Como o ensino superior passa a fazer parte do campo de possibilidades de jovens moradores da periferia



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CONSTRUÇÕES DE TRAJETÓRIAS:

 COMO O ENSINO SUPERIOR PASSA A FAZER 

PARTE DO CAMPO DE POSSIBILIDADES DE 

JOVENS MORADORES DA PERIFERIA 

Edil de Souza Gonçalves 

1

Resumo 



A pesquisa, que dá origem a este trabalho, tem dimensão descritiva e analítica 

sobre os diferentes aspectos – de ordem familiar, de trajetória escolar, de 

sociabilidade e de culturas juvenis, mercado de trabalho, mídia, dentre outros, que 

convergem para a decisão de jovens, que frequentam o ensino médio, em cursar 

o ensino superior. A pesquisa, de caráter qualitativo, compreende duas partes: 

levantamento de dados documentais de políticas públicas de acesso e ampliação 

das vagas no ensino superior e pesquisa de campo, através de observação 

participante e entrevistas estruturadas, reunindo, portanto, dados de diferentes 

naturezas. Neste artigo, serão apresentados resultados preliminares da análise 

realizada sobre a pesquisa de campo com estudantes de duas escolas de ensino 

médio e duas instituições de ensino superior privadas na cidade de Petrópolis. O 

resultado das investigações aponta para a presença no imaginário desses jovens, 

moradores da periferia, de uma distinção social que o acesso ao ensino superior 

supostamente poderia conferir. No entanto, contrapõem a excepcionalidade 

meritocrática que caracteriza a narrativa conservadora e o advento de uma nova 

narrativa. Nela o ensino superior se alterna entre direito e sonho de consumo.

Palavras-chave: distinção, imaginário social, trajetória, políticas públicas.

TRAJECTORY BUILDINGS:

  HOW HIGHER EDUCATION PASSES TO BE PART OF THE FIELD   OF 

POSSIBILITIES OF YOUNG DWELLERS OF THE PERIPHERY

Abstract


The research, which gives rise to this work, has a descriptive and analytical 

dimension on the different aspects - of family order, school trajectory, sociability 

and youth cultures, labor market, media, among others, that converge to the 

decision of Young people, who attend high school, to attend higher education. The 

qualitative research consists of two parts: the collection of documentary data 

Mestrando em Educação, na área de Ciências Sociais pela UNICAMP. Graduação em Pedagogia pela 



UERJ.

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on public access policies and the expansion of vacancies in higher education and 

field research, through participant observation and structured interviews, thus 

gathering data of different natures. In this article, we will present preliminary 

results of the analysis performed on field research with students from two high 

schools in the city of Petrópolis. The result of the investigations points to the 

presence in the imaginary of these young people, inhabitants of the periphery, 

of a social distinction that the access to the superior education supposedly could 

impart. However, they counter the meritocratic exceptionality that characterizes 

the conservative narrative and the advent of a new narrative. In it, higher 

education sometimes presents itself as a right, sometimes as a product that can 

be acquired in the market.

Key words: distinction, social imaginary, trajectory, public policies.



1. Introdução

O  presente  trabalho  traz  uma  reflexão  sobre  a  pesquisa  de  mestrado  em 

Ciências Sociais e Educação pela UNICAMP, que se encontra em andamento. A 

investigação foi iniciada durante o curso de especialização em Sociologia Urbana 

e tem como base as noções de pertencimento da população da periferia de 

Petrópolis com a própria cidade. Tomando como ponto de partida o interesse 

em relação às políticas de acesso ao ensino superior por parte dessa população, 

o trabalho busca compreender quais elementos presentes no imaginário social 

que propiciam a construção de suas trajetórias de formação. As duas linhas 

teóricas principais, adotadas para análise do processo de pesquisa, dialogam 

com a ideia de construção de imaginário social de Gilbert Durand e de campo de 

possibilidades de Gilberto Velho. 

Com um caráter qualitativo, a pesquisa está compreendida em duas partes. 

