Alocha Langa Arlindo Mucavel



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Alocha Langa

Arlindo Mucavel

Avelino Macheque

Bernância Nhabinde

Constância Simbine

Marta Chambale

Minélio Chemane


Domínio Simbólico: Ritos e Feitiçaria


Licenciatura em Ensino de História


Universidade Pedagógica

Maputo


2019

Alocha Langa

Arlindo Mucavel

Avelino Macheque

Bernância Nhabinde

Constância Simbine

Marta Chambale

Minélio Chemane


Domínio Simbólico: Ritos e Feitiçaria

A presente Pesquisa será apresentado no Departamento de História na Faculdade de Ciências Sociais e Filosóficas na cadeira de Antropologia Cultural de Moçambique com fim de avaliação.


Docentes:

Mestre Escandação Armando Tivane

Universidade Pedagógica

Maputo


2019

Índice





  1. Introdução

O presente trabalho, surge no contexto da cadeira de Antropologia cultural de Moçambique, cujo tema é: Domínio Simbólico: os Ritos e a Feitiçaria. O trabalho visa abordar de forma nítida e sucinta, aspectos inerentes ao contexto dos ritos e feitiçaria em Moçambique.

A feitiçaria designa a prática ou celebração de rituais, orações ou cultos com ou sem uso de amuletos ou objectos ao qual são atribuídos poderes mágicos, por parte de adeptos do ocultismo com vista à obtenção de resultados, favores ou objectivos que, regra geral, não são da vontade dos demais elementos da comunidade que ele está inserido.

Neste contexto, o trabalho encontra-se estruturado da seguinte: elementos pré-textuais que incluem a introdução, os objectivos e a metodologia, os elementos textuais que constituem o desenvolvimento do trabalho e pós-textuais a conclusão e as referências bibliográficas.


    1. Objectivos

      1. Geral

  • Compreender como os ritos e a feitiçaria actuam em Moçambique.

      1. Específicos

  • Contextualizar o surgimento dos ritos e as feitiçarias em Moçambique;

  • Descrever como são vistas os ritos e a feitiçaria em Moçambique;

  • Analisar os contornos dos ritos e a feitiçaria e seu significado em Moçambique.




    1. Metodologia

Para a realização do presente trabalho usou-se o método bibliográfico, no qual observou-se livros, revistas para fazer a recolha de dados para fazer a síntese das informações precisas.


  1. Conceitos básicos

    1. Feitiçaria (Etimologicamente)

A palavra feitiço nas línguas neorromânicas (português, espanhol, italiano, francês, romeno, etc.), advém do latim facticius, que tinha significado de algo "não-natural", "artificial" e até de farsa. Facticius era usado para se referir a alguns tipos de objectos e artefactos, porém, na Idade Moderna passou a ser utilizado para se referir a magia, pois associavam-se artefactos mágicos, os chamando de feitiço. Os portugueses na costa ocidental da África, utilizaram esse conceito e contexto, inclusive os franceses o adoptaram e criaram a palavra fetiche, que originou o fetichismo1.

Entretanto, a palavra feitiço deixou de ser usada para se referir a qualquer objecto, para se referir a objectos mágicos, como também estar relacionada com a magia: "fazer um feitiço", "lançar um feitiço", "fazer um encantamento". Nesse sentido, o feitiço passa propriamente a adentrar o campo do sobrenatural.

A feitiçaria é comummente considerada uma prática estritamente feminina, de modo que a mulher é posicionada como agente de Satã por excelência. Como afirma (Delumeau, 2009, p. 467).


    1. Conceito de Ritos

[…] um conjunto de actos repetitivos e codificados, por vezes solene, de ordem verbal, gestuais de postura, com forte carga simbólica, fundados sobre a crença na força actuante de seres ou de poderes sagrados, com os quais o homem tenta comunicar visando obter um determinado efeito. (RIVIÈRE 2011, p. 154).

Para Muceniecks (s/d) define rito como uma repetição de actos definidos, componentes de alguma espécie de cerimónia, não necessariamente religiosa.

Nem toda cerimónia mecanizada pode ser caracterizada como rito; o rito comunica algo; é para isto que ele serve seja o mito ou outra categoria.


