Crítica da Razão Pura



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Versão eletrônica do livro “Crítica da Razão Pura” 
Autor: Emmanuel Kant   
Tradução: J. Rodrigues de Merege 
Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia) 
Homepage do grupo: 
http://br.egroups.com/group/acropolis/
 
 
A distribuição desse arquivo (e de outros baseados nele) é livre, desde que se dê os créditos da digitalização aos membros do grupo 
Acrópolis e se cite o endereço da homepage do grupo no corpo do texto do arquivo em questão, tal como está acima. 
 
                                 
                              Crítica da Razão Pura 
 
                                     Imanuel Kant 
 
INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................................................3 
I — D

D
ISTINÇÃO 
E
NTRE O 
C
ONHECIMENTO 
P
URO E O 
E
MPÍRICO
......................................................................3 
II — A
CHAMO
-
NOS DE 
P
OSSE DE 
C
ERTOS 
C
ONHECIMENTOS 
“A P
RIORI
” 
E   O  
P
RÓPRIO 
S
ENSO 
C
OMUM 
NÃO OS 
D
ISPENSA
.................................................................................................................................................................4 
III — A F
ILOSOFIA 
N
ECESSITA DE 
U
MA 
C
IÊNCIA QUE 
D
ETERMINE A 
P
OSSIBILIDADE

OS 
P
RINCÍPIOS E A 
E
XTENSÃO DE 
T
ODOS OS 
C
ONHECIMENTOS 
“A P
RIORI
...........................................................................................5 
IV — D
IFERENÇA 
E
NTRE O 
J
UÍZO  
A
NALÍTICO E O 
S
INTÉTICO
................................................................................7 
V — O
S  
J
UÍZOS 
M
ATEMÁTICOS 
S
ÃO 
T
ODOS 
S
INTÉTICOS
.........................................................................................8 
VI — P
ROBLEMA 
G
ERAL DA 
R
AZÃO 
P
URA
................................................................................................................ 10 
VII —  I
DÉIA E 
D
IVISÃO DE 
U
MA 
C
IÊNCIA 
P
ARTICULAR SOB O 
N
OME DE 
CRÍTICA DA RAZÃO PURA 12 
PARTE PRIMEIRA - DA TEORIA ELEMENTAR TRANSCENDENTAL ..................................................... 15 
E
STÉTICA 
T
RANSCENDENTAL
........................................................................................................................................ 15 
P
RIMEIRA 
S
EÇÃO
.............................................................................................................................................................. 16 
D

E
STÉTICA 
T
RANSCENDENTAL DO 
E
SPAÇO
........................................................................................................... 16 
Exposição metafísica deste conceito ......................................................................................................................... 16 
E
XPOSIÇÃO 
T
RANSCENDENTAL DO 
C
ONCEITO DE 
E
SPAÇO
.................................................................................... 17 
Consequências dos conceitos precedentes ............................................................................................................... 18 
S
EGUNDA 
S
EÇÃO
............................................................................................................................................................... 19 
D

E
STÉTICA 
T
RANSCENDENTAL DO 
T
EMPO
............................................................................................................ 19 
Exposição metafísica do conceito de tempo ............................................................................................................. 20 
Exposição transcendental do conceito de tempo..................................................................................................... 20 
Corolários destes conceitos ........................................................................................................................................ 21 
Explicação ...................................................................................................................................................................... 22 
Observações gerais sobre a Estética transcendental ............................................................................................. 25 
Conclusão da Estética transcendental...................................................................................................................... 30 
PARTE SEGUNDA  - DA T EORIA ELEMENTAR TRAN SCENDENTAL ...................................................... 31 
LÓGICA TRANSCENDENTAL..................................................................................................................................... 31 
INTRODUÇÃO ................................................................................................................................................................... 31 
I
DÉIA DE 
U
MA 
L
ÓGICA 
T
RANSCENDENTAL
................................................................................................................ 31 
I —  Da Lógica em geral .............................................................................................................................................. 31 
II —  Da Lógica transcendental.................................................................................................................................. 33 
III — Divisão da Lógica geral em Analítica e Dialética ....................................................................................... 34 
1V — Divisão da Lógica transcendental em analítica e Dialética transcendental ........................................... 35 
PRIMEIRA DIVISÃO DA  LÓGICA TRANSCENDENTAL - ANALÍTICA TRANSC ENDENTAL........ 37 
LIVRO PRIMEIRO -  DA ANALÍTICA TRANSCENDENTAL.......................................................................... 38 
A
NALÍTICA DOS CONCEITOS
........................................................................................................................................... 38 

