Amante por uma noite



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Capítulo II
Georgina protestou quando Steven parou em frente à Casa Dower e deu a volta, abrindo a porta do carro e curvando-se, como se fosse pegá-la no colo.

  • Pode deixar, eu consigo!

  • Consegue o quê?

Ele levantou-a nos braços e o simples gesto provocou tontura em Geor­gina. Deixou escapar um gemido de dor, mas Steven ignorou-a. Não pas­sava de uma garota tola com quem ele tivera o infortúnio de envolver-se, no passado.

  • É você, Georgina? — A voz de Harry soou do escritório assim que Steven entrou no vestíbulo.

  • De certa forma — respondeu este. — Me admira muito, Harry, que permita que George ande de motocicleta.

  • Oh! — Harry Summers apareceu no umbral da porta, o rosto sur­preso. — Ela está muito ferida?

  • Acho que não, mas é melhor chamar Bill Davis — Steven entrou na sala de estar e deitou Georgina no sofá.

Harry correu para o telefone e obedientemente começou a discar o nú­mero do médico.

— Georgina é teimosa, sr. Steven! — queixou-se, entre irritado e apreen­sivo. — Não desiste dessa moto de jeito nenhum!

Sr. Steven?! — Georgina olhou para o pai com uma careta de nojo. — Que novidade é essa?

— As coisas mudaram, minha filha. Um dia ele será sir Steven.

— Pare com isso, Harry — protestou Steven. — Se não vou pensar que George herdou sua deficiência mental de você. E ela não vai mais andar naquela moto!


  • Talvez agora que você está aqui, ela obedeça.

  • Tenho vinte e dois anos! — gritou Georgina, tentando levantar-se. — Posso fazer o que quiser!

— Não enquanto estiver em Kellerdale — impôs Steven, com firme­za, fitando-a intensamente até ela baixar os olhos.

"Amanhã", disse Georgina para si mesma. "Amanhã... Hoje, não te­nho mais forças para discutir."



  • O dr. Davis está a caminho — anunciou Harry, aproximando-se e olhando para a filha, ansioso. — Fique à vontade, se quiser voltar para casa, Steven.

  • Só depois que eu souber até que ponto foi o prejuízo, aqui. Afinal, tive uma participação nesse acidente.

Ele sentou-se e Georgina não precisava abrir os olhos para saber que estava determinado a fazer o que dizia. Sempre fazia o que queria. Subi­tamente, lembrou-se da cerca.

— Preciso avisar Jack...

Steven não lhe deu tempo para concluir a frase. Pôs-se de pé e pegou no telefone, discando os números com impaciência.

— Uma das cercas está no chão — investiu, sem preâmbulos, quando Jack atendeu. — Não quero os animais no gramado. Sim, estou de volta e você devia ter visto isso mais cedo.

Steven bateu o telefone e Georgina lançou-lhe um olhar desaprovador.


  • Jack é um bom homem. Você não foi muito gentil, nem diplomático.

  • Não tenho de ser nem uma coisa nem outra.

Ele serviu-se de um drinque e Harry olhou de um para outro, desam­parado. Então, era assim, pensou Georgina, suspirando. Todos que pulassem miudinho, porque Steven estava de volta.

Fechou os olhos e dei­xou que o pai lhe tirasse as botas. A atmosfera tornara-se subitamente densa dentro da sala, mas ela ficaria de fora mantendo os olhos fecha­dos. Sentiu pena do pai e vontade de mandar Steven para o inferno. En­tretanto, tinha de controlar-se para não magoar a família inteira. Além disso, um dia ele seria seu patrão e precisava tomar cuidado se quisesse garantir o emprego.

Não restava dúvida de que Steven voltara no mesmo estado de espírito com que partira. Ela ainda era "George", a tola, a idiota. Como pudera um dia sentir alguma coisa por aquele homem? Benditos os gloriosos instintos da infância e malditas as paixões imbecis da ado­lescência!

Quando Bill Davis chegou o ritual se repetiu.



  • Confesso que não é surpresa para mim — declarou o médico, seco, enquanto examinava Georgina à procura de fraturas ou concussões. — Voando por aí naquela moto... Você teve sorte de escapar ilesa. Da pró­xima vez...

  • Não haverá próxima vez — interrompeu Steven, olhando para Geor­gina como se esta fosse um espécime biológico repulsivo.

Não se afastara do lado de Bill Davis durante toda a consulta e um nó apertava o estômago de Georgina, tamanha a contrariedade que sen­tia. Não que estivesse despida, o doutor examinara-a sem que fosse pre­ciso tirar a roupa, mas aquela atitude possessiva irritava-a profundamente; o grande lorde, o senhor do pedaço.

Bill Davis devia ter pedido a Steven que se retirasse, mas não o fizera. Até o velho e respeitado médico local submetia-se ao jugo do poderoso.



  • Está tudo bem — concluiu, finalmente. — Não passou de um sus­to. Vai ficar em observação durante vinte e quatro horas. Se ela mostrar algum sinal de perturbação mental, avise-me imediatamente.

  • Isso ela já mostrava antes do acidente — falou Steven, inconveniente, e Georgina fulminou-o com os olhos, mais furiosa ainda ao notar que Bill Davis e o pai esforçavam-se para conter o riso.

  • É importante ficar em repouso — aconselhou o médico. — Minha prescrição é um banho morno, chá e cama. Que tal um drinque para nós, Harry?

— Eu a ajudarei a subir — prontificou-se Steven.

Impotente para recusar, com os três homens olhando para ela como se fosse um objeto em exposição num museu, Georgina sentou-se e Ste­ven segurou-a nos braços.

— Já está na hora de Bill se aposentar — resmungou, enquanto Ste­ven a carregava para cima como se não pesasse mais do que uma boneca de pano.


  • Querendo um médico jovem e bonitão? — volveu Steven, seco.

  • Não quero nada. Estou namorando firme — mentiu Georgina.

Saía freqüentemente com Jeremy Ripley, dono de uma fazenda vizi­nha, mas não podia ser considerado um namoro firme. Nunca pensara em ter um relacionamento sério com Jeremy. Gostava da companhia do rapaz e sabia que ele não saía com mais ninguém, mas estava mais inte­ressada em seu trabalho na fazenda do que em namorar.

— Hum. Namorando firme, hem? Eu sei, mamãe me contou. Com aquele garoto... o Ripley.



  • Ele tem vinte e cinco anos.

  • É mesmo? Lembro-me dele como um adolescente cheio de espinhas.

  • Presumo que também se lembre de mim como uma adolescente cheia de espinhas.

  • Você nunca teve espinhas, George — Steven sorriu e o sorriso iluminou-lhe o rosto, provocando uma onda de intensa emoção em Geor­gina. Memórias agradáveis invadiram-lhe a mente, memórias do tempo em que adorava Steven. Mas havia outras memórias, também, que ela jamais esqueceria.

  • Você não devia entrar em meu quarto — censurou, quando Steven empurrou a porta com o ombro. Obviamente, ele sabia qual era o quarto de Georgina; não era a primeira vez que a levava até lá no colo, mas isto acontecera quando ela era uma garotinha.

  • Prometo não atacá-la sem uma permissão por escrito. — Ele sor­riu de novo e Georgina sentiu o rosto pegar fogo.

