Começa a legenda da virgem Santa Clara. Antes de tudo, seu nascimento 1



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 Os indícios costumeiros comprovam toda a força que tirava da fornalha da oração fervorosa, e como nela gozava com doçura a bondade divina. Pois, quando voltava toda alegre da santa oração, trazia do fogo do altar do Senhor palavras ardentes que acendiam também os corações das Irmãs. Admiravam a doçura que vinha de sua boca e o rosto parecendo mais claro que de costume. Certamente, Deus tinha banqueteado a pobre em sua doçura (cfr. Sl 67,11), e a alma cumulada de luz verdadeira na oração estava transparecendo no corpo. Assim, unida imutavelmente a seu nobre Esposo no mundo mutável, deliciava-se continuamente nas coisas do alto. Firme em virtude estável no rodar versátil, guardando o tesouro da glória em vaso de barro, tinha o corpo na terra e a alma nas alturas. Costumava ir antes que as jovens para as Matinas, acordando-as com sinais silenciosos e incitando-as ao louvor. Em geral, acendia as luzes quando as outras dormiam. Muitas vezes era ela que tocava o sino. Em seu convento, não havia lugar para tibieza, nem desídia, pois a preguiça era atacada por forte estímulo para orar e servir ao Senhor.

Maravilhas de sua oração: Antes de tudo, os sarracenos milagrosamente postos em fuga

21 Quero contar aqui, com toda a fidelidade à verdade, os prodígios de sua oração, mais que dignos de veneração. Durante a tormenta que a Igreja sofreu em diversas partes do mundo sob o imperador Frederico, o vale de Espoleto teve que beber muitas vezes o cálice da ira. Por ordem do imperador, aí se estabeleceram, como enxames de abelhas, esquadrões de cavalaria e arqueiros sarracenos, despovoando castelos e aniquilando cidades. Quando o furor inimigo se dirigiu uma vez contra Assis, cidade predileta do Senhor, o exército já estava chegando perto das portas, e os sarracenos, gente péssima, sedenta de sangue cristão e desavergonhadamente capaz de qualquer crime, entraram no terreno de São Damião e chegaram até dentro do próprio claustro das Irmãs. 
O coração das senhoras derretia-se de terror. Tremendo para falar, levaram seus prantos à madre. Corajosa, ela mandou que a levassem, doente, para a porta, diante dos inimigos, colocando à sua frente uma caixinha de prata revestida de marfim, onde guardavam com suma devoção o Corpo do Santo dos Santos.

22 Toda prostrada em oração ao Senhor, disse a Cristo entre lágrimas: ”Meu Senhor, será que quereis entregar inermes nas mãos dos pagãos as vossas servas, que criei no vosso amor? Guardai Senhor, vos rogo, estas vossas servas a quem não posso defender neste transe”. Logo soou em seus ouvidos, do propiciatório da nova graça, uma voz de menininho: “Eu sempre vos defenderei”. Ela disse: “Meu Senhor, protegei também, se vos apraz, a cidade que nos sustenta por vosso amor”. E Cristo: “Suportará padecimentos, mas será defendida por minha força”. Então a virgem ergueu o rosto em lágrimas, confortando as que choravam: “Garanto, filhinhas, que não vão sofrer mal nenhum. É só confiar em Cristo”. Não demorou. De repente, a audácia daqueles cães se retraiu e assustou. Saíram rápidos pelos muros que tinham pulado, derrotados pela força da sua oração. 
Logo em seguida, Clara determinou com seriedade às que tinham ouvido a voz: “Tenham todo o cuidado, filhas, queridas, de não revelar essa voz a quem quer que seja, enquanto eu viver”.

