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 Quais são os obj etivos de sua vida e de que m eios você terá de dispor para alcançá-los? 2



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1. Quais são os obj etivos de sua vida e de que m eios você terá de dispor para
alcançá-los?
2. Quais são os grupos de referência em  sua vida e qual a relação entre suas
ações e as expectativas deles?
3. Com o você vê o relacionam ento entre liberdade e dependência?
4. Para você, qual é a relação entre fam ílias, com unidades e organizações, e

com o essas instituições afetam  os obj etivos que estabelecem os para nós, sej am
atingíveis ou não? Analise essa questão em  relação ao “critério de relevância”.
Sugestões de leitura
BAUMAN, Zy gm unt. Freedom. Milton Key nes, Open University  Press, 1988.
Analisa as m esm as questões a que nos dedicam os nesse capítulo.
GRIFFITHS, Morwenna. Feminisms and the Self: The Web of Identity. Londres,
Routledge, 1995.
Várias ideias sobre o self são analisadas com  relação ao pertencim ento, à
autenticidade, à política e à autobiografia.
MEAD, George Herbert. Selected Writings: George Herbert Mead (organização
de A.J. Reck). Chicago, University  of Chicago Press, 1964.
Coleção selecionada de escritos originais de Mead que vale a pena ser lida
diretam ente, m ais que por m eio de fontes secundárias.
SKEGGS, Beverly. Formations of Class and Gender: Becoming Respectable.
Londres, Sage, 1997.
Um  estudo sociológico seguindo vidas de m ulheres e m ostrando a luta que
travam  para construir suas identidades sociais.

. 2 .
Observação e sustentação de nossas vidas
Discutim os questões referentes ao pertencim ento a grupos e ao m odo com o eles
se relacionam  com  nossa autoconcepção em  interação com  os outros. A m aneira
com o  esses  grupos  influenciam   nossas  condutas  e  com o  interagim os,  a  que
grupos pertencem os e os que excluím os com o resultado desse vínculo, estes são
todos  tem as  im portantes  na  vida  cotidiana.  Essas  circunstâncias,  intencionais  ou
não,  contribuem   para  a  form a  e  para  o  conteúdo  das  relações  sociais  que
caracterizam  nossas sociedades. Neste capítulo refletirem os sobre esses assuntos
m ais detalhadam ente e exam inarem os as consequências desses processos sobre
nossa visão dos outros e de nós m esm os.
Fundam entando nossas vidas: interação, entendim ento e distância social
Pensem os em  todas aquelas pessoas cuj as ações são indispensáveis a nosso dia a
dia. Quem  põe o café em  nossa xícara? Quem  fornece a eletricidade, o gás e a
água  de  que  todos  dependem os?  E  m ais:  quem   decide  com o,  onde  e  quando
m ovim entar os US$2,6 trilhões que circulam  nos m ercados globais diariam ente,
com   reflexos  na  prosperidade  e  no  desenvolvim ento  de  vários  países?  Essas
pessoas fazem  parte da m ultidão desconhecida que possibilita nossa liberdade de
selecionar a m aneira de viver que m ais nos agrada ou a restringe – com o aqueles
industriais  que  consideram   os  robôs  m ais  produtivos  que  os  trabalhadores  de
carne  e  osso  e,  em   decorrência  disso,  reduzem   as  possibilidades  de  em prego.
Além   disso,  há  os  que,  preocupados  com   seus  próprios  obj etivos,  produzem
poluição e lixo industrial, com  consequências de longo prazo para a qualidade de
nossas vidas, para o am biente e para a vida selvagem  em  geral.
Com pare essas pessoas com  as que você conhece, reconhece e pode cham ar
pelo  nom e.  Agora,  im aginando-as  entre  aquelas  que  influenciam   a  m aneira
com o você conduz sua vida e as escolhas que pode ou não fazer, as pessoas que
você realm ente conhece com põem  proporção m uito pequena delas – até aquelas
com   quem   nos  defrontam os  aparecem   com   diferentes  frequências.  Há  pessoas
que  encontram os  habitualm ente,  das  quais  sabem os  o  que  podem os  e  não
podem os esperar – com  elas conversam os, com partilham os saberes e discutim os
tem as  de  interesse  com um ;  outras  com põem   nossos  conhecidos  eventuais  ou

aqueles com  quem  nos encontram os apenas um a vez.
Há  ainda  os  lugares  em   que  nos  encontram os,  pertencentes  ao  que  Erving
Goffm an  cham ou  de  “ordem   da  interação”.  Nela,  estam os  preocupados  com
aqueles  “espaços”  que  não  são  “pessoais”,  com   as  regiões  e  situações  em   que
interagim os com  os outros. Os conteúdos das interações nesses lugares podem  ser
funcionais, por exem plo, quando tiram os dinheiro do banco, vam os ao dentista ou
com pram os doce na confeitaria. As relações levadas a cabo nesses espaços são
orientadas por nossos propósitos, e em  geral não tem os interesse nas pessoas com
que  neles  interagim os,  salvo  no  que  diz  respeito  a  suas  habilidades  no
desem penho das funções. Perguntas de caráter m ais íntim o estão fora de questão
(e  de  lugar)  em   tais  circunstâncias  e,  de  m aneira  geral,  serão  consideradas
introm issão  indesej ada  ao  que,  naquele  encontro,  estipulam os  com o  nossa
privacidade.  Se  ocorrer  um a  introm issão  com o  essa,  devem os  resistir,
considerando-a  falha  nas  expectativas  tácitas  da  relação  –  centrada,  afinal,  na
venda de serviços.
Em bora  a  proxim idade  sugira  um   episódio  de  interação  social,  ela  nada  nos
diz das experiências desse tipo vividas pelos participantes. Alguns dirão que seus
“am igos virtuais” – aqueles com  os quais se com unicam  pela internet – são tão
“am igos”  quanto  aqueles  com   os  quais  se  encontram   fisicam ente.  O  sociólogo
austríaco  radicado  nos  Estados  Unidos,  Alfred  Schutz,  sugeriu  que,  do  ponto  de
vista  de  um   indivíduo,  todos  os  dem ais  m em bros  da  raça  hum ana  podem   ser
localizados num a linha im aginária – um  continuum , m edido pela distância social
– que cresce à m edida que as interações se reduzem  em  volum e e intensidade.
Essa  linha  abarca  desde  o  conhecim ento  m ais  pessoal  até  o  que  se  lim ita  à
habilidade  de  tipificar  pessoas:  o  rico,  os  hooligans  de  futebol,  os  soldados,
burocratas,  políticos,  j ornalistas  e  outros.  Quanto  m ais  distantes  de  nós,  m ais
tipificada  é  nossa  consciência  a  respeito  das  pessoas  que  ocupam   os  pontos  do
continuum , assim  com o nossas relações com  elas.
Além   de  nossos  contem porâneos,  há  aqueles  que  habitam   nossos  m apas
m entais  com o  predecessores  e  sucessores.  Nossa  com unicação  com   eles  é
unilateral  e  incom pleta.  Ao  m esm o  tem po,  porém ,  tais  com unicações,  talvez
herdadas  sob  a  form a  de  m itos,  podem   nos  aj udar  a  resolver  contradições
contem porâneas  sobre  nossas  identidades.  Com o  a  antropologia  social  tem
m ostrado,  podem os  nos  relacionar  desse  m odo  com   tradições  específicas,
preservadas  pela  m em ória  histórica  sob  a  form a  de  cerim ônias  ou  de  um a
adesão a interpretações peculiares do passado.
Com  os sucessores esse processo é diferente, pois nós é que deixam os m arcas
de  nossa  existência  para  eles,  sem ,  contudo,  esperar  que  nos  respondam .
Podem os  proj etar  futuros  im aginários,  m as  não  tem os  com o  “conhecê-los”.
Entretanto, não é fato desconhecido para os cientistas m odernos eles se deixarem
influenciar  pela  ficção  científica  e  pelas  ações  de  m odo  a  im aginar  as