  • Meu pai não devia ter permitido isto. Ele devia ter me trazido. Vo­cê é praticamente um estranho.

— Mas não inteiramente. Grite para ver o que acontece.

— Eu sei! Ele vai gritar lá de baixo, querendo saber o que estou apron­tando, desta vez.

Steven riu e colocou Georgina sentada na cama.

— Acha que pode tomar banho sozinha?

— Obviamente que sim! — respondeu ela, indignada. — E se não pu­desse não seria você quem me ajudaria!

— Bem... Então, boa noite, George!

Por um instante, Georgina sentiu-se triste, deprimida. Steven reaviva­va tantas memórias, nem todas más.

— Steven! — chamou, num impulso, antes de ele sair. — Você vai fi­car? Quero dizer... voltou para ficar muito tempo?

Ele parou no umbral da porta e olhou fixamente para Georgina, os olhos azuis estudando-lhe o rosto.


  • Para sempre... acho. Por quê?

Georgina sacudiu os ombros.

  • Por nada. Só que... é uma situação... esquisita.

— Eu sei — Steven suspirou. — O problema, George, é que seu pai faz parte disto tudo. Até que se aposente, você não tem escolha. Tem de ficar aqui.

Os olhos de Georgina se arregalaram.

— Mas quando ele se aposentar, eu o substituirei!

Steven não respondeu. Limitou-se a levantar uma sobrancelha e saiu, fechando a porta.

O coração de Georgina pareceu encolher. Steven pretendia livrar-se dela e não importava quanta consideração tinha por seu pai. A última pala­vra era sempre de Steven e ele não tinha intenção nem mesmo de dar-lhe a chance de tentar. Teriam de ir embora, viver em outro lugar... Nunca mais veriam Kellerdale outra vez!

Depois de tomar um banho rápido, que trouxe grande alívio para as dores musculares decorrentes da queda, Georgina deitou-se mas não sentia sono; só tristeza. Devia ter previsto que seria assim quando Steven voltasse.

A nova perspectiva da situação não a deixava dormir. Por maior que fosse a raiva e o ressentimento, as imagens do passado assaltavam a mente de Georgina, cenas fragmentadas que a faziam virar de um lado para outro, na cama: o hall iluminado pelo sol de verão, os caminhos floridos que cortavam o gramado... Steven estava lá, alto, o cabelo preto contras­tando com os olhos incrivelmente azuis.

Com oito anos de idade, Georgina era uma menina miúda, sem ser magra demais, o cabelo vermelho-escuro já bastante comprido, abaixo dos ombros, e corria pelo jardim inteiro com Célia que, embora apenas dois anos mais velha era bem mais alta. Brincavam de esconde-esconde entre os arbustos quando Steven e o pai se aproximaram, as vozes adul­tas e graves deixando Georgina intimidada.

— Olá, Célia. Escondendo-se? — Steven parou e olhou para a irmã, que o fulminou com os olhinhos azuis.

— Steven, você estragou tudo! Agora Georgina vai me pegar.

Foi um choque para Georgina ouvir a amiga falar daquela maneira com o irmão. Afinal, ele tinha vinte anos! Era tão importante, tão per­feito! Saiu de seu esconderijo antes que Steven mandasse, levantando para ele os olhos cor de mel assustados.

Foi um alívio vê-lo sorrir, os olhos azuis repletos de ternura; e um cho­que quando ele curvou-se e pegou-a no colo.

— Olá, Girassol! Acho que estraguei a brincadeira de vocês.


  • Não é justo — queixou-se Célia depois que os dois homens se afastaram. — Eu estava ganhando. Steven é um bobo!

  • Não é, não! — protestou Georgina, com veemência. — Foi sem que­rer e ele é bárbaro! Quando eu crescer vou casar com ele.

O som de risadas chamou a atenção das duas meninas, que se vira­ram, e o rosto de Georgina ficou vermelho quando viu que Steven e sir Graham ainda estavam ali, profundamente interessados na discussão.

— É uma promessa — ameaçou Steven, balançando o dedo para ela. — Não vou deixá-la esquecer.

Georgina correu para esconder-se, de vergonha, mas para ela Steven era um herói, alto, moreno, bonito, um santo... até a revelação em con­trário.

Finalmente, Georgina mergulhou num sono agitado, assombrado por uma pantera de olhos azuis que enxergava através das paredes.

No dia seguinte, o esperado convite para o jantar de boas-vindas a Ste­ven foi proferido por lady Evelyn. Georgina estava se sentindo bem, mas decidira usar o acidente como desculpa, até que ouviu o comentário, "Se Georgina não estiver bem adiaremos para amanhã." Aquilo encerrava qualquer possibilidade de escapar e a única alternativa que lhe restava era aceitar.

O pai insistira para que não saísse para trabalhar naquele dia, o que a deixara em casa perambulando e pensando. Inevitavelmente, pensou em Steven. A palavra não poderia ser mais adequada, porque Steven era aquilo mesmo: inevitável, predestinado. Seu lugar na vida de Georgina fora estabelecido desde a infância, quando a imensa casa do outro lado do gramado tornara-se seu segundo lar.

Cinco anos depois que vieram morar em Kellerdale, a mãe de Georgi­na simplesmente fora embora, abandonando o marido e a filha sem mais nem menos, sem nem sequer um aviso ou explicação, destruindo, assim, o que até então fora uma vida feliz. Georgina estava com dez anos e fora Steven que a encontrara encolhida sobre a relva, na entrada do bosque. Não dissera uma palavra, simplesmente abraçara-a e enxugara-lhe o rostinho molhado pelas lágrimas. Era o que Georgina precisava: calor, se­gurança; e Steven parecia saber disso, seu adorado Steven.

Georgina acreditava que sua fixação romântica por Steven tivesse co­meçado a partir daquele momento, porque ele estava sempre presente, acalmando-a, consolando-a, e muitas vezes defendendo-a. Seu mundo girava em torno de Steven. A crueldade só transparecera muito depois e com ela a descoberta de que ele não era o santo que Georgina imagina­ra. Havia mulheres em sua vida, muitas mulheres. Steven não lhe pertencia.

Georgina caminhou, indócil, de um lado para outro, na sala. Não queria pensar em Steven, queria poder esquecer tudo o que acontecera. Mas co­mo? Lembrou-se do jantar daquela noite. Célia advertira-a no dia ante­rior... Estaria mesmo se negligenciando? Jeremy não parecia ser dessa opinião: não cansava de elogiá-la e parecia orgulhoso em sair com ela.

Subiu até o banheiro e olhou-se no espelho; o cabelo solto caía-lhe pelas costas até a cintura. Célia tinha razão, estava na hora de dar um trato naquele cabelo. Mas não teria condição de ir à cabeleireira para cortá-lo ainda para aquela noite. Não que tivesse a mínima chance de desbancar Ariel. Célia devia estar delirando se realmente imaginara que isso fosse possível.

Georgina acabara de sair do banho quando o telefone tocou. Vestiu o robe de seda, apressada, e desceu para atender. Era Célia.


  • Não liguei antes com receio de acordá-la. Como está?

  • Bem, obrigada. Steven lhe contou?

  • Claro. Ele estava bastante abalado. Disse que poderia ter te matado.

