A recompensa de Devil



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A Recompensa de Devil

Série Castas 27.5

Lora Leigh


PROJETO REVISORAS TRADUÇÕES

Revisão Inicial: Uta Arash

Revisão Final/Formatação: Luci

O que Gideon está tramando?

Por que Cassie e Dash Sinclair estão juntos com Dane Vanderale no remoto Estado do Novo México na propriedade do solitário Lobo Reever? E o que o Executor da Raça, o casta lobo, Devil Black vai fazer agora com a política da Agência de Assunto dos Castas?

Descubra na Recompensa de Devil.

Resumo

Uma jovem irlandesa que só agora percebe sua genética da Raça e que agora carrega também um fenômeno casta pouco conhecido, chamado “Combustão genética”. Uma febre que literalmente puxa e ativa a genética casta recessiva de seu esconderijo.
Ela descobriu no pior dos lugares, na Europa, onde os castas são obrigados a submeter-se às instalações de testes ou forçados a essas instalações uma vez que são encontrados. Mas castas raramente saem da mesma forma que entram.
Se Kathleen 'Katy' O' Sullivan não encontrar um milagre, ninguém poderá salvá-la, inclusive seu adorado pai, Barrett O' Sullivan, Chefe de Polícia da Irlanda do Norte pode salvá-la do destino que o país ordenou para ela.
O resgate vem na forma do famoso, Devil Black, o primeiro casta Executor e agora, seu companheiro.


Havia Morte1, e ela desaparecia entre as sombras.

Havia Slaughter2, e ele desaparecia como poeira no vento.

Havia o Lyon3, que buscava vingança na escuridão, para depois encontrar a luz do amor.

Havia o Jaguar4, que era a própria escuridão, mas que encontrou o coração que salvou sua alma.

Havia tantos.

Havia todos aqueles que conheciam a vingança, que conheciam a retaliação, e que sucumbiam à fraqueza mais fraca que homem ou fera pudera conhecer.

Eles sucumbiam aos corações que jamais deviam possuir.

E agora, as forças do maior Aliado do homem e a do seu mais querido Criador olharam para um coração que todos alegavam ser negro, sem misericórdia ou compaixão, e sentiu-se amolecer.

Pois Sua misericórdia reside em quantidades vastas enquanto a compaixão dilacera Sua alma com cada ato de justiça que ele é forçado a praticar.

Aquele que chamam de “Devil5”. Aquele que dizem ser o mais sombrio de todos os Castas já criados.

Aquele que seu Criador instruiu para garantir que sua mão lidasse com o peso da justiça necessária para garantir a existência dos Castas. Aquele para o qual o seu Criador planejou o mais apreciado de todos os dons.

O Lyon agora guia o seu Bando.

Slaughter agora extermina somente os demônios que põe em risco o seu amor.

O Jaguar agora ronda apenas na escuridão de sua própria guarida enquanto o bicho-papão dos Castas, o guerreiro Warrant6, é o campeão do amor.

Cada um recebeu o mais verdadeiro de todos os presentes, o presente do amor.

Agora o Diabo também receberá.

O Criador levantou as mãos, seu sorriso gentil, compaixão e misericórdia guiando suas ações ao trazer revelações, escondidas dos inimigos de Devil cujos segredos teriam ferido o presente por vir, e pôs cada emoção em seu lugar, cada desejo, cada hormônio e célula separadas, as qualidades necessárias para garantir uma companheira que ninguém teria esperado.



Um amor inestimável e sem fim.

Agora é hora de dar ao Diabo o que ele merece.

PRÓLOGO

Barret O’Sullivan olhou a forma minúscula—extremamente minúscula—da criança que seu melhor amigo seguiu até o inferno para salvar.

Tão pequena.

Um fragmento de carne e ossos que tinha nove anos de idade, mas ele jurava que mal podia ter mais de quatro.

Agora, Jorn Langer, o amigo que revelou o segredo daqueles laboratórios, o segredo daquela criança, estava deitado ao seu lado no chão de cimento, o sangue manchando o piso gelado.

Deus, estava tão frio.

Barret podia sentir o frio que o cercava entrar em sua alma, naquele lugar que guardava o seu coração, sua consciência, que lhe trouxe a percepção que, mais uma vez, sua vida mudava.

Cercado por aquele frio, sua criança nua estava deitada, sua pele quase azul. A riqueza de cachos ruivos irlandeses no chão à sua volta se misturava ao sangue do seu salvador. Pele irlandesa clara sombreada pela tonalidade azul de quem congelava brilhava sob os cachos.

Ecoando gritos, gritando ordens, rugidos bestiais e rosnados animalescos eram como uma sinfonia infernal invadindo o laboratório onde a maior batalha da vida de Jorn foi travada. A batalha para salvar a criança que, até uns dias atrás, Barret nem sabia que existia.

— Porra, Bar — sussurrou Jorn com fraqueza, seu sotaque mais presente devido a dor quando as espessas pestanas loiras de Norse levantaram para olhar Barret de maneira embaçada. — Vou morrer, rapaz. Mas que jeito de ir.

— O inferno que vai. — Ajoelhando-se rapidamente, Barret checou o ferimento em seu peito e soube que seu amigo não mentia. Ele estava morrendo.

Que Deus o ajudasse. Aquele homem era muito mais seu irmão do que qualquer um de sangue poderia ser, e estava morrendo.

— Não se atreva a morrer, Jorn — ele sussurrou, desesperado de repente.

A vida inteira foi Jorn quem tirou Barret de encrencas, e quem fazia que se metesse nelas. Aquele era o homem que cuidou dele, riu com ele, lutou ao seu lado.

— Não tenho escolha, meu chapa. — Jorn ofegou, seu rosto vermelho agora pálido, o sangue saindo rápido demais pelo seu peito.

— Sua filha, Bar. — Jorn indicou a criança ao seu lado.

A respiração dela era lenta e fácil, mas estava rígida demais pelo frio.

Barret quase rasgou a jaqueta ao tirá-la e a colocou rapidamente em volta do corpo nu da menina, imaginando por que não fez isso no momento em que entrou na sala.

Ela estava deitada contra o peito ensanguentado de Jorn, seu peso tão leve que não poderia contribuir com o aumento da perda de sangue, mas ainda assim, Barret se moveu para tirá-la do lugar em que repousava.

— Não! — os braços de Jorn apertaram sua forma imóvel. — Ainda não. Deixe-me abraçar esse anjo por um tempo. Ela me lembra Khileen. Minha doce, pequena Khileen.

Sua filha. Ela mal tinha cinco anos, e era a luz da vida de Jorn.

Os dois fitaram a cascata de cabelo. Havia cabelo demais e criança de menos.

— Esconda-a — sussurrou Jorn, voltando-se para Barret. — Lembre-se do arquivo que encontrei, Bar. Não deixe que ninguém saiba. Eles não podem saber que ela é sua e de Kella. Jure, Bar.

— Eu juro.

Ninguém podia saber. Isso significaria mais do que só a sua vida e a de Kella, sua esposa. Podia significar também a vida da filha deles. Uma filha criada do esperma e ovário que ele e sua esposa cederam a uma clínica de fertilidade na esperança de que Kella engravidasse. De uma criança que cultivaria com o próprio corpo e que criariam quando nascesse.

Mesmo assim, quando ele olhou para a menina que Jorn abraçava, Barret percebeu que amor nenhum podia ser maior do que o que ele sentia pela sua filha, naquele momento.

Maldição, suas mãos tremiam, notou quando estendeu a mão para tirar o cabelo do seu rosto.

Piscando ferozmente as lágrimas que teriam caído, seu olhar voltou a Jorn.

— A filha de Kella — sussurrou Jorn, o sotaque ainda mais evidente agora que a morte se aproximava. — É ela em miniatura, Bar.

— Como eu escondo a filha dela? — Desespero começou a enchê-lo. — Porra, Jorn. Não me deixe sozinho para proteger essa criança e Khillen. Não faça isso comigo.

O sorriso extravagante de Jorn repuxou seus lábios pálidos.

— Bem que eu queria…

— Não, Deus, Jorn, não faça isso. — Como diabos faria o que tinha que fazer sem a ajuda de Jorn?

— Fique o mais perto possível da verdade — Jorn ofegava. — Tire-a daqui. Contate Lyons da Virgínia americana. Encontre-se com ele. Mostre-lhe a verdade. Ele lhe dará os meios para que cuide dela.

