Começa a legenda da virgem Santa Clara. Antes de tudo, seu nascimento 1



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41 A divina providência já acelerava o cumprimento de seu plano para Clara: Cristo tinha pressa de sublimar no palácio do reino superno a pobre peregrina. Ela já desejava e suspirava de todo coração por livrar-se do corpo mortal (cfr. Rm 7,24) para ver reinando nas etéreas mansões o Cristo pobre que ela, pobrezinha, seguira na terra de todo coração. Juntou-se nova fraqueza a seus membros sagrados, gastos pela velha doença, indicando sua próxima chamada para o Senhor e preparando-lhe o caminho da salvação eterna. O senhor Inocêncio IV, de santa memória, foi logo visitar a serva de Cristo com os cardeais e não teve dúvida de honrar com a presença papal a morte daquela, cuja vida provara estar acima das mulheres de nosso tempo. Entrou no mosteiro, foi ao leito, chegou a mão à boca da doente para que a beijasse. Ela a tomou agradecida e pediu com maior reverência para beijar o pé do Apostólico. Cortês, o senhor subiu reverentemente a um banquinho de madeira para ajeitar o pé que ela, reverentemente inclinada, cobriu de beijos por cima e por baixo.

42 Depois, pediu com rosto angelical ao Sumo Pontífice a remissão de todos os pecados. Ele exclamou: “Oxalá precisasse eu de tão pouco perdão!” E lhe deu plena absolvição e a graça de uma ampla bênção. Quando todos saíram, como tinha recebido nesse dia a hóstia sagrada das mãos do ministro provincial, de olhos levantados para o céu e de mãos juntas para o Senhor, disse às Irmãs, entre lágrimas: “Filhinhas minhas, louvem o Senhor, porque hoje Cristo dignou-se fazer-me tão grande benefício que céu e terra não bastariam para pagar. Hoje, prosseguiu, recebi o Altíssimo e mereci ver o seu Vigário”.

Como respondeu a sua irmã que chorava

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 Rodeavam a cama da mãe aquelas filhas que bem depressa ficariam órfãs, com a alma atravessada por uma espada de dor (cfr. Lc 2,35). Não se deixavam levar pelo sono nem afastar pela fome: esquecidas da cama e da mesa, dia e noite só queriam chorar. Entre elas, a devota virgem Inês, saturada de lágrimas amargas, pedia sem parar à irmã que não se fosse, deixando-a sozinha. Clara disse: “Irmã querida, apraz a Deus que eu me vá. Mas pare de chorar, porque você vai chegar diante do Senhor logo depois de mim, e Ele lhe dará uma grande consolação antes de eu me separar de você”.

O trânsito final e tudo que aconteceu e se viu 

44 No fim pareceu se debater em agonia durante muitos dias, nos quais foi crescendo a fé das pessoas e a devoção do povo. Também foi honrada diariamente como verdadeira santa por visitas frequentes de cardeais e prelados. O admirável é que, não podendo tomar alimento algum durante dezessete dias, revigorava-a o Senhor com tanta fortaleza que ela confortava no serviço de Cristo todos que a visitavam.  Exortada pelo bondoso Frei Reinaldo a ser paciente no longo martírio de todas essas doenças, respondeu com voz mais solta: “Irmão querido, desde que conheci a graça de meu Senhor Jesus Cristo por meio do seu servo Francisco, nunca mais pena alguma me foi molesta, nenhuma penitência foi pesada, doença alguma foi dura”.

45 Mas quando o Senhor agiu mais de perto e já parecia às portas, quis ser assistida por sacerdotes e frades espirituais, para recitarem a paixão do Senhor e suas santas palavras. Aparecendo com eles Frei Junípero, egrégio menestrel do Senhor, que costumava soltar ditos ardentes de Deus, cheia de renovada alegria, ela perguntou se tinha algo novo sobre o Senhor. Ele abriu a boca, deixou sair centelhas ardentes da fornalha do fervoroso coração, e a virgem de Deus ficou muito consolada com suas parábolas.  Voltou-se enfim para as filhas em lágrimas, recomendando a pobreza do Senhor e lembrando em louvores os benefícios divinos. Abençoou seus devotos e devotas e implorou a graça de uma ampla bênção sobre todas as senhoras dos mosteiros de pobres, tanto presentes como futuras. Quem pode contar o resto sem chorar? Aí estão dois benditos companheiros de São Francisco: um, Ângelo, mesmo triste, consola os tristes; outro, Leão, beija a cama da moribunda. Choram as filhas desamparadas pela partida da piedosa mãe e seguem em lágrimas a que se vai e não verão mais na terra. Doem-se muito amargamente, porque, abandonadas no vale de lágrimas, já não serão mais consoladas por sua mestra. Só o pudor impede as mãos de dilacerar o corpo, e o fogo da dor torna mais ardente o que não pode evaporar-se com o pranto exterior. A observância claustral impõe silêncio, mas a violência da dor arranca gemidos e soluços. Os rostos estão inchados pelas lágrimas, mas o ímpeto do coração dolorido lhes dá mais água.