CAPITULO 1  - ORIENTAÇÃO PARA A DESCOBERTA DE TODOS OS CONCEITOS PUROS DO 
ENTENDIMENTO.............................................................................................................................................................. 38 
P
RIMEIRA 
S
EÇÃO 
- O
RIENTAÇÃO 
T
RANSCENDENTAL 
P
ARA A 
D
ESCOBERTA DE 
T
ODOS OS 
C
ONCEITOS DO 
E
NTENDIMENTO
................................................................................................................................................................ 39 
Do uso lógico do entendimento em geral ................................................................................................................. 39 
S
EGUNDA 
S
EÇÃO 
- D
A FUNÇÃO LÓGICA DO E NTENDIMENTO NO JUÍZO
............................................................... 40 
T
ERCEIRA 
S
EÇÃO 
- D
OS CONCEITOS PUROS D O ENTENDIMENTO OU CATEGORIAS
........................................... 42 
CAPITULO II  - DEDUÇÃO DOS CONCEITOS PUROS DO ENTENDIMENTO ........................................ 49 
P
RIMEIRA 
S
EÇÃO 
- D
OS PRINCÍPIOS DE UMA DEDUÇÃO TRANSCENDENTAL EM GERAL
................................... 49 
Passagem à dedução transcendental das categorias ............................................................................................. 52 
D
EDUÇÃO 
T
RANSCENDENTAL DOS 
C
ONCEITOS 
P
UROS 
I
NTELECTUAIS
............................................................... 54 
A possibilidade de uma síntese em geral .................................................................................................................. 54 
Da unidade primitivamente sintética da apercepção ............................................................................................. 54 
O princípio da unidade sintética da apercepção é o princípio supremo de todo uso do entendimento ........ 56 
Natureza da unidade o bjetiva da própria consciência........................................................................................... 57 
A forma lógica de todos os juízos consiste na unidade objetiva da apercepção dos conceitos que neles se 
contêm ............................................................................................................................................................................. 58 
Todas as intuições sensíveis são submetidas às categorias como as únicas condições sob as quais o que 
existe nelas de diverso pode reunir -se à consciência una..................................................................................... 59 
A categoria não tem outro escopo que o conhecimento das coisas na sua aplicação aos objetivos da 
experiência ..................................................................................................................................................................... 60 
Aplicação das categorias aos objetos dos sentidos em geral............................................................................... 61 
Dedução transcendental do uso experimental geralmente possível dos conceitos puros do entendimento . 64 
Resultado desta dedução dos conceitos do entendimento ..................................................................................... 66 
Resumo Desta Dedução ............................................................................................................................................... 67 
LIVRO SEGUNDO - ANALÍTICA DOS PRINCÍPIOS .......................................................................................... 68 
I
NTRODUÇÃO 
- D
O JUÍZO TRANSCENDENT AL EM GERAL
......................................................................................... 68 
CAPÍTULO 1 - DO ESQUEMATISMO DOS CONCEIT OS PUROS DO ENTENDIMENTO ................... 71 
CAPITULO II  - SISTEMA DE TODOS OS PRINCÍPIOS DO ENTENDIMENTO PURO ......................... 76 
P
RIMEIRA 
S
EÇÃO 
-D
O PRIN CÍPIO SUPREMO DE TODOS OS JUÍZOS ANALÍTICOS
................................................. 77 
S
EGUNDA 
S
EÇÃO 
- D
O PRINCÍPIO SUPREMO DE TODOS OS JUÍZOS S INTÉTICOS
.................................................. 78 
T
ERCEIRA 
S
EÇÃO 
- R
EPRESENTAÇÃO SISTEMÁTICA DE TODOS OS PRINCÍPIOS SINTÉTICOS DO 
ENTENDIMENTO PURO
...................................................................................................................................................... 80 
I — Axiomas da Intuição ............................................................................................................................................ 82 
II — Antecipações da Percepção ............................................................................................................................... 84 
III — Analogias da Experiência ................................................................................................................................. 88 
IV  — Postulados do Pensamento Empírico em Geral ..........................................................................................106  
NOTAS .................................................................................................................................................................................117  
 
 

 
 
INTRODUÇÃO 
 
I — Da Distinção Entre o Conhecimento Puro e o Empírico 
Não se pode duvidar de que todos os nossos conhecimentos começam com a 
experiência, porque, com efeito, como haveria de exercitar-se a fa culdade de se conhecer, se 
não fosse pelos objetos que, excitando os nossos sentidos, de uma parte, produzem por si 
mesmos representações, e de outra parte, impulsionam a nossa inteligência a compará-los 
entre si, a reuni-los ou separá-los, e deste modo à elaboração da matéria informe das 
impressões sensíveis para esse conhecimento das coisas que se denomina experiência? 
No tempo, pois, nenhum conhecimento precede a experiência, todos começam por ela. 
Mas se é verdade que os conhecimentos derivam da experiência, alguns há, no entanto, 
que não têm essa origem exclusiva, pois poderemos admitir que o nosso conhecimento 
empírico seja um composto daquilo que recebemos das impressões e daquilo que a nossa 
faculdade cognoscitiva lhe adiciona (estimulada somente pelas impressões dos sentidos); 
aditamento que propria mente não distinguimos senão mediante uma longa prática que nos 
habilite a separar esses dois elementos. 
Surge desse modo uma questão que não se pode resolver à primeira vista: será possível 
um conhecimento independente da experiência e das impressões dos sentidos? 
Tais conhecimentos são denominados “a prio ri”, e distintos dos empíricos, cuja origem 
e a posteriori”, isto é, da experiência. 
Aquela expressão, no entanto, não abrange todo o significado da questão proposta, 
porquanto há conhecimentos que derivam indiretamente da experiência, isto é, de uma regra 
geral obtida pela experiência, e que no entanto não podem ser ta chados de conhecimentos “a 
priori”. 
Assim, se alguém escava os alicerces de uma casa, “a priori” poderá esperar que ela 
desabe, sem precisar observar a experiência da sua queda, pois, praticamente, já sabe que 
todo corpo abandonado no ar sem sustentação cai ao impulso da gravidade. Assim esse 
conhecimento é nitida mente empírico. 
Consideraremos, portanto, conhecimento “a priori”, todo aquele que seja adquirido 
independentemente de qualquer experiência. A ele se opõem os opostos aos empíricos, isto é, 
àqueles que só o são “a posteriori”, quer dizer, por meio da experiência. 
Entenderemos, pois, daqui por diante, por conhecimento “a priori”, todos aqueles que 
são absolutamente independentes da experiência; eles são opostos aos empíricos, isto é, 
àqueles que só são possíveis me diante a experiência. 
Os conhecimentos “a priori” ainda podem dividir-se em puros e impuros. Denomina-se 
c onhecimento “a priori” puro ao que carece comple tamente de qualquer empirismo. 