O homem tentava respirar com dificuldade quando uma trilha de sangue começou a sair pelas suas narinas.

—Não conte a ninguém além de Lyons. — Jorn agarrou a manga da camisa de Barret de repente. — Jure. Nem mesmo Kella pode saber. Ninguém além de Lyons pode saber a verdade.

— Ninguém além de Lyons — concordou Barret, sabendo que aquele era um segredo que teria que revelar. Não tinha como guardar segredos de Kella, do seu coração. O que ele sabia, Kella sempre sabia.

— O que Kella sabe ela conta à minha adorável Jess. Jess contará a mãe dela— Ele começou a tossir, sangue jorrando pelos lábios abertos.

— Guardarei o segredo, Jorn. Ninguém ameaçará minha filha.

— Minha Khi — John arfou novamente, seus olhos azuis desesperados e cheios de uma tristeza e fúria tão dolorosas que por um momento, Barret teve certeza que pura determinação manteria seu amigo nessa terra.

Então seus olhos se fecharam.

— Também juro com relação a Khileen, Jorn. Eu a protegerei como protegeria os meus. Prometo-lhe isso.

Uma lágrima se libertou — como não poderia, agora? —aquele era o seu amigo mais querido, o irmão que nunca conheceu até que aparecesse em sua vida.

Uma expressão de paz encheu o rosto de Jorn naquele momento.

— Sim, então agora eu posso ir — ele sussurrou. — Posso ir.

— Jorn, por favor, Deus, ainda não...

E num piscar de olhos...

Barret cerrou os dentes, mostrando-os em um rugido de pura agonia antes de pegar rapidamente sua filha nos braços e se levantar.

Ele e Jorn tinham ensaiado aquela fuga um milhão de vezes nos últimos dias. Entrar, resgatar a criança, e então sair. Praticaram entrarem juntos, e saírem separados.

Jorn de algum modo sabia que eles jamais sairiam juntos?

Abraçando sua filha no calor do corpo, Barret correu rápido até o outro lado da sala e da parede de aço. Assim que chegou lá, pressionou rapidamente a mão no símbolo do Conselho de Genética que havia na parede e esperou com impaciência para que a parede inteira se movesse e revelasse uma saída oculta.

Deslizando pela estreita abertura, ele pressionou a mão no mesmo emblema do outro lado, esperou que a porta se fechasse, e então correu pelo túnel secreto.

O tempo inteiro, a criança que carregava dormia profundamente, intocada pelo horror que ecoava em gritos que faziam o sangue gelar do outro lado da sala. Ou os rosnados e a fúria animal que os provocava. Tudo o que importava era tirar aquela criança dali, e escondê-la. Esconder o seu segredo.

Uma Casta Loba recessiva.

Aparência perfeitamente humana, caninos retos e perfeitamente humanos, sua genética animal tão profundamente recessiva que mesmo o mais avançado dos testes genéticos não indicavam o fato de que era uma criatura da ciência, e não da natureza.

Os arquivos que Jorn encontrou tinham marcas de CONFIDENCIAL, CÓPIA ÚNICA. Não tinham duplicatas. Com sorte, não haveriam mesmo outras cópias, nenhuma outra informação que a rotulasse como Casta e não como humana.

Até onde o mundo saberia, ela era a filha da prima de Kella. Órfã, sozinha no mundo, e agora adotada pelos O’Sullivans.

Sua filha.

Sua e de Kella.

Apressando-se pela chuva e névoas sombrias que cercavam os laboratórios subterrâneos, Barret correu até o veículo para todos os tipos de terrenos, oculto que ele e Jorn esconderam na noite anterior.

O Dragoon blindado quase encostava no chão. Era feito para ter velocidade e agilidade, carregando pouquíssimos armamentos. Estava parado exatamente onde o deixaram, enterrado debaixo dos ramos fartos dos ciprestes de Lawson que usaram de cobertura.

Abrindo a porta do passageiro e levantando o banco apressadamente para revelar o local acolchoado escondido embaixo, Barret colocou a filha dentro antes de voltar a cobrir. Fechando a porta com cuidado, foi até o banco do motorista, entrou no carro e ligou o veículo.

Antes de sair, seu olhar deslizou até a entrada secreta dos fundos dos laboratórios e pelo mais breve segundo, podia jurar que viu Jorn.

Com a mesma rapidez, a sombra do seu amigo sumiu, a névoa se abrindo para revelar uma árvore sem folhas em seu lugar.

Não era Jorn.

Seu amigo de infância se foi para sempre.


* * *
— Eles fugiram.

A jovem mulher ao seu lado segurava a maior parte do seu peso, sua força era tudo que o mantinha em pé.

— Estou morrendo, moça. Me deixe ir em paz — ele sussurrou, arrependimento lhe perfurando ao olhar aquela cor âmbar neon incrível dos seus olhos. Aquela moça que arriscou sua própria vida, seus próprios segredos, para lhe falar da criança que eles tinham ordenado exterminar. A criança do homem a quem ele devia tanto.

E agora o que está feito está feito, como sua pequerrucha Khileen gostava de dizer. Sim, ele fez com toda vontade. Dessa vez pela última vez.

Deus, a dor era infernal. Parecia que seu peito se abria, que seu coração estava exposto, um ferimento aberto recente e agora exposto ao ar.

— Não posso fazer isso — ela sussurrou, quase arrastando-o por um caminho comprido até ele tropeçar, quase levando-a consigo.

De repente, mãos maiores e mais fortes o seguraram, levando-o a um abrigo de escuridão antes de deitá-lo em um chão macio.

Jorn olhou para os Castas à sua volta—ele sabia que eram Castas. Castas diferentes dos que já tinha visto. Aqueles Castas, eram matérias de boatos, de contos terríveis de mortes lentas e agonizantes. Eram os que as genéticas nunca progrediram totalmente do estado animal.

— Nephilim — sussurrou.

Homens que eram animais.

Animais que eram homens.

Não havia descrição apurada desses homens. O mito dos Castas Nephilim dizia que eles eram produto de experiências estudadas pelo Conselho de Genética que deram errado e que saíram do controle.

Estavam agachados em volta dele quando ele sentiu o objeto em que o depositaram se mover de repente. Subindo?

— Por quê? — sussurrou, direcionando a pergunta para um que sabia ser o líder. Havia lendas incríveis sobre aquelas criaturas. Maiores até que as dos Castas com asas nas Américas que grupos de soldados e cientistas caçavam com tanta dedicação.

Uma das criaturas agarrou o seu braço, virou sua palma para cima, enquanto outro empurrava uma seringa de aparência antiga em sua veia. Podia sentir o ardor de qualquer que fosse o medicamento que lançaram no seu organismo quando ele começou a correr por suas veias. Conseguiu senti-lo. Pelo braço, ombro...

— O que estão fazendo? Por que estão fazendo isso? — conseguiu dizer, perguntando ao líder quando ele se agachou ao seu lado.

Nephilim, pensou outra vez. O verdadeiro terror dos Castas.

Na Europa, falava-se de Nephilim com o mesmo temor que se falava se vampiros e lobisomens há séculos atrás.

Branco, seu rosto marcado com as listras de um tigre branco, seu cabelo loiro platinado caindo pelos ombros, o líder deles lhe deu um riso de deboche quando apontou com a cabeça para o lado de Jorn.

— Ela não me daria paz se permitisse que morresse.

Jorn virou a cabeça lentamente para a pequena moça que o tirou dos laboratórios.

Mal tinha um metro e meio, cabelo castanho claro, cílios cheios e longos, na mesma cor, com maçãs do rosto proeminentes, lábios quase no formato da boca de um gato, e seus olhos...

Olhos de gato.

E tão jovem. Tão pequenininha. Certamente não tinha mais idade que a sua pequena Khileen.

— Por quê? — perguntou-lhe agora quando se sentiu perdendo os sentidos, erguer-se, tornar-se mais leve que o ar.

— Porque eu sou sua. — ela sussurrou, seus olhos brilhando como um fogo âmbar. — E você é tudo que posso dizer que é meu. Como poderia permitir que a morte o levasse de tal forma?

O que aquilo queria dizer? Deus, precisava saber do que ela estava falando. Precisava saber...

Agonia perfurou seu peito, suas entranhas. Ela levantou seu corpo quando um grito se rasgou dele quando os dentes de serra do demônio da morte morderam e estraçalharam suas entranhas como um cachorro tirando a carne do osso. A dor era horripilante. Brutal.

