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  Você  acredita  que  haj a  um a  ciência  do  senso  com um   e/ou  um a  visão  de senso com um  da ciência? 2



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1.  Você  acredita  que  haj a  um a  ciência  do  senso  com um   e/ou  um a  visão  de
senso com um  da ciência?
2.  Se  lhe  pedissem   para  definir  a  disciplina  da  sociologia  em   apenas  duas
frases, o que você diria e por quê?
3.  Quais  são  os  benefícios  e  os  perigos  associados  ao  processo  de
“desfam iliarização”?
4. O senso é “com um ”?
Sugestões de leitura
BERGER, Peter. L. e Hansfried Kellner. Sociology Reinterpreted: An Essay on
Method and Vocation. Harm ondsworth, Penguin, 1982.
Esse livro, seguindo o cam inho aberto pela obra anterior de Berger,
Perspectivas sociológicas: uma visão humanista, analisa tem as com o a
liberdade e a “cientifização” da vida social.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre, Artm ed, 2005 [Sociology, 4a ed.
Cam bridge, Polity, 2001.]
Um a visão geral explicativa da sociologia.
MAY, Tim . Pesquisa social: questões, métodos e processos. Porto Alegre,
Artm ed, 2004. [Social Research: Issues, Methods and Process, 3ª ed.
Buckingham , Open University  Press, 2001.]
Se aqui não nos detivem os em  m etodologia de pesquisa, para quem  se
interessar, esse livro fornece um  passeio pelos m étodos e perspectivas
em pregados em  pesquisa social.
MILLS, C. Wright. The Sociological lmagination. Harm ondsworth, Penguin, 1970
[1959]. Edição brasileira: Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios. Rio de
Janeiro, Jorge Zahar, 2009 (os artigos “Sobre o artesanato intelectual” e “A
prom essa”).
Em bora pareça datado, é ainda um  clássico sociológico e o últim o capítulo
antecipa o tem a da “am bivalência”.

. Parte I .
Ação, identidade e entendim ento na vida cotidiana

. 1 .
Alguém  com  os outros
Não é rara em  nossa vida a experiência de nos ressentirm os do fato de serm os
obj eto de coerção por circunstâncias sobre as quais percebem os não ter controle.
Em   alguns  m om entos,  porém ,  afirm am os  nossa  liberdade  em   relação  a  esse
controle  com   a  recusa  de  nos  conform ar  às  expectativas  alheias,  resistindo  ao
que consideram os indevida usurpação de nossa liberdade, e – com o se evidencia
tanto  ao  longo  da  história  quanto  na  atualidade  –  nos  revoltam os  contra  a
opressão. Ter a sensação de ser livre e concom itantem ente não ser, entretanto, é
parte  com um   de  nossas  experiências  cotidianas  –  é  tam bém   um a  das  questões
que  m ais  confusão  provocam ,  desencadeando  sensações  de  am bivalência  e
frustração, tanto quanto de criatividade e inovação.
Assinalam os na Introdução que vivem os em  interação com  outros indivíduos.
O m odo com o isso se relaciona com  a ideia de liberdade na sociedade tornou-se
obj eto de farta produção sociológica. Em  um  nível, som os livres para escolher e
acom panhar nossas escolhas até o fim . Você pode levantar-se agora e preparar
um a  xícara  de  café  antes  de  prosseguir  a  leitura  deste  capítulo.  Pode  tam bém
optar por abandonar o proj eto de aprender a pensar com  a sociologia e em barcar
em   outra  área  de  estudo,  ou  m esm o  abrir  m ão  de  estudar,  não  im porta  que
assunto  sej a.  Continuar  a  ler  é  um a  das  alternativas  de  cursos  de  ação  que
atualm ente lhe estão disponíveis. Sua habilidade para tom ar decisões conscientes
é, nesse sentido, um  exercício de sua liberdade.
Escolha, liberdade e convivência com  os outros
Nossas  escolhas,  evidentem ente,  nem   sem pre  são  produto  de  decisões
conscientes.  Com o  j á  dissem os,  m uitas  de  nossas  ações  decorrem   do  hábito  e,
com o tal, não são alvo de escolha am pla e deliberada. Apesar disso, sem pre há
quem   nos  relem bre  que  nossas  decisões  nos  tornam   responsáveis  por  qualquer
resultado que  produzam . É  com um  ouvirm os:  “Ninguém  o  obrigou a  fazer  isso.
Você só pode culpar a si m esm o!”
De  m odo  sim ilar,  se  quebram os  regras  feitas  para  guiar  a  conduta  das
pessoas,  podem os  ser  punidos.  Pretende-se  que  o  ato  de  punição  sej a  um a
espécie  de  confirm ação  da  ideia  de  que  som os  responsáveis  por  nossas  ações.

Nesse sentido, as regras orientam , além  de nossas ações, tam bém  a coordenação
dessas ações com  as de outras pessoas que podem , por sua vez, antecipar nossa
provável  atitude  nas  diversas  situações.  Sem   isso,  a  com unicação  e  a
com preensão de m ensagens na vida cotidiana se tornam  inconcebíveis.
