Amante por uma noite



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Capítulo VII
Enquanto se vestia, depois de um demorado banho de chuveiro, Georgina ainda não sentia seus pés toca­rem o chão. Não conseguia raciocinar direito, lembrava-se apenas que Steven lhe pedira que usasse o vestido verde.

Quando Harry chegara, pouco antes, Georgina gritara do andar supe­rior que estava se preparando para sair, aliviada ao descobrir que o pai escutara sua voz espectral. A constatação daquela realidade dera-lhe co­ragem para olhar-se no espelho, mas o confronto fora rápido. Desviara o olhar depois de contemplar um par de olhos que pareciam grandes de­mais para seu rosto pálido.

— Que bom que você vai sair — aprovou Harry, quando Georgina foi lhe dar um beijo, na sala de estar. — Está precisando de distração. Vou jantar com Jim Betchely, encontrei-o ontem, no leilão...

Harry interrompeu-se abruptamente, estudando o rosto da filha com a testa franzida.

— Nossa, Georgina! Você está bem?


  • Estou ótima — Georgina conseguiu sorrir debilmente, consciente da incongruência do sorriso, como batom na boca de um espantalho.

  • Você está lindíssima, filha, mas um pouco pálida — observou Harry, apreensivo. — Peça ao Ripley para não voltar muito tarde. Onde ele vai te levar, tão linda?

  • Eu... vou sair com Steven, papai.

  • Ah! — A expressão de Harry se suavizou. — Está explicado.

Georgina não sabia o que estava explicado, porém nesse momento ou­viu o motor do carro e sentiu o impulso de pedir ao pai que viesse, também.

Steven, por sua vez, estava normal e tranqüilo. Entrou na casa sem fazer cerimônia, como sempre.

— Está sabendo do rio, Harry? — começou ele, com naturalidade. — Já mandei recado para todas as fazendas, portanto, se alguém ficar com o gado ilhado, só poderão culpar a si próprios.

— A coisa está séria, este ano — concordou Harry. — Até o córrego está transbordando.

Ambos estavam tão normais que Georgina perma­neceu em silêncio, observando-os. Seus olhos pareciam enormes e brilhantes e idéias selvagens e absurdas passavam-lhe pela cabeça, tais co­mo dizer: "Papai, vou me tornar amante de Steven. Quero que seja o primeiro a saber."

Steven olhou para ela e estendeu a mão, sorrindo, o olhar repleto de ternura.

— Vamos, Girassol. Reservei uma mesa.

Georgina estendeu a mão, obedientemente, e seguiu Steven, sentindo-se flutuar atrás dele. Não sentia frio, nem calor, não sentia nada. Steven, no entanto, segurou-lhe a mão com ambas as suas, antes de ajudá-la a entrar no carro.

— Sua mão está gelada. Acho que você está precisando de um drin­que, Girassol.

A primeira coisa que Steven fez quando chegaram ao restaurante foi pedir dois conhaques, o que, pelo menos, devolveu a cor ao rosto de Geor­gina. Tinha a sensação de que todos olhavam para ela e Steven percebeu-lhe a ansiedade.

— As pessoas gostam de olhar para uma moça bonita — explicou ele, bem-humorado. — Não adianta procurar um galho aqui, Girassol.

Como se ela pudesse... Aquela Georgina não existia mais. Esta sim­plesmente se dissolveria numa nuvem de fumaça se alguém a empurrasse com um dedo.

Steven foi maravilhoso durante o jantar, conversando animadamente, distraindo Georgina de suas aflições. Assistiram ao show de dança, en­quanto tomavam café e depois Steven levou-a ao cassino, um lugar com o qual ela nunca sonhara. Sentiu-se imediatamente contagiada pelo cli­ma excitante e deixou-se convencer a fazer uma pequena tentativa, sentando-se a uma das mesas, com Steven atrás dela, orientando-a.

Gradativamente, o medo foi desaparecendo, principalmente depois de duas pequenas vitórias e Georgina viu-se virando-se para Steven em bus­ca de aprovação, o rosto corado, os olhos brilhantes.

— A última de hoje, George — anunciou Steven, com uma mão no ombro de Georgina, enquanto esta fazia sua aposta.

Ela mal prestou atenção ao jogo, ao sentir o polegar de Steven acariciar-lhe delicadamente a nuca, por sob os cabelos; quando o croupier anun­ciou o resultado pôs-se de pé e abriu caminho por entre os espectadores, deixando-se conduzir pela mão de Steven, refletindo que poderia passar o resto da vida seguindo-o por toda parte, como uma sombra fantasma­górica, um ser diáfano, irremediavelmente enfeitiçado.

Chegaram em casa depois de meia-noite, horas depois que Jeremy a teria deixado. Georgina sentia-se uma mulher fatal, glamorosa e devas­sa, perseguida e desejada. Logo percebeu que seu pai já estava dormin­do. O carro estava estacionado na frente da casa e todas as luzes estavam apagadas, com exceção do abajur, no hall. Steven parou o carro suave­mente e virou-se para ela, levantando-lhe o queixo e acariciando-lhe o lábio inferior com o polegar.

— Um beijo de boa-noite?

Inclinou-se e beijou-a com uma suavidade e uma ternura que fizeram Georgina estremecer de emoção. Entreabriu os lábios involuntariamen­te, porém Steven não aprofundou o beijo, tocando-a apenas de leve, nu­ma provocação docemente torturante.

— Divertiu-se? — indagou ele, levantando o rosto.

Georgina acenou afirmativamente e Steven segurou-lhe a mão fria e trêmula.

— Você está apavorada — Steven estudou as feições tensas de Georgi­na com olhos sorridentes. — Não precisa ter medo, George. Será quan­do você quiser. Quando acontecer, quero que seja uma felicidade para você, não uma tortura.

Ele fez uma pausa, antes de acrescentar, beliscando-lhe a bochecha:

— Você é linda. Boa noite, Georgina.

Beijou-a rapidamente e saiu do carro para abrir a porta do outro lado. Quando Georgina pisou no último degrau, antes de abrir a porta, Steven chamou-a e ela virou-se, sentindo uma estranha e intensa emoção dominá-la ao contemplar aquele homem alto e másculo, o único homem que ama­ria na vida.


  • Amanhã de manhã, leve Stardust de volta para o estábulo — suge­riu ele.

  • Ela já está acostumada aqui — murmurou Georgina, com uma pon­ta de ansiedade.

— O lugar dela é lá e você sabe disso. Telefonarei amanhã.

Uma hora mais tarde, Georgina ainda estava acordada, deitada de cos­tas, a cabeça apoiada sobre as mãos, contemplando o teto. Apesar de toda a sensação de irrealidade, sentia-se viva novamente. Steven fora ma­ravilhoso... Oh, ele se casaria com ela, tinha certeza absoluta!

Quando adormeceu, foi num sono profundo, povoado de sonhos com Steven; como sempre.

— Gina! Você está de volta! — Célia parou para esperar pela amiga, que galopou ao seu encontro, e inclinou-se para abraçá-la. — Steven abriu mão?

— Sim — Georgina emparelhou-se com Célia e as duas subiram a en­costa suave da colina. Esperava que a amiga não fizesse mais perguntas, embora não acreditasse que fosse possível. A discrição não era uma das qualidades de Célia, muito menos a sutileza.

— Você está com olheiras. Também, pudera! Telefonei ontem às dez horas e seu pai disse que você ainda não tinha chegado. E depois de tra­balhar o dia todo feito uma escrava... — Célia fez uma pausa, antes de acrescentar: — Pensei que Jeremy gostasse de dormir cedo.

