Catando catadores: a relação entre homem e natureza no Delta do Parnaíba



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Daniel Souza Braga danielphb.historia@hotmail.com

Prof. Dr. Francisco Nascimento francisconascimentoufpi@gmail.com

Tema: Cultura e Natureza


CATANDO CATADORES: A relação entre homem e natureza no Delta do Parnaíba
Daniel Souza Braga1

Prof. Dr. Francisco de Assis Nascimento2


Resumo: O presente artigo discute a relação homem/natureza no Delta do Parnaíba através do estudo dos modos de ser e trabalhar, dos catadores de caranguejo de Ilha Grande/PI, forjadas no decorrer de tempo. O texto ressalta ainda a importância da História Oral e da Memória como método de investigação histórica, discutindo o impacto da modernidade e de quanto uma visão utilitarista dos mangues acarretou uma série de problemas de ordem socioambiental no espaço estudado. Não obstante a isso, se faz mister explicitar os modos de viver, os saberes, a oralidade, os artefatos e as estratégias de sobrevivência, entendendo-as, todavia, como fundamentais para o fortalecimento das identidades e, mais do que isso, essenciais na luta pela preservação do patrimônio ambiental e imaterial da região.

Palavras-Chave: História Oral. Memória. Trabalho. Catador de Caranguejo.
Abstract: This article discusses the relationship man / nature in the Parnaíba Delta through the study of ways of being and working, the crab collectors Ilha Grande / PI, forged in the course of time. The text also emphasizes the importance of oral history and memory as a method of historical research, discussing the impact of modernity and as a utilitarian view of mangroves caused a series of problems of environmental order in the studied space. Notwithstanding this, it makes explicit the mister ways of living, knowledge, orality, artifacts and survival strategies, understanding them, however, are essential to the strengthening of identities, and more than that, the essential struggle to preserve the environmental and intangible heritage of the region.

Keywords: Oral History. Memory. Work. Crab collector.


  1. Introdução

Dezenas de trabalhadores acordam todos os dias bem cedo. Com suas embarcações, vencem as marés até atracarem nos mangues. Lá, banham-se de gasolina, ou então fazem uma fogueira para, assim, afugentarem os mosquitos. Em um processo de simbiose, eles se imbricam em meio as raízes e lama com o intuito de extrair o crustáceo e garantir, dessa maneira, suas sobrevivências. Josué de Castro (2010, p. 10-11), no livro Homens e Caranguejos – onde expos os inúmeros problemas de comunidades que vivem à margem do Rio Capiberibe em Recife –, afirma que muito jovem se deu conta desse estranho mimetismo, onde os homens se rastejavam na lama assemelhando-se aos caranguejos: arrastando-se, acachapando-se, meio homem e meio bichos. Diante disso, procuramos analisar essa complexa relação homem/natureza, entendendo, em paralelo, os modos de trabalhar, as técnicas e os saberes criados e recriados por esses trabalhadores no desenrolar do tempo. Para tal desafio, usamos a oralidade e a memória como método de investigação histórica, acessando os modos de vida, as práticas, as técnicas e saberes elaborados e reelaborados diante das vicissitudes da natureza.

A história, por sinal, se faz viva no corpo do caranguejeiro, pois, como diz Vigarello (2000, p. 229), “o corpo ritualiza e simboliza as normas cotidianas”. Em virtude dessa simbologia e múltiplas representações, o corpo é digno de historicidade na medida em que evoca numerosas imagens, sugere múltiplas possibilidades de conhecimento. Dessa maneira, o corpo é uma espécie de operador das relações com o mundo e com a sociabilidades. Ele não só tem espessura, como também possui marcas físicas e simbólicas, além de ocupar um lugar no espaço. Portanto, podemos dizer que o corpo do catador é uma espécie de arquivo vivo, uma vez que é transpassado por inúmeras histórias de dor, fome, picadas de inseto, insolação e privações de toda ordem.

