Café, imigrantes e empresas no nordeste de São Paulo (Ribeirão Preto, 1890-1930)1 Coffee, immigrants and enterprises in the Northeast of São Paulo



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Café, imigrantes e empresas no nordeste de São Paulo

(Ribeirão Preto, 1890-1930)1
Coffee, immigrants and enterprises in the Northeast of São Paulo

(Ribeirão Preto, 1880-1930)

André Luiz Lanza (FEA-RP-SP)2

Universidade de São Paulo, Programa de Pós-Graduação Interunidades em Integração da América Latina PROLAM, São Paulo, SP, Brasil.


Maria Lúcia Lamounier (FEA-RP-SP)3

Universidade de São Paulo, Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, Departamento de Economia, Ribeirão Preto, SP, Brasil


Resumo
O trabalho examina as relações entre a expansão cafeeira e o crescimento das atividades industriais na região de Ribeirão Preto, São Paulo, entre 1890 e 1930. O cultivo do café foi introduzido no município na década de 1870 e em 1920 o município era segundo maior produtor do estado. A cultura cafeeira atraiu extensa população, nacional e imigrante, provocando modificações no cenário urbano, dinamizando os setores do comércio e serviços e contribuindo para o aumento da demanda por produtos manufaturados. O texto está dividido em três seções. A primeira analisa a contribuição da expansão cafeeira, da rede ferroviária e da imigração para o crescimento da população e das atividades urbanas em Ribeirão Preto. A segunda seção examina a evolução das atividades industriais no município no período. A terceira seção analisa os principais ramos industriais e a atuação dos empresários locais.
Palavras-chave: Café; Imigração; Industrialização; Empresários; Ribeirão Preto.


Abstract
This paper examines the relations between the coffee expansion of industrial activities in the region of Ribeirão Preto, São Paulo, between 1890 and 1930. The coffee growth was introduced in the region on the decade of 1870 and in 1920 the municipality was the second greatest producer in the state. The coffee culture ample population, national and immigrant, provoking modifications in the urban scenery, giving dynamism to the commerce and service sectors, contributing to the increase on the demand for manufactured products. The text is divided in three sections. The first analyzes the contribution of coffee expansion, railway net and immigration to the growth of population and urban activities in Ribeirão Preto. The second section examines the evolution of industrial activities in the municipality at the period. The third section analyzes the main industrial branches and the action of local entrepreneurs.
Key-words: Coffee; Immigration; Industrialization; Businessmen; Ribeirão Preto.

Introdução
O artigo examina o crescimento das atividades industriais no município de Ribeirão Preto, São Paulo, no período entre 1890 e 1930, destacando o papel significativo da expansão cafeeira e dos imigrantes no processo de industrialização do município.

A expansão cafeeira na região de Ribeirão Preto teve início a partir da década de 1870. A divulgação da excelência dos solos virgens de terra-roxa e a chegada dos trilhos da estrada de ferro da Companhia Mogiana em Ribeirão Preto, em 1883, atraíram diversos grupos de população, brasileira e estrangeira, em busca de trabalho e de terras para a lucrativa cultura do café e outros negócios. Pelos trilhos da Mogiana escoava-se a produção cafeeira até o Porto de Santos, que dali era exportado para as mais diversas partes do mundo; pelos mesmos trilhos chegavam os imigrantes europeus vindos para o trabalho nas lavouras de café. Os imigrantes, incrementando a população do município, impulsionaram diversos setores de comércio e serviços e transformaram o cenário urbano. Com seus hábitos culturais e alimentares, passaram a demandar produtos que até então eram escassos ou não eram produzidos localmente. Como muitos imigrantes vinham de seus países com conhecimentos técnicos, isso lhes permitia aventurarem-se no meio urbano-industrial, fabricando e atendendo às demandas de seus compatriotas.

O debate sobre a gênese e a expansão da indústria no Brasil é longo e complexo. O núcleo principal da controvérsia, que envolve as questões “se foi a crise das exportações que propiciou o crescimento da indústria” ou “se foi a expansão das exportações que garantiu condições propícias para o desenvolvimento industrial”, tem sido ampliado, procurando incorporar questões relacionadas às condições que propiciaram o desenvolvimento do capitalismo no Brasil e ao papel do Estado4. Afinal, como observa Saes (1989), o processo de industrialização “se traduz em relações complexas entre indústria, exportações e economia mundial que, em determinados momentos, passam por mudanças qualitativas fundamentais” (Saes, 1989, p. 36).