— Eu não saí com Jeremy.

"Por favor, não pergunte mais nada", implorou, mentalmente.

— Ah! Conheceu outra pessoa? Até que enfim! Não suporto Jeremy.


  • Acho que o sentimento é recíproco — arriscou Georgina, numa ten­tativa de despistar Célia. Funcionou, mas não por muito tempo.

  • Ah, ele disse claramente, é? Mas é um petulante, mesmo! Não faz mal — Célia deu de ombros. — Confesso que mamãe e eu estávamos preocupadas com esse seu namoro. Imagine a vida que você teria, com aqueles dois! Mas então, me conte, com quem você saiu?

Encostada contra a parede, Georgina viu-se forçada a dizer a verdade. De qualquer forma, não seria possível esconder por muito tempo, mesmo.

— Saí com Steven. Fomos jantar e depois fomos ao cassino — Ela tentou falar com naturalidade, porém a simples menção do nome de Ste­ven era como um afrodisíaco e Georgina enrubesceu.

Célia puxou a rédea e olhou para ela, entre surpresa e divertida.

— Uhhhhh! — exclamou. — Ele estava assobiando, esta manhã, to­do alegre... — levou uma mão à testa, num gesto de concentração. — Vejo um belo estranho moreno, com um enorme cachorro preto!

— Bobagem! — Georgina sorriu. — É apenas uma trégua temporária.

O que mais poderia dizer? Se Célia soubesse das intenções do irmão, teria uma síncope. Lady Evelyn, então, passaria desta para melhor.



  • Bem, o importante é que você está cavalgando outra vez. Aposto que Stardust vai voltar para o estábulo.

  • Não sei, Célia — ponderou, Georgina, relutante em ceder à ordem de Steven. Se desse um dedo, ele quereria o braço e se permitisse, ele a subjugaria completamente. — A trégua pode ser curta e não quero pas­sar por tudo de novo.

  • Bem, uma coisa eu lhe garanto... Steven está todo feliz. Nossa amiga é que anda meio acabrunhada. Sinceramente, não sei como tem o desplante de ser tão desagradável conosco, dentro de nossa própria casa. Malcolm está com os nervos à flor da pele e Steven está... estranho. Não sei, mas alguma coisa está fervilhando debaixo disso tudo.

Georgina sentiu um calafrio na espinha. E se tudo não passasse de um plano de Steven, por causa de Ariel?

  • Arnold virá no fim de semana? — perguntou, trêmula, mudando de assunto e tendo a satisfação de ver Célia enrubescer.

  • Acho que não. Ele está muito ocupado. Telefonou ontem à noite, dizendo que talvez venha no outro.

  • Vejo um estranho moreno com um emprego em Londres — falou Georgina, com voz tenebrosa.

Ambas explodiram numa gargalhada.

— Eu gosto dele, Gina. Arnold é inteligente, divertido... Acho que ele também gosta de mim. Garantiu que virá para o baile de Páscoa — disse Célia, entusiasmada.

O baile de Páscoa! Georgina se esquecera. Todos os anos, na Páscoa, realizava-se um baile beneficente em Kellerdale Hall. A família toda par­ticipava, inclusive Georgina, desde que se entendia por gente. Poucas pes­soas deixavam de comparecer e a verba arrecadada era doada ao hospi­tal da cidade. Naquele ano, tudo seria diferente para Georgina. No dia do baile, talvez não fosse mais a mesma... Talvez já tivesse se tornado amante de Steven. Se as coisas continuassem naquele ritmo, estava perdida; acabaria se entregando sem hesitar, ao primeiro estalar de dedos de Steven.

Ainda se sentia flutuar ao recordar o cavalheirismo, a gentileza com que ele a tratara. Sentia-se confusa, um misto de mulher fatal e vítima inocente. E ainda havia Ariel, para complicar as coisas. Em que pande­mônio sua vida se transformara da noite para o dia!



  • Tenho um plano, Gina — anunciou Célia, sacudindo as rédeas de seu cavalo e dando impulso para prosseguir, Georgina acompanhando-a.

  • Não conte comigo — apressou-se a dizer Georgina. — Seu último plano foi um desastre completo.

  • Por que não convida Rowena para o baile de Páscoa? — continuou Célia, ignorando-a. — Ela sempre teve uma queda por Malcolm. Quem sabe, desta vez ele se interessa e dá um chute definitivo no traseiro de Ariel?

"Para Ariel ir correndo para os braços de Steven", Georgina teve von­tade de dizer, porém conteve-se, limitando-se a balançar a cabeça.

— Prefiro não interferir mais nessa história, Célia. Malcolm já está bem crescidinho para saber tomar conta de si mesmo.

Ao contornarem a casa em direção à estrebaria, Prince veio correndo e o coração de Georgina começou a martelar violentamente. Se o cão estava ali, havia uma grande probabilidade de que Steven também estivesse.

Assim que atravessaram o portão da estrebaria, Georgina avistou-o, conversando com Joe. Ele adiantou-se, sorridente, e acariciou o pêlo de Stardust.

— Como foi o passeio?

Célia respondeu que fora ótimo, embora o olhar de Steven se manti­vesse fixo no rosto ruborizado de Georgina, que estava como que hipno­tizada, imóvel, agarrando a rédea com tanta força que seus dedos perde­ram a cor.

— Vai desmontar? — Steven estendeu os braços para ajudá-la. Que alternativa lhe restava? Deslizou diretamente para os braços dele, que a seguraram por uma fração de segundo a mais que o necessário.


  • Cuide deste aqui, Joe — ordenou Célia, entregando o cavalo ao rapaz. — Pode deixar, que não direi a ninguém que você pinta o cabelo.

  • Senhorita... — Joe balançou a cabeça, rindo, e aceitou as rédeas das mãos de Célia, que bateu em retirada depois de piscar significativa­mente para Georgina. — A srta. Célia é um número! — exclamou, afastando-se sorridente.

  • Fui obrigada a dizer a Célia que saímos juntos ontem à noite — murmurou Georgina, evitando olhar para Steven.

  • Foi obrigada? — Steven levantou-lhe o queixo. — Não é segredo, é? Logo todos saberão que você está saindo comigo.

  • Eu... não sabia se você queria que... Pensei...

  • Vamos sair esta noite, outra vez — anunciou Steven.

  • V... Vamos? — gaguejou Georgina, sentindo-se meio idiota.

— Sim, só que hoje eu a trarei para casa mais cedo. Você está abatida e com olheiras. Precisa dormir mais.

Nesse momento, foram interrompidos por Ariel, que apareceu no pá­tio justamente a tempo de ver Steven com a mão no rosto de Georgina. Deixou escapar uma risada estridente, que arrepiou os pêlos de Georgina.

— Steven! — exclamou, com voz histérica. — O que é isso? Está dan­do uma de senhor de engenho sedutor?

Georgina ficou tão estarrecida, que limitou-se a olhar para Ariel, bo­quiaberta. Sentiu Steven retesar-se e prender a respiração, na tentativa de controlar-se. Em seguida, passou o braço pelos ombros de Georgina e puxou-a para si.



  • Ainda não entendeu, Ariel? Pensei que soubesse que Georgina é minha garota.

  • Ah, é? — volveu Ariel, irônica, obviamente incerta se Steven esta­va brincando ou falando sério. — Desde quando?

Steven olhou para Georgina.

— Há quanto tempo nos conhecemos?

