Camila camilo martinez



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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

FACULDADE DE COMUNICAÇÃO

CURSO DE COMUNICAÇÃO COM HABILITAÇÃO EM JORNALISMO

CAMILA CAMILO MARTINEZ


GMAIÚSCULO E MASSA!: A DIVERSIDADE SEXUAL EM UM JORNAL POPULAR BAIANO

Salvador


2014
CAMILA CAMILO MARTINEZ


GMAIÚSCULO E MASSA!: A DIVERSIDADE SEXUAL EM UM JORNAL POPULAR BAIANO


Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção do grau de bacharel em Comunicação com habilitação em Jornalismo, pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.
Orientador: Prof. Dr. Edson Fernando Dalmonte

Salvador


2014

GMAIÚSCULO E MASSA!: A DIVERSIDADE SEXUAL EM UM JORNAL POPULAR BAIANO

Esta Monografia foi julgada adequada para a obtenção do grau de bacharel em Comunicação com habilitação em Jornalismo e aprovada na sua forma final pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.

Data: ____/____/____
Nota: _____________

________________________________________________

Prof. Dr. Edson Fernando Dalmonte

Orientador – UFBA

__________________________________________________

Profª Drª Malu Fontes

Examinadora – UFBA

__________________________________________________

Mestranda Maria Ísis Santos

Examinadora – UFBA

Salvador

2014


AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente a Deus, pelo dom da vida e por minha saúde e inteligência; e às forças misteriosas do Universo que permitem que coisas boas me aconteçam;

Ao meu orientador, Prof. Dr. Edson Fernando Dalmonte, pela compreensão e pelo estímulo;

À minha mãe, Miriam Camilo, pelo amor e pelo apoio incondicional na vida e em todas as tarefas da faculdade, em especial nesta monografia;

Ao meu pai, Fernando Martinez, aos meus irmãos, Carol e Nando, e à minha madrasta, Carmen, por entenderem carinhosamente minha necessidade de trocar vários momentos em família pela execução deste trabalho;

Ao meu namorado, Angus, pela alegria genuína de estar junto;

Aos meus avós João, Marli, Victor e Zady, pelo constante incentivo à leitura e ao aprendizado;

Ao meu tio Marcelo, que nunca temeu mal algum; e aos demais tios, tias, primos e primas pela torcida, mesmo que distante;

À minha querida Valmira, exemplo de força e de otimismo; e a Marla, exemplo de profissional;



Aos amigos do Colégio Integral e da Facom, principalmente a Kinha, Luan e Xandão, e aos que conheci nas andanças da vida, pela torcida de sempre; um obrigado especial ao meu amigo-irmão Henrique por tamanha doação de tempo e pelo suporte emocional;

À toda linda equipe da Ascom da SecultBA, com quem dividi risadas e angústias nos últimos meses e aos chefes Rodrigo e Adriana pelas folgas muito oportunas para o término desta monografia;

Aos mestres de ontem e de hoje pelo empenho ao ensinar;

Aos profissionais de A TARDE e Massa! que me condeceram entrevistas, essenciais à realização deste TCC: Juracy dos Anjos, Paulo Oliveira e Ana Paula Ramos;

A todos que me indicaram leituras, emprestaram livros, revisaram meus escritos, ouviram lamentos, me encorajaram, etc: Maria Ísis, Malu Fontes, Marilúcia, Lene, Mai-Tai-Tila-Dali-Adri-Gê-Léo-Rô-Dé da Ascom/SecultBA;

A Luci, por estar sempre ao meu lado – literalmente!

O meu sincero obrigado!

“Consideramos justa
Toda forma de amor”

(Toda forma de amor – Lulu Santos, 1988)
MARTINEZ, Camila Camilo. Gmaiúsculo e Massa!: a diversidade sexual em um jornal popular baiano. 2014. Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso) – Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2014.

RESUMO

Esta pesquisa propõe-se a observar a experiência da Gmaiúsculo, coluna sobre diversidade sexual, no jornal popular Massa!. Inicialmente, são abordadas características do jornalismo popular, do periódico em questão, da coluna e do colunista, o jornalista Juracy dos Anjos. Em seguida, são apresentados conceitos gerais e também dos estudos queer, de homofobia, heteronormatividade, gênero e poder. Estes capítulos iniciais proporcionam à esta pesquisa e ao leitor conhecimentos descritivos, históricos e teóricos que servem de base à seção de análise. No exame da diversidade sexual no Massa!, serão explorados os resultados da contagem de palavras mais frequentes do corpus formado por 12 edições da Gmaiúsculo, por meio da análise lexical desta amostra, umas das possíveis técnicas da Análise de Conteúdo. Como resultado, foi constatado o forte cunho político da coluna em relação às populações de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. A política, portanto, foi o assunto cuja maioria das palavras e expressões mais frequentes se referem, sendo estas classificadas nos seguintes subgrupos: Direitos e Atos Políticos, Espaços Políticos, Figuras Políticas, Preconceitos.


Palavras-chave: Gmaiúsculo. Massa!. Diversidade sexual. Jornalismo popular.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.............................................................................................................08

REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO..........................................................11


1. UM JORNAL POPULAR BAIANO .......................................................................13

1.1. O MASSA!.................................................................................................................13

1.2. A GMAIÚSCULO.....................................................................................................19

1.3. O COLUNISTA........................................................................................................21


2. A DIVERSIDADE SEXUAL....................................................................................22

2.1 A HOMOFOBIA.......................................................................................................22

2.2 A HETERONORMATIVIDADE..............................................................................25
3. ANÁLISE DAS COLUNAS.....................................................................................28
CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................................38
ANEXOS.........................................................................................................................43

INTRODUÇÃO

Propusemo-nos neste trabalho a observar de que forma um jornal popular se comporta, nos dias atuais, ao abordar temas sobre as pessoas cujas sexualidades são diversas do padrão heteronormativo. Quais assuntos relacionados ao tema seriam abordados com maior frequência: homofobia, aquisição de direitos, violência, especulação sobre a sexualidade de famosos? Estas abordagens se manifestariam de maneira preconceituosa, progressista ou, até mesmo, uma mescla das duas, complexificando a conduta editorial? Estes questionamentos são motivados tanto pelo fato de que a diversidade sexual era tratada, em publicações dos séculos XIX e XX, como um escândalo, um tabu, um desvio da “normalidade”, quanto pelas crescentes demandas de populações não heterossexuais por mais direitos e respeito nos últimos anos no Brasil.

De forma a refletir mais sobre este assunto, sem, contudo, tentar buscar respostas definitivas, debruçamos-nos sobre o jornal Massa!, periódico lançado no dia 18 de outubro de 2010 pelo Grupo A TARDE, que também é dono do centenário A TARDE. Autodenominado “o primeiro jornal popular da Bahia” – de acordo com nota em tom institucional publicada no portal do A TARDE, no dia do lançamento do produto – o referido objeto de análise é vendido em Salvador e na região metropolitana a R$0,50, de segunda-feira a sábado, e é voltado para as classes C e D; o Massa! não circula aos domingos. Tendo as referidas parcelas da população como público alvo, o jornal lança mão de técnicas de aproximação de seus leitores, como linguagem e abordagem simplificadas, próprias do jornalismo popular.

Para executar tal pesquisa, exploramos, por meio da Análise de Conteúdo, a coluna semanal Gmaiúsculo, voltada para informar, principalmente, leitores homossexuais, bissexuais e transgêneros (travestis e transexuais), sobre seus direitos, além de denunciar casos de preconceito e dar dicas de lazer. Sendo assim, a proposta deste trabalho é observar a experiência de uma coluna sobre diversidade sexual em um jornal popular. Sugerida pelo secretário de redação do Massa! e do A TARDE, Paulo Oliveira, e concebida e redigida pelo jornalista Juracy dos Anjos, a coluna foi lançada em 2 de dezembro de 2011. Atualmente, nenhum outro meio jornalístico impresso massivo, na Bahia, dedica espaço periódico a este público; o fato de um jornal popular ser o único a fazê-lo já evidencia uma inovação nas concepções de produção deste estilo jornalístico em âmbito local.

Foram selecionadas para análise 12 edições da coluna Gmaiúsculo, publicadas ao longo dos doze meses compreendidos entre junho de 2012 e maio de 2013. São sete publicações de 2012 – 1º de junho, 6 de julho, 3 de agosto, 7 de setembro, 5 de outubro, 2 de novembro e 7 de dezembro – e cinco de 2013 – 4 de janeiro, 25 de janeiro, 1º de março, 5 de abril e 3 de maio. Estas datas representam, em 11 dos 12 casos, as primeiras sextas-feiras de cada mês.

A exceção ocorreu em fevereiro, pois, naquele mês, a Gmaiúsculo só foi publicada na quarta semana devido ao fato de que o colunista Juracy dos Anjos, também repórter de A TARDE, estava escalado para fazer a cobertura do Carnaval 2013, ocorrido entre 7 e 12 de fevereiro, tarefa para a qual se dedicou no período. Assim, para evitar a proximidade temporal entre a quarta semana de fevereiro e a primeira semana de março, optamos por analisar, em vez disso, a quarta semana de janeiro. Justificamos, assim, a análise de duas publicações da coluna em janeiro e nenhuma em fevereiro.

Este período de junho de 2012 a maio de 2013 foi determinado considerando que esta é a porção de doze meses mais recente dentre os quinze meses de acompanhamento diário que realizamos entre 1º de março de 2012 e 30 de maio de 2013. Estes 15 meses de publicações, um longo percurso de clipping, representam fatia substancial que corresponde a 38,4% dos 39 meses de existência do periódico, considerando desde o seu lançamento, em outubro de 2010, até janeiro de 2013, quando esta monografia foi finalizada.