Assim, p. ex., “toda mudança tem uma causa”, é um princípio “a priori”, mas impuro, 
porque o conceito de mudança só pode formar-se extraído da experiência. 
 
II — Achamo-nos de Posse de Certos Co nhecimentos “A Priori” e o Próprio Senso 
Comum não os Dispensa 
Trata-se agora de descobrir o sinal pelo qual o conhecimento empírico se distingue do 
puro. A experiência nos mostra que uma coisa é desta ou daquela maneira, silenciando sobre 
a possibilidade de ser diferente. 
Digamos, pois, primeiro: se encontramos uma proposição que tem que ser pensada com 
caráter de necessidade, tal proposição é um juízo “a priori".  
Se, além disso, não é derivada e só se concebe como valendo por si mesma como 
necessária, será então absolutamente “a priori”. 
Segundo: a experiência não fornece nunca juízos com uma universalidade verdadeira e 
rigorosa, mas apenas com uma generalidade suposta e relativa (por indução), o que. 
propriamente quer dizer que não se observou até agora uma exceção a determinadas leis. Um 
juízo, pois, pensado com rigorosa universalidade, quer dizer, que não admite exceção alguma , 
não se deriva da experiência e sem valor absoluto “a priori”. 
Portanto, a universalidade empírica nada mais é do que uma extensão arbitrária de 
validade, pois se passa de uma validade que corresponde à maior parte dos casos, ao que 
corresponde a todos eles, como p. ex. nesta proposição: “Todos os corpos são pesados.” 
Pelo contrário, quando uma rigorosa universalidade é essencial em um juízo, esta 
universalidade indica uma fonte especial de conhecimento, quer dizer, uma faculdade de 
conhecer “a priori”. A necessidade e a precisa universalidade são os caracteres evidentes de 
um conhecimento “a prio ri”, e estão indissoluvelmente unidos. Mas como na prática é mais 
fácil mostrar a limitação empírica de um conhecimento do que a contingência nos juízos, e 
c omo também é mais evidente a universalidade ilimitada do que a necessidade absolu ta, 
convém servir-se separadamente desses dois critérios, pois cada um é por si mesmo infalivel. 
Ora, é fácil demonstrar que no conhecimento humano existem realmente juízos de um 
valor necessário, e na mais rigorosa significação universal; por conseguinte, juízos puros, “a 
priori”. Se se quer um exemplo da própria ciência, basta reparar em todas as proposições da 
Matemática. Se se quer outro tomado do bom senso, pode bastar a proposição de que cada 
mudança tem uma causa. 
Neste último exemplo, o conceito de causa contém de tal modo o de necessidade de 
enlace com um efeito e a rigorosa generalidade da lei, que desapareceria por completo se, 
como o fez Hume, quiséssemos derivá-lo da freqüente associação do que segue com o que 
precede e do hábito (e por isso de uma necessidade simplesmente subjetiva) de ligar certas 
representações.  
Também se poderia, sem recorrer a esses exemplos, para provar a existência de 
princípios “a priori” em nosso conhecimento, demonstrar que são indispensáveis para a 
possibilidade da mesma experiência, sendo portanto uma demonstração “a priori". 

Porque, onde basearia a experiência a sua certeza se todas as regras que empregasse 
fossem sempre empíricas e contingentes? 
Assim, os que possuem esse caráter dificilmente são aceitos como primeiros princípios. 
Basta -nos haver manifestado aqui o uso puro de nossa faculdade de conhecer de um 
modo efe tivo e os caracteres que lhe são próprios. 
Não é só nos juízos, pois também nos conceitos encontramos uma origem “apriorística” 
de alguns. 
Realmente, subtrai do vosso conceito empírico de um corpo tudo quanto possui de 
empírico: a cor, a dureza, a moleza, o peso, e a própria impenetrabilidade, e ficará o espaço 
que (ora vazio) ele ocupava e que não pode ser suprimido.  
Quando separais de alguns conceitos empíricos de um objeto, corpóreo ou não, todas as 
propriedades que a experiência ministra, não podeis no entanto privá-lo daquela, mediante a 
qual é pensada como substância, ou aderente a uma substância (se bem que esse conceito de 
substância contenha mais determinações que o de um objeto em geral). 
Deveis, pois, reconhecer que a necessidade com que este conceito se impõe dá-se em 
virtude da sua existência, “a priori” na vossa faculdade de conhecer. 
 