— Dezessete anos, mais ou menos — respondeu ela, trêmula e inse­gura de sua posição no meio daquilo tudo.

— É isso aí. Dezessete anos — declarou ele, olhando para Ariel, que estava perceptivelmente atrapalhada, sem saber o que dizer.

Steven virou-se para Georgina e beijou-lhe a ponta do nariz.

— Se não nos virmos até a noite, pego você às sete — avisou.

Georgina aproveitou a primeira oportunidade para escapar. Steven ca­minhou na direção oposta, tão furioso com Ariel, que não notou que Georgina levava Stardust consigo. Então, ele estava reivindicando publi­camente sua propriedade... De certa forma, era emocionante; por outro lado, Georgina sabia o que ninguém mais sabia. Que Steven queria-a co­mo amante, mais nada. Era uma vergonha, um excitamento, uma tragé­dia... tudo ao mesmo tempo.

Talvez até fosse mentira, refletiu Georgina depois de muito pensar. Célia dissera que Steven estava estranho. A própria cena em frente à estrebaria fora bastante peculiar e, sem dúvida, Ariel ficara furiosa. E se fosse este o objetivo? Provocar ciúme em Ariel?

Conforme os dias se passavam, Georgina ficava cada vez mais perple­xa. Steven saía com ela quase todas as noites, era simplesmente encanta­dor e beijava-a delicadamente ao despedir-se. A imagem de Ariel não a abandonava, mas, estranhamente, também não a incomodava. Vivia cada momento conforme este se apresentava, recusando-se a pensar no dia seguinte.

No final da semana, Steven foi para Londres e Georgina sentiu uma falta insuportável. Dedicou-se de corpo e alma ao trabalho para não pen­sar, e, no sábado à noite, Célia foi visitá-la. A amiga também estava de­primida, com saudade de Arnold.

— Ariel está mordendo as mãos — anunciou, quando se sentaram em frente à lareira para tomar chocolate quente. Apesar da primavera, a noite estava fria, nublada e ventosa. — Malcolm mal lhe dirige a palavra e ela tem olhado para Steven, estes dias, como se ele fosse um monstro de duas cabeças.

— Ariel sabe que estamos saindo juntos — confessou Georgina.



  • Ah, estão, mesmo? — O olhar de Célia iluminou-se. — Então é definitivo? Ah, que maravilha! — recostou-se, com um suspiro de satis­fação. — De repente, as coisas começaram a dar certo, Gina. Você e Ste­ven, Arnold e eu... Só falta dar um jeito naquela peste. Como, não sei. Eu achava que Rowena seria a solução.

  • Não, Célia, não vamos envolver mais ninguém. A coisa já está com­plicada demais.

  • Mas, querida, precisamos pensar em Mal! — Célia sacudiu os om­bros. — Bem, verdade que teremos um pouco de sossego por alguns dias. A boneca vai para Londres, amanhã, para um desfile.

Georgina quase deixou cair sua xícara. Entretanto, conteve-se e não disse nada. Era óbvio que Ariel ia ao encontro de Steven. Só não enten­dia como Célia não percebia isso. Seria uma manobra da víbora, ou já teria sido tudo combinado? Como não poderia obter uma resposta, Geor­gina decidiu esquecer o assunto, pelo menos por enquanto. Steven fora maravilhoso ao despedir-se, prometera voltar na segunda-feira, olhara para ela demoradamente, como se estivesse apaixonado. Era nisto que pensaria, tão somente.

Durante o fim de semana, o rio transbordou em alguns locais, e em­bora o gado tivesse sido transferido para os pastos mais altos, Harry mostrou-se preocupado.

— Só espero que a exposição não seja prejudicada — queixou-se.

A exposição agropecuária que se realizava uma vez por ano numa pe­quena cidade vizinha atraía compradores e turistas de todo o país. Além da exposição de gado, havia concursos, atrações e shows de hipismo. Geor­gina costumava ir todos os anos, pelo menos um dia, e seu pai e sir Gra­ham iam todos os quatro dias. Além de organizadores e membros da co­missão julgadora, também tinham os olhos abertos para possíveis negócios. As melhores cabeças de gado da região participavam do evento.

Steven telefonou na segunda-feira, pela manhã, e o simples som de sua voz fez com que as pernas de Georgina fraquejassem. Segurou o recep­tor com as duas mãos.

— Só poderei voltar amanhã — avisou. — Surgiu um imprevisto e não posso deixar Arnold sozinho.

Um nó apertou a garganta de Georgina. Sabia bem que imprevisto era aquele.

— Georgina? Georgina, você está aí? — insistiu Steven, quando ela não respondeu.



  • S... Sim, Steven. Estou aqui.

  • Nos veremos amanhã, então.

  • Sim. Está chovendo em Londres? Aqui está chovendo e o rio trans­bordou.

  • Oh... bem, estou mais interessado em saber como você está do que no tempo. Tenho sentido sua falta, Girassol.

A voz baixa e sedutora de Steven era como uma carícia vinda de longe. Georgina sabia que não suportaria mais viver, depois que ele a deixasse, o que aconteceria, mais cedo ou mais tarde. Brevemente seria uma mu­lher descartada, abandonada. Tão jovem e com a vida totalmente ar­ruinada...

  • Georgina? Está me ouvindo?

  • Sim! Eu, também, Steven — sussurrou, num fio de voz, sentindo um súbito desejo de vê-lo, uma necessidade urgente de afastá-lo de Ariel. — Volte logo, Steven, por favor!

A voz de Georgina embargou e houve uma pausa quase imperceptível do outro lado. Em seguida, Steven falou, num tom carregado de ternura:

— Amanhã, Girassol. Mais provavelmente à noite irei aí assim que chegar. Vamos sair para jantar, mas não se preocupe com o traje. Iremos à cantina comer o conchiglione que você tanto adora.

Depois de desligar, Georgina deixou-se cair para trás, na poltrona, con­templando o teto. Amava-o tanto que nada mais importava. Quando Ste­ven finalmente decidisse que chegara o momento, ela simplesmente der­reteria em seus braços. Steven... Nunca haveria outro homem em sua vi­da. Mesmo sabendo que não teria futuro com ele, era incapaz de relutar. Estava encurralada por um amor que nascera quando era criança e que perdurava até hoje.

Célia chegou pouco depois, convidando Georgina para ir à exposição. O primeiro impulso de Georgina foi recusar, porém pensou melhor e de­cidiu acompanhar a amiga. Seria bom sair um pouco e distrair-se. Se ficasse em casa, pensando em Steven; e em Ariel, apesar de todos os es­forços em contrário; acabaria enlouquecendo.

Já não chovia quando chegaram ao local da exposição e as nuvens co­meçavam a dispersar, revelando um céu azul-pálido e um sol frio que não era suficiente para secar o solo molhado, o qual afundava sob os saltos das botas de Georgina.

Aproximaram-se da cerca para assistir ao show de obstáculos e Geor­gina debruçou-se, apoiando-se nas vigas de madeira, sentindo uma fra­queza geral tomar conta de seu corpo. A que ponto chegara! Mal conse­guia sustentar-se em pé sozinha!

Célia afastara-se por um momento para conversar com alguém conhe­cido, quando Jeremy apareceu ao lado de Georgina, fitando-a com cara de poucos amigos.


  • Estou te observando há mais de meia hora — confessou, seco. — Es­tava esperando que a Templeton sumisse para poder falar com você. Pre­cisamos conversar.

  • Olá, Jeremy — cumprimentou Georgina, tentando parecer natu­ral. — O tempo está melhorando.