O extenso acompanhamento do jornal objetivou promover uma maior familiaridade face ao objeto de análise, no caso, o Massa!, e ampliar a variedade de situações noticiadas de maneira direta ou indireta sobre as populações não heterossexuais. Sem possuir, a princípio, tema(s) ainda mais recortado(s) ou espaço de tempo mais definido, navegamos, então, vastamente, movidos pela curiosidade em descobrir como a diversidade sexual humana se configura nas páginas do periódico, dito popular e recentemente lançado no mercado impresso baiano.

Consequência disso foi a observação do que chamamos de três macrotemas, que abrigam boa parte de todo o material encontrado ao longo dos quinze meses: entretenimento, crime e política. Inicialmente, consideramos analisar todos ou apenas um dos três macrotemas mencionados, porém, por termos eleito a metodologia “análise lexical de uma amostra”, descrita pela pesquisadora francesa Laurence Bardin (2011), precisávamos de um material para observação que fosse homogêneo. Assim, optamos por analisar a coluna Gmaiúsculo, agora motivados em observar a experiência de uma coluna sobre diversidade sexual em um jornal popular baiano, no caso, o Massa! e, então, levantamos algumas hipóteses a respeito do referido objeto.

De acordo com seu criador Juracy dos Anjos, em entrevista a nós concedida, o nome da coluna é uma referência ao conhecido dito popular “homem com ‘H’ maiúsculo”. A expressão é atribuída a um indivíduo do sexo masculino, heterossexual, viril, honesto, que se orgulha de quem é e que assume os próprios erros. Da mesma forma, a expressão Gmaiúsculo, que nomeia a coluna, tem o intuito, segundo Juracy, de celebrar a diversidade sexual na medida em que valoriza que os não heterossexuais tenham orgulho da sua orientação sexual e/ou da sua identidade de gênero.

Conforme afirmou o jornalista, “a coluna objetiva falar não só de homens gays, mas também de lésbicas, de bissexuais e de pessoas transgêneros (travestis e transexuais), trazendo temas de interesse de todos”. Entretanto, uma das hipóteses que levantamos nesta pesquisa é a de que a coluna privilegia os gays nos assuntos por ela abordados; o “G” integrante do nome da coluna, referente a “gay”, seria, então, um indício de que as sexualidades trans nem as bissexuais não estariam tão incluídas, ao menos no título, neste espaço jornalístico como os homossexuais estariam.

Outra hipótese que levantamos é que o assunto mais frequente escolhido pela coluna é a conquista de direitos das populações cujas orientações sexuais divergem do padrão heteronormativo: entre eles o anseio pela criminalização da homofobia (por meio do Projeto de Lei nº 122/2006, que inclui a criminalização da transfobia), e pela legalização do casamento de pessoas do mesmo sexo no Brasil (por meio do Projeto de Lei nº 5120/2013); ambos dependem de aprovação no Congresso Nacional. Uma terceira e última suspeita é de que o colunista, seguindo a estratégia utilizada pelo Massa! de se aproximar de seu leitor por meio da linguagem, faça uso de gírias do universo não heterossexual nos seus textos.

Para confirmar ou refutar tais suspeitas, a presente pesquisa observou quais são os temas mais frequentes contemplados pela Gmaiúsculo, observando por meio da frequência de palavras utilizadas nos textos. De acordo com Bardin, “a análise qualitativa das unidades de vocabulário por ordenação frequencial segundo o sentido pode fornecer informações” (BARDIN, 2011, p.83). Seguindo, então, esta indicação metodológica, as 12 colunas Gmaiúsculo escolhidas para estudo foram submetidas à contagem de palavras para que pudéssemos observar a frequência delas nos textos.

Além disso, de acordo com a classificação de Bardin (2011, p.82), as unidades de vocabulário dos textos foram distinguidas entre: “palavras plenas, isto é, palavras ‘portadoras de sentido’: substantivos, adjetivos, verbos; e palavras-instrumento, isto é, palavras funcionais de ligação: artigos, preposições, pronomes, advérbios, conjunções, etc”. Portanto, o ranking de frequência de palavras plenas e de palavras-intrumento mostraram dados que nos proporcionaram fazer inferências e, desta forma, analisar o conteúdo da amostra de doze colunas Gmaiúsculo.

Os esforços ao estudar o referido tema devem valer para a defesa de um jornalismo que respeite a diversidade sexual e que seja mais comprometido com a quebra de tabus e de preconceitos. Esperamos também poder contribuir, diante da sociedade, com o combate à discriminação contra aqueles seres humanos que não fazem parte do padrão sexual heteronormativo, além de interessar a todos os indivíduos que queiram viver numa realidade cada vez mais tolerante e inclusiva, sejam eles heterossexuais ou não heterossexuais.
REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO

Com o intuito de observar de que forma a coluna Gmaiúsculo constrói discursos sobre a não heterossexualidade, por meio de publicações do periódico Massa!, faz-se necessário, portanto, estudar jornalismo popular, segmento jornalístico no qual este produto se encaixa, diversidade sexual humana – incluindo homofobia e heteronormatividade –, bem como Análise de Conteúdo, instrumental escolhido como ferramenta para o exame dos textos jornalísticos selecionados: doze edições da coluna publicadas entre junho de 2012 e maio de 2013.

No primeiro capítulo, intitulado Um jornal popular baiano, fazemos uma apresentação sobre o Massa!: contexto de criação, público-alvo, comparações com a concorrência, características do impresso – tamanho, design, distribuição de editorias, capa – bem como, é claro, marcas do jornalismo popular do presente em comparação com o que era feito no passado. Para tanto, são utilizadas declarações de profissionais que trabalham no Massa! e também notícias publicadas no portal do A TARDE, em tom institucional, anunciando o lançamento do novo produto do Grupo A TARDE.

Além disso, vozes acadêmicas como as de Márcia Franz Amaral (2011), referência no estudo de jornalismo popular no país, Danilo Angrimani (1995), com seus conhecimentos sobre imprensa sensacionalista, e Itânia Gomes (2008), com o conceito de “popular” segundo os Estudos Culturais, compõem esta parte do trabalho. Por fim, mas não menos importante, a coluna Gmaiúsculo será devidamente descrita, será detalhado o contexto de criação deste espaço jornalístico, e será apresentada um pouco da trajetória profissional e pessoal do colunista Juracy dos Anjos.

Já no segundo capítulo, A Diversidade Sexual, como o próprio título indica, o foco consiste na diversidade sexual humana. O tema, que é muito mais complexo do que sugere a simplória divisão binária heteronormativa “homem x mulher” e seus supostos gêneros correspondentes “masculino x feminino”, foi abordado por Judith Butler (2003), uma das primeiras teóricas dos chamados Estudos Queer. Seus pensamentos foram algumas das referências utilizadas nesta monografia, como também a obra de Michel Foucault (1999), que ensina que “o poder está em todas as partes”, estando, também nas múltiplas sexualidades. Ademais, foram utilizados os trabalhos do intelectual argentino Daniel Borrillo (2010) sobre homofobia, discriminação e direitos. Já a respeito do dispositivo regulatório do “armário” na vida de homossexuais – ou o fenômeno do coming out – foi utilizada obra de Eve Kosofsky Sedgwick (2007) que, junto com Butler é uma das pioneiras das Teorias Queer.

Finalmente, o terceiro e mais importante capítulo é o chamado de Análise das Colunas, que apresenta a tabela de palavras mais frequentes do vocabulário do corpus selecionado, dividindo os vocábulos entre palavras plenas e palavras-instrumento. A partir daí, levantamos uma série de reflexões a respeito dos temas mais recorrentes na Gmaiúsculo, qual é a população não heterossexual mais privilegiada nas linhas da coluna, como é a linguagem utilizada pelo colunista, quais as dicas de cultura e de lazer mais regularmente recomendadas para este público, entre outras observações. Nesta seção, foi utilizada a metodologia “análise lexical de uma amostra”, descrita por Bardin (2011).




  1. UM JORNAL POPULAR BAIANO

O objeto de estudo neste trabalho é a coluna Gmaiúsculo, seção semanal do Massa! destinada ao público não heterossexual do periódico. Antes de expor a análise de conteúdo de 12 edições da coluna publicadas entre junho de 2012 e maio de 2013, também precedida pelo capítulo que discute a diversidade sexual humana, é preciso apresentar o jornal, bem como a própria coluna e o contexto de sua criação.

1.1 O MASSA!

O Massa! é o produto impresso popular do Grupo A TARDE, conjunto de empresas de comunicações da Bahia. O jornal foi lançado no dia 18 de outubro de 2010 com o objetivo de oferecer notícias e informação de entretenimento e serviço às classes C e D, a chamada nova classe média brasileira. O periódico circula em Salvador e região metropolitana, de segunda-feira a sábado, sendo vendido por R$ 0,50 em bancas de revistas e em sinaleiras de grande fluxo. O Grupo A TARDE também é dono do centenário Jornal A TARDE, lançado em 1912 por Ernesto Simões Filho, e possui ainda outras empresas tais como Mobi A TARDE, A TARDE FM, Agência A TARDE e A TARDE Serviços Gráficos.

Ao lançar o Massa!, o Grupo A TARDE mostra que está atento às mudanças do mercado no Brasil, visto o aumento do poder de consumo da classe média, especialmente nos últimos dez anos. De acordo com artigo publicado no site da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE/PR), na última década “cerca de 15% da população – 30 milhões de pessoas que viviam em famílias com renda per capita abaixo de R$ 250 – passaram a viver com rendimentos maiores”. Isso levou a SAE/PR e sua comissão técnica a recalcular a faixa de renda que concerne à classe média, concluindo que esta faixa social engloba famílias com ganhos per capita na faixa de R$ 291 a R$ 1.019.

