A escola sobe o morro: práticas de educaçÃo ambiental no ensino fundamental para preservaçÃo do patrimônio ambiental local da cidade de redençÃO, pará brasil



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A ESCOLA SOBE O MORRO: PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO ENSINO FUNDAMENTAL PARA PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO AMBIENTAL LOCAL DA CIDADE DE REDENÇÃO, PARÁ BRASIL
Maria Josilene Fontinele Rocha1

Lucídia Fonseca Santiago2


Resumo: Este trabalho investiga a relevância de se desenvolver Práticas Pedagógicas contextualizadas em Educação Ambiental, para a preservação do patrimônio local. Teve como objetivo aplicar e analisar tais práticas com alunos da rede pública municipal, buscando principalmente o contexto local para se entender o regional e o global. A ênfase recaiu sobre a abordagem qualitativa, e buscou-se evidenciar a mudança de postura ambiental dos alunos a partir do desenvolvimento das práticas na escola e comunidade. Utilizou-se na coleta de dados de questionários, entrevistas e atividades com a turma pesquisada como; palestras, trilhas interpretativas, visitas no bairro, oficinas e elaboração de um gibi educativo discutindo a preservação ambiental, tendo sempre o contexto do aluno como foco, em especial o Morro do Serrinha, que é um patrimônio da comunidade. Os resultados estão apresentados a partir da descrição e análise das práticas pedagógicas desenvolvidas. Concluiu-se que ao se trabalhar a Educação Ambiental, tendo como objeto, o patrimônio ambiental local, permite-se ao aluno construir novos conceitos e percepções sobre o meio ambiente a partir do seu próprio contexto, o que os possibilita assumirem uma postura filosófica e emancipatória frente as questões ambientais, tornando-os multiplicadores dessas ideias na sua comunidade.

Palavras-chave: Educação Ambiental, Preservação Local, Práticas Pedagógicas



Introdução
A presente pesquisa, foi desenvolvida no período de fevereiro a dezembro de 2014 e é parte da dissertação de mestrado apresentada pela autora, no programa de Pós-Graduação em Ciências e Meio Ambiente da Universidade Federal do Pará. Teve como foco principal um estudo de caso realizado com uma turma do 5º ano do Ensino Fundamental, no município de Redenção/Pará, com a temática meio ambiente e preservação do Morro do Serrinha, que faz parte do patrimônio ambiental da comunidade. Este e outros pontos pertinentes à área ambiental, foram abordados de forma simples, utilizando-se de Práticas Pedagógicas3 (PP) interdisciplinares, que pudessem contribuir para o despertar da cidadania e consciência ambiental dos alunos e da comunidade.

Buscou-se com o estudo, verificar, se houve mudança de postura ambiental dos alunos pesquisados, a partir do desenvolvimento das PP em sala de aula, onde os conteúdos foram abordados de forma interdisciplinar e utilizando o contexto do aluno como “tema gerador” dessas práticas.

Segundo Martinez (2006), nos últimos cinquenta anos a questão ambiental adquiriu uma grande importância, a partir da maior disseminação de problemas relacionados ao tema, como: catástrofes naturais, doenças desconhecidas, contaminação de águas e solos e outros tipos de problemas desencadeados pela ação do homem na natureza e os seus efeitos na vida humana.

Apesar de vários conceitos terem sido apresentados, na tentativa de definir cientificamente o que significa Meio Ambiente (MA), para Reigota (2010) não existe um consenso sobre MA na comunidade científica, o que o faz considerar a noção de MA como uma representação social. Essa representação social e a visão do indivíduo sobre o seu meio, precisa ser despertado, levando-o a refletir e agir no sentido de participar ativamente de ações transformadoras de sua realidade. Nesse sentido é no ambiente escolar, onde deve iniciar a construção e o despertar dessa consciência ambiental.