  • Por mim, pode virar o inferno. Quero saber de sua conduta. Você tem saído todas as noites com o Templeton.

Georgina nunca presenciara aquele lado de Jeremy. Parecia revoltado, agressivo, pronto para o ataque. Precisara conviver quatro anos com uma pessoa para conhecê-la.

— Sim, é verdade. Qual é o problema, Jeremy? Nós ainda não temos um compromisso.

— Mas e o tempo que perdi com você?

— Eu não tinha idéia de que você estava perdendo seu tempo — vol­veu Georgina, séria. — Desculpe, Jeremy.

Estava tão surpresa que não conseguia sentir raiva. A inesperada e iné­dita atitude de Jeremy só contribuía para aumentar a sensação de irreali­dade e a única coisa em que conseguia pensar era como fora capaz de agüentar tanto tempo.

— Cada dia com um vestido diferente, desfilando pelos restaurantes, cassinos...

— Você tem um telescópio, Jeremy? Ou mandou alguém me seguir?


  • Não é hora para brincadeiras, Georgina! Templeton é um conquis­tador barato, cheio de mulheres penduradas no pescoço, e você não vai ser uma delas! Pode parar já com isso!

  • Meu irmão não é um conquistador barato e não tem essas mulhe­res todas — protestou Célia, que se aproximara sem que eles percebes­sem. — Sempre protegeu Georgina e tem todo o direito de sair com ela.

  • Fique fora disto, srta. Templeton "nariz-empinado"! — Jeremy ful­minou Célia com o olhar e Georgina olhou de um para o outro, estar­recida.

  • Ora... — Célia olhou para Jeremy de alto a baixo, indignada, evi­dentemente controlando-se para evitar uma cena desagradável. — Venha, Gina. Papai está nos convidando para uma xícara de chá, no stand da comissão julgadora.

Segurou o braço de Georgina e virou as costas para Jeremy, conduzin­do a amiga ao longo do corredor entre o campo e a arquibancada.

Georgina sentia-se eufórica. Não só tivera um comportamento exem­plar, como a oportunidade de ver a personalidade de Jeremy revelada abertamente. Fora um choque e, ao mesmo tempo, um alívio. O desenlace fora mais inesperado e mais fácil do que esperara. Mesmo sabendo que não teria futuro com Steven, não podia imaginar-se passando o res­to da vida ao lado de Jeremy. Agora, então, menos que nunca.

Assim que chegaram ao stand, Célia e Georgina se entreolharam e caí­ram nos braços uma da outra, explodindo em risadas.


  • Coitado do Jeremy! — lamentou Georgina, entre divertida e con­doída. — Acho que fui longe demais. Deixei que ele pensasse que eu es­tava levando a sério nosso relacionamento. Coitado!

  • Coitado, nada! Aposto que ele agora vai correndo contar para a mãe e os dois passarão algumas horas arrasando com você. Não estra­nhe se suas orelhas ficarem quentes. Vamos ao chá, antes que acabe!


Capítulo VIII
Georgina estava na cidade, no dia seguinte, quando Ste­ven chegou, e quando voltou para casa não notou o carro estacionado em frente à entrada lateral de Kellerdale Hall, segu­ra que estava de que ele só chegaria à noite.

Passara o dia incapaz de fazer qualquer coisa. Começara a se arrumar depois do almoço, deixando o trabalho de lado e praguejando contra si mesma. Lavou o cabelo, enrolou-o, fez as unhas e deixou a roupa esten­dida sobre a cama: uma calça jeans nova e um suéter verde que custara os olhos da cara. Estava anoitecendo quando Célia telefonou.



  • Só para lembrar que o baile será no próximo fim de semana — anunciou. — Precisamos organizar tudo. Mamãe quer saber se você vai ajudar.

  • Claro que sim. Irei amanhã de manhã para combinarmos tudo. Ho­je, vou sair com Steven, assim que ele chegar.

  • Steven já chegou. Pensei que você soubesse. Já está aqui há umas duas horas.

O coração de Georgina afundou. Steven chegara mais cedo e não fora vê-la, nem mesmo telefonara. Com certeza, mudara de idéia, depois das noites chuvosas passadas no apartamento em Londres, com Ariel.

— Steven vai falar com você, Gina.

O coração de Georgina deu um pulo e ela agarrou com força o receptor.


  • Georgina?

  • A... Aconteceu alguma coisa? — gaguejou ela, sem saber o que dizer.

— Não — Steven pareceu estranhar a pergunta. — Não aconteceu na­da.

— Imaginei que você estivesse chegando agora.

— Consegui resolver tudo antes do que eu esperava. Se já está pronta irei buscá-la daqui a quinze minutos.

— E... Está bem, Steven.

Ele desligou sem um comentário, sem um murmúrio sedutor, com uma frieza bruta e cruel.

Georgina ficou olhando para o aparelho, por um minuto, o olhar per­dido em algum lugar distante. Em seguida, correu para o quarto e tro­cou de roupa, antes de aplicar apenas um brilho nos lábios e escovar os cabelos. Alguma coisa estava errada e ela só podia imaginar que Steven não a quisesse mais. Talvez lhe dissesse, naquela noite mesmo, que ia se casar com Ariel. Com certeza voltara mais cedo para falar com Malcolm e preparar-lhe o espírito.

Georgina largou a escova sobre a penteadeira e desceu para o quintal, para ver Stardust. A pequena égua era sua confidente e o fato de conver­sar com o animal tinha o estranho efeito de acalmá-la. Abriu a porta do barracão e recuou, chocada. Stardust desaparecera.

Saiu em disparada pela estradinha que ligava a Casa Dower a Keller­dale Hall. Precisava avisar Steven. Se havia ladrões de cavalos agindo nas redondezas, com certeza assaltariam os estábulos. Royal valia uma pequena fortuna! Georgina só não compreendia como era possível os la­drões saírem da propriedade com os cavalos.

Estava na metade do caminho quando avistou o carro de Steven vindo em sentido contrário. Ele parou imediatamente e saiu do carro, porém não deu um passo em sua direção, mesmo vendo-a tão aflita.

— Stardust sumiu! — gritou ela, as pernas trêmulas de nervosismo e pelo esforço de correr.

Tudo o que Steven fez foi dar a volta e abrir a porta do carro para Georgina.

— Entre — ordenou, seco.



  • Não ouviu o que eu disse? Stardust sumiu! Foi roubada! Precisa­mos fazer alguma coisa, os...

  • Stardust não sumiu — interrompeu ele, com firmeza. — Está na estrebaria, de onde nunca devia ter saído.

  • C... Como? — balbuciou Georgina, deixando que Steven a condu­zisse para o assento do carro. — Como foi parar lá?

  • Como você já percebeu, voltei mais cedo. Fui até sua casa, mas você não estava. Quando passei pelo quintal, ouvi um som... digamos... eqüino, proveniente do barracão. Fui investigar e qual não foi minha sur­presa ao deparar-me com Stardust confinada naquele cubículo.

  • Preferi deixá-la lá — retrucou Georgina, imensamente aliviada, ape­sar da irritação de Steven.

  • E não me disse nada. Nem uma palavra sobre o assunto, todos es­tes dias que estivemos juntos. Você não muda, não é, Georgina? Vai lu­tar contra mim eternamente.

  • Tenho o direito de ficar com Stardust em minha casa — desafiou ela.

  • Concordo. Mas você me enganou deliberadamente. Além do que, quando tirei Stardust do barracão, o que foi que vi, dentro do compartimento de ferramentas? Uma motocicleta novinha em folha, mais brilhante que um espelho! — rosnou Steven, acusador. Georgina olhou para ele, surpresa.

