A experiência do sacrifício como violência sagrada na vivencia da beata maria de araujo no milagre de juazeiro



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#2545
A EXPERIÊNCIA DO SACRIFÍCIO COMO VIOLÊNCIA SAGRADA NA VIVENCIA DA BEATA MARIA DE ARAUJO NO MILAGRE DE JUAZEIRO

JOHN FABIAN MULLER1

Universidade Federal do Ceará – Faculdade de Filosofia – ICA.

Programa de Graduação em Filosofia - Bacharelado.

E-mail: muller@alu.ufc.br


RESUMO
Este artigo aborda o milagre ou acontecimento, que teve como centro a efusão real do sangue de Jesus na boca da Beata Maria de Araújo em Juazeiro, no início do século passado. Toma por base um recorte da literatura sobre um fenômeno alvo de polêmica, para propor uma leitura de base teológica e etnográfica, que parte do exame das forças, que, ao tentarem impedi-lo ou desacredita-lo, teriam assumido nele a forma de um sacrifício da figura religiosa feminina; silenciando a Beata, para impedir que toda uma população se tornasse condenada por heresia. Conclui que, assim como no sacrifício, a vítima expiatória sofre a violência que se abateria sobre toda a comunidade, a Beata foi excluída mediante o silencio oficial imposto pelos homens da Igreja; para que o próprio milagre signo do feminino e, a figura do Padre Cícero caísse em descrédito, esforços que a história provou serem debalde e vãos. O silencio da Beata e a obediência do Padre, atraíram a máxima de que a voz do sangue fala mais alto, talvez para sempre.

Palavras-chave: Memória - Religião – Gênero - Exclusão.

A EXPERIÊNCIA DO SACRIFÍCIO COMO VIOLÊNCIA SAGRADA NA VIVENCIA DA BEATA MARIA DE ARAUJO NO MILAGRE DE JUAZEIRO

Introdução

Revendo o passado, talvez as mulheres não apreciem o que irão nele acerca de si encontrar. Memórias que talvez não desejem guardar nem carregar consigo. Tempos que foram, - queira Deus nunca retornem - em que foram consideradas inferiores, menores, incapazes, tuteladas pelo pai, pelo marido ou pelo filho, enfim, pelo Homem. Arrancar tais memórias, passa pelo afã de re-evocá-las. Negação pela negação é posição que leva a uma cegueira histórica. Deve-se procurar a compreensão, além do puro revisionismo. Desde as raízes mais remotas, pelo menos em se tratando do longo período que vem da inauguração do patriarcado até agora; as mulheres foram silenciadas, oprimidas, caricaturadas. Imagens e sons que chegaram até nós da presença e influência feminina na história, são-nos desfocadas, contadas por homens, de modo que tais mulheres são mais travestidos mitos, que símbolos autenticamente femininos.

Ações imprudentes, impensadas, incivilizadas, foram atribuídas às heroínas do gênero feminino, como se a sombra masculina personificada nelas, fosse a constelação de tudo que o homem em si mesmo via de perigoso ou mau. As mulheres foram consideradas danosas, envoltas em males e mistérios, o que descambou no arquétipo de feiticeira, sereia assassina, fiandeira de intrigas e causa dos crimes. É máxima proverbial o "cherchez La femme" dos franceses. Procurai a mulher e encontrareis o pivô do misterioso caso de destruição, a razão do furto ou assassinato, ou a causa mortis do cadáver.

Os mitos dos gregos, as tragédias, as histórias da Bíblia, e muitas outras fontes literárias, padecem de uma originalidade comum que lhes desfalca a verdade. Foi em sua grande ou maior parte, escrituras de homens, expressão dos desejos ou temores de homens. As mulheres pouco ou nada de si falaram, e o quanto fizeram, foi um discurso e pensamento masculinos, na qual nunca eram sujeitos, mas objetos de discursividade. Tais sementes de memórias negativas e culposas, de ideias de sedução e pecado, ou ações pouco edificantes e descaridosas; foram transmitidas pela masculinidade preconceituosa como narrativa tendenciosa.

