Carlos Drummond de Andrade 1 Balada do amor através das idades



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POESIAS 

 

Carlos Drummond de Andrade 



 

 


1 - Balada do amor através das idades 

Eu te gosto, você me gosta 

desde tempos imemoriais 

Eu era grego, você troiana 

troiana, mas não Helena. 

Saí do cavalo de pau 

para matar seu irmão. 

Matei, brigamos, morremos. 

 

Virei soldado romano, 



perseguidor de cristãos. 

Na porta da catacumba 

encontrei-te novamente. 

Mas quando vi você nua 

caída na areia do circo 

e o leão que vinha vindo, 

dei um pulo desesperado, 

e o leão comeu nós dois. 

 

Depois fui pirata mouro, 



flagelo da Tripolitânia. 

Toquei fogo na fragata 

onde você se escondia 

da fúria do meu bergatim. 

Mas quando ia te pegar 

e te fazer minha escrava, 

você fez o sinal da cruz 

e rasgou o peito a punhal... 

Me suicidei também. 

 

Depois (tempos mais amenos) 



fui cortesão de Versalhes, 

espirituoso e devasso. 

Você cismou de ser freira... 

Pulei muro de convento 

mas complicações políticas 

nos levaram à guilhotina. 

 

Hoje sou moço moderno, 



remo, pulo, danço, boxo, 

tenho dinheiro no banco. 

Você é uma loura notável, 

boxa, dança, pula, rema. 

Seu pai é que não faz gosto. 

Mas depois de mil peripécias, 

eu, herói da Paramount, 

te abraço, beijo e casamos. 

Tenho saudade de uma dama 

Tenho saudade de uma dama 



Como jamais houve na cama 

Outra igual, e mais terna amante. 

 

Não era sequer provocante. 



Provocada, como reagia! 

São palavras só: quente, fria. 

 

No banheiro nos enroscávamos. 



Eram flamas no preto favo, 

Um guaiar, um matar-morrer. 

 

Tenho saudade de uma dama 



Que me passeava na medula 

E atomizava os pés da cama. 

 

 

A outra porta do prazer 



A outra porta do prazer, 

porta a que se bate suavemente, 

seu convite é um prazer ferido a fago. 

e, com isso, muito mais prazer 

 

Amor não é completo se não se sabe 



coisas que só o amor pode inventar. 

procura o estreito átrio do cubículo 

aonde não chega a luz, e chega o ardor 

da insofrida, mordente 

fome de conhecimento pelo gozo 

 

Necrologia dos desiludidos de amor 



Os desiludidos do amor 

estão desfechando no peito. 

Do meu quarto ouço a fuzilaria. 

As amadas torcem-se de gozo, 

Oh quanta matéria para os jornais 

 

Desiludidos mas fotografados 



escreveram cartas explicativas 

tomaram todas as providências 

para o remorso das amadas

Pum pum pum adeus, enjoada. 

Eu vou, tu ficas, mas nos veremos 

seja no claro céu ou turvo inferno. 

 

Os médicos estão fazendo a autópsia 



dos desiludidos que se mataram. 

Que grandes corações eles possuíam. 

Vísceras imensas, tripas sentimentais 

e um estômago cheio de poesia... 

 

Agora vamos para o cemitério 



levar os corpos dos desiludidos 

encaixotados competentemente 

(paixões de primeira e de Segunda classe). 

 

Os desiludidos seguem iludidos 



sem coração, sem tripas, sem amor. 

Única fortuna, os seus dentes de ouro 

não servirão de lastro financeiro 

e cobertos de terra perderão o brilho 

enquanto as amadas dançarão um samba 

bravo, violento, sobre a tumba deles. 

 

 


2 - O mundo é grande 

O mundo é grande e cabe 

nesta janela sobre o mar. 

O mar é grande e cabe 

na cama e no colchão de amar. 

O amor é grande e cabe 

no breve espaço de beijar. 

 

 



3 - Memória 

Amar o perdido 

deixa confundido 

este coração. 

 

Nada pode o olvido 



contra o sem sentido 

apelo do Não. 

 

As coisas tangíveis 



tornam-se insensíveis 

à palma da mão. 

 

Mas as coisas findas, 



muito mais que lindas, 

essas ficarão. 

