediente  de  estender  a  cadeia  de  com ando  para  além   da  visão  dos
executores,  torna  a  ação  aparentem ente  livre  de  valoração  e  isenta  de
j ulgam ento m oral. É oferecido aos atores, por assim  dizer, escapar ao fardo da
liberdade, que inclui a responsabilidade pelas ações praticadas. Dessa m aneira, o
dever  m oral  m istura-se  em   m eio  à  tensão  com   o  desej o  de  autopreservação
derivado  do  pertencim ento  ao  grupo.  Essa  identidade  de  grupo  (com o  vim os)
pode  ser  conquistada  com   consequências  desastrosas  para  aqueles  definidos
com o “os outros”, ou “eles”. Essas questões, por sua vez, variam  de acordo com
as  situações  em   que  nos  encontram os  e  com   aqueles  que  são  considerados  os
valores a que aspiram os. Para pensar esse tópico de m odo m ais aprofundado, nos
voltam os agora para os tem as da com petição, da exclusão e da posse.
A m otivação para agir

A  m aioria  de  nossas  ações,  em bora  não  todas,  é  m otivada  por  nossas
necessidades  –  algum as  básicas,  em   term os  de  sobrevivência,  e  outras  que
integram  um  conj unto relacionado à constituição significante da realidade social
que  garanta  determ inado  grau  de  contentam ento.  A  satisfação  dessas
necessidades,  com o  sugerim os,  depende  da  autonom ia  de  nossas  ações,  e  isso,
por  sua  vez,  de  nossa  habilidade  para  m onitorar,  com preender  e  refletir  sobre
nossas  ações,  assim   com o  sobre  nossa  capacidade  de  agir.  Entretanto,  cabe
perguntar:  o  quão  frequentem ente  dizem os  sobre  algum   obj eto  “Preciso  disso.
Tenho de possuí-lo.”?
Sej a  um a  declaração  com o  essa  feita  em   situações  m anifestas  de  relativa
prosperidade ou de relativa pobreza, ela é algo de im portância capital. O estilo de
vida  do  m undo  ocidental  parece  agora  ancorado  na  habilidade  de  consum ir  –
raram ente constitui obj eto de reflexão consum ir com  que propósito. Quando isso
ocorre, porém , a j ustificativa costum a ser a satisfação de necessidades ainda não
atendidas. Entretanto, notem os que na declaração acim a um  m ovim ento ocorreu
com  a  segunda sentença,  que coloca  um a ênfase  m aior no  argum ento  proposto
pela prim eira. Esse ato de esclarecim ento leva ao deslocam ento da satisfação de
um a necessidade expressa à sua ausência, o que conduz a um  estado de privação
que  m inará  a  autopreservação  e  até  a  sobrevivência!  Sem   isso,  a  vida  teria
falhado, ficaria intolerável, colocando em  perigo até sua existência.
O que faz o obj eto desej ado ser considerado um  “bem ” é a qualidade de ser
necessário  à  sobrevivência  ou  à  autopreservação.  Com o  escreveram   o  filósofo
francês Gilles Deleuze e o psicanalista tam bém  francês Félix Guattari, assim  que
o  desej o  e  a  aquisição  se  tornam   um ,  experim entam os  “falta”  significativa  em
nossas  vidas.  E  preenchem os  esse  vazio  com   o  desej o  de  adquirir  algo.  Por
exem plo, m ercadorias com pradas em  um a loj a, o silêncio na rua à noite e o ar
puro ou a água não contam inada, que não podem  ser alcançados sem  o esforço
coordenado  de  m uitos  outros  indivíduos.  As  necessidades  não  podem   ser
satisfeitas  a  m enos  que  ganhem os  acesso  aos  bens  em   questão,  sej a  obtendo
perm issão  para  usá-los,  sej a  nos  tornando  seus  proprietários  –  o  que  sem pre
envolve  outras  pessoas  e  suas  ações.  Não  obstante  nossas  m otivações
pertencerem   ao  dom ínio  do  interesse,  nossos  laços  com   essas  pessoas  são
necessários,  e,  m esm o  que  eles  não  sej am   reconhecidos,  nos  tornam os  m ais
dependentes das ações alheias e dos m otivos que as orientam .
Essa situação não é evidente à prim eira vista. Pelo contrário, a ideia de reter
bens sob a form a da posse é am plam ente aceita com o questão “privada”. Parece
que  o  obj eto  (a  propriedade)  está  ligado  de  algum   m odo  invisível  a  seu
proprietário. E é em  tal tipo de conexão que se supõe estar a essência da posse.
Se alguém  é o proprietário de algo, então, concom itantem ente, há o direito de seu
uso ser determ inado pela vontade de seu proprietário. Esse direito é, obviam ente,
lim itado  de  m aneiras  m uito  particulares.  Assim ,  árvores  de  nosso  j ardim   que

estej am  suj eitas a leis de preservação não podem  ser derrubadas sem  perm issão
oficial,  e  não  podem os  atear  fogo  a  nossas  próprias  casas  sem   o  risco  de  um
processo. Não obstante, o fato de ser necessária um a lei especial para nos proibir
de  dispor  de  nossa  propriedade  só  reforça  o  princípio  geral  de  que
autodeterm inação  e  propriedade  estão  intrinsecam ente  vinculadas.  Entretanto,
questões problem áticas surgem  neste ponto de nossa discussão.