Em  geral nos consideram os autores de nossos destinos e, portanto, dotados de
poder  para  agir,  determ inar  nossa  conduta  e  controlar  nossa  vida.  Teríam os,
assim , a habilidade de m onitorar nossas ações e a capacidade de determ inar seus
resultados.  Será  assim   m esm o,  porém ,  que  a  vida  opera?  Há  quem   diga,  por
exem plo, que estar sem  em prego é culpa pura e exclusiva do desem pregado, que
se ele tivesse se esforçado o suficiente estaria ganhando a vida. Por outro lado, as
pessoas  podem   reciclar-se  e  procurar  em prego.  Mas  se,  na  região  em   que
vivem ,  houver  um a  taxa  elevada  de  redução  de  postos  de  trabalho  e  elas  não
tiverem   com o  se  m udar,  apesar  da  constante  procura,  não  irão  ter  oferta  de
vagas.  Há  m uitas  situações  equivalentes,  nas  quais  nossa  liberdade  para  agir  é
lim itada  por  circunstâncias  sobre  as  quais  não  tem os  controle.  Nesse  sentido,
portanto,  um a  coisa  é  ter  a  habilidade  de  alterar  ou  m odificar  nossas
com petências,  outra  m uito  diferente  é  ser  capaz  de  alcançar  as  m etas  que
buscam os. Com o isso se m anifesta?
Em   prim eiro  lugar,  podem os  observar  que  situações  de  escassez,  com o
aquelas  em   que  som os  j ulgados  pelos  outros,  lim itam   nossas  potencialidades.
Nem   todas  as  pessoas  que  buscam   os  m esm os  obj etivos  conseguem   conquistá-
los,  porque  o  núm ero  de  recom pensas  disponíveis  é  lim itado.  Nesse  caso,
com petim os uns com  os outros, e o resultado pode depender apenas parcialm ente
de nossos esforços.
Ao buscar um a vaga na universidade, podem os descobrir que a concorrência
é  de  20  candidatos  por  vaga  disponível,  e  que  a  m aioria  deles  possui  as
qualificações  necessárias.  Além   disso,  a  faculdade  talvez  favoreça  candidatos
com   determ inada  experiência  social.  Nossas  ações,  assim ,  tornam -se
dependentes  do  j ulgam ento  de  pessoas,  um a  avaliação  sobre  a  qual  exercem os
controle lim itado. Essas pessoas estabelecem  as regras do j ogo e são, ao m esm o
tem po, os árbitros de seu cum prim ento. Estão posicionadas  por  suas  instituições
para  exercer  um   critério  e,  quando  o  fazem ,  estabelecem   os  lim ites  de  nossa
liberdade.
Fatores  com o  esses,  sobre  os  quais  tem os  pouca  ou  nenhum a  ingerência,
influenciam   m uito  os  resultados  de  nossos  esforços.  Nós  nos  tornam os
dependentes  de  outros  porque  são  eles  que  pronunciam   o  veredicto  quanto  à
suficiência  de  nossos  esforços  e  avaliam   se  apresentam os  as  características
certas para j ustificar nossa adm issão.
Em   segundo  lugar,  fatores  m ateriais  conform am   nossa  capacidade  de
alcançar obj etivos. Apesar da im portância do aspecto determ inação, o que dizer
se  nos  faltam   m eios  para  efetivar  nossas  decisões?  Podem os  passar  a  procurar

em prego  em   lugares  com   m aior  oferta,  m as  logo  descobrir  que  o  preço  dos
im óveis  e  do  aluguel  nessas  áreas  está  m uito  além   de  nossas  possibilidades.  Do
m esm o  m odo,  querendo  escapar  à  condição  de  poluição  e  superpovoam ento,
podem os  nos  m udar  para  um   local  m ais  saudável  e  perceber  que  pessoas  com
m ais  dinheiro  que  nós  j á  fizeram   isso  antes,  e  a  ideia  j á  deixou  de  ser  viável
econom icam ente. Nesse processo, os m ais abastados inflacionaram  o preço das
m oradias, inviabilizando a com pra de casa pelas populações atraídas por aquela
área.  Pode-se  dizer  algo  sem elhante  a  respeito  de  educação  e  saúde.  Algum as
áreas possuem  escolas e hospitais m ais bem equipados, m as são m uito distantes, e
optar  por  educação  particular  e  planos  de  saúde  privados  está  além   de  nossas
possibilidades.
O que dem onstram os aqui é o fato de que a liberdade de escolha não garante
nossa  liberdade  de  efetivam ente  atuar  sobre  essas  escolhas  nem   assegura  a
liberdade de atingir os resultados desej ados. Mais que isso, dem onstram os que o
exercício de nossa liberdade pode ser um  lim ite à liberdade alheia. Para serm os
capazes de agir livrem ente, precisam os ter m ais do que livre-arbítrio.
Muito  com um ente,  nós  pensam os  lim itados  pelo  dinheiro  de  que  dispom os,
em bora  tam bém   considerem os  as  fontes  sim bólicas  de  lim itação.  Nesse  caso,
nossa  liberdade  pode  não  depender  do  que  fazem os,  m as  de  quem   som os,  no
sentido  de  com o  os  outros  nos  veem .  Usam os  o  exem plo  da  universidade,  m as
podem os  tam bém   ser  recusados  em   um   clube  ou  não  conseguir  em prego  pela
m aneira segundo a qual nossas qualidades são j ulgadas – por exem plo, de acordo
com  raça, etnia, sexo, idade ou deficiência. De form a alternativa, tornar-se sócio
de um  clube pode depender de conquistas passadas – habilidades desenvolvidas,
qualificações, extensão dos serviços ou o m odo de falar que nossa educação nos
fez  adquirir.  Essas  são  consequências  duradouras  de  escolhas  anteriores  que,
acum uladas, têm  efeitos em  ações futuras. Nossa liberdade de agir no presente é
desse  m odo  conform ada  por  nossas  circunstâncias  passadas  e  experiências
acum uladas.