— Eu estava na contramão — confessou Georgina, imaginando as crí­ticas que Steven devia ter feito em casa, ao mencionar a motocicleta. Ariel Delafield devia ter se divertido um bocado com a situação. — Mas Prín­cipe me prestou os primeiros socorros. Foi correndo lamber meu nariz.

Célia riu.

— Ele segue Steven por toda parte. Ariel morre de medo dele.


  • Do Príncipe ou de Steven?

  • Do Príncipe, boba! Ele rosna toda vez que a vê. E só rosna para ela.

  • E por falar nisso, como vai nossa prima-dona?

  • Como sempre. Hoje será o grande dia. Não se esqueça de vir des­lumbrante.

  • Não sei como conseguirei. Não estou com disposição para ir à ca­beleireira e não tenho nenhum vestido maravilhoso.

  • Darei um pulo aí depois do almoço — anunciou Célia, desligando antes que Georgina pudesse protestar.

Georgina sentiu uma ponta de desânimo. Ainda não estava cem por cento, depois do acidente da véspera, mas tinha de ir examinar seu guarda-roupa porque Célia seria capaz de cortar as bainhas de quantos vestidos houvesse no armário só para ver como ficariam. Antes disso, porém, fa­ria um café para reanimar-se.

Ao virar-se, depois de recolocar o fone no gancho, deparou-se com Ste­ven parado na porta que dava para o vestíbulo e quase caiu sentada, de susto. Nunca fechavam a porta da casa durante o dia, mas não o ouvira entrar. A cor desapareceu-lhe do rosto em decorrência do choque.

— Qualquer um pode entrar aqui — começou ele, acusando-a antes mesmo de dizer bom-dia, o que aliás não fez.


  • Realmente — concordou ela, seca. — Você entrou. E me assustou.

  • É por isso que está tão pálida?

— Não sei. Ainda não estou muito boa — acrescentou, com a espe­rança de conseguir escapar do jantar, na última hora. Steven, no entan­to, não deu importância.

— Sente-se — ordenou. — Vou lhe fazer um café.

Eu vou fazer o café — protestou Georgina, perdendo a paciência. Steven agia como se nunca tivesse ido embora, como se nunca a tivesse magoado, como se tudo fosse como antes. — Eu moro nesta casa.

— Ótimo. Também quero — volveu ele, com indiferença. Seguiu-a até a cozinha e debruçou-se sobre a mesa para observá-la, enquanto Georgina enchia a chaleira de água e arrumava as xícaras. Ela sentia-se como se ainda tivesse oito anos, perturbada e amedrontada pe­la presença vibrante de Steven.



  • Grande ou pequena? — perguntou, em tom de desafio, determina­da a não se deixar intimidar.

  • Não conheço a brincadeira. Grande ou pequena, o quê? Precisa me ensinar as regras. Quantas chances tenho para acertar?

  • Estou perguntando se você quer tomar café numa xícara grande ou pequena — explicou, erguendo o tom de voz, desejando que ele fosse logo embora e a deixasse em paz.

— Oh... grande — disse ele, sério.

Georgina desviou o olhar, tentando combater a ansiedade. Suas mãos começaram a tremer e as xícaras chacoalhavam, por mais que se esforçasse.

— Você está tremendo — observou Steven, com evidente satisfação.


  • Eu disse que ainda estou fraca. Foi um tombo feio, se você pensar bem. Você podia ter me matado.

  • Não me venha com essa agora, George, porque sei que você e Célia vivem penduradas no telefone. E aposto que estão tramando alguma coisa. Não quer me dizer o que é, antes que se meta em alguma encrenca?

  • Não vou me meter em encrenca nenhuma. Tenho a impressão que você está me confundindo com uma adolescente que conheceu.

  • Quer dizer que não é mais? — retrucou ele, irônico. — Para mim, parece exatamente a mesma. Haja visto a motocicleta.

Georgina reprimiu um suspiro. Não tinha idéia do que Steven estava fazendo ali e por que a atormentava daquela forma. Estendeu-lhe a xíca­ra de café, porém seus dedos tremiam tanto que parte do líquido derra­mou sobre seu polegar, fazendo com que depositasse rapidamente o pi­res sobre a mesa e levasse o dedo à boca, com um gemido.

— Você não está em condições de ficar sozinha numa casa — decla­rou Steven. — Deixe-me ver o dedo.

Ela afastou a mão.


  • Não foi nada. E posso muito bem ficar sozinha! Sou adulta e res­ponsável por mim mesma, e quanto antes você sair daqui, melhor.

  • Qual é o grande acontecimento? — perguntou ele, inesperadamen­te. — Esperando por Ripley?

— Como assim?

— Não se faça de inocente, George. Sozinha dentro de casa, com esse robe todo vaporoso, o cabelo solto... Nunca vi você assim! Obviamente está à espera de algum evento significativo.



  • Não sei do que você está falando.

  • Por que não está de trança?

  • Porque tomei banho e em seguida o telefone tocou e...

  • Ripley telefonou, marcando um encontro? — acusou Steven, os olhos azuis frios como gelo. — E precisa ser aqui, na sua casa? Por que ele não leva você para a fazenda? A mãe não admite? Pois enquanto esti­ver morando aqui...

  • Pare com isso! — explodiu Georgina, furiosa. — Seu arrogante! Que direito tem de vir aqui me insultar?

  • É bom acalmar-se, George — disse ele, em tom de reprimenda. — Não lhe fará bem exaltar-se.

Georgina deixou escapar um murmúrio de incredulidade e ironia.

  • Mas não é incrível? Eu estava em minha casa, cuidando da minha vida, quando você aparece do nada, me acusa, me insulta, e a culpa é minha! O que não me faz bem é ver você na minha frente. Saia já daqui!

  • Peço desculpas. — Os olhos azuis brilharam, intensos. — Pensei que tivesse se vestido assim para esperar por Ripley.

— Mesmo que tivesse, não seria da sua conta.

Georgina levantou-se e virou-se para colocar sua xícara dentro da pia. No instante seguinte estremeceu, ao sentir a mão de Steven em seu ombro.

— É ele, Georgina? É Ripley, o grande felizardo? Ou ele é apenas um entre outros?

Ela levantou os olhos para Steven.

— Eu sou fiel, Steven — afirmou, num tom de voz que continha uma acusação velada.

— Será?


Os olhos azuis pareciam querer devorá-la e as imagens confusas do sonho daquela noite assaltaram Georgina. Steven conseguia enxergar den­tro dela. Seu coração disparou dentro do peito quando ele virou-a gen­tilmente e abraçou-a.

— Vamos ver até que ponto você é fiel. Beije-me, em vez de Ripley.

— Eu... não beijo qualquer um. Não sou mais criança — balbuciou ela, o pânico estampado no rosto, as pernas trêmulas.

— Você já não era mais criança quando a beijei pela última vez.

— Na época, você achava que eu era. Ou esqueceu de tudo o que dis­se? — Ela retesou o corpo, esforçando-se para parecer hostil. Steven, no entanto, percorreu as mãos por suas costas, o calor de sua pele penetran­do a seda macia do robe, e Georgina fitou-o com mais súplica do que raiva.


  • Ainda não — ele murmurou. — Estou de volta, Georgina.

  • E acha que estou à disposição?

— Por que não? Não deixa de ser uma situação conveniente. Você mora perto... Tudo o que sabe aprendeu comigo... E nós dois sabemos o que acontece quando estamos juntos. Não sabemos, Georgina? Compare e veja se é o mesmo que sente quando Ripley te beija.