De um modo geral, e em meio às diversas interpretações, a bibliografia sobre as origens e crescimento das atividades industriais no Brasil na virada do século XIX para o XX continua conferindo destaque às relações entre a economia agroexportadora, especialmente a cafeeira, e a imigração5. Como observa Lewis (1991) a estabilidade política, a inserção na economia mundial, a modernização dos meios de transporte e comunicação, a entrada de capital estrangeiro e o aumento populacional por meio da imigração produziram um contexto social, jurídico e institucional que contribuiu para a expansão das manufaturas destinadas ao mercado interno. Paralelamente, a expansão do setor exportador de produtos primários, aliada à expansão do mercado de trabalho livre contribuiu direta ou indiretamente para orientar o fluxo migratório para o país, especialmente para São Paulo. Nas províncias em que se fixaram, os imigrantes influenciaram o crescimento populacional, o aumento da massa salarial, o desenvolvimento do mercado interno, dinamizando os setores de comércio e serviços e o aumento da demanda por produtos manufaturados (Lewis, 1991, p. 235-236; 245).

O artigo pretende contribuir para a discussão, examinando uma experiência regional de industrialização e procurando os nexos com os dois fatores, com a economia cafeeira e com a imigração. O período focalizado, 1890-1930, compreende os anos marcados pela rápida expansão cafeeira na região, pela chegada da ferrovia e dos imigrantes, pelo aumento da população; todos estes fenômenos apontam para relações importantes com possíveis transformações das atividades industriais. Em 1920, Ribeirão Preto alcançava o segundo lugar na produção cafeeira do estado de São Paulo e era um grande pólo de atração de imigrantes na região da Mogiana. Segundo Camargo (1981, p.126-127), entre 1901 e 1940, a região de Ribeirão Preto, Cravinhos, Sertãozinho e Pontal, recebeu 95.687, grande parte (61%) entre 1901 e 1920; a chegada de estrangeiros e migrantes nacionais no mesmo período contribuiu para um aumento de cerca de 72% da população da zona da Mogiana. A expansão da estrada de ferro da Companhia Mogiana provocava uma grande valorização das terras e abria novas perspectivas de negócios para aqueles que desejavam investir os capitais amealhados na atividade agro-exportadora.

O texto está dividido em três seções, além dessa introdução e de uma conclusão. A primeira seção analisa a contribuição da expansão cafeeira, da rede ferroviária e da imigração para o crescimento da população e das atividades urbanas em Ribeirão Preto. A segunda seção examina a evolução das atividades industriais no município no período. A terceira seção analisa os principais ramos industriais e a atuação dos empresários locais.

Para o exame do processo de diversificação das atividades industriais em Ribeirão Preto e dos setores que se destacaram ao longo do período, utilizamos, além de textos da bibliografia relevante, um conjunto de fontes documentais que inclui o Annuário Commercial do Estado de São Paulo de 1904, o Almanach Illustrado de Ribeirão Preto para o ano de 1913, as Estatísticas Industriais do Estado de São Paulo de 1928, 1929 e 1930, todos localizados fisicamente no Arquivo Histórico de Ribeirão Preto. Também foram consultadas as Estatísticas Históricas do Brasil: séries econômicas, demográficas e sociais de 1500 a 1988 do IBGE, localizada online na biblioteca do IBGE e o quinto volume, relativo à indústria, do Recenseamento do Brazil de 1920, localizado online.


  1. O café e os imigrantes em Ribeirão Preto

Segundo Bacellar e Brioschi (1999), a região da Mogiana teve sua ocupação pioneira marcada pela “antiga trilha do Anhangüera – o caminho e posterior Estrada de Goiás ou dos Goyazes”. Localizada no Nordeste Paulista, a área se estendia, “a Oeste, desde a linha formada pelos rios Mojiguaçu e Pardo, depois de sua confluência, até as divisas com o Estado de Minas Gerais” (Bacellar e Brioschi, 1999, p. 17).

