A filosofia maçÔnica sua origem e princípios



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A FILOSOFIA MAÇÔNICA


SUA ORIGEM E PRINCÍPIOS

DO RENASCIMENTO À MAÇONARIA

LÃMINA

A Maçonaria Especulativa foi criada oficialmente no ano de 1717, Século XVIII, portanto, mas antes disto já havia alguma coisa, pois os fatos acontecem aos poucos, as transformações vão dirigindo os próximos passos, de maneira que o fato principal é antecedido de pequenos fatos secundários, mas importantes ao desfecho.



No entanto, restam obscuras as razões e objetivos da criação da Maçonaria: por que e para que. Vamo-nos esforçar para responder a estas questões, procurando entender alguma coisa aproximando-nos do ambiente europeu daquela época, das suas necessidades, suas contradições, a filosofia, etc.

Vista assim, verificamos que a Maçonaria Especulativa não é um fenômeno resultante de um evento, mas um processo que durou anos para amadurecer, para tornar-se necessária, formar-se filosoficamente, ritualizar-se. Este processo é a soma de acontecimentos e mudanças ocasionados pelo fim da Idade Média, começo da Idade Moderna e do Renascimento que permeou as duas eras e que foi seguido pelo Iluminismo.

O fato ocorrido em 1717 é, por conseguinte, uma resultante de acontecimentos precedentes, constituindo-se em um codificado de ideais e razões filosóficas, mas com uma razão original e um centro, e este trabalho poderá situar-nos melhor no contexto da época, permitindo-nos aproximarmos da ideia que levou à criação da Maçonaria.

Perdoem-me, pois utilizarei algumas datas e nomeações dos Séculos, mas acredito que não serão demais. São necessárias para situarmos melhor a sequência até a fundação da Maçonaria, para, assim, entendermos melhor as suas razões.


LÃMINA - ERA DAS TREVAS

A Idade Média era conhecida, durante muitos anos, como Idade das Trevas, termo atribuído pelos Humanistas do Século XVII, por conferir a esse período muita superstição e obediência cega a dogmas, por força do analfabetismo da população e consequente ignorância científica, em que se combatia toda a ciência que fosse de alguma forma contrária aos princípios religiosos da época. Não teria havido, também, e pela mesma razão, nenhum avanço técnico e científico.

Desde a segunda metade do Século XX foi abandonada essa denominação, porque vozes discordantes passaram a considerar que houve alguns progressos científicos, além de cultura e arte mais ricas, a ponto de invalidar a denominação pejorativa.

Não entraremos no mérito da questão, mas simplesmente a trazemos para entendermos a disposição da época do Renascimento em relação à Idade Média e suas dificuldades.


LÃMINA - RENASCIMENTO

O Renascimento foi um movimento que podemos chamar de filosófico-cultural-científico, o qual surgiu por volta do Século XIII, ainda com Idade Média em curso, mas pré-iniciando o que denominamos de Idade Moderna, ocorrida oficialmente em 1453, Século XV. Houve uma profunda alteração nas artes, na filosofia e na ciência. Redescobriu-se a antiguidade, consubstanciada na filosofia grega com os seus princípios virtuosos, suas definições filosóficas e a valorização do ser humano como ser natural. Em decorrência houve uma visão mais humanista e naturalista. Tendo iniciado na Itália, espalhou-se pelo resto da Europa Ocidental, em países como Inglaterra, Alemanha, Holanda, etc.

Destaca-se, portanto, no Renascimento, o sentimento humanista, composto pelo neoplatonismo, o antropocentrismo, o racionalismo e o individualismo. Por isto mesmo, o Humanismo foi o centro do debate que brotou com o Renascimento e daí nasceram outros conceitos, como o da perfeição e do progresso oriundos da obra de Platão. A busca da perfeição humana e da possibilidade de progresso do homem por sua capacidade racional e da humanidade através do uso da ciência.
A visão de Platão e, nesse caso, também de seu Mestre Sócrates, foi revisitada; o homem passou a ser visto como o centro do interesse do próprio homem, em contrariedade àquela posição espiritualista de um ser desvalorizado e eternamente culpado sem que houvesse Nota de Culpa, que foi o objeto das Idades Médias; seria pela razão individual que se encontraria a verdade, sem dogmas e superstições; e o individualismo, não como sinônimo de egoísmo, mas de interpretação da existência de um eu único, restauraria a dignidade do homem.

LÃMINA PICO DELLA MIRANDOLA

O auge do Humanismo foi alcançado no Século XV, que abrange os anos 1400 e, por isto, denominado de Quattrocento. Neste período vários filósofos valorizavam o homem, como, entre outros, Giovanni Pico della Mirandola. Pela importância da pessoa, vamos reter nosso olhar mais demoradamente sobre este filósofo do Humanismo Renascentista, nascido em 1463 e morto em 1496 aos trinta e três anos.

Inicialmente apega-se à filosofia de Aristóteles, para logo adiante adotar a filosofia neoplatônica.

Em 1486 publica o seu Discurso sobre a Dignidade do Homem, feito aos vinte e três anos, onde estabelece a forma humana como uma conquista do próprio homem. Vemos nele muitos indícios da Maçonaria Especulativa, ou Filosófica, tal como a conhecemos. Primeiramente veremos um trecho do seu Discurso, o mais famoso da obra e que representa sinteticamente o pensamento de Mirandola.
No Discurso, Deus fala ao primeiro homem, Adão.
A obra foi publicada em latim e a tradução é a seguinte:

Oratio de hominis dignitate
...Nec certam sedem, nec propriam faciem, nec munus ullum peculiare tibi dedimus, o Adam, ut quam sedem, quam faciem, quae munera tute optaveris, ea, pro voto, pro tua sententia, habeas et possideas.

Definita caeteris natura intra praescriptas a nobis leges cohercetur.

Tu, nullis angustiis cohercitus, pro tuo arbitrio, in cuius manu te posui, tibi illam prefinies.

Medium te mundi posui, ut circumspiceres inde comodius quicquid est in mundo.

Nec te celestem neque terrenum, neque mortalem neque immortalem fecimus, ut tui ipsius quasi arbitrarius honorariusque plastes et fictor, in quam/ malueris tute formam effingas...
Pico della Mirándola
LÃMINA

Não te dei nem rosto, nem lugar algum que seja propriamente teu, nem tampouco nenhum dom que te seja particular, Oh Adão! com o fim de que teu lugar e teus dons sejam tu quem os deseje, os conquiste e deste modo os possua por ti mesmo.

A natureza encerra outras espécies dentro de umas leis por mim estabelecidas. Mas tu, a quem nada limita, por teu próprio arbítrio, entre cujas mãos eu te entreguei, te defines a ti mesmo.