A primeira parte trata-se do levantamento de dados documentais de políticas 

públicas de acesso e ampliação das vagas no ensino superior, tendo seu enfoque 

na expansão deste nível de ensino na região de Petrópolis, comparativamente com 

o Brasil, desde o ano 2000. Esta análise traz consigo uma gama de informações 

pertinentes à oferta direcionada para atender ao público de baixa renda. No 

entanto, as análises iniciais permitem questionar o simples fato do aumento 

no número de vagas,  como suficiente para justificar  esse interesse, ao mesmo 

tempo em que as políticas públicas ganham contornos de fomento à expansão de 

IES privadas.

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A segunda parte traz a própria pesquisa de campo, através de questionários 

e entrevistas direcionados à vinte jovens entre 18 e 24 anos, estudantes de 

duas escolas públicas de ensino médio, e de duas instituições de ensino superior 

em Petrópolis, com o objetivo de compreender a forma como esses jovens 

desenvolvem sua trajetória acadêmica. Para fins deste artigo, estarão presentes 

considerações sobre o trabalho de campo, que estão divididas em duas seções. 

Na primeira seção, para que haja melhor compreensão do tema da construção de 

projetos de vida, torna-se fundamental situar as categorias de trajetória e campo 

de possibilidades, de acordo com Gilberto Velho (2003) e de Imaginário social, 

de Gilbert Durand (2002). A segunda seção, apresenta um breve histórico da 

cidade para contextualização do local e o resultado preliminar das percepções do 

imaginário deste público: quais perspectivas estão presentes nessa população, o 

que os impulsiona a buscar esse nível de formação que antes não fazia parte de 

seu horizonte.



2. Construção do campo de possibilidades e influência do imaginário social

Os projetos individuais sempre interagem com outros dentro de um campo 

de possibilidades. Não operam num vácuo, mas sim a partir de premissas e 

paradigmas  culturais  compartilhados  por  universos  específicos.  Por  isso 

mesmo são complexos e os indivíduos, em princípio, podem ser portadores 

de projetos diferentes, até contraditórios (Velho, 2003, p. 46).

Gilberto Velho, através de sua obra “Projeto e metamorfose: antropologia das 

sociedades  complexas”  (2003),  procura  estabelecer  uma  definição  que  traga 

luz sobre os termos “campo de possibilidades” e “projeto”. Esta ação acaba por 

distingui-los e ao mesmo tempo propor uma forma de trabalhar as noções de 

unidade e fragmentação (VELHO, 2003, pág. 28). Na busca de elucidar quais são 

as razões que cercam esses dois fenômenos presentes na sociedade e que podem 

contribuir para a investigação empreendida neste artigo, os apontamentos do 

autor norteiam questões que envolvem categorias humanas como opções e 

alternativas.

O projeto está presente na vida do indivíduo de duas formas, segundo Velho 

(2003). De maneira pessoal e de maneira coletiva. Ambos operam dentro de 

situações que envolvem opções, sem que necessite de anulação entre si, ou seja, 

mesmo que o indivíduo interaja com o grupo em ações especificamente coletivas, 

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ele fará escolhas pessoais, que trarão, invariavelmente, consequências tanto 

para si quanto para os demais. A construção desses projetos, portanto, depende 

de um repertório, como o próprio autor classifica (VELHO, 2003, pág. 27-28), 

finito, mas repleto de variáveis e combinações. Contudo, mesmo que os projetos 

coletivos apontem para objetivos considerados comuns a todos os envolvidos, 

não há necessariamente uma unidade entre os indivíduos, pois os elementos que 

envolvem as opções diferem de um para o outro. Mesmo em pequenos grupos, 

a interpretação individual terá um grande impacto nas decisões, vindo, inclusive 

a fazer com que os projetos se modifiquem. À essa possibilidade, Gilberto Velho 

dá o nome de “potencial de metamorfose”. Pois os indivíduos podem alterar 

suas trajetórias, de acordo com sua possibilidade de negociação da realidade. O 

domínio desta performance será preponderante para que o projeto se defina de 

acordo com os objetivos, dependendo, também do campo de possibilidades de 

cada um.


      A outra categoria citada, está intimamente ligada ao campo das possibilidades. 