III — A Filosofia Necessita de Uma Ciên cia que Determine a Possibilidade, os 
Princípios e a Extensão de Todos os Conhecimentos “A Priori” 
Há uma coisa ainda mais importante que o que precede: certos conhecimentos p or meio 
de conceitos, cujos objetos correspondentes não podem ser fornecidos pela experiência, 
emancipam-se dela e parece que estendem o círculo de nossos juízos além dos seus limites. 
 Precisamente nesses conhecimentos, que transcendem ao mundo sensível, aos quais a 
expe riência não pode servir de guia nem de retificação, consistem as investigações de nossa 
razão, investigações que por sua importância nos parecem superiores, e por seu fim muito 
mais sublimes a tudo quanto a experiência pode apreender no mundo dos fenômenos; 
investigações tão importantes que, abandoná-las por incapacidade, revela pouco apreço ou 
indiferença, razão pela qual tudo intentamos para as fazer, ainda que incidindo em erro. 
Esses inevitáveis temas da razão pura são: Deus, liberdade e imortalidade. A ciência 
cujo fim e processos tendem à resolução dessas questões denomina-se Metafísica. Sua 
marcha, é, no princípio, dogmática; quer dizer, ela enceta confiadamente o seu trabalho sem 
ter provas na potência ou impotência de nossa razão para tão grande empresa. 
Parecia, no entanto, natural que, ao abandonar o terreno da experiência, não 
construíssem imediatamente um edificio com conhecimentos adquiridos sem saber como, ou 
sobre o crédito de princípios cuja origem ignoramos. E sem have r assegurado, antes de tudo, 
mediante cuidadosas investigações, acerca da solidez do seu fundamento. Pelo menos, antes 
de o construir, deveriam ter apresentado estas questões: Como pode a inteligência chegar aos 
conhecimentos “a priori”? Que extensão, le gitimidade e valor podem ter? 

Com efeito, nada seria mais natural, se esta palavra significa o que conveniente e 
racionalmente deve suceder; mas se por ela entendemos o que de ordinário se faz, nada é 
mais natural que dar ao olvido essas questões, pois desfrutando de certeza uma parte de 
nossos conhecimentos, a Matemática, concebe -se a fagueira esperança de que os demais 
cheguem ao mesmo ponto. 
Por outra parte, abandonando o círculo da experiência, podem estar seguros de não ser 
contra -ditados por ela. O desejo de estender os nossos conhecimentos é tão grande que só 
detém seus passos quando tropeça em uma contradição claríssima; mas as ficções do 
pensamento, se estão arrumadas com certo cuidado, podem evitar tais tropeços, ainda que 
nunca deixem de ser ficções. 
As matemáticas fornecem um brilhante exemplo do que poderíamos fazer 
independente mente da experiência, nos conhecimentos “a priori”. É verdade que não se 
ocupam senão de objetos e conhecimentos que podem ser representados pela intuição; mas 
esta circunstância facilmente se pode reparar, porque a intuição de que se trata pode dar-se “a 
priori” por si mesma, e por conseguinte, é apenas distinguível de um simples conceito puro. 
A propensão a estender os conhecimentos, imbuida com esta prova do poder da razão, 
não vê limites para o seu desenvolvimento. A pomba ligeira agitando o ar com seu livre vôo, 
cuja resis tência nota, poderia imaginar que o seu vôo seria mais fácil no vácuo. 
Assim, Platão, abandonando o mundo sensível que encerra a inteligência em limites tão 
estreitos, lançou-se nas asas das idéias pelo espaço vazio do entendimento puro, sem advertir 
que com os seus esforços nada adiantava, faltando-lhe ponto de apoio onde manter-se e 
segurar-se para aplicar forças na esfera própria da inte ligência. 
Mas tal é geralmente a marcha da razão humana na especulação; termina o mais breve 
pos sível a sua obra, e não procura, até muito tempo depois, indagar o fundamento em que 
repousa. 
Uma vez chegado a esse ponto, encontra toda sorte de pretextos para consolar-se dessa 
falta de solidez, ou, em último termo, repele voluntaria mente a perigosa e tardia prova. Mas o 
que nos livra de todo cuidado e receio durante a construção de nossa obra, e ainda nos engana 
por sua aparente solidez, é que uma grande parte, quiçá a maior, do trabalho de nossa razão, 
consiste na análise de conceitos que já temos formados sobre os objetos. 
 Isso nos dá uma infinidade de conhecimentos que, se bem sejam apenas 
esclarecimentos e explicações daquilo que foi pensado em nossos conceitos (ainda que de 
maneira confusa), estimam-se, todavia, como novas luzes (Einsicheter), pelo menos, quanto à 
sua forma, por mais que não aumentem a matéria nem o conteúdo de nossos conceitos, pois 
simplesmente os preparam e ordenam. 
Como esse procedimento dá um conhecimento real “a priori” que segue uma marcha 
segura e útil, enganada e iludida a razão, sem o notar, entra em afirmações de uma natureza 
completa mente distinta e totalmente estranha ao conceito dado “a priori” e sem que saiba 
como as conseguiu, nem se lhe ocorra fazer-se semelhante pergunta. 
Por isso, pois, tratarei desde o começo da dife rença que existe entre essas duas espécies 
de conhecimentos. 