Até meados do século XIX, a produção cafeeira da zona Mogiana era insignificante. Só a partir da década de 1870 ocorreu um crescimento da produção cafeeira na região, devido ao aumento do consumo e aos preços internacionais favoráveis. A alta fertilidade do solo e a excelência das terras para o cultivo do café, amplamente divulgadas na imprensa paulista, bem como o contínuo crescimento das linhas férreas que ligavam as zonas produtoras ao porto de Santos permitiram a rápida expansão cafeeira na região. Em 1886, a zona da Mogiana apresentava uma produção de café da ordem de 2.262.599 arrobas (21,81% da produção da província) o que a colocava em terceiro lugar entre as zonas produtoras da província. Em 1892, os maiores centros produtores de café se localizavam na Alta Mogiana, sendo representados pelos seguintes municípios: Ribeirão Preto, São Simão, Santa Rita do Passa Quatro, Franca, Ituverava, Jardinópolis, Batatais, Cravinhos, Nuporanga e Sertãozinho (Moraes, 1980, p; 18-25; Bacellar e Brioschi, 1999, p 124-127).

De acordo com Lamounier e Colistete (2011, p. 7), a região formada por estes municípios e incluindo Cajuru, Santo Antônio d’Alegria, Patrocínio do Sapucaí e Igarapava (antiga Santa Rita do Paraíso) correspondia, em 1905, a 20,1% da produção cafeeira, e 9,3% da população do estado de São Paulo (em 1907).

A região manteve-se em posição de destaque até as safras de 1914/15 a 1919/20. Pires (1994, p. 22) afirma que a Mogiana, segundo o censo de 1920, sozinha produzia mais de um terço do café colhido no estado de São Paulo. Após essa data, a Alta Mogiana passou a perder posição no estado e problemas climáticos, assim como o enfraquecimento do solo, levaram a uma diminuição da produtividade entre 1924/25 e 1929/30 (Bacellar e Brioschi, 1999, p 127).

Depois de passar em Casa Branca (1878) e em São Simão (1882), a estrada de ferro atingiu Ribeirão Preto em 1883. A Mogiana foi a “primeira artéria de penetração e possibilitou desenvolvimento rápido” da produção cafeeira na região de Ribeirão Preto, “assentando os trilhos em uma zona ainda mal povoada, mas já conhecida e balizada desde a época Colonial” (Monbeig, 1984, p. 174-175). Ao implantar seus trilhos, a Mogiana permitiu a integração dos cafezais dispersos ao mercado e, ao mesmo tempo, facilitou a comunicação, o desenvolvimento do comércio e de serviços para atender a população que ali se instalava.6 (Lamounier, 2010, p. 25; Bacellar e Brioschi, 1999, p. 121-123).



Tabela 1 - Indicadores de crescimento econômico do Estado de São Paulo: ferrovias, café e população (1870-1930)


Ano

Malha Ferroviária em km

Pés de Café

População do Estado São Paulo

1870

139

60.462.000

830.000

1880

1.212

69.540.000

1.107.000

1890

2.425

106.300.000

1.384.753

1900

3.373

220.000.000

2.282.279

1910

4.825

696.701.545

3.142.875

1920

6.616

826.644.755

4.628.720

1930

7.099

1.188.058.354

7.160.705




Fontes: Gifun (1972, p. 46); Saes (1996, p. 177-196); MINISTÉRIO DA INDÚSTRIA, VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS, Synopse do Recenseamento de 1890, (1898, p. 5, 129); MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, INDÚSTRIA E COMÉRCIO, Annuário Estatístico do Brasil 1º anno (1908-1912), Vol. 1 - Território e População (1916, p. 252-260); IBGE, Séries Estatísticas Retrospectivas Vol. 1 (1941, p. 5-8).





Em 1874, a “Capital do Café”, como era chamada Ribeirão Preto, contava com uma população de 5.552 pessoas; em 1886 esse total passou para 10.420. Em 1900, o município já contava com 59.195 habitantes; em 1920, era de 68.838. Na Alta Mogiana, em 1874, a população compunha-se de 45.829 habitantes. Em 1886, habitavam a região 63.229 pessoas. Menos de 15 anos depois, a população da Alta Mogiana apresentou um crescimento de mais de 290%, chegando a 186.165 habitantes em 1900; em 1920, a população praticamente dobrara, alcançando a cifra de 355.171. O município de Ribeirão Preto contava com 12,1% da população da Alta Mogiana em 1874, 16,5% em 1890 e mais de 30% em 1900, quando passou a ser o mais populoso da região. Em 1920 a participação declinou para 19,3% do total, mas Ribeirão Preto continuava a ser o município mais populoso da Alta Mogiana (Bacellar e Brioschi, 1999, p. 153; Santos, 2003, p. 5; Pinto, 2002, p. 3-5).

