AÇÕes e reaçÕES, até onde seria terrorismo?



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AÇÕES E REAÇÕES, ATÉ ONDE SERIA TERRORISMO?

Bernardo Cunha de Godoy1 – UFMG – Belo Horizonte – Minas Gerais

Március Herculano Pereira Carneiro Araújo2 - UFMG - Belo Horizonte - Minas Gerais

Sávio Augusto Nogueira Silva3 - UFMG - Belo Horizonte - Minas Gerais



Resumo: Face aos numerosos atentados terroristas que vêm ocorrendo em diferentes partes do globo, o tema terrorismo ganhou visibilidade e passou a ser de grande importância para nações que antes eram indiferentes ao assunto. Ataques que antes eram voltados aos países considerados potências, portanto Estados hegemônicos, passaram a atingir outros alvos, locais considerados mais fragilizados, como Síria e países do norte da África. A possibilidade de intervenção internacional levantou a questão se a presença de forças militares externas, em nome do combate ao terrorismo pode ser vista como quebra da soberania de um estado. Na teoria, todos os governos têm como prioridade garantir a segurança nacional, mas nem sempre os métodos adotados são avaliados.

Palavras-Chave: Estado, Hegemonia, Segurança Nacional, Soberania e Terrorismo.

Abstract: In view of the numerous terrorist attacks that have been taking place in different parts of the world, terrorism gained visibility and became of great importance to nations that were previously indifferent to the subject. Attacks that were previously directed at countries considered as powers, and therefore hegemonic states, began to reach other targets, considered places more fragile, such as Syria and countries of North Africa. The possibility of international intervention raised the question whether the presence of external military forces in the name of combating terrorism can be seen as breaking the sovereignty of a state. In theory, all governments have the priority of ensuring national security, but the methods adopted are not always evaluated.

Palavras-Chave: State, Hegemony, National security, sovereignty and Terrorism.
Introdução

Terrorismo não é questão recente, por mais que frequentemente surjam notícias de ataques, homens bomba e bombardeios em diversas partes do mundo, como os ocorridos no Oriente Médio assumidos pelo Estado Islâmico (ISIS). A partir da segunda metade do século XX esse tema está em pauta, sendo tratado amplamente pela mídia e academias de todo o globo. Mais uma questão a ser tratada pelos Estados em relação à segurança nacional. Um grande marco terrorista foi o chamado “Massacre de Munique”, ocorrido nos Jogos Olímpicos da Alemanha, em 5 de setembro de 1972. No episódio citado, palestinos invadiram o parque olímpico e transformam atletas israelenses em reféns. Após um longo período de negociações e falha da polícia, 17 pessoas morreram no atentado, 5 terroristas (Grupo Setembro Negro4), 1 policial e 11 atletas israelenses.

No século XXI, os ataques terroristas do dia 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos levaram o mundo a vivenciar uma nova era marcada pela “Guerra ao Terror”, expressão utilizada pelo até então presidente estadunidense George W. Bush. Neste evento, a rede Al Qaeda assumiu os ataques, liderados por Osama Bin Laden, com a afirmativa de estarem respondendo às intervenções estadunidenses no Oriente Médio.

Após a ditadura chilena liderada por Augusto Pinochet, muito foi debatido se houve alguma espécie de terrorismo de Estado. Contudo, em 2016 o Congresso chileno reconheceu as ações do ditador como tal. A partir dessa declaração questiona-se se o terrorismo pode ser cometido por um estado, ou seja, não apenas efetuado por um grupo paralelo.

Autores como Eric Hobsbawm, Arrighi, Wallestein, Muniz Bandeira5, entre outros, buscam analisar os Estados através de sua hegemonia e soberania, conceitos importantes para se compreender a ação terrorista. Por isso, o artigo se debruçou sob alguns conceitos como os já citados além de Estado e Segurança Nacional para subsidiar a discussão.