Prim eiram ente,  as  ideias  de  propriedade,  trabalho  e  direito  a  seu  uso  e
disposição não estão livres das influências relativas a gênero, etnia/raça e classe.
Tem os  por  m uito  tem po  equalizado  o  direito  a  nossa  propriedade  ao  trabalho
realizado  para  sua  aquisição.  Isso  vem   de  há  m uito  e  é  aparente  na  obra  do
filósofo John Locke, no século XVII, em  que encontram os um a noção de direito
de  propriedade  abandonada  pelo  prim eiro  trabalhador  que  dela  se  apropriou  e
então  passada  às  gerações  subsequentes  –  um   princípio  que  sobrevive  até  hoj e.
Entretanto,  com   base  em   um a  visão  particular  das  m otivações  hum anas,  Locke
defendeu  um   “contrato  social”,  de  m odo  que  a  ordem   pudesse  ser  constituída
naquilo que de outra m aneira seria um  m undo social e político caótico. Então, em
seu  argum ento,  ele  deu  um a  guinada.  Com o  as  m ulheres  eram   consideradas
“em ocionais”  e  exibissem   “dependência  natural”  com   relação  aos  hom ens,  ele
sugeriu que elas não tivessem  esse direito. O casam ento, dessa m aneira, era um
contrato de que as m ulheres participavam  para produzir os filhos que herdassem
a  propriedade.  O  contrato  da  união  assegurava  que  os  direitos  de  propriedade
eram  estáveis na sociedade e que os hom ens tinham  filhos a fim  de perpetuar sua
linhagem .
Independentem ente  de  supor  que  a  habilidade  de  ser  racional  é  inerente  ao
hom em   com o  indivíduo  m ais  que  a  seu  pertencim ento  à  sociedade  (e  vim os
com o  os  grupos  form am   nossas  identidades  sociais  em   contraste  com   um a
posição  que  rem ove  as  pessoas  das  sociedades  das  quais  elas  são  peças),  essa
m esm a  habilidade  foi,  então,  negada  à  m etade  da  raça  hum ana  com   base  em
um   preconceito  existente  então:  as  m ulheres  são  em ocionais,  e  os  hom ens,
racionais. O resultado é a exclusão das m ulheres do contrato social.
A questão da exclusão das m ulheres nos leva a outra discussão problem ática.
As  descrições  populares  da  relação  de  propriedade  deixam   à  m argem   um
aspecto  central  de  seu  exercício:  o  fato  de  que  ela  é,  m ais  que  qualquer  outra
coisa,  um a  relação  de  exclusão.  Sem pre  que  dizem os  “isto  é  m eu”,  estam os
dando a entender que aquilo não é de m ais alguém . A posse não é um a qualidade
privada;  é  um a  questão  social  que  transporta  um a  relação  especial  entre  um
obj eto  e  seu  proprietário,  e,  ao  m esm o  tem po,  um a  relação  especial  entre  o
proprietário e outras pessoas. Possuir um a coisa significa negar ao outro o acesso
a ela.
Em  um  nível, consequentem ente, a posse estabelece dependência m útua, m as
não nos liga às coisas e aos outros tanto quanto deles nos separa. A concretização

da posse separa, em  um a relação de antagonism o m útuo, quem  possui o obj eto e
quem  não o possui. O prim eiro pode usar o obj eto em  questão e dele abusar (a
m enos que restringido especificam ente pela lei), enquanto ao segundo é negado
tal  direito.  Ela  pode  tam bém   (recordem os  nossa  discussão  sobre  poder)  tornar
assim étrico  o  relacionam ento  entre  pessoas,  isto  é,  aqueles  a  que  é  negado  o
acesso ao obj eto da posse devem  obedecer às circunstâncias estabelecidas pelo
proprietário  sem pre  que  dele  precisam   ou  o  querem   usar.  Por  conseguinte,  sua
necessidade e sua vontade de satisfazê-la os colocam  em  posição de dependência
do proprietário.
Toda  posse  divide  e  distingue  as  pessoas;  m as  só  confere  poder  se  as
necessidades  do  excluído  exigem   o  uso  dos  obj etos  possuídos.  Por  exem plo,  a
posse  das  ferram entas,  das  m atérias-prim as  a  serem   processadas  pelo  trabalho
do  ser  hum ano,  da  tecnologia  e  dos  locais  em   que  tal  processam ento  pode
ocorrer oferece tal poder. Não é com o a posse dos bens a serem  consum idos pelo
proprietário.  Possuir  um   carro,  um   sistem a  de  gravação  de  vídeo  ou  um a
m áquina de lavar pode fazer nossa vida m ais fácil ou m ais agradável e até nos
agregar prestígio, m as não nos dá necessariam ente poder sobre outras pessoas. A
m enos  que,  naturalm ente,  os  outros  desej em   usar  essas  coisas  para  seu  próprio
conforto ou  apreciação, caso  em  que  podem os estabelecer  as condições  de  uso
às quais eles devem  conform ar-se.