Coloquei-te em meio ao mundo para que pudesses contemplar melhor o que o mundo contém. Não te fiz nem celeste nem terrestre, nem mortal nem imortal, afim de que tu mesmo, livremente, à maneira de um bom pintor ou de um hábil escultor, concluas tua própria forma. Poderás degenerar até aos seres que são as bestas, poderás regenerar-te até às realidades superiores que são divinas, por decisão do teu ânimo.

LÃMINA – 8 PRINCÍPIOS


Neste trecho e no Discurso como um todo foram estabelecidos os princípios do Humanismo Renascentista que resultaram, para Pico della Mirandola, desta nova visão do homem;


  1. O homem que constrói a si mesmo enquanto vive;

  2. A individualidade;

  3. O antropocentrismo, o homem como centro da criação;

  4. O progresso humano;

  5. A liberdade e o livre arbítrio;

  6. A capacidade de consciência que, somente ela dentre os demais seres vivos pode entender a criação;

  7. Um homem criador: a sua salvação, sua imortalidade, dependente dos seus atos virtuosos;

  8. A restauração da dignidade humana.

O princípio da dignidade humana configura uma síntese dos demais, pois representa o conjunto dos direitos naturais do homem, o respeito que todos devemos ter uns para com os outros, de maneira que o ser humano, tal como ele é, possa desenvolver-se em todas as suas características fundamentais de indivíduo na manutenção de sua vida e na conquista da felicidade. O alcance do princípio da dignidade humana, bem como aqueles direitos que o integram, são mutáveis, ou seja, estão em constante movimento, não para excluir algum, mas, ao contrário, para incluir novo direito.


Tudo muito diferente do que até então se propunha, de um homem subjugado à força divina, melhor dizendo, à força religiosa da época. O individualismo contraria o misticismo medieval, ganhando força a razão humana.
Pois então, se há uma ratio theologica, paralelamente, existe uma ratio philosophica, ou uma razão amiga do saber, do conhecimento, que raciocina sobre as coisas naturais.

Assim, essa ratio theologica, conformada até os nossos tempos, que parte de dogmas religiosos que sustentam as religiões, verdades incontestáveis sem qualquer prova que as alimentem, resulta num aparente disparate, posto que não devesse haver uma razão sustentada em dogmas; na verdade trata-se de uma razão a partir de um dogma e que, por isto, raciocina sobre um dogma e suas consequências e não uma razão para o dogma, razão esta totalmente dispensável na visão das religiões, pois a confirmação do dogma parte da fé e não da razão.


Não houve, portanto, no início do Renascimento, um abandono a Deus, mas uma interpretação de que o uso da razão aproximava o homem de Deus, a valorização do homem sem a morte de Deus, mas para a maior consideração do homem.
Em certo momento da obra, uma citação que contém algo conhecido a nós maçons: “Já o Sumo Pai, Deus arquiteto, tinha construído segundo leis de arcana sabedoria este lugar do mundo como nós o vemos, augustíssimo templo da divindade.” Reaviva a ideia do Deus arquiteto, construtor do universo, o Grande Arquiteto do Universo.
Mais adiante fala da escada de Jacob, considerando os degraus da escada como degraus da natureza, nos quais a subida se faz filosofando. Neste caso, como podemos constatar, não se trata de uma subida em direção aos céus, mas uma subida em direção ao conhecimento.

LÃMINA – ERASMO DE ROTTERDAM

Outro grande nome do Humanismo Renascentista foi Erasmo de Rotterdam, que escreveu, em 1509, o Elogio da Loucura, obra bastante festejada, publicada em 1511 que, a certo momento diz: “E foi por essa razão que o grande Arquiteto do universo proibiu que o primeiro e lindo par de esposos, por ele feitos e unidos em matrimônio, provassem o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, sob pena de sua desgraça e morte.”

Temos aí duas lembranças do que constituirá a doutrina e alegorias maçônicas: o Grande Arquiteto do Universo tal como no caso de Pico della Mirandola e árvore (taça-ciência) do bem e do mal. Ou seja, devemos obter o bom conhecimento, usarmos as virtudes e não os vícios.

LÃMINA

MOSTRAR IMAGEM DAS ESCADAS NO OCIDENTE E ORIENTE COM OS NOMES



Mirandola aborda o estudo das artes liberais, compostas pelo Trivium: gramática, retórica e dialética; e o Quadrivium: aritmética, geometria, música e astronomia, as quais, na nossa Sublime Ordem, estão representadas nos quatro primeiros degraus que passam do Ocidente ao Oriente – Quadrivium – e nos três degraus pelos quais se sobe ao trono do Venerável – Trivium.

LÃMINA - ZOROASTRO


Mirandola retoma a parábola de Zoroastro sobre os quatro rios, dos quais são simbólicos para nós o rio que vem do Oriente que significa luz e o que vem do Setentrião (Norte) que significa justiça; os outros dois são a expiação, do Oeste, e , que é o significado do rio que vem do Sul.
São profundas as modificações introduzidas pelo Humanismo Renascentista na sociedade medieval que findava, dando lugar à era Moderna, através daqueles princípios compilados por Mirandola.

LÃMINA - GUTENBERG

E para difundir a cultura humanista entre os povos um invento teve participação especial.

Johannes Gutenberg inventou a prensa. Ele nasceu em 1398, Século XIV, e, de 1450 a março de 1455 imprimiu o primeiro livro, a Bíblia, denominada de Bíblia de Gutenberg, também conhecida como a “Bíblia de 42 linhas”, que tinha 642 páginas e uma tiragem de aproximadamente 200 exemplares.

Pois essa invenção foi importantíssima para o desenvolvimento da Renascença, disseminando o conhecimento e ampliando a difusão dos conceitos humanistas.
LÃMINA LIVROS COM ILUMINURAS

Na Idade Média, antes da invenção da prensa, os livros eram escritos em um único exemplar por monges, com belíssimas iluminuras, desenhos coloridos que enfeitavam as páginas escritas à mão em caligrafia perfeita e rebuscada. Os copistas, artesãos profissionais que copiavam os livros, completavam aproximadamente cinco livros por ano. Com isto, os livros eram caros e raros.

A produção de livros aumentou com a facilidade e rapidez em reproduzi-los e as ideias passaram a ser alastradas com celeridade, alcançando várias outras cidades. Os preços diminuíram consideravelmente e já prescindiam de formatos enriquecidos, permitindo livros mais acessíveis, aumentando o seu público.