A expansão cafeeira na região coincide com o encaminhamento do processo de extinção gradual da escravidão, iniciado em 1871 com a aprovação da Lei do Ventre Livre e concluído em 1888 com a abolição definitiva da escravidão no país. Paralelamente, os governos do Império e da província examinavam fontes alternativas de mão de obra e promoviam políticas de incentivo à imigração. A partir de meados da década de 1880, os fazendeiros de café paulistas, com o auxílio do governo provincial, implantaram com êxito um esquema de importação e transporte de imigrantes que estabeleceu um fluxo contínuo de trabalhadores estrangeiros, em sua maioria de italianos, até aproximadamente 1920.7

Segundo Gifun (1972, p. 70-71), adicionalmente ao pagamento da passagem, o estado de São Paulo e o Governo Imperial começaram a “construir centros de recepção durante os anos de 1880 para prover ao imigrante uma estadia durante os vários dias entre o desembarque e sua colocação no interior”. Esse fato também foi registrado na revista “O Immigrante” (1908, p. 1) da Secretaria da Agricultura de São Paulo, publicada em quatro idiomas distintos e que tinha como objetivo “orientar (o imigrante), de um modo sincero e imparcial, tudo que diz respeito (...) ao meio agrícola, financeiro e econômico”:

o governo do Estado, de acordo com a lei N. 1045-C, concede especiaes favores a todo o passageiro de 3ª classe que desembarcar no porto de Santos e que, sendo agricultor, artista ou jornaleiro, queira se estabelecer nesse Estado. Os favores consistem em transporte gratuito em estrada de ferro, para os ditos passageiros, suas famílias e bagagens, desde o porto até a Hospedaria do Governo na Capital, de onde então serão enviados, sempre com transporte gratuito, à estação mais próxima do seu destino no Estado (...). Além do alojamento e alimentação gratuita, fornecidos durante seis dias, será dispensada assistência medica, bem como remédios e dietas, gratuitamente aos immigrantes que necessitarem (O Immigrante, 1908, p. 3).


Os incentivos para a vinda de estrangeiros para São Paulo tiveram êxito e cerca de 60% dos quase quatro milhões de imigrantes que entraram no Brasil entre 1884 a 1933, se dirigiram para aquele estado. Na última década de século XIX, mais especificamente entre 1893 e 1900, entraram em São Paulo 401.626 imigrantes (Versiani, 2002, p. 206; Bacellar e Brioschi, 1999, p 129).

Muitos imigrantes que chegaram a São Paulo nas décadas de 1880 e 1890 foram encaminhados para trabalhar nas fazendas de café da zona Mogiana. Entre 1898 e 1902, mais de um terço dos imigrantes distribuídos entre as fazendas de café de São Paulo se concentrou em apenas cinco municípios, sendo Ribeirão Preto o que exercia maior atração, tendo recebido 14.293 imigrantes, seguido por São Simão, São Carlos do Pinhal, Araraquara e Jaú (Monbeig, 1984, p. 172). Na primeira década do século XX chegaram à província 298.590 estrangeiros; na segunda década, 384.433 e, entre 1921 e 1928, foram 425.916. O Censo de 1920 mostra que cerca de um quinto a um terço da população das cidades paulistas era estrangeira (Bacellar e Brioschi, 1999, p 129; 141-147).

Camargo (1981), em seu estudo sobre a população do estado de São Paulo, mostra dados sobre a população para a região da Mogiana e para Ribeirão Preto. A Zona Mogiana entre 1901 e 1940, recebeu mais de 20% de todos os imigrantes do estado, 274.115 imigrantes. O conjunto Ribeirão Preto, Cravinhos, Sertãozinho, Pontal recebeu 95.687 imigrantes nesse período, dos quais 61% entre 1901 e 1920. O autor destaca a influência dos imigrantes na composição do quadro de trabalhadores da região: 72,3% dos trabalhadores eram estrangeiros e migrantes nacionais entre 1901 e 1940 (Camargo, 1981, p. 126-127).8 No ano de 1920, Ribeirão Preto, Cravinhos, Sertãozinho, Pontal constituíram os maiores núcleos de população estrangeira da Zona Mogiana, abrigando juntos mais de 37.000 estrangeiros, sendo mais da metade deles de origem italiana (Camargo, 1981, p. 136).