46 A virgem muito santa, voltando-se para si mesma, diz baixinho a sua alma: “Vá segura, que você tem uma boa escolta para o caminho. Vá, diz, porque aquele que a criou também a santificou; e, guardando-a sempre como uma mãe guarda o filho, amou-a com terno amor. E bendito sejais Vós, Senhor, que me criastes!”. Uma das Irmãs perguntou com quem estava falando, e ela respondeu: “Falo com a minha alma bendita”. Já não estava longe o seu glorioso séquito, pois, virando-se para uma das filhas, disse: “Você está vendo, minha filha, o Rei da glória que eu estou vendo?”. A mão do Senhor pousou também sobre outra que, entre lágrimas, teve esta feliz visão com os olhos do corpo. Transpassada pelo dardo da profunda dor, voltou o olhar para a porta do quarto e viu entrar uma porção de virgens vestidas de branco, todas com grinaldas de ouro na cabeça. Entre elas, caminhava uma mais preclara que as outras, de cuja coroa, que em seu remate tinha uma espécie de turíbulo com janelinhas, irradiava tanto esplendor que mudava a própria noite em dia luminoso dentro de casa. Ela foi até a cama em que estava a esposa de seu Filho e, inclinando-se com todo amor sobre ela, deu-lhe um terníssimo abraço. As virgens trouxeram um pálio de maravilhosa beleza e, estendendo-o todas à porfia, deixaram o corpo de Clara coberto e o tálamo adornado. 
No dia seguinte a São Lourenço, aquela alma muito santa foi receber o prêmio eterno: dissolveu-se o templo da carne, e o espírito foi feliz para o céu. Bendita saída do vale de miséria, que para ela foi entrada na vida bem-aventurada. Em vez do pouco que comia, já se alegra na mesa dos cidadãos do céu; em vez das pobres cinzas, está feliz no reino celeste, ornada de glória eterna.
Como a Cúria Romana assistiu às exéquias da virgem com grande concorrência de povo 


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 A notícia da morte da virgem sacudiu imediatamente todo o povo da cidade com o fato estupendo. Acorrem homens, acorrem mulheres ao lugar. As pessoas afluem em tamanha multidão que a cidade parece deserta. Todos a proclamam santa, todos dizem que é querida e alguns choram entre frases de louvor. Vem o podestá com um cortejo de cavaleiros e uma tropa de homens armados, e montam diligente guarda naquela tarde e toda a noite para não perderem nada do precioso tesouro que tinham entre eles. No dia seguinte, moveu-se a corte inteira. O Vigário de Cristo foi para lá com os cardeais e toda a cidade se encaminhou para São Damião. Quando ia começar a celebração e os frades iniciaram o ofício dos mortos, o senhor papa disse, de repente, que se devia rezar o ofício das virgens e não o de defuntos, como se quisesse canonizá-la antes que o corpo fosse entregue à sepultura. O eminentíssimo senhor ostiense observou que era preciso ir mais devagar nisso, e foi celebrada a missa de defuntos. Sentaram-se depois o sumo pontífice com a comitiva de cardeais e prelados, e o bispo de Óstia, tomando o tema da vaidade das vaidades (cfr. Ecl 1,2) louvou em notável sermão a gloriosa desprezadora da vaidade.