As alternativas que cada indivíduo possui para fazer suas opções não depende 

apenas de um conjunto de fatores da sociedade, mas da maneira como estes 

fatores afetam a vida dos indivíduos e as significações que derivam dos mesmos. 

Ou seja, se por um lado os projetos de vida estão baseados nas decisões coletivas 

e pessoais, com seus agentes sociais diferindo sobre as opções e estabelecendo 

interações diversas entre si, por outro, essas escolhas são definidas pelo campo 

de possibilidades que são permitidas a determinados grupos ou indivíduos. Para 

VELHO (2003), “o potencial interpretativo do mundo simbólico da cultura e o 

processo sócio histórico” definem a gama de possibilidades presentes no campo, 

fazendo com que a dinâmica que envolve o que os sujeitos desejam e o que eles 

podem alcançar esteja diretamente ligada à forma como concebe o mundo e 

como interage com as demais influências. 

As duas definições apresentadas pelo autor não limitam a capacidade humana 

à mera reprodução das condições estabelecidas, nem tampouco encerram um 

determinismo nas relações locais ou parentais, mas apontam para um processo 

de interação entre os indivíduos, nos ajudando a compreender que as sociedades 

não são estáticas ou monolíticas. A ação dos sujeitos, de acordo com seu exercício 

de  conceber  significados  diversos  aos  elementos  que  compõem  a  própria 

sociedade, faz com que tanto os projetos de vida, de certa forma limitados pelas 

alternativas encontradas no campo de possibilidades, quanto o próprio campo 

de possibilidades, podem ser alterados. Isso demonstra que os conceitos que se 

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apresentam aos indivíduos podem não possuir um caráter engessado, na medida 

em que esses mesmos agentes dialogam com diferentes realidades. Com isso, 

são capazes de elaborar conceitos novos e reinterpretações de si e do coletivo, 

alterando inclusive a própria realidade.

Gilberto Velho estabelece também a “permanente reconstrução” dos indivíduos 

que os leva a uma convergência de múltiplas possibilidades que pode fazer com 

que  se  apropriem  de  diferentes  influências  e  dialoguem  com  as  realidades, 

como dito anteriormente, mas não se fragmentem em sua organização e sua 

concepção cultural. Esta concepção torna possível a defesa de uma construção 

de trajetórias individuais de maneira ativa, percebendo que os indivíduos não se 

constituem como seres meramente receptores dos conjuntos de signos culturais 

a que estão sujeitos, mas reinterpretam, ressignificam e negociam plenamente 

para alcançar seus objetivos.

Depois deste panorama, há um limite que envolve toda essa mediação de 

realidades. Se o campo de possibilidades – finitas - é o terreno pelo qual percorrem 

as trajetórias individuais e onde são forjados os projetos, há uma possibilidade 

bem nítida e real de que os sujeitos envolvidos nos processos de negociação com 

a realidade, apresentem entre si não apenas divergências, mas desigualdades. 

Isto é, em uma sociedade em que determinados bens culturais são estabelecidos 

como condição necessária para a distinção, terão mais sucesso aqueles que tem 

mais  acesso  à  essas  produções.  Mesmo  que  não  se  confirme  a  existência  de 

dominantes e dominados, mas de indivíduos com diferentes níveis de influência 

social (ELIAS, 1994), haverá maior ou menor dificuldade de inserção nos espaços 

onde esta cultura é celebrada.

Outra categoria que torna a análise importante é a de “imaginário social”, 

segundo Gilbert Durand (2002), que pode ser decisiva na tomada de decisões. 

Sua análise permite estabelecer como hipótese a emergência de uma relação 

entre o que está sendo ofertado com aquilo que o público-alvo parece demandar, 

alimentando e sendo alimentado pela própria percepção daquilo que se projeta 

como real e o que está no campo do abstrato.

Finalmente o imaginário não é outra coisa que este trajeto no qual a 

representação do objeto se deixa assimilar e modelar pelos imperativos 

pulsionais do sujeito, e no qual reciprocamente, como magistralmente Piaget 

mostrou, as representações subjetivas explicam-se ‘pelas acomodações 

anteriores do sujeito’ ao meio objetivo (DURAND, 2002, p. 38). 