O corpo é o fio condutor por onde passa as memórias, sendo, portanto, uma fonte de sensibilidade, repletos de lembranças – sejam fatídicas ou exitosas –, uma vez que esses trabalhadores escrevem em seus próprios corpos todas suas experiências. Assim, o corpo acaba misturando-se aos mangues, a lama, imprimindo marcas, ao mesmo tempo em que é marcado pela natureza. O próprio Le Breton (2013, p. 31), falando das diversas representações do Corpo na modernidade, afirma que “em sociedades tradicionais o corpo acaba imiscuindo-se no espaço, no cosmo, misturando-se, dessa maneira, a natureza”; isso é fato, pois, como nos lembrar Marcel Mauss (2008, p. 217), “o primeiro e mais natural instrumento de trabalho do homem é próprio corpo”.

É bom que se diga, também, que esse estudo só se tornou possível devido uma mudança, nos últimos anos, na forma de conceber e fazer história. Ela abarcou novos domínios, novas abordagens, e sobretudo novos sujeitos, que, em décadas atrás, eram desprezados pelas pesquisas acadêmicas “tradicionais”. A Clio, portanto, escancarou suas janelas e respirou novos ares, adquirindo um caráter multidisciplinar; não obstante a isso, sua aproximação com antropologia foi providencial. Pois, finalmente, estimulou os historiadores a se debruçarem sobre a cultura, observando a questão do singular no coletivo, dos signos e símbolos que se entremeiam na realidade, dos rituais, dos costumes, da experiência dos homens em meio a comunidades e povoados, entendendo como percebem a si próprios.

Biersack (1992, p. 100), no artigo Saber Local, História Local: Geertz e Além3, propõe, a partir de analises de obras de historiadores como Braudel, Darnton, Bloch e antropólogos da grandeza de Geertz e Lévi-Strauss, o estudo do saber local nos moldes históricos. Ele percebe, dessa maneira, a influência da antropologia no fazer de diversos historiadores – e vice-versa – que, debruçando-se sobre a cultura, leem o simbólico da ação como texto, percebendo como as pessoas comuns conferem sentido ao mundo que os cerca.




  1. O espaço, a memória e a oralidade

Como a experiência temporal é indissociável da sua espacialização (CARTOGRA, 2001, p. 23), o espaço contemplado nesse artigo será a região do Delta do Parnaíba4, mais especificamente a cidade de Ilha Grande, no Piauí. Esse município fica a 350 km da capital Teresina, sendo constituída, em média, por 9 mil habitantes. Circundada pelo oceano Atlântico e rio Parnaíba, a vida dessas pessoas relaciona-se diretamente com as águas, o mar, e os mangues. Não por acaso, as atividades profissionais predominantes são a pesca, o trabalho na lavoura, a extração do marisco e do caranguejo. É bom destacar, diante dessas marcações do espaço, a relevância do Porto dos Tatus como um importante local de escoamento de parte considerável dos crustáceos e pescados comercializados na região, e por ser, também, a principal entrada para o Delta do Parnaíba. Portanto, os fluxos das águas são modelos de representação e interpretação do espaço estudado, já que, esses modos de ser e trabalhar, articulam-se a partir da interação com os rios e marés (GERCINAIR, 2010, p. 91).

Com efeito, resolvemos estudar os catadores de caranguejo, profissionais que, para o Ministério da Pesca, são enquadrados como “pescadores” que exercem sua atividade de forma artesanal e de maneira individual ou em regime de economia familiar5. Depois do levantamento de algumas fontes, deparamo-nos, no entanto, com uma pesquisa realizada pela EMBRAPA Meio-Norte em parceria com a UFPI, através do financiamento da SEAP-PR, intitulada O perfil socioeconômico dos catadores de caranguejo do Piauí. Essa pesquisa traça um perfil do catador, ao posso em que revela a situação precária por qual passam muitos desses trabalhadores. Em relação aos sujeitos e ao trabalho em si, constata-se que:

A pesca do caranguejo é praticada predominantemente pelo sexo masculino, sendo apenas um, entre os 300 catadores entrevistados, do sexo feminino. Do total de 33,3% dos catadores possuem a idade entre 21 e 30 anos, 29,7% entre 31 e 40 anos, 15,3% entre 41 e 50 anos, 9% entre 51 e 60 anos, 2,7% mais de 61 anos e 9,7% abaixo de 20 anos. Quanto a escolaridade, 23,7% dos entrevistados são analfabetos, 55,7% não completaram o ensino fundamental, 6,6% têm o ensino fundamental completo, 3% têm o ensino médio completo e 11% não responderam (JEFFERSON ALVEZ, 2011).