A escuridão se fechou sobre ele.

Ele rezou para que a morte o levasse.


Katie aos 16
Ela era toda cabelo irlandês ruivo e rebelde, grandes olhos de esmeralda e pele macia de um branco com pêssego.

Muitas garotas irlandesas tinham sardas hoje em dia, como suas contrapartes americanas. O mundo era muito menor do que já foi, e sangue puro irlandês era praticamente inexistente.

Quando Devil Black observou Katie Sullivan manobrar pelos obstáculos do curso de treinamento, encheu-se de admiração.

Com dezesseis anos e puramente humana, embora pudesse correr mais, saltar mais e aguentar o triplo do que as Castas fêmeas que faziam o curso com ela.

Marie Katherine “Katie” O’Sullivan era a razão dele ser chamado pelo Diretor do centro de Treinamento da Agência de Proteção aos Castas, Gilliam Finneghea. Um ex-soldado das forças especiais americanas e agente secreto da inteligência das Nações Unidas, Gilliam não só treinou os melhores agentes secretos que a ONU já empregou, mas também enfrentou muitos dos melhores, e conseguiu sair vivo de cada batalha.

Às vezes quase morto, mas vivo.

Jonas teria jurado que nada impressionaria Gilliam, porque o homem já viu o melhor.

Até Katie O’Sullivan entrar na agência.

— Tem certeza que ela não é recessiva? — perguntou Devil, a Irlanda aparecendo em seu sotaque. Isso só acontecia quando ele saia de solo irlandês; não importava o quanto tentasse, o sangue irlandês nele não podia ser escondido.

Gilliam fez um som de escárnio.

— Ela foi adotada em solo irlandês, Devil. Acha que é recessiva e passou batida? Isso aqui não é a América, meu amigo.

Os exames na Europa, Irlanda e Escócia eram bem mais abrangentes e frequentes em crianças e adultos adotados do que em quaisquer outros países. Com os exames ficando mais dolorosos a cada ano depois dos vinte e cinco, muitos adultos optavam por países com leis de testes menos rigorosas. Alguns dos Castas da Europa continuavam a se esconder ou a fugir dos países europeus para evitar os cinco exames por ano exigidos de todos eles, sem levar em conta a quantidade de genes recessivos que tinham. Muitos dos Castas forçados em instalações experimentais eram tão radicalmente diferentes, sem nenhuma razão científica de mudança assim que eram libertos, que perguntas começavam a ser feitas.

Aquela garota também era testada anualmente. Na última varredura genética que ela foi forçada a fazer, foi relatado que ela socou um dos técnicos quando ele foi indelicado demais extraindo as amostras de seu fígado e baço.

Ela era muito durona, mas parecia tão delicada quanto uma rosa vermelha.

Cruzando um braço sobre o peito e apoiando o cotovelo no antebraço, Devil acariciou a mandíbula de forma pensativa. Ele estava ali para observar a garota passar por manobras de treinamento. Estaria ali no outro dia para vê-la na sala de controle do centro de comando subterrâneo que a agência instalou há uma década.

No começo ficava escondida, para proteger os Castas dos laboratórios que haviam escapado. Se conseguissem ir até um local combinado sem serem vistos ou seguidos, então eram levados durante a noite para um esconderijo. Eventualmente, depois de vários dias, tuneis subterrâneos e porões de igrejas depois, eles chegavam ali.

— Ok, então ela não é uma Casta. — Devil coçou a mandíbula, os olhos estreitos, o corpo mais tenso do que deveria estar ao observá-la passar pelos contundentes obstáculos da agência.

— Sim, não é. — retorquiu Gilliam, uma pergunta em sua voz ao olhar Devil. — Para você parece novidade.

Devil deu de ombros. Ela tinha todas as qualidades de uma fêmea Casta. Beleza. Uma aparência frágil e delicada.

Uma força dissimulada.

— Certo, então, estou interessado. — Dando um aceno decisivo sem tirar os olhos da garota, Devil rapidamente tomou sua decisão. — Informarei a Tiberian e a checaremos de novo em cinco anos.

Em cinco anos ela estaria com vinte e um e acima do exigido para se trabalhar na agência. E aos vinte e um anos, seu corpo estaria maduro o suficiente, forte o suficiente, para que fosse treinada para o Departamento de Assuntos dos Castas como uma agente humana.

O Departamento foi todo construído pelos Castas, e só nos últimos anos é que eles começaram a aceitar humanos em seus postos. Mas era esperança de Devil que ao invés de se juntar ao Departamento, ela ao invés disso se juntasse ao time de segurança de Lobo Reever no deserto do México.

Enquanto observava, não pôde deixar de permitir que sua curiosidade aumentasse. Uma humana que se movia como uma Casta. Ele sempre foi da opinião que…

Se parecia…

Se agia igual…

Se soava igual…

Também não acreditava muito em coincidências.

Naquele momento, com a cabeça levantada, de onde olhava outra recruta deslizar em torno da forma de um edifício abandonado. Seus olhos se encontraram. E naquele breve momento, naquela conexão, Devil jurou que viu muitíssimo mais do que uma humana.

E mesmo assim ela não era Casta?



Capítulo 1


Katie - 8 anos depois.
Mary Kathleen O’Sullivan, Katie para os amigos e a família, não fazia ideia que podiam haver tantos repórteres assim em um só lugar.

Detrás de um dos filtros de proteção que agora cobriam cada uma de suas janelas, ela fitou a multidão de jornalistas competindo por um lugar, vigiando sua casa de perto, microfones e blocos de anotações a postos.

— Os guardiões das massas. — seu pai uma vez chamou os jornalistas. Ele agora os chamava de “filhos da puta”, apesar do fato de não estarem fazendo no presente nada diferente do que fizeram no passado, quando ele fez aquele primeiro comentário.

— Katie, por favor, saia de perto da janela. — pediu sua mãe, sua voz gentil e em cadência cheia de preocupação.

Katie, seus pais sempre lhe chamaram assim. Ela supunha que era melhor do que “Fido ”, ou “Preciosa”, como vários tabloides a apelidaram.

Virando-se, fez como sua mãe pediu, olhando para ela por entre o véu de seus cílios.

Kella O’Sullivan tinha envelhecido um pouco nas últimas semanas. Havia linhas finas de preocupação agora gravadas em sua testa antes lisa, enquanto os seus olhos cor de esmeraldas refletiam um medo que antes não estava presente.

Seus cachos compridos de um ruivo dourado estavam presos na nunca com um pesado prendedor de prata, exibindo as pérolas da família que levava no pescoço.

Katie sempre refletia no quanto sua mãe e ela eram parecidas. As maçãs do rosto altas e os olhos levemente inclinados. Os lábios pequenos, mas preenchidos de maneira sensual e os cílios vermelhos dourados cheios e excepcionalmente longos que emolduravam seus olhos verdes escuros. Olhos que Katie nunca viu tão nublados de medo e preocupação.

Ou já?


Katie sempre pressentiu uma aflição muito bem oculta rondar os seus pais, embora nunca tivesse acreditado de verdade que fosse a raiz do problema. Sempre assumiu que o estresse era provocado pelo trabalho do seu pai como Assistente-Chefe da Policia da Irlanda do Norte, ao invés de pela aberração da natureza que era a filha dos dois.

Mantendo o equilíbrio, ela voltou para a poltrona ao lado da lareira a gás que seu pai acabou de instalar na casa de três pisos em que viveu toda a sua vida. Aquela poltrona foi mudada de posição para encarar os seus “convidados”, igual a uma poltrona onde o entrevistado fica sentado encarando algum emissário de poder, tal como o homem sentado à sua frente.

Callan Lyons, o orgulhoso Líder dos Castas Felinos, estava acompanhado por Jonas Wyatt, o Diretor da Agência de Assuntos dos Castas, Wolfe Gunnar e Dash Sinclair, os Líderes do Bando dos Castas Lobos, Del-Rey Delgado, o Líder do Bando dos Castas Coiotes, bem como o frequentemente elusivo Dylan Killato, o Líder do Bando dos Castas Lobos Europeus determinado a unir os Castas escondidos do seu lado do mundo, a observava, como ela imaginava que os cientistas que a criaram tinham feito bem possivelmente: com uma curiosidade distante.