Além de aproveitar o crescimento do poder aquisitivo da população, outra questão relevante que possivelmente empurrou a criação do Massa! foi a bem-sucedida reformulação do concorrente Correio da Bahia, em 27 de agosto de 2008. O jornal, pertencente à Rede Bahia e fundado em 1978, passou a se chamar Correio* e realizou profundas mudanças em seu formato, na diagramação, nas editorias e também na organização das folhas. Em seu site institucional, a própria empresa define a sua transformação:



[O Correio*] desde 27 de agosto de 2008 passou a apresentar os conceitos mais modernos do jornalismo mundial. Notícias e reportagens do tamanho certo. Com páginas 100% coloridas, formato berliner e paginação contínua, o CORREIO tem compromisso unicamente com a verdade e com o leitor.
Em relação às “notícias e reportagens do tamanho certo”, entende-se “tamanho curto”, recurso também utilizado pelo Massa!. A reforma do periódico Correio* agradou ao público e, em 2010, a vendagem do jornal já superava a do então dominante A TARDE. Ainda enquanto Correio da Bahia, o impresso era vendido por R$ 1,75. Após a reformulação, seu preço foi reduzido para R$ 1,00 de segunda-feira a sábado e R$ 1,50 aos domingos, valores mantidos até 27 de agosto de 2010, quando foi reajustado para R$ 0,50 e R$ 1,00, respectivamente, graças a uma ação promocional temporária em comemoração ao aniversário de dois anos de reforma do jornal.

Atualmente, o Correio é vendido por R$ 0,75 de segunda-feira a sábado e R$ 1,50 aos domingos. Outros jornais locais são vendidos a preços mais elevados: de segunda-feira a sábado A TARDE custa R$ 1,75 e, aos domingos, R$ 2,75 (com a Revista Muito) ou R$ 2,00 (sem a Revista Muito). Já Tribuna da Bahia, que circula apenas de segunda a sábado, pode ser adquirido por R$ 1,50. Sem alterar seu preço desde o seu lançamento, o jornal Massa! é vendido a R$ 0,50. Desta maneira, percebe-se que, o Massa!, foi lançado, em 2010, custando o mesmo valor que o mais vendido jornal da concorrência. e que até hoje mantém o preço desde o seu lançamento. Além disso, fica evidente que o Massa! é o jornal cujo preço é o mais baixo de Salvador e região metropolitana, numa clara estratégia de mercado e de aproximação com seu público específico. Com certa frequência, o periódico exibe na capa o título de “O melhor pelo menor preço”.

Em relação às vendas, os jornais baianos atingiram os seguintes números em outubro de 2013: Correio* vendeu aproximadamente 62.000 exemplares, A TARDE vendeu cerca de 48.350, Massa! vendeu em torno de 33.500, de acordo com os Departamentos de Circulação das empresas, em informações a nós prestadas por telefone. A Tribuna da Bahia não revelou a vendagem de jornais no referido mês. Vale ressaltar que apenas A TARDE e Correio* são distribuídos em todo o estado da Bahia, enquanto que os demais abrangem apenas Salvador e região metropolitana. De acordo com o referido setor do Correio*, a quantidade de jornais vendidos depende muito da capa e de ações promocionais associadas, ou seja, quando há um CD de músicas encartado junto com a edição do dia, a tiragem chega a 130 mil exemplares, como foi o caso do disco do cantor Jau, no dia 19 de novembro de 2013.

Segundo declaração prestada para a repórter Cleidiana Ramos, em matéria com tom institucional publicada no portal A TARDE Online, Ranulfo Bocayuva, diretor-executivo de Jornalismo do Grupo A TARDE, o Massa! atinge “um público ávido por leitura que, até agora [2010, ano de lançamento do impresso], verdadeiramente, não contava com um jornal pensado para ele”. Apostando em linguagem bastante coloquial, o jornal busca se aproximar do cotidiano e do entendimento de pessoas menos escolarizadas.

Sob o slogan “Feito do seu jeito”, características do Massa! indicam que o periódico foi mesmo pensado no perfil de leitor do povo. Além da linguagem mais simples, recheada de gírias soteropolitanas, o jornal está adaptado às posições sociais, econômicas e culturais desse leitor. Em resposta às nossas perguntas, por e-mail, Ana Paula Ramos, subeditora da Editoria Geral do Massa!, opinou que “o slogan está em perfeita sintonia com a proposta editorial do jornal, de total proximidade e cumplicidade com o seu público”. Segundo ela, antes do lançamento do periódico, foram realizadas pesquisas quantitativas e qualitativas que ajudaram a traçar o perfil do leitor:

Em linhas gerais, o público do Massa! é prioritariamente masculino, de baixa renda e jovem, pertencente à faixa etária média de 30 anos. Importante observar que o Massa! criou uma nova geração de leitores de jornal. Hoje, pessoas que antes não investiam em mídia impressa, se mantêm bem informadas por meio deste produto.


Paulo Oliveira, secretário de redação do A TARDE e do Massa! e um dos idealizadores do produto popular do Grupo A TARDE, ao responder, por e-mail, à nossa pergunta sobre qual é o público do Massa!, expande os conceitos de perfil de leitor:

Hoje em dia é muito difícil definir o público-alvo de uma publicação. Nas pesquisas que fizemos, encontramos leitores com o primeiro grau completo e também universitários que moram em bairros populares. Um deles, por exemplo, morador no bairro do Uruguai, estudava história, falava francês e lia, também, o Le Monde. É reducionismo afirmar que o leitor do Massa! tem um determinado perfil. Pode ser alguém da classe A que goste de pagode, jovens ou idosos de todas as classes que apreciam a cobertura esportiva, donas de casas que queiram ler as notícias de entretenimento e as seções de saúde, beleza, etc. Enfim, o Massa! tem um vasto repertório que atende a interesses diversos. Temos em mente que as pessoas que leem o Massa! optam por uma leitura rápida e objetiva.

A gíria, aliás, já se faz presente desde o nome do impresso. No vocabulário popular baiano, “massa” significa “coisa boa, legal, que vale a pena ser conferida”, o que é reforçado pela presença da exclamação. Vale observar ainda que a positividade contida no nome, para além de atrair público, pode causar certo desconforto, especialmente se as manchetes trouxerem notícias relacionadas a elevado número de mortos, como chacinas e acidentes de grandes proporções. Este fenômeno não ocorre em outros jornais locais, cujos nomes indicam neutralidade, como A TARDE, Correio*, Tribuna da Bahia e o gratuito Metrópole.

Outra leitura possível em relação ao nome do veículo é associar “massa” a alguns sentidos literais do termo, como “aglomeração, multidão”, relacionando assim o nome do produto à maior parte da população de Salvador e região metropolitana, as classes C e D, ao público-alvo do jornal. Desta forma, o próprio nome do produto já indica forte proximidade com o leitor. Quanto ao processo de denominação do periódico, Paulo Oliveira, respondendo ao nosso questionário, por e-mail, explica:

Para batizar o jornal, fiz um estudo sobre o nome dos populares brasileiros e estrangeiros. A tendência é que tenham nomes que signifiquem tempo necessário para sua leitura (Meia Hora, 20 minutos), outros têm identidade com o estado em que surge Diário Gaúcho, Aqui Pernambuco, e mais três ou quatro tendências. Optei por algo que identificasse com o povo baiano. Daí, sugeri Massa!, no sentido de ‘coisa boa’, bem feita. Também sabíamos que significava multidão, alimento, massa de construção, nome de trio elétrico e, conforme descobrimos depois, por um período foi sinônimo de maconha na Bahia. Quando fizemos a pesquisa com o público, o nome foi aprovado sem restrição e a maioria o identificava como ‘coisa boa, bem feita’.


Pesquisadora do segmento popular da grande imprensa, Márcia Franz Amaral lista os principais temas noticiosos dos jornais populares, que também são recorrentes no produto baiano em questão:

Os veículos [populares] usam como estratégia de sedução do público leitor a cobertura da inoperância do poder público, da vida das celebridades e do cotidiano das pessoas do povo. Os assuntos que interessam são prioritariamente os que mexem de imediato com a vida da população. Na pauta, o atendimento do SUS e do INSS, a segurança pública, o mercado de trabalho, o futebol e a televisão. (AMARAL, 2006, p. 9).
“Do ponto de vista dos conteúdos que privilegia”, Itania Gomes explica que no jornalismo popular “a ênfase recai sobre a abordagem da vida privada, do grotesco, da criminalidade, da tragédia, da transgressão, da sexualidade e da vida das celebridades”. Já em relação às estratégias, utiliza-se de recursos muito distintos para atrair a atenção do espectador [leitor]: “mais notícias locais e menos internacionais, mais imagens e menos texto, mais histórias de interesse humano e menos notícias políticas e econômicas” (GOMES, 2008, p. 59). Conforme revela Paulo Oliveira, em resposta às nossas perguntas, por e-mail, o Massa! investe no cotidiano de bairros populares, esportes e prestação de serviço e possui premissas que regem a sua linha editorial, as quais as mais importantes são:

O Massa! tem algumas premissas, que demonstram quais são nossos objetivos: 1 – Diz não ao preconceito; 2- Celebra a vida; 3- Respeita seus leitores; 4- Não publica fotos de cadáveres e nem expõe sangue; 5- Debate, com frequência, os termos e as gírias utilizadas. 
No sentido visual, o Massa!, cujo formato é o berliner (470 × 315 mm; um tabloide um pouco maior), investe em imagens abundantes e aposta em textos curtos ao longo das suas 24 páginas, coloridas ou em preto e branco. A capa, porção do jornal que primeiro impacta o leitor, é digna de atenção especial. O preço “camarada” do periódico está em destaque, no canto superior direito, emoldurado por balão cujo estilo “splash” é utilizado largamente por anúncios de supermercados para destacar suas ofertas. Multicolorida, com predominância frequente do vermelho, a capa adota como padrão a manchete em letras garrafais. Quando a notícia principal é de algum caso de violência, a fonte, em vermelho ou branco, contrasta num fundo preto, que denota luto e sangue.