Essas  experiências  acum uladas  conform am   tam bém   o  m odo  com o  nos
sentim os em  relação às situações em  que nos envolvem os no presente. Podem os
supor,  voltando  a  nosso  exem plo  da  universidade,  que  determ inada  m aneira  de
falar é a esperada, m as talvez não estej am os fam iliarizados com  ela. Vindos  de
fam ília de classe baixa, podem os nos sentir pouco à vontade em  m eio a colegas
de  classe  m édia.  Ou,  sendo  católicos  m ais  tradicionais,  podem os  não  aceitar  o
divórcio  e  o  aborto.  Talvez  sej a  nessa  conj untura  que  os  grupos  em   m eio  aos
quais  nos  sentim os  à  vontade  sej am   aqueles  que  lim itam   nossa  liberdade,  posto
que restringem  a gam a de opiniões que podem os suportar.
Grupos  form ais  e  inform ais  são  frequentem ente  constituídos  (com o
discutirem os  adiante)  pelas  expectativas  que  lançam   sobre  seus  integrantes.  Ao
fazê-lo, excluem  quem  eles presum em  não viver segundo tais requisitos. Quando

esses hiatos de com preensão se instalam  entre grupos, costum am  ser preenchidos
por suposições estereotípicas. Assim , é possível afirm ar que o fato de poderm os
nos  aj ustar  às  condições  de  atuação  no  interior  do  grupo  lim ita  nossa  liberdade,
ao  nos  im pedir  de  realizar  experiências  pobrem ente  m apeadas  e  im previstas,
encontradas  para  além   dos  lim ites  do  grupo.  Tendo  sido  treinados  segundo  os
m eios  e  significados  de  nosso  agrupam ento,  tornam o-nos,  assim ,  liberados  para
praticar nossa liberdade, sob a condição, porém , de ficarm os lim itados a ideias e
territórios específicos.
Com   relação  às  práticas  cotidianas  de  liberdade,  som os  ao  m esm o  tem po
autorizados e constrangidos. Em  um  nível, nos é ensinado que há tipos de desej os
que  o  grupo  considera  aceitáveis  e  realizáveis.  Maneiras  apropriadas  de  agir,
falar, vestir-se e com portar-se em  geral fornecem  a orientação necessária para
a desenvoltura na vida dos grupos de que fazem os parte. Julgam o-nos, então, de
acordo  com   as  expectativas,  e  nossa  autoestim a  é  estabelecida  segundo  esse
j ulgam ento.  Essas  vantagens,  contudo,  são  facilm ente  transform áveis  em
problem as,  quando  nos  aventuram os  além   daquelas  expectativas  e  estam os  em
um  am biente no qual se prom ovem  diferentes desej os.
Nessas  circunstâncias,  form as  alternativas  de  com portam ento  podem   ser
consideradas  apropriadas,  e,  assim ,  as  conexões  entre  condutas  e  intenções
alheias, além  de não serem  óbvias, nos parecem  estranhas. A com preensão que
nos perm ite m anter determ inada conduta surge então com o lim itação acerca dos
horizontes de nosso entendim ento. O sociólogo francês Pierre Bourdieu, em  seus
abrangentes estudos da vida social, refere-se à disj unção entre nossa percepção
de nós m esm os e os cam pos de ação nos quais nos encontram os, denom inando-a
“efeito dom  Quixote”.
Quando se dão essas disj unções entre nossas expectativas e nossa experiência,
podem os refletir sobre a possibilidade de os grupos a que pertencem os não serem
aqueles pelos quais optam os por livre escolha. Talvez integrem os este ou aquele
pura  e  sim plesm ente  por  ali  ter  nascido.  O  grupo  que  nos  define,  nos  aj uda  a
orientar nosso com portam ento e se considera provedor de nossa liberdade pode
não  ser  aquele  que  escolhem os  conscientem ente  e,  assim ,  talvez  se  torne  um
convidado  indesej ado.  Quando  nele  ingressam os,  não  praticam os  um   ato  de
liberdade, m as um a m anifestação de dependência.
Não  optam os  por  ser  franceses,  espanhóis,  afro-caribenhos,  brancos  ou  de
classe  m édia.  Podem os  aceitar  essa  sorte  com   tranquilidade  e  resignação,  ou
transform á-la em  nosso destino, em  entusiástico abraço da identidade de grupo –
tornando-nos  orgulhosos  de  quem   som os  e  das  expectativas  lançadas  sobre  nós
em  consequência disso.
Transform ar-nos,  entretanto,  exigirá  grande  esforço  contra  as  expectativas
consideradas  indiscutíveis  por  aqueles  que  nos  cercam .  Autossacrifício,
determ inação e persistência tom arão o lugar do conform ism o a norm as e valores

do grupo.  O  contraste  equivale  a  nadar  a  favor  da  m aré  ou  contra  ela.  É  assim
que,  apesar  de  nem   sem pre  estarm os  conscientes  disso,  nos  tornam os
dependentes  dos  outros:  m uito  em bora  possam os  nadar  contra  a  corrente,
fazem os isso num a direção orientada ou conform ada pelas expectativas e ações
de quem  está fora do grupo com  o qual estam os fam iliarizados.
As  m aneiras  com o  agim os  e  nos  percebem os  são  conform adas  pelas
expectativas dos grupos a que pertencem os, o que se m anifesta de vários m odos.