Os estudantes tiveram ingresso a essa nova fonte de expansão do conhecimento de maneira mais ampla e abrangente, tendo contato com as teses de um e de outro autor, o que permitia um estudo crítico e criterioso em busca da verdade.


LÃMINA LIVROS ANTIGOS SEM ILUMINURAS


As bibliotecas cresceram em número de prédios e quantidade de livros, já não mais resguardados em castelos e mosteiros, mas em prédios públicos, onde podiam ser consultados, analisados e manuseados demoradamente em pesquisas que beneficiaram a ciência e a propagação dos novos conceitos filosóficos.

A possibilidade e acessibilidade com que se dava o contato do povo com as ideias impressas provocou uma transformação cultural que passou a ser mais visível à medida que o livro impresso se difundia.

Os conceitos que povoaram a Idade Média aos poucos foram sendo substituídos por aqueles do Renascimento, com sua propagação facilitada pela invenção de Gutenberg.

CONSIDEREM a revolução que essa comunicação mais massiva ocasionou naquela época, com ênfase na valorização do homem, homem até então desconsiderado como indivíduo, como sujeito de vontades e emoções particulares durante toda a Idade Média, agora colocado no centro dos interesses da humanidade, um ser com dignidade que constrói a si mesmo ao longo de sua existência. Os grandes pensadores estavam eufóricos, havia muito a considerar: a descoberta da antiguidade, as virtudes de Platão, o conceito do homem como indivíduo consciente, proativo, tudo era novo e essas novidades podiam ser transmitidas para muitos e em lugares distantes, num encadeamento cultural que transformava a realidade até então existente.


LÃMINA - A REPÚBLICA E A LIBERDADE
Os filósofos renascentistas reencontraram na antiguidade a República como forma de governo e a liberdade do homem como direito natural, e contrariaram as determinações da religião e seus dogmas, que dominaram a Idade Média.
Esses direitos naturais reencontrados pelos filósofos do Renascimento estão no homem e são absorvidos pela razão; são aqueles que o completam como ser humano. São princípios universais, imutáveis e necessários porque complementares e cuja força radica na existência enquanto vida. Sua fonte é o próprio espírito humano e suas necessidades.

Universais porque alcançam toda a humanidade; imutáveis porque não mudam de homem para homem e dão a ele um lugar especial na criação e na relação social. Manter a vida, a liberdade e a igualdade são princípios naturais primários, embora de gêneros diversos. O primeiro tem a ver com a existência e o ser em si e os outros dois com sua relação consigo mesmo e com a alteridade.

Considerando que ser humano e vida têm definições inseparáveis e confundidas tão completamente que quando falamos em ser humano estamos falando em vida humana e quando falamos em vida humana estamos falando em ser humano, o principal dos direitos naturais é o poder de manutenção da vida e de exigir que este poder seja respeitado pelos demais. É o poder vinculado à existência. A preservação da vida é, então, o principal preceito de Direito Natural.
LÃMINA – LIBERDADE E LIVRE ARBÍTRIO
E quando se fala em Liberdade, estamos também falando em Livre Arbítrio.

Livre Arbítrio que tem como sujeito o árbitro, ou juiz, de maneira que, para este caso, significa sermos juízes de nossos próprios atos. E devemos ser livres no julgamento.

Mas, dado que nossos pensamentos são o que de mais livres nós temos e que estamos a todo o momento julgando os nossos atos, dizer que somos árbitros de nossos atos é, ao que parece, uma redundância. Árbitros de nossos atos nós somos e não há como nos impedir de que assim seja. Embora haja regras sociais, como as morais e do direito, bem como as religiosas, que atuam independentemente de nosso julgamento, este é soberano para nós mesmos para o bem e para o mal.

Então, considerando o que foi exposto sobre sermos os árbitros naturais de nós mesmos, o que, efetivamente quer-se dizer quando se fala em ‘Livre Arbítrio’?

Bem, aí temos que remontar a uma questão religiosa que resulta de uma afirmação contida na Bíblia de que nos somos feitos à imagem e semelhança de Deus. Parece uma frase simples, mas ela é carregada de significado, pois se somos imagem e semelhança do Criador explica-se a prática do bem, mas e a maldade executada pelo ser humano também é efeito dessa imagem e semelhança? Pois para esta questão muitos estudos filosóficos foram feitos, até que os filósofos se depararam com uma solução que reconhecia as maldades humanas como fruto de suas escolhas, sem contrariar o texto bíblico. Assim, surgiu o reconhecimento também aplicado às questões religiosas de que nós temos a capacidade natural de escolher entre praticar o bem e o mal e que, por isto, se praticarmos o bem estaremos em comunhão direta com Deus, mas se optarmos pelo mal, nossos atos serão debitados em nossa própria conta, porque a maldade é humana e não divina.

Que nós temos capacidade de escolha é inegável, porém até onde essa faculdade se transforma em uma possibilidade que seja efetivamente um poder humano escolher entre praticar ou não uma determinada ação! Desde que a ciência constatou a força construtora do gene, que determina muitos de nossos atos, tomou consistência a afirmação filosófica de Ortega y Gasset de que ‘eu sou eu e minha circunstância’. Aqui o filósofo repete a posição de Pico della Mirandola.

Há um ‘eu’ primordial que se transforma à medida da atuação da circunstância, transformando-o sempre em um novo ‘eu’. A tal ponto que, se considerarmos que o feto responde ao ambiente uterino, com muita dificuldade teremos um ‘eu’ primordial real, pois a circunstância age desde o início sobre ele. Como podemos dizer, então, que há uma total liberdade de escolha, se estas estarão impregnadas de fatos condicionantes a encaminhar os nossos atos? Pensamos ser livres, mas estamos condicionados. No entanto, o ser humano é esta composição, ele não é algo estático e sem vida, mas dinâmico e parte da cultura que o cerca. O ser humano é um ser condicionado e a sua liberdade deve ser considerada dentro dessa condição. A mente humana está aberta como uma folha em branco, aonde vai sendo escrita a história de cada um.
LÃMINA – ALGUMA PERTINENTE

(só para quebrar a sequência extensa)


Pois são essas vivências e a análise que fazemos delas que permitem as escolhas e que resultam do que chamamos de ‘Livre Arbítrio’. Trata-se de uma liberdade condicionada pelas circunstâncias, muitas vezes definidas pela genética, mas, por isto mesmo, humana. Temos arbítrio sobre os nossos atos, todavia, a liberdade dessa capacidade de julgamento não pode ser descrita de forma ampla, mas humana, pois é resultante do que somos: seres condicionados pela circunstância cultural. E, aqui a razão para estarmos apresentando o ambiente em que a Maçonaria Especulativa foi criada.