A m aioria das coisas que possuím os não confere poder, m as independência do
poder  do  outro,  rem ovendo  a  necessidade  de  utilizar  suas  posses.  Quanto  m aior
for  a  parcela  de  nossas  necessidades  que  podem os  satisfazer  dessa  m aneira,
m enos terem os de nos conform ar às regras e às circunstâncias estabelecidas por
outras  pessoas.  Nesse  sentido,  a  posse  é  um a  condição  de  possibilidade  porque
pode  am pliar  a  autonom ia,  a  ação  e  a  escolha,  de  m odo  que  posse  e  liberdade
são frequentem ente consideradas inseparáveis.
Retom ando nossas discussões anteriores, o princípio de base de toda posse é o
fato  de  que  os  direitos  dos  outros  lim itam   os  nossos,  e,  consequentem ente,  a
prom oção de nossa liberdade requer a restrição do exercício da liberdade alheia.
A condição de possibilidade da propriedade vem  sem pre associada a vários graus
de  coerção  segundo  esse  princípio,  que  supõe  um   irreparável  conflito  de
interesses, um a vez que se trata de um  j ogo de som a zero. Assim , não se supõe
que  haj a  qualquer  ganho  com   a  partilha  e  a  cooperação.  Em   um a  situação  na
qual  a  capacidade  de  agir  depende  do  controle  sobre  recursos,  atuar
razoavelm ente  significará  seguir  o  m andam ento  do  “cada  um   por  si”.  Essa  é  a
m aneira com o a tarefa da autopreservação nos aparece.
Pierre Bourdieu escreveu sobre o que cham ou de “adesão dóxica”. Usou essa
expressão  para  indicar  que  há  m uitas  categorias  de  pensam ento  que
em pregam os  de  m odo  rotineiro  no  entendim ento  de  questões,  m as  que
raram ente refletem  nossas práticas. Um a das m ais poderosas, se não a m ais, é a

ideia da autopreservação baseada na com petição. Os concorrentes são m ovidos
pelo  desej o  de  excluir  seus  rivais,  reais  ou  potenciais,  do  uso  dos  recursos  que
controlam ,  esperam   ou  sonham   controlar.  Os  bens  pelos  quais  com petem   são
percebidos  com o  escassos:  acredita-se  que  não  haj a  bastante  deles  para
satisfazer  a  todos  e  que  alguns  rivais  devem   ser  forçados  a  se  conform ar  com
m enos  do  que  desej ariam   possuir.  É  com ponente  essencial  da  ideia  de
com petição, bem  com o suposição básica da ação do com petidor, o  fato  de  que
alguns  desej os  estej am   fadados  a  ser  frustrados,  e,  a  partir  disso,  as  relações
entre  vencedores  e  derrotados  devem   ser  m arcadas  perm anentem ente  com
desagrado ou inim izade m útua. Pela m esm a razão, nenhum  ganho com petitivo é
considerado  seguro,  a  m enos  que  ativa  e  vigilantem ente  defendido  contra
desafios  e  contestação.  A  luta  com petidora  não  term ina;  seus  resultados  nunca
são finais e irreversíveis. Disso decorrem  algum as consequências.
Em  prim eiro lugar, toda com petição traz em  si um a tendência ao m onopólio.
As grandes corporações estão ficando ainda m aiores graças a fusões envolvendo
substanciosos  aportes  de  dinheiro.  No  processo,  o  lado  vencedor  tende  a  tornar
seus  ganhos  seguros  e  perm anentes  pela  negação,  aos  vencidos,  do  direito  de
reclam ar os seus. A finalidade definitiva dos concorrentes, em bora indescritível e
inatingível,  é  abolir  a  própria  com petição  –  do  que  resulta  terem   as  relações
com petitivas um a tendência interna à autoaniquilação. Deixados por si próprios,
eles  levariam   a  um a  polarização  aguda  das  possibilidades.  Os  recursos  seriam
aglom erados  e  tenderiam   a  se  tornar  sem pre  m ais  abundantes  em   um   lado  e
cada  vez  m ais  escassos  do  outro.  Na  m aioria  das  vezes,  tal  polarização  dos
recursos  daria  ao  lado  vencedor  a  habilidade  de  ditar  os  papéis  de  todas  as
interações  posteriores  e  de  deixar  os  vencidos  sem   posição  para  contestar  as
regras.  Os  ganhos,  em   tal  caso,  seriam   convertidos  em   m onopólio  e,  assim ,
atrairiam  ainda m ais ganhos, o que aprofundaria m uito o abism o entre os opostos.
É por razões com o essas que John Kenneth Galbraith, um a das figuras de ponta
da  econom ia,  registrou  em   A  cultura  do  contentamento  que  a  ação
governam ental é necessária para reprim ir “tendências autodestrutivas do sistem a
econôm ico”.