No entanto as mulheres foram responsabilizadas pelos conteúdos construtivos e favoráveis ao amor, à vida comunitária, à estruturação da civilização e das sociedades. Muitas coisas boas foram pensadas e arquitetadas por elas. Não se pode negar o quanto as mulheres tornaram esse mundo um lugar mais fraterno e humano, melhor de se viver. Jamais faltaram às mulheres a inteligência, a vontade e o afeto naturais, para que homens , maridos, filhos ou pais, vivessem conjuntamente como irmãos em genuína fraternidade, num convívio social saudável. A injusta desigualdade impôs a ternura como referencial da mulher, mas por seu turno criou pela mesma divisão social, para o gênero feminino, neste domínio das emoções, uma outra arena. Impossibilitada de combater com crueldade, no sistema predatório e beligerante; viu-se imersa no aprendizado dos afetos e da trama existenciais com maestria, sendo uma senhora da sensibilidade, no reino do simbolismo e da cultura.

As memórias das mulheres não se deixaram morrer no ostracismo do sexismo e do patriarcado. Não sepultaram-se sob o peso das culpas e omissões dos homens do poder, que controlam presentes e passado...O novo que é o devir, tornou-se ironicamente o feminino, o negado. A vocação para o amor, que controla e ameniza os rigores da justiça, trouxe via resgate da feminilidade, outras compreensões da condição feminina e sua luta pela liberdade.

Sucessivamente, na rápida emancipação de amarras milenares, os dois últimos séculos assistiram a vitória das sufragistas, a inserção no mercado de trabalho, a libertação do jugo oficial tutelar do marido, a administração econômica do lar e dos negócios, a direção e comando nos altos escalões governamentais e chefias de Estado. Desconhecido em grande parte e por outra ignorado, o injusto jugo da desigualdade salarial persiste. Muitas batalhas e lutas fazem reacender sempre viva a chama da rebeldia e da insubordinação contra uma diferença tornada desigualdade injusta. As mulheres são continuadoras da luta por emancipação da humanidade, ao pleitearem suas conquistas e ganharem mais territórios políticos, necessários ao direito de serem sujeitos históricos, nas ânsias por emanciparem a si próprias.

Há algo que nunca poderemos atribuir às mulheres. A condição de vítimas passivas da história. Não pesa sobre a condição feminina, o pecado ou o defeito moral da indolência. São e foram as mais laboriosas, dentre as criaturas. Com a revolução na divisão social do trabalho, no pós-guerra; as mulheres tornaram-se ainda heroínas pela sobrecarga da dupla jornada. Não se desincumbiram do mister da maternidade e do trabalho doméstico. Estados descumpriram cláusulas sociais elementares, que deviam lhes garantir escola integral para os filhos e bem aparelhadas creches.

A força atribuída ultimamente às mulheres, como resultado de suas conquistas, terá sido em grande parte uma recompensa da sua peculiar combatividade. O trabalho as confirmou como participantes de uma criatividade quase infinita. Não temeram as mulheres ocuparem altos cargos, elevados postos e administrar grandes fortunas. Muito da produtividade do atual sistema deve-se a terem sido incluídas no mercado de trabalho e desempenharem de modo extraordinário o papel que coube à elas. Entretanto, são ainda injustamente sub-remuneradas, flagrante contradição de um modelo que ainda é patriarcal e masculino. O persistente dado além de injusto, leva-nos a refletir sobre o que ainda persiste de sexismo, desigualdade de gênero e injustiça, para com a condição feminina, num rápido olhar sobre a recente história.

Os sistemas de pensamento e discurso ainda revelam-se eminentemente masculinos. As religiões majoritárias patriarcais são escandalosamente masculinas. Não há deusas, nem filhas de deusas, nem deusas-mães, no panteão judaico-cristão, nem no Islão; nas chamadas religiões originadas em Abrahão, ou "religiões do livro"...Os credos e as confissões, padecem dessas indesculpáveis lacunas.  A linguagem, os pronomes, os atributos das divindades, tudo é paternalista e anti-feminino. Os mitos carregam força pentamilenar, de uma desigual e injusta história, a história chamada "adâmica".