Este trabalho objetiva levantar provocações em torno do termo terrorismo, e como este está associado à soberania. Seria o terrorismo exclusivo de grupos paralelos ou uma ação realizada também por Estados?



Estado e Perspectiva histórica

Ao debater acerca do Estado Moderno, Estado Nação, Estado Teocrático, Estado Medieval associa-se a estes conceitos algum contexto histórico ou político. A priori o foco recairá sobre o conceito de Estado em seu sentido singular, este construído no final da Idade Média e sendo inicialmente absolutista. Segundo Font e Rufi6, as raízes do Estado se encontram no processo de transição da sociedade feudal para a absolutista, como pode ser lido no trecho a seguir:

[...] a partir da necessidade, de um lado, de as classes mercantis emergentes eliminarem as barreiras comerciais, e, de outro, da aristocracia que procura romper com a fragmentação política e territorial medieval, assim como a autoridade papal. Uma aliança paradoxal entre os grupos sociais, comerciais e aristocratas, a priori com interesses contraditórios, é o que conduz à criação de uma nova instituição”. (Font, Rufí, 2006, p.96)

Para o autor, apesar de existirem pesquisadores que não entendem a formação desse Estado a partir dessa aliança paradoxal, os marxistas a entendem como uma imposição dos grupos mais sobre os menos poderosos. Portanto, através das considerações anteriores, percebe-se como as bases do Estado Moderno foram dadas, e como bem ilustra a historiografia, vários impérios se constituíram com base no Estado Absolutista, como o português, inglês, francês, espanhol, todos em torno de uma figura forte e centralizadora, o rei.

Mas, esse Estado não se construiu apenas como político, havendo todo um aparato econômico por trás, o Mercantilismo. Segundo Peter Taylor, o mercantilismo se constituiu como base importante na criação dos Estados, o cerne de sustentação dessa instituição:

O Estado territorial era a premissa em que se baseavam a segurança e a ordem, a oportunidade e o mercantilismo” (Taylor, 1994, p. 147.)

Porém, esse Estado Absolutista, a partir da Revolução Francesa, se modificou: ascendeu-se uma nova classe, a burguesia, e esta conseguiu ocupar o poder político, portanto o reestruturou de maneira que respondesse às suas necessidades e aos seus interesses.

A concepção de Estado Moderno, segundo Font e Rufí está ligada à interpretação do Estado como resultado e instrumento da modernidade:

[...] como resultado e instrumento da modernidade: de uma nova estrutura social não aristocrática, porém classista; de uma cultura laica; de uma nova fé baseada na ciência, na razão e no progresso; e de uma economia preparada para abrir caminho para a industrialização e ao capitalismo de mercado [...] (Harvey, 1989; Wallestein, 1991 – in Font e Rufí, 2006).

Este Estado moderno vai se consolidando e crescendo ao longo do século XIX, assumindo cada vez mais funções, tanto culturais, econômicas e/ou políticas.



Perspectivas conceituais

Estado

As considerações analisadas anteriormente servem para ilustrar de como o Estado veio se constituindo a partir de vertentes política e econômica, entretanto vale mencionar outras considerações a respeito dessa instituição. Segundo Antônio Gramsci, o Estado:

[...] é identificado como uma instituição capaz de organizar a coação, bem como a produção e a reprodução em função de determinados modelos e interesses – o Estado como instrumento de poder.” (In Font e Rufí, 2006, p.99)

Sahid Maluf entende que:

O Estado possui três elementos constitutivos, sendo que a falta de qualquer elemento descaracteriza a formação do Estado. Para o reconhecimento do Estado perfeito se faz necessário a presença do povo, território e soberania.” (Maluf, 1998)

E por fim, citamos Darcy Azambuja:

[...] é uma sociedade natural, no sentido de que decorre naturalmente do fato de os homens viverem necessariamente em sociedade e aspirarem naturalmente realizar o bem geral que lhes é próprio, isto é, o bem público. Por isso e para isso a sociedade se organiza em Estado”. (AZAMBUJA, 1997, p. 3)

A partir desses conceitos apresentados entendemos Estado como o meio de coerção de uma força política sobre a população. Portanto, sendo um Contrato Social7 para proteger sua população e território. Essa proteção pode implicar o uso do aparelho bélico ou do diplomático. Em tese, essa força se restringe ao espaço interno de um país, no entanto se o mesmo se entende como ameaçado, o uso da força externa acontece e pode ser denominado como ato de guerra.



Soberania

Não se pode pensar a construção do Estado Moderno a partir dos séculos XIV e XV sem remeter à ideia de soberania. Inicialmente, questiona-se como essa soberania se manifesta. Segundo Silvana Colombo, a soberania possui necessariamente uma dimensão interna e uma externa. Nessa perspectiva a autora esclarece:

[...] A afirmação da soberania sobre determinado território significa que o poder será exercido dentro dos limites territoriais estabelecidos, e que tal poder é superior sobre todos os demais existentes no Estado8. Isto implica dizer que a soberania tem uma dimensão interna, e uma dimensão externa. A afirmação da soberania em relação aos outros Estados implica na independência, no reconhecimento de outras unidades políticas juridicamente iguais e soberanas [...].” (Colombo, 2008).

Contrário à ideia de um Estado dotado de um poder absoluto, para Edward H. Carr, parece plausível, mesmo que no campo jurídico se considere como incorreto um Estado ser mais soberano que o outro. Roberto Bertoglio Cardoso transcreve o pensamento de Carr nas seguintes palavras:

[...] há uma assimetria de soberanias no sistema internacional, que Carr referenda como um dado da realidade”. Os Estados poderosos são soberanos para pactuar, cumprir e denunciar tratados, enquanto os Estados fracos não dispõem de soberania para tanto porque soberania é derivada de política de poder [...]. (Cardoso, 2008)

Sendo assim, para Carr, seria impossível pensar que na lógica internacional, nas tomadas de decisões e influências sobre as variadas relações entre Estados, um país com mais poderes não sobressaia sobre outros.

Após análise dos conceitos expostos anteriormente, é possível dizer que a soberania de um Estado pode ser ameaçada por fatores internos e externos. A existência de um grupo paralelo que disputa o poder com o governo é uma ameaça vinda de dentro do território nacional. Em outros casos, a interferência internacional em assuntos internos pode configurar o desrespeito à soberania de determinado Estado.

Hegemonia

O conceito de hegemonia se deu a partir de Lênin. Entretanto, foi o filósofo italiano Antônio Gramsci, que expandiu o entendimento do termo. Além desses, alguns autores como o sociólogo estadunidense Immanuel Wallerstein e o economista Giovanni Arrighi, apresentaram explicações interessantes ao caso.

Gramsci apresenta caráter marxista em suas obras, tendo discutido questões relacionadas a classes sociais, burguesia, proletariado, entre outros. Ele trabalha o conceito de hegemonia adjunto a outros temas, todos numa perspectiva contemporânea. O autor italiano define hegemonia como a ocasião em que um ou mais grupos sociais que dominam outros. Um exemplo trabalhado por ele se dá nas relações de grandes burgueses e proletários. Para que esta dominação ocorra é necessária uma forja, por parte dos grupos dominantes, mediada pelos discursos ideológicos, ou até mesmo contextos de violência. No plano nacional Gramsci apresenta:

[...] a supremacia de um grupo social manifesta-se de duas maneiras, como “dominação” e como “liderança intelectual e moral”. Um grupo social domina os grupos antagônicos, que ele tende a “liquidar” ou subjugar, talvez até pela força das armas, e lidera os grupos afins ou aliados.” (In Arrighi- p.28).