48 Com devota deferência, cercam então os cardeais presbíteros a santa morta e fazem os ofícios de costume junto ao corpo da virgem. Depois, achando que não era seguro nem digno que tão precioso tesouro ficasse longe dos cidadãos, levaram-no honrosamente para São Jorge com hinos de louvor, ao som de trombetas e com solene júbilo. Era o lugar em que estivera sepultado antes o corpo do pai São Francisco, e assim ele, que, enquanto ela vivia, abriu-lhe o caminho da vida, por um presságio, preparou-lhe o lugar quando morta. Começou então a acorrer muita gente ao túmulo da virgem, louvando a Deus e dizendo: “Santa de verdade, reinas verdadeiramente gloriosa com os anjos, tu que tanta honra recebes dos homens na terra. Intercede por nós diante de Cristo, ó primícias das senhoras pobres, que guiaste tanta gente para a penitência e levaste tantos para a vida”. Poucos dias depois, Inês, chamada às bodas do Cordeiro, seguiu a irmã Clara nas eternas delícias. Lá as duas filhas de Sião, irmãs na natureza, na graça e no reino, rejubilam-se em Deus sem fim. E de fato, Inês teve antes de morrer a consolação que Clara prometera. Como tinha passado do mundo para a cruz precedida pela irmã, quando Clara brilhava com prodígios e milagres, Inês também saiu da luz do mundo e foi depressa atrás dela acordar em Deus. Por graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.
SEGUNDA PARTE

Os milagres de Santa Clara depois de sua morte

49 Costumes santos e obras perfeitas são o verdadeiro prodígio dos santos. Esse é o testemunho que devemos venerar em seus milagres. João não fez sinal nenhum (Jo 10,41); mas os que fazem milagres não são mais santos do que ele. Por isso, bastaria sua vida perfeitíssima, se outra coisa não fosse pedida pela tibieza e pela devoção do povo.  Clara é ilustre em todo o mundo pela fama dos méritos que teve enquanto viveu e mais ainda pela luz dos milagres agora que mergulhou na claridade perpétua. Obriga-me a sinceridade que jurei a escrever muitas coisas; seu número me faz passar muitas por alto.

Endemoninhados libertados

50 Um menino de Perusa, chamado Tiaguinho, mais que doente parecia possuído por um dos piores demônios. Às vezes, jogava-se desesperado no fogo, ou se debatia no chão. Também mordia as pedras até quebrar os dentes, ferindo muito a cabeça e machucando-se até ficar com o corpo todo ensanguentado. De boca torcida, língua de fora, virava muitas vezes os membros com tão estranha habilidade que se transformava numa bola, passando a perna pelo pescoço. Essa loucura o atacava duas vezes por dia; nem duas pessoas podiam impedi-lo de tirar a roupa. Procuraram a ajuda de médicos competentes, mas não encontraram nenhum que conseguisse resolver o caso. Seu pai, Guidoloto, não tendo encontrado entre os homens remédio algum para tamanho infortúnio, recorreu ao poder de Santa Clara e rezou: 
“Ó virgem santíssima! Ó Clara, venerada pelo mundo, eu te ofereço meu pobre filho, e te imploro na maior súplica que o cures”. Cheio de fé, foi logo ao sepulcro e, colocando o rapaz em cima da tumba da virgem, obteve o favor enquanto o pedia. De fato, o menino ficou livre na mesma hora daquela doença e nunca mais foi molestado por nenhum mal parecido.

Outro milagre

51 Alexandrina de Fratta, na diocese de Perusa, era atormentada por um demônio terrível. Dominara-a tanto que a fazia revolutear como um passarinho em cima de uma alta rocha que se erguia à beira do rio. Depois, ainda a fazia escorregar por um galho de árvore muito fino que pendia sobre o Tibre, como se estivesse brincando. Além disso, como tinha perdido completamente o lado esquerdo por causa de seus pecados e tinha uma mão torcida, tentara muitas curas, mas não havia melhorado nada. Foi compungida ao túmulo da gloriosa virgem Clara e, invocando seus méritos contra a tríplice desgraça, obteve um salutar efeito com um só remédio. Pois a mão encolhida se abriu, o lado ficou curado, e ela se livrou da possessão do demônio. Na ocasião, diante do túmulo da santa, outra mulher do mesmo lugar teve a graça de se livrar do demônio e de muitas dores.

Cura de um louco furioso

52 Um jovem francês do séquito da Cúria fora atacado de loucura furiosa, que o fizera perder a fala e agitava monstruosamente o seu corpo. Ninguém conseguia segurá-lo de modo algum, pois se revirava horrivelmente nas mãos dos que tentavam contê-lo. Amarraram-no a um esquife, e seus compatriotas levaram-no à força à igreja de Santa Clara. Puseram-no diante do sepulcro, e ficou completamente curado, na hora, pela fé dos que o levavam.