 

 


4 - Além da Terra, além do Céu 

Além da Terra, além do Céu, 

no trampolim do sem-fim das estrelas, 

no rastro dos astros, 

na magnólia das nebulosas. 

Além, muito além do sistema solar, 

até onde alcançam o pensamento e o coração, 

vamos! 


vamos conjugar 

o verbo fundamental essencial, 

o verbo transcendente, acima das gramáticas 

e do medo e da moeda e da política, 

o verbo sempre amar, 

o verbo pluriamar, 

razão de ser e de viver. 

 

 



5 - Para Sempre 

Por que Deus permite 

que as mães vão se embora? 

Mãe não tem limite, 

é tempo sem hora, 

luz que não se apaga 

quando sopra o vento 

e chuva desaba, 

veludo escondido 

na pele enrugada, 

água pura, ar puro, 

puro pensamento. 

Morrer acontece 

com o que é breve e passa 

sem deixar vestígio. 

Mãe, na sua graça, 

é eternidade. 

Por que Deus se lembra 

- mistério profundo - 

de tirá-la um dia? 

Fosse eu Rei do Mundo, 

baixava uma lei: 

Mãe não morre nunca, 

mãe ficará sempre 

junto de seu filho 

e ele, velho embora, 

será pequenino 

feito grão de milho. 

 

 


6 - Poema-orelha 

 

Esta é a orelha do livro 



por onde o poeta escuta 

se delem falam mal 

ou se o amam. 

Uma orelha ou uma boca 

sequiosa de palavras? 

São oito livros velhos 

e mais um livro novo 

de um poeta ainda mais velho 

que a vida viveu 

e contudo provoca 

a viver sempre e nunca. 

Oito livros que o tempo 

empurrou para longe 

de mim 


mais um livro sem tempo 

em que o poeta se contempla 

e se diz boa-tarde 

(ensaio de bom-noite, 

variante de bom-dia, 

que tudo é o vasto dia 

em seus compartimentos 

nem sempre respiráveis 

e todos habitados 

enfim.) 


Não me leias se buscas 

flamante novidade 

ou sopro de Camões. 

Aquilo que revelo 

e o mais que segue oculto 

em vítreos alçapões 

são notícias humanas, 

simples estar-no-mundo, 

e brincos de palavra, 

um não-estar-estando, 

mas que tal jeito urdidos 

o jogo e a confissão 

que nem ditongo eu mesmo 

o vivido e o inventado. 

Tudo vivido? Nada. 

Nada vivido? Tudo. 

A orelha pouco explica 

de cuidados terrenos; 

e a poesia mais rica 

é um sinal de menos. 

 

 


7 - José 

E agora, José ? 

A festa acabou, 

a luz apagou, 

o povo sumiu, 

a noite esfriou, 

e agora, José ? 

e agora, você ? 

você que é sem nome, 

que zomba dos outros, 

você que faz versos, 

que ama protesta, 

e agora, José ? 

 

Está sem mulher, 



está sem discurso, 

está sem carinho, 

já não pode beber, 

já não pode fumar, 

cuspir já não pode, 

a noite esfriou, 

o dia não veio, 

o bonde não veio, 

o riso não veio, 

não veio a utopia 

e tudo acabou 

e tudo fugiu 

e tudo mofou, 

e agora, José ? 

 

E agora, José ? 



Sua doce palavra, 

seu instante de febre, 

sua gula e jejum, 

sua biblioteca, 

sua lavra de ouro, 

seu terno de vidro, 

sua incoerência, 

seu ódio - e agora ? 

 

Com a chave na mão 



quer abrir a porta, 

não existe porta; 

quer morrer no mar, 

mas o mar secou; 

quer ir para Minas, 

Minas não há mais. 

José, e agora ? 

 


Se você gritasse, 

se você gemesse, 

se você tocasse 

a valsa vienense, 

se você dormisse, 

se você cansasse, 

se você morresse... 

Mas você não morre, 

você é duro, José ! 

 

Sozinho no escuro 



qual bicho-do-mato, 

sem teogonia, 

sem parede nua 

para se encostar, 

sem cavalo preto 

que fuja a galope, 

você marcha, José ! 

José, para onde ? 