— Eu ainda não andei na moto... — começou, calando-se em segui­da, furiosa. Precisava defender-se e justificar-se por atos que nada ti­nham de errado? Estava sendo condenada por guardar seu próprio cava­lo e por mandar consertar sua motocicleta! Grande crime! Que dizer, en­tão, de Steven, que queria seduzi-la para depois abandoná-la e ficar com a noiva do irmão?

— E nem vai andar — declarou Steven. — Tirei-a de lá, também.



  • A moto é minha! — explodiu Georgina. — Que direito tem você de ficar mexendo em minhas coisas? Não é de sua conta se ando ou não de motocicleta!

  • Não? Acha que vou ficar sentado, de braços cruzados, vendo você se arrebentar?

  • Se eu quiser me arrebentar, o problema é meu!

  • Não é, não. Você me pertence, Georgina.

— Nunca! — esbravejou Georgina. — Pare esse carro agora mesmo, que quero descer.

Ela levou a mão à maçaneta, porém Steven segurou-a pelo braço.

— Pare, Georgina!

Foi a única coisa que ele teve tempo de dizer, porque Georgina empurrou-o com o braço, pegando-o de surpresa e acertando o volante. Este rodou nas mãos de Steven e antes que ele pudesse controlá-lo, o car­ro embicou na direção do barranco à margem da estrada. Steven pisou no freio, porém o solo molhado fez com que derrapasse e no instante seguinte mergulhasse de cabeça no barranco enlameado.

Antes da colisão, Steven lançou-se para a frente, protegendo Georgina com o próprio corpo. Seguiu-se um estrondo terrível e a cabeça de Ste­ven chocou-se violentamente contra o pára-brisa.

Aconteceu tão de repente, que parecia um pesadelo. Steven gemeu e caiu para o lado, o rosto coberto de sangue, e Georgina moveu-se desajeitadamente dentro do carro, que se encontrava num ângulo totalmente anormal.

— Steven! Steven! Oh, Steven!

Não houve resposta e por um momento Georgina ficou paralisada, ge­lada, sem ter a mínima idéia do que fazer. Tremia tanto que jamais con­seguiria percorrer o caminho até a casa para pedir socorro. Oh, por que as pessoas não apareciam quando mais se precisava delas?

— Steven... — arriscou mais uma vez, imensamente aliviada ao vê-lo abrir os olhos lentamente, o corpo jogado contra a porta.


  • Tudo bem, George — murmurou ele, com voz baixa e rouca. — Ajude-me a sair. Vamos para casa.

  • Minha casa fica mais perto — lembrou, ansiosa. — Vamos telefo­nar para o médico e para sua mãe e...

  • Calma, George! Antes de mais nada, vamos sair daqui. — Ele pas­sou a mão pelo rosto ensangüentado.

— Oh, Steven, o que eu fiz?! Quase matei você!

— Grande novidade! Você vem me matando aos poucos há alguns anos, Girassol — declarou ele, com uma careta, enquanto tentava sair do lugar.

O carro estava virado com a porta de Georgina para cima. Ela apoiou o pé no banco e deu impulso para fora, seguida por Steven, cuja aparên­cia estava péssima. Para piorar as coisas, recomeçara a chover.

As lágrimas escorriam pelo rosto de Georgina, misturando-se à gotas de chuva. Rezava e agradecia intimamente por Steven estar vivo. Se ele tivesse morrido, morreria também; não conseguia conceber a vida sem Steven. Passou o braço pela cintura dele para ampará-lo e caminharam lentamente, sob a chuva fina, até a Casa Dower.

A lareira ainda estava acesa, na sala, aquecendo todo o aposento. Ste­ven afundou no sofá, o rosto pálido, a expressão chocada. Georgina cor­reu até a cozinha e umedeceu uma toalha, voltando rapidamente e enxugando-lhe o rosto e a testa.


  • Já vou ligar para o médico — murmurou, ansiosa. — Só quero ver a extensão deste ferimento.

  • Não há necessidade de chamar o médico, George. Faça um chá pa­ra mim e pronto. Logo ficarei bom.

  • Você está muito machucado!

  • Foi só uma pancada. Nada sério.

  • Mas você está tão pálido...

Georgina ajoelhou-se ao lado de Steven e afastou os fios de cabelo es­curo da testa. Um suspiro sufocado escapou-lhe dos lábios ao ver o ta­manho do corte, onde o sangue começava a coagular; estava escuro ao redor e parecia ser bastante profundo.

— Oh, Steven! — Ela abraçou-o, arrependida por seu comportamen­to infantil. Provocara um acidente e Steven se machucara para protegê-la. Começou a soluçar, desamparada.

Ele enlaçou-a com os braços e Georgina puxou-o para si, acabando por desequilibrar-se e caírem ambos sobre o espesso tapete, metade do corpo de Steven em cima do de Georgina. Ele levantou a cabeça, com uma expressão divertida nos olhos azuis apesar da palidez de seu rosto.

— Parece que estou um pouco fraco, no momento — murmurou, sorrindo.— Se você quiser se aproveitar de mim, nada poderei fazer para impedir.



  • Não brinque, Steven — implorou Georgina, aflita. — Você não es­tá nada bem.

  • Garanto-lhe que estou... Não se preocupe, não vou terminar meus dias como "o cadáver no tapete".

  • Pare, Steven! O que aconteceu foi muito sério e a culpa foi toda minha. Você está gravemente ferido...

  • Não estou gravemente ferido, George — Steven enxugou as lágri­mas de Georgina e seu rosto desceu lentamente sobre o dela, fechando-lhe os olhos com os lábios. Em seguida a boca de Steven abriu-se sobre a de Georgina e ela envolveu-lhe o pescoço com os braços, grudando-se a ele num misto de paixão e proteção. Subitamente, o corpo de Steven parecia cheio de vitalidade, vibrante e vigoroso; deitou-se sobre Georgi­na, esmagando-a, beijando-a, até que ela gemeu, extasiada.

  • George... — murmurou ele, com voz rouca. — Tantas vezes sonhei em sentir você assim, debaixo de mim!

Georgina podia sentir o peso do corpo de Steven endurecendo de encontro ao seu e uma deliciosa letargia a invadiu, dominando-a por intei­ro, roubando-lhe a capacidade de pensar e de reagir. As únicas coisas reais eram o crepitar do fogo, a respiração ofegante de ambos, a sensa­ção de ter Steven em cima de si.

A mão dele introduziu-se sob seu suéter e apoderou-se de um seio, arrancando um gemido de prazer dos lábios de Georgina. Com um só movimento, ele arrancou-lhe o suéter pela cabeça, antes de fitá-la, o olhar em chamas. Beijou delicadamente um mamilo, depois o outro, levando Georgina quase à loucura. Ela arqueou o corpo, trêmula de desejo, ge­mendo o nome de Steven, que a beijava e acariciava-a com uma premência incontrolável.

Era agora. Em poucos minutos pertenceria a Steven e, naquele mo­mento, era tudo o que desejava e só o que importava.


  • Girassol! — gemeu ele, enterrando o rosto na suave curvatura en­tre os seios de Georgina.

  • Steven, Steven! Eu te amo, meu querido! — exclamou ela, numa explosão repentina de paixão e emoção.

Foi então que, subitamente, percebeu que Steven estava diferente. Tornara-se mais pesado, quase inerte, imóvel. Levantou-lhe a cabeça com as duas mãos e soltou um grito abafado ao contemplar-lhe a palidez mor­tal do rosto, os olhos fechados rodeados por círculos escuros.