Não havia comparação. Steven segurou o queixo de Georgina e forçou-a a levantar o rosto, mergulhando o olhar no dela por um segundo antes de tomar-lhe os lábios. Nunca fora beijada assim, somente por Steven, naquela noite quando tinha dezoito anos. Nada se comparava aos beijos de Steven, à maneira como a abraçava.

Tinha a sensação de estar caindo em espiral, como uma folha, a respi­ração presa, difícil, enquanto ele a apertava contra si, os lábios movendo-se sensualmente sobre os seus, cada vez mais exigentes, até que suas pernas cederam e ela viu-se totalmente apoiada contra o corpo de Steven, cons­ciente de que só estava de pé porque os braços dele a amparavam.


  • Por favor, Steven! — implorou, quando ele levantou o rosto, um sorriso irônico dançando nos lábios.

  • Por favor, o quê? Da outra vez, você também pediu por favor, mas não era para que eu a deixasse.

As palavras de Steven fizeram reviver toda a humilhação, a profunda vergonha, e com um movimento brusco ela libertou-se, forçando suas pernas a sustentarem-na.

— Eu te odeio!

— Não, você não me odeia — retrucou Steven, falando calma e pausadamente. — Sou uma obsessão para você, sempre fui. Desde criança, até hoje, você tem um fraco por mim.

— Seu... convencido! Antipático! Por que veio aqui, o que quer?

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Gosto de me certificar que você está à mão, para o caso de eu pre­cisar, George.

Imediatamente, Georgina estendeu a mão para a xícara de café quen­te. Steven, porém, foi mais rápido, e segurou-lhe o braço no ar.

— Eu não faria isso — advertiu, com um brilho indefinível no olhar.

— Se puser suas mãos em cima de mim de novo, contarei para sua mãe — ameaçou Georgina, quase histérica.

Steven jogou a cabeça para trás e explodiu numa gargalhada.

— Tenho trinta e quatro anos, George, não catorze — exclamou, di­vertido.

— Por isso mesmo devia saber comportar-se! Agora saia, por favor!



  • Quer dizer que Ripley não deixa você em transe? — Ele apoiou-se na mesa e recomeçou a bebericar o café, fitando Georgina com olhos semicerrados.

  • Jeremy não é como você — respondeu ela, apontando para a por­ta. — Temos um relacionamento muito gentil.

  • Quer dizer "monótono"?

  • Quero dizer saia! — gritou, a voz rouca.

Steven sorriu calorosamente, antes de encaminhar-se para a porta.

— Se não aparecer esta noite, George, virei buscá-la pessoalmente — ameaçou.

Georgina lançou-lhe um olhar flamejante, esquecendo a própria fra­queza, a mente povoada apenas pelas atitudes passadas e presentes de Steven que a faziam sofrer.

— Eu vou para não fazer uma desfeita a sua mãe, de quem gosto mui­to. E porque Célia é minha melhor amiga.

— E eu, seu pior inimigo? — Um canto da boca de Steven retorceu-se num meio-sorriso. — Venha assim mesmo, George. Você está parecendo uma gata selvagem... e apetitosa.

! gritou ela, enfurecida, e desta vez Steven obedeceu.

Quando ele deu partida no carro, Georgina já estava caída numa ca­deira, as pernas finalmente recusando-se a mover-se, o riso sardônico de Steven ecoando-lhe nos ouvidos.

Quando Célia chegou, no meio da tarde, Georgina já se recuperara par­cialmente do choque causado pela visita de Steven. Vestira um agasalho de moletom e prendera o cabelo num rabo-de-cavalo. Célia foi direta­mente ao ataque.

— Esse rabo cai fora, para começar! — declarou, com um tom que lembrava, não de muito longe, a prepotência do irmão. — Trouxe minha tesoura.

— Está maluca? Não vou deixar que corte meu cabelo!

— Pode parar de fazer drama — ordenou Célia. — Só vou aparar as pontas.


  • Não sei quem é pior, se você ou seu irmão.

  • Steven? Ele esteve aqui?

  • Não!

  • Ah... Quando ele veio?

— De manhã — Georgina enrubesceu e Célia fitou-a atentamente atra­vés do espelho.

  • Quer dizer que a guerra continua?

  • E como! Mais mortal que nunca — Georgina franziu a testa.

  • Acho que você está apaixonada — arriscou Célia. — É natural. Eu gostaria que você fosse minha cunhada.

  • Só se for com Malcolm. Livre-se de Ariel e quem sabe terei alguma chance — investiu Georgina, exasperada. Aquela família tinha um jeito irritante de querer que tudo acontecesse conforme sua vontade. Só agüen­tava porque os amava muito.

  • O sarcasmo não fica bem para uma dama, mamãe sempre diz. Mal­colm não serve para você, é muito bonzinho. Você precisa de um homem de fibra, que consiga te controlar.

  • Então, pode deixar de contar comigo para cunhada. E não sou uma dama, sou uma idiota, segundo seu irmão.

  • Ele gosta de você, Gina. Por isso diz o que lhe vem à cabeça, não tem intenção de ofender — Célia segurou o queixo da amiga e olhou-a fixamente. — Você ficaria bem de franja, mas não sei se terei habilidade para cortar.

— Você não tem habilidade nenhuma, como cabeleireira — resmun­gou Georgina, enquanto Célia media-lhe as pontas do cabelo. Com que então, Steven tinha o direito de dizer o que bem entendesse! Como eram atrevidos, aqueles Templeton! Naquele momento, Célia estava deixando-a tão furiosa quanto Steven, algumas horas antes.

  • Confie em mim — sussurrou Célia. — E fique sentada, porque Ariel, agora, está atrás de Steven.

  • O quê? — Georgina virou o rosto abruptamente para a amiga, que confirmou com um aceno de cabeça.

  • Eu sabia que você ia ficar interessada. Parece que ela já o conhe­cia. De Londres, acho. E agora está toda melosa para o lado dele. Mal­colm ainda não percebeu, pelo menos por enquanto. Steven está na dele, mamãe está super nervosa e eu estou furiosa. Só você pode salvar a si­tuação.

  • Eu? Não posso fazer nada!

  • É o que veremos — murmurou Célia.

Georgina não retrucou. Permaneceu sentada, imóvel, enquanto Célia lhe acertava as pontas do cabelo, perplexa demais com a notícia para pro­testar.

Teria sido Ariel a mulher de Londres? O próprio Steven confessara, antes de partir, que passaria algum tempo em Londres com uma mulher que estava a sua espera. Apenas mais uma de suas pequenas crueldades, pensou, os músculos do rosto tensos.



  • Acho que não vou ao jantar — gemeu.

  • Vai, sim. Se não for, virei buscá-la.

  • Não tenho roupa.

— Arrumaremos alguma coisa. Aliás, quando você estiver melhor, ire­mos juntas à cidade fazer umas compras. Você nunca gasta dinheiro com você mesma e não é porque não o tenha. Aposto que tem uma bela pou­pança no banco.

— É para garantir minha velhice — protestou Georgina, com voz fraca. Célia segurou a mão da amiga e virou-a com a palma para cima.