É necessário destacar que para Gramsci o termo hegemonia aponta que há sempre alguém num patamar superior enquanto existem outros em patamares inferiores, nas mais diversas realidades que abrangem um aparato hegemônico em aspectos econômicos e culturais.

Partindo dessa concepção de Gramsci vejamos uma abordagem do economista e sociólogo Arrighi sobre hegemonia:

[...] o conceito de “hegemonia mundial” [...] refere-se especificamente à capacidade de um Estado exercer funções de liderança e governo sobre um sistema de nações soberanas [...]”. (Arrighi, p 27.)

Em seu livro “O longo século XX” Arrighi ilustra a hegemonia mundial em três países numa perspectiva histórica, sendo eles Holanda, Inglaterra e Estados Unidos. Por volta de 1600 d.c. quem detinha a hegemonia mundial econômica era a Holanda, mercantilista, de marinha poderosa, e posse de colônias no Caribe, na África e no Sudeste Asiático. Após um período turbulento e concomitante à Revolução Industrial emerge a Inglaterra. A constituição de sua hegemonia possuiu direta relação com a sua poderosa marinha mercante e militar, a qual propiciou novas configurações globais, como fixação de colônias na América, Austrália, África e Ásia, até aproximadamente 1870; segundo alguns autores como Niall Ferguson, o Império britânico foi o maior já existente em dimensão territorial. No contexto dos Estados Unidos, Arrighi menciona a hegemonia em pleno século XX com base na economia industrial, sistemas financeiros e tecnologia militar sofisticada.



Segurança Internacional e Nacional

Após a Guerra Fria os estudos em segurança se desenvolveram de forma extraordinária, tendo como origem uma das duas escolas, realista ou idealista. Os estudiosos realistas acreditavam que o poder era o que garantiria a segurança internacional. Seguindo essa linha, a existência de um país detentor de grande poder teria a capacidade de assegurar não só a sua, mas a segurança de outros. Por outro lado, os idealistas viam na paz a solução de todos os problemas. Colocavam as guerras como a principal causa da insegurança, e defendiam que se a paz mundial fosse estabelecida não existiriam mais conflitos, portanto um mundo seguro.

Durante muito tempo a segurança internacional foi vista por enfoques políticos ou militares, sem que houvesse uma identificação dos fatores que atuam em outras vertentes. Em “The Concept of Security”, David Baldwin demonstra a preocupação de se compreender a complexidade do termo:

Individuals, states, and other social actors have many values. These may include physical safety, economic welfare, autonomy, psychological well-being, and so on. The concept of national security has traditionally included political independence and territorial integrity as values to be protected; but other values are sometimes added.” (BALDWIN, 1997)

Devido à dificuldade de discutir sobre segurança, é preciso que haja uma conexão entre o internacional e o nacional. Gunther Rudzit reflete sobre a existência da sociedade, demonstrando que não é errado dizer que para a convivência harmoniosa deve haver um sistema único que busque objetivos comuns. Assim como Rudzit evidencia, para que ocorra uma compreensão do todo é preciso antes compreender o funcionamento de cada um dos atores, em resumo, entender o nacional para então buscar o internacional. O governo pode optar por lidar com as ameaças, fatores externos que ameaçam sua segurança, ou com as vulnerabilidades, fatores estruturais internos que comprometem seu funcionamento. No caso do terrorismo, um exemplo de ação que busca resolver as ameaças seria a intervenção militar estadunidense no Oriente Médio. Ao mesmo tempo, agências antiterrorismo buscam diminuir o peso das vulnerabilidades dentro do próprio território. Porém, é preciso perceber que independente da forma como o Estado busque garantir sua segurança, é óbvio dizer que serão feitos sacrifícios, mesmo que esses sejam oriundos do redirecionamento de verbas para outros fins.