Prim eiro, há os fins  ou  obj etivos  que  estabelecem os  com   significado  especial  e
nos  quais  consideram os  valer  a  pena  investir  –  eles  variam   de  acordo  com
fatores tais com o classe, raça ou gênero. Por exem plo, a m aior parte das tarefas
referentes a cuidar de alguém  é desem penhada por m ulheres, e, assim , há nítida
tendência  de  elas  gravitarem   em   torno  de  ocupações  específicas  que
recom pensam  esse aspecto, com o enferm agem , m agistério e serviço social. Isso
se apoia em  suposições totalm ente não científicas referentes à divisão de trabalho
entre  hom ens  e  m ulheres  em   term os  dos  tipos  de  características  que
supostam ente cada um  deles apresenta.
Em   segundo  lugar,  a  m aneira  com o  esperam os  concretizar  esses  fins  é
influenciada  por  outra  m anifestação  de  expectativa  de  grupo,  os  meios  aceitos
para  perseguir  aqueles  fins.  Referim o-nos  aqui  às  condutas  consideradas
apropriadas à vida cotidiana. A form a com o nos vestim os, usam os nossos corpos,
falam os,  m ostram os  nosso  entusiasm o  e  até  o  j eito  com o  seguram os  garfos  e
facas  quando  com em os  são  partes  do  m odo  com o  os  grupos  conform am   a
conduta de seus m em bros para que alcancem  seus obj etivos.
Terceiro, assinalam os que os grupos, por sua vez, tam bém  buscam  identificar-
se por ações que os distingam  daqueles que estão fora de suas redes de relação
form al  e  inform al.  Cham am os  de  critério de relevância  essa  m anifestação  que
se  refere  ao  fato  de  term os  sido  ensinados  a  distinguir  os  obj etos  ou  pessoas
relevantes  ou  irrelevantes  para  os  proj etos  de  vida  em   que  em barcam os.
Identificar aliados, inim igos, rivais, pessoas a quem  dar ouvidos ou desconsiderar
é parte desse processo.
Assim ,  devem os  aos  grupos  a  que  pertencem os  os  bens  que  buscam os,  os
m eios  em pregados  nessa  busca  e  a  m aneira  com o  distinguim os  quem   pode  e
quem  não pode colaborar nesse processo. Dessa form a, um a enorm e quantidade
de  conhecim ento  prático  é  adquirida,  e  sem   ela  não  seríam os  capazes  de
conduzir  nossas  atividades  cotidianas  e  nos  voltar  para  proj etos  de  vida
específicos.
Na  m aioria  dos  casos,  trata-se  de  conhecim ento  tácito,  pois  orienta  nossa
conduta sem  que sej am os necessariam ente capazes de expressar com o e por que
ele  opera  de  determ inadas  m aneiras.  Se,  por  exem plo,  nos  perguntarem   que
códigos  usam os  para  nos  com unicar  e  com o  decifram os  os  significados  das
ações,  podem os  até  não  entender  o  sentido  da  pergunta.  De  que  form a

explicam os  os  códigos,  tais  com o  as  regras  de  gram ática  que  proporcionam   a
com unicação,  se  os  tom am os  sim plesm ente  com o  dados  em   nossas  fluência  e
com petência?  Mas  esse  saber  é  exigido  para  dar  form a  a  nossas  tarefas
cotidianas,  e,  m esm o  que  não  possam os  enunciar  as  regras  que  nos  perm item
agir,  podem os  rotineiram ente  dem onstrar  nossas  habilidades  que  dependem   de
sua existência.
De  fato,  baseando-se  nisso,  o  sociólogo  am ericano  Harold  Garfinkel  fundou
um  ram o da sociologia conhecido com o etnom etodologia, que estuda as m inúcias
das  interações  cotidianas  consideradas  taken-for-granted,  indiscutíveis:  por
exem plo, a tom ada correta da vez de falar nas conversações, com o iniciam os e
concluím os nossas frases e com o atribuím os características a pessoas com  base
em  seus m odos de vestir e de m over o corpo no dia a dia, enfim , em  seus gestos
de rotina.
É  graças  a  esse  conhecim ento  de  fundo,  obj eto  de  estudo  dos
etnom etodólogos,  que  nos  sentim os  seguros  em   nossas  ações.  Isso  depende  de
esquecerm os j ustam ente as origens do saber que exerce esse poderoso controle
sobre nós. Ele chega sob a form a de um a atitude natural,  suspendendo  o  tipo  de
questionam ento  que  a  m icrossociologia  converteu  em   obj eto  de  pesquisa.
Quando consultam os a literatura sociológica sobre saber social e vida cotidiana,
abre-se  um a  fascinante  área  de  interesse  que  nos  perm ite  com preender  m ais
sobre nossas interações. Ao fazer isso, o que parecia autoevidente revela-se um a
coleção de crenças variáveis de acordo com  as características de grupo, tem po,
local,  espaço  e  poder.  Na  próxim a  seção,  exam inarem os  alguns  desses  insights
em  term os de com o nos tornam os nós m esm os com os outros.