Guiando-nos pela sensibilidade de Edward Thompson, estamos procurando resgatar o pobre descalço, o agricultor ultrapassado, o tecelão do tear manual ‘obsoleto’, o artesão, o ‘utopista”6. Esses pescadores vivem as margens dos rios e, do ponto de vista acadêmico, são quase mudos ou invisíveis. No entanto, essa iniciativa da EBRAMPA implementada pelo jovem pesquisador Jefferson, meio que retira esses catadores do anonimato, mostrando-nos suas condições de vida. De cara, percebe-se o problema do analfabetismo, pois, segundo os dados, muitos desses catadores de caranguejo não concluíram se quer o Ensino Fundamental. Outra coisa interessante é predominância masculina nessa atividade. Entre esses profissionais, é forte a ideia que de que “a cata do caranguejo é um serviço duro, exaustivo e extenuante, portanto coisa de homem, restando a mulher – ser mais delicado –, o trato culinário do crustáceo”7.

Em relação aos proventos mensais, nota-se que 66,3% dos catadores de caranguejo do Piauí tem uma renda inferior a um salário mínimo. Eles afirmam coletar entre 40 a 80 cordas por dia, sendo novembro, dezembro, fevereiro e julho os meses em que a captura é intensificada devido ao fluxo de turista na região. Quanto à comercialização, é bom que se diga, que parte dos caranguejos extraídos são vendidos para bares e restaurantes do litoral do Piauí e do Ceará. Constata-se, porém, a desorganização dos catadores no que se restringe a participação em atividades associativas. Pois, para garantirem o seguro de pesca, acabam filiando-se a colônias de pescadores, ocasionando, todavia, o enfraquecimento político desses catadores, e, junto a isso, em crises de identidade(s). (JEFERSON, IBAMA, 2008).

A captura de caranguejo, segundo a dissertação de Ana Helena (2005, p. 171), é principal fonte renda de mais de 20 comunidades do Delta do Parnaíba. A bem dizer, aproximadamente 2.500 famílias têm na cata do caranguejo a única fonte de sustento. Os caranguejos extraídos são vendidos em grupos de quatro (à corda) por um preço que varia entre R$ 1,50 a R$ 2,00. Para se ter uma ideia da importância desse mercado para região, anualmente são extraídos cerca de 1200 t de caranguejo dos mangues do Delta. Diante de tudo isso, é urgente uma história que problematize e questione o presente, sendo uma espécie de “grito retumbante contra o silencio acachapante dos tempos hodiernos que incita o esquecimento” (RIOUX, 1999, p. 42). Não podemos, como historiadores, naturalizar exclusões, e calar frente carências e empobrecimentos de toda ordem; portanto, cabe-nos problematizar o presente que se delineia junto ao passado.

Para investigar esses modos de ser e trabalhar, usamos como metodologia de pesquisa a História Oral. Esse método, para Lucia Delgado (2010, p. 150), consiste num procedimento que busca, através da construção de fontes e documentos, registrar – por meio de narrativas induzidas e estimuladas – testemunhos, versões, e interpretações sobre a história em suas múltiplas visões – sejam elas factuais, subjetivas ou espaciais. Não obstante, optamos por entrevistar os catadores mais velhos, os chamados “detentores de memória” (BOSSI, 1994, p. 66), ou seja, os velhos guardiões do vivido, silenciados e desprezados por uma sociedade que renega a experiência, e sobretudo oralidade em detrimento da escrita e das novas tecnologias. Pois, como diz Walter Benjamin (1987, p.201), o verdadeiro narrador é o que retira da experiência o que ele conta, exercitando “a faculdade de intercambiar experiências” (BEIJAMIN, 1994, 198). Podemos dizer, nesse sentido, que esses homens do mangue são grandes narradores, “na medida que relatam causos e reminiscências de forma artesanal, como se costurassem uma rede de memórias, pondo na ponta da agulha os fios de ontem, hoje e do amanhã”8.