A impressão que o senso comum possui, é de que a dominação masculina é original e divinamente instituída, portanto eterna. No Ocidente, os discursos das chamadas igrejas, notadamente da Igreja majoritária, são abertamente patriarcais, sexistas, falocêntricos e machistas.  Lacunas que reproduzem-se na ausência de pastoras, de sacerdotizas, de episcopisas e papisas...À mulher cabe o papel de co-adjutora, co-auxiliadora, como na historinha de Adão, ainda que em feitio de eufemismo, seja um clone próximo do coração, da celebérrima costela.

 Única resposta autêntica ao dogma divino patriarcal, é a feminina insubmissão. Contra o silêncio, armam-se as mulheres do saber, da informação e a palavra. Ainda no reino dos saberes, modelos teóricos arbitrários impõem às mulheres lugares de uma mordaça, ora expressa como não-palavra, ausência-de-fala que é do falo ausência, castração, antagonismo da dogmática e fálica presença. Quem ou o que define que o homem é portador do símbolo de algo que falta às mulheres? As mulheres por sua vez, não poderiam ser portadoras de muita coisa que falta nos homens? Aos homens também não faltaria o gerar, o amamentar, o parir? E nem por isso sentiriam os homens uma hipotética e convencional feminina inveja?

Além dos padrões sociais, as mulheres não se deixaram arrastar submissas pelas forças coercivas de sociedades e Estados. Nas religiões, embora silenciadas e condenadas à clausura, à repetição dos dogmas patriarcais, e seus discursos masculinos; encontraram as mulheres espaços de conviver, pensar, conhecer, sobretudo ler, e escrever. Numa tradição literária, muitas foram as místicas, as autoras de literatura psicológica refinada, meditação ou simples devoção, e piedosas leituras. Nas ciências, na filosofia, as representantes do gênero feminino ousaram abrir espaços em que suspenderam heroicamente de sobre si o anátema.

Surgiram as mulheres que se tornaram cientistas, descobridoras, inventoras. Arriscaram quebrar corajosamente os látegos dos destinos que lhes impingiram, despedaçaram jugos, curaram doenças, arrancaram as amarras da condição hereditária de subserviência, exploração e pobreza. Fizeram dos tempos e da confluência destes, momentos preciosos de práxis libertária. Sobretudo na competitividade, alargaram o espaço que aos homens estava restrito este ou aquele território. Não houve um só em que nele não adentrassem as mulheres, e demonstrassem pela via empírica, a falácia do dogma da feminina inferioridade ou fragilidade. Aos homens atônitos e de surpresa apanhados, comprovaram a força da palavra e da categoria da igualdade.

Na memória iconográfica católica, fundante no sistema de padroado português, transplantado para o Brasil, iremos encontrar sinais da submissão e subordinação das mulheres, face à exclusiva predominância masculina hierárquica. É a filha martirizada pelo pai, como Santa Bárbara, degolada pela espada malsã; ou a cidadã assassinada pelo tirano, como Santa Luzia, dos olhos arrancados. Em todos os elementos do martírio, está presente o sangue derramado. Sem a efusão do elemento divino, considerado a presença real do Deus imolado, não haveria o sacrifício, e sem ele nenhum sentido teria a sua renovação cotidiana na missa.

A própria religião funda-se num sacrifício. Justamente porque propõe um sacrifício, a morte substitutiva, ou eliminação da vítima expiatória; apresenta-se como alternativa social para que não haja sacrifícios generalizados como a vingança, nem mortandade coletiva. O sacrifício tem como função impedir novos e futuros sacrifícios. É o que pensa René GIRARD, acerca da imolação sacrificial: "Afirmamos que o religioso possui como objeto o mecanismo da vítima expiatória; sua função é perpetuar ou renovar os efeitos desse mecanismo, ou seja, manter a violência fora da comunidade".(A Violência e o Sagrado, pág. 121,São Paulo - SP, Ed. Paz e Terra, 3a. edição, 2008).

Com a experiência de Juazeiro envolvendo a pessoa do Padre Cícero e da Beata Maria de Araújo, o feminino aparece em sua duplicidade, do interdito e do sagrado. Ao mesmo tempo em que é uma mulher, e, portanto, sujeita à ordem hierárquica e subordinada da instituição eclesiástica, via mediação do sacerdote; a Beata apresenta uma ruptura dessa ordem, revelando-se nela, - fora do sacramento eucarístico institucional-, a presença do sangue do sacrifício, tornado nela vivo e real. É inevitável a associação, e a identificação direta que o senso comum faz dessa presença sanguínea na boca da Beata.