Com intenso preenchimento de textos e imagens, que resulta em uma diagramação um tanto poluída, a capa do Massa! ocasionalmente pode induzir a falhas na imediata identificação, por parte do leitor, dos assuntos que mais interessam a ele naquela edição. Os espaços das páginas internas também estão intensamente preenchidos, o que pode causar a sensação de que a página “não respira”, como se diz nos bastidores do jornalismo e do design.

Em relação às imagens de capa, na maioria das vezes os fotografados posam para o clique e olham para a câmera como se, na verdade, olhassem para o leitor. Frequentemente há fotografia sensual de uma mulher vestindo biquíni ou roupas curtas, seguido por um chamamento que atrai a curiosidade do leitor para saber – e ver – mais sobre a beldade nas páginas internas do periódico. Muitas vezes, a moça é anônima, do povo, e o seu bairro de origem é sempre mencionado, reforçando a participação do público no jornal e a aproximação deste com a camada popular soteropolitana. Em outros casos, é uma famosa modelo, atriz ou cantora.

Quanto às editorias, a página 2 não pertence a nenhuma específica, sendo um apanhado de variedades, como receita, piadas, resultados de loterias, previsão do tempo e coluna “Em Alta/Em Baixa”. As editorias propriamente ditas estão distribuídas em “Notícia do Dia” que não é, necessariamente, a manchete; “Polícia”, que ocupa de duas a três páginas com matérias e notas com casos principalmente de homicídios e tráfico de drogas; “Nas Ruas”, com notícias locais sobre problemas da cidade de modo geral ou de bairros específicos; “Geral”, que traz variedades como carta dos leitores, as subseções “Ombro Amigo”, “A imagem do dia” e “Deixa com a gente!”, que consiste, esta última, em uma curta entrevista ping-pong com anônimos sobre suas vidas e convicções pessoais.

A subseção “Ombro Amigo” merece comentários à parte. Nesta parte do jornal, as pessoas escrevem para pedir ajudas e doações, tais como emprego, material de construção, cesta básica, móveis e eletrodomésticos. Comparável a esta subseção do Massa! é a “Meu sonho é...”, do Diário Gaúcho. Márcia Amaral, ao analisar o referido periódico pertencente à Rede Brasil Sul (RBS) e que circula em todo o estado do Rio Grande do Sul, afirma que “Meu sonho é...”:

Demonstra a falta de constrangimento de pedir ajuda, indicando ser a veiculação no jornal a grande esperança de realização dos desejos do leitor. A subseção evidencia, além da miséria e do desemprego, a crença das pessoas na solidariedade, o interesse pelos vínculos sociais e pelos dramas (AMARAL, 2006, p. 57).


No
Massa!, os apelos mais comuns pedem vaga de emprego, móveis ou utensílios domésticos, como sofá, fogão e geladeira, bolsas de cursos profissionalizantes ou doação de equipamentos para trabalho como notebook, material para artesanato, carrinho de cachorro-quente, máquina para estampar, etc. Abaixo, apresentamos alguns exemplos da subseção “Ombro Amigo”, que nos chamaram especial atenção pela natureza dos pedidos – um por ser de elevado custo, podendo custar milhares de reais, e outro por evidenciar a fragilidade socioeconômica da leitora. Ambos estão presentes na edição de 2 de novembro de 2012, que compõe o corpus da presente pesquisa:

Aparelho auditivo – Sou deficiente auditivo e preciso de um aparelho de amplificação sonora individual (AASI). VALENTIM CONTENARO redacao@jornalmassa.com.br

Porta e janela para casa – Preciso de ajuda para comprar uma porta e uma janela para proteger minha casa. LUCINEIDE redacao@jornalmassa.com.br


Em relação às demais editorias, a “Nosso País/Planeta” relata fatos curiosos e/ou bizarros de acontecimentos no Brasil e no mundo; “Economia Popular”, traz vagas de empregos e estágios, dicas para aumentar a renda e uma espécie de vitrine de produtos com seus respectivos preços; “Massa! Esportes”, com suas quatro ou cinco páginas, dá forte destaque ao futebol e, em segundo plano, a qualquer outra modalidade esportiva, que não ocupam nada mais que pequenas notas. Ainda nesta editoria, a seção “Baba Futebol Clube” mostra fotos de times e jogadores de bairros, destacando a participação do cidadão comum.

Em seguida, a editoria “Massa! Famosos” dedica duas a três páginas para notas, fotos e colunas sobre o mundo das celebridades; os “Classificados” também ocupam mais duas ou três páginas; “Diversão” traz resumos de novelas, notas sobre programas de televisão, palavras cruzadas e opções de lazer divididas em três categorias “0800”, “até R$ 10” e “mais de R$ 10”, com mais espaço para as atividades gratuitas. Já no final, a editoria “Viver Bem” dá dicas de saúde, comportamento e bem estar. A contracapa é sempre destinada ao reality show que estiver no ar, se for o caso, como Big Brother Brasil (Rede Globo) e A Fazenda (Rede Record). Caso não estejam na programação das emissoras no momento, receitas, dicas de beleza e cuidados com animais de estimação, por exemplo, ganham espaço.
1.2 A GMAIÚSCULO

A pedido de Paulo Oliveira, secretário de redação do Massa! e do A TARDE, o jovem editor do portal do A TARDE Juracy dos Anjos recebeu a missão de criar uma coluna voltada para o segmento não heterossexual de leitores do jornal popular do Grupo A TARDE. Em 2 de dezembro de 2011, foi, então, lançada a coluna Gmaiúsculo. Publicado todas as sextas-feiras, o espaço tem como público-alvo gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, grupos que, segundo afirmou Oliveira em questionário elaborado para esta pesquisa, a criação de uma coluna gay

surgiu para atender ao público gay de Salvador e das cidades do interior por onde o Massa! circula. Este público tem demandas específicas e pretendemos atendê-las. Desde locais de diversão e consumo até a conscientização do público não gay da necessidade de quebrar preconceitos e acabar com a violência contra o público LGTB.
Em relação ao seu formato, a Gmaiúsculo possui algumas características, que proporcionam uma variedade de temas ao produto. A porção superior da coluna é sempre o local onde o jornalista posiciona o texto mais opinativo e que, quase sempre, está na pauta de discussões nacional ou local. Os temas em geral denunciam casos de homofobia, comemoram a conquista de direitos, incentivam o sexo seguro, valorizam militantes da causa LGBT, etc.

Em seguida, uma pequena nota frequentemente traz um assunto que valoriza a autoestima do leitor não heterossexual. A seção PersonaBafo tem o propósito colocar em evidência alguém admirável: seja por sua militância em prol da comunidade gay, seja por publicamente se orgulharem da sua orientação sexual e da sua identidade de gênero, de forma que sejam colocados como exemplo de atitude afirmativa para o público da coluna. É frequente, também, a publicação de casos (e suas respectivas fotos) de belos modelos homossexuais por terem feito ensaio fotográfico sensual para revistas masculinas; vale ressaltar que apenas homens têm figurado nesse espaço.

Em OndeÉaBalada, Juracy dá dicas de cultura, lazer e entretenimento para seus leitores: dicas de peças teatrais, exposições e exibições de filmes que se refiram, de alguma forma, ao universo da diversidade sexual. A programação de boates gays da cidade como Off Club, Amsterdam Pop Club, Boate Tropical são frequentes, bem como shows de artistas que atraem este público, como Ana Carolina, Preta Gil e Daniela Mercury. A seção FaloMesmo denuncia de algo negativo relacionado a estes grupos de indivíduos que divergem do padrão sexual heteronormativo. Ela é flutuante graças à sua temática, pois nem sempre há o que ser denunciado.

1.3 O COLUNISTA

Juracy dos Anjos, 29 anos, nasceu em Conde, no litoral norte da Bahia, mas mudou-se para Salvador ainda muito pequeno. Graduou-se em 2008 em Jornalismo na UniJorge e faz parte do quadro de funcionários do Grupo A TARDE desde 2006. Antes de ser editor do portal A TARDE e colunista do Massa!, já escreveu sobre concursos e educação para a Folha Dirigida e turismo e eventos em Salvador para a Folha da Tarde. Já fez trabalhos freelancer para duas revistas com recorte racial: Eparrei (São Paulo) e Troin (Brasília). Interessou-se por Jornalismo, pois vislumbrava, por meio do curso, uma ponte para chegar ao cinema documental. “Aos poucos fui me identificando cada vez mais com a área de jornalismo impresso e deixei de lado a narrativa por meio da imagem para utilizar a palavra escrita”, conta. Ainda na faculdade, escolheu o fenômeno da modificação física das travestis como tema para um documentário que serviu de trabalho de conclusão de curso.

Desde então, nunca mais parei de ler sobre as questões LGBT e meu interesse no tema ficou conhecido entre os amigos e colegas de profissão. Sempre escolhia pautas relacionadas por conhecer um pouco do tema e saber tratar com o devido cuidado e respeito. Foi o suficiente para que Paulo Oliveira me indicasse para a coluna.


  1. A DIVERSIDADE SEXUAL

Como parte importante e essencial à análise de conteúdo da coluna escrita por Juracy dos Anjos, a Gmaiúsculo, discutiremos neste capítulo a diversidade sexual humana, tendo em vista que esta é a temática da referida seção semanal do Massa!, cujo público-alvo é a porção não heterossexual de leitores do jornal. Dividirmos esta discussão em tópicos, como de forma a simplificar a apresentação de conceitos concernentes a este complexo tema.