Terrorismo

O terrorismo é prática antiga, com foco não somente em causar danos físicos, mas psicológicos à uma população. Sua principal arma é o medo, que tenta de certa forma afetar o cotidiano dos cidadãos. Através desses métodos eles buscam alcançar objetivos específicos, exigindo atitudes de governos e em alguns casos da própria população. Os motivos que levam à fundação, crescimento e atividade das organizações terroristas são os mais diversos, indo de política a religião.

Os Estados Unidos e a Organização das Nações Unidas (ONU), definem o terrorismo de maneiras distintas.

Segundo o Manual do Exército dos Estados Unidos seria:

[...] o uso calculado da violência ou a ameaça da violência para atingir objetivos de natureza política, religiosa ou ideológica... por meio da intimidação e da coerção ou implantando o medo”. (MANUAL DO EXÉRCITO ESTADUNIDENSE)

Já segundo a Declaração sobre as Medidas para Eliminar o Terrorismo Internacional da ONU, de fevereiro de 1995:

Atos criminosos pretendidos ou calculados para provocar um estado de terror no público em geral, num grupo de pessoas ou em indivíduos para fins políticos são injustificáveis em qualquer circunstância, independentemente das considerações de ordem política, filosófica, ideológica, racial, étnica, religiosa ou de qualquer outra natureza que possam ser invocadas para justificá-los.“ (Resolução 49\60 da Assembleia Geral, para. 3)

Os terroristas estão classificados no mesmo grupo dos guerrilheiros, segundo Alessandro Visacro, sendo ambos aqueles que praticam forma de guerra irregular. Ele defende que esse modelo irregular, a qual foi adotada ao longo da história por grupos mais fracos.

Além de Visacro, os autores Brenda Lutz e James Lutz expressam a ideia de que o terrorismo é adotado em geral por grupos mais fracos. Porém, cabe a indagação, os fortes também não utilizam as armas dos fracos? Para estes últimos, existem seis elementos que permitem a caracterização de um ato como terrorista, levando em consideração apenas seu lado ideológico:

(1) o uso da violência ou ameaça de utilizar (2) por um grupo organizado (3) para alcançar objetivos políticos. A violência (4) é dirigida contra um público-alvo que se estende para além das vítimas imediatas, que são muitas vezes os civis inocentes. Além disso (5), enquanto um governo pode ser o autor da violência ou o alvo, ele é considerado um ato de terrorismo somente se um ou ambos os atores não são um governo. Por fim (6), o terrorismo é uma arma dos fracos (Lutz; Lutz, 2010, p. 341 apud FRIZZERA SOUZA JUNIOR, 2014, p. 117 - 118).”

A partir da segunda metade do século XX os grupos terroristas ganharam força, arrematando cada vez mais seguidores às suas causas, e elaborando ataques cada vez maiores, dando uma nova aparência ao terrorismo. Rudzit destaca que não necessariamente o número de ataques aumentou, mas as proporções e números de vítimas são cada vez mais elevados. Como se não bastasse, jovens de todo o mundo têm aderido às facções terroristas, dificultando ainda mais o poder de garantia da segurança do Estado.

Ações e reações, até onde seria terrorismo?

Relacionar atos terroristas às ações de um Estado não é simples. Muitos dos conflitos travados na história deixaram suas marcas e consequências no espaço e no tempo que contribuíram, por exemplo, a configuração das fronteiras entre Estados. Com base nos tópicos tratados anteriormente, segue-se:

A priori, demonstra-se uma preocupação quanto a forma como os Estados reagem aos diferentes tipos de ameaças e vulnerabilidades em seu território. Partindo do princípio de que um governo deve proteger sua população, podemos constatar também que ele tem a capacidade de intervir nos cenários externo e interno. Entretanto, questões como a soberania de outros países, a proporção da força imposta e os reais objetivos por trás de tais atos devem ser levados em conta quando se faz uma análise crítica das intervenções.