  • Você vai se casar com um homem rico, vai ter uma porção de fi­lhos ruivos com olhos azuis e vai viver numa bela propriedade rural. Ve­jo também um cachorro preto — Célia aproximou mais o rosto, apertan­do os olhos.

  • E eu vejo uma vidente maluca. — Georgina riu. — De qualquer forma, contarei a Jeremy o que você previu. Infelizmente, os olhos dele são castanhos.

  • Então, não será ele — Célia balançou a cabeça com veemência. — Vamos ao guarda-roupa.

Como não poderia deixar de ser, Célia bateu imediatamente com os olhos no cáftã que Georgina nunca usara.

— E então, o que significa isto? — exigiu Célia, colocando o traje à frente de Georgina, que viu-se forçada a explicar que o comprara num impulso, para usá-lo numa festa na casa de Jeremy.

— E?...

— Depois, pensei melhor e desisti. Era uma festa rústica, de fazen­deiros, e acabei usando o tradicional conjunto de algodão. Que aliás fez a mãe de Jeremy torcer o nariz.



  • Por que, ela não gosta de conjuntos de algodão?

  • Achou que a saia estava curta demais.

Célia riu e examinou mais uma vez o cáftã. Era bege-escuro, a barra estampada com folhas de outono esmaecidas. Combinava perfeitamente com o cabelo vermelho de Georgina.

  • Deve ter custado caro. — Ela olhou para Georgina. — Você está mesmo namorando Jeremy para valer?

  • Provavelmente vou me casar com ele — falou Georgina, séria, no fundo com a esperança que a mensagem fosse transmitida a Steven.

  • Jeremy é pior que Malcolm — a amiga desaprovou, com uma ca­reta. — Bem, vamos fazer uma escova. Amanhã, você poderá ir à cabe­leireira. Hoje, infelizmente, teremos de improvisar. E, Gina, isto é para valer — acrescentou, em tom de advertência. — Botas para andar a ca­valo, ótimo, jeans para trabalhar, tudo bem, mas nas outras ocasiões vo­cê usará roupas, entendeu? Como sua melhor amiga não permitirei mais que relaxe nesse sentido.

A observação fez com que Georgina corasse. Felizmente a atenção de Célia estava concentrada no cabelo de Georgina e a jovem loira não per­cebeu o embaraço da amiga, que lembrara-se de como se apresentara a Steven, naquela manhã. Se bem que não tivera culpa, ele é que fora en­trando sem bater, nem avisar. De qualquer forma, a sensação de estar nos braços dele não lhe saía da cabeça e um arrepio percorria-lhe a espi­nha cada vez que se lembrava. Steven era um homem extremamente se­dutor e tinha consciência disso. O problema era que aplicava sua arte com mulheres demais, para o gosto de Georgina. Quantas já não teriam sido abraçadas e beijadas daquela maneira?

O pensamento enfurecia-a, principalmente ao lembrar-se de como ele fora embora rindo. Será que pensava que ia se divertir às suas custas, enquanto ambos estivessem em Kellerdale? Se pensava, estava redonda­mente enganado; ela não hesitaria em ensinar-lhe uma boa lição.


Capítulo III
Enquanto se arrumava para o jantar, Georgina sentia-se cada vez mais nervosa. Imaginara ser capaz de ignorar Steven, mas ele já lhe provara que isto não era fácil. Aproximou-se da janela do quarto e olhou para fora, na direção de Kellerdale Hall. A casa brilhava no lusco-fusco, com quase todas as janelas iluminadas; uma cena familiar, que Georgina contemplava quase todos os dias. Na­quela noite, entretanto, a visão trazia-lhe um estranho misto de medo e excitamento, em vez de proporcionar prazer e carinho.

Quatro anos antes, a cena fora exatamente a mesma. Fora no final do verão, quando o jardim florido ainda exalava uma fragrância adocicada ao cair da noite. Steven convidara-a para jantar e nem mesmo Célia e Malcolm haviam sido incluídos no convite. Para Georgina, aquilo tinha um significado especial, como um compromisso por parte de Steven, por­que ele começara a tratá-la de forma diferente.

Com um apartamento em Londres, vinha com freqüência a Kellerdale e estava presente em todos os eventos importantes. Sempre que vinha, convidava Georgina para sair, mas nunca sozinhos. Célia e Malcolm ge­ralmente lhes faziam companhia e, muitas vezes, saíam com um grupo de amigos.

Entretanto, para Georgina, eram sonhos de adolescente e mantinha seus sentimentos sob controle e em segredo, ciente de que Steven era um ho­mem adulto, que simplesmente a tratava bem, como amigo e protetor.

Depois que completou dezoito anos, porém, foi diferente. Pareceu-lhe que Steven começara a tratá-la como mulher, não mais como criança. Na noite em que saíram juntos ele levou-a para dançar e pareciam um casal de namorados, abraçados a um canto da pista de dança. Em certo momento, Georgina teve certeza de que ele lhe beijara os cabelos, embo­ra ao levantar o rosto com os olhos muito abertos e sonhadores ele sim­plesmente tivesse sorrido e perguntado se estava cansada.

Ela meneou a cabeça, em silêncio; não estava cansada, estava encan­tada, isso sim. Ao chegar em casa, Steven estacionou no pátio e acompanhou-a pelo caminho de seixos que ligava Kellerdale Hall à Casa Dower. A lua cheia brilhava num céu sem nuvens e Georgina parou no portão, ansiosa para partilhar toda aquela beleza com Steven, não que­rendo que ele fosse embora.

— Olhe! Uma coruja! — Ela apontou para a ave que acabara de le­vantar vôo de um canto mergulhado na escuridão, a poucos metros de distância.

— Sim — murmurou Steven, sem tirar os olhos de Georgina.



  • É difícil ver uma coruja, hoje em dia — continuou ela, embeveci­da, antes de dar-se conta do olhar intenso de Steven. Por um momento, retribuiu o olhar, embaraçada, mas em seguida inclinou o corpo para a frente, pedindo com os olhos que ele a abraçasse.

  • Georgina! — repreendeu Steven, segurando-lhe os ombros com fir­meza, arrasando-a com seu tom de voz e sua atitude.

  • O que foi? — desafiou ela, gentilmente. — Sou adulta, Steven. Não vai me dar um beijo de boa-noite?

— Como se fosse um de seus namoradinhos?

— Meus namoradinhos não me beijam. Isto é, não beijos de verdade. Eu não deixo.

— E por que me convida a fazê-lo?

— Porque você é diferente — sussurrou ela. — Eu pertenço a você, Steven.

— Não diga isso!


  • É verdade. — Os olhos de Georgina brilharam como diamantes com as lágrimas que subitamente ali brotaram e Steven abraçou-a.

  • Não chore, Georgie — murmurou. — Você é uma criança, vai superar isso.

— Sou adulta, e não quero superar.

Ela soluçou e Steven olhou-a por um momento, como se estivesse di­vidido.



  • Seja sensata — falou, finalmente, estudando as feições angustia­das de Georgina. — Você está influenciada pelo luar, pela noite românti­ca. Você tem dezoito anos, mal se tornou mulher.

  • Não é sensato ser sincera? Eu não preciso dizer que te pertenço, Steven, você já sabe.

