Babel e pentecostes (Gn 11,1-9 e At 2,1-13) Autor



Baixar 49.29 Kb.
Encontro03.11.2017
Tamanho49.29 Kb.
BABEL E PENTECOSTES
(Gn 11,1-9 e At 2,1-13)
Autor: Paulo F. Valério

Na profusão das línguas,


a difusão da multiforme ação de Deus na história
e a confusão dos projetos humanos de dominação

Introdução
Embora a Escritura não estabeleça nenhum paralelo literário ou teológico explícito entre Gn 11,1-9 e At 2,1-13, a interpretação cristã[1] tem descoberto razões para fazer certa aproximação teológica entre estes dois textos: praticamente todos os comentários do Gênesis aludem ao texto de Atos dos Apóstolos (e vice-versa)[2]. Gênesis exemplificaria o castigo pela revolta pecaminosa dos seres humanos contra Deus, que lhes confunde as línguas, de modo que aqueles que buscavam unidade vêem-se agora dispersos numa desordem na qual não mais se entendem mutuamente[3], enquanto Atos seria a restauração daquela unidade e entendimento mútuo que se perderam:

O novo Pentecostes é uma Babel ao contrário. Em Babel…, um espírito contrário ao projeto de Deus acabou planejando a construção idolátrica com a conseqüente dispersão dos homens. Em Pentecostes, o Espírito Santo protagoniza um projeto que é capaz de unir a todos[4].

J. Dupont considera sugestivo o paralelo, e argumenta que o fundamento desta aproximação estaria mais nas situações do que nos textos:

O relato dos Atos não revela nenhuma alusão que permita pensar que Lucas e os primeiros cristãos já haviam interpretado o mistério de Pentecostes em contraste com a história de Babel[5].

No presente texto, sem pretender anular a compreensão supramencionada, propomo-nos seguir linha de interpretação diversa, levando em conta outros elementos.

Apresentamos, de forma concisa, a composição literária dos textos, situando-os em seus respectivos contextos literários. Quanto ao ambiente vital (Sitz im Leben), aludimos apenas o texto de Gênesis, dado que o ambiente vital de Atos é mais conhecido[6].

A aproximação do dois textos, no nível teológico, enfatiza mais o texto de At, e procura ver, na profusão (não tanto ‘confusão’) das línguas, a dispersão como difusão da multiforme ação salvífica de Deus na história, e a confusão efetiva dos projetos de dominação do ser humano.

Análise literária e teológica
Torre e ruído
Torre e ruído têm algo em comum: ambos elevam-se e captam a atenção dos olhos e dos ouvidos, respectivamente. A saliência da torre prevaleceu no texto de Gênesis, sobressaindo-se até no título pelo qual se conhece a perícope – Torre de Babel –, enquanto “Pentecostes”, uma indicação cronológica imprecisa, que funciona como remoto pano de fundo teológico[7], impôs-se nas edições das Bíblias e nos comentários como designação daquele marcante evento. Ademais, como no caso da torre, a atenção se volta principalmente para o aspecto do rumor e da estranheza no comportamento das pessoas do que para o verdadeiro resultado daquela manifestação pneumatológica.

A torre, em Gn 11, o ruído de vento impetuoso e o falar em línguas estrangeiras, em At 2, são expressivos elementos que inegavelmente estão presentes no texto. Contudo, embora sejam significativos, não são nem decisivos nem os mais importantes.



1. Gn 11,1-9
1.1 Composição literária
A crítica literária identifica várias camadas redacionais: um relato de base, uma releitura feita no exílio babilônico (com jogos de palavras em torno de Babel-Babilônia e outras explicações) e glosas etiológicas[8].