Outro milagre: a libertação da cidade
23 Em outra ocasião, Vital de Aversa, homem cobiçoso de glória e intrépido nas batalhas, moveu contra Assis o exército imperial, que comandava. Despiu a terra de suas árvores, assolou todos os arredores e acabou pondo cerco à cidade. Declarou ameaçadoramente que de nenhum modo se retiraria, enquanto não a tivesse tomado. De fato, já havia chegado o ponto em que se temia a queda iminente da cidade. Quando Clara, a serva de Cristo, soube disso, suspirou veementemente, chamou as Irmãs e disse: “Filhas queridas, recebemos todos os dias muitos bens desta cidade. Seria muita ingratidão se, na hora em que precisa, não a socorrêssemos como podemos”. Mandou trazer cinza, disse às Irmãs que descobrissem a cabeça. E, primeiro, espalhou muita cinza sobre a cabeça nua. Colocou-a depois também sobre as cabeças delas. Então disse: ”Vão suplicar a nosso Senhor com todo o coração a libertação da cidade”. Para quê contar detalhes? Que direi das lágrimas das virgens, de suas preces “violentas”? Na manhã seguinte, Deus misericordioso deu a saída para o perigo: o exército debandou e o soberbo, contra os planos, foi embora e nunca mais oprimiu aquelas terras. Pouco depois o comandante guerreiro foi morto a espada.

A força da sua oração na conversão de sua irmã

24 De fato, não devemos sepultar no silêncio a eficácia admirável de sua oração que, ainda no começo de sua consagração, converteu uma alma para Deus, e a protegeu. Tinha uma irmã jovem, irmã na carne e na pureza. Desejando sua conversão, nas primeiras preces que oferecia a Deus com todo afeto, insistia nisso: que, assim como no mundo tinha tido com a irmã conformidade de sentimentos, assim agora se unissem, ambas, para o serviço de Deus em uma só vontade. 
Pedia insistentemente ao Pai da misericórdia que o mundo perdesse o gosto e que Deus fosse doce para Inês, a irmã deixada em casa, mudando-a da perspectiva de um casamento humano para a união de seu amor, desposando com ela, em virgindade perpétua, o Esposo da glória. Um afeto admirável tomara conta das duas e, embora por diferentes razões, tinha tornado dolorosa para ambas a recente separação.  A divina Majestade atendeu depressa a excepcional orante e lhe concedeu imediatamente aquele primeiro dom, pedido mais que tudo e que mais agradava a Deus regalar. Assim, dezesseis dias depois da conversão de Clara, Inês, levada pelo Espírito divino, correu para a irmã e, contando seu segredo, disse que queria servir só ao Senhor. Ela a abraçou toda feliz e exclamou: “Dou graças a Deus, dulcíssima irmã, porque abriu os ouvidos à minha solicitude por você”.

25 À conversão maravilhosa seguiu-se não menos maravilhosa defesa. Quando as felizes irmãs estavam na igreja de Santo Ângelo de Panço, aplicadas em seguir as pegadas de Cristo, e a que mais sabia do Senhor instruía sua irmã e noviça, de repente levantaram-se contra as jovens novos ataques dos familiares. Sabendo que Inês tinha ido para junto de Clara, correram no dia seguinte ao lugar doze homens acesos de fúria e, dissimulando a malvadeza por fora, apresentaram-se para uma visita de paz. Logo, voltando-se para Inês, pois de Clara já antes tinham perdido a esperança, disseram: “Por que veio a este lugar? Volte quanto antes para casa conosco”. Quando ela respondeu que não queria separar-se de sua irmã Clara, lançou-se sobre ela um cavaleiro enfurecido e, a socos e pontapés, queria arrastá-la pelos cabelos, enquanto os outros a empurravam e levantavam nos braços. Diante disso, a jovem, vendo-se arrancada das mãos do Senhor, como presa de leões, gritou: “Ajude-me, irmã querida, não deixe que me separem de Cristo Senhor”. Os violentos atacantes arrastaram a jovem renitente pela ladeira, rasgando a roupa e enchendo o caminho de cabelos arrancados. Clara prostrou-se numa oração em lágrimas, pedindo que a irmã mantivesse a constância e suplicando que a força daqueles homens fosse superada pelo poder de Deus.