Cura de um epilético 

Valentim de Spello estava tão minado pela epilepsia que seis vezes por dia caía no chão onde estivesse. Além disso, sofria de uma contração da perna e não podia andar livremente. Levaram-no montado num jumento ao sepulcro de Santa Clara, onde ficou estendido durante dois dias e três noites. No terceiro dia, sem que ninguém o tocasse, sua perna fez um ruído enorme e ele ficou imediatamente curado das duas doenças.



Cura de um cego

53 Jacobelo, conhecido como filho da espoletana, doente de cegueira havia doze anos, andava com um guia e não podia ir sem ele a lugar nenhum senão ao precipício. Uma vez, deixou o menino um pouquinho e caiu num buraco, quebrando um braço e machucando a cabeça. Uma noite, dormindo junto à ponte de Narni, apareceu-lhe em sonhos uma senhora que disse: “Tiaguinho, por que não vem a mim em Assis para ficar curado?”. Quando acordou, de manhã, contou tremendo essa visão a outros dois cegos. Eles disseram: “Ouvimos falar, há pouco, de uma senhora que morreu na cidade de Assis, e se diz que o poder do Senhor honra seu sepulcro com graças de cura e muitos milagres”. Ouvindo isso, tratou de pôr-se a caminho sem preguiça e, hospedando-se à noite em Espoleto, teve outra vez a mesma visão. Voou ainda mais rápido, só pensando em correr, por amor à vista. Mas, ao chegar a Assis, encontrou tanta gente acorrendo ao mausoléu da virgem que não conseguiu de modo algum chegar perto do túmulo. Pôs uma pedra embaixo da cabeça e, com muita fé, apesar da dor de não poder entrar, dormiu ali fora. Então, pela terceira vez, ouviu a voz dizendo: “Tiago, o Senhor lhe concederá o favor, se você puder entrar”. Por isso, ao acordar, rogou chorando à multidão, gritando e implorando que o deixasse passar, por amor de Deus. Aberto o caminho, jogou os sapatos, despiu-se, passou uma correia no pescoço e foi tocar humildemente o túmulo, onde caiu num sono leve. “Levante-se, disse a bem-aventurada Clara, levante-se que está curado”. Levantou-se na hora e, dissipada toda cegueira, sem nenhuma escuridão nos olhos, viu claramente a claridade da luz, graças a Clara. Glorificou a Deus, louvando-o, e convidou todos a bendize-lo por tão maravilhoso portento.

Cura de uma mão inutilizada 

54 Um homem de Perusa, chamado Bongiovanni de Martino, marchara com seus concidadãos contra os de Foligno. Quando começou a luta de parte a parte, uma forte pedrada esmagou gravemente sua mão. Desejando curar-se, gastou muito dinheiro com os médicos, mas nenhuma ajuda da medicina pôde impedi-lo de carregar aquela mão inútil, com a qual não podia fazer quase nada. Sofrendo por suportar o peso daquela mão que nem parecia sua, e que não usava, teve muitas vezes vontade de mandar cortá-la. Quando ouviu falar dos prodígios que o Senhor se dignava realizar por meio de sua serva Clara, fez voto e foi pressuroso ao sepulcro da virgem. Ofereceu uma mão de cera e se prostrou sobre a tumba da santa. Imediatamente, antes de sair da igreja, sua mão foi devolvida à saúde.

Os aleijados

55 Um certo Pedrinho, do castelo de Bettona, consumido por uma doença de três anos, parecia quase todo ressecado por tão prolongado mal. A violência da enfermidade dobrara-o tanto na cintura que, curvo e virado para a terra, mal podia andar, com um bastão. O pai do menino recorreu à habilidade de muitos médicos, principalmente dos especialistas em ossos quebrados. Estava disposto a gastar todos os bens para recuperar a saúde do filho. Mas, como todos responderam que não havia cura possível para aquele mal, voltou-se para a intercessão da nova santa, cujos prodígios ouvia contar. O menino foi levado ao lugar onde repousam os preciosos restos da virgem e, pouco depois de se deitar diante do sepulcro, obteve a graça da cura completa. Pois levantou-se na hora, ereto e sadio, andando, pulando e louvando a Deus (cfr. At 3,8), e convidou o povo ali aglomerado a louvar Santa Clara.