 
IV — Diferença Entre o Juízo Analítico e o Sintético 
 
Em todos os juízos em que se concebe a rela ção de um sujeito com um predicado 
(considerando só os juízos afirmativos, pois nos negativos é mais fácil fazer, depois, a 
aplicação), esta rela ção é possível de dois modos: ou o predicado B pertence ao sujeito A 
como algo nele contido (de um modo tácito), ou B é completamente estranho ao conceito A, 
se bem se ache enlaçado com ele. 
 No primeiro caso chamo ao juízo  analítico, no segundo, sintético. Os juízos analíticos 
(afirmativos) são, pois, aqueles em que o enlace do sujeito com o predicado se concebe por 
identidade;  aqueles, ao contrário, cujo enlace é sem identidade, devem chamar-se juízos 
sintéticos.  Poder-se-ia também denominar os primeiros de juízos explicativos, e aos 
segundos, de juízos extensivos, pelo motivo de que aqueles nada aditam ao sujeito pelo 
atributo, apenas decompondo o sujeito em conceitos parciais compreendidos e concebidos 
(ainda que tacitamente) no mesmo, enquanto que, pelo contrário, os últimos acrescentam ao 
conceito do sujeito um predicado que não era de modo algum pensado naquele e que não se 
obteria por nenhuma decomposição. 
Quando digo p. ex.: “todos os corpos são extensos”, formulo um juízo analítico, porque 
não tenho que sair do conceito de corpo para achar unida a ele a extensão, e só tenho que 
decompô-lo, quer dizer, só necessito tornar-me cônscio da diversidade que pensamos sempre 
em dito conceito para encontrar o predicado; é portanto um juízo analítico. Pelo contrário, 
quando digo: “todos os corpos são pesados”, já o predicado é algo comple tamente distinto do 
que em geral penso no simples conceito de corpo. A adição de tal atributo dá, pois, um juízo 
sintético. 
Os juízos da experiência, como tais, são todos sintéticos. 
Porque seria absurdo fundar um juízo analítico na experiência, pois para formá-lo não 
preciso sair do meu conceito e por conseguinte não me é necessário o testemunho da 
experiência. P. ex.: “um corpo é extenso” é uma proposição “a priori” e não um juízo da 
experiência porque antes de dirigir-me à experiência, tenho já em meu conceito todas as 
condições do juízo; só me resta, segundo o princípio de contradição, tirar o predicado do 
sujeito e ao mesmo tempo chegar a ter consciência da necessidade do juízo, necessidade que 
jamais a experiência poderá subministrar-me. 
Pelo contrário, embora eu não tire do conceito de corpo em geral o predicado pesado, 
indica, sem embargo, aquele conceito um objetivo da expe riência, uma parte da experiência 
total, à qual posso ainda aditar outra parte da mesma como pertencente a ela. 
Posso reconhecer antes, analiticamente, o conceito de corpo pelas propriedades da 
extensão, impenetrabilidade, forma etc., etc., as quais são todas pensadas neste conceito. Mas 
se amplio meu conhecimento e observo a experiência que me proporcionou o conceito de 
corpo, encontro enla çada constantemente com todas as anteriores propriedades e de 
gravidade (o peso), que adito sinte ticamente, como predicado, àquele conceito. 
 

V — Os Juízos Matemáticos São Todos Sintéticos 
 
Esta proposição parece ter escapado até hoje às indagaçõe s dos que analisam a razão 
humana, e quase estão opostas às suas conjeturas, apesar da sua incontrovertível certeza e da 
suma importância de suas conseqüências. 
Como se observa que os raciocínios dos mate máticos procediam todos dos princípios 
de contradição (exigido pela natureza de toda certeza apodítica), acreditava -se também que os 
princípios tinham sido reconhecidos em virtude do mesmo processo: no que se enganaram, 
porque se indubitavelmente uma proposição sintética pode ser conhecida segundo o princípio 
de contradição, isto não é possível dentro de si mesma, senão supondo outra proposição 
sintética de que possa ser deduzida. 
Deve notar-se, antes de tudo, que as proposições propriamente matemáticas são sempre 
juízos “a priori” e não juízos empíricos, porque implicam necessidade, que não se pode obter 
pela experiência. 
Mas, se não se quer conceder isto, limito minha proposição às matemáticas puras, cujo 
conceito traz consigo o não conter conhecimentos empíricos, mas tão-somente “a priori”. 
I  — Poder-se-ia em verdade crer, à primeira vista, que a proposição 7 + 5 = 12 é 
puramente analítica, resultante, segundo o princípio de contradição, do conceito de uma soma 
de sete e cinco. Mas se a considerarmos com mais atenção, acharemos que o conceito de 
soma de sete e cinco não contém mais do que a união dos dois números em um só, o que não 
faz pensar qual seja esse número único que compreenda aos outros dois. O conceito de 12 
não é de modo algum percebido só pelo pensamento da união de cinco e sete, e posso 
decompor todo meu conceito dessa soma tanto quanto quiser, sem que por isso encontre o 
número 12. 
É preciso, pois, ultrapassar esse conceito recorrendo-se à intuição correspondente a um 
dos dois números, quiçá aos 5 dedos da mão ou a cinco pontos (como faz Segner em sua 
Aritmética), e aditar sucessivamente ao conceito sete as cinco unidades dadas na intuição. 
Com efeito, tomo primeiramente o número sete, e auxiliando-me de meus dedos como 
intuição para o conceito de 5, acrescento sucessivamente ao número 7 as unidades que tive de 
reunir para formar o 5, e assim vejo surgir o número 12. 
Pela adição de sete e cinco tenho idéia desta soma 7 + 5, é verdade; mas não que esta 
seja igual ao número 12. A proposição aritmética é, pois, sempre sintética: o  que se 
compreende ainda mais claramente se se tomam números maiores, pois então é evidente que, 
por mais que volvamos e coloquemos nosso conceito quanto quisermos, nunca poderemos 
achar a soma mediante a simples decomposição de nossos conceitos e sem o auxilio da 
intuição. 
Tampouco é analítico um princípio qualquer de Geometria pura. 
É uma proposição sintética que a linha reta, entre dois pontos é a mais curta, porque 
meu conceito de reta não contém nada que seja quantida de, senão só qualidade. 