26 De repente, o corpo dela, caído por terra, pareceu fincar-se com tanto peso que, mesmo diversos homens, juntando as forças, não conseguiram de modo algum levá-lo para além de um riacho. Acorreram também alguns dos campos e vinhas para ajudá-los, mas não puderam levantar do chão aquele corpo. Tiveram que desistir do esforço e exaltaram o milagre comentando em brincadeira: “Passou a noite comendo chumbo, não é de admirar que esteja pesada”. O próprio senhor Monaldo, seu tio paterno, que, tomado por tanta raiva, tentou dar-lhe um soco mortal, sentiu de repente que uma dor atroz invadia a mão levantada e o atormentou angustiosamente por muito tempo. Então, depois da longa batalha, Clara foi até lá, pediu aos parentes que desistissem da luta e deixassem a seus cuidados Inês, que jazia meio morta. Quando eles se retiraram, amargados pelo fracasso da empresa, Inês levantou-se jubilosa e, já gozando da cruz de Cristo, por quem travara essa primeira batalha, consagrou-se para sempre ao serviço divino. Então o bem-aventurado Francisco a tonsurou com suas próprias mãos e, junto com sua irmã, instruiu-a nos caminhos do Senhor. Mas como não dá para explicar em poucas palavras a magnífica perfeição de sua vida, voltamos a falar de Clara.

Outro milagre: expulsão de demônios

27 Não é de admirar que a oração de Clara tivesse poder contra a maldade dos homens, se fazia arder até os demônios. Aconteceu que uma devota, da diocese de Pisa, veio uma vez ao lugar para agradecer a Deus e a Santa Clara porque, por seus méritos, fora libertada de cinco demônios. Na hora da expulsão, os demônios confessaram que a oração de Santa Clara os queimava e os desalojava daquele vaso de sua posse. Não foi à-toa que o senhor papa Gregório teve admirável fé nas orações desta santa, cuja virtude provara ser eficaz. Muitas vezes, como bispo de Óstia ou já elevado ao trono apostólico, ao surgir alguma dificuldade, como acontece, dirigia-se por carta à mencionada virgem: pedia orações e já sentia a ajuda. É algo certamente notável pela humildade e que deve ser fervorosamente imitado: o Vigário de Cristo reclamando a ajuda da serva de Cristo e recomendando-se a suas virtudes. Certamente sabia de que é capaz o amor e como é livre o acesso das virgens puras ao consistório da divina Majestade. Se o Rei dos céus entrega-se Ele mesmo aos que o amam com fervor, o que não há de conceder, se convém, aos que o rogam com devoção?

Sua devoção ao admirável sacramento do altar

28 Quão grande foi o devoto amor de Clara pelo Sacramento do Altar demonstram-no os fatos. Durante a grave doença que a prendeu à cama, fazia-se erguer e sustentar colocando apoios. Assim, sentada, fiava panos finíssimos, com os quais fez mais de cinqüenta jogos de corporais que, colocados dentro de bolsas de seda ou de púrpura, destinava a diversas igrejas do vale e das montanhas de Assis. Ao receber o Corpo do Senhor, lavava-se antes em lágrimas ardentes e, acercando-se a tremer, não o temia menos escondido no sacramento que regendo céu e terra.

Admirável consolação que o Senhor lhe concedeu na doença

29 Como ela se lembrava de seu Cristo na doença, Cristo também a visitou em seus sofrimentos. Na hora do Natal, em que o mundo se alegra com os anjos diante do Menino recém-nascido, todas as senhoras foram à capela para as Matinas, deixando a madre sozinha, oprimida pela doença. Ela começou a meditar sobre o pequenino Jesus e, sofrendo muito por não poder assistir seus louvores, suspirou: “Senhor Deus, deixaram-me aqui sozinha para Vós”. E eis que de repente começou a ressoar em seus ouvidos o maravilhoso concerto que se desenrolava na igreja de São Francisco. Escutava o júbilo dos irmãos salmodiando, ouvia a harmonia dos cantores, percebia até o som dos instrumentos. O lugar não era tão próximo que pudesse chegar a isso humanamente: ou a solenidade tinha sido amplificada até ela pelo poder divino, ou seu ouvido tinha sido reforçado de modo sobre-humano. Mas o que superou todo esse prodígio foi que mereceu ver o próprio presépio do Senhor. Quando as filhas vieram, de manhã, disse a bem-aventurada Clara: “Bendito seja o Senhor Jesus Cristo, que não me deixou quando vocês me abandonaram. Escutei, por graça de Cristo, toda a solenidade celebrada esta noite na igreja de São Francisco”.