 

 


8 - Infância 

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. 

Minha mãe ficava sentada cosendo. 

Meu irmão pequeno dormia 

Eu sozinho, menino entre mangueiras 

lia história de Robinson Crusoé, 

comprida história que não acaba mais. 

 

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu 



a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu 

chamava para o café. 

café preto que nem a preta velha 

café gostoso 

café bom 

 

Minha mãe ficava sentada cosendo 



olhando para mim: 

- Psiu... não corde o menino. 

Para o berço onde pousou um mosquito 

E dava um suspiro... que fundo ! 

 

Lá longe meu pai campeava 



no mato sem fim da fazenda. 

 

E eu não sabia que minha história 



era mais bonita que a de Robinson Crusoé. 

 

 



9 - Certas palavras 

Certas palavras não podem ser ditas 

em qualquer lugar e hora qualquer. 

Estritamente reservadas 

para companheiros de confiança, 

devem ser sacralmente pronunciadas 

em tom muito especial 

lá onde a polícia dos adultos 

não divinha nem alcança. 

 

Entretanto são palavras simples: 



definem 

partes do corpo, movimentos, atos 

do viver que só os grandes se permitem 

e a nós é defendido por sentença 

dos séculos 

 

E tudo proibido. Então, falamos. 



 

 


10 - Canção Amiga 

Eu preparo uma canção 

em que minha mãe se reconheça, 

todas as mães se reconheçam, 

e que fale como dois olhos. 

 

Caminho por uma rua 



que passa em muitos países. 

Se não me vêem, eu vejo 

e saúdo velhos amigos. 

 

Eu distribuo um segredo 



como quem ama ou sorri. 

No jeito mais natural 

dois carinhos se procuram. 

 

Minha vida, nossas vidas 



formam um só diamante. 

Aprendi novas palavras 

e tornei outras mais belas. 

 

Eu preparo uma canção 



que faça acordar os homens 

e adormecer as crianças. 

 

 


11 - Oficina Irritada 

Eu quero compor um soneto duro 

como poeta algum ousara escrever. 

Eu quero pintar um soneto escuro

seco, abafado, difícil de ler. 

 

Quero que meu soneto, no futuro, 



não desperte em ninguém nenhum prazer. 

E que, no seu maligno ar imaturo, 

ao mesmo tempo saiba ser, não ser. 

 

Esse meu verbo antipático e impuro 



há de pungir, há de fazer sofrer, 

tendão de Vênus sob o pedicuro. 

 

Ninguém o lembrará: tiro no muro, 



cão mijando no caos, enquanto Arcturo, 

claro enigma, se deixa surpreender. 

 

 


12 - No meio do caminho 

No meio do caminho tinha uma pedra 

tinha uma pedra no meio do caminho 

tinha uma pedra 

no meio do caminho tinha uma pedra. 

 

Nunca esquecerei desse acontecimento 



na vida de minhas retinas tão fatigadas. 

 

Nunca me esquecerei que no meio do caminho 



tinha uma pedra 

tinha uma pedra no meio do caminho 

no meio do caminho tinha uma pedra. 

 

 



13 - Poema das Sete Faces 

Quando eu nasci, um anjo torto 

desses que vivem na sombra 

disse: Vai Carlos! ser gauche na vida. 

 

As casas espiam os homens 



que correm atrás de mulheres 

A tarde talvez fosse azul, 

não houvesse tantos desejos. 

 

O bonde passa cheio de pernas: 



pernas brancas pretas amarelas. 

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração 

Porém meus olhos 

não perguntam nada 

 

O homem atrás do bigode 



é sério, simples e forte. 

Quase não conversa. 

Tem poucas, raros amigos 

o homem atrás dos óculos e do bigode. 

 

Meu Deus por que me abandonaste 



se sabias que eu não era Deus 

se sabias que eu era fraco. 

 

Mundo mundo vasto mundo, 



Se eu me chamasse Raimundo 

seria apenas rima, não seria solução. 

Mundo mundo vasto mundo, 

mais vasto é meu coração. 

 

Eu não devia te dizer 



mas essa lua 

mas esse conhaque 

botam a gente comovido como o diabo. 

 

 



14 - Soneto da Perdida Esperança 

Perdi o bonde e a esperança. 