    1. Conceito de Ritual

É o conjunto de práticas consagradas por tradições, costumes ou normas, que devem ser observadas de forma invariável em determinadas cerimônias. Ritual é uma cerimônia através da qual se atribuem virtudes ou poderes inerentes à maneira de agir, aos gestos, às fórmulas e aos símbolos usados, susceptíveis de produzirem determinados efeitos ou resultados. Ritual é um processo continuado de actividades organizadas cuja prática está relacionada a ritos, que envolvem cultos, doutrinas e seitas, encontrados não só na vida religiosa, mas em todas as esferas culturais. (RIVIÈRE 2011, p. 154).

    1. Conceito de feitiçaria

A feitiçaria pode ser descrita como uma acção maliciosa, levada a cabo através do recurso a forças místicas ou mesmo pela violência, resultante de ódios e tensões intensas presentes na sociedade, e que as pessoas interpretam como actuam sobre si independentemente da sua vontade, (EVANS, 1992, p.50). Pode estar relacionada com cultos às forças da natureza ou aos antepassados já falecidos, sendo que está também frequentemente relacionada com o uso de artes consideradas mágicas, à invocação de entidades, como por exemplo, espíritos, deuses, génios ou demónios, ou o emprego de diversas formas de adivinhação. (Idem)


    1. Conceito de feiticeiro (a)

O conceito de feitiçaria variou de sociedade para sociedade, mas em geral a feiticeira e o feiticeiro era alguém que possuía conhecimento medicinal, não sendo a toa que até o final do medievo europeu antes da criação da bruxaria, as feiticeiras e feiticeiros ainda em alguns casos estavam associados ao curandeirismo. (HANCIAU, 2009, p. 77).

  1. Tipos de ritos

    1. Ritual religioso

O ritual está associado às práticas religiosas ou místicas, criadas em torno da ideia de se estabelecer uma "relação entre os seres humanos e um ou vários seres sobrenaturais".

Uma série de doutrinas sobre os deveres e obrigações recíprocas entre a divindade e a humanidade, uma série de normas e rituais fazem parte das inúmeras religiões, com o objectivo de buscar uma interacção dinâmica entre seus seguidores.

Para a Igreja Cristã dois rituais, ou sacramentos, foram instituídos pelo próprio Jesus: o baptismo e a eucaristia. O baptismo consiste em borrifar com água benta a cabeça da pessoa que será iniciada na religião. Esse sacramento lembra o baptismo de Jesus por João Batista. Em outras tradições, o ritual do baptismo é feito por imersão total. A eucaristia (ou Sagrada Comunhão) é um dos principais ritos de devoção, na qual o pão e o vinho são consagrados e oferecidos aos fiéis, representando o gesto de Jesus na Última Ceia. Outros rituais, celebrados em períodos de graça ou bênção, incluem a crisma, o casamento, a ordenação para o sacerdócio, a confissão e a extrema-unção.



    1. Ritos de iniciação

Segundo Rivière (2011, p. 156) “A iniciação apresenta-se como um rito de passagem acompanhado de provas, destinado a introduzir os candidatos num novo estatuto, por exemplo a o de uma classe de idade, na época de puberdade, de uma confraria de recrutamento selectivo ou de uma sociedade secreta”. Os ritos de iniciação são instituições culturais praticadas nas zonas centro e norte de Moçambique. Portanto, é comum afirmar-se que são constituintes dos direitos culturais, que são uma das importantes dimensões dos direitos humanos. Ao nascer, o bebé Macua não se encontra ainda plenamente integrado na sociedade. Seu verdadeiro nascimento social acontece após fazer parte dos ritos de iniciação. Crianças não iniciadas são de fato consideradas pessoas incompletas, um pouco “animaizinhos”, tanto que, no caso de morte de um não-iniciado o rito fúnebre será reduzido (um pouco como acontecia no passado com as crianças não baptizadas). Ambos os sexos, masculino e femininos, devem participar nos ritos de iniciação, que podemos considerar como verdadeiros nascimentos sociais, e é somente após esta iniciação que poderão participar dos momentos importantes da vida colectiva, tais como cerimônias, funerais e reuniões da aldeia. As marcas deixadas no corpo do iniciado durante o ritual (circuncisão, tatuagens, corte no clítoris) serão os sinais, sinais físicos de transformação na personalidade e no status do indivíduo. Os ritos de iniciação masculina ocorrem normalmente durante os meses de inverno (Julho, Agosto, Setembro), quando não é necessário muito esforço nos campos, quando as famílias ainda têm estoques de alimentos no celeiro e dinheiro ganhado com a colheita; os ritos de fato requerem uma grande quantidade de dinheiro, tanto para pagar os especialistas dos rituais quanto para pagar as festas e cerimônias ligadas aos mesmos. Por esta razão, normalmente se realiza o rito quando se consegue reunir na aldeia, pelo menos dez crianças entre oito e doze anos de idade, e todos os membros das famílias dos iniciados contribuem para os custos. O rito em si é realizado em um pequeno campo construído para a ocasião, a pouca distância da aldeia. Durante o ritual, que dura cerca de um mês, os iniciados não podem ter qualquer tipo de contacto com pessoas de fora do rito e, mesmo em caso de morte de um dos iniciados, os pais serão informados somente quando se conclui o rito.