Em   segundo  lugar,  a  polarização  das  possibilidades  provocada  pela  atividade
m onopolista  tende  a  conduzir,  no  longo  prazo,  ao  tratam ento  diferencial  de
vencedores e de vencidos. Mais cedo ou m ais tarde, “vencedores” e “vencidos”
se  solidificam   em   categorias  “perm anentes”.  Os  prim eiros  responsabilizam   a
falha  dos  segundos  pela  inferioridade  inerente  destes,  e,  dessa  m aneira,  os
derrotados  são  declarados  responsáveis  por  seu  próprio  infortúnio.  Esse  é  um
triunfo do m odelo de pensam ento defensor da ideia de que os problem as sociais
têm   soluções  individuais,  biográficas.  Essas  pessoas  são  descritas,  então,  com o
ineptas,  perversas,  inconstantes,  depravadas,  im previdentes  ou  m oralm ente
abj etas. Ou sej a, elas não possuem  j ustam ente as qualidades supostas necessárias

para a com petição que, para com eço de conversa, contribuiu para aquele estado
de  coisas.  Então,  assim   definidos,  aos  vencidos  é  negada  a  legitim idade  de  se
queixar.
Os  pobres  são  execrados  com o  preguiçosos,  desleixados  e  negligentes.
Pessoas de depravação  em   vez  de  vítim as  de  privação.  Supõe-se  que  lhes  falte
caráter, que fuj am  do trabalho pesado e tendam  à delinquência e ao delito, o que
pode  levar  a  que  se  interprete  que  eles  “escolheram ”  seu  próprio  destino.  De
m odo  sim ilar,  em   sociedades  de  dom inação  m asculina,  as  m ulheres  são
responsabilizadas por seu estado de opressão, deixando seu confinam ento ao que
se supõe  serem  funções  m enos prestigiosas  e desej áveis  ser explicado  por  um a
inferioridade “inata”, m anifestada na em otividade excessiva e na falta de espírito
de com petição.
Moralidade e ação
No  m undo  contem porâneo,  a  difam ação  das  vítim as  da  com petição  é  um   dos
m eios  m ais  poderosos  de  silenciar  um a  m otivação  alternativa  para  a  conduta
hum ana,  o  dever  m oral.  Motivos  m orais  chocam -se  com   os  do  ganho  porque  a
ação  m oral  exige  solidariedade,  auxílio  desinteressado,  vontade  de  aj udar  o
próxim o  em   sua  necessidade  sem   pedir  ou  esperar  recom pensa.  Um a  atitude
m oral  encontra  expressão  na  consideração  pela  necessidade  alheia  e  na  m aior
parte das vezes leva ao com edim ento e à renúncia voluntária de ganho pessoal.
Max  Weber  notou  que  a  distinção  entre  negócio  e  vida  fam iliar  é  um a  das
características m ais conspícuas das sociedades m odernas. O efeito global disso é
o  isolam ento  das  esferas  em   que  as  considerações  dom inantes  são  o  ganho  e  o
dever  m oral,  respectivam ente.  Quando  engaj ados  em   algum a  atividade
em presarial,  som os  sequestrados  da  rede  de  ligações  fam iliares.  Em   outras
palavras,  som os  libertados  das  pressões  de  deveres  m orais.  As  avaliações  em
term os  de  ganho  podem   assim   receber  a  única  atenção  que  a  atividade
em presarial  bem -sucedida  exige,  ao  passo  que,  idealm ente,  a  vida  fam iliar  e
aquelas form as com unais padronizadas a partir da fam ília devem  estar livres das
m otivações do ganho.
De  m aneira  tam bém   idealizada,  as  atividades  em presariais  não  devem   ser
afetadas pelos m otivos estabelecidos por sentim entos m orais, assim  prevalecendo
a  ação  racional-instrum ental.  Afinal,  notam os  que  a  proposta  de  um a
organização  é  a  tentativa  de  aj ustar  a  ação  hum ana  às  exigências  ideais  da
racionalidade.  Vem os  novam ente  que  tal  tentativa  deve  envolver,  m ais  que
qualquer outra coisa, o silenciar das considerações m orais pela redução de cada
tarefa  a  um a  escolha  sim ples  entre  obedecer  ou  recusar  um   com ando.  E  é
tam bém  reduzida a um a pequena parcela do propósito global levado a cabo pela
organização  com o  um   todo,  de  m odo  que  as  consequências  m aiores  do  ato  não

sej am   necessariam ente  visíveis  ao  ator.  Mais  im portante,  a  organização  põe  a
disciplina no lugar da responsabilidade m oral, e, desde que os m em bros de um a
organização  sigam   estritam ente  as  regras  e  os  com andos  dos  superiores,  lhes  é
garantido  estar  livres  de  dúvidas  m orais.  Um a  ação  m oral  repreensível,
inconcebível  em   determ inadas  circunstâncias,  pode,  em   outras,  de  repente
transform ar-se em  possibilidade real.