Volto pálido para a casa. 

A rua é inútil e nenhum auto 

passaria sobre meu corpo. 

 

Vou subir a ladeira lenta 



em que os caminhos se fundem. 

Todos eles conduzem ao 

princípio do drama e da flora. 

 

Não sei se estou sofrendo 



ou se é alguém que se diverte 

por que não? na noite escassa 

 

com um insolúvel flautim 



Entretanto há muito tempo 

nós gritamos: sim! ao eterno. 



15 - A hora do cansaço 

As coisas que amamos, 

as pessoas que amamos 

são eternas até certo ponto. 

Duram o infinito variável 

no limite de nosso poder 

de respirar a eternidade. 

 

Pensá-las é pensar que não acabam nunca, 



dar-lhes moldura de granito. 

De outra matéria se tornam, absoluta

numa outra (maior) realidade. 

 

Começam a esmaecer quando nos cansamos, 



e todos nos cansamos, por um outro itinerário, 

de aspirar a resina do eterno. 

Já não pretendemos que sejam imperecíveis. 

Restituímos cada ser e coisa à condição precária, 

rebaixamos o amor ao estado de utilidade. 

 

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre 



na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar. 

 

 



16 - Amar-amaro 

Porque amou por que amou 

se sabia 

p r o i b i d o p a s s e a r s e n t i m e n t o s 

ternos ou desesperados 

nesse museu do pardo indiferente 

me diga: mas por que 

amar sofrer talvez como se morre 

de varíola voluntária vágula evidente? 

 

ah PORQUE AMOU 



e se queimou 

todo por dentro por fora nos cantos ecos 

lúgubres de você mesm(o,a) 

irm(ã,o) retrato espetáculo por que amou? 

 

se era para 



ou era por 

como se entretanto todavia 

toda via mas toda vida 

é indignação do achado e aguda espotejação 

da carne do conhecimento, ora veja 

 

permita cavalheir(o,a) 



amig(o,a) me releve 

este malestar 

cantarino escarninho piedoso 

este querer consolar sem muita convicção 

o que é inconsolável de ofício 

a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima 

a vida também 

tudo também 

mas o amor car(o,a) colega este não consola nunca de nuncarás. 

 

 



17 - O Amor bate na aorta 

Cantiga de amor sem eira 

nem beira, 

vira o mundo de cabeça 

para baixo, 

suspende a saia das mulheres, 

tira os óculos dos homens, 

o amor, seja como for, 

é o amor. 

 

Meu bem, não chores, 



hoje tem filme de Carlito. 

 

O amor bate na porta 



o amor bate na aorta, 

fui abrir e me constipei. 

Cardíaco e melancólico, 

o amor ronca na horta 

entre pés de laranjeira 

entre uvas meio verdes 

e desejos já maduros. 

 

Entre uvas meio verdes, 



meu amor, não te atormentes. 

Certos ácidos adoçam 

a boca murcha dos velhos 

e quando os dentes não mordem 

e quando os braços não prendem 

o amor faz uma cócega 

o amor desenha uma curva 

propõe uma geometria. 

 

Amor é bicho instruído. 



 

Olha: o amor pulou o muro 

o amor subiu na árvore 

em tempo de se estrepar. 

Pronto, o amor se estrepou. 

Daqui estou vendo o sangue 

que escorre do corpo andrógino. 

Essa ferida, meu bem, 

às vezes não sara nunca 

às vezes sara amanhã. 

 

Daqui estou vendo o amor 



irritado, desapontado, 

mas também vejo outras coisas: 

vejo corpos, vejo almas 

vejo beijos que se beijam 



ouço mãos que se conversam 

e que viajam sem mapa. 

Vejo muitas outras coisas 

que não posso compreender... 

 

 


18 - Não se mate 

Carlos, sossegue, o amor 

é isso que você está vendo: 

hoje beija, amanhã não beija, 

depois de amanhã é domingo 

e segunda-feira ninguém sabe 

o que será. 

 

Inútil você resistir 



ou mesmo suicidar-se. 

Não se mate, oh não se mate, 

reserve-se todo para 

as bodas que ninguém sabe 

quando virão, 

se é que virão. 