O conceito de mais curta é completamente aditado e não pode provir de modo algum da 
decomposição do conceito de linha reta. É preciso, pois, recorrer-se aqui à intuição, único 
modo para que seja possível a síntese. 
Algumas poucas proposições fundamentais, que os geômetras pressupõem, são 
realmente analíticas e se apóiam no princípio de contradição; mas também é verdade que só 
servem, como proposições idênticas, ao encadeamento do método e não como princípios, tais 
como, p. ex., a = a, o todo é igual a si mesmo: ou (a + b) < “a”, o todo é maior do que a parte. 
E, sem embargo, estes mesmos axiomas ainda que valham como simples conceitos, são 
admitidos nas matemáticas somente porque podem ser representados em intuição. 
A ambigüidade de expressão é que geralmente nos  faz crer que o predicado de tais 
juízos apodíticos existe já em nossos conceitos, e que, conseguintemente, é analítico o juízo. 
A um conceito dado temos que aditar certo predicado, e esta necessidade pertence já 
aos conceitos. Mas a questão não é o que devemos aditar com o pensamento a um conceito 
dado, senão o que realmente pensamos nele, ainda que de um modo obscuro. 
Vemos, pois, que o predicado se une necessariamente ao conceito, não como concebido 
nele, senão mediante uma intuição que a ele deve unir-se. 
II  — A ciência da natureza (Física) contém como princípios, juízos sintéticos “a priori”. 
Só tomarei como exemplos estas duas proposições: em todas as mudanças do mundo 
corpóreo a quanfidade de matéria permanece sempre a mesma, ou, em todas as comunicações 
de movimento a ação e reação devem ser sempre iguais. 
Em ambos vemos, não só a necessidade e, por conseguinte, sua origem “a priori”, senão 
que são proposições sintéticas. 
Porque no conceito de matéria não penso em sua permanência, mas unicamente em sua 
pre sença no espaço que ocupa, e, portanto, vou além do conceito de matéria para atribuir-lhe 
algo “a priori” que não havia concebido nele. 
A proposição não é, pois, concebida analítica, senão sinteticamente ainda que “a 
priori”, e assim sucede com as restantes proposições da parte pura da Física. 
III  — Também devem haver conhecimentos sintéticos “a priori” na Metafísica, ainda 
que só a consideraremos como uma ciência em ensaio; mas que, não obstante, torna 
indispensável a natureza da razão humana. 
A Metafísica não se ocupa unicamente em analisar os conceitos das coisas que nós 
formamos a priori”, e, por conseguinte, em explicações ana líticas, senão que por ela 
queremos estender nossos conhecimentos “a priori”, e para o efeito nos valemos de princípios 
que aos conceitos dados aditam algo que não estava compreendido neles, e mediante os 
juízos sintéticos “a priori” nos afastamos tanto, que a experiência não pode seguir-nos, p. ex., 
na proposição: o mundo deve ter um primeiro princípio etc., etc. 
Assim, pois, a Metafísica consiste, pelo menos segundo seu  fim,  em proposições 
puramente sintéticas “a priori”. 
 

VI — Problema Geral da Razão Pura 
Muito se adiantou com haver podido trazer à forma de um só problema uma infinidade 
de questões: Com isso, não só se facilita o próprio trabalho determinando-o com precisão, 
como também se facilita o exame para outro que queira verificar se cumprimos ou não o 
nosso desígnio. O verdadeiro problema da razão pura contém-se nesta pergunta: como são 
possíveis os juízos sintéticos “a priori"? Se a Metafísica permaneceu até agora em um estado 
vago de incerteza e contradição, deve atribuir-se unicamente a que esse problema assim como 
também a diferença entre o juízo analítico e o sintético, não se tinham apresentado antes ao 
pensamento. 
A vida ou morte da Metafísica depende da solução desse problema, ou da demonstração 
de que é impossível resolvê-lo. David Hume é, de todos os filósofos, o que mais se 
aproximou desse proble ma, mas esteve longe de o determinar suficiente mente e não o pensou 
em toda a sua originalidade; detendo-se só ante o princípio sintético da relação de causa e 
efeito (“principium causalitatis”), acreditou poder deduzir que o tal princípio é absolutamente 
impossível “a priori”, e, segundo as suas conclusões, tudo o que denominamos Metafísica 
descansaria sobre uma simples opinião de um pre tendido conhecimento racional, que no fato 
nasce simplesmente da experiência e que recebe, do hábito, certo aspecto de necessidade. 
Esta afirmação, destruidora de toda a Filosofia pura, não seria nunca emitida, caso o seu 
autor houvesse abordado em toda a sua generalidade esse problema, porque então teria 
compreendido que, segundo o seu argumento, tampouco pode riam existir as matemáticas 
puras, pois elas contêm certamente princípios sintéticos “a priori”, e seu bom senso teria 
retrocedido ante semelhante asserto. 
Na resolução do precedente problema está também compreendida ao mesmo tempo a 
possibilidade do emprego da razão pura na fundação e construção de todas as ciências que 
contêm um conhecimento teórico “a priori” dos objetos, quer dizer, está contida a resposta 
destas perguntas: 
Como é possível uma Matemática pura? 
Como é possível uma Física pura? 
Não se pode perguntar destas ciências, mais do que como são possíveis porque, ao 
existirem como reais, demonstram pois que o são. 
No tocante à Metafísica, como seus passos têm sido até hoje tão desditosos, tão 
distantes do fim essencial da mesma, que pode dizer-se que todos têm sido em vão, 
perfeitamente explica-se a dúvida de sua possibilidade e de sua existência. 
Mas, todavia, esta espécie de conhecimento deve, em certo sentido, considerar-se como 
dado; e a Metafísica é real, senão como ciência feita, pelo menos em sua disposição natural 
(Metaphisica naturalis), porque a razão humana, sem que esteja movida por uma vaidade de 
uma onisciência; senão simplesmente estimulada por uma necessidade própria, marcha sem 
descanso algum para questões que não podem ser resolvidas pelo uso empírico da razão, nem 
por princípios que dela emanem. Isso sucede realmente a todos os homens, logo que a sua 
razão começa a especular; por isso a Metafísica existiu sempre e existirá onde esteja o 
homem. De tal modo a nossa questão é agora: como é possível a Metafísica como disposição 