A  potência  da  disciplina  organizacional  para  silenciar  ou  suspender  reservas
m orais  foi  dram aticam ente  dem onstrada  nas  notórias  experiências  conduzidas
nos  anos  1960  pelo  psicólogo  am ericano  Stanley   Milgram .  Nelas,  alguns
voluntários  foram   instruídos  a  m inistrar  choques  elétricos  dolorosos  a
participantes de um a falsa “pesquisa científica”. A m aioria, convencida da nobre
finalidade  analítica  de  sua  crueldade  e  da  confiança  no  j ulgam ento
evidentem ente  superior  dos  cientistas  responsáveis  pelo  proj eto  de  pesquisa,
seguiu  as  instruções  fielm ente  –  encoraj ada  pelos  gritos  de  angústia  de  suas
vítim as. O que a experiência revelou em  um a pequena escala e em  condições de
laboratório  tem   sido  dem onstrado  em   dim ensões  aterradoras  pela  prática  do
genocídio  durante  a  Segunda  Guerra  Mundial  e  depois  dela.  Os  assassinatos  de
m ilhões dos j udeus praticados e supervisionados por poucos m ilhares de líderes e
oficiais  superiores  nazistas  era  um a  operação  burocrática  gigantesca  que
envolveu  a  cooperação  de  m ilhões  de  pessoas  “com uns”.  Elas  conduziram   os
trens  que  carregavam   as  vítim as  para  as  câm aras  de  gás  e  trabalharam   nas
fábricas  produtoras  de  gases  venenosos  ou  dispositivos  de  crem atórios.  Os
resultados finais eram  tão distantes das tarefas sim ples que as preocupavam  em
seu cotidiano, que as conexões poderiam  escapar a sua atenção ou ser afastadas
de suas consciências.
Mesm o que os funcionários de um a organização com plexa estej am  cientes do
efeito  final  da  atividade  com um   de  que  participam ,  esse  efeito  costum a  ser
dem asiado  rem oto  para  preocupá-los.  O  afastam ento  pode  ser  questão  de
distância  m ental,  m ais  que  geográfica.  Por  causa  das  divisões  de  trabalho
verticais  e  horizontais,  as  ações  de  cada  pessoa  são,  em   regra,  interm ediadas
pelas ações de m uitas outras. No final, nossa própria contribuição em palidece na
insignificância,  e  sua  influência  no  resultado  final  parece  pequena  dem ais  se
considerada  seriam ente  com o  problem a  m oral.  Essas  “técnicas  de
neutralização”, com o os sociólogos am ericanos David Matza e Gresham  Sy kes as
denom inaram ,  perm item   ao  praticante  liberar-se  da  responsabilidade  por  suas
ações.  Afinal,  ele  poderia  estar  fazendo  algo  tão  inócuo  e  inofensivo  quanto
im pressão  em   blueprint,1  elaboração  de  relatórios,  preenchim ento  de
docum entos  ou  operação  da  m áquina  que  m istura  dois  com postos  quím icos.
Nesse  caso,  não  reconheceria  facilm ente  os  corpos  carbonizados  em   um   país
estrangeiro com o algo relacionado a suas ações.
A  burocracia  em pregada  a  serviço  de  fins  desum anos  tem -se  dem onstrado

habilm ente  capaz  de  silenciar  m otivações  m orais  não  só  em   seus  em pregados,
m as  m uito  além   dos  lim ites  da  própria  organização  burocrática.  Isso  é
conseguido  m ediante  o  apelo  ao  m otivo  da  autopreservação,  com o  a  gerência
burocrática  do  genocídio  assegurou  a  indiferença  m oral  da  m aioria  dos
espectadores e m esm o a cooperação de m uitas de suas vítim as.
Os  possíveis  vitim ados  tinham   se  convertido  em   “cativos  psicológicos”  e,
assim ,  foram   enfeitiçados  pelas  perspectivas  ilusórias  de  tratam ento  benéfico
com o recom pensa à subm issão. Eles esperavam , contra a própria esperança, que
algo ainda pudesse ser salvo, que alguns perigos pudessem  ser evitados, supondo
que bastaria apenas que os opressores não fossem  dem asiadam ente ofendidos, e
sua  cooperação  seria  recom pensada.  Em   m uitos  casos  essa  com placência
antecipadora  surgiu  quando  as  vítim as  deixaram   seus  cam inhos  a  fim   de
satisfazer  os  opressores,  supondo  previam ente  suas  intenções  e  executando-a
com   tem perada  paixão.  Não  foi  senão  no  últim o  m om ento  que  eles  se
depararam   com   a  inevitabilidade  de  seu  destino.  Desse  m odo,  os  controladores
do  genocídio  alcançaram   seus  fins  com   o  m ínim o  de  desordem ,  e  poucos
guardas eram  necessários para supervisionar a longa e obediente m archa até as
câm aras de gás.