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Com isso, os indivíduos passam a criar através das imagens, formas de conceber 

a realidade que os aproximam de seus objetivos, a partir de uma situação real, 

que é pré-concebida e que ao mesmo tempo torna-se um terceiro elemento, 

derivado, mas diferente daquele que o originou. Ou seja, os estímulos sensoriais 

externos oferecem aos sujeitos elementos que os fazem desenvolver formas 

de narrativas próprias sobre as impressões que tem, atribuindo para si desejos 

que se assemelham àqueles que outros grupos, considerados distintos possuem, 

mas  que  são  ressignificados  através  da  interpretação  da  realidade,  junto  com 

seus signos culturais. Este imaginário, ao ser retroalimentado pelas imagens 

midiáticas, por exemplo, ou propagandas direcionadas, podem criar um campo 

de atuação que se associa facilmente com a lógica da necessidade obrigatória 

de prosseguimento dos estudos. Ou seja, se por um lado as IES oferecem aquilo 

que  traria  o  público  para  dentro  de  suas  dependências,  seria  correto  afirmar 

que as demandas dos discentes deveriam nortear essa oferta. No entanto, o 

que a pesquisa tem a intenção de expor são os limites dessa orientação, que 

está  baseada  apenas  na  compreensão  lógica  do  mercado  financeiro,  da  oferta 

e  da  procura,  buscando  verificar  quais  são  as  outras  questões  envolvidas  no 

processo. Por outro lado, é possível relativizar a própria atração que é exercida 

sobre o público, como se este fosse um ser passivo e que estivesse à mercê de 

uma força irresistível, sem poder de escolha (ELIAS, 1994). Trata-se, portanto de 

um estudo envolvendo fatores que podem lançar luz sobre as razões pelas quais 

são estabelecidas as relações entre o público atendido pelas IES e sua lógica de 

funcionamento. 

3. A distinção através da segregação e reflexões sobre o trabalho de campo

O município de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, apresenta 

em sua história um desenvolvimento econômico ligado a indústria têxtil e ao 

comércio. Embora a fama conferida pelo período em que a família real frequentava 

a cidade, resultando em um imaginário de glamour e distinção em relação aos 

demais locais da região, a ação operária dos trabalhadores locais estabeleceu 

as verdadeiras bases para o crescimento da economia local (RIBEIRO, 2014). 

Apenas em 1981, 138 anos após sua elevação à categoria de cidade, Petrópolis 

recebeu o título de cidade imperial, através de um decreto presidencial. Este ato 

emblemático  evidencia a busca de uma reafirmação  da tradição que se deseja 

resgatar. O passado, marcado pela herança colonial predominantemente alemã 

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e pelo trabalho fabril são relegados a segundo plano. A primeira é celebrada 

apenas de forma concentrada anualmente, durante a Bauernfest, a festa do 

colono  alemão.  Já  a  segunda,  está  refletida  no  comércio  têxtil  local,  que  atrai 

consumidores de diversos pontos do estado e país. No entanto, todos os dois 

exemplos dessa herança histórica são ofuscados pela propaganda realizada em 

torno do título “nobre”. Com o declínio da indústria têxtil nas últimas décadas, 

acentuou-se essa publicidade, constituindo, portanto, uma alternativa para a 

economia, conferindo um status que o lugar tenta aproveitar até hoje.

O processo investigativo permite inferir que essa busca pela distinção trouxe 

vantagens para a cidade, mesmo que para isso, os remanescentes da família real 

portuguesa mantenham seu status social através das negociações fundiárias

2



como o desenvolvimento do turismo, por exemplo. Porém, como toda criação de 

ritos que remontam a busca por um “passado histórico apropriado” (HOBSBAWM, 

1984, p.10), existem elementos que consequentemente são deixados de lado. 