possibilidades  reservadas  ao  futuro.  A  ideia  de  os  gerentes  prom overem
“reengenharia”  nas  organizações,  por  exem plo,  diz  respeito  à  proj eção  de  um
futuro  ideal  sobre  a  realidade  existente.  Isso  oferece  a  possibilidade  de  aliviar
seus autores da responsabilidade no presente, porque os efeitos de suas decisões
estão todos contidos em  um  porvir abstrato.
Entretanto,  quer  falem os  da  influência  do  passado,  quer  falem os  agora  de
possíveis futuros, eles não são fixados ao longo do tem po. As pessoas m udam  de
lugar,  de  um a  categoria  para  outra,  viaj am   para  perto  e  para  longe  de  nossa
posição  no  continuum   e  se  deslocam   do  lugar  de  contem porâneos  para  o  de
predecessores. Nesse processo, nossa capacidade de em patia – dom  e disposição
de  se  colocar  no  lugar  do  outro  –  tam bém   m uda.  Assim ,  nossa  autoidentidade
fica  atrelada  às  identidades  sociais  que  exibim os  para  os  outros  e  àqueles  que
encontram os em  nossa existência cotidiana.
“Nós” dentro do “outro”
Nossa capacidade de fazer diferenciações e divisões no m undo inclui a distinção
entre  “nós”  e  “eles”.  A  prim eira  categoria  refere-se  a  algum   grupo  a  que
sentim os pertencer e que entendem os. A outra, ao contrário, a grupos a que não
tem os  acesso  nem   querem os  integrar.  Nossa  visão  a  esse  respeito  é  vaga,
fragm entada e se deve a um a com preensão em pobrecida, até assustadora. Mais
que  isso,  podem os  nos  assegurar  de  nossas  crenças  graças  à  suspeita  de  que
“eles” sentem  em  relação a “nós” reservas e ansiedades equivalentes.
A distinção entre “nós” e “eles” é por vezes apresentada na sociologia com o
um a diferença intragrupo e extragrupo.1 Esses opostos são inseparáveis, pois não
pode haver um  sem  o outro. Sedim entam -se, por assim  dizer, em  nosso m apa do
m undo  nos  dois  polos  de  um a  relação  antagônica,  o  que  torna  os  dois  grupos
“reais” para seus respectivos m em bros e fornece a unidade interna e a coerência
que, im agina-se, eles possuem .
Considerando  que  nossas  autoidentidades  são  atreladas  aos  grupos  a  que
pertencem os, alguns autores, em  especial o filósofo e historiados francês Michel
Foucault e o tam bém  filósofo francês Jacques Derrida, sugeriram  que possuím os
um a identidade – em  geral entendida pelas pessoas com o um a “essência”, term o
que  os  autores  recusam   –  constituída  pelo  processo  de  rej eição  dos  negativos,
nesse caso j ustam ente as características atribuídas a “eles”. A autoidentificação,
portanto,  decorre  dos  recursos  que  extraím os  de  nosso  am biente,  não  havendo
um   “núcleo”  fixo  em   nossas  identidades.  Dessa  form a,  oposições  tornam -se
ferram entas  de  que  lançam os  m ão  para  cartografar  o  m undo.  Exem plos  desse
processo  incluem   distinções  entre  pobreza  “m erecida”  e  “im erecida”,  ou  entre
os  cidadãos  “respeitáveis”  e  a  “gentalha”,  desafiadora  de  todas  as  regras  e
caracterizada  por  rej eitar  toda  e  qualquer  ordem .  Em   cada  caso,  nossos  traços

específicos,  assim   com o  todos  os  investim entos  em ocionais,  derivam   desse
antagonism o m útuo.
Dessas observações, podem os esboçar a seguinte conclusão: um  extragrupo é
j ustam ente aquela oposição im aginária a si m esm o de que o intragrupo necessita
para  estabelecer  sua  autoidentidade,  sua  coesão  –  para  obter  solidariedade
interna e segurança em ocional. Desse m odo, a boa vontade para cooperar dentro
de  seus  lim ites  exige,  com o  sustentação,  a  recusa  à  cooperação  com   um
adversário.  É  com o  se  precisássem os  do  m edo  do  m undo  selvagem   para  nos
sentir  seguros.  Os  ideais  sustentadores  desse  processo  incluem   solidariedade,
confiança m útua e o que podem os cham ar, seguindo o sociólogo francês Ém ile
Durkheim , de “coesão” ou “laço com um ”. É a m aneira segundo a qual se espera
que os m em bros de um a fam ília ideal aj am  uns em  relação aos outros, os pais
em  relação aos filhos, em  term os de seus parâm etros de am or e carinho.
A  retórica  de  quem   quer  evocar  na  audiência  um   sentim ento  de  lealdade
m útua  geralm ente  nos  oferece  m etáforas  de  “fraternidade”,  “irm andade”  e
hum anidade  com o  “um a  fam ília”.  Manifestações  de  solidariedade  nacional  e
disposição  para  o  sacrifício  em   nom e  de  um   bem   m aior  são  tem peradas  com
referências à nação com o “m ãe” ou “pátria”. Aj uda m útua, proteção e am izade,
então,  tornam -se  as  regras  im aginárias  da  vida  de  um   intragrupo,  fazendo-nos
perceber as relações nesse contexto com o em ocionalm ente calorosas, inundadas
de  sim patia2  m útua  e  de  potencial  para  inspirar  lealdade,  bem   com o  a
determ inação necessária à defesa dos interesses grupais. Assim , um  sentim ento
de  com unidade  com o  um   espaço  prazeroso  de  se  estar  antecipa-se  a  quaisquer
argum ento e reflexão. Nesse lugar, os tem pos podem  ser difíceis, m as sem pre se
pode  encontrar  um a  solução  no  final.  As  pessoas  podem   soar  grosseiras  e
egoístas, m as alguém  pode contar com  elas se surgir um a necessidade. Acim a de
tudo, alguém  pode entendê-las e ter a certeza de ser por elas tam bém  entendido.
Com o m encionam os, não há exigência de estar fisicam ente na presença das
pessoas com  quem  nos identificam os para evocar esses sentim entos e ingressar
nas atividades e crenças que a elas nos ligam . Tanto podem os nos relacionar com
grupos restritos, íntim os, com o com  aqueles grandes e dispersos. Classe, gênero e
nação  são  exem plos  típicos  dessa  segunda  categoria  de  intragrupo.  Em bora  em
geral  os  considerem os  equivalentes  aos  grupos  pequenos  e  íntim os  que  nos  são
fam iliares, eles constituem  com unidades im aginárias, sendo caracterizados pelo
uso  da  m esm a  linguagem   e  pela  prática  de  costum es  sem elhantes,  m as,
sim ultaneam ente,  divididos  por  suas  crenças  e  práticas.  Essas  rupturas,
entretanto,  apresentam   tênue  revestim ento  da  im agem   de  “nós”,  apelando  para
sentido  de  unidade.  De  fato,  os  discursos  de  líderes  nacionalistas  m uito
habitualm ente se referem  a soterrar as diferenças em  favor do espírito com unal
orientado para um  obj etivo coletivam ente sustentado.
Há  um   trabalho  a  fazer  no  sentido  de  estim ular  a  autotransform ação  de