Na província de Cabo Delgado, As cerimónias da puberdade dos rapazes chama-se Licumbi e nelas também entram os bailarinos mascarados mapiko. O chefe da aldeia deve arranjar o curandeiro (Namulo) que será o mestre da cerimónia, e durante a cerimónia o Nalumbo terá o corpo manchado de bolinhas brancas.

Na sociedade Makwua, Os jovens regressam em grupo a aldeia recebe-os com grande alegria Kujuluca, okhuma olukhu, os seus novos membros, no meio de cantares, danças e actos simbólicos que referem a morte da vida da criança e nascimento de um cidadão novo para a comunidade. Os que já passaram pelo rito de iniciação são proibidos de contar aos não iniciados e as mulheres o que se passou e aprenderam na floresta sob pena de morte se assim o fizer.

Na Zambézia, A circuncisão é feita por indivíduos de sexo masculino em número de seis homens chefiados por um “Rabamoma”, que é um homem corajoso e conhecedor de raízes medicinais, este é acompanhado por uma mulher que prepara as raízes medicinais que dá a tomar aos circuncidados. No final desta operação vão para uma moita esperar a hora marcada, e quando chega esta hora o circuncidado é despido e transportado pelo padrinho (moli) para as operações. Em seguida aparecem dois outros ajudantes a pôr nas feridas um medicamento em pó cinzento, daí são levados para um outro lugar onde são dados de comer, umas colinhas de massa de arroz, mapira, milho, ou mandioca cozida com medicamento oleoso. A partir deste momento os iniciados não usam a sua roupa antiga nem se avistam com nenhuma mulher.

No Niassa, Depois de garantido os requisitos exigidos para a sua efectivação (o pessoal, indumentário e o acampamento) realizam-se cerimónias para entrega dos iniciados a estruturas do djando. Essas cerimónias têm lugar na casa do nakaugo, local indicado para a concertada do ritmador, seus familiares e outros convidados. Em regra, as cerimónias realizam-se na noite interior ao dia da partida dos iniciados para ao acampamento, fazendo-se acompanhar dos aloubwés. No que diz respeito ao pessoal, para além dos próprios iniciados, a estrutura responsável pelo djando é: N’galiba, nakauga, atchitonombe, nampako, aloubwé e n’tchando. Namuko: é a pessoa responsável pelo acto da circuncisão e pela saúde de todas as pessoas envolvidas na efectivação do djando. O n’galiba é, por definição considerado a pessoa altamente competente e a mais experiente na sua actividade profissional. Nakaunda: é o supervisor geral do djando. Ocupa-se com recolha conselhos, críticas, observações e recomendações confidenciais dos mais velhos que pela idade avançada podem não querer passar pelo acampamento de djando. Além disso o nakaugo é que nomeia e admite o atchitonombe e nampako. Para ser nampako basta ser o primeiro a tomar a iniciativa de iniciar os filhos, todos os outros que aderem posteriormente sujeitam-se a subordinarem-se ao primeiro que normalmente é que suporta com a maiores despesas de djando.


    1. Ritos de sacrifício

Quanto ao sacrifício, quer tenha sido inicialmente uma oferta interessada feita aos espírito quer seja a sobrevivência do assassínio dos homens-deuses, ou quer a comunhão totémica tenha sido anterior a oblação sacrificial, trata-se de outras tantas especulações inverificáveis sobre a origem do sacrifício. (Idem)

    1. Cultos aos antepassados

Culto é a articulação entre os diversos tipos de ritos com as crenças” (Rivière (2011, p. 157).