— Katie, sei que está assustada. — Dylan se inclinou para frente, as cores prata e âmbar de seus olhos mutantes frias e calculistas como o pesado sotaque escocês, oferecido para envolvê-la em um falso senso de segurança. — E eu espero que saiba que a nossa única preocupação dessa vez é a sua segurança.

Katie podia ter rolado os olhos. Killato usava sua bela aparência morena e selvagem, o sotaque antiquado e a cor incomum dos seus olhos o máximo que conseguia sempre que precisava.

Os emissários americanos ainda estavam calados, observantes, nem oferecendo conselho nem contrariando as alegações de Killato.

— Está se tornando uma sensação entre os paparazzi bem como os cientistas de muitos países que aceitaram a tarefa de quebrar os códigos genéticos ocultos que os cientistas do Conselho usaram para nos criar. Você é tanto uma fraqueza quanto também uma possível resposta à toda comunidade Casta. Isso a torna um prêmio altamente cobiçado por muitos oponentes e proponentes da comunidade Casta.

Katie voltou o olhar para o ainda silencioso grupo americano.

— Os Castas têm proponentes? — perguntou quando seu olhar se prendeu ao de Jonas Wyatt.

Uma sobrancelha negra levantou acima de um olho de mercúrio prateado.

— Não naquele grupo. — ele lhe garantiu quando indicou com a cabeça a multidão lá fora.

Killato olhou de maneira fria para o Diretor da Agência de Assuntos dos Castas que fez Katie se perguntar sobre a animosidade que podia sentir emanando dele.

— Posso entender por que está aqui, Sr. Killato. — garantiu ao líder europeu. — Eu entendo que construir e juntar os Bandos Europeus seja uma tarefa assombrosa. — Ela voltou para os representantes americanos. — Mas por que vocês estão aqui? Como posso ser de auxílio ou de lucro para os Castas americanos?

— Katie. — seu pai repreendeu com gentileza. — Eles poderiam estar preocupados com o seu bem-estar, jovem.

Katie sacudiu a cabeça.

— Acho difícil de acreditar, Pai. Por que arriscarem as vidas bem como as agendas corridas só por causa de uma Casta qualquer que o mundo descobriu existir?

— Mas você não é uma Casta qualquer, Mary Katherine — Jonas lhe garantiu, uma pitada de humor enchendo seu olhar quando se inclinou levemente, cruzando os braços e os apoiando na mesa entre eles. — Diferente do líder Killato, não lhe garantirei que nada além da sua segurança importa. Isso não é verdade para nenhum Casta. Somos todos um perigo para nós mesmos bem como para os nossos Bandos e Matilhas. Mas você é mais pelo simples fato da sua genética ter sido tão oculta de todos até o ano passado. Com a revelação da sua genética Casta junto com o fato do seu avô ter sido um dos mais notórios Diretores do laboratório da Europa, isso lhe torna uma sensação. Oponentes dos Castas querem silenciá-la antes que os cientistas possam usar a sua genética para esconder, possivelmente, outros Castas dentro da sociedade, enquanto os proponentes esperam que você possa fazer justo o contrário; e os dois lados admitem a alta margem de lucro de qualquer uma das duas alternativas. Você vale literalmente o seu peso em ouro.

— Eu não exageraria tanto — retrucou Killato.

— Dylan, você sabe muito bem que a posição do pai dela como Assistente-Chefe da Polícia, os segredos do avô no Conselho de Genética e a própria genética dela a tornam um prêmio que cientistas entre os Castas, e entre as sociedades mais respeitáveis designadas para estudar a genética dos Castas, matariam para pôr as mãos nela. Mesmo se fosse preciso matá-la — Dash Sinclair argumentou, o brilho de preocupação em seus olhos quando se voltou para ela foi bem surpreendente.

— E daí? — Ela perguntou a Sinclair. — Como vou dar lucro aos Castas americanos?

— Garantindo que não seja levada pelos grupos errados e usada contra nós. — Foi a jovem filha de Sinclair, Cassandra, que falou de sua posição no canto da sala, ao invés de seu pai, quem respondeu à pergunta.

— Isso foi meio rude, Srta. Sinclair — rosnou Killato, seu olhar cheio de uma intensidade sexual quando se virou para olhá-la com raiva.

Cassandra se levantou da cadeira em que sentava, uma altura bem falsa de um e setenta, graças ao saltos que usava. Elegantemente graciosa, vestida em uma calça soltinha branca e uma blusa também branca estilo colete que revelava um pouco do decote, ela se aproximou do grupo, inteiramente confortável nos saltos de dez centímetros que usava.

Cassandra deu uma risadinha ritmada.

— Sua ganância não lhe cai muito bem, Dylan — ela murmurou ao caminhar para se pôr de lado do pai. — Nem a sua necessidade de usar a Srta. O’Sullivan e a família dela para os seus propósitos.

— Algo que vocês não tem intenção alguma de fazer? — Killato mostrou os dentes para ela em uma óbvia exibição de superioridade primitiva.

Aquilo lhe ganhou nada menos que três olhares furiosos.

— O que isso nos traria? — Cassandra deu com os delicados ombros. — Como Assistente-Chefe de Polícia, o Sr. O’Sullivan não possui nada que possa beneficiar ou aos bandos ou as matilhas da América. Suas conexões não nos afetam. Nossos times foram os responsáveis pela captura do avô dela, Walter O’Sullivan, o Supervisor responsável por muitos dos laboratórios aqui na Europa, quando ele desapareceu depois que sua verdadeira identidade foi revelada, então não precisamos usá-la com essa finalidade. E as nossas leis proíbem, de qualquer maneira, a iniciação forçada de qualquer Casta em um estudo científico, coisas que as suas leis europeias não proíbem. Não é de se admirar que os Castas que se espalharam pela Grã-Bretanha e Irlanda se recusem a acatar as suas exigências para que se revelem.

Esse era o pesadelo de Katie. Seu pai já tinha que preencher incontáveis pedidos de adiamentos para os mandados científicos que a forçariam a entrar numa instalação de estudos Castas por um período não menor do que um ano, mas não maior que cinco.

Quando os Castas desapareciam detrás das paredes daquelas instalações de pesquisa, raramente saíam os mesmos, foi o que leu.

— Como sou um benefício para vocês, então? — Katie perguntou a ela, mais inclinada a acreditar naquela jovem do que em qualquer um dos homens sentados à sua frente.

— Garantindo que não sejamos forçados a resgatá-la de uma dessas instalações como fomos forçados a resgatar tantos outros — ela declarou sem hesitação, seus olhos azuis brilhantes na tez de um pêssego cremoso que os rodeava. — A Agência de Assuntos dos Castas já está lidando com mais de doze exigências oficiais de restituição, bem como de extradição de Castas que deixaram a Europa ou foram resgatados de instalações científicas cujos experimentos desumanos o país de vocês alega não ter conhecimento, apesar de financiá-los.

Aquilo não era nada além da verdade. Seu pai, Barret O’Sullivan, fechou tais instalações e foi sumariamente repreendido publicamente e profissionalmente por não fazer mais na busca e identificação dos Castas escondidos na Irlanda, e forçando o ano mandatório de investigação imposto aos Castas da Europa há alguns anos atrás.

Até Dylan não podia rebater a declaração de Cassandra, embora Katie visse a sua furiosa necessidade de fazer exatamente isso.

— Katie, eles não a deixarão em paz — prometeu Cassandra baixinho quando apontou para a porta e para o murmúrio dos jornalistas na rua. — A posição do seu pai não pode salvá-la dos experimentos obrigatórios, e não importa o que Dylan alegue, ele não pode escondê-la disso. Em menos de quarenta e oito horas você se tornará uma sensação mundial pelo simples fato de que, apesar dos testes avançados que identificam Castas, você passou por cada fase que os países europeus ordenam que cada criança adotada seja admitida, sem levar em conta a idade. Passou em cada teste de separação de DNA dos nove até a sua verdadeira genética explodir no mês passado.

— Explodir— Nossa, que escolha de palavra.

Sua genética explodiu foi o seu traseiro. Uma febre de quarenta e um graus deveria tê-la matado. Ela ficou deitada quase em estado comatoso por vinte e quatro horas antes de começar a ter convulsões tão violentas que seu noivo a levou correndo para a emergência, onde os médicos perceberam que estavam lidando com um fenômeno só comentado há quinze anos desde a revelação dos Castas.

Combustão genética. Um despertar repentino e “ardente” da genética Casta antes escondida depois de uma vida inteira de dormência do DNA Casta que possuía.