 

O amor, Carlos, você telúrico, 



a noite passou em você, 

e os recalques se sublimando, 

lá dentro um barulho inefável, 

rezas, 


vitrolas, 

santos que se persignam, 

anúncios do melhor sabão, 

barulho que ninguém sabe 

de quê, pra quê. 

 

Entretanto você caminha 



melancólico e vertical. 

Você é a palmeira, você é o grito 

que ninguém ouviu no teatro 

e as luzes todas se apagam. 

O amor no escuro, não, no claro, 

é sempre triste, meu filho, Carlos, 

mas não diga nada a ninguém, 

ninguém sabe nem saberá. 

 

 


19 - Os ombros suportam o mundo 

 

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. 



Tempo de absoluta depuração. 

Tempo em que não se diz mais: meu amor. 

Porque o amor resultou inútil. 

E os olhos não choram. 

E as mãos tecem apenas o rude trabalho. 

E o coração está seco. 

 

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. 



Ficaste sozinho, a luz apagou-se, 

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. 

És todo certeza, já não sabes sofrer. 

E nada esperas de teus amigos. 

 

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? 



Teus ombros suportam o mundo 

e ele não pesa mais que a mão de uma criança. 

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios 

provam apenas que a vida prossegue 

e nem todos se libertaram ainda. 

Alguns, achando bárbaro o espetáculo 

prefeririam (os delicados) morrer. 

Chegou um tempo em que não adianta morrer. 

Chegou um tempo que a vida é uma ordem. 

A vida apenas, sem mistificação. 

 

 


20 - Quadrilha 

 

João amava Teresa que amava Raimundo 



que não amava Maria que amava Joaquim que amava Lili 

que não amava ninguém. 

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, 

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia. 

Joaquim se suicidou e Lili casou com J. Pinto Fernandes 

que não tinha entrado na história. 

 

 


21 - Dentaduras duplas 

 

Dentaduras duplas! 



Inda não sou bem velho 

para merecer-vos... 

Há que contentar-me 

com uma ponte móvel 

e esparsas coroas. 

(Coroas sem reino, 

os reinos protéticos 

de onde proviestes 

quando produzirão 

a tripla dentadura, 

dentadura múltipla, 

a serra mecânica, 

sempre desejada, 

jamais possuída, 

que acabará 

com o tédio da boca, 

a boca que beija, 

a boca romântica? ... ) 

 

Resovin! Helocite! 



Nomes de países? 

Fantasmas femininos? 

Nunca: dentaduras, 

emgenhos modernos, 

práticos, higiênicos, 

a vida habitável: 

a boca mordendo, 

os delirantes lábios 

apenas entreabertos 

num sorriso técnico 

e a língua especiosa 

através dos dentes 

buscando outra língua, 

afinal sossegada... 

A serra mecânica 

não tritura amor. 

E todos os dentes 

extraídos sem dor. 

E a boca liberta 

das funções poético- 

sofístico-dramáticas 

de que rezam filmes 

e velhos autores. 

 

Dentaduras duplas: 



dai-me enfim a calma 

que Bilac não teve 

para envelhecer. 

Desfibrarei convosco 

doces alimentos, 

serei casto, sóbrio, 

não vos aplicando 

na deleitação convulsa 

de uma carne triste 

em que tantas vezes 

me eu perdi. 

 

Largas dentaduras, 



vosso riso largo 

me consolará 

não sei quantas fomes 

ferozes, secretas 

no fundo de mim. 

Não sei quantas fomes 

jamais compensadas. 

Dentaduras alvas, 

antes amarelas 

e por que não cromadas 

e por que não de âmbar? 

de âmbar! de âmbar! 

férricas dentaduras, 

admiráveis presas, 

mastigando lestas 

e indiferentes 

a carne da vida! 

 

 



22 - A mão suja 

Minha mão está suja. 

Preciso cortá-la. 

Não adianta lavar. 

A água está podre. 

Nem ensaboar. 

O sabão é ruim. 

A mão está suja, 

suja há muitos anos. 

 

A princípio oculta 



no bolso da calça, 

quem o saberia? 

Gente me chamava 

na ponta do gesto. 

Eu seguia, duro. 

A mão escondida 

no corpo espalhava 

seu escuro rastro. 