Quanto  aos  espectadores,  sua  conform idade,  ou  pelo  m enos  seu  silêncio,
acom panhado  de  inatividade,  foi  garantida  com   o  estabelecim ento  de  preço
elevado  para  toda  expressão  de  solidariedade  às  vítim as.  Escolher  o
com portam ento  m oral  correto  significaria  o  convite  a  algum a  terrível  punição.
Nessa situação, os interesses da autopreservação podem  ter desprezado o dever
m oral,  sendo  as  técnicas  de  racionalização  utilizadas  para  executar  sua
finalidade.  Por  exem plo:  “Não  poderia  aj udar  as  vítim as  sem   com prom eter
m inha própria vida e a de m inha fam ília. Eu teria conseguido salvar um a pessoa
no m elhor dos casos, m as, se falasse, m orreriam  dez.”
Racionalizações  desse  tipo  foram   assistidas  por  aqueles  cientistas  que,
separando  os  m eios  e  os  fins  de  suas  pesquisas,  forneceram   à  ideologia
dom inante evidências científicas da inferioridade das pessoas subm etidas àqueles
crim es  horrendos.  Suj eitos  foram   equiparados  a  “obj etos”  inferiores,  cuj a
m anipulação  e  destruição  se  transform ou  não  em   um a  questão  m oral,  m as  em
parte  do  know-how  técnico  dos  peritos,  detentores  de  autoridade  supostam ente
capaz  de  aliviar  os  perpetradores  de  toda  a  responsabilidade  por  infligir
sofrim ento a outros seres hum anos.
Evidentem ente,  isso  tudo  foi  um a  ilustração  extrem ada  da  oposição  entre
autopreservação  e  dever  m oral,  m as  a  “lim peza  étnica”  ainda  está  presente.
Entretanto,  essa  oposição  deixa  suas  im pressões  na  condição  hum ana  cotidiana,
em bora  de  form a  m enos  radical.  Afinal,  extinguir  obrigações  m orais  pode  ser
facilitado pelo tratam ento estatístico de ações hum anas. Vistos com o núm eros, os
obj etos  hum anos  podem   perder  suas  individualidades  e,  assim ,  ser  privados  de

sua  existência  independente  com o  m erecedores  de  direitos  hum anos  e  de
obrigações  m orais.  O  que  im porta,  então,  é  a  categoria  para  a  qual  foram
oficialm ente  designados.  A  própria  classificação  pode  então  acertar  o  foco  em
alguns  atributos  selecionados  com partilhados  pelos  indivíduos  que  tenham
m erecido o interesse da organização. Ao m esm o tem po, isso pode dar licença à
negligência  em   relação  a  todos  os  dem ais  atributos  da  pessoa  e,  com   isso,  às
características  que  especialm ente  as  instituem   com o  suj eitos  m orais  e  seres
hum anos originais e insubstituíveis.
Para  Michel  Foucault,  com   o  crescim ento  das  populações  e  a  com plexidade
da vida social, o cuidado com  os cidadãos transform ou-se em  interesse central do
Estado.  Um   novo  regim e  ergueu-se  então  na  arte  do  governo,  com   a  vida
cotidiana  transform ada  em   obj eto  de  intervenção  no  desej o  a  fim   de  prever  e
controlar  populações,  quadro  que  foi  aj udado,  de  m odo  com petente,  por
desenvolvim entos  no  raciocínio  estatístico.  As  pessoas  passaram   a  ser,  então,
reguladas e disciplinadas de acordo com  as estratégias levadas a cabo tendo em
vista  esses  fins.  A  produtividade  do  trabalho  era  m uito  im portante  nessas
racionalizações. 
Espaços 
que 
haviam  
sido 
casas 
de 
confinam ento
transform aram se em  hospitais, em  que os incapazes para o trabalho, por razões
físicas ou não físicas, viram -se alvo da intervenção m édica. Nasceu ali a ideia de
“psiquiatria”.
Cabe,  entretanto,  perguntar  com   que  finalidade  esses  m eios  foram
em pregados e que consequências geraram . Não só os governos, m as tam bém  as
grandes  corporações,  incluindo  serviços  de  m arketing  e  de  seguro,  classificam
populações  visando  a  coletar  inform ação.  Vim os  que  questões  relativas  a
negócios,  deparadas  com   a  finalidade  m oral,  podem   provocar  tensão.  Por  quê?
Porque  as  pessoas  são  tratadas  com o  m eios  para  a  busca  daqueles  interesses,  e
não  com o  fins  em   seus  direitos  próprios  –  o  que,  aliás,  é  possível  encontrar
igualm ente  nas  situações  não  conform adas  por  tais  interesses,  com o  vim os  em
nossos exem plos anteriores.
Há  ainda  outro  silenciador  da  m oralidade:  a  m ultidão.  Tem -se  notado  que
pessoas desconhecidas – que não se encontrariam  sob outras circunstâncias, não
interagiram   antes  e  só  estão  “unidas”  naquele  m om ento  por  um   interesse
provisório,  acidental  –,  aglom eradas  em   espaços  confinados,  tendem   a  se
com portar de m aneira que não j ulgariam  aceitável em  condições “norm ais”. O
m ais  selvagem   dos  com portam entos  pode  de  repente  espalhar-se  por  um a
m ultidão de m odo só com parável a um  incêndio florestal, um a raj ada de vento
ou contágio.