Bem, ele não estava mais inativo.

— A comunidade Casta Felina do Santuário, bem como todas as comunidades Castas Lobos de Haven e Avalon, e os Bandos Coiotes de Del-Rey da Base lhe oferecem refúgio, Srta. Sullivan — falou novamente Dash Sinclair, o olhar prendendo o seu outra vez com a compaixão e a integridade pela qual todos aqueles homens eram conhecidos.

— A proteção deles excede bem mais a que posso lhe oferecer, Katie — Dylan suspirou, frustração evidente em sua voz. — Até que os Castas europeus se transformem na força que os da América têm, simplesmente não teremos o mesmo poder. Mas ofereço a você o pouco que temos, e eu a protegeria, bem como o seu direito à liberdade com a minha própria vida — jurou Killato com sinceridade.

Naquele momento, ela sabia que ele faria exatamente aquilo. Pela razão que fosse, egoísta ou altruísta, Dylan teria feito todo o possível para escondê-la. Se não pudesse, então morreria a defendendo.

Katie levantou o olhar para o de Cassandra mais uma vez.

— Estou com medo — finalmente admitiu, forçada a lutar contra as lágrimas e o terror que cresciam dentro dela.

Pelo canto do olho ela viu as lágrimas caírem dos olhos de sua mãe quando ela se apressou para ocultá-las. Viu o seu pai forte e orgulhoso engolir em seco de forma convulsiva enquanto fitava o teto, piscando furiosamente com a sua confissão.

Podia sentir a pele repuxando, os músculos ficando tensos como se guerreassem entre si. Sentimentos eram extremos demais, emoções de outras pessoas às vezes lhe bombardeavam, e o sentimento de traição que sentia por seus pais terem guardado aquele segredo terrível dela lhe rasgava por dentro.

Sempre tinha se perguntado por que não conseguia se lembrar de sua vida antes de acordar na casa dos seus pais “adotivos”. A amnésia era o resultado de um medicamento que lhe deram no dia em que o laboratório onde vivia foi atacado. A enfermeira que lhe havia administrado a droga o fez caso a criança Casta pela qual era responsável fosse resgatada. Era uma prática comum nos laboratórios europeus, ela ficou sabendo, injetar nas crianças possíveis de serem resgatadas com drogas que causavam amnésia e que geralmente faziam com que Castas mais velhos retornasse ao estado primitivo. Os cientistas genéticos esperavam garantir que esses Castas jovens tivessem menores chances de serem adotados por humanos.

— Katie, jovem — seu pai sussurrou quando sua mãe cobriu os lábios trêmulos com os dedos. — Eu daria a minha vida pelo seu perdão se não tivesse tanto medo de que você venha a precisar de mim mais na frente.

— E acha que é a sua vida que eu quero, Pai? — ela exigiu, a raiva e as lágrimas presas em seu peito quando o fitou de um modo desesperado. Odiava a raiva que sentia. Odiava o sentimento de pavor e traição que a assaltavam. — O quanto a minha existência poderia ficar pior se pressentisse que você ou a mamãe estavam fazendo uma coisa dessas?

Ele sacudiu sua cabeça de cabelos escuros e grisalhos enquanto os dedos da sua mãe apertaram o braço dele que descansava em sua perna.

— Estamos apavorados por você. — protestou sua mãe.

— Então esconderam o que eu sou, até mesmo de mim, sem se importarem o quanto eu perguntava sobre a infância que não lembrava — ela os lembrou. — A única pessoa que devia ter sido preparada para isso foi a que mais se surpreendeu. Se eu soubesse, mãe, nunca teria deixado que Douglas me levasse à emergência. Teria ligado para você ou para o Pa no momento em que passei mal e não me sentiria como se todos em quem confiava se importassem mais com os segredos que guardavam do que com o bem-estar do próprio segredo em si.

Não podia continuar ali. Não conseguia mais olhar nos olhos cheios de dor de seu pai nem ver as lágrimas que enchiam o olhar de sua mãe.

Cada vez que o fazia, aquela batalha travada em seu corpo parecia se intensificar a ponto dela querer rasgar a própria pele e arrancar dos ossos os músculos que se contraíam e trincavam debaixo da sua pele como se tentassem se reajustar, ou de algum modo desaparecerem.

Ela se levantou lentamente, o olhar preso ao de Dash Sinclair.

— Sr. Sinclair...

— Abaixem-se! — Cassie gritou de repente.

Castas reagiram antes que a palavra fosse totalmente formada.

Dash Sinclair tirou a filha de trás de sua cadeira e a empurrou debaixo da mesa seguindo-a no chão. Jonas Wyatt rolou por cima da mesa tão rapidamente que foi um borrão antes de derrubar Katie no chão, enquanto Wolfe Gunnar e Gylan Killato fizeram o mesmo com seus pais. Uma leva de disparos de arma automática cortaram a sala levando pedaços de madeira e argamassa da casa antiga que estava na família de seu pai há quase quinhentos anos.

Sirenes soavam à distância, e os disparos atravessaram a sala novamente enquanto gritos de choque e medo podiam ser ouvidos dos jornalistas do lado de fora.

— É isso que quer? — Jonas de repente chiou em seu ouvido. — Não importa aonde vá ou o que faça, a não ser que deixe a Europa, seu pai tentará te proteger até que leve um tiro destinado a você. E eu te prometo, isso será mais cedo do que pensa. Agora, fique onde está.

Ele saiu de cima dela de repente, empurrou-a na direção de Dylan e dos seus pais enquanto ignorava o rosnado furioso do líder do bando chamando o seu nome e saiu correndo da sala.

— O bastardo vai acabar se matando — disparou Dylan quando todos se aglomeraram debaixo da enorme mesa de jantar que a família de sua mãe manteve impecável desde a segunda década do século passado.

Agora a madeira estava cheia de buracos, sem dúvida das balas que passaram de raspão pela tampa.

— É mais provável que outra pessoa perca a garganta — suspirou Callan. — Não é com Jonas que estou preocupado, e sim com a presa que ele está caçando. — Olhos ambarinos se prenderam aos dela. — Prepare-se, estamos prestes a sermos levados daqui.

Quando ele ainda falava, a porta da sala voou e Castas começaram a entrar.

Castas americanos.

Fortes, silenciosos, não houve gritos de ordem nem códigos berrados ao seu redor. Ela foi retirada do chão, os braços enfiados numa vestimenta pesada e protetora enquanto os corpos que a cercavam a levaram correndo da casa do seu pai até um carro que aguardava no precioso jardim traseiro da sua mãe.

A cerca que rodeava os fundos da casa foi simplesmente derrubada pela meia dúzia de carros que havia ali. Castas armados, com olhos duros e rostos selvagens estavam tensos e prontos, armas a postos.

Eles foram passando como um borrão quando Katie foi colocada no assoalho de trás de um Dragoon Elite blindado, um utilitário rebaixado construído para fornecer agilidade e velocidade em áreas mais populosas. De maneira bem distante ela se lembrou de que esse modelo foi o que substituiu o Dragoon Seargents que seu pai deixava na garagem da propriedade rural dos O’Sullivan que ficava nos arredores de Dublin.

— Transporte três em rota. — Baixa, segura de si e confiante, a voz sombria e desconhecida acima dela fez com que virasse o pescoço para tentar identificar a quem pertencia.

Infelizmente, ele estava quase que deitado em cima dela, o que a impedia de se virar o suficiente para ver muita coisa.

— Afirmativo, transporte três — respondeu uma voz. — Helicóptero preparado e a caminho. Tempo estimado de chegada: trinta.

Trinta o quê? Minutos? Horas? O que diabos significava aquilo?

— Transporte três desligando agora. Atualização em cento e trinta.

Cento e trinta horas?

— Sai de cima de mim! — ela exigiu, tentando levantar o cotovelo. — Está me sufocando!

— É melhor que a alternativa. — O rosnado do homem acima dela não lhe trouxe conforto.

Era brusco, quase incompleto. A voz dele era baixa, grossa, enviando arrepios pelas suas costas quando os músculos altamente ativos sob a sua pele agruparam-se ainda mais, com mais força, determinados a atravessar seus ossos, sua pele e saborearem o calor acima dela.

A resposta foi imediata, assustadora e dolorosa.

Nossa, se ficasse mais quente, ia derreter no assoalho do Dragoon.