natural? Quer dizer: como nascem da natureza da razão humana universal essas questões, que 
a razão pura formula e que por necessidade própria se sente impulsionada a resolver? 
Mas como todos os ensaios feitos até hoje para resolver essas questões naturais (por 
exemplo: a de saber se o mundo teve princípio, ou se é eterno etc.) têm encontrado 
contradições inevitáveis, não podemos contentar-nos com a simples disposição natural para a 
Metafísica, quer dizer, com a faculdade da razão pura, de que procede uma Metafísica, 
qualquer que seja; senão que deve ser possível chegar com ela a uma certeza ou ignorância 
dos objetos e poder afirmar algo sobre os objetos dessas questões ou sobre a potência da 
razão, e, por conseguinte, a estender com confiança seu poder ou colocá-la em limites 
seguros e determinados. Esta última questão, que resulta do problema geral que precede, se 
expressa nos seguintes termos: de que modo é possível a Metafísica como ciência? 
A crítica da razão conduz, por fim, necessariamente, à ciência; o uso dogmático da 
razão sem crítica conduz, pelo contrário, a afirmações infundadas, que sempre podem ser 
contraditadas por outras não menos verossímeis, o que conduz ao ceticismo.  
Nem tampouco pode essa ciência ter uma extensão excessiva, porque não se ocupa dos 
objetos da razão, cuja diversidade é infinita, mas simplesmente da razão mesma, de 
problemas que nascem exclusivamente do seu seio e que se lhe apresentam, não pela natureza 
das coisas que diferem dela, senão pela sua própria. 
Mas uma vez que conheça perfeitamente a sua própria faculdade em relação com os 
objetos que pode fornecer-lhe a experiência, ser-lhe-á fácil determinar com toda segurança a 
exatidão a extensão e limites de seu exercício, intentado fora dos limites da experiência. 
Pode -se e deve -se, portanto, considerar como ineficaz todo ensaio feito até aqui para 
construir uma metafísica dogmática, porque o que neles existe de analítico, a saber: a simples 
decomposição dos conceitos que “a priori” se encontram em nossa razão, não é seu fim total, 
senão somente um meio preliminar da Metafísica, cujo objeto é estender nossos 
conhecimentos científicos “a prio ri". 
A análise é incapaz de realizar isto, pois se reduz a mostrar o que se acha contido em 
ditos conceitos, e não diz como foi  adquirido “a priori”, para poder depois determinar o seu 
legítimo emprego nos objetos de todos os nossos conhecimentos em geral. 
Não se necessita grande abnegação para renunciar a todas essas pretensões, posto que 
as evidentes e inevitáveis contradições da razão consigo mesma no processo dogmático, 
causaram por largo tempo o descrédito da Metafísica. 
Por isso será mister muita firmeza para que a dificuldade intrínseca e a oposição 
externa não nos afastem de uma ciência tão indispensável à razão humana,  cuja raiz não 
poderia estragar-se ainda que se cortassem todos os seus ramos exte riores, e que, mediante 
um método diferente e oposto ao que até hoje tem sido empregado, pode adquirir um útil e 
fecundo desenvolvimento. 
 