Ardente amor ao crucificado 

30 Era-lhe familiar o pranto pela paixão do Senhor: ou hauria das sagradas chagas a amargura da mirra, ou sorvia os mais doces gozos. Embriagavam-na veementemente as lágrimas de Cristo sofredor, e a memória reproduzia frequentemente aquele que o amor lhe gravara fundo no coração. Ensinava as noviças a chorar o crucificado dando junto o exemplo do que dizia. Muitas vezes, ao exortá-las a isso em particular, vinham-lhe as lágrimas antes de acabarem as palavras. 
Entre as horas do dia, em geral era mais tocada de compunção em Sexta e Noa, para imolar-se com o Senhor imolado. Uma vez, rezava na cela na hora Nona, e o diabo lhe bateu no rosto, enchendo um olho de sangue e a face de marcas. Para nutrir a alma sem cessar nas delícias do Crucificado, ruminava frequentemente a oração das cinco chagas do Senhor. Aprendeu o Ofício da Cruz composto por Francisco, o amante da cruz, e o repetia com o mesmo afeto. Cingia embaixo da roupa, sobre a carne, uma cordinha com treze nós, lembrança secreta das feridas do Senhor.

Uma comemoração da Paixão do Senhor 
31 Chegou, uma vez, o dia da Sagrada Ceia, em que o Senhor amou os seus até o fim (cfr. Jo 13,1). Pela tarde, aproximando-se a agonia do Senhor, Clara, entristecida e aflita, fechou-se no segredo de sua cela. Acompanhando em oração o Senhor que rezava, sua alma triste até a morte (cfr. Mt 26,38) embebeu-se da tristeza dele, a memória foi se compenetrando da captura e de toda derisão: caiu na cama. Ficou tão absorta durante toda aquela noite e no dia seguinte, tão fora de si que, com o olhar ausente, cravada sempre em sua visão única, parecia crucificada com Cristo, totalmente insensível. Uma filha familiar voltou diversas vezes para ver se precisava de alguma coisa e a encontrou sempre do mesmo jeito. Quando chegou a noite do sábado, a devota filha acendeu uma vela e, sem falar, com um sinal, lembrou sua mãe da ordem que recebera de São Francisco. Pois o santo mandara que não deixasse passar um só dia sem comer. Na sua presença, Clara, como se voltasse de algum outro lugar, disse o seguinte: “Para que a vela? Não é dia?” “Madre, respondeu a outra, foi-se a noite, já passou um dia, e voltou outra noite”. Clara disse: “Bendito seja este sonho, filha querida, porque ansiei tanto por ele e me foi concedido. Mas guarde-se de contar este sonho a quem quer que seja, enquanto eu viver na carne”.

Diversos milagres que fazia com o sinal e a virtude da santa Cruz 

32 O Crucifixo amado correspondeu à amante que, acesa em tão grande amor pelo mistério da cruz, foi distinguida com sinais e milagres pelo seu poder. Quando fazia o sinal da cruz vivificante sobre os enfermos, afastava milagrosamente as doenças. Vou contar alguns casos, entre tantos. 
São Francisco mandou a dona Clara um frade enlouquecido, chamado Estêvão, para que traçasse sobre ele o sinal da cruz santíssima, pois conhecia sua grande perfeição e venerava sua grande virtude. A filha da obediência fez sobre ele o sinal, por ordem do pai, e deixou-o dormir um pouquinho, no lugar onde ela mesma costumava rezar. E ele, livre do sono daí a pouco, levantou-se curado e voltou ao pai, liberto da loucura.

33 Mateusinho, um menino de três anos da cidade de Espoleto, tinha enfiado uma pedrinha na narina. Ninguém conseguia tirá-la do nariz do menino, nem ele podia expeli-la. Em perigo e com enorme angústia, foi levado a dona Clara e, quando foi marcado por ela com o sinal da cruz, soltou de repente a pedra e ficou livre. Outro menino, de Perusa, tinha o olho velado por uma mancha e foi levado à santa serva de Deus. Ela tocou o olho da criança, marcou-a com o sinal da cruz e disse: Levem-no a minha mãe, para fazer nele outro sinal da cruz”. Sua mãe dona Hortolana seguira a plantinha, entrara na Ordem depois da filha e, viúva, servia ao Senhor no jardim fechado com as virgens. Ao receber dela o sinal da cruz, o olho do menino se livrou da mancha, e ele viu clara e distintamente. Clara disse que o menino tinha sido curado por mérito de sua mãe; a mãe deixou em favor da filha o crédito do louvor, dizendo-se indigna de coisa tão grande.