Entretanto, como bem alerta Verena Alberti (2004, p. 29), “fazer História Oral não é sair com um gravador na mão em algumas perguntas na cabeça”. O emprego dessa metodologia só se justifica articulado a um projeto de pesquisa com questões e objetivos muito bem definidos e estruturados. A bem da verdade, é na fonte da memória que, certamente, submerge esse manancial de narrativas orais. Ademais, à memória é de natureza tanto individual quanto coletiva, uma vez que as reminiscências são vividas e sentidas no seio de um grupo, pois recordar é um gesto de alteridade. Não existe memória sem a presença do outro, pois a própria linguagem e forjada no seu coletivo, assim como as normas, condutas, costumes. Cartroga (2001, p. 16-170), nessa linha de raciocínio, afirma que a memória individual coexiste e interage com outras memórias em um processo relacional e inter-subjetivo. Na mesma ordem das ideias, Lucia Delgado (2010, p. 16) “acredita que a memória é a principal fonte dos depoimentos orais, sendo um lugar de múltiplas variáveis, sujeito a dialética da lembrança e do esquecimento”, pois, na medida em que pode ser fonte de reminiscência, carrega, também, ocultamento, silencio, emoções, traumas e dores.


  1. Catando Catadores

Com um frio na barriga típico de todo pesquisador iniciante, entramos no Bairro Loquinhas, Ilha Grande/PI, em um trabalho de campo em 2012. Curiosamente, o nome do lugar é uma alusão a própria loca do caranguejo: lugar onde o bicho dorme, defeca, come, procria. Ele é constituído, em sua grande maioria, por famílias de catadores e caranguejo. Ao longo do tempo foi sendo estigmatizado por ser o reduto dos homens caranguejos – seres rústicos, da lama, bichos sujos e fedorentos que deveriam ser afastados e escondidos de tudo e de todos. Naquelas casas humildes, de poucos cômodos e moveis, onde as pessoas costuravam redes de pesca nos terraços que mais pareciam uma extensão da rua, nos deparamos com sujeitos simples, porém transbordantes de poesia e de vastas leituras do mundo.

Inicialmente, nossa preocupação era em descobrir como haviam se tornado caranguejeiros. De pronto percebemos que maioria dos entrevistados iniciaram suas investidas no trabalho no mangue entre 9 e 12 anos. O trabalho, de fato, é um bastião de suas memórias na medida em que os homens “reconstroem suas lembranças de outros períodos projetando o trabalho como única referência” (MONTENEGRO, 2010, p. 64). Nos deparamos com infâncias forjadas no mangue. As dificuldades em garantir escolarização, na época, eram tamanhas. As carências iam desde livros, prédios escolares, professores, sem falar na ausência de cadeiras, nas distâncias, nos castigos físicos etc. Restavam-lhes, portanto, o mangue que, a bem da verdade, era uma espécie de imã. Posto isso, veja como o Sr. Julinho, 59 anos, aprendeu o oficio da cata:

(...) meu avô era caranguejeiro e meu pai também. Assim, desde pequenininho eu via meus pais pescando. Fui ficando maiorzinho, e já era hora de ajudar em casa. E você sabe: “filho de gato, gatinho é”, não é mesmo? Desse modo, acabei virando caranguejeiro como meu pai, meus tios. Naquele tempo não dava para escolher ser muita coisa não, logo porque esse era o único serviço que nossos pais podiam ensinar (JULINHO, 2012).
O Sr. João Paulo, entretanto, também recorda das dificuldades que teve para estudar e das inúmeras tentativas em voltar aos bancos escolares depois de adulto. Para seu desgosto, não conseguiu nem mesmo fazer o nome:
Eu fui umas duas vezes pra escola, mas não aprendia nada. Aquelas coisas não entravam na minha cabeça de jeito nenhum. Não nasci com o dom, sabe. Levava bolo da professora todo dia, rapaz. Depois de velho ainda tentei estudar uma penca de vezes, mas não sabia nem mesmo pegar no lápis. A coisa que tenho mais vergonha, acredite, é quando eu tô num lugar que é preciso assinar o nome; aí, meu filho, sou obrigado carimbar o papel com este dedão feio (mostra o dedo polegar da mão direita). Meu pai, no entanto, vendo que eu não ia dar pra nada mesmo, me botou logo para pegar caranguejo. (PAULO, 2012).
Diante dessas memórias repletas de sensibilidades sobre infância, educação e trabalho, cabe-nos, entretanto, ressaltar a importância da História Oral “por ser capaz de cavar a fundo as sombras da memória, e, assim, atingir a verdade oculta” (PAUL THOMPSON, 1992, p. 197). Essa metodologia, como podemos ver, lança luz sobre realidades indescritíveis, transformando-se, todavia, em um ouvido generoso e sempre disposto a ouvir as vozes do excluídos (JOUTARD, 2000, p. 33). O ato de rememorar é, por si mesmo, uma forma de vasculhar as poeiras do vivido, trazendo à baila a dor, as dificuldades, a vergonha por não saber ler, escrever. Por meio desses relatos entende-se, também, que as artimanhas da cata do caranguejo eram aprendidas através observação dos mais velhos, bem ao estilo da pedagogia indígena.