Levantou-se abruptamente e Steven rolou para o lado, inconsciente. Quase em pânico, Georgina começou a sacudi-lo, a dar-lhe tapinhas no rosto, chamando-o, desesperada. Esfregou-lhe os pulsos vigorosamente e em seguida curvou-se sobre ele, colando o ouvido a seu peito. O cora­ção de Steven estava batendo! Forte, ritmado, vivo!

Georgina arrastou-se até o telefone, pressionando freneticamente os botões com dedos trêmulos. Foi o pai de Steven quem atendeu.

— Oh, venha rápido, por favor! Steven está muito mal! — implorou, chorosa.



  • Georgina! O que houve?

  • Oh! Steven... está... desmaiado...

  • Georgina, por favor, procure acalmar-se! O que aconteceu?

Georgina conseguiu fazer um curto relato dos acontecimentos, respi­rando profundamente para acalmar-se. Sir Graham entrou em ação ime­diatamente.

— Estaremos aí em dois minutos. Bill Davis está aqui, ele e seu pai vieram comigo. Acalme-se, Georgina, não há de ser nada.

Quando sir Graham chegou com Bill Davis e Harry, Georgina já esta­va vestida, ajoelhada no chão ao lado de Steven, o rosto quase tão páli­do quanto o dele.

— Ajudei-o a caminhar até aqui e ele me garantiu que estava bem. Eu estava indo preparar um chá quando ele desmaiou — mentiu Georgi­na, sentindo-se duplamente culpada.

Bill Davis decidiu que Steven deveria ficar hospitalizado, pelo menos até o dia seguinte. As radiografias não revelaram nenhuma lesão grave, mas a concussão e a ligeira perturbação mental eram fatores que não po­diam ser ignorados. Apesar dos protestos do próprio Steven, que reco­brara a consciência, Bill Davis mostrou-se irredutível.


  • E depois, alguns dias de cama — acrescentou para sir Graham. — Queira ele ou não.

  • Posso vê-lo? — apressou-se a perguntar Georgina, com um olhar suplicante para Bill.

  • Definitivamente, não. Você também levou um choque e precisa de cama. Steven está bem, eu lhe garanto. Leve-a para casa, Harry. Receita­rei um sedativo para ser tomado antes de dormir.

Era inútil opor-se aos três homens. Não restava alternativa a Georgina se não obedecer e voltar para casa com o pai e sir Graham. Manteve-se totalmente alheia à conversa dos dois, preocupada e pensativa. Sentia-se novamente envolta numa aura de irrealidade, quase acreditando que tu­do não passara de um pesadelo.

Steven recebeu alta do hospital no dia seguinte. Voltou para casa de ambulância, apesar dos protestos, e foi-lhe ministrado, por ordem do mé­dico, um forte sedativo, assim que chegou em casa.

— É a única forma de mantê-lo em repouso — explicou Bill Davis a sir Graham e lady Evelyn. — Precisará ficar pelo menos dois dias de cama. Ele teve uma concussão e nunca se sabe o que pode acontecer de­pois de uma pancada na cabeça.

Steven já estava em casa quando Georgina foi reunir-se com lady Evelyn e Célia para dar início aos preparativos para o baile de Páscoa. Ariel es­tava desorientada, como se Steven fosse seu noivo em vez de futuro cu­nhado. Não conseguia se concentrar na discussão sobre os itens a serem organizados para o baile, dizendo absurdos, causando uma profunda ir­ritação em lady Evelyn e levando o dedo aos lábios a todo momento com um "Shh!", como se fosse possível Steven ouvir alguma coisa, adorme­cido em seu quarto, no andar superior, numa casa daquele tamanho.



  • Ainda bem que conseguimos definir esta primeira etapa — Célia suspirou, aliviada, quando terminaram de tomar chá. — Vou acompanhá-la até sua casa, Gina.

  • Viu só como a boneca está agitada? — comentou, assim que puse­ram os pés fora de casa. — Chegou ao ponto de dar ordens à cozinheira! Mamãe precisou interferir.

  • A culpa foi minha — declarou Georgina, infeliz. — Nós discuti­mos e eu perdi a calma.

  • Bem, pode acontecer com qualquer um — contemporizou Célia, dando o braço à amiga.

  • Bati no volante e o carro perdeu a direção. Steven se feriu para me proteger. Colocou-se na minha frente, na hora da batida, e agora veja o estado em que está — Georgina começou a chorar e Célia abraçou-a.

— Não se aflija, querida! Ele vai ficar bom.

Georgina tinha certeza de que Steven ficaria bom. Era jovem, forte e saudável. Não era por isso que estava chorando. As lágrimas que der­ramava eram por si própria; por um amor que a sufocava e que não era correspondido. Steven desejava-a fisicamente, apenas isso. Depois que conseguisse tê-la, voltaria para os braços de Ariel e Georgina passaria o resto de sua vida pensando nele, vagando como um fantasma, cega, surda e muda para qualquer outro homem.

No dia seguinte, Georgina chegou em Kellerdale Hall para encontrar lady Evelyn num estado de impaciência como nunca presenciara antes.

— Georgina! — exclamou a senhora, com firmeza, assim que a viu. — Quero que suba até o quarto de Steven e faça-lhe companhia até que adormeça. Ele está impossível. Quer se levantar para almoçar e diz que nada o deterá. Estou ocupadíssima com esse baile e o telefone não pára de tocar, com recados de Londres para Steven. Cada vez que o telefone toca ele quer saber quem é, do que se trata, etc.

— Q... Quer que eu vá ao quarto de Steven? — indagou Georgina, sentindo a cabeça rodar ligeiramente.

— Com certeza. Você é a única capaz de mantê-lo distraído. Ande lo­go, querida. Você sabe onde fica o quarto dele.

Georgina sabia, mas nunca estivera no quarto de Steven, antes. Entrar lá, agora, era como dar um passo no escuro e um sentimento de ansieda­de a invadiu, enquanto subia as escadas.

Além de tudo, estava um pouco receosa de enfrentá-lo. Não sabia como ele reagiria, depois do choque, se estaria zangado, se a recriminaria ou não. Estava arrependida por ter confessado que o amava, dissera as palavras levada pelo impulso e pela emoção, apesar de ter prometido para si mesma que guardaria seu segre­do, como uma espécie de escudo para proteger-se de Steven.

Deu uma pancadinha tímida na porta e a resposta ríspida e nem um pouco encorajadora veio imediatamente:

— Entre!


Georgina obedeceu e ficou parada junto à porta, sentindo-se uma intrusa. Assim que a viu, a expressão exasperada de Steven modificou-se. Ficou olhando para ela, em silêncio, tão intensamente que Georgina sentiu-se encolher.

  • Sua mãe pediu-me para subir — murmurou, embaraçada.

  • Ah! Para manter-me prisioneiro, é isso?

— Para conversar com você até que adormeça — confessou Georgi­na, séria.

Steven riu.

— Venha, então, George. — Ele deu uma pancadinha no colchão, convidando-a a sentar-se. — Não agüento mais ficar nesta cama, sozi­nho.

Georgina deu um passo à frente e parou, hesitante. Steven estava recostado nos travesseiros, causando um contraste elegante e severo entre o pijama de seda preto e o brilho cremoso dos lençóis de cetim.

— Pode se sentar — murmurou, irônico, quando Georgina não se mo­veu. — Controlarei meus instintos selvagens de puxá-la para a cama comigo.