Sob o aspecto formal, o texto configura-se numa clara inserção: interrompe a seqüência das genealogias, não dá nome a ninguém, salvo a referência “filhos de Adão”, reportando-se, portanto, a um tempo “antes do dilúvio”. O v. 1, precedido de Gn 10,32, onde se fala da dispersão dos povos depois do dilúvio, traz uma informação que rompe a continuidade narrativa, além de ser aparentemente contraditória: depois de tomarmos conhecimento dos clãs que povoaram a terra segundo suas línguas, países e nações (Gn 10, 5.20.31-32), é-nos dito agora que todo o mundo se servia da mesma linguagem.

O começo e o fim da perícope (v. 1 e 9) se correspondem, a modo de inclusão: no início, todos juntos, uma só língua; no final, dispersos, diversas línguas. O relato se divide claramente em duas partes, disposta em paralelismo: na primeira (v. 1-4), agem as pessoas; na segunda (v. 5-8), Deus intervém[9].

Na ação humana, mais do que a torre, destacam-se no relato os seguintes elementos: uma só língua e discurso, a sedentariedade e a construção da cidade, o fazer-se um nome (criar um Estado, Gn 12,2) e o medo da dispersão. Na intervenção de Javé, que usa a mesma expressão (“Vamos!”), tem-se o paradoxo da descida, a inspeção e a avaliação: tratava-se de um projeto de prepotência ilimitada. Decisiva, porém, é sua ação: por meio da tão temida dispersão, a confusão daquele projeto de dominação, sustentado pela ideologia de uma cultura homogeneizada. Destruindo-se a planta (o projeto), interrompe-se a construção de tal cultura.



1.2 Contexto vital
O relato de base, segundo a pesquisa moderna,[10] situa-se no reinado de Sargão II (722-705), rei assírio, de origem obscura, usurpador do trono: o próprio nome (que significa “rei legítimo”) procura encobrir a ilegitimidade de seu governo.[11] A obra que deve ter suscitado o conto seria precisamente Dur-Sharrukin, castelo cuja cidadela (torre) elevava-se ao céu, e que trazia a inscrição de Sargão II[12].

As sistemáticas deportações conduziam necessariamente a uma miscigenação que era vista como consciência étnica pelos submissos, mas considerada uma ameaça pelos dominadores. A expressão “uma só língua” ou uma boca só metonimicamente indica o discurso, o planejamento e a capacidade administrativa de determinado grupo. Trata-se de um elemento da retórica e da ideologia política do governo: uma só língua aponta para a supremacia do governante[13].

Do ponto de vista histórico, portanto, os motivos dominantes em Gn 11,1-9 – “uma língua”, a construção de uma “cidade e uma torre”, o “fazer-se um nome”, a caracterização de “um só povo” – devem ser interpretados no horizonte da retórica e ideologia neo-assíria de dominação do mundo.

Aqui é possível também detectar o conflito entre o campo e a cidade: o conto teria origem campesina, como condensação da própria luta dos lavradores israelitas contra a hegemonia das cidades[14].



1.3 Análise teológica
O relato de Gn 11,1-9 é emblemático: ele desmitifica com ironia as potências totalitárias e imperialistas que pretendem impor determinada unidade ao preço da diferença cultural[15]. A ironia maior está no primeiro movimento de Javé, que desce para inspecionar a obra humana: Para Javé, o projeto militar-imperialista realmente é miseravelmente pequeno e insignificante[16].

A torre, mais do que símbolo de nova tentativa humana de tornar-se como Deus (Gn 3,5) ou “alçar-se à esfera divina”, dado que era uma cidadela, era parte integrante do projeto político-militar-cultural de soberania. A interferência de Javé faz malograr tal projeto[17].

Mas a pretensão babilônica não estaria longe do alçar-se à esfera divina[18], o que se afigurava como grande distorção da imagem de Deus, pois o Deus de Israel é sempre aquele que graciosamente vem ao encontro de seu povo, e nunca o contrário![19]

O relato objetiva a dispersão como certa prevenção, para evitar o pior, mas não como castigo propriamente dito. Na verdade, a intervenção de Deus é solução e salvação para a humanidade, pois preserva a singularidade, a autonomia e a liberdade das pessoas e dos povos. Neste projeto de pluralidade, a diversidade das línguas tem papel fundamental.