As memórias são forjadas no decorrer do tempo, por isso são de natureza temporal. Estimulados a responder perguntas sobre o trabalho de outrora, a tendência de qualquer trabalhador é, portanto, contrapô-la com as formas de trabalhar dos dias atuais. Afinal, o tempo é, por assim dizer, a matéria prima das memórias, visto que a noção de tempo para o trabalhador está intimamente ligada com a ideia de experiência. A noção de experiência como dimensão de tempo é, para E. P. Thompson (1981, p. 15) – por mais imperfeita que seja –, “indispensável ao historiador, por compreender a resposta mental e emocional tanto do indivíduo quando dos grupos”.

Diante dessas experiências, destaca-se a diferentes modos de trabalhar desses catadores de caranguejo. Antes, porém, eles exploravam o mangue pelados, ou, muitas das vezes, com um calção, apenas. Neste sentido, é importante acentuar que o trabalho era desgastante, pois os únicos instrumentos do qual dispunham eram, certamente, os seus próprios corpos. Acordavam antes do sol despontar; organizavam seus ranchos (farinha, rapadura, lamparina, fumo etc.), e, peito ao vento, enfrentavam longas viagens e as adversidades da natureza. Em uma visita Sr. Guajirú narra muito bem como era trabalhar em outros tempos:
(...) entravamos no mangue com apenas um calção. Muitos amigos entravam nus (risos). Existia um cara aqui que tinha as “coisas” tudo cheia de caroço devido a lama (mais risos). Saímos de casa muito cedo, 5 horas da manhã. Era muito difícil sair esse horário, pois tínhamos que pegar duas marés. Você acredita que tinha dias que esperávamos horas e horas para voltar, já que contra maré nenhum condenado aguenta! O mangue pela manhã é muito frio. Mas mesmo assim enfiávamos a mão na loca mesmo. Não tinha corpo mole não. A volta era mais difícil, pois o corpo estava cansando e éramos obrigados a carregar cambos e cambos de caranguejo no ombro dentro da lama pesada até a canoa. A lama chegava até a cintura, Daniel, e olha que descalço, passando por cima de espinho, raízes, pontas de pau. Era muito trabalho. No entanto, quando começamos nossos trabalhos, lembro que os caranguejos eram bonitos e maiores e qualquer criança podia pegar sem nenhuma dificuldade. Vai hoje tentar pegar para ver se tu consegues. Uh! Tá difícil (...) (GUAJIRÚ, 2012).
Neste ponto, somos puxados ao mundo interior do catador de caranguejo, pois, desde logo, percebemos seus sentimentos, opiniões, visões de passado e ideias sobre o trabalho, lançando luz sobre áreas inexploradas de sua vida cotidiana; ao mesmo tempo transporta-nos para as dimensões subjetivas que expressam as dores e sentimentos de uma coletividade. O catador Guajirú, sem sombra de dúvidas, é um grande narrador, na medida em que, lembrando Walter Benjamin (1987), consegue “intercambiar experiências”, mostrando, portanto, como era o trabalho de outrora, as técnicas, as dificuldades encontradas no interior do manguezal. É visceral como ele narra a dor e cansaço; mas, mesmo assim, deslumbra-se diante das imagens da grande quantidade de caranguejo que ainda povoam suas lembranças, contrapondo-as, no mesmo instante, com a escassez dos dias de hoje. Uma coisa importante é o apego ao tempo da natureza, seja através do fluxo da maré, do sol, do canto dos bichos. Isso é o que E. P. Thompson (1998, p. 217) “chama de tempo da natureza, pois, muitos pescadores integram suas vidas com as marés de tal forma que suas atividades acabam sendo ritmadas pelos ponteiros da natureza”.