Em 1886, os estrangeiros em Ribeirão Preto constituíam 7,3% do total de habitantes, sendo o grupo composto por apenas 761 pessoas. Deste total, 46,2% eram austríacos, 20,7% eram italianos e 18,4% de portugueses. Em 1902, os estrangeiros passaram a compor 62% da população, totalizando 33.119 imigrantes. Essa população imigrante era representada por 83,7% de italianos, 7,9% de portugueses e 5,1% de espanhóis, as três nacionalidades mais representativas (Santos, 2006 p.1-5).

Pode-se dizer que o primeiro surto de crescimento populacional na região de Ribeirão Preto ocorreu fundamentalmente devido à rápida expansão do cultivo de café e à chegada da estrada de ferro. O segundo surto de crescimento, expressivo e rápido, deriva justamente do início da imigração subsidiada pelo Governo Provincial após 1886, levando a um crescimento da ordem de 13,2% ao ano na cidade enquanto, para o mesmo período, a província apresentou um crescimento de 4,5% e a região da Alta Mogiana, 7,04% (Santos, 2006, p. 1; Silva, 2004, p. 259). O afluxo massivo de imigrantes para a região provocou grandes mudanças no espaço urbano e rural.

A relação entre o desenvolvimento da produção cafeeira, o crescimento da população, principalmente a chegada dos imigrantes e o incremento das atividades urbanas é observada por vários autores. Moraes (1980), por exemplo, argumenta que a urbanização em Ribeirão Preto ocorreu em decorrência dos imigrantes. A autora argumenta as mesmas razões que outros autores utilizaram para explicar a urbanização:

a mão-de-obra empregada na fazenda tinha necessidades de consumo e esta nova exigência transformou a estrutura comercial existente. Surgiram novos estabelecimentos com a finalidade de abastecer com gêneros alimentícios, vestuários, instrumentos de trabalho, etc. esta nova classe consumidora. Por outro lado, a cidade atuou como polo de atração para muitas pessoas que trabalhavam nas fazendas, oferecendo-lhes uma diversificação de atividades (Moraes, 1980, p.52).
Vários autores destacam o papel do fluxo imigratório para o desenvolvimento da indústria no estado de São Paulo9.

A tese de Warren Dean (1971) sobre o papel dos imigrantes na industrialização de São Paulo é uma das mais importantes. Dean é um dos maiores representantes da “teoria da industrialização liderada pela expansão das exportações”, que estabelece uma relação direta entre a expansão das exportações cafeeiras e a industrialização do estado de São Paulo. Para o autor, o café foi o responsável por dar a base ao desenvolvimento industrial paulista. A economia cafeeira criou a infraestrutura necessária para o surgimento da industrialização; o café trouxe a ferrovia, as estradas, o aumento da população e da mão de obra livre com o fomento à imigração; o café trouxe também a prática de comércio exterior, a monetização da economia e o desenvolvimento de um mercado para produtos manufaturados. (Dean, 1971, p. 9-16).

O autor observa o papel fundamental dos imigrantes para o desenvolvimento dos primeiros estabelecimentos industriais de São Paulo, principalmente os que se dedicavam à importação de produtos manufaturados. Muitos acabaram se tornando industriais. A posição de importadores conferia grandes vantagens sobre os fabricantes locais. Como importadores os imigrantes tinham o conhecimento do mercado, fácil acesso ao crédito estrangeiro e controle sobre a distribuição de produtos importados e, em especial, as máquinas para a indústria. Conforme os padrões de consumo foram mudando em direção a bens supérfluos e à medida que o processo de industrialização passou a demandar maquinarias complexas e importadas, diversas firmas importadoras se aproveitaram de suas vantagens para converterem suas agências em fábricas (Dean, 1971, p. 26-28).