2. At 2,1-13
2.1 Composição literária
O início da cena no livro dos Atos está nitidamente marcado pela conclusão do sorteio de Matias (1,26) e pela indicação cronológica Quando chegou o dia de Pentecostes (2,1)[20].

Problemática, porém, é a delimitação do final da perícope, que se detém normalmente no v. 13, com o sarcástico comentário de alguns dos espectadores: É porque estão cheios de vinho doce.

Embora seja prática comum, consideramos que tal divisão faz violência ao texto, truncando-o em seu fio narrativo, impondo-lhe uma conclusão que nem procede nem satisfaz, fazendo-nos deter-nos a meio caminho.

Se devêssemos fazer justiça ao texto, ele deveria, no mínimo, incluir o “discurso de Pedro à multidão”, nos v. 14-21, pois precisamente o v. 15 retoma as palavras zombeteiras dos presentes e, à luz da profecia de Joel, Pedro explica corretamente o que se passara.

No entanto, o significado daquele marcante episódio, que chamou a atenção dos que se achavam em Jerusalém, só pode ser plenamente compreendido se levarmos em conta todo o discurso, mais a reação dos ouvintes nos v. 37-41, como veremos.

2.2 Análise teológica
2.2.1 Centralidade teológica de Jerusalém
De acordo com o plano teológico de Atos, os discípulos deveriam testemunhar Jesus primeiramente em Jerusalém (At 1,8). O evangelho de Lucas, centrado na figura de Jesus, apresenta a cidade como cenário, e o Templo como o palco dos primeiros movimentos da narração – turno sacerdotal de Zacarias (Lc 1,58), apresentação do menino Jesus (Lc 2,22), profecias de Simeão (Lc 2,25-35) e de Ana (Lc 2,36-39), as primeiras palavras de Jesus aos doze anos (Lc 2,49).

Uma das tentações de Jesus tem lugar precisamente em Jerusalém, no pináculo do Templo (4,9). Nesta mesma cidade, em seu Templo, Jesus realiza sinais proféticos e ensina cotidianamente (Lc 19,45-47; 20,1; 21,37-38; 21,37-38; 22,53).

Jerusalém também será a ribalta dos últimos acontecimentos da vida de Jesus: ali ele celebra a última ceia com os seus discípulos; em seus arredores ele é aprisionado; levado perante as autoridades, é julgado e sentenciado à morte, crucificado e sepultado.

Em Jerusalém Jesus tem seu último encontro com os discípulos, antes da ascensão, e ordena-lhes que permaneçam na cidade até receberem o dom do Espírito prometido (At 1,4).



2.2.2 De Jerusalém até os confins do mundo
Embora Jerusalém tenha presenciado a maior parte dos eventos salvíficos, a morte de Jesus acontece fora de seus muros; ele, que fora apresentado ao mundo no coração da cidade, no Templo, é visto em seus últimos momentos em total desamparo, situado no vasto proscênio do mundo, emoldurado por um cenário em convulsão.

Em mais de uma ocasião, Jesus mostrou a fragilidade do Templo (Lc 21,5) e relativizou sua importância como lugar de encontro com Deus (Jo 4,21), e no momento de sua morte, o véu do santuário se rasgou ao meio (Lc 23,45), privando assim aquele lugar daquilo que o fez santuário de Deus e o distinguiu em santidade de outros lugares na região[21]. Apesar de tudo isso, os apóstolos instalaram-se em Jerusalém e freqüentavam o Templo assiduamente (Lc 24,53). O enraizamento naquela cidade era tão profundo que mesmo durante a primeira perseguição, todos se dispersaram, exceto os apóstolos (At 8,1).