Quando a natureza impõe obstáculos, esses trabalhadores do mangue acabam criando meios que garantam sua sobrevivência. Neste sentido, a história se desenrola no processo de elaboração e reelaboração dessas estratégias. Diante dessa relação homem/natureza surge e ressurge diferentes modos de viver e de trabalhar forjados no entremear do tempo. Atualmente, por exemplo, os novos catadores usam diversos apetrechos técnicos que vão desde do cambito, luvas, braçadeiras, dedais, sapatos e botas, no intuito de minimizar os ricos do trabalho e aumentar a produtividade. Isso, para Ipojucan Campos (2012, p. 153), são as chamadas dinâmicas socioculturais elaboradas pelos homens da natureza que, frente as vicissitudes do ecossistema, forja-se ferramentas que os habilitam a sobrevivência nas complicadas condições que enfrentam no seio do manguezal. Se, outrora, os buracos eram rasos e os caranguejos abundantes, hoje, devido a extração excessiva, os bichos escondem-se em locas cada vez mais profundas. Já em relação o remo, instrumento tão presente na memória dos velhos catadores, está em via de extinção – talvez vire peça de museu de pescador –, pois com advento das rabetas (motor acoplado na polpa canoas) dificilmente são utilizados.




  1. O mangue atravessado por Atravessadores

Essa estrutura livre de mercado, porém, passou por uma transformação em meados dos anos 80 com entrada de uma figura que mudaria o cenário do comercio do caranguejo no Delta do Parnaíba: o atravessador. Esse sujeito, responsável em mobilizar a mão de obra para extração e, de igual modo, comprar os caranguejos no Delta e depois revender aos bares e restaurantes do litoral, acabou influenciado numa nova maneira de trabalhar e se apropriar do patrimônio natural da região. O trabalho, de livre e autônomo, passou a ser controlado, a partir dessa época, por intermediários. Ora, esse contrato entre catador e atravessador, acabou gerando uma relação de dependência e submissão sobe uma forma de “apadrinhamento e companheirismo”. Veja, se por um lado os caranguejeiros estavam seguros quanto a compra de seus produtos, por outro isso causava um contrato de subserviência e, por conseguinte, de exploração do trabalho, pois, daqui pra frente, tempo era dinheiro e mais caranguejos era sinônimo de mais e mais lucros.

Os mangues, atualmente, vêm sendo compreendidos com um produto a ser consumido, seja por turistas ou empresários do ramo do caranguejo. Essa representação reducionista da natureza corrobora, de maneira direta, no aparecimento práticas degradadoras do meio ambientes. Não menos importante é o fato de que baixa escolaridade, a falta de postos de trabalho, as baixas sucessivas na lavoura e na pesca, tornam muitos homens vulneráveis. Grande parte dos catadores que prestam serviços a esses atacadistas são jovens oriundos de Ilhas como Torto, Carnaubeira e Morro do Meio. Alguns laçam mão de drogas para suportar o esforço físico extenuante e, assim, garantir uns trocados. O resultado disso, é a disseminação de práticas insustentáveis principalmente no período do defeso, acarretando diversos problemas de ordem socioambiental como adverte o Sr. Marcos:


Hoje a grande dificuldade não é mais a comercialização e sim a extração. Catar caranguejo é cada dia mais difícil. O caranguejo ficou pouco por causa da entrada de muitos catadores. Os mangues, coitados, ficam pisados e desgastados. Antigamente, para você ter uma ideia, o cabra trabalhava sozinho num ponto; hoje não. O mangue está diminuindo e não tem mais caranguejo coisa nenhuma. Vamos imaginar, por exemplo, o mangue da Vala, um dos maiores que eu já vi, onde os caranguejos ficavam aos montes grandão e amarelados, parece que nunca viu caranguejo. Nem buraco tem mais, só folha. E essa moçada nova não tem respeito pelo menor e muito menos pelo mangue. Eu não queria dizer isso, mas a tendência é acabar (MARCOS, 2013).

