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totalm ente gratuita, o benefício de sua leitura a àqueles que não podem  com prá-
la. Dessa form a, a venda desse eBook ou até m esm o a sua troca por qualquer
contraprestação é totalmente condenável em  qualquer circunstância.
A generosidade e a hum ildade são m arcas da distribuição, portanto distribua este
livro livrem ente. Após sua leitura considere seriam ente a possibilidade de
adquirir o original, pois assim  você estará incentivando o autor e à publicação de
novas obras. Se gostou do nosso trabalho e quer encontrar outros títulos visite
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 MACUNAÍMA,
O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER

Folha de Rosto
Mário de Andrade
 MACUNAÍMA, 
O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER
Estabelecimento do texto
Telê Ancona Lopez
Tatiana Longo Figueiredo
NOVA FRONTEIRA |  RIO DE JANEIRO 2013

Dedicatória
A Paulo Prado

Sum ário
 SUMÁRIO 
Capa
Folha de Rosto
Dedicatória
Sum ário
Macunaím a em  2008
Telê Ancona Lopez e Tatiana Longo Figueiredo
1 Macunaím a
2 Maioridade
3 Ci, Mãe do Mato
4 Boiúna Luna
5 Piaim ã
6 A francesa e o gigante
7 Macum ba
8 Vei, a Sol
9 Carta pras icam iabas
10 Pauí-Pódole
11 A velha Ceiuci
12 Tequeteque, Chupinzão e a inj ustiça dos hom ens
13 A piolhenta do Jiguê
14 Muiraquitã
15 A pacuera de Oibê
16 Uraricoera

17 Ursa Maior
Epílogo
Dossiê Macunaím a
1º PREFÁCIO
PREFÁCIO
PREFÁCIO
2º PREFÁCIO
A RAIMUNDO MORAES
NOTAS DIÁRIAS
Texto da orelha
Sobre o autor
Créditos
Ficha Catalográfica
Texto de quarta capa

Macunaím a em  2008
 MACUNAÍMA EM 2008 
Esta  edição  de Macunaíma,  o  herói  sem  nenhum  caráter  apresenta  um   texto
apurado  da  rapsódia  de  Mário  de  Andrade  (1893-1945),  com   atualização
ortográfica,  acrescido  de  docum entos  concernentes  à  obra.  Neste  propósito,
cotej ou três edições de vida do autor com  o texto da últim a edição crítica, a de
1996,  na  Coleção  Archivos  da  UNESCO,  e  com   os  m anuscritos  existentes.  As
edições  de  vida  saíram   em   1928  (tiragem   de  oitocentos  exem plares  paga  por
Mário  à  gráfica  de  Eugenio  Cupolo,  em   São  Paulo),  em   1937  (Rio  de  Janeiro:
Livraria José Oly m pio Editora) e em  1944 (São Paulo: Livraria Martins Editora,
nas  Obras  Com pletas).  Os  m anuscritos  foram :  os  esboços  de  fragm entos  de
capítulos  nas  notas  m arginais  autógrafas  a  grafite  nas  m argens  do  volum e  II,
Mythen  und  Legenden  der  Taulipang  und  Arekuná  Indianer   (Stuttgart:  Strecker
und  Schröder,  1924),  de Vom  Roroima  zum  Orinoco ,  lendário  recolhido  pelo
etnólogo alem ão Theodor Koch-Grünberg; os fragm entos rem anescentes de duas
versões  em   autógrafo  a  lápis  preto,  de  1926  e  1927;  a  versão  no  exem plar  de
trabalho  do  ficcionista,  resultante  da  fusão  das  rasuras  a  tinta  preta  ao  texto
im presso da prim eira edição, traçadas provavelm ente em  1936, tendo em  vista a
segunda publicação; e a versão do título na capa rasurada do exem plar do livro
de 1944, oferecido a Paulo Zingg. Até esse exem plar com  dedicatória ao am igo
j ornalista, o aposto no título não era antecedido de vírgula.
O  estabelecim ento  do  texto  norteou-se  pela  análise  do  proj eto  literário  e  da
evolução do m esm o ao longo dos m anuscritos e das três edições citadas. Assim
sendo,  respeitou  as  transform ações  operadas  no  exem plar  de  trabalho,  entre  as
quais  a  principal  é  a  supressão  que  afeta  o  conj unto  original  dos  capítulos.
Macunaíma,  em   1928,  possui  18  capítulos  e  um  Epílogo.  Reestruturado  para  a
segunda edição, m antém  o Epílogo e conta 17 capítulos, pois o décim o prim eiro,
As  três  normalistas,  devido  à  pressão  moral,  desencadeada  pela  proposta  do
herói de brincar com  as m eninas de fam ília m atriculadas na escola da praça da
República,  perde  a  seqüência  final  que  lhe  j ustificava  o  título.  Na  versão
construída  pelas  em endas  autógrafas,  o  que  resta  dele  cola-se  ao  início  do
capítulo subseqüente, A velha Ceiuci, renum erado XI.
A  atualização  ortográfica  pela  norm a  vigente,  na  m esm a  consideração  ao