 

E vi que era igual 



usá-la ou guardá-la. 

O nojo era um só. 

 

Ai, quantas noites 



no fundo de casa 

lavei essa mão, 

poli-a, escovei-a. 

Cristal ou diamante, 

por maior contraste, 

quisera torná-la, 

ou mesmo, por fim, 

uma simples mão branca, 

não limpa de homem, 

que se pode pegar 

e levar à boca 

ou prender à nossa 

num desses momentos 

em que dois se confessam 

sem dizer palavra... 

A mão incurável 

abre dedos sujos. 

 

Eu era um sujo vil, 



não sujo de terra, 

sujo de carvão, 

casca de ferida, 

suor na camisa 

de quem trabalhou. 


Era um triste sujo 

feito de doença 

e de mortal desgosto 

na pele enfarada. 

Não era sujo preto 

- o preto tão puro 

numa coisa branca. 

Era sujo pardo, 

pardo, tardo, cardo. 

 

Inútil reter 



a ignóbil mão suja 

posta sobre a mesa. 

Depressa, cortá-la, 

fazê-la em pedaços 

e jogá-la ao mar! 

Com o tempo, a esperança 

e seus maquinismos, 

outra mão virá 

pura - transparente - 

colar-se a meu braço. 

 

 


23 - Confidência do Itabirano 

Alguns anos vivi em Itabira. 

Principalmente nasci em Itabira. 

Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. 

Noventa por cento de ferro nas calçadas. 

Oitenta por cento de ferro nas almas. 

E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. 

 

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, 



vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes. 

E o hábito de sofrer, qe tanto me diverte, 

é doce herança itabirana. 

 

De Itabira trouxe prendas diversas que ora ofereço: 



este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval; 

este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas; 

este orgulho, esta cabeça baixa... 

Tive ouro, tive gado, tive fazendas. 

Hoje sou funcionário público. 

Itabira é apenas uma fotografia na parede. 

Mas como dói! 

 

 



24 - Carta 

Bem quisera escrevê-la 

com palavras sabidas, 

as mesmas, triviais, 

embora estremecessem 

a um toque de paixão. 

Perfurando os obscuros 

canais de argila e sombra, 

ela iria contando 

que vou bem, e amo sempre 

e amo cada vez mais 

a essa minha maneira 

torcida e reticente, 

e espero uma resposta 

mas que não tarde: e peço 

um objeto minúsculo 

só para dar prazer 

e quem pode ofertá-lo; 

diria ela do tempo 

que faz do nosso lado; 

as chuvas já secaram, 

as crianças estudam, 

uma última invenção 

(inda não é perfeita) 

faz ler nos corações, 

mas todos esperamos 

rever-nos bem depressa. 

Muito depressa, não. 

Vai-se tornando o tempo 

estranhamente longo 

à medida que encurta. 

O que ontem disparava, 

desbordado alazão, 

hoje se paralisa 

em esfinge de mármore, 

e até o sono, o sono 

que era grato e era absurdo 

é um dormir acordado 

numa planície grave. 

Rápido é o sono, apenas, 

que se vai, de mandar 

notícias amorosas 

quando não há amor 

a dar ou receber; 

quando só há lembrança, 

ainda menos, pó, 

menos ainda, nada, 

nada de nada em tudo, 

em mim mais do que em tudo, 


e não vale acordar 

quem acaso repousa 

na colina sem árvores. 

Contudo, está é uma carta. 

 

 


25 - A palavra mágica 

Certa palavra dorme na sombra 

de um livro raro. 

Como desencantá-la? 

É a senha da vida 

a senha do mundo. 

Vou procurá-la. 

 

Vou procurá-la a vida inteira 



no mundo todo. 

Se tarda o encontro, se não a encontro, 

não desanimo, 

procuro sempre. 

 

Procuro sempre, e minha procura 



ficará sendo 

minha palavra. 

 

 


26 - A falta que ama 

Entre areia, sol e grama 

o que se esquiva se dá, 

enquanto a falta que ama 

procura alguém que não há. 

 

Está coberto de terra, 



forrado de esquecimento. 

Onde a vista mais se aferra, 

a dália é toda cimento. 