34 Uma das Irmãs, chamada Benvinda, tinha suportado quase doze anos embaixo do braço a chaga de uma fístula que soltava pus por cinco orifícios. Compadecida, a virgem de Deus Clara aplicou seu emplastro especial do sinal de salvação. Foi só fazer a cruz e, de repente, ela ficou perfeitamente curada da velha úlcera. Outra Irmã, chamada Amata, jazia doente de hidropisia havia treze meses, consumida também pela febre, a tosse e uma dor de lado. Compadecida dela, dona Clara recorreu àquele nobre sistema de sua arte medicinal: marcou-a com a cruz no nome de Cristo e no mesmo instante devolveu-lhe a saúde completa.

35 Outra serva de Cristo, oriunda de Perusa, de tal modo perdera a voz ao longo de dois anos que mal podia articular palavra audível. Na noite da Assunção de Nossa Senhora, teve uma visão de que dona Clara a curaria e esperou ansiosa pelo dia. Quando amanheceu, correu à madre, pediu-lhe que a marcasse com a cruz e recuperou a voz logo que foi assinalada. Uma Irmã chamada Cristiana tinha sofrido por muito tempo de surdez em um ouvido e experimentara em vão muitos remédios para o mal. Dona Clara fez-lhe o sinal na cabeça com clemência, tocou-lhe a orelha e na mesma hora ela recuperou a faculdade de ouvir. Era grande o número de Irmãs doentes no mosteiro, aflitas por vários achaques. Clara foi vê-las como de costume, com seu remédio habitual, e, em cinco vezes que fez o sinal da cruz, curou cinco na hora. Por esses fatos, fica patente que no coração da virgem estava plantada a árvore da cruz, cujo fruto restaura a alma, cujas folhas oferecem remédio para o corpo.

A formação diária das Irmãs

36 Verdadeira mestra dos rudes e formadora de jovens no palácio do grande Rei, ensinava-as com tal pedagogia e as formava com tão dedicado amor que não há palavras para dize-lo. Primeiro, ensinava a afastar de dentro da alma toda convulsão, para poderem firmar-se só na intimidade de Deus. Depois, ensinava-as a não se deixar levar pelo amor dos parentes segundo a carne e a esquecer a casa paterna para agradar a Cristo. Exortava a não ligar para as exigências do corpo frágil, dominando com a razão os impulsos da carne. Mostrava que o inimigo insidioso arma laços ocultos para as almas puras e não tenta os santos como tenta os mundanos. Queria que tivessem tempos certos de trabalhos manuais para que, como queria o fundador, se afervorassem depois pelo exercício da oração, fugindo ao torpor da negligência e expulsando o frio da falta de devoção pelo fogo do santo amor. Nunca houve maior observância do silêncio nem maior demonstração e prática de toda honestidade. Lá, não havia o espírito de conversas à-toa nem palavras levianas mostrando afetos frívolos. A própria mestra, de poucas palavras, resumia em alocuções breves a abundância de sua mente.

Esforço para acolher bem a palavra da santa pregação 

37 Por meio de devotos pregadores, cuidava de alimentar as filhas com a palavra de Deus e não ficava com a parte pior. Quando ouvia a santa pregação, ficava tão inundada de gozo e gostava tanto de recordar o seu Jesus que, uma vez, durante a pregação de Frei Filipe de Atri apareceu um menino muito bonito para a virgem Clara e a consolou durante grande parte do sermão com as suas graças. Diante dessa aparição, a Irmã que mereceu ser testemunha do que a madre viu sentiu-se inundada por uma suavidade inefável. Não tinha formação literária mas gostava de ouvir os sermões dos letrados, sabendo que na casca das palavras ocultava-se o miolo que tinha a sutileza de alcançar e o gosto de saborear. De qualquer sermão, conseguia tirar proveito para a alma, pois sabia que não vale menos poder recolher de vez em quando uma flor de um áspero espinheiro que comer o fruto de uma árvore de qualidade. Uma vez, o papa Gregório proibiu qualquer frade de ir sem sua licença aos mosteiros das senhoras. A piedosa madre, doendo-se porque ia ser mais raro para as Irmãs o manjar da doutrina sagrada, gemeu: “Tire-nos também os outros frades, já que nos privou dos que davam o alimento de vida”. E devolveu ao ministro na mesma hora todos os irmãos, pois não queria esmoleres para buscar o pão do corpo, se já não tinha esmoleres para o pão do espírito. Quando soube disso, o papa Gregório deixou imediatamente a proibição nas mãos do ministro geral.