E um desses elementos é a segregação que acaba sendo inerente ao processo 

de distinção entre os diferentes agentes que constituem essa sociedade. Tal 

diferenciação é facilmente constatada pelo processo de ocupação desordenada 

principalmente nas encostas dos morros. Os moradores dessas áreas, que em sua 

maioria se autodeclaram afrodescendentes, apresentam histórias de vida com 

profundas dificuldades em relação à apropriação de seus direitos mais básicos, 

como acesso à educação de qualidade, por exemplo. Essa constatação pode levar 

a compreensão de uma ausência no protagonismo social. No entanto, a pesquisa 

apontou alguns indícios que permitem estabelecer que a forma com que a cidade 

se organiza, através dessa visão segregada em que os direitos e privilégios se 

confundem para uma parcela da sociedade local, pode exercer certa influência 

sobre os projetos de vida, principalmente dos mais jovens que estão à margem 

do padrão estabelecido. É preciso compreender dois pontos principais. Em que 

medida essa noção de “nobreza” está contida no imaginário desses jovens, na 

construção de suas trajetórias pessoais. E quais são as novas representações 

dessa pretensa distinção.   

Dentre os elementos presentes nas narrativas e que podem ser corroborados 

através da análise de dados, anteriormente citada, são as mudanças que a 

sociedade brasileira sofreu nas últimas duas décadas, quanto à democratização 

 Existe a cobrança de uma taxa pela transmissão de imóveis na cidade, o laudêmio, cujo valor é uma alíquota de 



2,5% sobre o valor negociado. A avaliação do imóvel é realizada por um representante da Companhia Imobiliária 

do Príncipe, cujo valor não corresponde ao valor venal atribuído pela Prefeitura. 

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dos direitos, estendendo seu leque de oportunidades ao ingresso no Ensino 

Superior. Este nível de ensino, teve um grande crescimento no número de vagas 

ofertadas, seja pela expansão do número de IES, seja pela abertura de novos 

cursos, ou pelo aumento do número de vagas nos cursos existentes, através do 

desenvolvimento de modalidades como Ensino a Distância (EAD). Essa mudança 

no cenário educacional do país está associada à implementação de políticas que, 

em primeira análise, parecem estar ligadas ao fato de mais jovens chegarem ao 

fim do ensino médio, com isso, alcançando estudos superiores, como estabelece 

a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN, lei n° 9394/96), 

em seus artigos 4º (inciso V) e 35 que prevê o Ensino Médio como preparação 

para que o estudante dê prosseguimento dos estudos. Somando-se a este fator, 

existem outras causas como aumento do nível salarial nos últimos trinta anos, 

ascensão da classe média (NERI, 2010), estabilidade econômica, entre outros 

que são indispensáveis à compreensão do contexto social, mas que não terão 

aprofundamento neste momento. O conjunto dessas informações pode apontar 

um projeto educacional, baseado na democratização do acesso para mais 

pessoas que antes deste período não consideravam possível alcançar aquilo que 

está presente na lei de 1996.

Neste sentido, esses jovens parecem transitar entre uma sociedade que 

reforça essa separação de classes e o avanço nas políticas públicas em educação, 

estabelecendo para si trajetórias que os projetem para um futuro diferente de 

seus pais. Tecem projetos que os enquadram na perspectiva daqueles que são os 

primeiros de suas famílias a alcançarem o ensino superior.  

No caso específico da busca pela formação acadêmica, entre os entrevistados da 

pesquisa, quando indagados sobre o que os motivou para escolher determinada 

carreira,  em  primeiro  lugar  vem  a  influência  da  família,  depois  o  status  da 

profissão. No entanto, quando perguntados se estavam estudando o que queriam 

e o que sentiam em relação a isso, a maioria daqueles que responderam que não, 

apontaram para a necessidade empregabilidade e menor custo na formação, ou 

seja, os cursos de licenciatura – a maior parte deles na modalidade a distância 

– oferecem mensalidades e número de vagas atraentes para o grande público. 

Quando perguntados sobre aspectos que envolvem influências culturais, muitos 

tendem a hierarquizar as manifestações da cultura, relegando quase sempre à 

marginalidade aquelas que são oriundas das classes populares, muitas vezes de 

origem comuns às deles.