Ela enrubesceu ligeiramente e puxou uma cadeira, posicionando-a ao lado da cama e cruzando as mãos formalmente sobre as pernas. Ficaria mais fácil se fizesse de conta que estava visitando Steven no hospital.



  • Sente-se perto de mim, George. Quero segurar sua mão.

Georgina estendeu a mão para Steven, contudo sem sair do lugar.

  • Está com medo de mim, George?

Ela recuou instantaneamente, re­tirando a mão, e Steven suspirou, divertido.

— Você está bem? — quis saber, mudando de assunto, para alívio de Georgina. — Não se machucou, no acidente?

— Não, para mim foi apenas o susto. Tive medo que você morresse.


  • Não pense mais nisso. Afinal, foi você quem buscou socorro, não foi?

  • Sim. Telefonei assim que chegamos em casa. Você disse que estava bem, mas desmaiou. — Georgina enrubesceu ao lembrar-se das circuns­tâncias em que Steven desmaiara.

  • Quando chegamos em casa? — Steven franziu a testa. — Nós voltamos para cá?

— Não, para minha casa. Não se lembra?

Steven olhou para Georgina, perplexo, e em seguida balançou a cabe­ça, rindo.

— Que coisa incrível! Acho que me deu um branco.

Georgina não sabia se ficava triste ou contente. Steven não se lembra­va de quase terem feito amor, de ela ter dito que o amava.



  • Lembra-se do acidente?

  • Perfeitamente, pensei que me lembrasse de tudo.

  • Quase meia hora se passou depois do acidente e antes de você des­maiar. Se não se lembra, deve mesmo obedecer às ordens de Bill Davis e não sair da cama.

  • Não está inventando essa história para me convencer a ficar na ca­ma, está? — perguntou, desconfiado.

— Claro que não, Steven. Eu jamais faria uma coisa dessas.

— Há mais alguma coisa de que eu não me recorde? Não foi alucinação que você rompeu com o Ripley e começou a sair comigo, foi?

— Não — Georgina baixou o olhar.

— Ainda bem. Cheguei a pensar que estivesse tendo sonhos eróticos. — Ele estendeu o braço e segurou a mão de Georgina, que inclinou-se para a frente. — Sabe de uma coisa? Eu ficaria muito mais tempo nesta cama se você se deitasse aqui comigo. Já está em tempo de você ser mi­nha, Georgina.

Georgina estava desnorteada. Steven estava retrocedendo no tempo. Não fizera nenhum comentário sobre a motocicleta, ou sobre Stardust. Ape­nas reforçava aquela determinação de possuí-la, de transformá-la em sua amante.

Uma batida na porta interrompeu-os e Steven revirou os olhos, exas­perado.

— Obviamente, teremos de encontrar um lugar secreto, só para nós dois. Entre! — acrescentou, impaciente.

Ariel irrompeu pelo quarto adentro e estacou, boquiaberta, os olhos arregalados, ao deparar-se com Georgina.

— Não acha que isto é levar a coisa longe demais, Steven? — pergun­tou, furiosa. — Era só o que faltava, essa garota em seu quarto!

O sangue subitamente ferveu nas veias de Georgina; ia abrir a boca para responder à altura, porém Steven foi mais rápido.



  • Que coisa interessante — murmurou, irônico. — Aqui estava eu, preocupado com meus lapsos de memória, e você, que não sofreu ne­nhuma pancada na cabeça, está com a memória mais fraca que a minha. Você é noiva de Malcolm, este é meu quarto e Georgina... bem, eu pen­sava que já tivesse ficado claro para você nosso relacionamento.

  • Interessante é você nunca ter mencionado essa garota quando es­távamos em Londres — revidou Ariel, amarga. — Você sabe o que eu sentia por você — continuou, como se Georgina simplesmente não esti­vesse ali.

  • Sem dúvida — retrucou Steven, irônico. — Você era tão dedicada a mim que ficou noiva de meu irmão. Isso é o que eu chamo de devoção.

Ariel virou-se e marchou para fora, as faces coradas de indignação, e Georgina afundou na cadeira, pálida.

— Não ligue para ela, Georgina. O problema não é nosso.

— Não, é de Malcolm — lembrou Georgina, calmamente. — Ariel vai se casar com ele quando é de você que ela gosta.

Steven não pôde impedir Georgina quando esta saiu correndo do quarto. Para que continuar lá, afinal? Não acabara de presenciar uma briga de namorados?

Com medo que Steven a seguisse, percorreu rapidamente o longo cor­redor e desceu a escada dos fundos, apressada, enquanto as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. Atravessou o pequeno vestíbulo e saiu por uma das portas laterais, agradecendo intimamente por conhecer os corredo­res e passagens daquela casa como se fosse seu lar. Algo que nunca mais seria... Suas suspeitas foram confirmadas, pelos lábios do próprio Ste­ven e nada voltaria a ser como antes.

Célia telefonou na manhã seguinte e contou a Georgina que Steven fo­ra para Londres, contrariando os protestos da família inteira.

Georgina sentia a vida esvair-se de seu corpo. A única coisa que a aju­dou a sustentar-se de pé nos dias que se seguiram foi a inesperada chega­da de Rowena.

Rowena era a lembrança mais agradável que Georgina tinha dos tem­pos de colégio interno, onde estudara durante três anos. Célia também estudara lá, mas, sendo dois anos mais velha, estavam em classes dife­rentes e aquele longo período, em que Georgina sentia tanta falta de ca­sa, do pai e de Steven, teria sido insuportável se não fosse por Rowena.

Agora, ela aparecia miraculosamente, num momento em que a vida de Georgina parecia desmoronar. Um pequeno carro esporte com o escapamento furado parou em frente ao portão da Casa Dower e Rowena desceu, estendendo os braços para Georgina.


  • Rowena! Que surpresa! — exclamou Georgina, por um momento esquecida de sua infelicidade.

  • Estou prontíssima para o baile de Páscoa! Precisa ver o vestido que vou usar. É cor de laranja!

— Mas... como...

— Célia me convidou. Disse que eu poderia me hospedar aqui, mas pediu-me para fazer surpresa.

Célia era especialista naquele tipo de coisa. Desta vez, entretanto, Geor­gina não a recriminava. Rowena, com seu cabelo castanho curto e encaracolado, olhos castanhos expressivos e faces coradas, era uma criatura tão carismática que todos os problemas pareciam evaporar quando esta­va por perto.

Harry ficou encantado ao vê-la. Os três conversaram até tarde da noi­te e foi somente depois que subiram para o quarto que Rowena tocou no assunto mais importante para Georgina.

— Como vai o fabuloso Steven? — perguntou, jogando-se de bruços sobre o sofá-cama.

Rowena passara noites e noites escutando as confidencias e desabafos de Georgina, quando eram companheiras de quarto no colégio. Sabia tudo sobre Kellerdale e sobre Steven.

— Está em Londres — informou Georgina, evitando olhar para a amiga e começando a escovar vigorosamente os cabelos.

Houve uma pausa quase imperceptível antes de Rowena levantar-se e aproximar-se, sentando-se ao lado de Georgina.



  • Você nunca deixou de gostar dele, não é? Mas o que acontece, Gi­na? Steven sempre foi tão atencioso com você, comparecia a todas as festas e eventos do colégio... Lembra-se de quando nos levava para tomar cho­colate com creme? Eu mesma teria me apaixonado facilmente, se não sou­besse que ele era seu herói.