Ela é um outro Cristo, que sofre, que se sacrifica, e prova disso, é que tal como Cristo, sangra. É a hóstia, portanto, o Cristo vivo e imolado, quem nela vem de novo sofrer, e redimir os pecados da comunidade. Uma revelação do mistério, que o faz apropriado, participado, tal uma comunhão, da gente de uma cidade, que também sente os efeitos devastadores regionais do sofrimento. Todavia, essa irrupção do mistério num ser desprovido de autorização, como uma representante do gênero feminino, não será aceita jamais pela ortodoxia dos homens da Igreja. Aprovar a sobrenaturalidade do fato seria atestar o milagre, e admitir Cristo não mais somente na Eucaristia, que só os homens podem sacralizar, mas inclusive na simples mulher analfabeta, pobre e negra, ainda que devota e filha da Igreja.

Daí a necessidade que se silencie a Beata, desprovida de autoridade, destituída de voz, para que fale apenas e ensine, a palavra oficial e sagrada do magistério letrado e autorizado institucional. Silencia-se a mulher, para que fale a Igreja. Impedida de sequer falar sobre o que acontece em si mesma, a Beata é desautorizada, numa tentativa clara de lançá-la ao descrédito. Em vez de santa, eleita ou agraciada, a humilde portadora do dom do milagre é considerada suspeita de heresia...É por uma suspeição prévia de heresia, que será julgada. Por trás do apego teológico eclesial à sua presunção de exclusividade, de modo que só o magistério masculino, possa falar em nome de Deus aos homens; está a interdição da palavra e da interpretação do divino, em toda a Tradição da Igreja, jamais confiada às mulheres. As mulheres puderam ser até admitidas como escritoras místicas, mestras literárias, e doutoras, como Santa Teresa d'Ávila... Jamais porém autorizadas à simples pregação do Evangelho, muito menos, celebrar sacramentalmente o sacrifício eucarístico, no qual se funda a religião católica e a própria Igreja.

A voz do sangue fala mais alto, é máxima popular consagrada. Tivesse a Beata uma visão, aparecessem diante dela Cristo, a Virgem Maria, ou quaisquer outros santos, ouvisse vozes, como uma Santa Joana D'Arc rediviva; não teria havido o mesmo impacto diante do miraculoso, nem sua fama correria tão célere. A efusão do sangue preciosíssimo, indubitavel associado à comprovação da dogmática transubstanciação, fez dela um milagre maior, uma viva mirabilia, fonte de admiração e contemplação, uma portadora viva do milagre eucarístico.

Entretanto, é uma iletrada filha do povo negro, um cibório humilde e desprovido do ouro sacralizado, porém portadora do dom de ser um ostensório vivo, e humano cálice, donde jorra a vida sanguínea sacramental e real, de Cristo. Daí a afluência incontável da multidão e o estupor dos mais letrados e racionalistas. Só em pensar naquela pobre beata encontrar Cristo mediante a contradição, que seria a figura da divindade inacessível, ao partilhar sua sacramentalidade pura e intocável, com uma mulher pobre, analfabeta e negra, que todos podem tocar, ou ouvi-la falar. Embora nada ensine, nem pregue, a Beata possui uma audível e inteligível eloquência. Ela sozinha, é a encarnação viva do sacrificado, que renova seu sacrifício na sua gente pobre e sofredora. Ela sangra, e isso prova que Cristo também sangra pela dor de seu povo, imola-se, para que seu povo não seja mais imolado.

Como sacrifício, o perigo do sangue que jorra da boca da Beata está em possibilitar que se veja nela um outro Cristo, que se escute à ela como a portadora do dom da voz do Cristo... É exatamente isso que a Igreja, num ato de censura prévia irá obstar. Pois é função do sacrifício a substituição, no lugar da comunidade, da vítima expiatória. Teria sido a prisão da Beata, uma renovação do sacrifício imposta pela própria Igreja? Ao sacrificar a Beata, por um silêncio e um interdito público, com a força do anátema; evitaria a Igreja que toda a população de Juazeiro fosse considerada herética? Estaria desincumbida a Igreja, por apoiar um milagre sacramental - por que não um milagre eucarístico? - fora da mediação exclusiva do sacerdote, privilégio masculino dos homens da Igreja?