classes,  gêneros,  etnias  e  nações  em   intragrupos,  porque  eles  carecem   do
cim ento  social  que  nos  é  fam iliar  nas  interações  cotidianas.  Um a  consequência
desse processo é a supressão ou a dispensa de evidências que correm  contra sua
im agem   ideal,  tratando-a  com o  falsa  ou  irrelevante.  O  processo  de  purificação
dem anda  um   corpo  disciplinado  e  im aginário  de  interesses  e  crenças.  Isso
considerado, as ações de um  coletivo – partido político, sindicato, governo de um
Estado  nacional  –  precedem   a  form ação  de  grupos  de  larga  escala.  O
nacionalism o, assim , precede a em ergência de unidades nacionais unificadas.
Apesar  do  em penho  contido  na  im agem   da  unidade,  a  sustentação  na
realidade  perm anece  frágil.  Por  quê?  Porque  falta  a  substância  que  se  pode
derivar da interação cotidiana das redes, e, então, nenhum  esforço para induzir a
lealdade  em   grandes  grupos  sustenta  um a  possibilidade  de  êxito  se  não  for
acom panhado da prática de hostilidade em  relação a um  extragrupo. Deparam os
então com  a im agem  de um  inim igo escabroso, assustador e que dem onstra ser
astuto  e  conspiratório.  A  vigilância  torna-se  necessidade  constante  em   contextos
nos quais as im agens são form adas por preconceito. O preconceito – assim  com o
a recusa em  adm itir quaisquer virtudes nos inim igos e a tendência a am pliar seus
vícios reais e im aginários – im pede que alguém  aceite a possibilidade de serem
honestas as intenções alheias. E esse preconceito ainda se m anifesta em  padrões
m orais dúbios. A concessão do título que os m em bros de um  intragrupo afirm am
m erecer seria um  ato de graça e benevolência àqueles do extragrupo.
Mais  im portante  ainda,  um a  atrocidade  nossa  contra  alguém   de  um
extragrupo  não  parece  chocar-se  com   a  consciência  m oral,  ao  passo  que  se
exigem  penas severas nos casos em  que atos m uito m ais brandos são perpetrados
pelo  inim igo.  Desse  m odo,  o  preconceito  leva  as  pessoas  a  aprovar  os  m eios
usados na prom oção de sua própria causa, m eios que nunca seriam  j ustificados
se  em pregados  pelo  extragrupo  na  busca  de  seus  obj etivos.  Ações  idênticas
recebem , assim , nom es diferentes.
Por  exem plo,  um   “soldado  da  liberdade”,  se  estiver  no  grupo  oposto,  será  um
“terrorista”.
As  disposições  para  o  preconceito,  contudo,  não  são  uniform em ente
distribuídas.  Podem   m anifestar-se  em   atitudes  e  ações  racistas  ou,  com   m ais
frequência, na xenofobia, na form a do ódio a tudo que for “estrangeiro”. Pessoas
que  acolhem   altos  níveis  de  preconceito  são  m alpreparadas  para  resistir  a
qualquer  desvio  às  regras  estritas  de  conduta  e,  por  conseguinte,  favorecem
poderes  fortes,  capazes  de  m anter  os  outros  “na  linha”.  Essas  pessoas  foram
caracterizadas pelo filósofo, sociólogo e crítico cultural alem ão Theodor Adorno
com o “personalidades autoritárias”, estreitam ente relacionadas às expressões de
insegurança  geradas  por  m udanças  drásticas  nas  condições  a  que  estão
habituadas. Aquilo que as pessoas aprenderam  com o m odos eficazes de orientar
seu  dia  a  dia,  de  repente  se  torna  m enos  confiável.  O  resultado  pode  induzir  à

sensação de perda de controle da situação e, assim , ao ressentim ento, e m esm o à
resistência à m udança.
Nas  condições  sociais,  essas  transform ações  podem   desencadear  a
necessidade  de  defender  “o  j eito  antigo”,  opondo-se  aos  recém -chegados  que
representam  o “j eito novo”, tornando-os alvo de ressentim entos. Pierre Bourdieu,
escrevendo  sobre  esse  processo  no  interior  de  seu  m odelo  de  “cam pos”  de
relações sociais, afirm a que as pessoas levam  a cabo estratégias de “ortodoxia”
ou  “heresia”.  As  balizas  são  a  conservação  ou  a  subversão  de  relações
estabelecidas,  e,  portanto,  o  conj unto  de  suposições  pré-reflexivas  ou
inquestionáveis que conform am  as ações cotidianas é forçado a despertar de seu
descanso para defender o status quo de possíveis invasões.
Norbert Elias tam bém  apresentou um a teoria a respeito dessas situações, nos
term os do que cham ou de “estabelecidos” e “outsiders”. Um  influxo de outsiders,
estranhos a  um  m eio,  inevitavelm ente configura  desafio para  os m odos  de  vida
da  população  estabelecida,  não  im porta  qual  sej a  a  diferença  obj etiva  entre  os
recém -chegados  e  os  antigos  habitantes.  As  tensões  surgem   da  necessidade  de
fazer o espaço e o resto reconhecerem  os novatos. As ansiedades daí resultantes
transform am -se  em   sentim entos  hostis,  m as  os  estabelecidos  tendem   a
apresentar m elhores recursos para agir, com  base em  seus preconceitos. Podem
tam bém   invocar  direitos  adquiridos  graças  à  longevidade  de  sua  presença,
m ediante frases com o “Esta é a terra de nossos antepassados”.
O  com plexo  relacionam ento  entre  estabelecidos  e  outsiders  constitui  longo
percurso  na  direção  da  explicação  de  um a  grande  variedade  de  conflitos  entre
intragrupos  e  extragrupos.  O  nascim ento  do  m oderno  antissem itism o  na  Europa
do século XIX, e sua larga recepção, pode ser com preendido com o resultado de
um a  coincidência  entre  a  alta  velocidade  de  m udança  num a  sociedade  em
acelerada  industrialização  e  a  em ancipação  dos  j udeus,  que  em ergiram   dos
guetos ou de seus bairros e com unidades fechados para se m isturar à população
gentia das cidades e ingressar em  ocupações “com uns”.
De  m odo  sim ilar,  m udanças  na  paisagem   industrial  britânica  do  pós-guerra
geraram  ansiedade am plam ente difundida e depois direcionada para os recém -
chegados  de  países  caribenhos  ou  do  Paquistão,  no  m om ento  em   que  j á  se
desenhava um a resistência m asculina às reivindicações das m ulheres por direitos
iguais  no  em prego  e  na  com petição  por  posições  de  influência  social.  E  essas
reivindicações  fem inistas  de  igualdade  ainda  acendem   um   preconceito
sutilm ente disfarçado por alusões a um  estado de coisas “natural”. Por trás, está a
afirm ação  de  que  as  m ulheres  devem   conhecer  seu  lugar  em   um a  ordem   das
relações sociais que tenda a conceder privilégios aos hom ens.
O  antropólogo  britânico  naturalizado  am ericano  Gregory   Bateson  sugeriu
denom inar  “cism ogênese”  a  cadeia  de  ações  e  reações  consequente  a  esses
processos.  Cada  ação  conduz  a  um a  reação  m ais  forte,  e  o  controle  sobre  a