Em 2016 a humanidade presenciou o congresso chileno reconhecer Pinochet como terrorista de Estado, que utilizou da imposição de medo sobre a população com a finalidade de garantir uma governabilidade, exemplo claro de terrorismo estatal em esfera interna.

Em meio às discussões conceituais, levantam-se dúvidas quanto as diferenças entre ato terrorista e guerra. Com base no expresso pela ONU em 1995, percebe-se a necessidade de analisar um ataque de maneira mais profunda. Teria este a intenção de provocar estado de terror, ou de fato o ataque teria o objetivo de tentar liquidar a força militar inimiga? No primeiro caso constata-se situação de terrorismo.

Em exemplos reais: os Estados Unidos sofreram um forte ataque no dia 11 de setembro, atentado ao Word Trade Center, considerado ataque terrorista e assumido pela Al Qaeda. Semanas depois, marcadas por seguidos ataques ao núcleo do grupo extremista, o Chefe de Estado-Maior britânico informou que os Estados Unidos e Reino Unido continuarão os ataques ao Afeganistão “até que eles trocassem sua liderança” (discurso feito pelo Chefe de Estado britânico em 28 de outubro de 2001). Esse segundo ato seria uma declaração de guerra mascarada pelo real objetivo de imposição política e ideológica, portanto, terrorista?

Evidencia-se em primeiro lugar que não há de forma alguma nas presentes afirmações qualquer intenção de negligenciar os direitos humanos, mas sim de analisar um fato histórico a partir de bases conceituais. Sendo assim, com bases materiais, histórica filosófica e sociologicamente fundamentadas. Sendo assim, tendo em vista os conceitos expostos anteriormente percebe-se que o terrorismo nem sempre é caracterizado por atos com objetivos claros.

Levando em conta uma perspectiva espacial, muitas intervenções militares visam tomar porções de terra usando da justificativa de combater grupos terroristas, como exemplo atual, tem-se os diversos bombardeios sobre porções territoriais controladas pelo ISIS (Islamic State of Iraq and Syria) em regiões em torno da Síria e Iraque. Se um bombardeio é realizado pelos respectivos exércitos dentro de seus territórios a ação é vista como defesa, porém o mesmo não pode ser dito de outros países que atuam da mesma forma sem autorização. O território, mesmo que tomado por grupos extraoficiais, ainda tem soberania internacional e direito de controle sobre seu espaço aéreo. Ações ilegítimas e não autorizadas vindas de forças estrangeiras, portanto, devem ser caracterizadas como infração de soberania, assim como as práticas das facções de controle interno.



Considerações finais

Através do que foi tratado ao longo deste trabalho, é possível concluir que o terrorismo não é restringido a grupos paralelos, sendo praticado também por Estados, mesmo se aclamados como atos de guerra. Discordando das visões dos irmãos Lutz e de Visacro, o terrorismo não é arma exclusiva dos mais fracos. Potências bélicas também utilizam desse mecanismo para garantir seus interesses, sejam estes de abrangência interna ou externa.

Nesse contexto, o terrorismo mostra-se mais amplo e alarmante que anteriormente pensava-se, em diversos momentos a mídia internacional transmite a ideia de que intervenções militares de alguns Estados tem o intuito de promover paz, combater grupos ameaçadores, mascarando interesses ocultos. A motivação explicitada é o combate a um “mal”, mas em perspectiva geográfica os objetivos são persistentemente alinhados e conveniências hegemônicas territoriais, políticas e econômicas. O interesse geopolítico sobressai claramente a preocupações humanitárias, em grande parte dos casos.
Referências Bibliográficas

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ALVES, Ana Rodrigues Cavalcanti. O conceito de hegemonia: de Gramsci a Laclau e Mouffe. Lua Nova, São Paulo, p. 71 – 96, 2010.

ARRIGHI, Giovanni. O Longo Século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. UNESP, São Paulo, 1996.