proj eto  literário,  acata  integralm ente  a  estilização  da  língua  falada  no  país,  na
prosa  experim ental  da  rapsódia  que  busca  captar  “a  entidade  brasileira”.
Convicta  do  valor  da  sonoridade  e  do  ritm o  da  frase,  em   um   texto  configurado
com o um a “fala m ansa, m uito nova, m uito! que era canto e que era cachiri com
m el-de-pau, que era boa e possuía a traição das frutas desconhecidas do m ato”,
passa  ao  largo  da  escrita  fonética  em   “lião”,  “viado”,  “ólio”  e  outras  palavras,
bem   com o  de  locuções  inventadas  (“de-noite”,  “há-de”)  e  substantivos
com postos  grafados  sem   divisão  ou  constituídos  no  texto,  tais  com o
“arranhacéu”, “sabiágongá”, palavras-feias, bolo-de-aipim , entre m uitos.
No intuito de divulgar as tentativas do criador de Macunaíma de com preender
a  própria  obra,  a  presente  edição  traz,  em   um   dossiê,  dois  prefácios
acom panhados  de  notas,  deixados  inéditos,  e  dois  depoim entos  – A  Raimundo
Moraes e Notas diárias – publicados em 1931 e 1943.
Telê Ancona Lopez 
 Tatiana Longo Figueiredo