    1. A HOMOFOBIA

Os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), documento aprovado em 1948 na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e do qual o Brasil é signatário, determinam que todos os seres humanos têm direito de serem tratados com igualdade e dignidade e condenam toda forma de discriminação. Em seu artigo I, a DUDH estabelece que: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade”. (DUDH, 1948). Já o artigo II estabelece que:
Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. (DUDH, 1948).
Fundamentados na DUDH, os direitos humanos são caracterizados pela Anistia Internacional como “direitos e liberdades a que todos têm direito, não importa quem sejam nem onde vivam. (...) Os direitos humanos não precisam ser conquistados – eles já pertencem a cada um de nós, simplesmente por sermos seres humanos”. Segundo a organização, a Declaração é um compromisso dos países signatários de se comprometerem com a garantia da dignidade humana, para que as pessoas vivam em “liberdade, segurança e um padrão de vida decente”.

De forma bastante semelhante, o artigo 5º da Constituição Federal Brasileira afirma que



“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes”. Mais especificamente, o inciso X determina que: “X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”.

Apesar de ambos os documentos decretarem a igualdade entre os seres humanos, sabe-se que constantemente gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) são discriminados, agredidos e assassinados pelo simples fato de divergirem do padrão sexual heteronormativo imposto. A homossexualidade é ilegal em 78 países, principalmente na África, no Oriente Médio e no Caribe, punível com prisão perpétua ou até pena de morte – foi o que concluiu o “Relatório sobre Homofobia Patrocinada pelo Estado”, publicado em maio de 2012 pela Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (ILGA).


No Brasil, os membros da comunidade LGBT já conquistaram direitos que os permitem: fazer cirurgia de mudança de sexo (transgenitalização) pelo Sistema Único de Saúde (SUS); utilizar, por parte de estudantes e/ou servidores públicos federais travestis e transexuais, seus nomes sociais nos documentos internos na escola (Ceará) ou no local de trabalho (Rio Grande do Sul); incluir o companheiro(a) como dependente na declaração do Imposto de Renda; receber pensão do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) em caso de morte do cônjuge; registrar união estável; incluir o nome do parceiro (a) na identidade militar.
Na contra mão da ampliação de direitos civis, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados deu passos para trás em 2013. Enquanto foi presidida pelo deputado federal e pastor evangélico Marco Feliciano, eleito pelo Partido Social Cristão (PSC/SP), entre 7 de março e 18 de dezembro, a Comissão aprovou, em 18 de junho, o projeto que autoriza a chamada “cura gay”. A proposta permitia o tratamento por psicólogos de pessoas que quisessem “reverter” a homossexualidade. No dia 2 de julho, o próprio autor do projeto, o deputado João Campos, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB/GO), requereu que a pauta fosse retirada de tramitação.
Enquanto isso, a criminalização da homofobia, a maior bandeira dos indivíduos que não se enquadram no padrão sexual heteronormativo, ainda não foi aprovada. O Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122 tramita na Câmara de Deputados desde 2006 sem muitos avanços, o que fez com que a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República apresentasse, em 2 de abril de 2012, o texto inicial de um substitutivo. Mais enxuto, o texto classifica como crimes de ódio e intolerância os crimes contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.
Ódio e intolerância têm motivado centenas de homicídios a pessoas homossexuais no Brasil. Há mais de trinta anos, o Grupo Gay da Bahia (GGB) cataloga notícias sobre assassinatos homofóbicos no país. No Relatório Anual de Assassinato de Homossexuais (LGBT), relativo a 2012

foram documentados 338 assassinatos de gays, travestis e lésbicas no Brasil, incluindo duas transexuais brasileiras mortas na Itália. Um assassinato a cada 26 horas! Um aumento de 27% em relação ao ano passado [2011] (266 mortes). (...) Os gays lideram os “homocídios”: 188 (56%), seguidos de 128 travestis (37%), 19 lésbicas (5%) e 2 bissexuais (1%). Em 2012 também foi assassinado brutalmente um jovem heterossexual na Bahia, confundido com gay, por estar abraçado com seu irmão gêmeo.

Mas como definir a homofobia, esse fenômeno que resulta em uma série de mortes, no Brasil e no mundo, ano após ano? Os relatos de violência física e verbal aos indivíduos não heterossexuais da sociedade indicam um ódio extremo a estas pessoas. De acordo com o professor Marco Aurélio Máximo Prado, em prefácio à edição brasileira da obra Homofobia: história e crítica de um preconceito (BORRILLO, 2010), quando foi cunhado, em 1972, o termo “homofobia” significava o “medo expresso por heterossexuais de estarem em presença de homossexuais” e, desde então, passou por uma série de ressignificações (BORRILLO, 2010, p.7).
Além de ser empregado em referência a um conjunto de atitudes negativas (aversão, desprezo, ódio ou medo) em relação a homossexuais, o termo, pouco a pouco, passou a ser usado também em alusão a situações de preconceito, discriminação e violência contra pessoas LGBT. Passou-se da esfera estritamente individual e psicológica para uma dimensão mais social e potencialmente mais politizadora (BORRILLO, 2010, p. 8)
Desta forma, Prado afirma que tendo a homofobia adquirido uma dimensão mais social, seus requintes estão condicionados a cada cultura e formas de organização das sociedades locais. (BORRILLO, 2010, p. 9). Para ele, “pensar a homofobia exige-nos compreender essas práticas do preconceito não como meramente individuais, mas, sobretudo, como consentimentos das práticas sociais, culturais e econômicas que constituem uma ideologia homofóbica”. (BORRILLO, 2010, p. 10).
De acordo com Daniel Borrillo, intelectual argentino autor da obra, a homofobia é “uma manifestação arbitrária que consiste em designar o outro como contrário, inferior, ou anormal; por sua diferença irredutível, ele é posicionado à distância, fora do universo comum dos humanos”. (BORRILLO, 2010, p. 13). Isto seria, segundo ele, uma consequência direta da hierarquização das sexualidades, conferindo um status superior à heterossexualidade e situando-a no plano do natural, do que é evidente. (BORRILLO, 2010, p. 15).



    1. A HETERONORMATIVIDADE

A partir de suas reflexões, Judith Butler, norte-americana pioneira nos estudos queer, mostrou que o “sexo” é uma categoria normativa, que funciona como uma norma e governa os corpos, para materializar a diferença sexual a serviço da consolidação do imperativo heterossexual:


A categoria do “sexo” é, desde o início, normativa: ela é aquilo que Foucault chamou de “ideal regulatório”. Nesse sentido, pois, o “sexo” não apenas funciona como uma norma, mas é parte de uma prática regulatória que produz os corpos que governa (...) Assim, o “sexo” é um ideal regulatório cuja materialização é imposta: esta materialização ocorre (ou deixa de ocorrer) através de certas práticas altamente reguladas. (BUTLER, 1999, p. 151)
E já que Butler citou Foucault, é indispensável mencionar o poder, que “está em toda parte” (FOUCAULT, 1999, p. 89), inclusive na sexualidade. Em História da Sexualidade I: Vontade de saber, o pensador percorre uma longa trajetória histórica mostrando de que forma o sexo foi estimulado, entre os séculos XVIII a XX, e não reprimido, como se acredita. Com isso, o discurso sobre o sexo “trouxe consigo interditos e privações, ele garantiu mais fundamentalmente a solidificação e a implantação de todo um despropósito sexual” (FOUCAULT, 1999, p. 53).
Estes interditos e privações estariam ordenados “no sentido de afastar da realidade as formas de sexualidade insubmissas à economia estrita da reprodução” (FOUCAULT, 1999, p. 37). Para ele, estas práticas seriam as atividades infecundas, os prazeres paralelos, as práticas que não têm como finalidade a geração. Estéreis, as relações gays estariam, então, nesse rol de sexualidades indesejadas da sociedade. E como seria caracterizado esse “poder”? Segundo Foucault, não seria em termos de repressão ou de lei, não postularia a soberania do Estado, ou a unidade global de uma dominação;
estas são apenas e, antes de mais nada, suas formas terminais. Parece-me que se deve compreender o poder, primeiro, como a multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de força encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistemas ou ao contrário, as defasagens e contradições que as isolam. (FOUCAULT, 1999, p. 88)

Para Butler, então, este poder é exercido por meio da heterossexualidade compulsória ou heteronormatividade: “A heterossexualidade compulsória e o falocentrismo são compreendidos como regimes de poder/discurso com maneiras frequentemente divergentes de responder às questões centrais do discurso do gênero” (BUTLER, 2003, p. 10). As reflexões sobre gênero, por sua vez, é um dos principais legados de Butler para os estudos sobre a sexualidade. De acordo com ela, o conceito de gênero está submetido a uma estrutura binária masculino/feminino, sobre o qual o poder opera na produção desta estrutura. (BUTLER, 2003, p. 8). De forma semelhante, “sexo”, “corpo” e “desejo” também estariam submetidos à uma estrutura binária.


A pensadora afirma que sendo o gênero culturalmente construído, ele não é, consequentemente, nem o resultado causal do sexo, nem tampouco tão aparentemente fixo quanto o sexo. Quanto aos corpos, mesmo que haja um binarismo na morfologia destes – o que é questionável – não há motivo para supor que os gêneros também devam permanecer em número de dois. (BUTLER, 2003, p. 24). A morfologia binária dos corpos seria, questionada, então, nos casos, por exemplo, dos intersexuados, que no passado eram conhecidos como “hermafroditas”: “É o termo geral adotado para se referir a uma variedade de condições (genéticas e/ou somáticas) com que uma pessoa nasce, apresentando uma anatomia reprodutiva e sexual que não se ajusta às definições típicas do feminino ou do masculino”.
A hipótese de um sistema binário dos gêneros encerra implicitamente a crença numa relação mimética entre gênero e sexo, na qual o gênero reflete o sexo ou é por ele restrito. Quando o status construído do gênero é teorizado radicalmente independente do sexo, o próprio gênero se torna um artifício flutuante, com a consequência de que homem e masculino podem, com igual facilidade, significar tanto um corpo feminino como um masculino, e mulher e feminino, tanto um corpo masculino como um feminino. (BUTLER, 2003, p. 24 e 25).