Como vimos, a grande dificuldade do catador não é mais a comercialização – como antigamente -, e sim a extração do caranguejo. Os mangues, por sua vez, vêm sendo gradativamente destruídos, tanto pelo avanço das dunas, e sobretudo pela extração desenfreada e criminosa. Consequentemente, essas práticas insustentáveis acarretam em diversos problemas de ordem socioambientais, o que, de certa forma, tem alterado os modos de viver e trabalhar desses sujeitos, assim como suas relações com a natureza. Portanto, é imprescindível o entendimento dessa articulação homem e natureza, pois, como diz Sandra Pelegrini (2006, p 120), o “saber fazer” também se enquadra no conceito de patrimônio, uma vez que ele viabiliza a sobrevivência dos homens frente ao meio que o cerca.

A modernidade estende-se por todos os lugares, deformando modos de viver e trabalhar de comunidades. Essas demandas por modernização induzem novas relações entre o homem e o meio que os cerca, pois, como lembra E. P. Thompson (1998, p. 304), “não existe desenvolvimento econômico que não seja ao mesmo tempo desenvolvimento ou mudança de uma cultura”. Os relatos em si, como podemos ver, falam de uma coletividade transtornada frente ao desrespeito e a destruição de antigos modos de vida.


  1. Conclusão

No mundo globalizando, onde o capital se apropria de todas as formas de existência, desestabilizando e desenraizando modos de viver, de trabalhar, a História Oral constitui-se em uma prática significativa. Dessa maneira, ela propõe a discursão sobre sujeitos e lugares até então ocultado e silenciados por esses processos, além de novas questões ao debate, torna-se um modo legitimo de pensar o século XX e XXI (PORTELLE, 2010, p. 15). A história Oral não pode ser vista como uma panaceia, mas, sem sombras de dúvidas, ela tem um papel preponderante frente ao esquecimento, na medida em que se lança na essência de um tempo ao encontro de valores, culturas, modos de vida, representações, hábitos. As narrativas, tais quais os lugares de memória, são instrumentos importantes na luta pela preservação e transmissão de heranças identitárias e de tradições (DELGADO, 2010, p. 43).

A memória, por sua vez, passa a ser o fundamento das identidades, uma vez que o relembrar individualmente é orientado por uma perspectiva história que, não raro, é coletiva, existindo, dessa maneira, um entrecruzamento entre o particular e o social, entre o indivíduo e o coletivo.

Como vimos, a potencialidade da história oral e da memória são tamanhas, na medida em que põem-nos em contanto com as maneiras de ser, sentir, viver e trabalhar dos catadores de caranguejo, além ampliar nosso entendimento sobre como essa comunidade do litoral piauiense se relaciona com as paisagens e os espaços. Vimos, também, que, dessa relação homem/natureza, surge costumes, saberes, relações de trabalho, além de novas problemáticas. Os ribeirinhos do Delta estão diretamente ligados aos ciclos das marés, a reprodução das espécies, aos métodos de navegar e vencer a natureza. Nesse entender, o Delta é um lugar onde os esses grupos acabam criando rede de significados, e de sentidos, que são tecidas historicamente. Daí a importância em se preservar esses saberes e práticas criadas e recriadas por essas comunidades.

Por outro lado, o que vimos foi o quanto a comercialização do caranguejo acabou impondo um novo “tempo” dentro do mangue. Tempo que vale dinheiro, que é veloz como o disparar das lanchas. O resultado disso é a forma utilitarista com que a natureza passou a ser concebida, resultando dessa maneira em práticas agressivas, além do processo de cooptação e exploração do trabalho na região. Nessa linha argumentativa, é importante salientar que, além de leis disciplinadoras, é urgente um trabalho de construção de novos referenciais ambientais junto à comunidade e trabalhadores em geral, visando ancorar práticas sociais que minimizem os impactos dos homens sobre os mangues do Delta do Parnaíba.

Esses processos analisados estão, por assim dizer, em fluxo, pois: “(...) a história do tempo presente, mais do que qualquer outra, é por natureza uma história inacabada: uma história em constante movimento, refletindo as comoções que desenrolam diante de nós e sendo portanto objeto de uma renovação sem fim” (BÉDARIDA, 2006, p. 229). Portanto, queríamos ressaltar apenas a importância da História Oral no diálogo com as experiências de trabalhadores que vivem à margem não só dos rios, mas também da academia. Esperamos que esse trabalho contribua, de alguma forma, no estudo entre homem e natureza, ao mesmo tempo que possa server de estímulos a tanto outros.