É nítida a tensão entre o normativo e o não-normativo, este último sendo associado ao feminino, lugar da interdição privilegiada feita pela Igreja, eloquente embora silenciosa. Na prédica, a instituição se declara guardiã do feminino, defensora da maternidade, e da dignidade inviolável das mulheres. Ao mesmo tempo que lhes veda o acesso ao sacerdócio, ao magistério oficial, ao episcopado. Pensar que uma mulher, ainda uma pobre analfabeta e negra, pudesse transmitir um dom restrito ao legitimado pelo sacramento da ordem - exclusividade masculina jamais transgredida na história-; seria impensável ainda hoje, quanto mais nos idos do século XX, quando as mulheres eram consideradas menores e tuteladas, na sociedade, mais ainda na Igreja.

O milagre talvez obrigasse a sacralidade via autorização masculina, e esta encontrou-a o imaginário popular na figura do padre, associando assim o sobrenatural à mediação oficial da instituição eclesial, de que era lídimo representante ordenado. Providencia então a Igreja uma outra solução prévia para desqualificar o miraculoso. Suspende dessas mesmas ordens, o próprio sacerdote, para que nele não se veja nem se ouça mais Cristo, menos ainda o corpo masculino sacerdotal de que o Cristo é o cabeça.

Desvinculado da aceitação dos pares e superiores, o Padre Cícero é - coisa impensada pelo povo! - declarado um anátema, fora da comunhão com os santos, excomungado, perdendo o direito de celebrar missa e ouvir confissão, ensinar em nome de Cristo e administrar os sacramentos da Igreja. Impedido de batizar, de casar, enfim, desautorizado de modo tácito e legal, a exercer o ministério que tão fielmente vinha por longo tempo desempenhado. Pelo bem da comunidade, raciocinam os superiores eclesiásticos, se sacrifica o padre para que toda a cidade não venha a ser sacrificada e ter lançada sobre si uma excomunhão coletiva. Perde-se um filho e ganha-se toda a região, para o bem da Igreja.

A palavra viva porém contida no sangue que palpita, que jorra, no milagre que ocorre na boca da Beata, é signo de deslocamento, de trânsito entre identidades, hierarquias e gêneros, um convite à inclusão à universalidade e maior verdade no sentido da comunhão de amor da Trindade. Num tempo em que as mulheres lentamente eram despertadas para um apelo à sua igualdade fundamental e dignidade, o sangue que jorra do sacrifício do Cristo na boca da Beata, é um discurso. Um toque do inefável na humanidade comum das pessoas não consagradas oficialmente. Embora vista-se de freira, a Beata é pelo direito canônico, uma simples leiga. Privada do dom da leitura e da escrita, apenas de ouvir e decorar repete as orações e os ensinamentos eclesiásticos do catolicismo. O que não impede-a de ser fiel, observante, e obediente.

Pertencesse à alguma ordem ou congregação religiosa, a Beata talvez tivesse sido acolhida com maior indulgência. Mas era uma beata nordestina, figura popular que ajuntava no imaginário o milagroso e também o livre território místico e político, donde surgiram revoltosos, penitentes, profetas como Conselheiro. Certo preconceito adicional por ser negra, pobre, mulher, deve ser levado em conta. Sobretudo iletrada, o que equivale dizer, não autorizada. Para os esforços da Igreja apresentar-se ao mundo como uma religião racional, aceitável à nova ideologia cientificista, admitir a Beata como santa ou dotada do sobrenatural, seria por em risco esta nova e recente concepção da Igreja. No entanto é esta a força do milagre, que por si só, seja mais eloquente que cem mil discursos. Nada escrito em papel e muita mensagem propagada aos quatro ventos, semeando germes da rebelião, e a irrupção do divino no meio do simples povo...