1 Macunaím a

 MACUNAÍMA 

  No  fundo  do  mato-virgem  nasceu  Macunaíma,  herói  da  nossa  gente.  Era
preto retinto e filho do m edo da noite. Houve um  m om ento em  que o silêncio foi
tão grande escutando o m urm urej o do Uraricoera, que a índia tapanhum as pariu
um a criança feia. Essa criança é que cham aram  de Macunaím a.
Já na m eninice fez coisas de sarapantar. De prim eiro passou m ais de seis anos
não falando. Si o incitavam  a falar exclam ava:
– Ai! que preguiça!...
e  não  dizia  m ais  nada.  Ficava  no  canto  da  m aloca,  trepado  no  j irau  de
paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalm ente os dois m anos que tinha,
Maanape  j á  velhinho  e  Jiguê  na  força  do  hom em .  O  divertim ento  dele  era
decepar  cabeça  de  saúva.  Vivia  deitado  m as  si  punha  os  olhos  em   dinheiro,
Macunaím a dandava pra ganhar vintém . E tam bém  espertava quando a fam ília
ia  tom ar  banho  no  rio,  todos  j untos  e  nus.  Passava  o  tem po  do  banho  dando
m ergulho,  e  as  m ulheres  soltavam   gritos  gozados  por  causa  dos  guaiam uns  diz-
que  habitando  a  água-doce  por  lá.  No  m ocam bo  si  algum a  cunhatã  se
aproxim ava  dele  pra  fazer  festinha,  Macunaím a  punha  a  m ão  nas  graças  dela,
cunhatã  se  afastava.  Nos  m achos  guspia  na  cara.  Porém   respeitava  os  velhos  e
freqüentava  com   aplicação  a  m urua  a  poracê  o  torê  o  bacororô  a  cucuicogue,
todas essas danças religiosas da tribo.
Quando era pra dorm ir trepava no m acuru pequeninho sem pre se esquecendo
de  m ij ar.  Com o  a  rede  da  m ãe  estava  por  debaixo  do  berço,  o  herói  m ij ava
quente  na  velha,  espantando  os  m osquitos  bem .  Então  adorm ecia  sonhando
palavras-feias, im oralidades estram bólicas e dava patadas no ar.
Nas  conversas  das  m ulheres  no  pino  do  dia  o  assunto  era  sem pre  as
peraltagens  do  herói.  As  m ulheres  se  riam ,  m uito  sim patizadas,  falando  que
“espinho que pinica, de pequeno j á traz ponta”, e num a paj elança Rei Nagô fez
um  discurso e avisou que o herói era inteligente.
Nem   bem   teve  seis  anos  deram   água  num   chocalho  pra  ele  e  Macunaím a
principiou  falando  com o  todos.  E  pediu  pra  m ãe  que  largasse  da  m andioca
ralando na cevadeira e levasse ele passear no m ato. A m ãe não quis porque não
podia  largar  da  m andioca  não.  Macunaím a  choram ingou  dia  inteiro.  De-noite
continuou chorando. No outro dia esperou com  o olho esquerdo dorm indo que a
m ãe principiasse o trabalho. Então pediu pra ela que largasse de tecer o paneiro
de  guarum á-m em beca  e  levasse  ele  no  m ato  passear.  A  m ãe  não  quis  porque
não  podia  largar  o  paneiro  não.  E  pediu  pra  nora,  com panheira  de  Jiguê,  que
levasse o m enino. A com panheira de Jiguê era bem  m oça e cham ava Sofará. Foi
se aproxim ando ressabiada porém  desta vez Macunaím a ficou m uito quieto sem

botar a m ão na graça de ninguém . A m oça carregou o piá nas costas e foi até o
pé de aninga na beira do rio. A água parara pra inventar um  ponteio de gozo nas
folhas do j avari. O longe estava bonito com  m uitos biguás e biguatingas avoando
na  entrada  do  furo.  A  m oça  botou  Macunaím a  na  praia  porém   ele  principiou
choram ingando, que tinha m uita form iga!... e pediu pra Sofará que o levasse até
o  derram e  do  m orro  lá  dentro  do  m ato.  A  m oça  fez.  Mas  assim   que  deitou  o
curum im  nas tiriricas, taj ás e trapoerabas da serrapilheira, ele botou corpo num
átim o e ficou um  príncipe lindo. Andaram  por lá m uito.
Quando  voltaram   pra  m aloca  a  m oça  parecia  m uito  fatigada  de  tanto
carregar  piá  nas  costas.  Era  que  o  herói  tinha  brincado  m uito  com   ela...  Nem
bem   ela  deitou  Macunaím a  na  rede,  Jiguê  j á  chegava  de  pescar  de  puçá  e  a
com panheira  não  trabalhara  nada.  Jiguê  enquizilou  e  depois  de  catar  os
carrapatos deu nela m uito. Sofará agüentou a sova sem  falar um  isto.
Jiguê  não  desconfiou  de  nada  e  com eçou  trançando  corda  com   fibra  de
curauá.  Não  vê  que  encontrara  rasto  fresco  de  anta  e  queria  pegar  o  bicho  na
arm adilha. Macunaím a pediu um  pedaço de curauá pro m ano porém  Jiguê falou
que aquilo não era brinquedo de criança. Macunaím a principiou chorando outra
vez e a noite ficou bem  difícil de passar pra todos.
No outro dia Jiguê levantou cedo pra fazer arm adilha e enxergando o m enino
tristinho falou:
– Bom -dia, coraçãozinho dos outros.
Porém  Macunaím a fechou-se em  copas carrancudo.
– Não quer falar com igo, é?
– Estou de m al.
– Por causa?
Então  Macunaím a  pediu  fibra  de  curauá.  Jiguê  olhou  pra  ele  com   ódio  e
m andou  a  com panheira  arranj ar  fio  pro  m enino.  A  m oça  fez.  Macunaím a
agradeceu  e  foi  pedir  pro  pai-de-terreiro  que  trançasse  um a  corda  pra  ele  e
assoprasse bem  nela fum aça de petum .
Quando tudo estava pronto Macunaím a pediu pra m ãe que deixasse o cachiri
ferm entando  e  levasse  ele  no  m ato  passear.  A  velha  não  podia  por  causa  do
trabalho m as a com panheira de Jiguê m ui sonsa falou pra sogra que “estava às
ordens”. E foi no m ato com  o piá nas costas.
Quando  o  botou  nos  carurus  e  sororocas  da  serrapilheira,  o  pequeno  foi
crescendo  foi  crescendo  e  virou  príncipe  lindo.  Falou  pra  Sofará  esperar  um
bocadinho  que  j á  voltava  pra  brincarem   e  foi  no  bebedouro  da  anta  arm ar  um
laço.  Nem   bem   voltaram   do  passeio,  tardinha,  Jiguê  j á  chegava  tam bém   de