O Espírito Santo, porém, paulatinamente realizará a obra da dispersão, num movimento centrífugo: a partir do centro, Jerusalém, passando pela Judéia, Samaria até os confins do mundo (Is 48,20; 49,6; 62,11).

Se a perseguição não conseguiu mover as colunas de Jerusalém, o Espírito o faz: Pedro é o primeiro a ter uma visão e um encontro (com Cornélio – At 10) que o faz mudar de mentalidade. Aos que o repreenderam em Jerusalém, atesta: O Espírito me ordenou ir com eles sem hesitação… e se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós… quem era eu para impedir a Deus? (At 11,12.17). Mas para levar a cabo sua obra, Deus escolherá a Paulo: com ele, a boa nova de Jesus chega deveras aos confins do mundo.



2.2.3 Do reino de Israel ao Reinado de Deus
Jesus empregou freqüentemente a expressão “reino (reinado) de Deus (dos céus)” para significar o projeto de Deus. Cuidou, porém, de distinguir cuidadosamente o reino/reinado que ele anunciava dos reinos e impérios do mundo (Lc 22,25-27) sem, contudo, lograr que os discípulos o compreendessem: alheios às palavras do mestre, discutiam entre si para ver quem seria o maior ou reivindicavam privilégios pessoais como sentar-se à direita ou à esquerda de Jesus (Lc 22,24)[22].

O horizonte mental dos discípulos – nacionalista e centralizador – permanece praticamente inalterado, mesmo depois dos eventos dramáticos da paixão e da boa-nova definitiva da ressurreição: quando da ascensão de Jesus (At 1,6), ainda indagam: Senhor, é agora que vais restaurar a soberania de Israel? Esta mentalidade mudará somente aos poucos e, sobretudo, após a vinda e ação do Espírito Santo.

A resposta de Jesus – Não cabe a vós saber os tempos e circunstâncias que o Pai fixou com sua exclusiva autoridade – é vaga e enigmática. Como sempre, ele se recusa a precisar datas e circunstâncias (kronous he kairous)[23]. Ao contrário, fala da vinda do Espírito Santo que tornará os discípulos testemunhas suas, do Reino de Deus, e não propaladores da ideologia israelita.

2.2.4 Unidade na dispersão
Embora Jerusalém mantenha sua importância e centralidade, o Espírito Santo opera a dispersão: os discípulos são enviados a testemunhar o mesmo Jesus na diáspora. Unidade e dispersão contracenam no relato dos Atos.

Em relação à unidade, o texto anterior mostra os discípulos reunidos a indagar sobre a instauração do reino de Israel (At 1,6), na sala superior, onde se alojavam, persistindo unânimes na oração (1,14); a seguir, num dia de reunião, sorteia-se aquele que deveria completar a unidade dos Doze (1,26).

Na cena de Pentecostes, todos estavam reunidos no mesmo lugar. Um ruído vem do céu e, ao contrário de certos fragores, age como força de coesão: enche a casa, todos ficam cheios do Espírito, uma multidão se reúne.

A dispersão está ilustrada no surgimento das “línguas como de fogo, repartidas e pousadas sobre cada um deles”, e que os leva a falar línguas estrangeiras, em graduações diversas, conforme o Espírito lhes permitia expressar-se (At 2,3.4).

A lista, um tanto desordenada, dos povos ali presentes e seus comentários tão díspares, dá conta também do aspecto de diversidade e dispersão.