Alguém  com  o outro: perspectivas sociológicas
Um   dos  principais  personagens  que  ofereceu  um a  com preensão  de  com o
internalizam os entendim entos de grupo foi o psicólogo social  am ericano  George
Herbert Mead. Para ele, quem  nós som os, nosso self, não é atributo com  o qual
tenham os  nascido,  m as  um   traço  adquirido  ao  longo  do  tem po  por  m eio  de
interações.  A  fim   de  com preender  com o  isso  ocorre,  Mead  dividiu  nossa
percepção do self em  duas partes, o “Eu” e o “Mim ”, argum entando que nossas
m entes buscam  um a “relação de aj ustam ento” com  o m undo em  que estam os.
Isso, porém , não significa que sim plesm ente reflitam os as expectativas de nosso
grupo,  porque  (com o  vim os)  tam bém   podem os  agir  no  m undo.  Para  entender
esse  processo,  Mead  sugeriu  que  podem os  chegar  a  conhecer  nosso  self  por
interm édio dos outros apenas por com unicação sim bólica.
A  linguagem   não  é  apenas  o  m eio  pelo  qual  falam os,  m as  tam bém   aquele
com   o  qual  nos  ouvim os  e  avaliam os  nossas  ações  e  falas  de  acordo  com   as
respostas  dos  outros.  Nesse  sentido,  o  Eu  pode  ser  pensado  com o  um a

“conversação”,  que  tem   lugar  dentro  de  nós,  na  qual  a  linguagem   atua  com o
m eio  que  perm ite  esse  processo,  bem   com o  nos  pensar  com o  um   “todo”.  O
Mim , por outro lado, refere-se ao m odo com o organizam os nossas expectativas
de  grupo  em   nossas  ações.  Respondem os  aos  outros  em   term os  de  com o  nos
vem os,  o  que  é  constantem ente  m odificado  de  acordo  com   os  diferentes
parâm etros sociais de nossa rotina.
Esse  processo  se  estabelece  em   três  etapas  de  nosso  desenvolvim ento.
Prim eiro, o estágio preparatório, em  que nossa percepção do self é passiva, posto
que  constituída  de  atitudes  que  outros  dem onstram   em   relação  a  nós.  A
consciência,  então,  se  desenvolve  rapidam ente,  e  respondem os  aos  outros  com
sím bolos  do  grupo,  que  nos  perm item   definir  nossa  conduta  em   term os
considerados  apropriados  para  o  cenário.  Em   outras  palavras,  um a  crescente
consciência de nós é derivada das respostas alheias. Nesse estágio, não podem os
experim entar  nosso  self  diretam ente,  m as  só  pelas  respostas  dos  outros,  o  que,
entretanto,  inicia  o  processo  de  nos  tornarm os  capazes  de  j ulgar  nossas
perform ances nas interações com  os outros.
Depois, com o crianças no estágio de atuação, encenam os diferentes “outros”,
na  form a  de  papéis  que,  entretanto,  não  são  interligados  e  carecem   de
organização  global.  Aprender  um a  linguagem   e  atrelar  sentim entos  a
determ inados papéis  são processos  centrais nessa  etapa. E  nela as  respostas  dos
outros são novam ente de grande relevância na com preensão do que é im portante
encenar.
Em   terceiro  lugar,  a  organização  das  atitudes  do  grupo  com eça  a  ser
consolidada no estágio do jogo ou de atuação segundo as regras do jogo. Aqui, os
papéis  são  aprendidos  por  m eio  de  sua  relação  com   os  outros.  Em bora  um a
variedade de “personagens” sej a interpretada, as regras do j ogo se tornam  m ais
aparentes.  Nosso  caráter  é,  assim ,  construído  pelo  tratam ento  de  nós  com o
obj etos  de  nossas  próprias  ações,  um a  vez  que  elas  são  com preendidas  pelas
respostas dos outros à nossa perform ance.
A  ideia  de  self  segundo  Mead  não  é  a  de  ser  passivo.  Atividade  e  iniciativa
m arcam   os  dois  lados  da  interação.  Afinal,  um a  das  prim eiras  habilidades
aprendidas pela criança é com o discrim inar e selecionar, traço que não pode ser
adquirido sem  o suporte da habilidade de resistir e suportar pressões – em  outras
palavras,  de  assum ir  um a  posição  e  agir  contra  forças  externas.  Por  conta  de
sinais contrários de vários outros significativos,1 o Eu tem  que ser posto de lado,
distanciado,  observando  as  pressões  internalizadas  pelo  Mim .  Quanto  m ais  forte
for o Eu, m ais autônom o se torna o caráter da criança. A força do Eu se expressa
na  habilidade  e  na  presteza  da  pessoa  para  colocar  em   teste  as  pressões
internalizadas  pelo  Mim ,  verificando  seus  verdadeiros  poderes  e  seus  lim ites,
dessa m aneira desafiando-os e suportando as consequências.
No  curso  dessa  aquisição,  fazem os  perguntas  a  nosso  respeito,  e  a  prim eira

questão que se volta sobre a individualidade é, com o form ulou o filósofo francês
Paul  Ricœur,  “Quem   sou  eu?”.  Nela,  experim entam os  a  contradição  entre
liberdade  e  dependência  com o  um   conflito  interior  entre  o  que  desej am os  e
aquilo que som os obrigados a fazer por conta da presença de outros significativos
e suas expectativas em  relação a nós. Há, portanto, im agens de com portam ento
aceitável que são proj etadas sobre nossas predisposições.