prender a arm adilha no rasto da anta. A com panheira não trabalhara nada. Jiguê
ficou fulo e antes de catar os carrapatos bateu nela m uito. Mas Sofará agüentou a
coça com  paciência.
No  outro  dia  a  arraiada  inda  estava  acabando  de  trepar  nas  árvores,
Macunaím a acordou todos, fazendo um  bué m edonho, que fossem ! que fossem
no bebedouro buscar a bicha que ele caçara!... Porém  ninguém  não acreditou e
todos principiaram  o trabalho do dia.
Macunaím a  ficou  m uito  contrariado  e  pediu  pra  Sofará  que  desse  um a
chegadinha no bebedouro só pra ver. A m oça fez e voltou falando pra todos que
de-fato estava no laço um a anta m uito grande j á m orta. Toda a tribo foi buscar a
bicha, m atutando na inteligência do curum im . Quando Jiguê chegou com  a corda
de  curauá  vazia,  encontrou  todos  tratando  da  caça.  Aj udou.  E  quando  foi  pra
repartir  não  deu  nem   um   pedaço  de  carne  pra  Macunaím a,  só  tripas.  O  herói
j urou vingança.
No outro dia pediu pra Sofará que levasse ele passear e ficaram  no m ato até a
boca-da-noite. Nem  bem  o m enino tocou no folhiço e virou num  príncipe fogoso.
Brincaram .  Depois  de  brincarem   três  feitas,  correram   m ato  fora  fazendo
festinhas um  pro outro. Depois das festinhas de cotucar, fizeram  a das cócegas,
depois  se  enterraram   na  areia,  depois  se  queim aram   com   fogo  de  palha,  isso
foram  m uitas festinhas. Macunaím a pegou num  tronco de copaíba e se escondeu
por  detrás  da  piranheira.  Quando  Sofará  veio  correndo,  ele  deu  com   o  pau  na
cabeça  dela.  Fez  um a  brecha  que  a  m oça  caiu  torcendo  de  riso  aos  pés  dele.
Puxou-o  por  um a  perna.  Macunaím a  gem ia  de  gosto  se  agarrando  no  tronco
gigante.  Então  a  m oça  abocanhou  o  dedão  do  pé  dele  e  engoliu.  Macunaím a
chorando de alegria tatuou o corpo dela com  o sangue do pé. Depois retesou os
m úsculos,  se  erguendo  num   trapézio  de  cipó  e  aos  pulos  atingiu  num   átim o  o
galho  m ais  alto  da  piranheira.  Sofará  trepava  atrás.  O  ram o  fininho  vergou
oscilando com  o peso do príncipe. Quando a m oça chegou tam bém  no tope eles
brincaram  outra vez balanceando no céu. Depois de brincarem  Macunaím a quis
fazer  um a  festa  em   Sofará.  Dobrou  o  corpo  todo  na  violência  dum   puxão  m as
não  pôde  continuar,  galho  quebrou  e  am bos  despencaram   aos  em boléus  até  se
esborracharem  no chão. Quando o herói voltou da sapituca procurou a m oça em
redor,  não  estava.  Ia  se  erguendo  pra  buscá-la  porém   do  galho  baixo  em   riba
dele furou o silêncio o m iado tem ível da suçuarana. O herói se estatelou de m edo
e  fechou  os  olhos  pra  ser  com ido  sem   ver.  Então  se  escutou  um   risinho  e
Macunaím a  tom ou  com   um a  gusparada  no  peito,  era  a  m oça.  Macunaím a
principiou  atirando  pedras  nela  e  quando  feria,  Sofará  gritava  de  excitação