As lágrimas cintilaram nos olhos de Georgina e os dedos de Steven apertaram-na com mais força. Ele estava sério, quase carrancudo, e Geor­gina preparou-se para uma nova reprimenda. Por isso, surpreendeu-se quando ele a puxou e tomou-lhe os lábios.

Foi um beijo suave, a princípio, quase uma carícia, porém alguma coi­sa explodiu dentro dela e a reação refletiu-se imediatamente em Steven, que abraçou-a com mais força e levantou-lhe o rosto, forçando-a a en­treabrir os lábios com uma premência e uma exigência que lhe tiraram o fôlego.

Em poucos segundos, Georgina viu-se envolta por uma onda de dese­jo, gemendo sob a pressão da boca de Steven. Podia sentir-lhe o coração acelerado, a respiração ofegante.

Quando ele agarrou-lhe um dos seios e começou a acariciá-lo, Georgi­na arqueou o corpo, extasiada; finalmente, Steven a amaria, seu sonho se tornaria realidade.

Foi com um profundo choque que Georgina compreendeu que isto não aconteceria, quando ele afastou-a bruscamente e fitou-a com os olhos azuis opacos.


  • Chega, Georgina. Está na hora de você entrar.

Ela retribuiu o olhar, confusa.

  • V... Você vem, amanhã?

  • Vou para Londres, amanhã. Ficarei lá durante um mês, aproximadamente, antes de partir para a América do Norte. Vou assumir os negó­cios de papai, lá.

  • M... Mas... então vai embora para sempre? — perguntou ela, transtornada.

  • Por algum tempo — respondeu Steven, com evidente impaciência.

  • Mas, e nós, Steven?

— Nós? — Ele franziu a testa. — Não há nada de "nós", Georgina. Você não passa de uma adolescente. Ajudei a criar você, o que aliás não foi uma tarefa fácil.

Georgina estremeceu, como se tivesse levado uma bofetada. Seu cor­po inteiro ainda tremia pelo que acontecera pouco antes e ele lhe falava daquela forma fria e cruel.

— Não sou mais adolescente, sou adulta! Você me beijou, quase fez amor comigo!

Steven balançou a cabeça, divertido.

— Que absurdo, Georgina! Eu beijei você a pedido seu. Foi uma últi­ma tentativa de prepará-la para o mundo, assim como a ensinei a nadar, a montar e a dançar. Missão cumprida, Georgie!

Georgina não acreditava que aquilo estivesse acontecendo. Devia ser um pesadelo, do qual logo acordaria.



  • Existe alguém, em Londres? — arriscou, associando a notícia da viagem com as longas ausências de Steven, nos últimos meses.

  • Existe, sim. Uma mulher feita, adulta. Sensacional, mesmo — acres­centou, sem misericórdia. — Perto dela, você é uma criança, Georgina. Pare com esses sonhos ridículos e viva a sua vida, que seu dia chegará, como para todo mundo. Seu príncipe está em algum lugar, George, e quan­do for a hora ele aparecerá.

Georgina virou-se e começou a correr, desesperada, sem direção, o rosto inundado pelas lágrimas, até que Steven alcançou-a e agarrou-a, quase levantando-a do chão.

— Pare! — ordenou, ríspido, sacudindo-lhe o braço. — Quando é que vai aprender a controlar suas emoções? Se perder a cabeça cada vez que alguém a beijar, vai acabar internada num hospício.

Não, não iria. Ninguém era capaz de fazê-la sentir-se assim, somente Steven. Georgina permaneceu imóvel, recusando-se a olhar para ele en­quanto era conduzida pelo cotovelo até a porta de sua casa e recusando-se a responder quando ele se despediu. Como pudera beijá-la com tanta paixão e depois confessar que ia ao encontro de outra mulher?

Georgina sentia que sua vida acabara, aos dezoito anos de idade. Cho­rou a noite inteira e ao levantar-se, pela manhã, afirmou para si mesma que odiava Steven.

Agora, ele estava de volta e ela participaria do jantar de boas-vindas. Mas, agora, tudo era diferente. Georgina sabia o que Steven era; ele mes­mo lhe dera uma prova, naquela tarde. E ela não pouparia esforços para humilhá-lo.

Georgina descobriu muito mais coisas do que esperava durante o jan­tar, e as informações foram-lhe atiradas no rosto sem que precisasse fa­zer qualquer esforço para isso.

Kellerdale Hall estava toda iluminada, envolta num clima de festa, e Georgina estava ansiosa, com os nervos à flor da pele. Tinha plena cons­ciência de estar fazendo parte de uma trama e, embora o alvo fosse Ariel, tinha a sensação de que tudo se invertera. Steven estava envolvido e brin­car com Steven era jogo perigoso; podia terminar em encrenca séria. Que infeliz idéia Célia tivera!

Georgina chegou com o pai, que estava elegante e atraente de terno escuro. Harry ainda era um homem bonito, apesar da idade, e Georgina orgulhava-se dele. Agarrou-lhe o braço com firmeza e não o soltou, mesmo depois de estarem dentro da casa. Não se sentia à vontade naquele dia; estava "vestida para matar", como dissera Célia.

A escova que a amiga lhe fizera surtira um efeito especial. Célia puxa­ra os cabelos de Georgina para trás, porém sem esticá-los, prendendo-os com uma fivela dourada no alto da cabeça e deixando os cachos ruivos soltos sobre os ombros. Sob as luzes fortes da sala de estar, eles agora brilhavam, mudando de vermelho-escuro para dourado e vice-versa, con­forme Georgina se movia. A maquilagem leve realçava-lhe os olhos grandes e os cílios longos e escuros e o cáftã não podia ter lhe caído melhor ao redor do corpo esguio, o tecido sedoso ajustando-se com perfeição às formas sedutoramente femininas. Lady Evelyn veio imediatamente ao encontro dos dois.

— Harry! Que bom que você veio! Georgina, querida, você está linda!

A saudação atraiu todos os olhares e Georgina estava consciente principalmente de um deles, azul e penetrante, embora não o demonstrasse e nem mesmo olhasse na direção de Steven.

— Olhe só! Espie! — sussurrou Célia no ouvido de Georgina, arrancando-a do braço do pai

Georgina já notara que Ariel parecia grudada em Steven. Cada passo que ele dava, seguia-o.

— Está assim desde que Steven chegou — acrescentou Célia. — Não é uma impertinência? Mamãe está super sem graça.

Entretanto, o que Georgina gostaria de saber era: até que ponto Ariel estava sendo encorajada? Ainda suspeitava que fosse Ariel a mulher de Londres. E se fosse, por que estava noiva de Malcolm, agora?


  • Ela é um estouro — murmurou Georgina, fazendo justiça à beleza da jovem modelo, cujo cabelo loiro artisticamente penteado em cachos suaves que pendiam com naturalidade do alto da cabeça contrastava com o sensual vestido preto.

  • Mas é cara-de-pau e sem-vergonha — praguejou Célia, baixinho. — Não esqueça que ela é sua vítima. Você é a mais bonita da festa e tem de mostrar isso a ela.

  • Não me faça ficar ainda mais nervosa. Vamos fingir que está tudo normal.

— Nada está normal.

Georgina não podia deixar de concordar. Nunca se sentira tão pouco à vontade dentro daquela casa que era seu segundo lar. Virou-se, com um ligeiro sobressalto, quando Steven aproximou-se por detrás dela e ofereceu-lhe um drinque.