situação é gradualm ente perdido. Bateson distingue dois tipos de cism ogênese. No
prim eiro,  a  “cism ogênese  sim étrica”,  cada  lado  reage  aos  sinais  de  força  do
adversário: sem pre que ele dem onstra poder e determ inação, um a m anifestação
ainda  m ais  forte  de  poder  e  determ inação  é  procurada  com o  reação.  O  que
am bos os lados tem em   m ais  do  que  qualquer  coisa  é  ser  considerado  fraco  ou
hesitante  –  basta  pensar  nos  slogans  m ilitares  “A  repressão  deve  ser  crível”  ou
“Deve-se  m ostrar  ao  agressor  que  a  agressão  não  com pensa”.  A  cism ogênese
sim étrica  produz  a  autoafirm ação  em   am bos  os  lados  e  contribui  para  a
elim inação da possibilidade de acordo racional. A decorrência é que as facções,
m uito em bora não recordem  a razão original do conflito, se m antêm  inflam adas
pelo am argor de sua luta atual.
O  segundo  tipo,  a  “cism ogênese  com plem entar”,  desenvolve-se  a  partir  de
pressupostos  diam etralm ente  opostos,  m as  leva  a  resultados  idênticos,  isto  é,  a
quebra do relacionam ento. A sequência cism ogenética de ações é com plem entar
quando  a  força  de  um   lado  se  apoia  em   sinais  de  fraqueza  no  outro,  quando  a
resistência  de  um   lado  se  enfraquece  no  confronto  com   as  m anifestações  de
força  crescente  no  lado  contrário.  Essa  é  a  tendência  característica  de  toda
interação entre um a parte dom inante e outra m ais subm issa. A autoafirm ação e a
autoconfiança  de  um   parceiro  alim entam   sintom as  de  tim idez  e  subm issão  no
outro.  Os  casos  de  cism ogênese  com plem entar  são  variados  em   seu  conteúdo
tanto quanto são num erosos.
Levando  ao  extrem o,  podem os  pensar  em   um a  gangue  que  aterrorize  a
vizinhança  inteira  em   incondicional  subm issão.  Um   dia,  convencidos  de  sua
própria  força  por  conta  da  falta  de  resistência,  seus  m em bros  elevam   suas
exigências para além  da capacidade de pagam ento de suas vítim as que, levadas
ao desespero, ou iniciarão um a rebelião, ou poderão se ver forçadas a se m udar
para longe do território da gangue.
No  extrem o  oposto,  podem os  pensar  no  relacionam ento  patrono/cliente.  A
m aioria dom inante (nacional, racial, cultural, religiosa) pode aceitar a presença
de um a m inoria, contanto que esta últim a dem onstre seriam ente a aceitação dos
valores  vigentes  e  o  desej o  de  viver  sob  suas  regras.  Ansiosa  para  agradar  e,
desse  m odo,  conquistar  favores,  a  m inoria  pode,  entretanto,  descobrir  que  as
concessões  necessárias  tendem   a  am pliar-se  com   o  aum ento  da  confiança  do
grupo dom inante; será, então, obrigada a deixar seu próprio gueto ou a trocar sua
estratégia  por  outra,  m odelada  na  cism ogênese  sim étrica.  O  que  quer  que
escolha, porém , terá com o resultado provável o dano no relacionam ento.
Há,  por  sorte,  um   terceiro  tipo  de  estrutura  em   que  a  interação  ocorre:  a
reciprocidade,  que  com bina  características  das  cism ogêneses  sim étrica  e
com plem entar,  m as  de  m odo  a  neutralizar  suas  tendências  autodestrutivas.  No
relacionam ento  recíproco,  cada  caso  da  interação  é  assim étrico.  Contudo,  ao
longo  de  períodos  abrangentes,  as  ações  de  am bos  os  lados  se  contrabalançam ,