tatuando o corpo dele em baixo com  o sangue espirrado. Afinal um a pedra lascou
o canto da boca da m oça e m oeu três dentes. Ela pulou do galho e j uque! tom bou
sentada na barriga do herói que a envolveu com  o corpo todo, uivando de prazer.
E brincaram  m ais outra vez.
Já a estrela Papaceia brilhava no céu quando a m oça voltou parecendo m uito
fatigada  de  tanto  carregar  piá  nas  costas.  Porém   Jiguê  desconfiando  seguira  os
dois no m ato, enxergara a transform ação e o resto. Jiguê era m uito bobo. Teve
raiva.  Pegou  num   rabo-de-tatu  e  chegou-o  com   vontade  na  bunda  do  herói.  O
berreiro  foi  tão  im enso  que  encurtou  o  tam anhão  da  noite  e  m uitos  pássaros
caíram  de susto no chão e se transform aram  em  pedra.
Quando  Jiguê  não  pôde  m ais  surrar,  Macunaím a  correu  até  a  capoeira,
m astigou raiz de cardeiro e voltou são. Jiguê levou Sofará pro pai dela e dorm iu
folgado na rede.

2 Maioridade

 MAIORIDADE 

  Jiguê  era  muito  bobo  e  no  outro  dia  apareceu  puxando  pela  m ão  um a
cunhã.  Era  a  com panheira  nova  dele  e  cham ava  Iriqui.  Ela  trazia  sem pre  um
ratão vivo escondido na m açaroca dos cabelos e faceirava m uito. Pintava a cara
com  araraúba e j enipapo e todas as m anhãs passava coquinho de açaí nos beiços
que ficavam  totalm ente roxos. Depois esfregava lim ão-de-caiena por cim a e os
beiços  viravam   totalm ente  encarnados.  Então  Iriqui  se  envolvia  num   m anto  de
algodão listrado com  preto de acariúba e verde de tataj uba e arom ava os cabelos
com  essência de um iri, era linda.
Ora  depois  de  todos  com erem   a  anta  de  Macunaím a  a  fom e  bateu  no
m ocam bo.  Caça,  ninguém   não  pegava  caça  m ais,  nem   algum   tatu-galinha
aparecia!  e  por  causa  de  Maanape  ter  m atado  um   boto  pra  com erem ,  o  sapo
cunauaru cham ado Maraguigana pai do boto ficou enfezado. Mandou a enchente
e o m ilharal apodreceu. Com eram  tudo, até a crueira dura se acabou e o fogaréu
de noite e dia não m oqueava nada não, era só pra rem ediar a friagem  que caiu.
Não havia pra gente assar nele nem  um a isca de j abá.
Então Macunaím a quis se divertir um  pouco. Falou pros m anos que inda tinha
m uita piaba m uito j ej u m uito m atrinxão e j atuaranas, todos esses peixes do rio,
fossem  bater tim bó! Maanape disse:
– Não se encontra m ais tim bó.
Macunaím a disfarçando secundou:
– Junto daquela grota onde tem  dinheiro enterrado enxerguei um  despotism o
de tim bó.
– Então venha com  a gente pra m ostrar onde que é.
Foram . A m argem  estava traiçoeira e nem  se achava bem  o que era terra o
que  era  rio  entre  as  m am oranas  copadas.  Maanape  e  Jiguê  procuravam
procuravam   enlam eados  até  os  dentes,  degringolando  j uque!  nos  barreiros
ocultos pela inundação. E pulapulavam  se livrando dos buracos, aos berros, com
as  m ãos  pra  trás  por  causa  dos  candirus  safadinhos  querendo  entrar  por  eles.
Macunaím a  ria  por  dentro  vendo  as  m icagens  dos  m anos  cam peando  tim bó.
Fingia  cam pear  tam bém   m as  não  dava  passo  não,  bem   enxutinho  no  firm e.
Quando os m anos passavam  perto dele, se agachava e gem ia de fadiga.
– Deixe de trabucar assim , piá!
Então Macunaím a sentou num a barranca do rio e batendo com  os pés n’água
espantou os m osquitos. E eram  m uitos m osquitos piuns m aruins arurus tatuquiras
m uriçocas m eruanhas m arigüis borrachudos varej as, toda essa m osquitada.
Quando  foi  de-tardezinha  os  m anos  vieram   buscar  Macunaím a  tiriricas  por
não terem  topado com  nenhum  pé de tim bó. O herói teve m edo e disfarçou:

– Acharam ?
– Que acham os nada!
–  Pois  foi  aqui  m esm o  que  enxerguei  tim bó.  Tim bó  j á  foi  gente  um   dia  que
nem  nós... Presenciou que andavam  cam peando ele e soverteu. Tim bó foi gente
um  dia que nem  nós...
Os  m anos  se  adm iraram   da  inteligência  do  m enino  e  voltaram   os  três  pra
m aloca.
Macunaím a estava m uito contrariado por causa  da  fom e.  No  outro  dia  falou
pra velha:
– Mãe, quem  que leva nossa casa pra outra banda do rio lá no teso, quem  que
leva? Fecha os olhos um  bocadinho, velha, e pergunta assim .
A  velha  fez.  Macunaím a  pediu  para  ela  ficar  m ais  tem po  com   os  olhos
fechados  e  carregou  tej upar  m arom bas  flechas  picuás  sapicuás  corotes
urupem as redes, todos esses trens pra um  aberto do m ato lá no teso do outro lado
do  rio.  Quando  a  velha  abriu  os  olhos  estava  tudo  lá  e  tinha  caça  peixes,
bananeiras dando, tinha com ida por dem ais. Então foi cortar banana.
–  Inda  que  m al  lhe  pergunte,  m ãe,  por  que  a  senhora  arranca  tanta  pacova
assim !
– Levar pra vosso m ano Jiguê com  a linda Iriqui e pra vosso m ano Maanape
que estão padecendo fom e.
Macunaím a ficou m uito contrariado. Maginou m aginou e disse pra velha:
–  Mãe,  quem   que  leva  nossa  casa  pra  outra  banda  do  rio  no  banhado,  quem
que leva? Pergunta assim !
A  velha  fez.  Macunaím a  pediu  pra  ela  ficar  com   os  olhos  fechados  e  levou
todos  os  carregos,  tudo,  pro  lugar  em   que  estavam   de  j á-hoj e  no  m ondongo
inundado.  Quando  a  velha  abriu  os  olhos  tudo  estava  no  lugar  de  dantes,
vizinhando  com   os  tej upares  de  m ano  Maanape  e  de  m ano  Jiguê  com   a  linda
Iriqui. E todos ficaram  roncando de fom e outra vez.
Então a velha teve um a raiva m alvada. Carregou o herói na cintura e partiu.
Atravessou  o  m ato  e  chegou  no  capoeirão  cham ado  Cafundó  do  Judas.  Andou
légua e m eia nele, nem  se enxergava m ato m ais, era um  coberto plano apenas
m ovim entado  com   o  pulinho  dos  caj ueiros.  Nem   guaxe  anim ava  a  solidão.  A
velha botou o curum im  no cam po onde ele podia crescer m ais não e falou:
– Agora vossa m ãe vai em bora. Tu ficas perdido no coberto e podes crescer
m ais não.
E desapareceu. Macunaím a assuntou o deserto e sentiu que ia chorar. Mas não
tinha  ninguém   por  ali,  não  chorou  não.  Criou  coragem   e  botou  pé  na  estrada,