Seria mero acaso que o Espírito se manifeste exatamente em forma de línguas de fogo, e que, mercê desta força, os discípulos comecem a falar outras línguas? Falar outra língua é dispersar-se, é fazer uma viagem cultural, é sair de si e penetrar no mundo do outro, para fazer-se compreender, para anunciar as maravilhas de Deus. Não é preciso apelar para o poder miraculoso do Espírito e imaginar que um galileu conhecedor apenas de seu dialeto, repentinamente desatasse a falar outras línguas sem tê-las estudado. O texto é uma narrativa profética do que se realizaria doravante. Plenos do Espírito, os discípulos falariam a linguagem do coração humano, aquela que todos podem compreender: a linguagem do amor, do evangelho, capaz de comunicar-se com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. A narrativa quer mostrar, de alguma forma, que o testemunho da Igreja plenificada, ali nascente, já atingira os confins da terra, como lhe fora ordenado pelo Senhor.

Esta dispersão, porém, mantém a unidade inconfundível de uma só fé, um só batismo, um só Senhor (Ef 4,5): as línguas de fogo multiplicam-se, sem perder o vigor, a identidade, o calor, como o fogo novo da páscoa, qui, licet sit divisus in partes, mutuati tamen lúminis detrimenta non novit – o qual, ao dividir-se, não perde seu fulgor (Seqüência Pascal). Ou ainda como nos movimentos do balé: nas diversas coreografias, os bailarinos dispersam-se e reagrupam-se novamente, em bela e coerente unidade.

2.2.5 Dos confins do mundo à Jerusalém celeste
A elíptica resposta de Jesus deixa entender que, de certa forma, a “soberania” de Israel seria restabelecida “nos tempos e circunstâncias que o Pai fixou”, mas não segundo o projeto nacionalista.

A comunidade criada pelo Espírito tipifica o projeto de unidade na diversidade, uma utopia, uma meta a ser alcançada: a realização da profecia de Is 2,2-3, segundo a qual as nações acorreriam a Jerusalém (Is 60), à Sião, mãe de todos os povos (Sl 87), num movimento inverso: dos confins do mundo a Jerusalém.

Trata-se, porém, da Jerusalém celeste, construída por Deus, ainda que vinculada ao Israel terrestre, pois nos muros estão os nomes das doze tribos, e nos alicerces, os dos apóstolos (Ap 21). Contudo, nesta nova cidade não há templo, pois o Senhor Deus Todo-poderoso e o Cordeiro são seu Templo[24].

2.2.6 Testemunhas do Ressuscitado
O objetivo da recepção do Espírito era o testemunho do Ressuscitado, não o gozo extático da experiência em si. Enquanto Pedro não age profeticamente não acontece o testemunho. Por isso ele começa por explicar os sinais externos: não se trata de embriaguez pelo álcool, mas pelo Espírito. Entretanto, para testemunhar o Ressuscitado, era preciso sair do estado de embriaguez, ainda que espiritual. Pedro recorda a vida e a atividade de Jesus, algo que era do conhecimento de todos (“como bem sabeis” At 2,22). Re-cor-dar (anaggelein) é reconduzir ao coração, apresentar compreensão mais atualizada e crescente da revelação[25], o que é precisamente uma das ações do Espírito (cf. Jo 16,15).

Segue-se a denúncia: Vós crucificastes… e matastes (v. 23), e o anúncio da ressurreição: Mas Deus, libertando-o dos rigores da morte, o ressuscitou, pois a morte não podia retê-lo (v. 24). Tal anúncio é feito com base no Sl 116,8-11, segundo qual, na interpretação de Pedro, Davi prenunciara a ressurreição de Cristo. Pedro, então, conclui solenemente: A este Jesus, Deus ressuscitou, e todos nós somos testemunhas disso (At 2,32).

Ao testemunho da ressurreição, segue-se o da glorificação, ou seja, o retorno (ascensão) de Jesus para junto de Deus, à direita do Senhor (Sl 110,1), donde envia o objeto da promessa, isto é, o Espírito derramado: É isto o que vedes e ouvis, conclui Pedro, no verso 33, revelando o sentido pleno do acontecimento.