porque cada um  tem  a oferecer algo de que o outro lado precisa. Por exem plo, a
m inoria  ressentida  e  discrim inada  pode  deter  habilidades  que  faltam   na
população  total.  É  provável  que  algum a  form a  de  reciprocidade  caracterize  a
m aioria  das  estruturas  de  interação.  Deve-se  notar,  entretanto,  que  nenhum a
estrutura  recíproca  é  inteiram ente  im une  ao  perigo  do  deslizam ento  rum o  à
relação  com plem entar  ou  sim étrica,  engatilhando,  assim ,  o  processo  de
cism ogênese.
Vim os  que  ser  “nós”,  contanto  que  haj a  “eles”,  é  algo  que  só  faz  sentido  no
conj unto, em  sua m útua oposição. Além  disso, “eles” pertencem  um  ao outro e
form am   um   só  grupo,  porque  todos  e  cada  um   deles  partilham   a  m esm a
característica:  nenhum   deles  é  “um   de  nós”.  Am bos  os  conceitos  derivam   seu
significado  da  linha  divisória  de  que  se  servem .  Sem   tal  divisão,  sem   a
possibilidade  de  opor-se  a  “eles”,  dificilm ente  conseguiríam os  dar  sentido  a
nossas identidades.
Observar e viver a vida: fronteiras e outsiders
“Estranhos”, todavia, desafiam  essas divisões. De fato, opõem -se à própria ideia
de  oposição,  isto  é,  divisões  de  qualquer  tipo  em   term os  dos  lim ites  que  as
preservam   e,  assim ,  garantem   a  clareza  do  m undo  social  que  resulta  dessas
práticas.  Nisso  repousa  sua  significação,  seu  significado  e  o  papel  que
desem penham   na  vida  social.  Com   sua  sim ples  presença,  que  não  se  encaixa
facilm ente  em   nenhum a  categoria  estabelecida,  os  estranhos  negam   até  a
validade  das  oposições  aceitas.  Expõem   o  caráter  aparentem ente  “natural”  das
oposições, deixando a nu sua fragilidade. Veem -se as divisões com o o que de fato
são:  linhas  im aginárias  que  podem   ser  cruzadas  ou  redesenhadas.  Afinal,
ingressam   em   nosso  cam po  de  visão  e  em   nossos  espaços  sociais  –  sem   ser
convidadas.  Quer  o  desej em os,  quer  não,  essas  pessoas  acom odam -se
firm em ente  no  m undo  que  ocupam os  e  não  dem onstram   interesse  algum   em
sair.  Notam os  sua  presença  porque  sim plesm ente  ela  não  pode  ser  ignorada,  e
por  isso  encontram os  dificuldades  em   lhes  conferir  sentido.  Não  são,  por  assim
dizer,  nem   próxim as  nem   distantes,  e  não  sabem os  exatam ente  o  que  delas
esperar – nem  de nós.
Em   casos  com o  esses,  o  estabelecim ento  de  fronteiras  tão  claras,  precisas  e
inequívocas  quanto  possível  é  elem ento  central  do  m undo  hum anam ente
construído. Todos os nossos conhecim entos e habilidades adquiridos se tornariam
questionáveis, inúteis, prej udiciais e m esm o suicidas, não fosse o fato de os bem -
dem arcados  lim ites  nos  enviarem   sinais  quanto  ao  que  esperar  e  com o  nos
conduzir em  contextos particulares. Os que estão do outro lado dessas fronteiras,
todavia, não diferem  tão acentuadam ente assim  de nós a ponto de nos livrar de
classificações equivocadas. Por conta disso, é necessário esforço constante para

m anter divisões num a realidade que desconhece contornos exatos, indiscutíveis.
A  com preensão  dos  outros  e  de  nós  m esm os  torna-se  agora  o  esforço  de
com preender  por  que  existem   essas  barreiras  e  com o  são  m antidas.  O
antropólogo  Anthony   Cohen  afirm a  que  a  ideia  de  fronteira  é  essencial  para  o
esforço  de  entender  os  lim ites  de  nossa  autoconsciência  ao  longo  da  tarefa  de
com preensão  de  quem   se  localiza  fora  dos  pontos  sim bólicos  de  dem arcação.
Assim , nos dam os conta de com o as pessoas podem  diferir quanto a um  tem a e
concordar  no  que  diz  respeito  a  outros.  Pode-se  dem onstrar  que  a  m aioria  dos
traços varia de form a gradual, suave e não raro im perceptível, conform e sugere
a linha contínua de Alfred Schutz. Por conta da sobreposição, há áreas am bíguas,
em  que as pessoas não são im ediatam ente reconhecidas com o pertencentes a um
ou  outro  dos  grupos  opostos.  Com o  observam os,  para  alguns  essa  condição
constitui fonte de am eaça, m ais do que oportunidade de se conhecer m elhor pelo
conhecim ento aprofundado dos outros.
Em   m eio  às  preocupações  hum anas,  papel  crucial  é  desem penhado  pela
tarefa interm inável de fazer a ordem  hum anam ente criada “colar”, “pegar”. Tal
com o  a  antropóloga  Mary   Douglas  enfatizou  em   seu  trabalho  Pureza  e  perigo,
fronteiras  não  são  apenas  negativas,  m as  tam bém   positivas,  porque  os  rituais
estabelecem   form as  de  relação  social  que  perm item   às  pessoas  conhecer  suas
sociedades.  Para  alcançar  esse  propósito,  entretanto,  as  am biguidades  que
ofuscam  as fronteiras precisam  ser suprim idas.
Considerem os  alguns  exem plos  desse  processo.  O  que  torna  algum as  plantas
daninhas, aquelas que envenenam os e cortam os pela raiz, é sua terrível tendência
para obliterar os lim ites entre nosso j ardim  e o m undo selvagem . Elas em  geral
têm   boa  aparência  e  cheiro  bom ,  são  agradáveis;  “falham ”,  contudo,  porque
chegam   sem   convite  a  um   lugar  que  dem anda  ordem ,  ainda  que  o
estabelecim ento  e  a  m anutenção  dessa  ordem   dem andem   o  uso  de  num erosos
produtos quím icos para obter o resultado desej ado.
Algo  equivalente  pode  ser  dito  sobre  a  “suj eira”  nas  casas.  Hoj e  algum as
indústrias  quím icas  fixam   rótulos  claram ente  distintos  em   em balagens  com
detergentes idênticos. Por quê? Porque se deram  conta de que quem  se orgulha
da  arrum ação  de  sua  casa  j am ais  sonharia  em   confundir  cozinha  e  banheiro
usando o m esm o detergente nos dois. Essas preocupações podem  m anifestar-se
na  form a  de  com portam ento  obsessivo  quanto  à  pureza  e  à  lim peza  dos
am bientes.  Muitos  produtos  são  vendidos  com   essa  ideia,  em bora  o  resultado
possa  reduzir  a  capacidade  de  nosso  sistem a  im unológico  para  enfrentar  as
infecções.  Em   face  da  perm anente  am eaça  de  am biguidade  e  desordem ,  o
desej o  de  ordenar  ao  m undo  é  custoso  não  só  para  nós  m esm os,  m as  tam bém
para aquelas pessoas e coisas que acreditam os causa de distúrbio na harm onia.
Os  lim ites  de  um   grupo  podem   ser  am eaçados,  atacados  e  atingidos  tanto
interna  quanto  externam ente.  Dentro,  por  pessoas  am bivalentes,  caracterizadas