Difícil imaginar a Beata vendo a si própria fora do ordenamento institucional da própria Igreja. Às mulheres não competia falar, ensinar, nem pregar o Evangelho, restritas ações aos padres e bispos. Provavelmente o pouco que aprendera de cor, servia-lhe de alimento espiritual ao imaginário de esposa de Cristo, vendo-se como uma humilde freira. Criança, fora uma simples artesã de bonecas e fiandeira. Mas outras vozes urdiram a trama do seu destino, que tornaram-na, do Invisível e do Eterno, mensageira e comunicadora. Ao unir-se afetivamente como esposa ao seu Cristo, aceitou a Beata o dom que Cristo comumente faz aos que anseiam por segui-lo. Tomar a própria cruz e servi-lo, na pessoa dos mais pobres, dos mais sofridos.

Esposa do crucificado, ela encarna a crucificação em sua angústia de ver-se uma privilegiada da cruz, do sofrimento. Missionária das dores, ela deve ensinar silenciosa aos seus irmãos o dom orante e contemplativo do sacrifício. Nunca pregou a insurreição, nem a desordem. Nunca elevou sua voz contra os poderes, nem contra as injustas econômicas desigualdades. Entretanto a força silenciosa da sua subordinação revela um paradoxo. Que os humildes podem ser exaltados. E a sua exaltação poderia induzir a pensar em outras? Esse seria o perigo a ser evitado, e previamente solucionado com o seu sacrifício?

À força simbólica da encarnação e da personificação do Cristo nela, ajuntou na consciência coletiva do povo de Juazeiro e dos demais sertanejos, a da identificação com um Cristo vivo e regional. Pois ela é um deles, Cristo é um entre eles. A possibilidade que o divino transcendente seja imanente e comunicante, ultrapassa as fronteiras eucarísticas dos metais preciosos e ricos rituais da Igreja. Mesmo nos paninhos que lhe dão para absorver o sangue precioso, vê-se a simplicidade de uma devoção que não pede relicários de materiais raros, nem caros ostensórios onde Cristo se veja.

A força iconográfica e mítica está agora nela viva e encarnada. Uma palavra que dita sem ser falada, deve a todos falar de possibilidade. Sendo Cristo agora também um deles, um entre eles, que não se poderá esperar deles? Talvez aí estivesse o germe da sublevação, temida pelo ordenamento estabelecido? A Beata é símbolo de um povo que tem na fé seu tesouro. Sua esperança de redenção por um apropriar-se do divino, distancia-se do messianismo e milenarismo utópicos. Talvez uma influência gigantesca e mais salutar que a dos poderosos, que temiam ser o Padre Cícero um novo Padre Ibiapina. Mas a influência do eterno, que instaura a memória e ressignifica a história, a partir destes novos acontecimentos que de admiráveis que são pela revolução e apropriação, chamamos milagres.
BIBLIOGRAFIA

ARAUJO, Antonio Gomes de.(Pe.) (1956). Apostolado do embuste. Crato, Edições Itaytera.

DANTAS, Renato (1982). As beatas do Juazeiro e do Cariri. Juazeiro do Norte, Edições ICVC.

DINIZ, Manoel (1935). Mistérios do Joaseiro. Juazeiro, Tipografia do O Juazeiro.

FORTI, Maria do Carmo Pagan (1991). Maria de Araújo, a beata de Juazeiro. São Paulo, Paulinas.

GIRARD, René. A violência e o sagrado. Tradução de Martha Conceição Gambini. Ed. Paz e Terra, São Paulo, 2008.

SOBREIRA, Azarias (1969). O Patriarca de Juazeiro.

WALKER, Daniel (1996). Maria de Araújo, a beata do milagre de Juazeiro. Juazeiro, Edições IPESC.

































1John Fabian Muller é aluno do Programa de Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Ceará – UFC – no Instituto de Cultura e Arte – ICA. Desenvolve pesquisa ligada a temática da violência sagrada, tendo como principal teórico René Girard, com foco na relação entre sacrifício e rivalidade mimética. E-mail:Muller@alu.ufc.br. Endereço: Rua Dr. José Lourenço Nº 1910,– Apt. 1102 – Bairro: Aldeota – CEP: 60.125.180 – Fortaleza –CE

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