[…] em África, os antepassados, especialmente o antepassado fundador de uma linhagem, são objectos de culto na medida em que, numa perspectiva de ligação entre as gerações, assegurada pela renovação sinclítica da vida sobrevive na lembrança dos vivos e são junto deles interlocutores e tutores privilegiados, que convêm venerar como regeneradores da linhagem e garantes da ordem que contribuíram para constituir. Em África, eles são invocados em todas as circunstâncias importantes da vida, recebem oferendas para os incitarem a agir ou para os apaziguar quando sobrevivem uma desgraça. A linhagem espera deles riqueza, saúde e paz. O culto dos antepassados deve diferenciar-se do culto dos mortos, que supõem muitas vezes um tratamento dos corpos (purificação, exposição, verificação do cadáver, etc.), alguns mortos não tem acesso a ancestralidade e atormentam os vivos que se protegem através do rito.



Para o caso de Moçambique, o culto aos antepassados mais conhecido e realizado ao nível da zona sul do país é o “Ku phahla” é um culto que aproxima o Homem ainda vivo às entidades às quais são atribuídos poderes sobrenaturais, ou seja, na cerimónia de “ku phahla” estabelece-se a ligação entre os vivos e os poderosos antepassados já “desencarnados” que continuam mesmo assim exercendo a sua influência entre nós. Este tipo de ritual é realizado por um líder tradicional, A “ku phahla” realiza-se com cereais, tabaco e aguardente.

  1. Características dos ritos

De acordo com Freitas e Guerra (2004, p. 123) Os rituais são caracterizados por uma configuração que abrange um espaço-temporal específico, envolvendo objectos, discursos, expressões, narrações, todos dotados de um sistema de linguagem, de comportamentos específicos e de signos emblemáticos cujo sentido se constitui um dos bens comuns de um grupo. Como se vê, os ritos e rituais fazem parte do processo civilizatório da Humanidade. Presentes em todas as culturas, das comunidades mais primitivas à sociedade contemporânea, os ritos e rituais são fenómenos extremamente diversificados e, sobretudo por essa diversificação, portam uma riqueza extraordinária e muito esclarecem sobre o ser humano. Falar em vida social é falar em ritualização. O mundo social se funda em actos formais cuja lógica tem raízes na própria decisão colectiva e não em fatos biológicos, marcas raciais ou actos individuais. Assim, o rito é a forma de o ser humano expressar e manifestar suas percepções sensíveis por meio de discursos, narrativas e símbolos que variam conforme a pluralidade de acções inserida em cada ritual específico. O fragmento das práticas sociais e componentes de diversos universos simbólicos, míticos, rurais, urbanos, tradicionais, modernos, sagrados, profanos, cujas significações entrelaçam-se, insere-se na percepção humanística, carregada de significados, pois o homem busca a reelaboração do imaginário, manifestando-o de diferentes formas e com rituais diversos a fim de manter a identidade e a cultura do local em que está inserido. Por meio da capacidade de produzir imagens e signos, o homem consegue determinar e fixar o particular em sua consciência, em meio à sucessão de fenómenos que se seguem no tempo. Os conteúdos sensíveis não são apenas recebidos pela consciência, mas antes são produzidos e transformados em conteúdos simbólicos. O rito é uma linguagem trabalhada no mito.

  1. Função dos ritos

Os ritos servem de elementos de unificação cultural de vários indivíduos, são associados às práticas religiosas ou místicas, criadas em torno da ideia de se estabelecer uma relação entre eles.

Segundo Rivière (2011, p. 155) “os ritos de forma relativamente parecidos podem visar diferentes finalidades: pedido de chuva, de fecundidade, interrogação de transcendentes na adivinhação, acção de graças após a um nascimento, uma colheita, uma victória, dessacralização para tornar profano um objecto de culto, comemoração, vingança, apropriação, regeneração, etc.”