com o desertoras, detratoras de valores, inim igas da unidade e vira-casacas. Via
golpes  vindos  do  exterior,  por  pessoas  que  dem andam   paridade  e  se  deslocam
em   espaços  nos  quais  não  são  facilm ente  identificáveis.  Quando  isso  ocorre,  as
fronteiras  antes  consideradas  seguras  ficam   expostas  com o  inconsistentes,
frágeis. Aqueles que trocam  seu lugar pelo nosso consum am  um  feito que nos faz
suspeitar de que tenham  algum  poder ao qual não podem os resistir, e, assim , nos
sentim os desconfiados em  sua presença.
“Neófito” (alguém  que se converteu a nossa fé), “nouveau riche”  (novo-rico,
alguém   que  era  pobre,  fez  fortuna  de  repente  e  hoj e  se  j untou  aos  ricos  e
poderosos),  “alpinista  social”,  “arrivista”  ou  “carreirista”  (aquele  de  posição
social  inferior  rapidam ente  prom ovido  a  um a  situação  de  poder)  são  apenas
algum as das denom inações que, em  tais circunstâncias, sim bolizam  reprovação,
aversão e desdém .
Essas  pessoas  despertam   ansiedade  por  outras  razões:  fazem   perguntas  que
não  sabem os  responder,  porque  nunca  tivem os  oportunidade  nem   razão  de  nos
indagar – “Por que você faz isso dessa m aneira?”, “Isso faz sentido?”, “Já tentou
fazer isso de um  j eito diferente?” As form as segundo as quais tem os vivido, o tipo
de  vida  que  nos  dá  segurança  e  conforto  ficam   então  expostos  ao  que
enxergam os  com o  desafios,  e  som os  cham ados  a  explicar  e  j ustificar  nossas
ações.
A  perda  de  segurança  daí  resultante  não  é  algo  que  seríam os  capazes  de
aceitar de coração leve. É algo que frequentem ente consideram os um a am eaça,
e,  de  m odo  geral,  não  tem os  inclinação  para  o  perdão.  Daí  decorre  o  fato  de
essas questões configurarem  ofensas e subversões. É possível cerrar fileiras em
defesa de m odelos de vida estabelecidos, e o que antes era um  grupo de pessoas
desiguais  se  une  contra  um   inim igo  com um :  os  estranhos  a  quem   atribuím os
responsabilidade por um a crise de confiança. E o desconforto pode transform ar-
se em  raiva contra estes, agora punidos com  o rótulo de “encrenqueiros”.
Ainda que os recém -chegados se contenham  e evitem  perguntas incôm odas, a
própria m aneira com o se com portam  em  seu cotidiano poderá levantar questões.
Os oriundos de outros lugares e determ inados a ficar desej arão aprender estilos
de  vida,  im itá-los  e  tentar  ser  “com o  nós”.  Não  im porta,  porém ,  o  quão
fortem ente eles tentem  nos im itar, não conseguirão evitar erros; no com eço, por
conta  do  pressuposto  de  que  o  estilo  de  vida  deve  ser  aprendido  ao  longo  do
tem po,  o  tem po  todo.  Assim ,  suas  tentativas  soam   não  convincentes,  e  seus
com portam entos  desaj eitados  e  inadequados,  parecendo  caricatura  de  nossa
conduta. Isso nos leva a questionar com o as coisas são “na verdade”. Rej eitam os
suas  ineptas  im itações,  ridicularizando-as,  criando  e  divulgando  piadas  que
estabelecem   a  “caricatura  da  caricatura”.  A  gargalhada,  porém ,  é  am arga
quando o hum or m ascara a aflição.
Mem bros de um  grupo têm  sido forçados, pela presença de recém -chegados,

a  rever  seus  próprios  hábitos  e  expectativas  com   forte  dose  de  ironia.  Em bora
nunca  tenham   sido  expostos  a  questionam ento  explícito,  seu  conforto  foi
perturbado,  e  a  resistência  brotará.  Em   term os  de  respostas  possíveis  a  tais
situações,  a  prim eira  é  no  sentido  da  restauração  do  status  quo.  Lim ites
dem andam   retorno  ao  que  era  considerado  um a  não  problem ática  form a  de
clareza. Eles podem  ser devolvidos para seu suposto lugar de origem  – ainda que
esse  lugar  não  exista!  Logo  a  vida  se  torna  desconfortável  para  eles,  por
exem plo,  graças  à  conversão  do  hum or  em   ridicularização  e  à  negação  de
reconhecim ento  de  direitos  que  são  garantidos  aos  m em bros  estabelecidos  do
grupo.  Entretanto,  m esm o  que  eles  partam ,  quando  um   agrupam ento  baseia-se
em   fragilidade  com o  essa,  novos  alvos  terão  de  ser  descobertos  a  fim   de  o
sustentar.
Em  plano nacional, a form a desse processo m uda, e podem -se fazer tentativas
para  forçá-los  a  em igrar,  ou  para  tornar  suas  vidas  tão  m iseráveis  que  eles
próprios considerem  o êxodo um  m al m enor. Se houver resistência a esse tipo de
m anobra,  podem   se  erguer  cercas,  e  talvez  o  genocídio  sej a  o  próxim o  passo.
Desse  m odo,  form as  cruéis  de  arrasam ento  são  aplicadas  visando  a  cum prir  a
tarefa  que  as  tentativas  de  rem oção  falharam   em   consum ar.  O  genocídio
certam ente é o m ais extrem o e abom inável m étodo de “restauração da ordem ”,
ainda que a história recente venha provando, das m ais horrendas m aneiras, que o
risco dessa prática não desaparece tão facilm ente – apesar das condenações e do
difundido ressentim ento.
Sendo o genocídio um a form a extrem ada, soluções m enos radicais e odiosas
podem   ser  escolhidas;  entre  as  m ais  com uns  está  a  separação,  que  pode  ser
territorial,  espiritual  ou  um a  com binação  de  am bas.  Sua  expressão  territorial
pode  ser  exem plificada  pelos  guetos  ou  reservas  étnicas  –  áreas  de  cidades  ou
regiões  de  países  reservadas  à  habitação  de  pessoas  com   as  quais  os  elem entos
m ais  poderosos  da  sociedade  não  querem   se  m isturar.  Às  vezes  m uros  e/ou
proibições legalm ente estabelecidas cercam  esses territórios. Alternativam ente, o
fluxo para dentro e para fora é teoricam ente livre, não sendo passível de punição.
Mas  na  prática  os  residentes  estarão  im pedidos  de  sair  ou  sim plesm ente  não
escaparão  de  seu  confinam ento  porque  as  condições  “do  lado  de  fora”  se
tornaram   intoleráveis  para  eles,  ou  porque  o  padrão  de  vida  em   suas  áreas,
m uitas vezes degradadas, é o único que conseguem  sustentar.
Quando  a  separação  territorial  é  incom pleta  ou  se  torna  totalm ente
im praticável,  o  isolam ento  espiritual  ganha  im portância.  A  relação  com   os
estranhos é reduzida a trocas com erciais estritas, os contatos sociais são evitados.
Há um  em penho, consciente ou não, em  prevenir ou im pedir que a proxim idade
física se torne aproxim ação espiritual. Ressentim entos ou hostilidades declaradas
são os m ais óbvios desses esforços preventivos.
Barreiras  de  preconceito  podem   ser  erguidas  e  se  provar  m uitíssim o  m ais