Borrillo também explica, em outras palavras, a estrutura deste pensamento, afirmando que sexismo e homofobia aparecem, portanto, como componentes necessários do regime binário das sexualidades:


A diferença homo/hétero não é só constatada, mas serve, sobretudo, para ordenar um regime das sexualidades em que os comportamentos heterossexuais são os únicos que merecem a qualificação de modelo social e de referência para qualquer outra sexualidade. Assim, nessa ordem sexual, o sexo biológico (macho/fêmea) determina um desejo sexual unívoco (hétero), assim como um comportamento social específico (masculino/feminino). (BORRILLO, 2010, p. 16).

Sendo assim, este sistema estabeleceu a heterossexualidade como norma, no que se chamou de heteronormatividade ou, como mencionou Butler (2003), a heterossexualidade compulsória. A norte-americana explica que isso gera o que ela definiu como gêneros “inteligíveis”, que são aqueles que “instituem e mantêm relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo”. (BUTLER, 2003, p.38). Aqueles que, portanto, estão em algum espectro de “descontinuidade e incoerência” (BUTLER, 2003, p.38), aqueles que “não aderem à ordem clássica dos gêneros: travestis, transexuais, bissexuais, mulheres heterossexuais dotadas de forte personalidade, homens heterossexuais delicados ou que manifestam grande sensibilidade...” (BORRILLO, 2010, p. 16), acabam sofrendo as consequências da violência homofóbica nos grupos intolerantes à diversidade sexual.


Nesse sentido, para se protegerem da hostilidade alheia, o “armário” funciona como um dispositivo de regulação de si para enquadrar-se à hegemonia heterossexista. “Mesmo num nível individual, até entre as pessoas mais assumidamente gays há pouquíssimas que não estejam no armário com alguém que seja pessoal, econômica ou institucionalmente importante para elas”. (SEDGWICK, 2007, p. 23). Conforme concluiu Eve Kosofsky Sedgwick, o armário, ainda que reprima os as necessidades representacionais íntimas do indivíduo, proporciona uma maneira de existência menos extorsiva do que àquelas possíveis em sociedades cujas culturas, fortemente heterossexista, podem levar a pessoa até ao corredor da morte, como vimos nas paginas anteriores em países do Oriente Médio.

  1. ANÁLISE DAS COLUNAS

No presente trabalho, observamos 12 edições da coluna Gmaiúsculo, produzida pelo jornalista Juracy dos Anjos e destinada aos leitores não heterossexuais do jornal popular Massa!, onde é publicada semanalmente. Para observar a coluna, cuja temática é a diversidade sexual, utilizamos a metodologia “análise lexical de uma amostra”, um dos métodos da Análise de Conteúdo e descrita por Laurence Bardin (2011). De acordo com o referido método, as palavras devem ser contadas para que se constate a frequência delas, classificadas entre ‘palavras plenas’ e ‘palavras-intrumento’ e assim inferir sentidos a respeito do conteúdo do corpus selecionado.

Desta forma, sete publicações de 2012 – 1º de junho, 6 de julho, 3 de agosto, 7 de setembro, 5 de outubro, 2 de novembro e 7 de dezembro – e cinco de 2013 – 4 de janeiro, 25 de janeiro, 1º de março, 5 de abril e 3 de maio, foram submetidas à contagem de palavras, de forma a confirmar ou refutar nossas hipóteses previamente detalhadas. Foi constatado um total de 1.119 palavras ou expressões (totalizando 3.555 repetições), sendo que foram levadas em consideração nesta análise 421 delas (totalizando 2.854 repetições), pois correspondem àquelas utilizadas nas colunas no mínimo duas vezes.

A partir daí, os vocábulos foram classificados em duas categorias: palavras plenas, ou seja, palavras que portam sentido, a saber substantivos, adjetivos, verbos; e palavras-instrumento, que funcionam como ligação, sendo elas artigos, preposições, pronomes, advérbios, conjunções, etc. É importante mencionar que algumas palavras foram agrupadas como expressões por adquirem sentido especial na temática da diversidade sexual quando estão juntas. Neste aspecto, alguns exemplos que podemos citar são: cura gay, drag queen e casamento civil igualitário.

Das 421 palavras consideradas para análise, foram encontradas 352 palavras plenas que se repetiram pelo menos duas vezes ao longo das 12 colunas Gmaiúsculo selecionadas, resultando em 1353 ocorrências. Começando então pela análise de verbos, percebe-se que no topo deste ranking está, disparado, o verbo ser (94 ocorrências), se comparado ao segundo lugar de palavras plenas, o termo gay(s) (44).

Assim como ocorre nesta monografia, a pesquisadora francesa Bardin, em um estudo sobre dez horóscopos da revista Elle, afirmou que “o verbo ser aparece em primeiro lugar na lista das palavras plenas e também aparece em primeiro plano no Trésor de la Langue Française [TLF], assim como nos artigos da jornalista F. Giroud” (2011, p. 85).

Enquanto Bardin utiliza-se, naturalmente, de referências na língua francesa, sendo o TLF um dos dicionários mais completos do idioma, contando com cem mil palavras, nos baseamos, nesta pesquisa, nos trabalhos da lexicóloga paulista Maria Teresa Camargo Biderman, ao tratarmos da variedade brasileira da língua portuguesa. Contagens de palavras são o centro dos estudos de Estatística Léxica ou Lexicoestatística, uma das especialidades da teórica, dos quais alguns conhecimentos foram também levados em conta nesta monografia.

Em um de seus trabalhos, Biderman construiu o Dicionário de Freqüências do léxico do português brasileiro contemporâneo e, para tanto, “baseou-se num corpus de língua escrita, variedade brasileira de 5 milhões de palavras (1950 a 1990)” (1998, p. 161). Os resultados de seu trabalho indicaram que “apenas 42.212 unidades léxicas diferentes totalizaram os 5 milhões de ocorrências do corpus, excluídos topônimos e antropônimos” (1998, p.161).

Os estudos da especialista apontaram resultados bastante semelhantes aos nossos, conforme se pode observar na nossa tabela de palavras mais recorrentes dentre as 12 edições da coluna Gmaiúsculo.

A lista dos verbos mais frequentes é encabeçada pelos auxiliares ser, estar, ter. Até o verbo ir registrou um elevado número de valores modais e aspectuais, razão para estar também nos primeiros lugares da hierarquia dos verbos usuais. Constam dessa lista ainda verbos modalizadores como poder, ou vicários, e/ou suportes como fazer, dar; entre os de significação plena apenas dizer, falar, olhar e ver. (BIDERMAN, 1998, p 174).
Sobre este fenômeno, a lexicóloga explica que estes verbos “registram altíssima frequência por serem reiterados continuamente no texto. Dada a centralidade do verbo na articulação do discurso, é normal a enorme repetição dessas palavras” (1998, p. 174). Biderman considera palavras de altíssima frequência no português brasileiro as que foram encontradas pelo menos 500 vezes em seu corpus (1998, p. 167).

Neste momento, é oportuno ainda analisar o topo da lista das palavras instrumentais, compostas por artigos, pronomes, preposições, contrações de preposições (do, dos, da, das, no, nos, na, nas), advérbios, conjunções. Das 68 palavras-instrumento que se repetiram pelo menos duas vezes no corpus de análise desta monografia, acumulando 1500 ocorrências, apenas os cinco primeiros agrupamentos foram responsáveis por 790 das ocorrências, ou seja, mais da metade concentram-se entre as cinco primeiras posições dentre as mais frequentes da lista.

Sobre estas palavras plenas e instrumentais, esmagadoramente mais frequentes tanto nesta pesquisa quanto no Dicionário de Freqüências, Biderman explica: “Estas palavras constituem o núcleo do vocabulário do português e podem ser consideradas como essenciais para a comunicação neste idioma”. (1998, p. 168). Por isso, as evidências levam a crer que os verbos do topo da lista, mesmo sendo os verbos palavras portadoras de sentido, não revelam significados especiais que podem ser interpretados considerando, especificamente, o conteúdo sobre diversidade sexual que é próprio da coluna Gmaiúsculo. O mesmo acontece com as palavras instrumentais, não só comuns como essenciais em qualquer discurso, porém, por definição, vazias de significado.

Apesar de concordamos que a reincidência da maioria dos verbos presentes no topo da lista não contenha significado especial, assim como apontado por Biderman, acreditamos que a reincidência do verbo “ser” no material analisado se contrapõe à regra geral. Observamos que a recorrência da expressão é acompanhada de forte cunho ideológico, já que por meio dela os públicos gay, bissexual, transexual e transgênero têm as suas respectivas orientações sexuais apontadas como condições de existência.

Em nenhum dos textos analisados, por exemplo, aparecem expressões do tipo: “tornou-se gay”, “virou gay”, “era gay”, frases recorrentes no senso comum. Desta forma, reconhecemos que a notável repetição do termo “ser” denota o intuito político da coluna no que diz respeito àquela que é considerada a sua missão: falar sobre o orgulho de cada um ser o que é (no caso, dignificar o orgulho de ser gay).