    1. Análise ritual

A análise ritual está sempre relacionada à acção social e à comunicação. Estas buscam estabelecer a forma estrutural de realização de um rito. Neste processo é possível observar a maneira como os indivíduos classificam o mundo e constroem a realidade em que vivem. Nessa realidade, inserem-se as instituições, que nada mais são do que os meios em que o homem propaga a sua existência e projecta a sua forma de existir. E nesse poder de uniformização e de padronização, as instituições servem para estabelecer uma ligação entre o passado e o presente. Entende-se que, no bojo das mudanças que as diferentes sociedades passaram no último século, os rituais - também definidos como rituais de mudanças - não ficaram à margem das transições. Os rituais utilizados nas cerimónias incorporaram novos formatos e novos movimentos, como foram definidos por Peirano (2003, p. 12): “ritual não é algo fossilizado, imutável, definitivo”. Diferente é a análise de Rivière (2011, p. 160), “que vê o ritual como um fato social, no qual a realização de um ato ritualístico busca ser o fato para as pessoas estarem juntas”. Para Rivière, “o rito busca renovar ou refazer a identidade, a personalidade do grupo e da sociedade”. Nos grupos sociais, sempre existem os participantes e os excluídos, porém os símbolos ritualísticos como o canto, a música, o vestuário, são vistos como uma linguagem específica que serve para afirmar a identidade colectiva que identifica uma cultura própria e reafirma a estrutura social, mesmo com as desigualdades existentes. Os rituais são as sínteses dos valores em evidência numa determinada cultura, e que vão sendo transferidos de geração a geração. As razões da conservação dos ritos e rituais podem ser confirmadas nas ideias de LEACH (1978, P.25), que afirma que “o primitivo e o moderno são iguais. Não apenas pensamos de forma similar. Embora haja diferenças entre sociedades, existe um repertório básico de acções que partilhamos. Somos semelhantes e diferentes ao mesmo tempo”. Neste lançar de olhares que o pesquisador faz, sobre a aplicação da estrutura ritual na análise dos fenómenos sociais, o desafio reside não somente na observação e interpretação dos rituais e suas manifestações, mas vai além. Encontra-se no cerne do que expressam as representações colectivas que chegaram até nós por meio de várias gerações. É a palavra, o sentido, o gesto, a narrativa - elementos inseridos no mito.

  1. Feitiçaria em Moçambique

Dizer que existe prática de feitiçaria em Moçambique é a mera constatação de um facto evidente e recorrente, quer os recursos a ela tenha em vista provocar efeitos activos ou proteger-se deles, seja para fins considerados legítimos ou ilegítimos, benéficos ou malévolos.

A feitiçaria é um elemento fundamental do sistema de domesticação da incerteza predominante em Moçambique e, consequentemente, dos esforços sociais para dar sentido à casualidade e a tentar dominar. Simultaneamente, as acusações de feitiçaria constituem um potente instrumento de controlo social, que recai sobre vítimas tipificadas e tende a reproduzir e reforçar as relações de desigualdade e dominação existentes na sociedade, a maior parte das vezes de forma particularmente violenta. De facto, o desenvolvimento e julgamento de tais acusações interage com outras figuras e instituições não-estatais de “prestação de justiça”, é entendido como tal pelas pessoas envolvidas e viola amiúde direitos elementares dos cidadãos acusados. (Granjo 2008, p. 232)

Em Moçambique coexistem racionalidades e sistemas de interpretação com base materialista, religiosa, mágica, tecnológica, espiritualista. Podemos no entanto afirmar que vigora na maior parte do país um sistema de domesticação da incerteza que, coabitando embora com outros, assume predominância quando se trata de interpretar acontecimentos disruptores da normalidade. Isto porque se parte do princípio de que o acaso não existe, muito menos existindo coincidências. Por isso, acontecimentos que prejudiquem (ou beneficiem) alguém de uma forma marcante pressupõem a existência de causas que lhe estejam subjacentes, em especial se tais acontecimentos forem recorrentes. (Ibid., p. 234)

Atribuída sobretudo à inveja ou a outros sentimentos e objectivos considerados negativos, como a avidez e o egoísmo, a feitiçaria é normalmente vista como algo que funciona de forma inversa à da actuação que os antepassados são suposto manter em tempo corrente. De facto, embora se acredite que feitiços particularmente poderosos possam manipular de forma directa os factores materiais, criando os próprios perigos, tais diagnósticos são (tal como os de canibalismo espiritual, uma outra forma de feitiçaria) relativamente raros e, em geral, limitados a situações de tensão social de excepcional intensidade. Aquilo que é corrente é que a feitiçaria aja sobre as pessoas ou seres - atraindo-as para o perigo, distraindo-as da sua existência e iminência, influenciando o seu comportamento, ou ainda ocultando-lhes aspectos da realidade ou criando-lhes a ilusão de coisas inexistentes. (Ibid., p. 235)