Exemplificando com uma forma cultural muito expressiva que é a religião, dizemos que em um ambiente cristão nossos julgamentos terão condicionantes cristãs; num ambiente muçulmano os parâmetros serão muçulmanos, e assim por diante.

O certo é que o ser humano busca o seu bem estar, a sua felicidade e que o que pode estar errada é a forma como alcançar esse estado almejado. A questão que se coloca é: qual será o empecilho à não existência do ‘Livre Arbítrio’? Ou seja, para dizermos que não existe o ‘Livre Arbítrio’ devemos encontrar aquilo que o impede. Visto assim, podemos dizer que o arbítrio não existe porque vivemos em sociedade e as regras que esta impõe impedem que julguemos quais atos devemos ou não praticar? Pode ser verdade desde que essas regras condicionem nossos atos, mas nem todas elas apresentam-se assim. São muitas as vezes em que o ser humano, em práticas isoladas, quebra as regras, porque entende que elas o prejudicam de uma ou outra maneira.

Então, nossos julgamentos não são livres, porque estamos condicionados! Neste caso, e repetindo, devemos considerar que o ser humano é, por natureza, um ser condicionável, que seus atos são fruto de uma educação recebida, de uma cultura, de um ambiente, e que a liberdade no julgamento de que falamos está delimitada pelos condicionantes introjetados até aquele momento. Além do que, para cada indivíduo, em razão de sua composição orgânica e, portanto, de sua genética, algumas coisas são marcantes no seu Livro da Vida e não o são para outros indivíduos.

LÃMINA – MACACOS E HUMANOS

Para encerrar este tópico trazemos uma experiência, para demonstrar o quanto podemos ser e estar condicionados:

“Cinco macacos foram colocados em uma sala onde havia uma escada que conduzia a uma banana. Cada macaco subia e pegava uma banana. Mas, quando um macaco pegava a banana, caía um balde de água fria sobre os outros. Assim, após todos os macacos pegarem a sua banana e os outros receberem a água fria, começaram a não deixar que nenhum macaco subisse na escada para pegar a banana, porque sabiam que iriam receber a água fria e isto era uma coisa ruim para eles. Com o passar do tempo nenhum macaco mais subia para pegar a banana, porque era uma coisa ruim pegar a banana.”
Até aí, estamos indo bem, mas o pior vem agora:
“Aos poucos foram sendo substituídos os macacos, porém os que ficavam impediam o novato de subir porque era uma coisa ruim. Assim, foram substituídos todos os cinco primeiros macacos do início da experiência, e todos os que foram inseridos no programa, embora nunca soubessem o motivo pelo qual era ruim subir na escada para pegar a banana, continuaram obedecendo ao critério.”

Podemos dizer que há uma diferença entre o ser humano e o macaco, pois nós temos o software da razão, porém nem sempre conseguimos utilizá-lo adequadamente e nos tornamos reféns de condicionamentos sem os percebermos. Vencer as condicionantes prejudiciais é o trabalho do “Livre Pensador”.


IDADE MODERNA
Retornemos à nossa descrição histórica e passemos à IDADE MODERNA.

A Guerra dos Cem Anos, que começou em 1337 e findou em 1453 entre França e Inglaterra, durando, na verdade, 116 anos, segundo alguns historiadores marca o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna. Outros historiadores atribuem o fim da Idade Média ao mesmo ano de 1453, mas por outro motivo: a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos. O fim da Idade Moderna se dá em 1789, com a Revolução Francesa. Em 1492, em nome da Espanha, Cristóvão Colombo descobre a América e, em 1500, Pedro Álvarez Cabral, em nome de Portugal, descobre o Brasil.

Com a Guerra dos Cem Anos, tanto a França quanto a Inglaterra sofreram grandes perdas que atrasaram o progresso que vinham tendo. Isso permitiu o surgimento de novas potências: Portugal e Espanha. Na Espanha, os assim denominados Reis católicos Dom Fernando de Aragão e Isabel de Castela casaram em 1469.

LÃMINA INQUISIÇÃO

Vamos apresentar alguns dados históricos sobre a Inquisição, por representar um movimento religioso de extrema importância e de condenável alcance no período em que se encerrava a Idade Média, também conhecida como Era das Trevas, adentrando o Renascimento e, por conseguinte, contrariando a sua grande consequência: o Humanismo. Não podemos imaginar a convivência do objetivo maniqueísta, intolerante e a forma violenta de atuar da Inquisição com os princípios humanistas. O Discurso sobre a Dignidade do Homem, de 1486, e a obra inquisitorial coexistindo em um mesmo período é fruto da contradição humana e revela um período de constante aprendizado da humanidade. Mas, afinal, não é assim que o homem se expressa e progride?

LÃMINA INQUISIÇÃO

INQUISIÇÃO. A Inquisição foi criada em 1184 por uma bula do Papa Lúcio III, denominada Ad abolendam, para combater a heresia cátara no sul da França. Foi dado aos bispos locais o poder de julgar e punir os condenados com castigos físicos, o que motivou a denominação de Inquisição Episcopal. Como os resultados dos bispos não foram o esperado foi criado, então, em 1203, já pelo papa Inocêncio III, o Tribunal da Inquisição. Em 1230 o Papa Gregório IX, por meio de várias bulas, instituiu a Inquisição Papal. A autorização da tortura para obter as confissões surgiu em 1252, com o Papa Inocêncio IV, através da bula Ad extirpanda. Aos poucos a Inquisição foi perdendo forças, porém em 1478, pela bula do Papa Sixto IV, ela é revigorada para atuar na Espanha. Somente em 1536 foi autorizada a Inquisição em Portugal. A cerimônia de punição dos hereges era denominada Auto de Fé e tinha muito de política, de perseguição, mas também, de religiosidade supersticiosa. No Século XIX, mais precisamente em 1821, a Inquisição é oficialmente abolida em Portugal e, em 1834, na Espanha, deixando cadáveres e muito sofrimento atrás de si.