Neste  ponto,  chegam os  às  interações  entre  o  biológico  e  o  social.  Grandes
som as de dinheiro têm  sido gastas na tentativa de determ inar as bases genéticas
de diferentes aspectos do com portam ento hum ano. Entretanto, as interpretações
dos estudiosos influenciados pela teoria da evolução de Darwin diferem  entre si a
respeito  de  saber,  por  exem plo,  até  que  ponto  som os  com petitivos  ou
cooperativos  por  natureza,  enquanto  sabem os  que  as  ações  e  o  m odo  com o  são
avaliadas diferem  de um a cultura para outra. Com o observou o especialista em
genética britânico Steve Jones, o term o m ais problem ático em  genética é “para”
–  no  sentido  de  que  descobrir  um   gene  pode  sugerir  que  ele  serve  para  um a
form a particular de com portam ento.
Apesar  desses  argum entos  e  das  elevadas  quantias  destinadas  à  pesquisa
genética  –  e  as  com panhias  farm acêuticas  se  m obilizam   em   busca  de  lucros
potenciais –, a m aioria dos intelectuais concordaria em  passar para a sociedade a
responsabilidade  de  estabelecer  e  fortalecer  os  padrões  de  um   com portam ento
aceitável.  Sociedades  e  grupos  desenvolvem ,  ao  longo  do  tem po,  m eios  de
controlar seus integrantes. Sigm und Freud, o fundador da psicanálise, sugeriu que
os  instintos  j am ais  são  dom esticados,  m as  “reprim idos”  e  levados  para  o
inconsciente.  São,  assim ,  m antidos  no  lim bo  pelo  superego,  com o  o
conhecim ento  internalizado  das  dem andas  e  pressões  exercidas  pelo  grupo.  Foi
por  essa  razão  que  Freud  descreveu  o  superego  com o  um a  “guarnição  num a
cidade conquistada” pelas forças vitoriosas da sociedade. O próprio ego fica em
perm anente  suspensão  entre  dois  poderes:  os  instintos,  direcionados  para  o
inconsciente,  m as  potentes  e  rebeldes;  e  o  superego,  que  pressiona  o  ego  a
m anter as pulsões no inconsciente e prevenir sua fuga do confinam ento.
A  socióloga  fem inista  e  psicóloga  am ericana  Nancy   Chodorow  alterou  esse
ponto  de  vista  utilizando  a  cham ada  teoria  da  relação  de  obj eto  para  analisar
diferenças de gênero nos com prom etim entos em ocionais. Apesar do fato de um
filho dem onstrar “am or prim ário” por sua m ãe, esse desej o é reprim ido. Com o
resultado, ele  abandona  esse  relacionam ento  rum o  a  um   dom ínio  no  qual  o  elo
com   a  m ãe  é  rom pido,  e  aquele  am or,  reprim ido.  O  filho  torna-se,  então,  “o
outro”,  e  sua  autonom ia  é  conquistada  por  m eio  da  repressão  do  desej o.  Um a
filha,  por  sua  vez,  experim enta  um   alinham ento,  e  sua  percepção  do  self  não  é
form ada  pelo  processo  de  distinção  em   relação  à  m ãe.  Entra  em   j ogo,  aí,  a
ênfase de gênero na em patia, associada à m enor preocupação das m ulheres para
se diferenciar dos m undos de que elas são parte fundam ental.

Outros sociólogos seguiram  a hipótese de Freud. Norbert Elias, que fundiu as
intuições do  pai da  psicanálise com   a pesquisa  histórica explicativa,  sugeriu  que
nossa experiência do self decorre da dupla pressão à qual todos som os expostos.
Nossa  j á  citada  atitude  am bígua  em   relação  a  nós  m esm os  é  o  resultado  da
posição am bivalente na qual essas duas pressões, agindo em  direções opostas, nos
colocam .  Logo,  não  se  discute  a  ideia  de  que  todas  as  sociedades  controlam   as
predisposições  de  seus  m em bros  e  se  em penham   em   conter  um a  gam a  de
interações adm issíveis.
Entretanto,  até  onde  sabem os,  não  há  evidência  conclusiva  de  que  os  seres
hum anos  sej am   naturalm ente  agressivos  e  tenham   de  ser  colocados  em
cabrestos  ou  dom ados.  O  que  tende  a  ser  interpretado  com o  a  erupção  da
agressão natural é m uito habitualm ente um  resultado de insensibilidade e raiva –
am bas as atitudes rastreáveis até suas origens m ais sociais do que genéticas. Em
outras  palavras,  em bora  sej a  verdade  que  os  grupos  treinem   e  controlem   as
condutas de seus m em bros, disso não decorre necessariam ente que eles tornem
essas condutas m ais hum anas e m orais. Isso significa apenas que, com o resultado
dessa  vigilância  e  dessa  atitude  correcional,  a  conduta  se  adapta  m elhor  aos
parâm etros considerados aceitáveis em  um  dado tipo de grupo social.
Socialização, im portância e ação
O processo de form ação de nosso self e de com o nossos instintos podem  ou não
ser  suprim idos  costum a  ser  denom inado  socialização.  Som os  socializados  –
transform ados em  seres capazes de viver em  sociedade – pela internalização das
coerções  sociais.  Considera-se  que  estam os  aptos  para  viver  e  agir  em   grupo
quando adquirim os as com petências para nos com portar de m aneira aceitável e,
então,  som os  considerados  livres  para  assum ir  a  responsabilidade  de  nossas
ações. Quem  são, porém , aquelas pessoas significativas com  as quais interagim os
e que, assim , nos socializam ?