Independentemente das variações que sejam atribuídas ao seu funcionamento e alvos, contudo, a feitiçaria assume um papel fulcral num sistema de domesticação da incerteza que, sendo aqui predominante, encontra paralelos noutras regiões de África2 e em que, de facto, o reconhecimento da complexidade do social faz com que ela se torne num factor interagindo com muitos outros, nas múltiplas tentativas de moldar um futuro incerto. (Idem)

A feitiçaria fornece, assim, um meio para dar sentido à incerteza e ao aleatório, tornando-os explicáveis e permitindo reintegrar os infortúnios não apenas como coisas cognoscíveis, mas também como resultados da acção humana e, portanto, passíveis de serem manipulados por ela. Em conjunto e interacção com as restantes explicações causais, ela constitui assim quer um meio de compreensão daquilo que, de outra forma, não teria sentido, quer um meio de agir sobre a realidade, potenciando ou evitando aquilo que é indesejável. (Ibid., p. 247)



  1. Importância da Feitiçaria

O primeiro aspecto a ter em conta, quando equacionamos o papel social da feitiçaria em Moçambique, é que ela não constitui uma crença isolada, mas um elemento integrante dum sistema mais vasto (e largamente partilhado) de interpretação e de acção sobre os infortúnios e outros acontecimentos incertos.

Conforme GEORGE MURDOCK (1945) salientava em meados do século passado, sem ter sido desde então desmentido, em todas as culturas conhecidas pela história ou a etnografia existem sistemas de adivinhação. No entanto, acrescenta se, os sistemas divinatórios não existem isolados, antes pressupondo o seu suporte lógico em sistemas de interpretação que pretendem dar sentido à casualidade e, a partir desse sentido, guiar a intervenção humana sobre o que é incerto e desconhecido. Existindo também eles em todas as culturas, é plausível que tais sistemas de interpretação correspondam a uma necessidade humana de carácter universal, demonstrando-nos a importância transcultural do combate humano contra a humilhação da incerteza, contra a sua falta de sentido e contra a dependência humana em relação a ela.

Os boatos que circulam no espaço público retratam a feitiçaria como a forma mais comum de, em tempos de crise económica e de declínio social de oportunidades, se conseguir sucesso pessoal, riqueza e prestígio. Os líderes políticos são amplamente referenciados por recorrerem à feitiçaria a fim de assegurarem poder e sucesso eleitoral, e muitos usam engenhosamente este conhecimento para ganhar visibilidade e mesmo deferência. Na esfera doméstica, conflitos sociais e familiares em torno de acusações de feitiçaria materializam-se repetidamente, especialmente quando ocorrem mortes súbitas ou infortúnios pessoais. Permeando todo o espectro social e cultural, a feitiçaria permanece hoje como uma força ambivalente que ajuda a promover a acumulação individual e colectiva e a controlar a diferenciação social. (Florêncio, 2005, p.35)

Esta dimensão mágica do político, no contexto africano, tem sido frequentemente ignorada pelos estudos históricos e políticos clássicos (Santos, 2006). Mas, como argumentou-se, a dimensão mágica da política não é marginal, mas uma dimensão central da natureza da autoridade pública, da liderança e das identidades populares em Moçambique.

A feitiçaria fornece, assim, um meio para dar sentido à incerteza e ao aleatório, tornando-os explicáveis e permitindo reintegrar os infortúnios não apenas como coisas cognoscíveis, mas também como resultados da acção humana e, portanto, passíveis de serem manipulados por ela. Em conjunto e interacção com as restantes explicações causais que foram mencionados, ela constitui assim quer um meio de compreensão daquilo que, de outra forma, não teria sentido, quer um meio de agir sobre a realidade, potenciando ou evitando aquilo que é indesejável. No entanto, a feitiçaria e particularmente as acusações de prática de feitiçaria não desempenham apenas esse papel de domesticação da incerteza.