O veículo deveria ter a temperatura controlada para mais de quinze metros debaixo d’água. No momento, contudo, estava uma sauna.

Mas o calor não vinha do chão. Vinha do macho Casta em cima dela. Penetrava na sua carne, inundava seu organismo e cerrou os dentes com uma excitação sexual tão ardente e repentina que mal conseguia conter sua necessidade.

A necessidade sexual.

A necessidade de ter aquelas mãos grandes e firmes puxando seu vestido acima do bumbum, apertando seu quadril e enterrando-se dentro dela numa investida forte, profunda e dolorida.

Queria tudo dele ao mesmo tempo.

Sua vagina apertou, ondeando com ânsia. Ela doía, corada de calor e exigindo ser possuída.

Queria-o.

Queria ser tocada.

Possuída.

Oh, Deus, queria que a fodesse e queria isso agora antes de fosse forçada a gritar com uma necessidade tão dolorosa que a matava de medo.

Aterrorizava.

Porque iria exigir. Seus lábios estavam se abrindo, um grito se formando em sua garganta quando ele de repente se levantou o bastante para colocá-la de costas antes de enfiar as coxas entre as suas, o comprimento ereto do pênis apertando o seu sexo quando os dedos cobriram seus lábios.

— Não estamos sozinhos — ele mexeu a boca sem emitir som e os olhos dela se arregalaram cheios de terror. — E não é hora para isso.

Claro que não era.

A hora jamais viria.

Ele era o Diabo. O Diabo da Morte7 dos Castas e tinha vindo para levá-la e garantir que nunca mais se tornasse um perigo para a espécie.

Todos tinham mentido para ela. Era uma fraqueza. Um segredo que eles não queriam arriscar. Sabia disso agora.

Sabia disso, porque o Casta prendendo-a ao chão com a força do seu quadril e com o seu membro altamente excitado não era um amante potencial.

Era um assassino.

Ele era o Diabo, e não teria outra razão para estar ali a não ser...

Para matá-la.



Capítulo 2

Terror.


Raiva.

Injustiça.

Fascinação.

Tantas emoções.

Katie não conseguia sentir apenas uma delas, nem descobrir qual era a maior. Mas o inequívoco arrependimento, ela finalmente percebeu, era o sentimento que parecia martelar sua mente com mais força.

Por que o seu corpo escolheu aquele momento, aquele homem, para se tornar sexual? Ela tinha vinte e três anos e sempre reprimiu por tantos anos a sua sexualidade, bem como seu coração, por serem incapazes de reagirem ao sexo oposto como as outras mulheres reagiam.

Tinha namorado alguns homens. Tentado forçar uma necessidade, uma excitação pelos caras mais atraentes que conheceu, sabendo que eram potenciais amantes, mas nunca teve interesse suficiente para de fato levar algum para a cama. Nem mesmo Douglas, o noivo que havia lhe informado que não tinha intenção de permitir que os genes Castas passassem para qualquer criança que ele trouxesse a esse mundo.

Ele tirou o anel de noivado do seu dedo quando ela estava fraca demais para protestar, mesmo que quisesse, e foi embora sem nem dizer adeus. Mas em seu olhar ela viu o asco puro que ele sentia só em pensar nela.

Agora, no meio de uma tentativa de fuga de uma situação que ela não entendia, aquela sexualidade foi ativada com força total por um Casta conhecido por ser visto apenas quando alguém se mostrasse uma desvantagem tão grande para a comunidade Casta que já estava marcado para o extermínio.

Extermínio.

Como se ela não fosse um ser humano...

Ah, é, ela não era humana, pensou meio histérica.

Não era humana, não era um animal. Era uma Casta.

Era algo no meio, e isso não era uma coisa que esperava.

Por que os líderes dos Castas, os mesmos que sentaram na sala de estar do seu pai há tão pouco tempo atrás e aparentaram tanta compaixão, a tinham marcado para morrer?

— Por quê? — ela sussurrou, precisando saber, entender o motivo de precisar morrer pelas mãos daquele homem quando preferia muito mais ser acariciada por elas.

O sorriso duro e selvagem que repuxou os lábios dele foi acompanhado de um vislumbre de uma luxúria ardente nos olhos com pintinhas ambarinas de uma cor estranha que a olhavam.

— Ordens, bebê. — Um arrepio correu pelo seu corpo devido a rouquidão daquela voz.

Ordens? Simplesmente por que foi ordenado?

Ele a mataria apesar do fato de estar mais duro que o aço e pegando fogo entre suas coxas, o membro ereto pressionado com firmeza em seu sexo.

Ele a mataria apesar do fato de ser o único homem que já fez o seu corpo ficar quente e lubrificado?

— Droga — sussurrou. — Isso é foda.


* * *
Por que diabos ela achava que ele estava ali? Devil se perguntou. Inferno, não foi ela mesmo quem solicitou asilo enquanto seu avô, Walter O’Sullivan estava sob investigação por ter supervisionado um dos laboratórios de Castas mais conhecido da Irlanda? Inferno, foram até os próprios Castas que conseguiram localizá-lo. Depois, assim que ele desapareceu, foram os Castas que o acharam novamente, e o colocaram sob custódia.

Não foi como se tivesse se voluntariado para o serviço.

Com toda certeza não era como se quisesse estar ali, naquele momento, com o corpo tão tenso, o pau tão duro, não acreditando que ainda tivesse a capacidade de respirar.

Será que tinha mesmo?

Sentia-se tonto, como se não pudesse absorver o oxigênio suficiente, não pudesse convencer seu corpo de sorver o ar.

O que diabos ela estava fazendo?

Tentando tirá-lo de cima?

Antes que pudesse empurrar seu peito outra vez com suas mãozinhas gostosas, ele pegou seus dois pulsos numa mão só e os prendeu acima de sua cabeça no piso com firmeza.

Inferno, não, ela não ia tirá-lo de cima. Ele gostava bastante da posição em que estavam. Com suas belas pernas abertas, as coxas apertando o seu quadril como se não tivesse intenção de soltá-lo, enquanto sua boceta quentinha estava colada o máximo que conseguia em seu pau.

Maldição, ela também era bonita. As fotos que viu na noite anterior não tinham lhe feito justiça.

Esqueça bonita, ela era maravilhosa.

Carne de um branco puro com o mínimo de sardas espalhadas por aquelas maçãs do rosto tão altas e aristocráticas. Olhos da cor de esmeraldas lhe piscavam em confusão e dor. Olhos irlandeses. Lindos olhos irlandeses. Os mais lindos que já viu na vida.

E já viu muitos deles.

— Você não tem que… — ela não conseguiu mais falar, os cílios piscando quando ele escolheu aquele momento para se esfregar nela, para sentir o líquido morno por entre a barreira da calcinha dela e da sua calça.

Ele acabaria fodendo-a bem ali se ela não tivesse cuidado, apesar do fato do motorista deles, Flint McCain, fosse ouvir cada ofego faminto e pedinte que tirasse dela.

— Ordens. É tudo culpa sua, maldição. — Culpa dela que estivesse mais excitado do que nunca, e culpa dela que estivessem a menos de um segundo de transarem até gozarem.

— Minha culpa? — O ultraje de mulher e o cheiro de uma ânsia o cercaram. — Como isso é culpa minha?

Ela agia como se nunca tivesse pedido ajuda à Rede de Proteção Casta para fugir da Irlanda e encontrar um lugar seguro para ficar escondida até que o furor se acalmasse um pouco.

— Bem, com toda certeza não é minha — Devil rosnou para ela, se perguntando se conseguiria se afastar caso se permitisse baixar a cabeça e beijar aqueles lábios lindos em formato de biquinho. Porque era isso mesmo que queria fazer.

— Bem, é você quem vai fazer o serviço! — Narinas pequeninas se dilataram, e uma pista daquelas covinhas fofas que ele viu nas fotos desapareceu completamente quando ela lhe franziu o cenho.

Nas fotos que viu ela tinha covinhas.

— Foi você quem pediu — rosnou para ela, incapaz de resistir de usar a mão livre para deslizar pelo seu corpo, agarrar a curva redonda do seu traseiro e segurá-la onde estava.

— Eu? — Ela o fitou surpresa por um segundo antes de começar a entender. — Espere, você é da Agência de Proteção Casta?

Lobo o enviou para resgatar uma louca?

Estava começando a pensar que o homem deve ter feito exatamente isso, porque agora o olhava como se tivesse pensado em algo totalmente diferente até aquele momento.