Em  algum a m ultidão acidental, por exem plo, em  um  m ercado lotado ou em
um   teatro  em   situação  de  pânico,  as  pessoas,  assoberbadas  pelo  desej o  de
autopreservação, podem  pisotear seus sem elhantes ou os em purrar para o fogo a
fim   de  garantir  para  si  um   espaço  respirável  ou  que  lhes  perm ita  escapar  ao

perigo.  Em   m eio  à  m ultidão  elas  se  tornam   capazes  de  ações  que  nenhum   ator
sozinho, sob seus próprios critérios, se sentiria m oralm ente autorizado a com eter.
Se  a  m ultidão  pratica  atos  que  seus  com ponentes  abom inam   é  porque  ela  “não
tem   rosto”.  Nesse  contexto,  os  indivíduos  perdem   suas  individualidades  e  se
“dissolvem ” no aj untam ento anônim o.
A m ultidão pode desaparecer tão rapidam ente quanto se form a e sua ação de
coletivo,  por  m ais  coordenado  que  se  possa  m ostrar,  nem   segue  nem   gera
interações  de  qualquer  grau  de  perm anência.  É  precisam ente  o  caráter
m om entâneo  e  inconsequente  da  ação  da  m ultidão  que  viabiliza  a  conduta
puram ente  afetiva  dos  indivíduos  que  a  com põem .  Por  um   m om ento  breve,
rem ovem -se  as  inibições,  tornam -se  vagas  as  obrigações  e  suspendem -se  as
regras.
À prim eira vista, a conduta ordeira e racional da organização burocrática e as
tum ultuadas  erupções  da  raiva  de  um a  m ultidão  podem   parecer  alocadas  em
polos opostos. Não obstante, am bas tendem  para a “despersonalização” e, assim ,
podem   reduzir  a  propensão  para  a  ação  m oral  em   seu  anonim ato  sem   rosto.
Afinal, as pessoas perm anecem  suj eitos m orais enquanto são reconhecidas com o
seres humanos, isto é, com o os seres indicáveis para o tratam ento reservado aos
sem elhantes  singulares  e  considerado  apropriado  para  cada  ser  hum ano.  Isso
supõe  que  os  parceiros  em   nossas  interações  têm   suas  próprias  necessidades
pessoais, tão válidas e im portantes quanto as nossas, devendo, portanto, ser obj eto
de atenção e respeito equivalentes.
Sem pre  que  determ inadas  pessoas  ou  categorias  de  pessoas  têm   negado  o
direito  a  nossa  responsabilidade  m oral,  elas  são  tratadas  com o  “m enos
hum anas”, “proto-hum anas”, “não inteiram ente hum anas” ou, no extrem o, “não
hum anas”.  Para  proteger-se  disso,  segundo  a  filósofa  e  escritora  francesa
Sim one  de  Beauvoir,  é  necessário  não  tratar  aqueles  com   quem   nos
relacionam os com o m em bros de um a classe, de um a nação ou de algum a outra
coletividade, m as com o um  indivíduo que sej a um  fim  em  si próprio.
Nem  todos os m em bros da espécie hum ana podem  ser incluídos no universo
das  obrigações  m orais.  Muitas  tribos  “prim itivas”  deram -se  nom es  que
significam   “seres  hum anos”.  E  um a  recusa  a  aceitar  a  hum anidade  de  outras
tribos  estranhas  a  elas  e  seus  m em bros  acom panha  essa  nom eação  e  se
prolongou  em   sociedades  escravistas,  nas  quais  os  escravos  receberam   o  status
de “ferram entas falantes” e foram  considerados unicam ente em  virtude de sua
utilidade para tarefas atribuídas.
O  status  de  hum anidade  lim itada  significou  na  prática  que  a  exigência
essencial de um a atitude m oral – respeito às necessidades de outra pessoa, o que
inclui,  prim eiro  e  acim a  de  tudo,  o  reconhecim ento  de  sua  integridade  e  da
santidade  de  sua  vida  –  não  foi  considerada  elem ento  de  ligação  nas  relações
com  os portadores de tal status. É com o se a história consistisse em  um a extensão

gradual,  contudo  im placável,  da  ideia  de  hum anidade  –  com   pronunciada
tendência  do  universo  das  obrigações  a  tornar-se  cada  vez  m ais  inclusivo  e,  ao
final, contíguo à totalidade da espécie hum ana.