VII — Idéia e Divisão de Uma Ciência Particular sob o Nome de CRÍTICA DA 
RAZÃO PURA  
De tudo o que precede resulta, pois, a idéia de uma ciência particular que pode chamar-
se “crítica da razão pura”, por ser a razão a faculdade que proporciona os princípios do 
conhecimento “a priori”. 
Razão pura é, por isso, a que contém os prin cípios para conhecer algo absolutamente “a 
priori”. Um orgânon da razão pura seria o conjunto de princípios mediante os quais todos os 
conhecimentos “a priori” poderiam ser adquiridos e realmente estabelecidos. A aplicação 
extensa de tal orgânon produzida um sistema da razão pura. Mas como isto seria exigir 
demasiado e como fica ainda por saber se a extensão de nossos conhecimentos é possível, e 
em que casos, podemos considerar a ciência do simples juízo da razão pura, de suas partes e 
limites, como a propedêutica para o sistema de razão pura. 
Uma tal ciência não deveria denominar-se doutrina, mas somente “crítica da razão pura: 
sua utilidade, desde o ponto de vista especulativo, seria puramente negativa e não servida 
para ampliar nossa razão, senão para a emancipar de todo erro, o que já não é pouco.  
Chamo transcendental todo conhecimento que em geral se ocupe, não dos objetos, mas 
da ma neira que temos de conhecê-los, tanto quanto pos sível “a priori”. Um sistema de tais 
conceitos se denominada “Filosofia transcendental”. Mas esta filosofia é demasiada para 
começar, porque deve conter todo o conhecimento, tanto o analítico como o sintético “a 
priori”, e se estenderia muito além do que corresponde ao nosso plano. 
Devemos tratar somente da análise quanto seja indispensável e necessária para perceber 
em toda a sua extensão os princípios da síntese a priori.  Síntese que constitui o nosso único 
objeto (assunto). Esta investigação, que não podemos chamar propriamente doutrina, mas 
tão-só “crítica transcendental”, pois tem por fim não o aumento dos nossos conhecimentos, 
mas a retificação dos mesmos, vem a ser como a pedra de toque para estimar o valor ou a 
insignificância de todos os conhecimentos “a priori”, que é do que  nos ocupamos atualmente. 
A crítica é, portanto, no possível, uma preparação para um orgânon, e se este não se 
distingue, será pelo menos um cânon, segundo o qual possa em todo caso ser exposto 
analítica e sinteticamente o sistema completo da filosofia da razão pura, que deve consistir na 
extensão ou na simples limitação do conhecimento racional. 
Se se atende a que dito sistema tem por obje to, não a natureza das coisas, que é infinita, 
mas o entendimento que julga sobre a natureza das coisas, e ainda  esse entendimento 
considerado somente em relação aos seus conhecimentos “a priori” , podemos presumir que o 
sistema não é impossível, nem tão vasto, que se não possa esperar o seu termo. 
Como não necessitamos procurar esse objeto exteriormente nem pode  permanecer 
oculto para nós, não parece que tenha de ser tão extenso que não possamos abarcá-lo em seu 
justo preço. Menos ainda deve esperar-se que esta obra seja uma crítica dos livros publicados 
sobre sistemas da razão pura; aqui só se trata de uma crítica da faculdade da razão pura. 
Somente tomando essa crítica como base, se consegue uma segura pedra de toque para 
apreciar o valor das obras filosóficas antigas e modernas; sem ela, o historiador e o juiz 
condenam in competentemente as asserções de outros, tendo-as como infundadas em nome 
das próprias, que não têm melhor fundamento. 

A filosofia transcendental é a idéia de uma ciência, cujo plano deve traçar a crítica da 
razão pura de uma maneira arquitetônica, quer dizer, por princípios e com a mais plena 
segurança da perfeição e validez de todos os princípios da razão pura. 
Se a crítica não toma o nome de Filosofia transcendental é só porque deveria, para ser 
um sistema completo, conter uma análise detalhada de todos os conhecimentos humanos “a 
priori”. A crítica deve, sem dúvida alguma, colocar ante nossos olhos uma perfeita 
enumeração de todos os conceitos fundamentais que constituem o conhe cimento puro; mas se 
abstém da detalhada análise deles, em parte, porque essa decomposição não seria conforme 
com  seu fim, e, ademais, não apresenta tanta dificuldade como a síntese, que é objeto da 
crítica e, em parte, também, porque seria contrário à unidade do plano entreter-se numa 
análise e derivação tão acabados, podendo eximir-se de tal empenho. 
Demais, assim a análise perfeita dos conceitos “a priori”, como a dedução dos que 
depois hão de ser derivados, é coisa fácil de suprir sempre que antes tenham sido expostos 
detalhadamente como princípios da síntese e nada lhes falta em relação a esse fim essencial. 
Segundo isto, tudo o que constitui a Filosofia transcendental pertence à crítica da razão 
pura, que é a idéia completa da Filosofia transcendental; mas não esta ciência mesma, porque 
na análise só se estende até o que lhe é indispensável para o perfeito juízo do conhecimento 
sintético “a priori”. 
O principal propósito que deve guiar-nos na divisão desta ciência é não introduzir 
conceitos que contenham algo de empírico, quer dizer, que o conhecimento “a priori” seja 
completamente puro. 
Daqui, que, ainda que os princípios superiores de Moral e seus conceitos fundamentais 
sejam conhecimentos “a priori”, não pertençam sem embargo à Filosofia transcendental; 
porque os conceitos de prazer ou dor, de desejo ou inclinação têm todos uma origem 
empírica, e ainda que seja certo que não fundamentam os preceitos morais, devem, sem 
embargo, formar parte da moralidade pura, juntamente com o conceito do dever de dominar 
os obstáculos ou dos impulsos a que não devemos entregar-nos. 
Donde se segue que a Filosofia transcendental é a filosofia da razão pura simplesmente 
especula tiva, porque todo o concernente à prática, que contém móveis, refere-se aos 
sentimentos que pertencem às fontes empíricas do conhecimento. 
Se se quer fazer a divisão dessa ciência desde o ponto de vista geral de um sistema, 
deve ela compreender: 
1.º — uma teoria elementar da razão pura; 
2.° — uma teoria do método da razão pura.  
Cada uma destas partes principais terá suas sub-divisões cujos fundamentos não 
poderão ser facilmente expostos aqui. O que parece necessário re cordar na introdução é que o 
conhecimento humano tem duas origens e que talvez ambas procedam de uma comum raiz 
desconhecida para nós; estas são: a sensibilidade e o entendimento; pela primeira os objetos 
nos são dados, e pelo segundo, concebidos. 

A sensibilidade pertence à Filosofia transcendental enquanto contém representações “a 
priori”, que por seu turno encerram as condições mediante as quais nos são dados os objetos. 
A teoria transcendental da sensibilidade deve pertencer à primeira parte da ciência elementar, 
pois as condições sob as quais se dão os objetos ao conhecimento humano precedem àquelas 
sob as quais são concebidos esses mesmos objetos. 

 

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