56
 Havia um menino de dez anos, da vila de São Quirino, da diocese de Assis, aleijado desde o ventre de sua mãe (cfr. At 3,2): tinha as pernas finas, jogava os pés de lado e, andando torto, mal podia levantar-se quando caía. Sua mãe o havia oferecido muitas vezes em voto ao bem-aventurado Francisco, sem conseguir melhora. Ao ouvir dizer que a bem-aventurada Clara brilhava com novos milagres, levou o filho ao túmulo. Uns dias depois, os ossos das tíbias ressoaram e os membros ficaram normais. E o que São Francisco, implorado com tantos rogos, não tinha concedido, foi outorgado pela graça divina por sua discípula Clara.

57 Um cidadão de Gúbio, Tiago de Franco, tinha um filho de cinco anos que, fraco dos pés, nunca andara nem podia andar. Lamentava-se pelo menino como uma mancha para a casa, o opróbrio da família. O rapaz deitava-se no chão e se arrastava no pó, querendo às vezes ficar em pé com um bastão, sem conseguir. A natureza dera-lhe o desejo de andar, mas negava a possibilidade. 
Os pais encomendaram o menino aos méritos de Santa Clara e, para usar suas palavras, prometeram que seria um “homem de Santa Clara”, se obtivesse a cura através dela. Foi só fazer o voto e a virgem de Cristo curou o seu homem, devolvendo a capacidade de andar bem ao menino oferecido. Os pais correram logo ao túmulo da virgem com ele, que brincava e saltava todo alegre, e o consagraram ao Senhor.

58 Plenária, uma mulher do castelo de Bevagna, sofria uma contração na cintura havia muito tempo e só podia andar apoiada num bastão. Mas isso não a ajudava a levantar o corpo curvo, e se arrastava por toda parte com passos vacilantes. Numa sexta-feira, fez-se levar ao sepulcro de Santa Clara, onde rezou com a maior devoção e obteve de imediato o que confiantemente pedia. Assim ela, que tinha sido levada pelos outros, voltou no sábado seguinte com os próprios pés para casa, completamente curada.

Cura de tumores da garganta

59 Uma moça de Perusa sofrera longamente muita dor com uns tumores da garganta, que o povo chama de escrófulas. Em sua garganta, dava para contar umas vinte bolhas, de modo que o pescoço dela parecia bem mais grosso que a cabeça. Sua mãe levou-a muitas vezes ao túmulo da virgem Clara, onde, com toda devoção, implorava a santa em seu favor. Uma vez, a moça ficou a noite inteira deitada diante do sepulcro, suou muito e os tumores começaram a amolecer e a sair um pouco do lugar. Com o tempo e pelos méritos de Santa Clara, desapareceram de tal modo que não sobrou absolutamente nenhum vestígio deles. Ainda durante a vida da virgem Clara, uma Irmã chamada Andrea sofreu de um mal semelhante na garganta. Certamente é estranho que, entre as brasas ardentes, se ocultasse alma tão fria e que, entre virgens prudentes, houvesse uma estulta imprudente. O certo é que uma noite Andrea apertou a garganta até se afogar, para expulsar o inchaço pela boca, querendo sobrepor-se ao que Deus queria para ela. Mas Clara, por inspiração, soube disso na mesma hora e disse a uma Irmã: “Corra, corra depressa ao andar de baixo e faça a Irmã Andrea de Ferrara tomar um ovo quente. Depois venha aqui com ela”. A outra foi correndo e encontrou Andrea sem falar, quase afogada por ter se apertado com as mãos. Ergueu-a como pôde e a levou consigo à madre. A serva de Deus lhe disse: “Pobrezinha, confesse ao Senhor seus pensamentos, que até eu sei muito bem quais são. O que você quis sarar vai ser curado pelo Senhor Jesus Cristo. Mas mude de vida para melhor, porque você não vai se levantar de outra doença que vai ter”. A estas palavras, ela recebeu o espírito de compunção e mudou sua vida bem valorosamente para melhor. Pouco tempo depois, já curada do tumor, morreu de outra doença.