 

A transparência da hora 



corrói ângulos obscuros: 

cantiga que não implora 

nem ri, patinando muros. 

 

Já nem se escuta a poeira 



que o gesto espalha no chão. 

A vida conta-se, inteira, 

em letras de conclusão. 

 

POr que é que revoa à toa 



o pensamento, na luz? 

E por que nunca se escoa 

o tempo, chaga sem pus? 

 

O inseto petrificado 



na concha ardente do dia 

une o tédio do passado 

a uma futura energia. 

 

No solo vira semente? 



Vai tudo recomeçar? 

É a falta ou ele que sente 

o sonho do verbo amar? 

 

 



27 - Amar 

Que pode uma criatura senão, 

entre criaturas, amar? 

amar e esquecer, 

amar e malamar, 

amar, desamar, amar? 

sempre, e até de olhos vidrados, amar? 

 

Que pode, pergunto, o ser amoroso, 



sozinho, em rotação universal, senão 

rodar também, e amar? 

amar o que o mar traz à praia, 

o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, 

é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia? 

 

Amar solenemente as palmas do deserto, 



o que é entrega ou adoração expectante, 

e amar o inóspito, o cru, 

um vaso sem flor, um chão de ferro, 

e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina. 

 

Este o nosso destino: amor sem conta, 



distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, 

doação ilimitada a uma completa ingratidão, 

e na concha vazia do amor a procura medrosa, 

paciente, de mais e mais amor. 

 

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa 



amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita. 

 

 



28 - Lira do Amor Romântico 

(ou A Eterna Repetição) 

 

Atirei um limão n'água 



e fiquei vendo na margem. 

Os peixinhos responderam: 

Quem tem amor tem coragem. 

 

Atirei um limão n'água 



e caiu enviesado. 

Ouvi um peixe dizer: 

Melhor é o beijo roubado. 

 

Atirei um limão n'água, 



como faço todo ano. 

Senti que os peixes diziam: 

Todo amor vive de engano. 

 

Atirei um limão n'água, 



como um vidro de perfume. 

Em coro os peixes disseram: 

Joga fora teu ciúme. 

 

Atirei um limão n'água 



mas perdi a direção 

Os peixes, rindo, notaram: 

Quanto dói uma paixão! 

 

Atirei um limão n'água, 



ele afundou um barquinho. 

Não se espantaram os peixes: 

faltava-me o teu carinho. 

 

Atirei um limão n'água, 



o rio logo amargou. 

Os peixinhos repetiram: 

é dor de quem muito amou. 

 

Atirei um limão n'água, 



o rio ficou vermelho 

e cada peixinho viu 

meu coração num espelho. 

 

Atirei um limão n'água 



mas depois me arrependi. 

Cada peixinho assustado 

me lembra o que já sofri. 

 

Atirei um limão n'água, 



antes não tivesse feito. 

Os peixinhos me acusaram 

de amar com falta de jeito. 

 

Atirei um limão n'água, 



fez-se logo um burburinho. 

Nenhum peixe me avisou 

da pedra no meu caminho. 

 

Atirei um limão n'água, 



de tão baixo ele boiou. 

Comenta o peixe mais velho: 

Infeliz quem não amou. 

 

Atirei um limão n'água, 



antes atirasse a vida. 

Iria viver com os peixes 

a minh'alma dolorida. 

 

Atirei um limão n'água, 



pedindo à água que o arraste. 

Até os peixes choraram 

porque tu me abandonaste. 

 

Atirei um limão n'água. 



Foi tamanho o rebuliço 

que os peixinhos protestaram: 

Se é amor, deixa disso. 

 

Atirei um limão n'água, 



não fez o menor ruído. 

Se os peixes nada disseram, 

tu me terás esquecido? 

 

Atirei um limão n'água, 



caiu certeiro: zás-trás. 

Bem me avisou um peixinho: 

Fui passado para trás. 

 

Atirei um limão n'água, 



de clara ficou escura. 

Até os peixes já sabem: 

Você não ama: tortura. 

 

Atirei um limão n'água 



e caí n'água também 

pois os peixes me avisaram, 

que lá estava meu bem. 

 

Atirei um limão n'água, 



foi levado na corrente. 

Senti que os peixes diziam: 

Hás de amar eternamente. 



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