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PORTELLI, Alessandro. Ensaios de História Oral. São Paulo: Letra e Voz, 2010.

RIOUX, Jean-Pierre. Pode-se fazer uma história do presente? (In). Org. CHAUVEAU, Agnès. Questões para história do presente. Bauru, SP: EDUSC, 1999.

THOMPSON, E. P. Costumes em Comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

THOMPSON, Paul. A voz do passado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.



VIGARELLO, Georges. Um Corpo Inscrito na História: imagens de um arquivo vivo. Proj. História, São Paulo, (21), nov. 2000.
DEPOIMENTOS ORAIS
Antônio Júlio Marques Araújo, 59 anos, catador de caranguejo e presidente da ACCDUIG. Entrevista cedida ao autor em 22 de julho de 2012.

Raimundo Nonato Ferreira da Conceição, mais conhecido como o Senhor Guajirú. Na época da entrevista tinha 70 anos e, mesmo assim, ainda catava caranguejo. Entrevista cedida ao autor no dia 14 de abril de 2012.

Abrão Cristiano Marques dos Santos, 75 anos, aposentado. Trabalhou muitos anos como catador de caranguejo, hoje não aguenta mais devido as dores no corpo. Entrevista concedida ao autor em 26 de julho de 2012.

Marcos Antônio dos Santos Costa, 45 anos, catador de caranguejo desde os 5 anos. Ainda hoje em atividade. É também ex-presidente da ACCDUIG. Entrevista concedida ao autor em 05 de janeiro de 2013.

João Paulo da Silva Gomes, 70 anos, catador de caranguejo aposentando. Entrevista concedida ao autor no 23 de julho de 2012.

1 Mestrando em História do Brasil pelo PPGHB da Universidade Federal do Piauí – UFPI.

2 Professor e orientador do Programa de Pós-Graduação em História do Brasil – UFPI.

3 Esse artigo que faz parte do livro A Nova História Cultural organizado pela Lynn Hunt. Em suma, esses textos versam sobre os novos métodos de pesquisa histórica, assim como o surgimento de novos objetos e, consequentemente, de um novo arsenal de fontes. A história Cultura, principalmente a partir de 1960 e 1970, abandona os relatos históricos tradicionais e direciona seus interesses para investigação da vida cotidiana de operários, mulheres, criados, grupos étnicos, aos modos de ser, aos sentimentos etc.

4 Está situado entre dois Estados brasileiros: O Maranhão 65% e o Piauí com 35% do território. Peculiarmente, o Rio Parnaíba é um dos únicos em todo mundo com foz em delta aberto para o mar. Esse rio tem 1845 Km de extensão e abre-se em cinco braços envolvendo 73 ilhas fluviais. Sua paisagem exuberante, cheia de dunas, mangues e ilhas fluviais, garante o cenário paradisíaco que forma o Delta do Parnaíba.

5 Extraída do relatório da COMISSÃO DE ASSUNTOS SOCIAIS, em decisão terminativa, sobre o Projeto de Lei da Câmara nº 53, de 2011, de autoria da Deputada Elcione Barbalho, que altera a Lei nº 10.779, de 25 de novembro de 2003, para estender ao catador de caranguejo o benefício do seguro-desemprego durante o período de defeso da espécie.

6 THOMPSON, Edward. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

7 Essas ideias sobre o porquê da cata do caranguejo ser um trabalho exclusivamente masculino, se deu depois de entrevistas desenvolvidas no ano de 2012 entre catadores caranguejo de Parnaíba e Ilha Grande. Segundo eles, “o serviço é muito pesado, portanto coisa de macho, cabendo a mulher o tratamento do crustáceo em casa”. Eles relatam que durante suas trajetórias como catadores lembram de a penas uma mulher catadora de caranguejo. Essas ideias foram desenvolvidas durante uma pesquisa que originou na monografia intitulada “Catadores de Caranguejo do Delta: História e Memória (1970-2012).

8 BRAGA, 2012.


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