A mulher que inventou metade das coisas sensíveis



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#32902
A mulher que inventou metade das coisas sensíveis

Valter Hugo Mãe

A Matilde Rosa Araújo inventou, sozinha, metade das coisas sensíveis do mundo. A outra metade, por definição, já havia sido inventada pela natureza. Num certo sentido, a Matilde Rosa Araújo e a natureza são uma completude, assim entendidas pelo lado mais belo possível, como unidas profundamente e de igual modo propensas à maravilha.

Acredito que quem não aprendeu as histórias e os poemas pela mão desta autora, aprendeu pior o que são as histórias e os poemas. A sua delicada benignidade poucas vezes atende outros autores com a mesma perfeição.

Inventei um dia uma personagem cujos cabelos brancos faziam com que se pusesse entre as crianças como um candeeiro aceso. Lembro-me de pensar em como a Matilde Rosa Araújo era dona dessa luz intensa, igual à personagem, um bocado de sol a entrar para dentro das casas que regressava qualquer pessoa a criança. Ela sorria, como se o sol pudesse sorrir, e incidia sobre nós. Acreditem se forem capazes, incidia sobre nós já sem precisar de mais nada para nos impressionar. Eu nunca esquecerei tal sensação.

Tive um sonho no qual alguém me dizia que, sem ela, ia ficar o mundo incapaz de fazer a luz pura, a mais clara, como se a sombra ganhasse terreno e os olhos de toda agente empobrecessem. Foi, na verdade, um pesadelo. E creio que passei a noite inteira numa angústia a ver se encontrava uma forma de pacificar essa completude que parecia perdida, a completude feita entre uma mulher especial e a natureza inteira. Depois, quando acordei, percebi. Estava a claridade toda nos livros, como se abertos pudessem ser os candeeiros acesos, incidindo sempre sobre nós. Sorri. Quando acordei nessa manhã, já eu nos trinta e oito anos de vida, era outra vez apenas um menino, regressado a ser menino porque aprender nunca acaba e o amor mais genuíno fica sempre. Fui abrir-lhe os livros a ver como estavam cândidos, como são cândidos. Pensei na candura e achei que fora feita há milhões de anos para chegar ao tempo da Matilde Rosa Araújo e com ela se consumar definitivamente. Era a candura toda, como toda reunida numa só pessoa por tremenda magia.

As coisas mais apaixonadas surgem-me ao pensamento quando quero falar ou escrever sobre ela. Misturadas com os seus versos, com os seus modos cristalinos de contar, as minhas ideias já são sobretudo uma ternura por ela, essa saudade que também é a celebração da sua pessoa e da sua obra, e que me devolvem ao dia em que a conheci. Tinha de dar beijinhos durante muitos anos à Antónia Serra para lhe agradecer o convite que me fez para estar com a Matilde numa tarde a ouvir o coro dos Meninos Cantores do Município da Trofa. Tinha de lhe dar beijinhos para que entendesse como foi a emoção de falar à mulher que completava a benignidade da natureza. Eu disse à Matilde Rosa Araújo que era uma honra tão grande, o milagre possível, encontrar assim quem tanto nos ofereceu beleza e vontade de viver. E ela respondeu que era para ela, também, um prazer grande conhecer um escritor novo como eu, de quem se falava muito agora e de quem tinha lido uns textos lindos. Quando me sentei, ia chorando por causa daquela generosidade de me ter retribuído o cumprimento, permitindo-me estar ao pé de si como se fôssemos iguais. Emociona-me sempre a generosidade, e eu estava apenas importado com dizer-lhe que era como da minha família porque entrara para os meus dias com a naturalidade das pessoas que amamos no dia a dia.

No fim do espectáculo, os pequenos cantores desceram o palco, ainda cantado, e abraçaram as pessoas na plateia. Abraçaram a Matilde. Não fui só eu quem se emocionou. Emocionaram-se as pessoas quase todas que, entre receberem abraços e estarem ao pé da Matilde, sentiram seguramente como os livros e a música podem resultar na humanização espantosa de cada um.



Pois os livros da Matilde Rosa Araújo vão continuar a humanizar quem por sorte lhes abrir as capas. Vão funcionar sempre como esse lugar de comunhão perfeita entre ser-se gente e planta ao mesmo tempo, a dominar a linguagem e a criar laços entre indivíduos e raízes e até vento. A lição perfeita acerca das coisas mais simples ou mais complexas da vida. Tudo o que há de fundamental para fazer de nós melhores com os outros, e mais felizes.

A mulher que inventou metade das coisas sensíveis agora é de todos. É um património literário e ético que vive intensamente dentro dos livros e do amor que se ganha aos livros e às pessoas. E pelo amor há-de manter-se activa, como um princípio activo de um medicamento bom que tomamos para progredir. Talvez sonhando que, um dia, de um lado nós e do outro a natureza, sejamos também uma completude com a mesma lúcida beleza. A Matilde Rosa Araújo será sempre uma figura materna de todos nós. Para nossa sorte. Para nossa grande sorte. Mesmo quem nunca a viu há-de, ao ler, ter por ela uma saudade assim.

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