— É champanhe, George — falou, pausadamente. — Agüenta tomar uma taça?

— Agüento qualquer coisa — afirmou Georgina, com ar de desafio.

— Acredito — Steven sorriu. — Sem dúvida, você amadureceu nas mãos de Ripley. É uma pena que ele não esteja aqui para ver como está bonita. Mas não tem importância. Eu estou.

Georgina lançou um olhar propositadamente frio e zombeteiro para Steven, arrancando-lhe um sorriso sardônico.



  • Você vai se sentar a meu lado durante o jantar.

  • Vou me sentar onde sua mãe determinar!

— Os lugares à mesa já estão determinados. O seu é a meu lado.

Georgina suspirou audivelmente, mas desistiu de responder ao ver Mal­colm e Ariel se aproximarem.

— Georgina, você está sensacional. Estou encantado e orgulhoso — Malcolm beijou-lhe a mão com um floreio exagerado e Georgina riu, de­liciada. Malcolm fora um adolescente insuportável, mas tornara-se um adulto simpático e meigo; o oposto do irmão.

Ariel, por sua vez, permaneceu séria.

— Ah, é a garota do estábulo — chicoteou. — Está sem a trança, hoje.

— É postiça — volveu Georgina, alegremente. — Deixei no banheiro.

Felizmente, o jantar foi anunciado nesse momento e Steven segurou o braço de Georgina com firmeza, obrigando-a a afastar-se de um Mal­colm que se controlava para não explodir na gargalhada e de uma Ariel discretamente enfurecida.


  • Comporte-se, George — ordenou, falando baixinho em seu ouvido.

  • Quem ela pensa que é?

  • Você está linda, George. Não estrague a ilusão com essa sua língua descontrolada. Aliás, não sei como você fica mais sexy. Se com essa rou­pa, ou com a camisola que estava usando hoje de manhã.

  • Pois vou lhe dizer uma coisa — murmurou Georgina, com um sor­riso encantador para lady Evelyn, que se encontrava do outro lado da sala. — Eu não gosto nem um pouco de você.

  • Repita isso quando não houver ninguém mais por perto — amea­çou Steven, apertando-lhe o braço. — Você está desenvolvendo muitas possibilidades.

— C... Como assim?

— Ora, George! Percebi os olhares de triunfo entre você e Célia, quando você chegou. Sei que se vestiu assim para me impressionar. Obrigado, George. Sinto-me lisonjeado.

Ele conduziu-a até a mesa e puxou a cadeira para que se sentasse. Geor­gina ficou aliviada ao ver que Célia se sentaria a seu lado, mesmo tendo de aturar Steven do outro. Malcolm e Ariel sentaram-se do lado oposto e por um segundo Georgina captou o olhar frio de Ariel, que a fitava com indisfarçável desprezo. Lady Evelyn estava tensa, como se fosse decolar a qualquer momento e, na outra extremidade, Harry e sir Graham já ha­viam iniciado uma animada discussão sobre o campo de cinqüenta acres.

Devia ter previsto que Steven perceberia a trama, pensou Georgina. Não era nada bobo. Mas o que ele quisera dizer com aquilo de Georgina estar desenvolvendo possibilidades? Georgina olhou para os rostos à volta da mesa, detendo-se por mais tempo em Steven, que respondia a uma per­gunta que Malcolm fizera. Teria sido ele quem pedira à mãe que os colocasse juntos à mesa? Subitamente, sentiu uma sensação de mal-estar, tre­mor nas mãos e suor frio. Rezou para que fosse fome, pois se sentiria melhor assim que começasse a comer. Entretanto, não estava com o me­nor apetite.



  • Quer dizer que deixou as coisas em boas mãos, no Canadá — pros­seguiu Malcolm, enquanto saboreavam a entrada.

  • Melhores, impossível. E com Arnold Lang tomando conta do es­critório em Londres, posso ficar em Kellerdale, agora.

  • Então, foi no Canadá que esteve desaparecido todo esse tempo! — exclamou Ariel, com um sorriso sedutor. — Estive pensando, faz séculos desde a última vez que fizemos uma refeição juntos, Steven.

Georgina notou uma mudança súbita e sutil na expressão de Malcolm. O ar sorridente desapareceu, dando lugar ao que ela descreveria como uma tristeza profunda. Célia cutucou Georgina com o cotovelo, porém esta fingiu não perceber, continuando a olhar para seu prato com ar de enfado, engolindo o último pedaço de melão e empurrando distraidamente as cerejas para a borda. Então era verdade. Steven já tivera um relacionamento com Ariel e, por algum motivo, haviam rompido. Por que este fato deixava-a tão acabrunhada, Georgina não tinha idéia.

— Isto significa que sou sobressalente? — perguntou Malcolm, numa grotesca tentativa de fazer graça.

Para consternação de todos, Ariel não respondeu. Limitou-se a olhar para Steven, que lançou faíscas de gelo pelos olhos.


  • Malcolm lhe fez uma pergunta, Ariel — insistiu ele, com voz dura, fazendo Ariel enrubescer.

  • Claro que não! Que idéia, Malcolm! — Ela voltou a olhar para Steven. — Estamos noivos. Você desapareceu... e perdeu a chance.

Steven deu de ombros.

— Eu sobreviverei.

Georgina conhecia Steven o suficiente para saber que estava aborreci­do. A pequena cena deixara-o de mau humor. Sua dúvida seria pelo cons­trangimento que Ariel causara a Malcolm, ou pelo fato de Ariel agora estar noiva de outro homem. Possivelmente, esperara que ela se manti­vesse fiel e tivera um choque ao saber que estava noiva do irmão. E as insinuações que ele lhe fizera? Com certeza, queria passar o tempo com Georgina para esquecer Ariel.

Sua vontade era levantar-se e ir embora. Não se sentia bem e não esta­va se divertindo nem um pouco. Aliás, ninguém estava. Não conseguia parar de perseguir as cerejas, arrumando-as com o garfo nas mais diver­sas posições, quando Steven inclinou-se e recolheu-as com seu garfo de sobremesa, engolindo-as em seguida.

— Steven! — censurou Ariel. — Isso é coisa que se faça, numa mesa?

— Qual é o problema? — volveu ele, imperturbável. — Georgina não gosta de cerejas e eu adoro.

Georgina agradeceu intimamente por Steven não chamá-la de George na frente de todo mundo, apesar de ele tê-la transformado no centro das atenções.


  • Mas... comer do prato de outra pessoa... — continuou Ariel, in­conformada.

  • Gina sempre foi a menina dos olhos de Steven — interveio Célia. — Em qualquer situação, ele a defende, protege e acoberta. Sempre foi assim.

  • Ah, sei. É a mascote da família — investiu Ariel, com um sorriso peçonhento.

— Não. É a mascote só de Steven.

Georgina sentiu o rosto pegar fogo, mas não se atreveu a abrir a boca. Nunca imaginara que a ousadia de Célia chegasse àquele ponto. De qual­quer forma, Malcolm já estava mais relaxado e o sorriso voltara ao rosto de lady Evelyn, portanto talvez tivesse valido a pena todo o embaraço.

— Coma seu peixe, mascote — sussurrou Steven no ouvido de Geor­gina, que não se deu ao trabalho de responder.