Vim os  que  a  força  realm ente  operante  no  desenvolvim ento  do  self  é  a
im agem  infantil  das intenções  e expectativas  de outros  significativos. De  fato,  a
liberdade de um a criança para fazer seleções em  m eio a essas expectativas não
é  com pleta,  visto  que  algum as  pessoas  podem   forçar  suas  opiniões  sobre  a
percepção  que  é  da  criança  m ais  efetivam ente  que  outros  em   seus  m undos.
Apesar disso, a criança não pode evitar escolher, ainda que as dem andas alheias
sej am   contraditórias  e  não  possam   ser  alcançadas  sim ultaneam ente.  Afinal,
algum as  delas  exigem   m ais  atenção  que  outras  e,  assim ,  adquirem   m aior
im portância em  sua vida.
A necessidade de conferir im portância diferencial a expectativas, todavia, não
é  restrita  a  crianças.  Experim entam os  esse  tipo  de  dem anda  com o  rotina  em
nosso cotidiano. Correm os o risco de desagradar alguns am igos que estim am os e

respeitam os  a  fim   de  apaziguar  outros,  de  quem   igualm ente  gostam os.  Por
exem plo,  sem pre  que  expressam os  opiniões  políticas,  haverá  aqueles  de  quem
gostam os  que  não  as  apreciarão  e  aqueles  que  passarão  por  cim a  de
ressentim entos  contra  nós  por  expressá-las.  Atribuir  relevância  dessa  form a
significa,  inevitavelm ente,  atribuir  m enos  im portância  ou  até  irrelevância  a
outras opiniões. Esse risco aum entará de acordo com  o grau de heterogeneidade
do  am biente  em   que  vivem os,  ou  sej a,  do  quanto  ele  for  caracterizado  por
diferentes pontos de vista, valores e interesses.
Fazer  um a  seleção  a  partir  de  nossos  am bientes  significa  escolher  grupos  de
referência. Trata-se de grupos em  relação aos quais m edim os nossas ações e que
fornecem   os  padrões  a  que  aspiram os.  O  m odo  com o  nos  vestim os,  falam os,
sentim os e agim os em  diferentes circunstâncias constitui traços conform ados por
nosso grupo de referência. O sociólogo canadense radicado nos Estados Unidos,
Erving  Goffm an,  sensível  observador  da  vida  cotidiana,  cuj os  livros  oferecem
fascinante  com preensão  de  nossas  ações,  escreveu  sobre  a  im portância  da
“figuração”  ou  “trabalho  da  face”.  “Face”  é  definida  com o  o  valor  que  um a
pessoa atrela a suas ações em  term os dos atributos que elas dem onstram . Por sua
vez, aqueles com  os quais se busca identificação avaliarão essas dem onstrações.
Um   bom   desem penho  “profissional”  é  instância  em   que  a  autoestim a  de  um a
pessoa e sua posição em  seu grupo podem  ser reforçadas.
Esses processos não são sem pre conscientes, nem  há necessariam ente algum a
ligação  entre  nossas  intenções  e  os  resultados  de  nossas  ações.  Com o  dissem os
em  relação à com unicação, aquilo que tencionam os pode não estar alinhado com
o  que  ocorre  de  fato,  levando  a  frustração  e  m al-entendidos.  Alternativam ente,
os  grupos  podem   não  perceber  nossos  esforços  para  im itar  seus  m odos  de
conduta.  Alguns  são  agrupam entos  de  referências  norm ativas,  posto  que
estabelecem  as norm as para nossa conduta sem  estar presentes em  cada um a e
em  todas as interações.
De  particular  im portância  em   m eio  a  esses  grupos  são  fam ília,  am igos,
professores  e  nossos  chefes  no  trabalho.  Ainda  que  essas  pessoas  estej am   na
posição de responder a nossas ações, podem  não se tornar grupos de referência,
o que só ocorre quando lhes atribuím os im portância. A desobediência no trabalho
pode  ocorrer  quando  negligenciam os  ou  desprezam os  as  coerções  norm ativas
lançadas  sobre  nós  por  chefes  e  optam os  por  seguir  padrões  que  eles  podem
condenar.  Podem os  tam bém   “bancar  o  indiferente”  quando  o  grupo  dem anda
envolvim ento  profundo  e  paixão.  Assim ,  a  fim   de  exercer  sua  influência,  é
necessário  algum   grau  de  consentim ento  para  que  um   agrupam ento  se
transform e em  grupo de referência.
Outra  instância  de  influência,  além   dos  contextos  im ediatos  de  nossas  ações,
são  os  grupos  de  referência  com parativos.  Trata-se  de  grupos  aos  quais  não
pertencem os, ou porque estam os além  de seu alcance, ou porque eles estão além

do nosso. Assim , “vem os”  o  grupo  sem   ser  por  ele  vistos.  Atribuir  im portância,
nesse  caso,  é  ação  unilateral.  Por  conta  da  distância  entre  nós  e  eles,  os
integrantes  do  grupo  são  incapazes  de  avaliar  nossas  ações  e,  logo,  não  podem
corrigir  desvios  nem   nos  cobrir  de  elogios.  Nos  tem pos  atuais,  nos  vem os
crescentem ente  m obilizados  diante  de  situações  sobre  as  quais  recebem os,  pela
m ídia, enorm es quantidades de inform ação, m ais sob a form a de descrições do
que por contato com  os outros.