— Por que diabos achou que estivesse aqui?

Ela piscou antes que aqueles olhos esmeraldas escurecessem com incerteza. — Você é o Diabo. Só vem atrás de Castas marcados para morrer. Certo?

Inferno.

Às vezes, ter uma fama de assassino podia ser uma tremenda inconveniência.

— Não vou te matar. — A não ser que a acabe matando de tanto fodê-la.

Contanto que não fosse uma ameaça, pessoalmente, aos Reevers... e àqueles que jurou proteger. Duvidava que ela representasse uma ameaça a algo ou a alguém, muito menos à família a quem jurou lealdade.

Ela baixou os olhos para onde estavam colados, perdendo o fôlego ao se focar naquela área.

Seu aroma o envolveu. Uma pitada de fascinação, cautela, mas também de algo muito maior... algo que não gostava nem um pouco.

O cheiro delicioso de pura excitação do fluido feminino que escorria de dentro do seu corpo.

Doce, com um toque de especiarias. Limpo, com um frescor tentador que o fazia se perguntar se já foi tocada por outro homem.

Claro, não havia Casta fêmea virgem naquela idade. Infelizmente, a maioria das fêmeas perdia aquela inocência muito antes de terem idade suficiente para entender.

Ao pensar nisso, ele percebeu que ela não havia respondido à sua declaração de que não tinha intenção de matá-la. Ao invés disso, seu olhar estava focado nos lábios dele, do mesmo jeito que o dele nos dela. O verde-esmeralda escureceu mais, as pupilas dilatando quando ele baixou a cabeça, aproximando lentamente os lábios dos dela.

* * *
Ele ia beijá-la.

Katie já conseguia ver o beijo.

Adrenalina corria pelo seu corpo, a vontade de esfregar o quadril no dele, de sentir a aspereza do jeans raspando a renda de sua calcinha era devastadora.

E ela queria o beijo. Queria tão desesperadamente que o gosto selvagem e tempestuoso que imaginava que ele teria começou a provocar os seus sentidos incessantemente.

— Chefe, estamos nos dirigindo ao ponto de resgate primário e o helicóptero está pousando — o Casta levando o utilitário em alta velocidade até o ponto “primário”, onde quer que ele ficava, informou a Devil de modo imperativo. — Ainda temos dois veículos no nosso rastro e várias câmeras penduradas nas janelas.

Devil fez uma careta quando uma raiva latente brilhou em seus olhos.

— Nos leve o mais perto possível da entrada — rosnou, levantando a cabeça para olhar com raiva para o Casta que ousou interrompê-los.

Então ele se moveu. Ignorando a arfada que ela deu quando ele se levantou de cima do seu corpo antes de colocá-la rapidamente em posição sentada no assoalho do veículo.

— Prepare-se para correr. — Tensa, curta e fria, sua voz não fez nada para diluir a excitação que sentia.



Preparar-me para correr?

Ela olhou para a frente deles quando o enorme helicóptero preto parecido com uma ave de rapina pousava no solo enquanto o Dragoon avançava. Virando-se para olhar detrás deles, ela fez uma careta quando viu os utilitários que os seguiam de perto.

Se conseguissem entrar no helicóptero antes que as câmeras que estavam acopladas nos tetos dos carros e controladas por controle remoto pelos fotógrafos dentro dos veículos conseguissem focá-los, teriam uma sorte e tanto.

— Coloque isso. — Um tecido preto foi colocado de repente por cima da sua cabeça.

— O que está fazendo? — Por um segundo, o mundo ficou escuro até Devil rapidamente ajeitar o pano e colocar as fendas dos olhos no lugar certo.

Seu cabelo foi enfiado dentro da gola do seu vestido, um tecido preto envolvendo seus ombros quando fitou a máscara negra que ele também usava agora.

— Três veículos partiram ao mesmo tempo e os passageiros foram pegos por um helicóptero em três localizações diferentes, todos mascarados antes de entrarem no helicóptero. — Os lábios dele se curvaram debaixo do tecido sedoso. — Está prestes a se livrar desses caras, bolinho. Prepare-se para correr.

* * *

— Preparem-se! — Gritou Flint quando levantou uma mão do volante tempo suficiente para enfiar a máscara na cabeça.

Devil passou um braço em volta da sua encomenda, a mão livre segurando a alça de segurança acima quando o Casta deu um giro repentino com o carro, deslizando de lado até que o lado do passageiro quase beijou o helicóptero que esperava por eles.

As portas foram abertas pelos Castas que corriam da aeronave, e quando ele levantou e empurrou Mary Katherine rapidamente nos braços deles, se perguntou exatamente o que devia fazer agora.

Ela era a coisa mais doce que já cheirou. A fome mais pura que nunca o tocou. Doce e igualmente tentadora, ela o atraía a um nível que nem sabia que existia. Um nível tão primitivo que só o que queria era marcá-la de vez.

Marcar o seu corpo delicado com o toque, reivindicar o doce calor da sua boceta. Meter-se dentro dela, bem fundo, com força, inteiro, até que ela gritasse por piedade. Até que gritasse seu orgasmo.

E, ele percebeu, muito pouca coisa existia além dessa vontade.

O que também a tornava extremamente perigosa.

Rancho Reever
Cassandra Sinclair levantou os olhos dos papéis que lentamente memorizava e olhou em volta da sala. O que tinha lhe perturbado? Raramente algo conseguia afastá-la da pesquisa que fazia na Legislação Casta, especialmente quando confrontadas com as perguntas que as leis do acasalamento nunca deixavam de gerar. Se não preparasse o argumento exato, usando a estrutura de frase certa, então algum advogado sabichão, provavelmente advogada, acabaria fazendo pedacinhos dela a certo ponto. Os Castas contavam com ela para que racionalizasse e explicasse a lei Casta, mesmo que justificasse ações baseadas no surgir do calor do acasalamento, sem na realidade deixar que alguém suspeitasse o que o calor do acasalamento significava. Ah, sim, as tribulações e os problemas de completar a linguagem começaram no Direito à Liberdade dos Castas que originariamente virou lei. E agora, algo estava causando ainda mais dificuldade que o normal para formar esses argumentos. Levantando-se da cadeira, ela foi até as portas da varanda, abriu-as e saiu.

Aquele era o motivo.

Parando, olhou lentamente em volta, maravilhando-se em silêncio com a beleza da paisagem desértica à sua frente. Então seu olhar parou na colina à distância.

Lanças de pedra que pareciam ter sido enfiadas no solo do deserto juntavam-se e miravam o céu. Era ali onde o problema se escondia.

Ele estava ali, escondido. Esperando.

Podia senti-lo.

Estava lá a observando, esperando por ela, certo de que sua hora viria.

Sombreada, de largura e altura imensas, a rocha não era exatamente uma montanha, mas ainda assim, era mais do que um morro, como ouvia os outros chamá-la. Era ali que ele se escondia.

A mira do seu rifle estava apontada para ela, embora nunca a distanciasse de seu rosto.

Podia sentir seus olhos a observando, tentando enganá-la. Ele tinha toda intenção de vir atrás dela. Em breve. Só não agora.

Mas podia sentir sua determinação. Ela pairava pesada no ar ao seu redor, garantindo-lhe que ele ainda estava lá.

Já estava com ela há mais de um ano. Não importava para onde viajasse, o quanto tentasse se esconder, podia senti-lo lá fora em algum lugar, se não a vigiando, então procurando por ela. Desde o dia que o desafiou a puxar aquele maldito gatilho, ele a seguia. Como se o simples fato de desafiá-lo o fizesse hesitar em puxar o gatilho e se dar ao tempo de tentar desvendar alguma coisa a seu respeito.

O quê?

E sempre, eram as miras de suas armas que ela sentia acariciarem seu rosto.



Ele a mataria? Era essa a razão para observar, esperar, o motivo de manter a mira sempre nela?

— Cassandra, minha querida, você olha fixamente o céu noturno como quem espera por um amante.

Ela sobressaltou-se, os olhos se arregalando quando Dane Vanderale, o Casta híbrido filho de um que chamavam do Primeiro Leo, apoiou as costas na parede de tijolos da varanda, colocou um cigarro fino nos lábios e o acendeu preguiçosamente, o olhar treinado em seu rosto, avaliando, sempre curioso.