O resto da noite transcorreu com tranqüilidade. Ariel quase não abriu a boca, depois da pequena vitória de Célia. Georgina esteve o tempo to­do consciente do olhar irônico de Steven e não tinha a menor dúvida de que ele sabia exatamente o que fora planejado. Célia podia culpar Ariel, mas Georgina culpava Steven pelo que estava acontecendo; traía o pró­prio irmão para conseguir o que queria. E com Ariel naquela predispo­sição, o mais provável era que terminassem juntos outra vez, deixando o pobre Malcolm a ver navios.

Depois da terceira taça de champanhe, Georgina começou a sentir os efeitos do álcool. Sua cabeça começou a rodar e uma agradável sensação de leveza e desligamento tomou-lhe conta do corpo e da mente.

— Chega — ordenou Steven, seco, tomando-lhe o copo da mão. — Seus olhos já estão envesgando.

— Eu não sou criança, Steven!

Ela esticou o braço para pegar o copo, porém ao fazer o gesto, a man­ga do vestido deslizou, expondo uma longa série de hematomas.

— O que é isso? — Steven agarrou-lhe o braço antes que ela tivesse tempo de cobri-lo e inspecionou-o atentamente.


  • Tem mais, ou estão só no braço?

  • Nas pernas, também. Parece que de hora em hora surge mais um.

  • Precisamos falar com Bill Davis, amanhã — disse Steven, preocupado.

  • O que aconteceu? — quis saber Ariel, aproximando-se, olhando para o braço de Georgina com curiosidade.

Então, Ariel não sabia do acidente. Ali estava a oportunidade de Geor­gina divertir-se um pouco.

  • Foi Steven quem fez — declarou, embalada pela descontração cau­sada pelo álcool. — Meu corpo inteiro está assim. Não imagina do que Steven é capaz quando...

  • Vamos, Georgina, vou levá-la para casa — interrompeu Steven, antes que ela se estendesse mais no assunto.

  • Quem disse que vou para casa, agora?

Ariel olhava de um para o outro, horrorizada.

  • Ela sempre se comporta assim?

A pergunta foi dirigida a Steven, porém quem respondeu foi Georgina.

  • Sempre. É que como mascote de Steven, ele me deixa fazer tudo o que quero.

  • Vamos — Steven segurou-lhe o braço. — Você já não está falando coisa com coisa.

Depois de pedir licença a Ariel, Steven conduziu Georgina até onde estavam seus pais e Harry.

— Vou levar Georgina para casa, Harry. Ela está cansada.



  • Obrigado, Steven. Irei em seguida — prometeu Harry, sem tomar conhecimento dos sinais frenéticos que a filha lhe fazia com os olhos.

  • Espero que esteja melhor amanhã, querida — desejou lady Evelyn, passando a mão no rosto de Georgina. — Muito obrigada por ter vindo, mesmo não estando se sentindo muito bem. Georgina é um amor, não é, Steven?

  • Um anjo caído do céu — concordou ele, com uma ironia que só Georgina percebeu.

Naquele momento, ela gostaria de virar as costas e deixá-lo plantado ali, sozinho, porém era inútil tentar escapar dos dedos de aço que lhe apertavam o braço. O único remédio era segui-lo e depois livrar-se dele o mais rápido possível.

No carro, a euforia alcoólica subitamente desapareceu e Georgina sentiu uma ponta de apreensão ao ver-se sozinha com Steven.

— O próprio pai atira a filha aos leões — queixou-se, quando Steven engatou primeira e arrancou.

— É assim que você me vê, Georgina? Como um leão?

Steven devia estar bastante zangado para chamá-la de Georgina, uma vez que estavam a sós.


  • Você já conhecia Ariel — acusou. — Era sua amante. Malcolm fi­cou arrasado.

  • Quem devia estar arrasado era eu. Ela era minha, agora é de Malcom.

A confirmação de suas suspeitas pelos próprios lábios de Steven aba­lou Georgina profundamente, mas obviamente não demonstraria isso.

— Você sempre foi melhor que ele, em tudo. Não é justo. Se ele to­mou a dianteira enquanto você estava fora, é bem feito, para você apren­der. — Georgina sacudiu os ombros e olhou para fora, através da janela do carro. — Se bem que nada disso é da minha conta.

— Não é, mesmo. Portanto, fique quieta. Com um pouco de sorte, conseguirei deixá-la em casa em cinco segundos.

— E não vai entrar!

— Quem disse que quero entrar? Pode ser aqui mesmo, no carro — insinuou ele, parando em frente ao portão da Casa Dower e desligando o motor e os faróis, antes de passar o braço por trás dos ombros de Geor­gina e puxá-la para si.

Quando se deu conta, Georgina estava nos braços de Steven, que en­terrava os dedos em seu cabelo e devorava-lhe a boca com determinação. Por um momento, o coração de Georgina quase parou; ele beijava-a com crueldade, forçando-a contra seu ombro, sugando-lhe os lábios com pai­xão, porém sem nenhum indício de ternura.

Estremeceu quando a mão de Steven apoderou-se de um dos seios, mas seus esforços para afastá-lo foram inúteis. Ele acariciava-a com perícia, provocando sensações no corpo de Georgina que sua mente recusava-se a aceitar. Ela gemeu, em protesto, e Steven levantou a cabeça, porém seus dedos continuaram a mover-se habilmente sobre a carne macia.

— Não era o que você queria? — acusou, os olhos azuis brilhantes na penumbra do carro. — Um final excitante para uma noite excitante? Certamente, esta parte foi levada em conta quando você e Célia planeja­ram aquela sua entrada triunfal. Você devia desviar minha atenção de Ariel e proteger Malcolm.

Georgina sacudiu a cabeça, desamparada, incapaz de falar, enquanto os dedos de Steven apertavam-na, possessivos.

— Pelo menos você não tem coragem de negar em palavras. Planejou esta história até o fim, George? Devo levá-la para a cama, agora?

O tom de voz de Steven era tão ameaçador, que Georgina olhou para ele, trêmula, o pânico estampado no rosto. Depois de alguns segundos de silêncio, ele finalmente a soltou e abriu a porta do carro, quase empurrando-a para fora.

— Entre, Georgina! — ordenou ele, zangado. — E na próxima vez que você e Célia se saírem com suas idéias originais... lembre-se que tal­vez não escape ilesa, como desta!

Georgina praticamente voou para dentro de casa e para seu quarto, mal se sustentando nas pernas. Estava envergonhada e arrependida e não adiantava querer pôr a culpa em Célia. Concordara em participar de um plano ridículo, que resultara totalmente às avessas.

Sentou-se em frente ao espelho da penteadeira e olhou para a própria imagem como se fosse a primeira vez que a visse. Steven tratara-a com desprezo, humilhara-a. O pior de tudo era que ele praticamente confes­sara que não se conformava em ter perdido Ariel para Malcolm. Ainda gostava de Ariel... Com certeza, a frustração levara-o a perder a paciên­cia e descontar em Georgina.

Levantou-se e começou a trocar de roupa, vagarosamente, tirando aque­le maldito vestido e enfiando-se dentro do pijama de malha, antes de deitar-se debaixo do cobertor. De uma coisa tinha certeza; nunca mais entraria nos esquemas malucos de Célia. Ela e os irmãos que se enten­dessem como quisessem, porque Georgina estava farta das neuroses da­queles três.


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