AZAMBUJA, Darcy. Teoria geral do estado. 36° ed. São Paulo: Globo, 1997, p. 3.
BAALBAKI, Sérgio. O Estado, o povo e a soberania. Boletim Jurídico, 2005.

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CARTA CAPITAL. França vive islamização do radicalismo. Disponível em acessado em 02 de agosto de 2016.

CHOMSKY, Noam. Mídia: Propaganda política e manipulação. Ed. WMF Martins Fontes - São Paulo, 2013 (p. 69 - 105).
COCKBURN, Patrick. A origem do Estado Islâmico: Fracasso da “Guerra ao Terror” e a Ascensão Jihadista. Ed. Autonomia Literária - São Paulo, 2015.

COLOMBO, Silvana. A relativização do conceito de soberania no plano internacional. Direito de Estado – Universidade Federal do Paraná, 2008.

FONT, Joan Nogué; RUFI, Joan Vicente. Geopolítica, identidade e globalização. São

Paulo: Annablume, 2006


HOBSBAWN, Eric. Globalização, democracia e terrorismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império americano. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005.

MALUF, Sahid. Teoria Geral do Estado. 23 ed. São Paulo: Saraiva, 1995.

OLIVEIRA, Ariana Bazzano. O fim da Guerra Fria e os Estudos de Segurança Internacional: O conceito de segurança humana. AURORA ano III número 5, 2009.

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RUDZIT, Gunther. O debate teórico em segurança internacional: Mudanças frente ao terrorismo? Civitas, v. 5. n. 2, 2005.
VISACRO, Alessandro. Guerra Irregular: Terrorismo, guerrilha e movimentos de resistência ao longo da história. Editora Contexto, 2009.



1 Bernardo Cunha de Godoy, graduando no bacharelado em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (endereço eletrônico: bernardocgodoy@gmail.com).

2 Marcius Herculano P.C. Araújo, graduando no bacharelado em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (endereço eletrônico: mhgeografia1993@gmail.com).

3 Sávio Augusto Nogueira Silva, graduando na licenciatura em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (endereço eletrônico: savioigc.ufmg@gmail.com).

4 Nome de uma organização fundada em 1970 por palestinos que lutavam na Jordânia. Em 1982 o grupo foi responsável pelo que ficou conhecido como Massacre de Munique.


5 Ver Eric Hobsbawm, historiador britânico com a obra “Globalização, democracia e terrorismo”, pela editora “Companhia das letras” em 2007. Giovanni Arrighi, economista-político, com a obra “O longo século XX”, publicado pela editora “Unesp” em 1994. Muniz Bandeira, historiador brasileiro, ver “A formação do império americano”, publicado em 2005 e o livro “A segunda guerra fria” editado pela editora “Civilização Brasileira” em 2013.


6 Joan Nogué Font e Joan Vicente Rufí, ambos são geógrafos espanhóis e sua contribuição neste artigo se deu com a obra dos mesmos intitulada Geopolítica, Identidade e Globalização, de 2006. Da obra, foi utilizado um capítulo denominado A crise e a reestruturação do Estado-nação. Neste capítulo os autores procuram mostrar quais foram as bases da construção do Estado ao longo da história do ocidente, tomando como início a passagem da Era feudal para Era Moderna. No mesmo capítulo, os geógrafos destacam também as funções que o Estado possui na atualidade. Posteriormente os autores procuram mostrar uma outra ideia relacionada à desconstrução deste mesmo Estado, diante do fenômeno a globalização.

7 Ideia trabalhada por Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau e que define uma forma de organização social por meio de um “contrato”, sendo esse um líder soberano ou uma lei que vai reger a sociedade. Ler o “O Contrato Social” de Rousseau.

8 Vale ressaltar a soberania como ideia de poder absoluto. Nesse ponto de vista é possível pensar absolutismo apenas no plano interno, sendo que no plano externo seria uma grosseria um Estado se sentir mais soberano, ou mais poderoso que outro.


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