LÃMINA – ERA DA RAZÃO


E, assim, chegamos ao ILUMINISMO – A Era da Razão foi um movimento filosófico-cultural iniciado na Europa, talvez no Século XVII, mas que teve seu florescimento no Século XVIII. Tinha por princípios a valorização da experiência e da razão, pregava o antropocentrismo, ou seja, o homem como centro dos interesses do homem, o progresso humano pela educação, a liberdade de expressão, a liberdade, a igualdade e a fraternidade, combatia o regime absolutista, o misticismo, as crenças religiosas e seus dogmas. Os alemães batizaram essa era de Die Aufklärung – o Iluminismo.
O uso da razão, a busca pelo conhecimento e a liberdade de consciência, são premissas do Iluminismo.
Se no primeiro momento do Renascimento Humanista filósofos como Pico della Mirandola e os demais tentavam manter uma relação paralela entre a ratio theologica e a ratio philosophica, com o surgimento do Iluminismo esta relação foi afastada, permanecendo tão somente a razão filosófica.
Descartes (1596 – 1650) considerado o pai do Racionalismo, momento anterior e, em certos pontos, precursor do Iluminismo, estabeleceu seu método de conhecimento, de busca da verdade, que implicava em desmontar e remontar cuidadosamente o pensamento, duvidando sempre daquilo que até então não aparecia devidamente provado e utilizando unicamente o raciocínio.
Os Iluministas entendem o período da Idade Média como uma Era das Trevas e que o movimento novo surgia para combatê-las, iluminando com suas luzes cerebrais, as trevas da ignorância. Devemos considerar que a Idade Média era dominada pela religião católica, com suas instituições persecutórias, como a Inquisição, que fazia do indivíduo um ser que não se pertencia, mas à religião, que podia fazer dele o que lhe aprouvesse. As torturas da Inquisição são um exemplo claro de que havia uma desconsideração com o corpo do outro.

A meta iluminista era a busca da verdade e o método era a investigação racional, mediante aplicação prática e uma forte crença na possibilidade de aperfeiçoamento da humanidade.

Não nos esqueçamos de que em 1665, nos primórdios do Iluminismo, o Maçom Isaac Newton abriu as portas de uma nova visão do universo, um universo matemático, que poderia ser descoberto de seu véu misterioso e, até então, místico.

O Iluminismo patrocinou a ideia do Grande Arquiteto do Universo, uma visão deísta do Deus que construiu o Universo e tudo o que nele se contém e deixou-o, principalmente no que diz respeito à consciência humana, à interpretação de cada um.

O Iluminismo influenciou os movimentos sociais do século XVIII, como a Independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa e, no Brasil, a Inconfidência Mineira.

Alguns dos filósofos iluministas: David Hume, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Diderot.

Vamos ver duas curiosidades do Renascimento e as suas relações com a Maçonaria.

LÃMINA
A ESTRELA FLAMEJANTE E O HOMEM VITRUVIANO


LEONARDO DA VINCI desenhou, por volta de 1490, em pleno Renascimento, o Homem Vitruviano, que é o desenho de um homem com perna abertas e braços abertos, encimados pelo mesmo homem com pernas fechados e braços mais alevantados.

Esse desenho representa o homem em toda a sua grandeza e a Maçonaria o simbolizou na Estrela de Cinco Pontas, ou Estrela do Oriente, ou Estrela da Iniciação, ou Estrela Flamejante, colocada sobre o altar do Segundo Vigilante, com a letra G no centro. Esta Estrela tem a semelhança de um homem em pé com as pernas e braços abertos.

A lembrança ao homem Vitruviano está caracterizada mais fortemente pelo significado que tem a letra G na Maçonaria, localizada no centro da Estrela, ou umbigo do homem Vitruviano, sempre voltado ao homem: Geometria, que simboliza a ciência dos cálculos, ou o uso da razão; Gnose, conhecimento moral; Geração, perpetuação da espécie; Gênio, a inteligência humana; Grandeza, o homem como a mais perfeita obra de criação.


LÃMINA – FOTO DESSA PARTE DA CAPELA SISITINA


A outra curiosidade é patrocinada por MICHELANGELO BUONARROTI que, nascido em 1475, foi um maravilhoso escultor e pintor do Renascimento italiano. Coube a ele pintar o teto e a parede do altar da Capela Sistina no Vaticano e onde, recentemente, foi eleito o Papa Francisco I.

No teto da Capela Sistina Michelangelo pintou uma sequência de afrescos e, mais ou menos ao centro do teto, pintou o momento em que Deus dá vida a Adão, mediante a aproximação do dedo indicador da mão direita, para juntar-se ao dedo indicador da mão esquerda de Adão, para, então, instituir-lhe vida. E é aí que se apresenta o gênio criador Renascentista de Michelangelo, ao não ficar no sopro divino informado pela Bíblia, mas na transmissão de uma energia diferente, através da sua mão. Se olharmos atentamente à figura de Deus e seus anjos criada e pintada por Michelangelo, veremos que ela compõe, junto com o manto de fundo uma outra figura: o cérebro humano. Com isto, Michelangelo dá a entender que Deus, na verdade, atribui não só vida, mas consciência ao Ser Humano. A obra de Michelangelo repercute a filosofia de Mirandola, quando Deus dá ao homem a consciência para entender a Sua criação.

LÃMINA - TEMPLÁRIOS.

Dito isso, passemos a uma pequena análise sobre quais influências a Ordem Templária pode ter tido.

Sabemos que ela foi fundada em Jerusalém em 1118 por nove cavaleiros franceses. Portanto, era uma Ordem de cavalaria. Eles se constituíram para assumir a proteção aos peregrinos cristãos que visitavam Jerusalém. Aos poucos foram ampliando suas atividades, como, por exemplo, o transporte de valores, que os levou a criar as Ordens de Pagamento para evitar esta prática por longos caminhos perigosos. A Ordem enriqueceu muito, a ponto de terem se tornado banqueiros. Tinham, dentro da Ordem, quatro classes: a dos Cavaleiros, somente composta de nobres; a dos Escudeiros; dos Irmãos Leigos, formada de sargentos e soldados; e dos Capelães e Sacerdotes, que compunham o clero da Ordem. O Grão-Mestre recebia honras de Príncipe.

Em razão de sua imensa riqueza, composta, entre outras, de grandes propriedades territoriais, e das dificuldades que atravessava o governo de Filipe, o Belo, rei da França, associada à fraqueza do Papa Clemente V, em 1307, mais precisamente no dia 13 de outubro, foi cumprido mandado de prisão contra eles e, após torturados, a maioria foi morta na fogueira, inclusive o seu Grão-Mestre Jacques Demolay, hoje patrono de uma Ordem iniciática composta por jovens dos 12 aos 21 anos: a Ordem Demolay. Filipe, o Belo, praticou verdadeira espoliação fundamentada nas genéricas acusações de heresia, sacrilégio, usura, profanação e infâmia de costumes. Consta que isto não adiantou muito a Filipe, o Belo, porquanto o tesouro maior dos Templários jamais foi encontrado, sendo, até nossos dias, um mistério envolto em brumas. Em 1312 (06 de maio), por uma bula do Papa Clemente V, a Ordem dos Templários foi extinta.