trem elicando  com   as  perninhas  de  arco.  Vagam undou  de  déu  em   déu  sem ana,
até  que  topou  com   o  Currupira  m oqueando  carne,  acom panhado  do  cachorro
dele Papam el. E o Currupira vive no grelo do tucunzeiro e pede fum o pra gente.
Macunaím a falou:
– Meu avô, dá caça pra m im  com er?
– Sim , Currupira fez.
Cortou carne da perna m oqueou e deu pro m enino, perguntando:
– O que você está fazendo na capoeira, rapaiz!
– Passeando.
– Não diga!
– Pois é, passeando...
Então contou o castigo da m ãe por causa dele ter sido m alévolo pros m anos. E
contando  o  transporte  da  casa  de  novo  pra  deixa  onde  não  tinha  caça  deu  um a
grande gargalhada. O Currupira olhou pra ele e resm ungou:
– Tu não é m ais curum i, rapaiz, tu não é m ais curum i não... Gente grande que
faiz isso...
Macunaím a  agradeceu  e  pediu  pro  Currupira  ensinar  o  cam inho  pro
m ocam bo  dos  Tapanhum as.  O  Currupira  estava  querendo  m as  era  com er  o
herói, ensinou falso:
– Tu vai por aqui, m enino-hom e, vai por aqui, passa pela frente daquele pau,
quebra a m ão esquerda, vira e volta por debaixo dos m eus uaiariquinizês.
Macunaím a  foi  fazer  a  volta  porém   chegado  na  frente  do  pau,  coçou  a
perninha e m urm urou:
– Ai! que preguiça!...
e seguiu direito.
O  Currupira  esperou  bastante  porém   curum im   não  chegava...  Pois  então  o
m onstro am ontou no viado, que é o cavalo dele, fincou o pé redondo na virilha do
corredor e lá se foi gritando:
– Carne de m inha perna! carne de m inha perna!
Lá de dentro da barriga do herói a carne respondeu:
– Que foi?
Macunaím a apertou o passo e entrou correndo na caatinga porém  o Currupira
corria m ais que ele e o m enino isso vinha que vinha acochado pelo outro.
– Carne de m inha perna! carne de m inha perna!
A carne secundava:
– Que foi?
O  piá  estava  desesperado.  Era  dia  do  casam ento  da  raposa  e  a  velha  Vei,  a

Sol,  relam peava  nas  gotinhas  da  chuva  debulhando  luz  feito  m ilho.  Macunaím a
chegou perto dum a poça, bebeu água de lam a e vom itou a carne.
–  Carne  de  m inha  perna!  carne  de  m inha  perna!  que  o  Currupira  vinha
gritando.
– Que foi? secundou a carne j á na poça.
Macunaím a ganhou os bredos pro outro lado e escapou.
Légua e m eia adiante por detrás dum  form igueiro escutou um a voz cantando
assim :
“Acuti pitá canhém ...” lentam ente.
Foi lá e topou com  a cotia farinhando m andioca num  tipiti de j acitara.
– Minha vó, dá aipim  pra m im  com er?
– Sim , cotia fez. Deu aipim  pro m enino, perguntando:
– Que que você está fazendo na caatinga, m eu neto?
– Passeando.
– Ah o quê!
– Passeando, então!
Contou  com o  enganara  o  Currupira  e  deu  um a  grande  gargalhada.  A  cotia
olhou pra ele e resm ungou:
– Culum i faz isso não, m eu neto, culum i faz isso não... Vou te igualar o corpo
com  o bestunto.
Então  pegou  na  gam ela  cheia  de  caldo  envenenado  de  aipim   e  j ogou  a
lavagem   no  piá.  Macunaím a  fastou  sarapantado  m as  só  conseguiu  livrar  a
cabeça, todo o resto do corpo se m olhou. O herói deu um  espirro e botou corpo.
Foi  desem penando  crescendo  fortificando  e  ficou  do  tam anho  dum   hom em
taludo. Porém  a cabeça não m olhada ficou pra sem pre rom buda e com  carinha
enj oativa de piá.
Macunaím a  agradeceu  o  feito  e  frechou  cantando  pro  m ocam bo  nativo.  A
noite  vinha  besourenta  enfiando  as  form igas  na  terra  e  tirando  os  m osquitos
d’água. Fazia um  calor de ninho no ar. A velha tapanhum as escutou a voz do filho
no longe cinzado e se espantou. Macunaím a apareceu de cara am arrada e falou
pra ela:
– Mãe, sonhei que caiu m eu dente.
– Isso é m orte de parente, com entou a velha.
– Bem  que sei. A senhora vive m ais um a Sol só. Isso m esm o porque m e pariu.
No  outro  dia  os  m anos  foram   pescar  e  caçar,  a  velha  foi  no  roçado  e
Macunaím a  ficou  só  com   a  com panheira  de  Jiguê.  Então  ele  virou  na  form iga
quenquém  e m ordeu Iriqui pra fazer festa nela. Mas a m oça atirou a quenquém