Dentre as histórias de trajetórias colhidas durante a pesquisa até o presente 

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momento, podem ser citados dois casos emblemáticos. O primeiro é o que 

aconteceu com um estudante do curso de direito, oriundo da rede pública 

estadual e de origem afrodescendente. O aluno conseguiu uma bolsa de estudos 

na instituição privada em que trabalhava como auxiliar de escritório e construiu 

para  si  um  projeto  que  incluía  seguir  na  profissão,  atuando  na  própria  cidade. 

Seguindo o discurso conservador da meritocracia, passou a acreditar que bastava 

aproveitar a oportunidade concedida em forma de benefício. No entanto, após 

dois anos de curso, passou a considerar a possibilidade de migrar para um curso 

mais  “adequado”  ao  seu  perfil.  A  mudança  fora  motivada  pelos  comentários 

depreciativos  de  colegas  de  faculdade,  professores  e  profissionais  da  área  do 

direito. As falas em geral o “aconselhavam” a rever seus conceitos, pois entre 

outras alegações, “não haviam negros advogados na cidade”.

O segundo caso diz respeito à aluna que construiu sua trajetória baseada 

no mercado de trabalho. Estudante de escola pública e com características 

semelhantes ao do aluno do primeiro exemplo, a jovem recém-saída do ensino 

médio, almejava uma carreira em uma área que garantisse estabilidade 

econômica, como administração ou direito. No entanto, esboçou o desejo de 

mudar de ideia em relação ao curso que gostaria de ingressar no ensino superior. 

Prestou inclusive o vestibular para Ciências Sociais em instituição na capital 

do Rio de Janeiro. Essa alteração, de acordo com a jovem, foi ocasionada pela 

presença marcante de uma professora de Sociologia que a incentivou no último 

ano do ensino médio. Sua responsável, porém, não permitiu que a estudante 

saísse da cidade e ela acabou optando pelo curso de História em IES na própria 

cidade.


Não se trata, portanto, da mera diferença e desigualdade social que os atores 

necessitam superar, mas o conjunto de normas e signos culturais que precisam 

ser apropriados caso queiram buscar a distinção através da articulação com 

outros grupos que poderiam ser considerados hegemônicos. No caso do 

estudante de direito, as limitações de seus pares de formação apontavam para 

uma manutenção da distinção através de um curso considerado elitizado. Já para 

a estudante que convergiu de uma área que supostamente seria mais rentável, 

os obstáculos estavam na dependência que ainda tinha com as redes de suporte 

familiar.   

          

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4. Considerações finais 

O resultado das investigações aponta para a presença no imaginário desses 

jovens, moradores da periferia, de uma distinção social que o acesso ao 

ensino superior supostamente poderia conferir. No entanto, contrapõem a 

excepcionalidade meritocrática que caracteriza a narrativa conservadora e o 

advento de uma nova narrativa. Nela o ensino superior ora se apresenta como 

um direito, ora como um produto passível de ser adquirido no mercado.

A forma como o diploma acadêmico é percebido pela população que tem sua 

origem nas classes populares fez com que algumas questões se conduzissem 

para pensar se a distinção surgia como um valor a ser buscado. Na tentativa de 

fazer parte de uma parcela da sociedade que possivelmente se distingue através 

do sucesso no campo educacional, os jovens entrevistados parecem almejar um 

curso superior como maneira possível de alcançar este sonho. Mesmo que estas 

verificações  estejam  presentes  em  outras  pesquisas  sobre  o  mesmo  público, 

este trabalho, no entanto, buscou ir além da mera constatação de um possível 

desejo de ascensão social, mas sim determinar quais são os conceitos que regem 

esta vontade, moldando o imaginário de tal forma que criam derivações capazes 

de materializar projetos de vida (VELHO, 2003). Os elementos presentes nas 

narrativas demonstram uma visão de mundo por parte dos entrevistados que 

não parecem estar dispostos a negociar a qualquer preço suas realidades, pois, 

uma vez que a política de acesso nos últimos vinte anos, mesmo em instituições 

privadas, parece ter dado condições desses indivíduos de planejar seu futuro 

apoiando-se nas possibilidades.

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