É bastante comum que, numa mesma sociedade, coexistam diferentes sistemas de domesticação da incerteza de que as pessoas têm conhecimento e que podem seleccionar conjunturalmente, quer miscelanizando-os, quer aplicando-os de forma alternativa a diferentes aspectos da realidade quer ainda usando-os de forma complementar - como na utilização de pára-raios nas igrejas, alvo de sarcásticas quadras populares, (Granjo 2008, p. 246).

Moçambique não é excepção a este respeito. Também aqui coexistem racionalidades e sistemas de interpretação com base materialista, religiosa, mágica, tecnológica, espiritualista. Podemos no entanto afirmar que vigora na maior parte do país um sistema de domesticação da incerteza que, coabitando embora com outros, assume predominância quando se trata de interpretar acontecimentos disruptores da normalidade. Isto porque se parte do princípio de que o acaso não existe, muito menos existindo coincidências. Por isso, acontecimentos que prejudiquem (ou beneficiem) alguém de uma forma marcante pressupõem a existência de causas que lhe estejam subjacentes, em especial se tais acontecimentos forem recorrentes. (Idem)


  1. Conclusão

Terminado o trabalho sobre o Domínio Simbólico Ritos e Feitiçaria, concluiu-se que a análise ritual está sempre relacionada à acção social e à comunicação. Estas buscam estabelecer a forma estrutural de realização de um rito. Neste processo é possível observar a maneira como os indivíduos classificam o mundo e constroem a realidade em que vivem. Nessa realidade, inserem-se as instituições, que nada mais são do que os meios em que o homem propaga a sua existência e projecta a sua forma de existir. E nesse poder de uniformização e de padronização, as instituições servem para estabelecer uma ligação entre o passado e o presente

A feitiçaria pode ser entendida uma acção maliciosa, levada a cabo através do recurso a forças místicas ou mesmo pela violência, resultante de ódios e tensões intensas presentes na sociedade, e que as pessoas interpretam como actuam sobre si independentemente da sua vontade.

Pode estar relacionada com cultos às forças da natureza ou aos antepassados já falecidos, sendo que está também frequentemente relacionada com o uso de artes consideradas mágicas, à invocação de entidades, como por exemplo, espíritos, deuses, génios ou demónios, ou o emprego de diversas formas de adivinhação.

No contexto da importância da feitiçaria, destaca-se o facto de a feitiçaria servir como a forma mais comum de, em tempos de crise económica e de declínio social de oportunidades, se conseguir sucesso pessoal, riqueza e prestígio.


  1. Bibliografia

DELUMEAU, Jean. História do Medo Ocidental. São-Paulo, Companhia do Bolso,

2009.


DICIONÁRIO ONLINE Wikipédia. Sincretismo e sincretismo religioso. Acesso 18 de

Outubro 2019.

EVANS-PRITCHARD, E. E. Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande. Rio de

Janeiro, Zahar. 1978 (1937). 

FLORÊNCIO, Fernando.  Ao encontro dos Mambos – autoridades tradicionais

vaNdau e Estado em Moçambique. Lisboa, ICS. 2005.

FREITAS, M.E. GUERRA, E. Cultura Organizacional: evolução crítica. São-

Paulo, Cengage Learning, 2004.

GRANJO, Paulo. “Dragões, Régulos e Fábricas – espíritos e racionalidade



tecnológica na indústria moçambicana”, Análise Social, 2008.

HANCIAU, Nubia. A feiticeira no imaginário ficcional das Américas. Rio Grande

do Sul, FURG/ABECAN, 2009.

LEACH, Edmund, R. Sistemas políticos da Alta Birmânia-Um Estudo da Estrutura



Social Kachin. São-Paulo, edusp. 1978.

PEIRANO, Mariza. Rituais: Ontem e Hoje. Rio de Janeiro, Editora, zahar, 2003.



RIVIÉRE, Claude. Introdução a Antropologia. Ed. 70, Lisboa, Lda, 2011.


1 Dicionário Online, acesso 18 de Outubro de 2019.

2 Desde logo, e apesar do papel central que aqui assumem os espíritos e os antepassados, os seus princípios gerais são similares, por exemplo, aos da clássica interpretação de Evans-Pritchard acerca da bruxaria Azande (1978 [1937]).

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