Pelo mais breve segundo, a luz do fósforo criou sombras nos contornos duros e selvagens de sua expressão e fez o verde-esmeralda dos seus olhos brilhar com pontinhos de luz avermelhada.

Ele era um Casta Leão no meio de um pequeno Bando de Lobos escondidos no deserto do Novo México, e parecia tão confortável e à vontade como estava na sala de estar da casa dos seus pais nas protegidas selvas do Congo.

— Dane, você é muito sorrateiro — disse-lhe quando ele sacudiu rápido o pulso para apagar o fósforo.

— Aqueles de nós que se escondem nas sombras para observarem aqueles que também preferem se esconder aprendem bem o valor da capacidade de sumir e aparecer com eficácia — ele disse baixinho. — Mas realmente me pergunto, por que, minha querida, você provoca as miras de arma que até eu posso sentir acariciando a sua bonita cabecinha?

Ele podia questioná-la, mas não parecia muito preocupado com o fato. Na verdade, parecia mais achar divertido.

Ela girou os olhos.

— Sempre se diverte com as particularidades do resto dos mortais ou só com as minhas? — Sua voz nem chegou a tremer, garantiu isso. Virou-se completamente para descansar as costas no parapeito que cercava a varanda.

— Eu espalho a minha diversão — ele a informou. — Pareço sempre tentado pelas ações daqueles que admitem a mortalidade. Realmente não consigo evitar. Agora, por que não me diverte mais um pouco e satisfaz a minha curiosidade?

Ela deu de ombros. Gostava de Dane, apesar do seu sarcasmo e cinismo aparentes.

— Quem disse que tenho medo dele? — perguntou ao invés de respondê-lo. — Pareço preocupada?

Ela podia sentir muitas coisas, mas no momento, medo não era uma delas.

— Ah, você espera por ele. — Dane assentiu lentamente em seguida, como se estivesse falando sério. Quem não o conhecesse não teria notado a zombaria que quase repuxava seus lábios. — Se é assim, então por que ele não vem atrás de você?

E agora ele estava provocando-a.

— Eu não sei. Nem me importo. — Frustração enchia sua voz agora. O bastardo estava lhe deixando louca.

— Talvez ele saiba que não é bom o bastante para você. — Ele mesmo fitou a escuridão quando baixou a voz, o sotaque da África do Sul que a maioria das mulheres achava tão charmoso provocando pouco impacto nela.

— Por que acharia isso? Lembre-se que é a mira da arma dele que eu sinto, Dane, não a carícia da sua mão. Ele não faz sentido.

Ela duvidava que ele sentisse a necessidade de tocá-la. Afinal, ele simplesmente a observava, tirava fotos ocasionalmente, mas nunca realmente tentou feri-la.

— Ah, minha querida, com toda a sua simplicidade, os homens podem ser mais complicados que animais.

— E eu achava que nós mulheres é que tínhamos esse título. — ela o contradisse com facilidade.

— As mulheres são as mais complicadas de todas as criaturas, não importa a raça ou espécie — ele respondeu. — Machos Castas, porém, e seus homólogos humanos, são os mais complicados dos animais. Nunca ousaria chamar alguém tão linda quanto você de animal.

— Ainda que eu fosse uma criatura ao invés de um animal, não faria sentido me observar do jeito que ele observa.

Para matá-la?

Ou ele tinha outros planos? Planos que Cassie temia que a destruíssem, sua família ou os Castas que lutava para proteger.

— Venha, minha querida — Dane a encorajou. — Volte para dentro antes que as sombras a cerquem e a prendam para sempre.

Para sempre? Duvidava disso.

Não teria tanta sorte.

— Dane, você já se perguntou se talvez nem todos os Castas tenham realmente um companheiro escolhido para eles? — ela perguntou enquanto ele a acompanhava de volta ao seu quarto, parando quando ele fechou as portas da varanda e virou-se lentamente para ela.

Ele realmente era muito bonito, pensou. Bem mais velho do que aparentava; pelo menos uns sessenta, ouviu alguns sussurros nos últimos anos, embora ele se recusasse a contar a alguém sua verdadeira idade.

Com a cabeça de cabelos loiros escuros inclinada de lado, olhos verdes também escuros e manchinhas ambarinas que mal eram visíveis e agora brilhavam na íris.

— Acredito que existe um companheiro perfeito para cada Casta, quer seja nascido naturalmente ou criado. — ele finalmente respondeu baixinho quando se inclinou de um jeito indolente na parede, deslizando as mãos nos bolsos da calça parda que usava. — O que a faria perguntar uma coisa dessas, Cassie?

Ela deu de ombros. Nem sempre era fácil explicar os seus próprios sentimentos, seus próprios medos.

Ela era uma Casta, uma tri-espécie, ouvia a chamarem.

Humano, Lobo e ainda o temido Coiote. O DNA Coiote era o que mais temia, bem como suspeitava que seus pais temiam. Como a maioria dos Castas temiam. Todos pareciam temer. Podia sentir. Às vezes, Deus, poderia até mesmo cheirar o medo deles.

— Com certeza não está com medo que esse futuro não seja para você. — O sotaque sul-africano era quase hipnótico. Cassie muitas vezes se via se concentrando em sua cadência, ao invés de no significado por trás das perguntas que lhe fazia.

— Pode ser difícil. — Enfiando as mãos nos bolsos de trás do jeans, ela foi até a janela enorme e espelhada da sacada do outro lado do seu quarto e fitou o lugar onde sabia que seu assassino se escondia. — Eu não sou humana, nem uma Casta Loba ou Coiote. Até agora nenhum Casta se acasalou com alguém de fora de sua espécie com exceção dos que estão com humanos. Não torna um pouco difícil para eu encontrar um companheiro?

Ele a observava de perto. Muito de perto.

Ele tinha esse hábito. Dane não era um homem do qual se podia esconder muita coisa. Nem era um homem que alguém fosse querer tentar mentir ou enganar de alguma forma.

Ele poderia ser um inimigo brutal.

— O que os seus guias lhe dizem, Cassie? — ele perguntou com suavidade, a questão fazendo com que congelasse quando um calafrio forte desceu pela sua espinha.

Dane era a única pessoa que alguma vez já reconheceu que mais do que apenas intuição havia lhe guiado ao longo dos anos.

Como ele podia saber? Podia mesmo? Podia sentir aquela bela e antes confortável presença que a seguiu pela vida e que agora a abandonou?

Ela se virou devagar para ele, seus olhares se prendendo quando fitou o Casta que ninguém conseguia ler, nem mesmo o mais intuitivo de suas espécies. Até mesmo ela, a que parecia atrair os demônios internos e os espíritos violados dos Castas dos lugares em que se escondiam, nunca convenceu o espírito protetor que sempre pairava perto dele a se revelar. Nem a revelar os seus segredos.

— Ela não me visita mais como visitava. — Cassie finalmente admitiu.

— E você ainda não tem confiança suficiente em si mesma para usar o que ela te ensinou. — Ele assentiu.

Cassiu só conseguiu sacudir a cabeça. Seu pai tinha lhe feito aquela mesma pergunta.

Talvez ela simplesmente não tenha sido inteligente o suficiente para aprender.

Enquanto considerava o assunto, uma breve batida em sua porta fez com que se virasse do híbrido para olhar a barreira antes de se voltar outra vez para Dane.

Um sorriso curvava os seus lábios.

Em um piscar de olhos, ele foi embora.

De volta ao seu quarto, sem dúvida, onde não hesitava em palpitar que ele ficava planejando dominar o mundo. E se planejasse, conseguiria.

Exalando o ar de forma cansada, ela respondeu as batidas com um breve:

— Sim?

A porta abriu alguns centímetros quando uma das empregadas dos Reevers espiou dentro.



— Senhora, seu pai e o Sr. Reever pediu que lhe dissesse que o Sr. Reever está colocando bifes e costelas na grelha para o jantar. Ele disse que a senhora gosta muito.

A morena alta e rechonchuda a observava com cautela. O cheiro do medo da mulher fez com que o único sentimento que Cassie sentisse fosse arrependimento. Não doía tanto quanto antes.

— Já descerei. — informou à mulher.

A empregada assentiu, e fechou a porta, e Cassie pôde senti-la se afastando lentamente do quarto. Se fechasse os olhos, Cassie pensou, então sentiria muito mais que aquilo por parte da empregada. Não só seus medos, mas seus ódios, sua presunção, seu orgulho...

Cassie não fechou os olhos. Simplesmente não queria saber.



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