Após concluir os comentários sobre as palavras – plenas e instrumentais – que estão posicionadas no topo da lista de termos mais frequentes, iniciamos as reflexões sobre palavras que, diante da temática da diversidade sexual podem, de fato, indicar interpretações. Nesse sentido, salta aos olhos a 2ª colocação, na lista de palavras plenas, o termo gay(s) (44), o único não verbo dentre as sete primeiras palavras plenas mais frequentes.

O vocábulo, que pode, a depender da construção textual, ora ser classificado como substantivo, ora como adjetivo, é um caso de homonímia. Supomos, então, que esta é uma das razões que indicam a sua elevada incidência nas colunas, mas não a única, conforme será detalhado nas próximas linhas.

O referido termo – gay(s) (44) – é o primeiro na lista de palavras plenas dentre os que se referem a denominações de diferentes orientações sexuais ou identidade de gênero. O segundo deles é homossexual (ais) (11), na 11ª posição, e o terceiro é travesti (s) (8), na 16ª posição. O quarto, o quinto e o sétimo termos, hétero (s) (6), lésbica (s) (6) e transexual (ais) (6), apesar de terem sido mencionados a mesma quantidade de vezes ao longo do corpus, estão nas posições 40ª, 42ª e 49ª, respectivamente, por causa da ordenação alfabética. Devido à sua baixíssima quantidade de menções, o oitavo termo, bissexual (ais) (2), ficou na 206ª posição. Já o termo transgênero não foi citado nenhuma vez nas 12 edições da coluna Gmaiúsculo selecionadas.

A partir desta sistematização de dados, podemos fazer algumas análises. Na lista, percebe-se que os dois primeiros termos referentes a denominações de diferentes orientações sexuais ou identidade de gênero – gay(s) (44) e homossexual (ais)(11) referem-se à mesma porção de indivíduos não heterossexuais. Sinônimos, os termos definem os indivíduos que “se sentem atraídos sexual, emocional ou afetivamente por pessoas do mesmo sexo/gênero”, segundo conceito do Manual de Comunicação LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, realizado pela Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais,Travestis e Transexuais (ABGLT).

A alta incidência – 55 ocorrências, portanto – não surpreende, tendo em vista a temática central da coluna objeto dos estudos. Por outro lado, entretanto, considerando os baixos números indicadores do uso de vocábulos que denominam outras orientações sexuais ou identidades de gênero não heterossexuais, percebe-se que há uma discrepância na quantidade de menções aos transgêneros, que abrange travestis e transexuais, e também aos bissexuais. Consideramos que as lésbicas já são contempladas na fatia mais mencionada, pois, a rigor, são homossexuais/gays por definição; o vocábulo apenas consiste em um termo específico para as mulheres.

Então, somando-se os números, são 55 menções a gays/homossexuais (ou 61, se adicionarmos ainda o número de menções a lésbicas) contra 14 a travestis/transexuais e 2 a bissexuais. Assim, enquanto gays/homossexuais são frequentemente mencionados nas colunas, o que inclui, ainda, a população lésbica, os grupos trans e os bissexuais não o são na mesma medida ou em numero menos destoante. Vale ressaltar que expressões como cura gay, Babilônia gay, ou nome de instituições como Grupo Gay da Bahia ou competições como 18º Concurso Miss Brasil Gay, por exemplo, não foram contabilizados nas menções a gay/gays, constando, cada um deles, em categorias próprias.

Estes números, portanto, percebidos graças à contagem de palavras, confirmam uma de nossas hipóteses iniciais: a de que travestis, transexuais e bissexuais dispõe de menos atenção nas edições da Gmaiúsculo do que gays/homossexuais. Levantamos, então, algumas suposições para explicar tal acontecimento. Além do já citado fato de que a palavra gay pode funcionar tanto como substantivo como adjetivo, o que contribuiria para o aumento do uso desse termo, indicamos o fator demográfico como mais um dos motivos que tornam a menção a gays/homossexuais mais preponderante nas amostras da coluna.

Quanto aos dados demográficos, a pesquisa Mosaico Brasil, realizada pelo Projeto Sexualidade (Prosex), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, chegou a algumas estatísticas em relação aos homossexuais e bissexuais brasileiros. A pesquisa, divulgada no final de 2008, entrevistou 8.200 pessoas em dez capitais do país, entre elas Salvador, e encontrou os seguintes resultados:


Média Geral das 10 capitais pesquisadas (2008)
Homens: 
7,8% homossexuais 
2,6% bissexuais 
Total: 10,4% 
Mulheres: 
4,9% homossexuais 
1,4% bissexuais 
Total: 6,3%

De acordo com as estatísticas acima, percebe-se que o número de homossexuais, homens ou mulheres, é três vezes maior que o de bissexuais. Não foram encontrados dados demográficos a respeito das populações travestis e transexuais no país, o que indica uma invisibilidade desses grupos em âmbito de pesquisa. De volta aos resultados da nossa própria investigação, supomos ainda que a orientação sexual do próprio colunista Juracy dos Anjos possa também ter influenciado a produção de conteúdo em suas colunas e elevado as menções a gays/homossexuais.

Por outro lado, os termos gays/homossexuais acabam sendo utilizados como uma nomenclatura geral para referir-se àquele indivíduo que não se enquadra aos padrões heteronormativos, seja por causa da sua orientação sexual ou por sua identidade de gênero. Conforme o próprio Juracy mencionou em entrevista presencial concedida a nós, a Gmaiúsculo “é uma coluna para o público gay e eu entendo gay não só como gay masculino, mas a homossexualidade de uma forma geral, e isso inclui os gays, as lésbicas, e os transgêneros, ou seja, travestis e transexuais”.

Desta forma, sendo este o pensamento do colunista, provável que ele tenha utilizado, em suas colunas, o termo gay/homossexuais generalizando todas as pessoas que não sejam heterossexuais. A possível comodidade do termo, entretanto, pode gerar um desconforto e uma sensação de ainda mais exclusão entre as pessoas trans, reforçado, ainda, pela inexistência da palavra transgênero nesta amostra de textos.

Especial caso, ainda, é o baixíssimo número de menções aos bissexuais no corpus desta pesquisa: 2. Das 12 edições selecionadas da coluna e seus diversos conteúdos noticiosos, apenas dois referem-se a bissexuais e, em uma delas, o faz de forma pouco construtiva. O primeiro deles, publicado na edição de 6 de julho de 2012, levanta a suspeita da bissexualidade de Mahatma Gandhi. Uma nova biografia revelou que o líder indiano teria tido um relacionamento com um homem alemão. Ao se utilizar da gíria “bafão”, própria do universo gay, o colunista presta a informação em tom de fofoca e polêmica, visto que a expressão significa “escândalo, ‘babado’ forte, notícia quente”. Já no segundo caso, de 3 de agosto de 2012, o jornalista conta que Preta Gil se arrependeu de ter contado que é bissexual por causa da repercussão pública negativa.

Sobre a bissexualidade, ainda na entrevista concedida especialmente para esta investigação, Juracy dos Anjos afirmou:

Penso que, por exemplo, quando um homem está namorando uma mulher, ele não encara a identidade do bissexual, mas a do heterossexual; e quando está com um homem, ao contrário, ele aceita a identidade homossexual. De fato, eu abordo muito pouco sobre esse tema [bissexualidade]. Acabo optando pela parcela do universo LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais] mais discriminada, que sofre mais as consequências da discriminação. Se pensarmos na luta por mais direitos, vemos que ela está mais voltada para o público homossexual. Então, a gente acaba abordando mais esta temática, apesar de que o bissexual acaba usufruindo dos benefícios das leis que beneficiam os homossexuais.
Para finalizar as reflexões sobre as menções no corpus de cada uma das possíveis sexualidades humanas, com a sua variedade de orientações sexuais e identidades de gênero, citamos ainda a incidência das expressões LGBT/LGBTs (6) e drag queen/drag queens/drag (3). Outras palavras e expressões que estão ou podem estar relacionadas ao universo da diversidade sexual, presentes nas colunas no mínimo duas vezes, foram: sexo (7), diversidade (4), diverso/diversa (4), sexualidade (3), identidade sexual (2) e minoria (2). Sendo assim, ao somarmos todos esses números acima, que quantificam as menções de expressões referentes às diversas sexualidades, encontramos um total de 22 ocorrências.

Voltamos, então, a comentar sobre algumas das palavras plenas seguintes que chamaram atenção, como Grupo Gay da Bahia/GGB (12), “a mais antiga associação de defesa dos direitos humanos dos homossexuais no Brasil”. A instituição é uma das principais vozes presentes nas colunas Gmaiúsculo, principalmente na luta contra a homofobia/transfobia. Nos textos de Juracy, o GGB é a autoridade que mais se posiciona contra os crimes homofóbicos, registrando os casos de violência sofridos pelos não heterossexuais, na Bahia e no Brasil.

Exemplos disso são as notas na Gmaiúsculo de 6 de julho e de 7 de dezembro de 2012: na primeira data, a coluna informa que 165 homossexuais foram assassinados nos seis primeiros meses de 2012, segundo o levantamento do GGB; já na segunda, a publicação comenta o caso de agressão sofrida pelo jovem Bruno Iago, em Camaçari. Outra nota que dá destaque aos trabalhos do GGB é a de 1º de março de 2013, na qual menciona o ato da associação de conceder títulos honorários a 20 militantes da causa da diversidade sexual, ao completar 33 anos de existência.

E, por fim, mas não menos importante, o GGB também tem sido, nas linhas da Gmaiúsculo, instituição oficial de repúdio, na Bahia, a pastores evangélicos como Silas Malafaia e Marco Feliciano, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e do Ministério Tempo de Avivamento, respectivamente. Na coluna de 7 de setembro, o jornalista informa que a instituição fez uma campanha para que Silas Malafaia (2) não receba o título de cidadão soteropolitano, conforme indicado pela Câmara Municipal de Salvador, por meio do vereador e pastor Héber Santana, eleito pelo Partido Social Cristão (PSC/BA).