Com o resultado, o papel de grupo de referência com parativo na form ação de
nosso  senso  contem porâneo  do  self  é  m ais  pronunciado.  A  m ídia  transm ite
inform ações  sobre  as  últim as  m odas  e  estilos  com   velocidade  sem pre  m aior,  e
alcançando  os  pontos  m ais  distantes  do  globo.  Nesse  processo,  um a  autoridade
pode  ser  investida  por  conta  do  próprio  estilo  de  vida  que  esses  grupos  tornam
visualm ente  acessíveis  e  que  pode  levar  à  im itação  e  à  aspiração  de  a  eles
pertencer.
Síntese
A  socialização  nunca  cessa  em   nossas  vidas.  Por  essa  razão,  os  sociólogos
distinguem   estágios  de  socialização  (prim ário,  secundário  e  terciário)  que
produzem   form as  de  interação  com plexas  e  transform adoras  entre  liberdade  e
independência.  Por  exem plo,  em   algum as  situações,  quem   foi  criado  em
pequenas com unidades rurais pode sentir-se perdido em  um a cidade estranha, na
qual  a  indiferença  dos  desconhecidos  produz  sentim entos  de  desam paro
exacerbados  pelo  volum e  do  tráfego,  pelas  m ultidões  em   correria  e  pela
arquitetura.  Risco  e  confiança  se  m isturam ,  então,  em   diferentes  graus,  para
potencializar  ou  m inar  o  que  o  sociólogo  Anthony   Giddens  cham ou  de
“segurança ontológica”.
Por  outro  lado,  há  tam bém   quem   se  sinta  em   casa  nessa  cidade,  cuj o
anonim ato  facilita  o  m ovim ento,  e  a  diversidade  pode  servir  de  fonte  de
identidade.  Há  ainda,  porém ,  aquelas  situações  sobre  as  quais  os  indivíduos  não
têm  controle. O que os sociólogos cham am  de condições m acroestruturais pode
ter consequências drásticas para todos nós. Um  abatim ento econôm ico repentino,
a im inência de desem prego em  m assa, a explosão de um a guerra, a degradação
de  poupanças  de  toda  um a  vida  por  obra  da  inflação  violenta  e  a  perda  de
segurança pela retirada do direito a algum  benefício em  tem pos de dificuldades –
estes  são  apenas  alguns  exem plos.  Essas  m udanças  têm   potencial  para  colocar
em   dúvida  e  m esm o  m inar  as  conquistas  de  nossos  padrões  de  socialização  e,
então,  requererem   a  radical  reconstrução  de  nossas  ações  e  das  norm as  que
orientam  nossa conduta.
De  m aneira  m enos  espetaculosa,  cada  um   de  nós  enfrenta  diariam ente
problem as  que  dem andam   reaj ustes  ou  questionam   nossas  expectativas.  Por

exem plo,  quando  m udam os  de  escola  ou  de  em prego,  entram os  para  a
universidade, deixam os de ser solteiros e nos tornam os casados, com pram os um a
casa  própria,  nos  m udam os,  nos  tornam os  pais  ou  cidadãos  de  terceira  idade.
Cabe,  portanto,  pensar  nas  relações  entre  liberdade  e  dependência  com o  um
processo  contínuo  de  m udança  e  negociação  cuj as  interações  com plexas  são
iniciadas ao nascerm os e só se encerram  quando m orrem os.
Nossa  liberdade  tam bém   nunca  está  com pleta.  Nossas  ações  presentes  são
conform adas  e  até  configuram   obj eto  de  coerção  por  parte  de  nossas  ações
passadas. Rotineiram ente nos deparam os com  escolhas que, apesar de atraentes,
são  inexequíveis.  A  liberdade  tem   um   custo  que  varia  com   as  circunstâncias,  e,
na procura de novas oportunidades e coisas às quais aspiram os, a viabilidade e a
probabilidade  de  um a  “nova  ruptura”  tornam -se  cada  vez  m ais  rem otas  depois
de certa idade.
Ao  m esm o  tem po,  a  liberdade  às  vezes  é  com prada  com   o  preço  da  m aior
dependência  dos  outros.  Falam os  sobre  o  papel  desem penhado  pelos  recursos
m ateriais e sim bólicos no processo de fazer da escolha um a proposição viável e
realista,  bem   com o  do  fato  de  que  nem   todo  m undo  tem   garantido  o  acesso  a
esses recursos. Assim , enquanto todas as pessoas são livres e não podem  ser outra
coisa  senão  livres  –  elas  são  obrigadas  a  assum ir  responsabilidade  por  tudo  que
fizerem  –, algum as são m ais livres que outras, porque seus horizontes e escolhas
de ação são m ais am plos, e elas, por outro lado, podem  depender da restrição dos
horizontes de outros.
Podem os dizer que a proporção entre liberdade e dependência é um  indicador
da  posição  relativa  ocupada  na  sociedade  por  um a  pessoa  ou  por  toda  um a
categoria de pessoas. O que cham am os de privilégio parece ser, quando avaliado
m ais de perto, um  grau m ais elevado de liberdade e m ais baixo de dependência.
Isso se m anifesta de diferentes m aneiras e por diferentes razões no processo em
que  sociedades  e  grupos  buscam   j ustificar  seus  estados  de  coisas  a  fim   de
legitim ar  suas  respectivas  posições.  Quando,  entretanto,  são  criados  hiatos  em
nosso  conhecim ento  a  respeito  dos  outros,  eles  frequentem ente  são  preenchidos
com  preconceito. A m aneira com o os sociólogos se debruçam  sobre esses tem as
é o assunto para o qual nos voltarem os no Capítulo 2.
Questões para refletir
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