efetivas  que  o  m ais  espesso  dos  m uros.  Um a  form a  ativa  de  evitar  o  contato  é
constantem ente  reforçada  pelo  m edo  de  contam inação  por  parte  daqueles  que
nos  “servem ”,  m as  não  são  “com o  nós”.  As  críticas  perpassam   qualquer  coisa
que se possa associar aos estranhos: sua m aneira de falar e vestir-se, seus rituais,
a organização de suas vidas fam iliares e até o arom a da com ida que gostam  de
preparar.  Assentada  nisso  está  sua  aparente  recusa  de  envolvim ento  na  ordem
natural  das  relações  sociais.  Com   isso,  eles  não  aceitam   responsabilidades  por
suas ações, com o “nós tem os que aceitar” pelas nossas. A ordem  que produz esse
estado de coisas não é questionada, m as sim  a falha “pessoal” deles em  aderir à
sua lógica aparente.
Segregação e m ovim ento na cidade
Até  agora,  supusem os  a  separação  de  grupos,  ainda  que  cham ando  a  atenção
para  a  am bivalência  e  as  am biguidades  que  cercam   esses  lim ites.  Quem
pertence  a  que  grupo  é  questão  que  não  esteve  em   pauta.  É  fácil  perceber,
entretanto,  que  esse  tipo  de  situação  sim ples  e  o  esforço  para  deixar  nítidos  os
contornos que ela tende a produzir raram ente serão encontrados em  nosso tipo de
sociedade.  As  sociedades  em   que  a  m aioria  de  nós  vive  são  urbanas,  isto  é,  as
pessoas  vivem   j untas  em   grande  densidade  populacional,  m ovim entam -se
continuam ente e, no curso de seus assuntos cotidianos, atravessam  diversas áreas
habitadas por pessoas de tipos os m ais diversos.
Na  m aior  parte  das  vezes,  não  há  com o  ter  certeza  de  que  as  pessoas  com
quem  nos encontram os seguem  nossos padrões. Som os constantem ente atingidos
por novos olhares e sons que não com preendem os de todo. E, talvez infelizm ente,
m al  tem os  tem po  de  parar,  refletir  e  prom over  um a  tentativa  honesta  de
com preender essas pessoas e esses lugares. Vivem os entre estranhos, para quem
som os tam bém  estranhos. Em  tal m undo, os estranhos não podem  ser confinados
ou m antidos afastados.
Em bora  essas  interações  se  deem   na  cidade,  as  práticas  antes  descritas  não
foram  abandonadas por com pleto. Procedim entos de segregação têm  lugar, por
exem plo, no uso de m arcas facilm ente visíveis, distintivas, da filiação ao grupo. A
lei pode forçar um a aparência tão prescritiva que o “passar-se por outra pessoa”
será  punido.  Isso,  entretanto,  é  obtido  com   frequência,  sem   necessariam ente  se
ter de recorrer à lei para que o sej a por coerção.
Quem  tem  m ais recursos pode vestir-se de m aneiras especiais, o que funciona
com o código para classificar as pessoas segundo seu esplendor ou de acordo com
a  m iséria  ou  a  estranheza  de  sua  aparência.  No  entanto,  cópias  relativam ente
baratas de obj etos adm irados e altam ente cotados no universo da m oda são agora
produzidas  em   quantidades  m aciças,  dificultando,  de  certa  form a,  a  percepção
das  distinções.  O  resultado  é  que  assim   se  pode  esconder,  m ais  que  revelar,  a

origem  territorial e a m obilidade de seus criadores e usuários.
Isso não significa que a aparência não distinga os portadores, até porque eles
configuram   declarações  públicas  concernentes  aos  grupos  de  referência  que
escolheram .  Tam bém   podem os,  aliás,  disfarçar  nossas  origens  nos  vestindo  de
m aneiras diferentes, a fim  de subverter ou abalar a classificação social im posta.
Assim , o valor inform ativo proveniente da aparência alheia pode ser am enizado.
Se a aparência se tornou m ais problem ática ao longo do tem po, o m esm o não
se  dá  com   a  segregação  pelo  espaço.  O  território  de  espaços  urbanos
com partilhados é dividido em  áreas nas quais é m ais provável encontrar um  tipo
de  pessoa  do  que  outros.  O  valor  que  essas  áreas  segregadas  oferecem   à
orientação de nossas condutas e expectativas é alcançado por práticas rotineiras
de  exclusão,  ou  sej a,  pela  adm issão  seletiva  e  lim itada.  Áreas  residenciais
exclusivas,  policiadas  por  com panhias  de  segurança  privada,  são  m ais  um
exem plo  do  fenôm eno  de  exclusão,  por  parte  daqueles  que  têm   recursos
financeiros, dos que não com partilham  das possibilidades derivadas de sua renda
e sua riqueza.
Não são só os agentes de segurança nas portas de requintadas residências que
sim bolizam  as práticas de exclusão, m as tam bém  aqueles alocados nas grandes
áreas  de  com pra  nas  quais  se  perde  tem po  em   atos  conspícuos  do  consum o  –
habilm ente  desprovidas  de  relógios.  Há  ainda  bilheterias  e  recepções,  cuj os
critérios  de  seleção  variam .  Nas  prim eiras,  o  dinheiro  é  o  critério  m ais
im portante,  em bora  o  ingresso  possa  ser  recusado  a  quem   não  corresponda  a
algum a outra exigência – por exem plo, em  relação à roupa ou à cor da pele. As
verificações de entrada estabelecem  um a situação na qual o acesso é negado a
todos  enquanto  perm anecerem   estranhos.  Esses  atos  rituais  de  identificação
tom am  um  desconhecido, sem  rosto, de um a categoria cinzenta, indiscrim inada,
e o convertem  em  “pessoa concreta”, reconhecida com o portadora do direito de
entrar. A incerteza daqueles que se identificam  com  tais lugares quanto a estar na
presença  de  pessoas  “que  podem   ser  qualquer  um ”  é  assim   reduzida,  em bora
apenas de m aneira localizada e tem porária.
O poder de recusar a entrada e, portanto, delim itar fronteiras de acordo com
as  características  aceitáveis  daqueles  que  ingressam   é  acionado  para  garantir
relativa  hom ogeneidade.  Essas  práticas  procuram   reduzida  am bivalência  em
espaços  selecionados  no  universo  densam ente  povoado  e  anônim o  da  vida
urbana. Esse poder é praticado em  pequena escala sem pre que nos preocupam os
em   controlar  aqueles  espaços  identificados  com o  privados.  Acreditam os,
entretanto,  que  outras  pessoas  usarão  seus  poderes  para  fazer  trabalho  sim ilar
para  nós,  em   m aior  escala,  nos  enclaves  em   que  nos  m ovim entam os
rotineiram ente.
Em  geral, tentam os m inim izar o tem po perdido em  áreas interm ediárias, por
exem plo  adotando  a  m edida  de  nos  deslocarm os  de  um   espaço  fortificado  a

