As duas naturezas de lévi-strauss



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DESCOLA - AS DUAS NATUREZAS DE LÉVI-STRAUSS


AS DUAS NATUREZAS DE LÉVI-STRAUSS
Tradução de Estela Abreu
Ninguém ignora o papel crucial que tem na obra de Claude Lévi-Strauss a 
oposição contrastiva
entre natureza e cultura: ele a utiliza em contextos tão 
diversos e com finalidades tão numerosas que, para muitos, ela chegou a en-
carnar uma das características de sua maneira de pensar. Sabe-se também que 
Lévi-Strauss atribui a Rousseau o mérito de ter, na prática, fundado o campo da 
etnologia quando inaugurou, no Discours sur l’origine et le fondement de l’inégalité 
[Discurso sobre a origem e o fundamento da desigualdade], a reflexão sobre os 
vínculos possíveis entre esses dois campos de fenômenos (Lévi-Strauss, 1973: 
46-47). Isso significa que o problema da tensão entre natureza e cultura não 
está apenas no cerne da antropologia estrutural, mas é o que define, aos olhos 
de seu fundador, o campo estudado pela etnologia, graças ao qual ela pode 
reivindicar uma autonomia entre as outras ciências humanas. Porém, o status 
desse par conceptual não é fácil de captar em Lévi-Strauss: ao mesmo tempo 
ferramenta de análise, cena filosófica dos primórdios e antinomia a superar, 
ele é revestido pelo autor de uma pluralidade de significados, às vezes contra-
ditórios, que tornam sua utilização altamente produtiva e sua interpretação 
difícil. No ensejo de esclarecer a questão, este texto se apresenta como um 
exame crítico e uma homenagem. Porque só avançamos na via escolhida por 
cada um de nós graças aos progressos conquistados pelas gerações anteriores 
e, sob esse aspecto, ninguém duvida que o século XX, em antropologia, ficará 
como o século de Lévi-Strauss, a tal ponto suas ideias, mesmo quando rejeitadas
marcaram vigorosamente o conceito que se tem dessa ciência, de seu objeto 
e de seus métodos. Minha dívida para com ele é ainda maior, por razões tanto 
pessoais quanto intelectuais: entre estas, figura em primeiro lugar o estímulo 
para me dedicar ao assunto deste ensaio – as relações de continuidade e de 
descontinuidade entre natureza e cultura –, que logo se tornou, graças a ele, 
o principal eixo de minhas reflexões e de minha atividade profissional. Mas, 
para construir com segurança em bases sólidas, é preciso também sondar os 
alicerces, fazer um plano, rearrumar, às vezes, sua distribuição. O texto que se 
segue tem apenas esta ambição.
Philippe Descola


36
sociologia&antropologia | v.01.02: 35

51,
2011
Foi na Conferência Gildersleeve, pronunciada em 1972 nos Estados Unidos, com 
o título de Structuralism and ecology [Estruturalismo e ecologia], que Lévi-Strauss 
mais explicitou sua concepção do respectivo papel das operações do espírito 
e das determinações ecológicas no trabalho que o pensamento mítico efetua 
quando organiza, em sistemas significantes, certos elementos do meio natural 
(Lévi-Strauss, 1972). Tratava-se, para ele, de responder, no local de origem, às 
acusações de idealismo que lhe haviam feito
antropólogos norte-americanos 
que atribuíam às pressões exercidas numa sociedade pelo meio ambiente, e 
às respostas adaptativas que ela oferecia, a origem e a causa da maioria de 
suas especificidades culturais. Retomando uma argumentação já apresentada 
em O pensamento selvagem, Lévi-Strauss insistia em mostrar que não há nada 
de automático nem de previsível no modo como uma sociedade seleciona este 
ou aquele aspecto de seu hábitat para atribuir-lhe um significado particular 
e integrá-lo em suas construções míticas. Pois muitas vezes culturas vizinhas 
identificam em um mesmo animal, ou mesma planta, características pertinentes 
completamente diferentes, tanto como podem atribuir uma função simbólica 
idêntica a espécies que pertencem a gêneros e, até, a reinos diferentes. O aspecto 
arbitrário que comanda as escolhas dos traços distintivos atribuídos a tal ou 
qual componente dos ecossistemas locais é, entretanto, temperado pelo fato 
de esses traços estarem organizados em sistemas coerentes, que podem ser 
apreendidos como os resultados decorrentes de transformações de um pequeno 
número de regras. Em suma, se mitos provenientes de tribos próximas podem 
usar para um mesmo fim propriedades inteiramente distintas da fauna e da 
flora, a estrutura desses mitos nem por isto é aleatória, e se organiza segundo 
os efeitos refletidos em espelho de inversão e de simetria.
Como era esperado, a Conferência Gildersleeve não conseguiu convencer 
os materialistas norte-americanos quanto ao bem-fundado da análise estrutu-
ral, e até provocou a célebre controvérsia entre Lévi-Strauss e Marvin Harris, 
então professor na Universidade de Columbia e figura de proa da ecologia 
cultural (Harris, 1976; Lévi-Strauss, 1976). O paradoxo desse diálogo de surdos 
é que Harris não parece ter percebido que a antropologia estrutural, longe de 
se satisfazer com um “mentalismo” soberbo, tal como ele a acusou, apoia-se, 
ao contrário, num naturalismo bem mais radical que aquele defendido pelos 
adeptos do determinismo geográfico. Porque, se é verdade que Lévi-Strauss 
nunca deixou de mostrar ostensivamente uma indiferença pelo que denominou, 
na linguagem de Marx, de “a ordem das infraestruturas”, também nunca aban-
donou a convicção de que a natureza condiciona as operações intelectuais 
graças às quais a cultura recebe um conteúdo empírico, nem hesitou em ante-
cipar o momento em que esta poderia ser interpretada em termos puramente 
orgânicos, como o resultado natural e o modo social de apreensão das modifi-
as duas naturezas de lévi-strauss


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cações de estrutura e de funcionamento do cérebro. Dessa dupla tendência 
resulta uma coabitação às vezes infeliz entre um programa científico formula-
do em termos classicamente dualistas – à etnografia, assistida pela história e 
pela tecnologia, o estudo da base material das sociedades; à antropologia es-
trutural, o estudo das ideologias – e uma teoria do conhecimento decididamen-
te monista, visto que ela considera o espírito dando sentido ao mundo como 

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