Somente agora, depois de sair do êxtase, dispersar-se e falar a linguagem da profecia é que, diferentemente do carisma da glossolalia[26], que edifica apenas aquele que a recebe (1Cor 14,4), as pessoas compreendem e se co-movem: Irmãos, que devemos fazer?[27] As reações de curiosidade, estupefação ou zombaria dão lugar a um sincero desejo de conversão. Os ouvintes chamam aos apóstolos de “irmãos”, sem o distanciamento e estranheza iniciais, o que denota bem a aproximação conquistada pelas palavras de Pedro. Esta foi também a reação dos ouvintes do Batista (Lc 3,10.14): sentindo-se “mordidos no coração” (“remorso” vem de morder), também eles se dispuseram a uma mudança de vida.

A interrupção costumeira do texto no verso 13, deixa-nos diante de um acontecimento rumoroso, confuso, cujo único resultado é a perplexidade e o sarcasmo, que é uma forma de desprezo por aquilo que não se compreende. Ao contrário, se prosseguimos, acompanhando o raciocínio de Pedro, chegamos até o momento em que as pessoas acolhem a Palavra e se deixam batizar no nome do Senhor, tornando-se aptas a receber o dom do Espírito prometido, o que as transformará noutras testemunhas do Ressuscitado.

Conclusão
Repetidamente certos grupos humanos tentam impor seus valores e mundivisões aos demais, e um dos caminhos mais eficazes é a imposição de uma só língua, de um único código simbólico.

Disto não faltam exemplos seja na história antiga (como no caso bíblico de Sargão II, dos grandes impérios mundiais), seja na atual (cultura da coca-cola, da política mundial norte-americana, redes de TV, entre outras)[28].

As grandes potências continuam a construir cidades e altas torres, para defesa e difusão de suas ideologias “globalizantes”: as antenas retransmissoras são altíssimas e, por meio dos satélites, já atingiram “literalmente” o céu[29].

Até mesmo a Igreja, à deriva da herança do império romano, teve seu período de “babelização” do mundo, algo que, na opinião de alguns autores ainda vigora: de posse do poder, Roma imperaria no triunfalismo planetário de uma igualdade refratária às diferenças, igualando autoridade a poder, catolicidade a igualdade, obediência a dependência, fazendo do cristianismo o exorcista das diferenças.[30] À “Igreja una, santa, católica e apostólica” contrapõem-se as “igrejas locais”; ao papa, os vários sínodos; ao catecismo universal, a discussão[31].



O relato de Gn 11 mostra que Deus é contrário a todo projeto de dominação humana, e utiliza-se da dispersão para manter a riqueza da pluralidade e sua absoluta soberania sobre todas as nações. O exercício desta realeza foi testemunhado por seu Filho no serviço e doação até da própria vida, recuperada pela ressurreição. A Igreja foi incumbida de anunciar e testemunhar o Ressuscitado até os confins do mundo, e sempre que se vê tentada a instalar-se em estruturas organizacionais ou de pensamento, o Espírito realiza a dispersão benfazeja, sem, contudo, deixar que a Igreja de Cristo perca sua identidade e vigor.

Bibliografia
BROWN, R., Introduction to the New Testament (New York 1997).
DONNER, H., Geschichte des Volkes Israel und seiner Nachbarn in Grundzügen I-II (Göttingen, 1986, 1995); trad. brasileira: História de Israel e dos povos vizinhos I-II (Vozes/Sinodal 1997).
DUPONT, J., Études sur les Actes des Apôtres (Paris 1967); trad. italiana a cura di A. Girlanda, Studi sugli Atti degli Apostoli (Roma 19753).
SCHWANTES, M., Projetos de esperança. Meditações sobre Gênesis 1-11 (Petrópolis 1989); A cidade e a torre (Gn 11,1-9), in: Estudos Teológicos, 21, 1981, 75-106.
SKA, J.L., La Parola di Dio nei racconti degli uomini (orizzonti biblici; Assisi 1999).
SOGGIN, J.A., Das Buch Genesis. Kommentar (Darmstadt 1997).
STAUBLI, T., Begleiter durch das Erste Testament (Düsseldorf 1997).
UEHLINGER, C., Weltreich und „eine Rede“. Eine neue Deutung der sogenannten Turmbauerzählung (Gen 11,1-9) (OBO 101; Freiburg-Göttingen 1990).
VALDÉS, A. Á., “A Torre de Babel: qual sua mensagem?” in idem, Que sabemos sobre a Bíblia? (volume IV; Aparecida 1997).
WENHAM, G.J., Genesis 1-15 (WBC 1; Waco, TX 1987).