Sua grande caridade para com as Irmãs 

38 A venerável abadessa não amava só as almas das filhas: servia também seus corpos com o zelo de uma caridade admirável. Muitas vezes, no frio da noite, cobria-as com as próprias mãos, enquanto dormiam, e queria que se contentassem com um regime mais benigno as que via incapacitadas para a observância do rigor comum. Se alguma, como acontece, estivesse perturbada por uma tentação, ou tomada de tristeza, chamava-a à parte e a consolava entre lágrimas. Às vezes, se ajoelhava aos pés das que sofriam para aliviá-las com carinho materno. As filhas, gratas por sua bondade, correspondiam com toda dedicação. Acolhiam o carinho afetuoso da mãe, respeitavam na mestra o cargo de governo, acompanhavam o procedimento correto da formadora e admiravam na esposa de Deus a prerrogativa de uma santidade tão completa.

Suas doenças e o sofrimento contínuo


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 Tinha corrido quarenta anos no estádio (cfr. 1Cor 9,24) da altíssima pobreza (cfr. 2Cor 8,2) e já chegavam muitas dores, precedendo o prêmio do chamado eterno. O vigor de corpo, castigado nos primeiros anos pela austeridade da penitência, foi vencido no final por dura enfermidade, para enriquecê-la, doente, com o mérito das obras. A virtude aperfeiçoa-se na enfermidade (cfr. 2Cor 12,9). Vemos a que ponto acrisolou-se na doença sua virtude maravilhosa principalmente porque, em vinte e oito anos de contínua dor, não se ouviu murmuração nem queixa. De seus lábios brotavam sempre santas palavras, uma ação de graças contínua. Embora parecesse correr para o fim, oprimida pelo peso das doenças, aprouve ao Senhor adiar sua morte até o momento em que pudesse ser exaltada com dignas honras pela Igreja romana, de que era obra e filha singular. Pois, demorando-se o sumo pontífice com os cardeais em Lião, Clara começou a sentir-se mais oprimida que de costume pela doença, e uma espada de dor enorme atormentava as almas de suas filhas.


40
 Nessa ocasião, uma serva de Cristo, virgem consagrada a Deus no mosteiro de São Paulo da ordem de São Bento, teve uma visão: estava em São Damião, com suas Irmãs, assistindo a doença de dona Clara, e a via deitada numa cama preciosa. Elas choravam, esperando em lágrimas a partida da bem-aventurada Clara, quando apareceu uma formosa mulher à cabeceira da cama e lhes disse: “Não chorem, ó filhas, essa mulher que vai vencer; porque não poderá morrer, enquanto não vier o senhor com seus discípulos”. De fato, a corte romana chegou a Perusa logo depois. Sabendo que ela tivera uma piora na doença, o senhor ostiense correu de Perusa a visitar a esposa de Cristo, de quem fora pai por ofício, sustentáculo pela atenção, amigo sempre devoto por puríssimo afeto. Alimentou a enferma com o sacramento do Corpo do Senhor e também as outras com um salutar sermão. Ela só suplicava o Pai em lágrimas, recomendando-lhe sua alma e as das outras senhoras, pelo nome de Cristo. Mas pedia acima de tudo que obtivesse do senhor Papa e dos cardeais a confirmação do Privilégio da Pobreza. E foi isso que aquele fidelíssimo amigo da Ordem realizou de fato como prometeu de palavra. Um ano depois, o senhor Papa passou de Perusa para Assis com os cardeais, cumprindo-se assim a referida visão sobre o trânsito da santa. Porque o Sumo Pontífice, colocado além dos homens e aquém de Deus, representa a pessoa do Senhor; e os senhores cardeais a ele se unem como os discípulos, no templo da Igreja militante.

Como, estando ela doente, o senhor Inocêncio a visitou, absolveu e abençoou 


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