outro.  Claro  exem plo  disso  é  o  fato  de  nos  locom over  no  isolam ento  da  célula
herm eticam ente  fechada  que  é  nosso  carro,  ainda  que  talvez  reclam ando  do
congestionam ento na estrada, que só aum enta.
Ao  nos  m over  dentro  dessas  áreas  e  diante  do  olhar  de  desconhecidos  que
podem  interrom per nossas autoidentidades, o m elhor que podem os fazer é tentar
não ser notados, ou pelo m enos evitar atrair atenção. Erving Goffm an considera
que  tal  desatenção  civil  é  prim ordial  em   m eio  às  técnicas  que  viabilizam   a
convivência  de  desconhecidos  em   um a  cidade.  Caracterizada  por  m odalidades
elaboradas  –  fingir  que  não  olham os  nem   escutam os,  ou  assum ir  postura
sugestiva  de  que  não  vem os,  não  ouvim os  nem   m esm o  ligam os  para  o  que  os
outros a nossa volta estão fazendo –, a desatenção civil é rotinizada.
Ela  se  m anifesta  no  ato  de  evitar  contato  visual,  que  culturalm ente  pode
significar  convite  para  iniciar  um a  conversação  entre  desconhecidos.  O
anonim ato, portanto, é o m ais m undano dos gestos. A total evitação, contudo, não
é possível, pois a sim ples passagem  por áreas m ovim entadas exige certo grau de
m onitoram ento a fim  de evitar colisões com  os outros. Por conseguinte, devem os
nos m anter atentos, em bora fingindo que não estam os olhando nem  sendo vistos.
Recém -chegados  não  acostum ados  ao  contexto  urbano  são  frequentem ente
im pactados  por  tais  rotinas  que,  para  eles,  podem   significar  insensibilidade
peculiar  e  fria  indiferença  por  parte  da  população.  As  pessoas  estão
perturbadoram ente próxim as no aspecto físico, m as parecem  rem otas um as das
outras  do  ponto  de  vista  espiritual.  Perdidos  na  m ultidão,  tem os  a  sensação  de
abandono a nossos próprios recursos, o que leva, por sua vez, à solidão – preço a
pagar pela privacidade. Viver com  estranhos transform a-se em  arte, cuj o valor é
tão  am bíguo  quanto  os  próprios  estranhos.  Há,  contudo,  um   outro  lado  nessa
experiência.
O  anonim ato  pode  significar  em ancipação  em   relação  às  nocivas  e
constrangedoras  vigilância  e  interferência  de  quem ,  em   contextos  m enores  e
m ais  personalizados,  poderia  se  sentir  no  direito  de  ser  curioso  e  introm eter-se
em   nossas  vidas.  A  cidade  oferece  a  possibilidade  de  perm anecerm os  em   um
lugar  público,  m antendo  intacta  nossa  privacidade.  A  invisibilidade,  possível
graças  à  aplicação  da  desatenção  civil,  oferece  um a  área  de  ação  para  a
liberdade im pensável sob circunstâncias diferentes. Trata-se de solo fértil para o
intelecto. Com o apontou o grande sociólogo alem ão Georg Sim m el, vida urbana
e  pensam ento  abstrato  são  ressonantes  e  se  desenvolvem   sim ultaneam ente.
Afinal,  o  pensam ento  abstrato  é  im pulsionado  pela  im pressionante  riqueza  de
um a  experiência  urbana  que  não  pode  ser  apreendida  em   toda  sua  diversidade
qualitativa, enquanto a capacidade para operar conceitos gerais e categorias é a
habilidade  sem   a  qual  a  sobrevivência  em   am biente  urbano  torna-se
inconcebível.
Assim , essa experiência tem  dois lados e parece não haver ganho sem  perda.

Com  a incôm oda curiosidade do outro, podem  desaparecer seu solidário interesse
e  sua  disponibilidade  para  aj udar.  Com   o  entusiástico  alvoroço  da  vida  urbana
vem  a indiferença hum ana cool, abastecida por m uitas interações orientadas pela
troca  de  produtos  e  serviços.  O  que  se  perde  no  processo  é  o  caráter  ético  dos
relacionam entos;  vasta  gam a  de  interações  hum anas  é  desprovida  de
significação,  e  as  consequências  se  tornam   possíveis  porque  m uito  da  conduta
rotineira  parece  livre  de  avaliação  e  de  j ulgam ento  por  alguns  padrões  da
m oralidade.
Um   relacionam ento  hum ano  é  m oral  quando  um   sentim ento  de
responsabilidade  brota  em   nós,  voltado  para  o  bem -estar  e  a  felicidade  do
“outro”. Ele não provém  de m edo de punição nem  de cálculo feito do ponto de
vista do ganho pessoal, nem  m esm o das obrigações contidas em  algum  contrato
que  tenham os  assinado  e  o  qual  sej am os  legalm ente  obrigados  a  cum prir.
Tam bém  não é condicionado ao que o outro estej a fazendo ou ao tipo de pessoa
que  sej a  esse  outro.  Nossa  responsabilidade  é  m oral  conquanto  sej a  totalm ente
altruísta  e  incondicional.  Som os  responsáveis  por  outras  pessoas  sim plesm ente
porque são pessoas, e assim  ordena nossa responsabilidade. É igualm ente m oral
quando a vem os com o só nossa, não sendo, consequentem ente, negociável, além
de  não  poder  ser  transferida  para  quem   quer  que  sej a.  A  responsabilidade  por
outros  seres  hum anos  surge  sim plesm ente  porque  eles  são  seres  hum anos,  e  o
im pulso  m oral  para  aj udar  daí  oriundo  não  exige  nenhum   argum ento,
legitim ação ou prova além  dessa noção.
Com o  vim os,  a  proxim idade  física  pode  ser  despida  de  seu  aspecto  m oral.
Pessoas  que  vivem   perto  de  outras  e  afetam   m utuam ente  suas  condições  e  seu
bem -estar  podem   não  experim entar  proxim idade  m oral.  Assim ,  perm anecem
alheias ao significado m oral de suas ações. O que segue pode ser a abstenção de
ações que a responsabilidade m oral poderia preparar e a ativação de outras, que
ela im pediria. Graças às regras da desatenção civil, os estranhos não são tratados
com o  inim igos  e,  na  m aioria  das  vezes,  escapam   ao  destino  que  tende  a
acom eter  esses  inim igos:  não  se  tornam   alvo  de  hostilidade  e  agressão.  Ao
contrário  do  que  ocorre  com   os  inim igos,  os  estranhos,  grupo  do  qual
eventualm ente  participam os,  são  privados  da  proteção  oferecida  pela
proxim idade  m oral.  Por  conseguinte,  a  passagem   da  desatenção  civil  à
indiferença  m oral,  ao  desafeto  e  à  negligência  em   relação  às  necessidades
alheias não é senão um  pequeno passo.
Síntese
Falam os  sobre  os  papéis  da  distância  social,  dos  lim ites  e  do  espaço  em   nosso
cotidiano.  Tanto  sim bólicos  quanto  físicos,  esses  lim ites  interagem   de  m aneira
com plexa.  Som os  todos  ligados  a  rotinas,  decisões  e  consequências  que  nos

fornecem   saber  e  condições  para  m onitorar  nossas  ações,  m as  sobretudo  a
capacidade  de  agir.  Em bora  haj a  claras  diferenças  no  acesso  das  pessoas  aos
m eios  para  levar  a  cabo  seus  obj etivos,  todos  estam os  im plicados,  em   vários
níveis  e  com   efeitos  diversos,  nos  processos  descritos  neste  capítulo.  Eles  nos
fornecem , além  de nossas identidades sociais, nossas autoidentidades e m aneiras
de  observar  os  outros  –  coisas,  aliás,  intim am ente  interligadas.  No  Capítulo  3,
continuarem os essa análise, exam inando fenôm enos sociais com o com unidades,
grupos e organizações, e seus papéis em  nossas vidas.
Questões para refletir
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