Os Templários também tiveram ligação com a construção de Templos cristãos, sejam eles do interesse próprio da Ordem ou por administração das obras para terceiros. No entanto, a arte da construção era dos arquitetos e engenheiros integrantes das Guildas, onde protegiam seus conhecimentos e mantinham reserva de mercado. Mas a relação entre Templários e construtores era evidente.

LÃMINA - GUILDAS.


Essas Guildas eram associações de apoio e ajuda recíproca formada entre corporações de operários, negociantes, artistas, etc. Tiveram muita importância na Idade Média, dadas as suas características de serem verdadeiras agremiações das mais diversas profissões, que tinham, como no caso das Guildas de ofícios, cunho econômico. Criavam dificuldades para aceitar novos integrantes, pois aqueles que precisavam dos préstimos de algum profissional especializado procuravam a Guilda correspondente e lá o contratava.

Como as Guildas possuíam muitos integrantes, passaram a ter um poder de barganha contra todos, com condições de opor-se ao que podia lhes prejudicar pessoal ou economicamente. Por isso, os soberanos chegaram a procurar ajuda das Guildas para contrariarem os interesses dos senhores feudais. Tal era o poder alcançado pelas Guildas.

Havia uma divisão hierárquica dentro das Guildas, pelas quais os graus principais eram de Mestres, Oficiais e Aprendizes, segundo o grau de conhecimento de cada um e todos tinham sinais de reconhecimento; isso porque a ascensão de um grau ao outro tinha repercussões econômicas vantajosas. A passagem de grau dependia do conhecimento adquirido pelo pedreiro e da autorização dos integrantes do grau superior. Portanto, havia uma hierarquia muito forte, verdadeira reserva de mercado, em que os integrantes da Guilda se protegiam dos de fora e, lá dentro, entre os membros de seu grau. Era impedido o ingresso de pessoas estranhas às Guildas, uma vez que os conhecimentos e ofícios eram transmitidos de pai para filho, permanecendo, assim, vedado aos demais. Tratava-se de pura manutenção de interesses econômicos.

Por diversas vezes e em diferentes países europeus as Guildas entraram em luta com a aristocracia com o objetivo de apoderar-se do comando político. Isso ocorreu em várias cidades alemãs por volta do século XIII e XIV, inclusive mediante uma guerra civil. Mas, considerando a dificuldade de locomoção da época, tais confrontos tinham caráter local, limitado à área de abrangência de sua influência, aonde cada Guilda usufruía de seu poder; a luta pelo poder político, portanto, restringia-se à sua cidade.

Esse sistema foi extinto já no século XIX.

LÃMINA
CONTEMPORANEIDADE ENTRE TEMPLÁRIOS E GUILDAS.

Portanto, durante todo o período de sua existência os Templários foram contemporâneos das Guildas. A Ordem utilizava dos serviços dos construtores em suas obras, e, considerando que uma igreja levava muito tempo para ser construída, mantiveram longas e boas relações entre si, o que é normal em situações como esta. Ocorre que os Templários tinham muitos segredos a serem preservados, seja de seus negócios, como de seus rituais de reconhecimento e iniciação. Da mesma maneira, os maçons integrantes das Guildas - e aqui nos referimos a maçons enquanto trabalhadores efetivos da construção -, tinham seus modos de reconhecimento que permitiam serem identificados e bem tratados por outros maçons em todos os lugares para onde viajavam, o que, sabe-se, naquela época de difícil locomoção, não era um simples passeio. Assim, para preservarem seus segredos e dada a convivência intensa que mantinham com os Mestres construtores, podemos especular, mas com alto grau de certeza, que os Templários passaram a iniciá-los na Ordem, transformando-os em Templários de segunda classe, não no sentido pejorativo, mas na condição primária de juramentados a não divulgarem nada do que pudessem descobrir ente eles. Com isto, os Templários teriam um meio de preservar seus segredos, ao mesmo tempo em que podiam ter com os Mestres Construtores uma relação de proximidade tão necessária à grande obra em que estavam empenhados a realizar, sem sustos. Os Mestres Construtores, por sua vez, iniciados na Ordem Templária, adquiriram conhecimentos ritualísticos importantes que serviria para que eles, mais tarde, incorporados no seu domínio cultural, os utilizassem em suas reuniões, já com caráter esotérico.

LÃMINA - PERTINENTE

Por certo que esses ritos perderam no tempo as razões esotéricas que os originaram quando utilizados pelos Templários, adquirindo outros significados nos seus usos pelas Guildas. Isto porque as razões dos Templários tinham conotações religiosas ou mesmo místicas, enquanto que nas Guildas, formadas por construtores e não por religiosos guerreiros, se havia algum misticismo não teria a mesma circunstância daquele outro. Consideremos que desde que a Ordem Templária foi extinta em 1312 até a data em que a Maçonaria Especulativa, em 1717, foi dada à luz, passaram-se mais de quatrocentos anos e, para darmos um ano qualquer, no ano de 1400 todos os Templários iniciados na Ordem, mesmo que alguns tenham se refugiado nas Guildas como construtores delas integrantes, já tinham falecido.

É razoável entender-se, então, que as Guildas obtiveram e conservaram dos Templários alguns rituais e conhecimentos menores que podiam ser adaptados e utilizados em suas reuniões, mas nada mais do que isso.

Quando as Guildas, por motivos específicos de seus interesses, passaram a aceitar terceiras pessoas, não obreiros, em suas fileiras, estas se reuniam sob algum ritual, talvez adaptado daqueles obtidos junto aos Templários, ou originado da ideia ritualística absorvida desse processo com eles. Tenhamos em mente que as Guildas, na luta pelo poder, em um determinado momento sentiram necessidade de trazer para seu lado importantes figuras da época, que pudessem aumentar o seu poder de barganha. O meio encontrado foi filiá-las, dando-lhes todas as vantagens que tinham os demais. Como não eram trabalhadores da área de construção, suas reuniões tinham outro sentido, ingressando no misticismo, na alquimia, na filosofia. Com o passar do tempo esse verdadeiro apêndice que crescia junto às Guildas foi se tornando mais forte e independente, a ponto de vir a descolar-se do corpo que o gerou, formando uma Ordem à parte, secreta e muito poderosa: a Maçonaria.

LÃMINA - MAÇONARIA.

O Humanismo prosseguiu; o Iluminismo, também, mas paramos por aqui a nossa investida histórica, pois chegamos ao momento de criação da Maçonaria. Esse foi o ambiente em que a Maçonaria foi criada. Nesse caldo de ideias Renascentistas, Humanistas, Racionalistas e Iluministas foi gerado o pensamento maçônico e desenvolveu-se a Maçonaria. Primeiro, ainda como Maçonaria Operativa pré-Especulativa e, oficialmente, em 1717, como Maçonaria Especulativa.