  • Existe uma mulher no meio da história, Rowena — confessou Georgina, amargurada. — É um caso antigo e acho que os dois vão acabar se casando.

Ela caiu em prantos e Rowena abraçou-a.

  • Oh, Gina... Há alguma coisa que eu possa fazer?

  • Me apoiar, Rowena. No baile, quero dizer. Tire-me de lá se achar que deve. Não me deixe fazer papel de boba.

— Como se fosse possível você fazer papel de boba.

— É totalmente possível — afirmou Georgina, olhando para a amiga com o rosto vermelho de chorar. — Quando Steven se casar, terei de ir embora daqui. Não, terei de ir antes. Eu não suportaria ver... oh!

As duas amigas se abraçaram, porém Georgina não disse mais nada. Não podia contar a Rowena mais do que contara a Célia. Como poderia confessar que o amor de sua vida só a queria numa base temporária? Como poderia contar que ele queria a noiva do irmão?

Depois que se acalmou, Georgina falou sobre Jeremy e a mãe, sobre o acidente, sobre Stardust e a motocicleta, e que Steven se ferira ao ten­tar protegê-la.



  • Tem certeza de que existe mesmo essa mulher em Londres? Steven parece estar o tempo todo perto de você, te protegendo!

  • Eu não quero proteção. Quero amor, e isto é algo impossível de se fazer acontecer — Georgina suspirou. — Steven foi se encontrar com ela quando eu tinha dezoito anos. Não sei o que aconteceu depois, mas houve alguma coisa. Parece que se separaram por algum tempo e... foi somente agora que fiquei sabendo quem ela era.

Georgina fez uma pausa, antes de acrescentar:

— Preciso te avisar de uma coisa. Malcolm está noivo.



  • É mesmo? Malcolm é uma gracinha — Rowena sorriu, o olhar distante.

  • Não se envolva com os problemas dele, Rowena. Ariel é uma pes­soa detestável e a última coisa que desejo é ver você como alvo de seu ódio.

  • Ariel? — Rowena franziu a testa. — Que nome! Só pode ser com­binação de dois. A mãe deve ser Aurora e o pai, Daniel.

Georgina não pôde deixar de rir, embora refletisse como Rowena se parecia com Célia, em muitas coisas. Não sabia em qual teria de ficar de olho, no baile. Se as duas resolvessem unir esforços, o resultado seria encrenca, na certa.

As mãos de Georgina tremiam enquanto se arrumava para o baile. Olhou-se no espelho, desconsolada. Não sabia dizer se parecia mais pá­lida agora, depois de maquiar-se, ou antes. A única coisa que contrasta­va com o total esmorecimento de seu ser era o cabelo, escuro, brilhante, cheio de vida. Georgina prendera-o no alto da cabeça, deixando os ca­chos sedosos e macios soltos sobre os ombros.

Naquela noite não usaria verde, a cor predileta de Steven. Não conse­guiria, simplesmente. Escolhera um vestido de chamalote lilás, tomara-que-caia, de saia rodada. Abotoou o colar de pérolas com dedos trêmu­los e estava aplicando uma gota de perfume de cada lado do pescoço quan­do Rowena entrou no quarto.


  • Georgina, você está linda! Parece uma princesa! O que acha de meu traje cor de laranja? — Rowena recuou e segurou a saia do vestido, fa­zendo pose para que Georgina pudesse apreciá-la.

  • Um "estouro" — elogiou Georgina, com um sorriso, admirando o cabelo cacheado da amiga, o modelo do vestido que lhe favorecia as formas rechonchudas, a cor que combinava com o tom moreno de sua pele e os olhinhos alegres e maliciosos.

  • Ótimo! — exclamou a outra, com firmeza. — Vou acabar com a raça deles.

Deles, quem?, pensou Georgina, seus mais profundos temores voltan­do a assaltá-la. De Malcolm e Ariel? Da família inteira? Oh, aquela noi­te não seria nada fácil.

Harry mostrou-se impressionado quando as duas desceram as esca­das. Chamou-as de "beldades" e acompanhou-as a pé, entrando no sa­guão de Kellerdale Hall com o orgulho estampado no rosto.

Foram recebidos por sir Graham e lady Evelyn, mas Georgina parecia incapaz de controlar os próprios olhos, que se moviam, irrequietos, à procura de Steven. Ele não estava lá, mas no primeiro patamar da esca­da encontrava-se um enorme cão preto, em pose de esfinge, observando com interesse a chegada dos convidados. Quem seria capaz de dar uma ordem e fazer-se obedecer por Prince, se não Steven?

No instante seguinte, Harry envolveu-se com outros convidados, que não paravam de chegar. Era evidente que aquele baile alcançaria o mes­mo sucesso dos anos anteriores.

Malcolm aproximou-se com Ariel, que estava simplesmente deslum­brante. Demonstrou claramente sua desaprovação quando Malcolm cum­primentou Georgina e Rowena, beijando a mão de ambas.

— Que belezas! — exclamou ele, evidentemente embevecido. — Se for sempre assim, precisamos organizar mais bailes durante o ano!

Para Georgina, Malcolm era como um irmão, mas Rowena enrubesceu, lançando um olhar significativo para Georgina. Nesse momento, lady Evelyn chamou Ariel para apresentá-la a um casal de idade que acabara de chegar e ela afastou-se, deixando para trás um Malcolm obviamente satisfeito, que não tirava os olhos de Rowena.

— Steven descerá em um minuto — acrescentou para Georgina, levando-a a assumir que isto significava que deveria permanecer onde es­tava, enquanto ele se afastava com Rowena.

Malcolm estava brincando com fogo, mas como a iniciativa não parti­ra de Rowena, o problema era dele. Georgina não ia se preocupar, tam­pouco ficaria ali plantada, esperando por Steven.

Olhou para todos os lados, à procura de alguém conhecido com quem pudesse conversar. Quanto mais distante de Steven se mantivesse, a noite inteira, melhor. Mostrar-se-ia indiferente, beberia, riria e se divertiria a valer. Se pudesse deixar de cumprimentá-lo, melhor ainda. A sua volta tudo eram risos e alegria e ela começou a sentir um princípio de pânico, como se fosse uma estranha em terra hostil. Os músicos já afinavam seus instrumentos, no salão, os amigos chegavam, cumprimentavam-se, e Geor­gina não conseguia sair do lugar. Parecia encontrar-se de pé numa pe­quena ilha, banhada pela luz do enorme candelabro que pendia do teto do saguão, e ainda estava ali, congelada, quando Steven surgiu no alto da escada.

Prince pôs-se de pé imediatamente, porém Steven estalou os dedos e apontou para o chão. O cão voltou à sua posição original e, naquele mo­mento, Georgina sentiu que seria capaz de fazer o mesmo.

Steven avistou-a quando estava no meio da escada e parou, também, a expressão alterando-se de maneira dramática. Um momento antes, es­tava quase sorrindo, perfeitamente à vontade, porém agora parecia para­lisado, observando-a atentamente.

Georgina reparou por alto no smoking preto, nos cabelos negros e bri­lhantes, pois seu olhar estava capturado pelos penetrantes olhos cor de safira. Por alguns instantes assim permaneceram, fitando-se, tensos, e Georgina, então, teve certeza do que ele lhe diria. Não havia mais dúvi­das. Talvez Steven não tivesse planejado lhe contar, mas naquele instante tomava a decisão. Estava explicado por que Malcolm se mostrara tão à vontade com Rowena... Ele, Steven e Ariel finalmente haviam chegado a um acordo e encontrado a paz.


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