Para Dean (1971, P. 31) “o importador era o empresário industrial” e muitos mesmo após se consolidarem como industriais continuavam com as importações. Muitas vezes para fabricarem seus produtos, precisavam de matérias-primas que só podiam ser encontradas no mercado estrangeiro ou então necessitavam de maquinarias complexas ou peças sobressalentes. Os industriais se aproveitavam de seu conhecimento e influência e compravam tais máquinas e peças em grandes quantidades, estocando o excedente, e assim conseguindo descontos. Com isso, podiam aumentar o custo dos seus produtos finais sem aumentar os custos das matérias-primas (Dean, 1971, p. 31)10.

Dean (1971) também afirma que os imigrantes que fizeram parte do empresariado industrial em São Paulo no começo do século diferiam dos outros imigrantes vindos ao Brasil. Os imigrantes que se engajavam em atividades industriais eram naturais do meio urbano em sua terra natal, chegando ao Brasil já com alguma instrução técnica e/ou experiência no comércio e na manufatura. Possuíam também alguma forma de reserva de capital, seja trazido da Europa em espécie ou em mercadorias, ou a proposta de instalar uma filial de alguma empresa no Brasil. Outros imigrantes vinham contratados como técnicos ou administradores para o trabalho nos estabelecimentos industriais dos fazendeiros. "Em geral os burgueses imigrantes chegavam a São Paulo com recursos que os colocavam muito à frente dos demais e praticamente estabeleceram uma estrutura de classe pré-fabricada" (Dean, 1971, p. 59).11

O papel dos imigrantes importadores também é discutido por Versiani e Versiani (1977, p. 124-125) em seu estudo sobre o processo de industrialização antes de 1930 através da análise da indústria têxtil. Os autores assumem a ideia de que parte dos importadores tenderia a diversificar seus investimentos como forma se precaverem contra as baixas no setor cafeeiro e no câmbio. Essa diversificação surgiria na forma de investimento na manufatura local: “uma vez que passassem a produtores dos artigos que importavam, poderiam ganhar como produtores o que deixavam de ganhar como importadores, mas épocas de encarecimento das importações” (Versiani e Versiani, 1977, p. 126). Os importadores, durante os períodos de facilidade das importações, importariam também maquinário necessário para suas próprias manufaturas, evitando as perdas nas épocas desfavoráveis às importações.

Suzigan (2000) cita a participação dos imigrantes na instalação de estabelecimentos industriais entre o final do século XIX e começo do XX, em diversos ramos da indústria como o têxtil (Fábrica Mooca, instalada em 1897 por Regoli, Crespi & Companhia - imigrantes italianos - e a Fábrica Mariângela, instalada em 1904 por F. Matarazzo, também imigrante italiano); refinação de açúcar (Companhia União dos Refinadores estabelecida em São Paulo em 1910 por dois imigrantes italianos, os irmãos Puglisi Carbone); e imigrantes alemães na fabricação de cerveja, tanto em pequenas manufaturas quanto nos grandes estabelecimentos (Suzigan, 2000, p. 153; 225; 229).

Mais recentemente, Michel Marson (2012), analisando as origens dos empresários da indústria de máquinas e equipamentos no estado de São Paulo entre 1900 e 1920, afirma que, em 1891, a relação entre comércio exterior e empresas de máquinas em São Paulo se acentua. Muitas das casas importadoras dos imigrantes comerciantes, além da importação de maquinário passam a produzir máquinas e equipamentos localmente, visando atender à necessidade de assistência técnica aos bens que eles mesmos importavam12. Segundo o autor, nesse em 1891 as empresas já haviam ultrapassado o estágio de “meros reparadores de máquinas importadas”. Muitas já apareciam em anúncios de jornais como “fabricantes e importadores”, principalmente de máquinas agrícolas (Marson, 2012, p. 501).

Além do papel de importadores, os imigrantes também prestaram o papel de mão de obra no meio urbano. Parte dos estrangeiros já possuía algum conhecimento técnico ou experiência em atividades industriais e migrava para o Brasil diretamente para o mercado de trabalho no meio urbano ou então, após um breve período nas lavouras, migravam para as cidades em buscas de melhores oportunidades de trabalho13. Como destacam vários autores, a presença dos imigrantes como mão de obra e dos profissionais técnicos europeus foram de grande valia para as primeiras fábricas instaladas no estado14. Os imigrantes com melhor capacidade e qualificação passavam a compor também o quadro de industriais e de operários qualificados do estado (SUZIGAN, 2000, p. 89-90).



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