Esse processo não se deu diretam ente. O século XX foi notório pela aparição
de visões de m undo altam ente influentes que cham aram  atenção para a exclusão
de  categorias  inteiras  da  população  –  classes,  nações,  raças,  religiões  –  do
universo  das  obrigações.  A  perfeição  do  ato  burocraticam ente  organizado,  por
outro  lado,  alcançou  um   ponto  em   que  as  inibições  m orais  não  pudessem   m ais
interferir eficazm ente nas considerações da eficiência. A com binação de am bos
os  fatores  –  a  possibilidade  de  suspensão  da  responsabilidade  m oral  oferecida
pela tecnologia burocrática gerencial e a presença de visões de m undo prontas e
desej osas  de  estender  tal  possibilidade  –  resultou  em   m uitas  ocasiões  no  bem -
sucedido confinam ento do universo das obrigações.
Isso, por  sua vez,  abriu cam inho  para consequências  diversas, com o  o  terror
m aciço praticado em  sociedades com unistas contra m em bros de classes hostis e
pessoas  classificadas  com o  seus  colaboradores;  discrim inação  persistente  de
m inorias  raciais  e  étnicas  em   países  que  de  outro  m odo  seriam   orgulhosos  de
suas folhas corridas de direitos hum anos, m uitos dos quais praticantes de sistem as
abertos  ou  sub-reptícios  de  apartheid;  a  venda  de  arm as  a  países  que
subsequentem ente  castigados  por  sua  falta  de  m oralidade  e  talvez  subm etidos  a
um a declaração de guerra só para serem  acertados por aquelas m esm as arm as;
os  num erosos  exem plos  de  genocídio,  do  m assacre  dos  arm ênios  na  Turquia,
passando  pela  aniquilação  dos  m ilhões  de  j udeus,  ciganos  e  eslavos  pela
Alem anha nazista, até o uso de arm as quím icas sobre os curdos ou os assassinatos
em  m assa no Cam boj a, na antiga Iugoslávia e em  Ruanda. Os lim ites do universo
das obrigações perm anecem  até hoj e questão controversa.
Nesse universo, a autoridade das necessidades do outro é reconhecida. Todo o
possível deve ser feito para assegurar seu bem  estar, expandir suas possibilidades
de vida e garantir seu acesso aos encantos que a sociedade tem  a oferecer. Sua
pobreza,  sua  doença  e  sua  desesperança  cotidianas  constituem   desafio  e
advertência a  todos os  dem ais m em bros  do m esm o  universo de  obrigações.  Ao
enfrentar esses desafios, nos sentim os obrigados a dar um a desculpa – para fazer
um a prestação de contas convincente de por que tão pouco foi feito para aliviar
suas  sinas  e  de  por  que  não  m uito  m ais  pode  ser  feito;  e  ainda  nos  sentim os
obrigados a m ostrar que tudo que poderia ser feito o foi. Não que as satisfações
fornecidas devam  necessariam ente ser verdadeiras.
Ouvim os,  por  exem plo,  que  o  serviço  de  saúde  oferecido  à  população  em
geral não pode ser m elhorado porque “o dinheiro não pode ser gasto até que sej a
ganho”.  O  que  tal  prestação  de  contas  esconde,  entretanto,  é  que  os  lucros
produzidos  pela  m edicina  privada  utilizada  por  pacientes  ricos  são  classificados
com o  “ganhos”,  enquanto  os  serviços  oferecidos  àqueles  que  não  podem   pagar

m ensalidades  dos  planos  privados  são  contados  com o  “despesas”.  Tais
explicações dissim ulam  tratam ento diferencial das necessidades de acordo com
a capacidade de pagar. O próprio fato de a prestação de contas ser considerada
absolutam ente  necessária,  entretanto,  testem unha  o  reconhecim ento  de  que  as
pessoas cuj as necessidades m édicas são negligenciadas perm anecem , em  algum
grau, inseridas no universo das obrigações.
Síntese
A  autopreservação  e  o  dever  m oral  frequentem ente  se  encontram   em   tensão.
Um   não  pode  reivindicar  ser  m ais  “natural”  que  o  outro,  isto  é,  m ais  bem -
sintonizado  com   a  predisposição  inerente  à  natureza  hum ana.  Se  alguém   obtém
controle  sobre  o  outro  e  isso  se  transform a  em   m otivo  dom inante  da  ação
hum ana,  a  causa  do  desequilíbrio  pode  geralm ente  ser  rastreada  de  volta  até  o
contexto  social  da  interação.  Motivações  interesseiras  ou  m orais  tornam -se
predom inantes  dependendo  das  circunstâncias  sobre  as  quais  as  pessoas  assim
orientadas podem  ter controle apenas lim itado.
Observou-se,  entretanto,  que  duas  pessoas  podem   atuar  de  m odos  diferentes
diante  de  idênticas  circunstâncias.  Assim ,  o  poder  das  circunstâncias  nunca  é
absoluto,  e  a  escolha  entre  duas  m otivações  contraditórias  perm anece  aberta,
m esm o  nas  situações  m ais  extrem as,  quando  (com o  vim os)  nossas  ações
individuais estiverem  vinculadas a ações de outros de quem  som os dependentes.
A predisposição m oral de nossas ações em  relação aos outros, então, tam bém  se
transform a em  condição prévia para a autoestim a e o respeito próprio.
Questões para refletir
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