Notas
[1] A interpretação judaica palestinense era moralista e via na unicidade de língua uma situação ideal; a alexandrina recorria à alegoria (cada palavra tinha um significado filosófico; a interpretação cristã contrapõe a “cidade do Diabo” à “Cidade de Deus” (cf. T.Staubli, Begleiter durch das Alte Testament, 128).
[2] A título de exemplo, C. Westermann, Genesis 1-11. A Commentary, 556-7; G.J. Wenham, Genesis 1-15, 246 (cf. ainda, em mérito, as notas da Bíblia de Jerusalém).
[3] G. von Rad, Genesis, 151-2.
[4] CNBB, Que novidade é esta? Uma leitura dos Atos dos Apóstolos, 47.
[5] J. Dupont, Studi sugli Atti degli Apostoli, 859.
[6] Cf., por exemplo, o artigo do Prof. João Luiz, neste número: “Atos: texto e contexto”.
[7] Pentecostes (pentekoste, “o qüinquagésimo dia” – Ex 34,22) era a festa das Semanas, ou seja, as sete semanas depois da Páscoa (cf. Lv 23,25), quando se ofereciam as primícias; posteriormente, foi unida ao dom da aliança no Sinai (segundo J. Dupont, Studi…, 825, fariseus, saduceus e essênios calculavam a data diferentemente).
[8] T. Staubli, Begleiter…, 130.
[9] M. Schwantes, Projetos de esperança, 63. Trata-se, na verdade, de um texto literariamente bem construído. Para outros detalhes, cf. J. Wenham, Genesis, 235.
[10] C. Uehlinger, Weltreich und „eine Rede”… 503.
[11] H. Donner, História de Israel e dos povos vizinhos II, p. 363.
[12] C. Uehlinger, idem, 505; cf. também H. Donner, História de Israel…II, 367.
[13] C. Uehlinger, idem, 504.
[14] Cf. M. Schwantes, Projetos…, 66.
[15] J.L. Ska, La Parola di Dio nei racconti degli uomini, 32.
[16] M. Schwantes, Projetos…, 69.
[17] C. Uehlinger, idem, 512. Os dominadores subseqüentes, os persas, com sua política de tolerância, jactar-se-ão de serem “reis de terras de todas as línguas… e de homens de todos os tipos”. Com efeito, eles não impunham nenhuma língua estrangeira aos povos subjugados. (cf. T. Staubli, Begleiter…, 131).
[18] Por outro lado, a expressão “torre cujo cume atinja o céu”, além de ser simplesmente hiperbólica, é menos absurda se levarmos em conta que, naquela época, concebia-se o mundo em ‘três andares’ — céu, terra e sheol. Chegar ao primeiro podia ser apenas uma questão de técnica (assim, J.A. Soggin, Genesis, 183).
[19] Cf. J.A. Soggin, Das Buch Genesis, 184.
[20] Cf. J. Dupont, Studi…, 826-7, discute-se o sentido da frase, ora tomada como um tempo perfeito (aoristo), ora com uma conotação de futuro (tempo presente).
[21] R.Brown, Introduction to the New Testament, 654.
[22] No evangelho segundo Mt, a mãe se faz porta-voz do desejo dos filhos. Trata-se de uma estratégia peculiar deste evangelista, que sempre procura fazer os discípulos aparecerem sob luz favorável (cf. R. Brown, Introduction to the New Testament).
[23] Cf. Mt 24,36-37; Mc 13,32.
[24] É curioso como em Atos todas as manifestações do Espírito acontecem fora do templo.
[25] L.A. Schökel, Bíblia do peregrino (notas).
[26] Embora alguns autores procurem distinguir este fenômeno daquela da glossolalia (falar em línguas)propriamente dita, conforme descrita em 1Cor 14, ambos os fenômenos não são satisfatoriamente explicáveis, mas estão aparentados pelo fato de provirem de uma moção do Espírito.
[27] Esta é pergunta que o Principezinho, vivamente interessado, faz à raposa, depois que ela lhe explica a beleza e a exigente dinâmica do “criar laços” (A. de S.-Exupéry, Le Petit Prince, 69).
[28] T. Staubli, Begleiter …,133.
[29] Ironicamente , nestes últimos dias a antena da Rádio Vaticana tem sido objeto de polêmica devido aos “excessivos níveis de radiação eletromagnética emitidos pelos seus potentes transmissores”, usados para difundir a mensagem da Igreja em 35 línguas (Time, April 2, 2001, p. 20). Hoje, como outrora, o fato de cada um “ouvir na própria” língua ainda não é expressão de unidade.
[30] E.C. Leão, “Poder e autoridade no Cristianismo” in, idem, Aprendendo a pensar, 232. O documento pontifício Dominus Iesu pareceu reforçar ainda mais esta impressão.
[31] T. Staubli, Begleiter…, 134.