Os salvados de lobos 

60 A região costumava ser assolada pela ferocidade cruel dos lobos que, atacando os próprios homens, muitas vezes comiam carne humana. Uma mulher chamada Bona, de Monte Galiano, na diocese de Assis, tinha dois filhos. Mal acabara de chorar por um, que os lobos tinham arrebatado, quando eles se precipitaram com a mesma ferocidade sobre o segundo. A mãe estava em casa, nos afazeres familiares. O lobo meteu os dentes no menino que andava lá fora e, mordendo-o pela cabeça, correu depressa para o mato com a presa. Ouvindo os gritos do menino, os homens que estavam nas vinhas gritaram para a mãe, dizendo: “Veja se seu filho está em casa, porque ouvimos há pouco uns gritos estranhos”. Quando a mãe viu que o filho tinha sido levado pelo lobo, levantou seus clamores para o alto e, enchendo o ar de gritos, invocou a virgem Clara, dizendo: “Santa e gloriosa Clara, devolva meu pobre filho. Devolva, devolva o filhinho à mãe infeliz. Se não fizer isso, vou me matar na água”. Os vizinhos correram atrás do lobo e encontraram o menininho abandonado por ele na selva, com um cachorro lambendo suas feridas. O animal selvagem começara mordendo a cabeça; depois, para levar mais facilmente a presa, abocanhou-a pela cintura, deixando marcas profundas da mordida nos dois lados. A mulher, vendo atendido seu pedido, correu com as vizinhas para sua protetora e, mostrando as diversas feridas do menino a quem quisesse ver, deu muitas graças a Deus e a Santa Clara.

61 Uma menina do castelo de Canara sentara-se em pleno dia no campo com outra mulher, reclinando a cabeça em seu regaço. Então, um lobo à caça de gente chegou furtivamente à presa. A menina viu-o, mas achou que era um cão e não se assustou. Continuou a acariciar os cabelos e a fera truculenta avançou em cima dela, prendeu-lhe o rosto com suas amplas fauces abertas e correu com a presa para o mato. A mulher assustada levantou-se depressa e, lembrando-se de Santa Clara, começou a gritar: “Socorro, Santa Clara, socorro! Eu lhe encomendo agora esta menina!”. Então, coisa incrível, a que estava sendo levada nos dentes do lobo increpou-o: “Você ainda vai me levar, ladrão, depois que me encomendaram a tão santa virgem?”. Confundido, ele a depositou logo suavemente no chão e fugiu, como um ladrão surpreendido.

A canonização da virgem Santa Clara 

62 Quando se espalhou a notícia desses milagres e a fama das virtudes da santa começou a se propagar cada vez mais amplamente, estava na Sé de Pedro o clementíssimo príncipe senhor Alexandre IV, amigo de toda santidade, protetor dos religiosos e firme coluna das Ordens. Todo o mundo já esperava com grande desejo a canonização de tão insigne virgem. Por fim, o referido pontífice, como que levado pelo acúmulo de tantos milagres a uma decisão insólita, começou a tratar com os cardeais de sua canonização. Entregou o exame dos milagres a pessoas dignas e discretas, encarregadas de estudar também sua vida prodigiosa. Viu-se que Clara tinha sido, em vida, claríssima pela prática de todas as virtudes e, morta, admirável por milagres autênticos e comprovados. Num dia marcado, houve uma reunião do colégio dos cardeais, com a presença de arcebispos e bispos. Apresentou-se uma multidão de clérigos e religiosos, com a assistência de muitos sábios e poderosos. O Sumo Pontífice propôs o salutar assunto e pediu a opinião dos prelados. Todos se demonstraram imediatamente favoráveis, dizendo que era preciso glorificar na terra Clara, que Deus havia glorificado nas alturas. Já perto do dia de sua migração, dois anos depois do seu trânsito, o feliz Alexandre, a quem Deus reservara essa graça, convocou a multidão dos prelados e de todo o clero e lhes fez um sermão. Depois, com a maior afluência de povo, inscreveu reverentemente Clara no catálogo dos santos e decretou que em toda a Igreja se celebrasse solenemente a sua festa, que foi o primeiro a celebrar solenissimamente com toda a Cúria. E isso teve lugar em Anagni, na igreja maior, no ano de 1255 da Encarnação do Senhor, primeiro ano do pontificado do senhor Alexandre. Para louvor de Nosso Senhor Jesus Cristo, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

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