Muitas coisas da época impregna a Maçonaria tal como a conhecemos hoje. Alguns lhe atribuem certo misticismo, algo de religiosidade, mas o certo é que ela apresenta uma filosofia consistente e almeja uma conduta moral atualizada. Na época da fundação da Maçonaria Especulativa (1717) vigia ainda a Inquisição, a religião cristã estava no auge das perseguições na Europa, e não poderia ser diferente que se buscasse algum fundamento no espírito religioso, mais precisamente, face à interpenetração moral religiosa e social próprias daquela época. Embora, em sequência natural estivesse iniciando-se a era Iluminista – como evolução do Renascimento e sua valorização do indivíduo e da cultura humanista -, em que a razão se fazia superior. Mas como abandonar de todo a religião? A Maçonaria, por não ser uma religião, mas uma filosofia de ética e conduta moral, admite todas as religiões e em sendo assim, admitindo todas, não aceita nenhuma, condescendendo, deisticamente, com a ideia do Grande Arquiteto do Universo, o criador do universo.

Maçom não é compromisso com a religião, mas com a Humanidade. Talvez estejamos perto de ser uma forma de religião, ou seja, ao religar o homem à sua relação com o todo, com a Humanidade em si. O livre pensamento maçônico é encarado perigoso pelas religiões teístas.

Benjamin Franklin, americano, e Voltaire, francês, foram expressões do Iluminismo e pertenciam a uma loja maçônica.

Os maçons são os Guardiões da Liberdade.

LÃMINA - PRINCÍPIOS

Relembremos os princípios do Renascimento expostos por Mirandola:



  1. O homem que constrói a si mesmo enquanto vive;

  2. A individualidade;

  3. O antropocentrismo, o homem como centro da criação;

  4. O progresso humano;

  5. A liberdade e o livre arbítrio;

  6. A capacidade de consciência que, somente ela dentre os demais seres vivos, pode entender a criação;

  7. Um homem criador: a sua salvação dependente dos seus atos virtuosos;

  8. A restauração da dignidade humana.

Encontramos todos eles na doutrina e filosofia maçônicas. A Maçonaria é filosófica, progressista, antropocêntrica, prega a liberdade e o livre pensamento, valoriza a razão e a dignidade humanas, e prega que o homem constrói a si mesmo e que a virtude o transforma.


Um estudo sobre Platão nos mostrará o quanto a Nova Ordem, a Maçonaria, foi longe buscar seus fundamentos, inclusive os procedimentos simbólicos da Iniciação.

Então, o sincretismo, ou conciliação de princípios humanistas, explica bem a nossa filosofia. Não poderia ser diferente, pois os homens são produtos de suas épocas e dos princípios que os rodeiam, de suas circunstâncias e interesses. A instituição maçônica foi formada por indivíduos que deram a ela as suas próprias feições e crenças, que poderiam ser variadas, mas cujos objetivos eram semelhantes e ficaram espelhadas no que propõe a Sublime Ordem.


A Maçonaria assume o objetivo de proteger a razão, a consciência, aquela capacidade mais importante jamais criada no Universo, a de permitir que o Universo, pois nós também somos parte e, portanto, somos Universo, conheça a si mesmo, veja a si mesmo, como nós nos vemos em um espelho, vendo-se de dentro.
A Maçonaria busca, em última análise, garantir a felicidade ao indivíduo.
Quando falamos em indivíduo, ou individualismo, estamos longe de querer expressar o conceito de egoísmo. Individualismo é uma condição do indivíduo, ser humano individual e diferente dos demais, único e inimitável. Jamais haverá outro indivíduo como qualquer um de nós, pois se pode clonar o exterior, o físico, mas não o ego, a consciência. O burilamento das imperfeições se dá no âmbito do indivíduo, na tentativa de dar mais lustro às virtudes. Somente um indivíduo consciente e que se respeite tem a consciência do outro e o respeita. Ninguém que não se respeita entenderá como deve ser o respeito pelo outro. Por isso que a Maçonaria trabalha o indivíduo, procurando fazer com que ele se aprimore, pois somente assim ele poderá ser útil na sociedade, ajudando a mantê-la firme contra aqueles que tentam destruí-la, destruindo assim, e sem o saber, a humanidade.

O indivíduo pressupõe liberdade de pensamento e ações, e a norma deve ser balizadora da pessoa consciente de suas obrigações, mas é a consciência a base de sua conduta. Sem a consciência individual não há repressor quando não houver fiscalização. A sua desconsideração em nossos dias está nos levando a esse terror social de extremada corrupção. Devemos comprometer e valorizar o indivíduo.


Mas como encontraremos a felicidade?

LÃMINA - PERTINENTE


Esta é uma questão fundamental para a Maçonaria.

Com grande propriedade dizemos o que é a infelicidade, pois basta nos sentirmos tristes para nos sentirmos infelizes, já a felicidade é motivo de muitos questionamentos. Alguns a atribuem ao prazer que sentimos em determinado momento ou ao passar de uma dor. O que parece resultar disto é que a felicidade é uma consequência, um efeito de um prazer ou de uma emoção. Ela não é o prazer em si, nem a emoção, mas o efeito que eles produzem no indivíduo além das sensações mesmas. Um evento qualquer pode produzir um prazer ou uma emoção, mas não produz a felicidade; além disto, prazer e emoção não são, por si sós, felicidade, mas requisitos dela. Mesmo assim, é extremamente difícil extrair a felicidade do binômio prazer/emoção. A dificuldade em definir o que é felicidade também se encontra em Aristóteles, expressa em sua obra ‘Ética a Nicômaco’, onde constata que: “Diferem, porém, quanto ao que seja a felicidade, e o vulgo não o concebe do mesmo modo que os sábios” (I:4:20).

Pode-nos parecer que a felicidade seja como uma escada que se sobe degrau a degrau e que ao atingirmos o topo estaremos frente a frente com ela. Não, não é assim. Podemos nos considerar felizes no primeiro degrau e já no segundo estarmos infelizes. A realidade humana não permite uma felicidade total e permanente, pois as preocupações diárias a impedem. Por esta razão chegamos a pensar que a solução dos problemas permitiria que a felicidade perdurasse. Neste caso, inclinamo-nos à ideia de que a capacidade econômica seja o caminho mais curto para a solução dos problemas e, em decorrência, para alcançar a felicidade duradoura. Livre de problemas não haverá o que a impeça. Ocorre que a nossa relação com a realidade é muito maior do que a questão econômica possa resolver, e outros contratempos nos esperam com potencial a nos causar dor e sofrimento.