De forma semelhante, o GGB também se posiciona contrariamente a Marco Feliciano. Em nota de 3 de maio de 2013, Juracy dos Anjos noticia que, naquele mês, a associação iria abrigar a exposição “Fora Feliciano”, com cartuns e charges para “registrar a indignação nacional e exigir a renúncia do parlamentar”. Na referida edição da coluna, uma das charges da exposição ilustram o texto: na imagem do cartunista Ique, Feliciano, em corpo de mulher que veste apenas uma calcinha, segura um drink e, olhando de lado, sai de um armário. Porém, Marco Feliciano não está presente na Gmaiúsculo apenas em notas relacionadas ao GGB.

O pastor, eleito deputado federal pelo estado de São Paulo, também pelo PSC, aparece mais uma vez na coluna de 3 de maio de 2013. Desta vez no texto principal do espaço jornalístico, o assunto é o retorno à pauta de discussões da Câmara dos Deputados o projeto de decreto legislativo 234/2011, que versa sobre a cura gay/cura (4). O jornalista, então, transparece uma forte indignação no seu discurso: “(In)Feliciano começa a mostrar as garras da homofobia. [...]Quem ainda não abraçou a ‘luta’ contra Feliciano, faça-o! Não podemos deixar que atos insanos contra os direitos humanos prossigam”. Vale ressaltar que o colunista mostra mais aversão ao escrever sobre Feliciano do que sobre Malafaia, se compararmos este texto àquele denominado “Não ao título de cidadão de Salvador ao pastor Silas Malafaia”, no qual brandamente chama o pastor de “crítico dos direitos dos gays”, sendo ele um dos maiores inimigos públicos da comunidade não heterossexual.

Outras menções a Feliciano foram feitas no texto de 5 de abril, no qual o colunista dedica o espaço para parabenizar Daniela Mercury/Daniela (7) que, apenas dois dias antes, publicara uma foto com a companheira Malu Verçosa, divulgando o romance entre as duas. Na coluna, o jornalista opina que o ato tem um importante papel no momento que o país se encontra, ao ter o “pastor homofóbico e racista” Marco Feliciano como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Foram reunidas em uma só categoria todas as menções, diretas ou indiretas, ao pastor-deputado: Marco Feliciano/Feliciano/(In)Feliciano/Fora Feliciano (10).

Outras menções relacionadas à temática religiosa são: pastor (4), religioso (4), Jesus Cristo/Jesus (2), Moysés Macedo (2) e Edir Macedo (1). A nota que cita Jesus Cristo, de 5 de outubro de 2012, parece ser a mais polêmica de todo o corpus. Nela, o colunista apresenta um trabalho da artista sueca Elisabeth Ohlson Wallin inspirado na obra A Última Ceia, de Leonardo da Vinci. A grande diferença entre as duas peças é que, na contemporânea, Jesus e cada um de seus 12 apóstolos estão travestidos, como “trans montadíssimas”. Juracy já inicia seu texto adiantando que o tema rende muita polêmica e que a obra, por misturar religião com sexualidade, foi chamada de “profana e ‘maldita’ ”.

A nota que cita Moysés Macedo e Edir Macedo, de 3 de maio de 2013, informou que, segundo o site Fuxico Gospel, o filho do pastor fundador da Igreja Universal do Reino de Deus assumiu-se gay. Em certo tom de satisfação e revanche, o colunista vibra com o rumor da homossexualidade do jovem, sendo ele filho de uma pessoa que é radicalmente contrária a tudo que se refere aos não heterossexuais. Irônico, Juracy claramente diverte-se com a informação e utiliza expressões como “bomba colorida”, “aos olhos do pai”, bem como adjetivos no superlativo ou diminutivo (comuns no vocabulário gay) “gay assumidíssimo”, “educadíssimo”, “afirmado de pés juntinhos”.

A referida nota também é exemplo de utilização de gírias: além de bafo/bafão (2) citados acima, juntos/juntinhos (3), assumidíssimo (2), o que totaliza 7 usos. Sendo assim, o número de ocorrências de palavras ou expressões relacionadas à religião totaliza 29: Silas Malafaia (2), cura gay/cura (4), Marco Feliciano/Feliciano/ (In)Feliciano/Fora Feliciano (10), pastor (4), religioso (4), Jesus Cristo/Jesus (2), Moysés Macedo (2) e Edir Macedo (1).

Outro grande – e claramente o maior – agrupamento de palavras e expressões refere-se ao campo político. Distribuídas em subgrupos, o tema domina as edições da Gmaiúsculo observadas:

I – Subgrupo Direitos e Atos Políticos: luta (8), campanha (7), direito (7), afirmar (6), casamento civil gay igualitário/ casamento civil gay/ casamento civil igualitário (3), defender (3), defesa (3), igualdade (3), movimento (s) (3), população (3), causa (4), sair do armário (2). Subtotal: 52 ocorrências.

II – Subgrupo Preconceitos: discriminação (3), homofóbico/homofóbica (3), crimes (2), mortes (2), polêmica (2), preconceito (2), vítima (s) (2). Subtotal: 16 ocorrências.

III – Subgrupo Espaços Políticos: Congresso Nacional/Congresso (3), Câmara dos Deputados (2), Câmara Municipal/Câmara (2), Comissão de Direitos Humanos (2), Comitê (2), mandato (2). Subtotal: 13 ocorrências.

IV – Subgrupo Figuras Políticas: Hamilton Assis/Hamilton (2), Márcio Marinho/Marinho (2), Mário Kertesz/Kertesz (2), Nelson Pelegrino/Pelegrino (2), Rogério da Luz/Da Luz (2), políticos (2). Subtotal: 12 ocorrências.

Sendo assim, somando-se todos os subtotais, encontramos um total de 93 repetições de palavras ou expressões relacionadas à política, dentro da temática da diversidade sexual da coluna Gmaiúsculo.

Por fim, observando os bairros e as casas noturnas mais recomendados por Juracy dos Anjos, percebemos os seguintes resultados: Rio Vermelho (5), Barra (5), centro da cidade (3), Off Club (3), Pituba (3), San Sebastian (3), Aflitos (local) (2), Amsterdam Pop Club (2), Beco dos Artistas (2) , Boate Tropical (2), Campo Grande (2), Garcia (2), Lapa (2), Ondina (2), Pelourinho (2) e The Hall (2).


CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo da coluna Gmaiúsculo, por meio da análise lexical das amostras, nos permitiu chegar a uma série de conclusões do produto. A primeira está relacionada à reincidência do verbo "ser" (94). Embora nas análises produzidas por nossos autores de referência, como Laurence Bardin e Maria Teresa Camargo Biderman, a expressão seja considerada um núcleo da língua portuguesa que é usado de forma reiterada sem apresentar sentido interpretativo diferenciado, para nós a repetição do termo fugiu da regra geral. 
Observamos que a recorrência da expressão é acompanhada de forte cunho ideológico, já que por meio dela os públicos gay, bissexual, transexual e transgênero têm as suas respectivas orientações sexuais apontadas como condições de existência. Neste sentido, reconhecemos que a notável repetição do termo “ser” denota o intuito político da coluna no que diz respeito àquela que é considerada a sua missão: falar sobre o orgulho de cada um ser o que é (no caso, dignificar o orgulho de ser gay).  
A pesquisa também nos mostrou que a reincidência da expressão gay (44), que pela temática da coluna já nos era previsível, pode ser explicada não só por questões de afirmação do grupo representado. Observamos que o vocábulo, a depender da construção textual, pode ser classificado ora como substantivo, ora como adjetivo, um claro caso de homonímia. Além disso, segundo afirmou o próprio colunista, ele entende “gay” – e naturalmente utiliza esse vocábulo desta forma – como um termo para referir-se à homossexualidade de forma geral; não só a homens homossexuais, mas também lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.
Desta forma, concluímos que as nossas hipóteses foram parcialmente confirmadas. A primeira hipótese, que consiste no maior espaço nas colunas para gays/homossexuais em detrimento de outras sexualidades como transgêneros (travestis e transexuais), foi comprovada por meio dos números: enquanto gays/homossexuais foram citados 55 vezes (ou 61, se adicionarmos ainda o número de menções a lésbicas), foram 14 citações a travestis/transexuais e 2 a bissexuais. Além disso, o termo transgênero não foi encontrado nenhuma vez ao longo das 12 edições selecionadas no concurso.

Já a segunda hipótese tem relação com os assuntos mais tratados pela coluna. Supomos inicialmente que o assunto mais frequente escolhido pela coluna é a conquista de direitos das populações cujas orientações sexuais divergem do padrão heteronormativo. Na verdade, nossos estudos apontaram um forte cunho político presente na coluna, de forma geral, com 93 casos de palavras ou expressões utilizadas, em oposição à segunda temática mais mencionada – religião – com 29 casos. Dentro da temática da política, as ocorrências foram tantas que tivemos que distribuí-las em quatro subgrupos, para melhor visualização dos resultados: Direitos e Atos Políticos, Preconceitos, Espaços Políticos e Figuras Políticas.

A nossa terceira hipótese levantou a possibilidade de o colunista utilizar amplamente gírias do universo gay nos seus textos, numa estratégia de aproximação com seu público específico, de forma semelhante ao que o próprio Massa! faz com seus leitores majoritariamente das classes C e D. Entretanto, ao constatar que ao longo dos 12 textos que compõem o corpus desta pesquisa foram utilizadas apenas 7 gírias, sendo estas não específicas do universo gay, concluímos que esta não é uma das estratégias – ao menos não frequentes – utilizadas por Juracy dos Anjos na Gmaiúsculo.

REFERÊNCIAS
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acesso em 08/01/14

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