longe. Então Macunaím a virou num  pé de urucum . A linda Iriqui riu, colheu as
sem entes se faceirou toda pintando a cara e os distintivos. Ficou lindíssim a. Então
Macunaím a, de gostoso, virou gente outra feita e m orou com  a com panheira de
Jiguê.
Quando  os  m anos  voltaram   da  caça  Jiguê  percebeu  a  troca  logo,  porém
Maanape  falou  pra  ele  que  agora  Macunaím a  estava  hom em   pra  sem pre  e
troncudo.  Maanape  era  feiticeiro.  Jiguê  viu  que  a  m aloca  estava  cheia  de
alim entos,  tinha  pacova  tinha  m ilho  tinha  m acaxeira,  tinha  aluá  e  cachiri,  tinha
m aparás e cam orins pescados, m aracuj á-m ichira ata abio sapota sapotilha, tinha
paçoca  de  viado  e  carne  fresca  de  cutiara,  todos  esses  com es  e  bebes  bons...
Jiguê conferiu que não pagava a pena brigar com  o m ano e deixou a linda Iriqui
pra ele. Deu um  suspiro catou os carrapatos e dorm iu folgado na rede.
No  outro  dia  Macunaím a  depois  de  brincar  cedinho  com   a  linda  Iriqui,  saiu
pra  dar  um a  voltinha.  Atravessou  o  reino  encantado  da  Pedra  Bonita  em
Pernam buco e quando estava chegando na cidade de Santarém  topou com  um a
viada parida.
– Essa eu caço! ele fez. E perseguiu a viada. Esta escapuliu fácil m as o herói
pôde  pegar  o  filhinho  dela  que  nem   não  andava  quase,  se  escondeu  por  detrás
dum a  carapanaúba  e  cotucando  o  viadinho  fez  ele  berrar.  A  viada  ficou  feito
louca,  esbugalhou  os  olhos  parou  turtuveou  e  veio  vindo  veio  vindo  parou  ali
m esm o  defronte  chorando  de  am or.  Então  o  herói  flechou  a  viada  parida.  Ela
caiu esperneou um  bocado e ficou rij a estirada no chão. O herói cantou vitória.
Chegou perto da viada olhou que m ais olhou e deu um  grito, desm aiando. Tinha
sido  um a  peça  do  Anhanga...  Não  era  viada  não,  era  m as  a  própria  m ãe
tapanhum as que Macunaím a flechara e estava m orta ali, toda arranhada com  os
espinhos das titaras e m andacarus do m ato.
Quando  o  herói  voltou  da  sapituca  foi  cham ar  os  m anos  e  os  três  chorando
m uito passaram  a noite de guarda bebendo oloniti e com endo carim ã com  peixe.
Madrugadinha  pousaram   o  corpo  da  velha  num a  rede  e  foram   enterrá-la  por
debaixo dum a pedra no lugar cham ado Pai da Tocandeira. Maanape, que era um
catim bozeiro de m arca m aior, foi que gravou o epitáfio. E era assim :

Jej uaram  o tem po que o preceito m andava e Macunaím a gastou o j ej um  se
lam entando  heroicam ente.  A  barriga  da  m orta  foi  inchando  foi  inchando  e  no
fim  das chuvas tinha virado num  cerro m acio. Então Macunaím a deu a m ão pra
Iriqui, Iriqui deu a m ão pra Maanape, Maanape deu a m ão pra Jiguê e os quatro
partiram  por esse m undo.

Ci, Mãe do Mato

 CI, MÃE DO MATO 

  

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