Há as relações familiares, de amizade, de trabalho; há acidentes, desentendimentos; há, ainda, causas naturais, como doenças, velhice e falecimento; bem como as lembranças, boas (que resultam em saudades) ou más, estas aptas a causarem a infelicidade. Neste caminho, a felicidade não é uma condição humana, mas uma possibilidade relativa do ser humano. Havemos de nos sentir felizes quando e se estivermos plenos das emoções que a ela nos conduzem. Sem emoção não há felicidade, embora nem toda emoção leve à felicidade. Mas, o que considero mais importante para a felicidade é que não importa os problemas que temos, mas, sim, como os enfrentamos.

LÃMINA
A MAÇONARIA TEM UMA ÉTICA HUMANISTA E ILUMINISTA

Bem, agora, depois deste estudo, podemos dizer que a Maçonaria tem uma ética Humanista/Iluminista.

Pode parecer, de certa forma, contraditória esta colocação, se pensarmos no Iluminismo como algo inteiramente voltado à razão. No entanto, como já vimos em páginas passadas, para sermos humanistas não necessariamente deveremos ser destituídos de razão, sermos completamente emocionais. Ambos derivaram do Renascimento. Emoção e razão devem andar juntas, pois uma suaviza os excessos da outra.

A Maçonaria está sustentada em princípios que estabelecem um roteiro e um objetivo aos maçons. Exige que os maçons sejam ‘Livres Pensadores’, fortalecendo, pelo conhecimento e sabedoria, a capacidade de entender a si próprios e, a partir daí, poder contribuir com a sociedade e alcançar a paz. A liberdade, portanto, é a exigência primeira de um maçom ‘Livre Pensador’. A liberdade de ter, de ser e de estar. O requisito seguinte é o de ser um pensador. Isso nos reporta a uma condição de olhar para todos os lados, sem os condenáveis maniqueísmo e sectarismo, sem superstições, mas com tolerância, mantendo a mente saudavelmente aberta a todas as possibilidades, para de tudo tirar o máximo proveito e, então, formular um raciocínio analítico que o posicione na reta razão, porque a Maçonaria tem princípios que são verdades universais da natureza do ser humano. Há armadilhas ao longo do caminho, mas elas devem ser desvendadas pelo raciocínio, utilizando as experiências e verificando os fins, os quais podem ocultar interesses ilegítimos. Muitas vezes somos levados pela ingenuidade, tornando-nos úteis a pretensões espúrias e mal-informadas.


A vida apresenta duas taças à nossa frente e delas devemos saber fazer a escolha. A Sublime Ordem nos ensina soluções. Não esqueçamos que a má escolha traz consigo amargos restos. Devemos sempre repensar nossa conduta no vazio da solidão. Há um solitário banco para isso. Cabe-nos sujeitar nosso espírito à reflexão, enfocando a liberdade como meta humana, vez que um homem escravo de ideias únicas não difere do escravo físico, ambos tolhidos em sua liberdade.

O mal se reveste, a mais das vezes, com o manto do bem e com a convicção ingênua de que esta é a verdade. Por vezes só muito tarde é que ele é percebido em toda a sua inteireza. É nessa posição sobre valores que a tardia escolha correta pode ocasionar danos irreparáveis a uma geração inteira. É para que as pessoas possam refletir com clareza sobre os fatos do dia a dia que a Maçonaria se empenha em fazer do maçom um ‘Livre Pensador’, alguém que saiba distinguir o bem do mal, não o desconheça, não se esconda dele, não o tema, mas o estude em todas as suas nuances e o enfrente em toda a discórdia que ele semeia e que dele emana. Essa, a ética maçônica; Humanista e Iluminista.

LÃMINA – FINAL

Agora, uma última palavra sobre o nosso tempo.

Saibamos que a inquisição política se apresenta como defensora da liberdade, mas que ao sentir-se forte o suficiente passa a atacá-la como forma de se manter em atividade, sacrificando, em primeiro lugar, aqueles que defendem a liberdade. Disso devemos ter consciência, pois nós maçons somos defensores intransigentes de instituições livres e a inquisição dorme apenas, podendo sempre acordar. Nunca esqueçamos da máxima: “reino ontem, república hoje, império amanhã”. A inquisição política é irmã gêmea do império, sua companheira e confidente. Acordam juntas e juntas exercem o poder totalitário.
Atualmente vivemos momentos de grande distorção moral, quando mesmo pessoas de boa índole defendem, como jovens sem experiência, a prática de atos ilegais e imorais ao sabor de que os criminosos e imorais parecem ter bons motivos, como se qualquer fim justificasse tais atos de violência física e moral. Outros afirmam ser inverídicas as imputações sem permitir-se um raciocínio, uma busca da verdade, simplesmente porque estão ingenuamente encantados. Emoção sem razão. Assim, estão paralisados frente ao perigo, olhos obscurecidos pela venda retórica, na antropofagia própria desses movimentos, pois ao fim estarão tão destruídos quanto os demais. Esses são os passos que estão ajudando a tirar a inquisição de seu sono e as consequências disso serão terríveis. Não nos iludamos. Devemos lutar pela liberdade, que é da natureza humana e princípio máximo da Maçonaria.

Como ficou no início a questão do centro da Maçonaria, seu objetivo, concluímos afirmando que o centro é o Homem, pois é uma filosofia antropocêntrica... e seus objetivos? A paz e a felicidade de todas as pessoas.


Muito Obrigado.

Ir.: Sergio Bastos Seitenfus

Loja Coronel Aparício Mariense da Silva.

Oriente de São Borja.


BIBLIOGRAFIA.


ENCICLOPÉDIA BRASILEIRA MÉRITO. São Paulo : Mérito, 1963.

BLABCKBURN, SIMON. DICIONÁRIO OXFORD DE FILOSOFIA. Tradução: Desidério Murcho... et al. - Rio de Janeiro; Jorge Zahar, 1997.

ERASMO DE ROTTERDAM. ELOGIO DA LOUCURA. OS PENSADORS. Tradução: Luís de Andrade – 3.ed. - São Paulo: Victor Civita, 1984

GREEN, TOBY. INQUISIÇÃO : O REINADO DO MEDO. Tradução: Cristina Cavalcanti - Rio de Janeiro; Objetiva, 2011.



HISTÓRIA EM REVISTA. EDITORES DE TIME-LIFE LIVROS. Rio de Janeiro : Abril Livros, 1992.

PICO DELLA MIRANDOLA, GIOVANNI. Tradução: Maria de Lourdes Sirgado Ganho – Lisboa/Portugal; Edições 70 Ltda, 2008.
Catálogo: artigos doc

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