Paulo Ferreira Valério
Av. Herculano Bandeira, 471
Recife/PE
Telefones: (81) 3467-7797 / 3467-7943
Fax: (81) 3439-3320
E-mail: paulo_valerio@uol.com.br

http://www.franciscanos.org.br/itf/revistas/estudosbiblicos/70_3.php
Catálogo: wp-content -> uploads
uploads -> CÂmara municipal de lorena diretoria Legislativa secretaria legislativa
uploads -> CÂmara municipal de lorena diretoria Legislativa secretaria legislativa
uploads -> Organizador de Eventos (Presenciais e Virtuais)
uploads -> Fapesp e inpe promovem workshop para discutir relatório do ipcc sobre Riscos de Extremos Climáticos e Desastres nas Américas do Sul e Central
uploads -> Critério Descrição (a avaliação busca responder as questões)
uploads -> Piraquara, 25 de fevereiro de 2016 Informativo: 022/2016
uploads -> Linking words
uploads -> Mar Algarve Expo – 9, 10 e 11 de outubro de 2014 Portimão Arena – Portimão Ficha de Inscrição para Visita de Estudo
uploads -> Mar Algarve Expo – 9, 10 e 11 de outubro de 2014 Portimão Arena – Portimão Ficha de Inscrição para Seminários e Workshops

Baixar 49.29 Kb.

Compartilhe com seus amigos:




©bemvin.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Prefeitura municipal
santa catarina
Universidade federal
prefeitura municipal
pregão presencial
universidade federal
outras providências
processo seletivo
catarina prefeitura
minas gerais
secretaria municipal
CÂmara municipal
ensino fundamental
ensino médio
concurso público
catarina município
Dispõe sobre
reunião ordinária
Serviço público
câmara municipal
público federal
Processo seletivo
processo licitatório
educaçÃo universidade
seletivo simplificado
Secretaria municipal
sessão ordinária
ensino superior
Relatório técnico
Universidade estadual
Conselho municipal
técnico científico
direitos humanos
científico período
espírito santo
pregão eletrônico
Curriculum vitae
Sequência didática
Quarta feira
prefeito municipal
distrito federal
conselho municipal
língua portuguesa
nossa senhora
educaçÃo secretaria
segunda feira
Pregão presencial
recursos humanos
Terça feira
educaçÃO ciência
agricultura familiar