Considerando a função da escola como construtora do conhecimento e facilitadora do ensino aprendizagem, acredita-se que ações que venham ao encontro dessas necessidades precisam ser afloradas e postas em prática. Neste contexto a Educação Ambiental (EA) se apresenta como perspectiva para trabalhar temas relevantes em MA, principalmente na solução de problemas locais e que venham propiciar mudanças de hábitos e atitudes na comunidade.

As primeiras manifestações em EA remontam da década de 60 com o livro “Primavera Silenciosa”4 de Rachel Carson que já alertava sobre ações danosas do homem sobre o meio ambiente. De lá para cá, várias conferências, seminários e cursos foram realizados, a fim de estabelecer uma política de EA, que garantisse práticas de educação ambiental a nível formal e não formal.

No Brasil, a inserção da EA nas escolas em todos os níveis de ensino está prevista na Lei Federal 9.795/99 (BRASIL, 1999) e os PCNs5, sugerem sua abordagem nas escolas de forma transversal. Mesmo assim percebe-se que o tema ainda carece desenvolver-se de forma efetiva nas escolas.

É importante enfatizar que a cidade de Redenção, no estado do Pará, Brasil, local da pesquisa, faz parte da região amazônica e possui ecossistemas e patrimônios ambientais que precisam ser preservados. Mesmo assim, constatou-se que as ações em EA nas instituições de ensino do município ainda não estão aplicadas de modo eficiente. A abordagem dos conteúdos dentro das disciplinas muitas vezes,não explicitam a forma como esses conteúdos são trabalhados e principalmente não consideram os contextos locais na aplicação destes.

A iniciativa de uma abordagem de estudo de caso poderia ser uma tentativa de mensurar a efetividade da introdução da EA no contexto escolar, desenvolvendo PP em EA, a partir do conteúdo das disciplinas da série, utilizando o contexto do aluno como um tema gerador para nortear tais práticas. Segundo Martins (2008), o estudo de caso se caracteriza por estudar uma unidade específica dentro de um contexto peculiar, eleito por critérios determinados, onde são utilizadas diversas fontes de dados e que oferecem uma visão mais integrada da pesquisa.

Na sequência apresenta-se a possibilidade da EA como ferramenta para o despertar de uma atitude filosófica, emancipatória e consequentemente transformadora, que acontece a partir da forma como é abordada na escola, mais especificamente na sala de aula.



A Educação Ambiental como ferramenta para o exercício da Cidadania

A dinâmica da sociedade contemporânea impõe muitos desafios em todos os segmentos da vida cotidiana. A escola como integrante desses segmentos não está fora do debate, ao contrário é lá que discussões que afetam a vida em sociedade devem ser presentes.

Medina et al (2008) coloca os processos de aprendizagem e sua forma de abordagens como condição essencial para avançar na construção da sociedade e dessa forma, a escola, segundo ele, precisa se questionar sobre como lida com os conceitos e questões que são apresentadas cotidianamente aos alunos.

Para Perrenoud (1999), a escola a partir dessas reflexões deve modificar-se e oferecer aos alunos as condições e instrumentos necessários para o desenvolvimento humano capaz de participar ativamente e positivamente na sociedade e comunidade.

O despertar do aluno para os problemas locais, ganha força também nas ideias de Freire (2002) que destaca que a escola deveria ensinar os alunos a “ler o mundo”. Para tanto é necessário que os conteúdos trabalhados façam sentido e apresentem relação com o seu cotidiano. A ideia de utilizar um tema gerador no processo de aprendizagem, proposta por Freire, é bastante discutida.

Trabalhar a EA a partir dos temas ambientais locais, de um tema gerador, possibilita a construção do conhecimento, proporciona uma aprendizagem significativa. TOZONI-REIS (2006), em seu artigo; “Temas ambientais como “temas geradores”: contribuições para uma metodologia educativa ambiental crítica, transformadora e emancipatória”. Aborda essa construção, em detrimento do mero transmitir de conteúdos pelo professor para o aluno, tão criticados por Paulo Freire:


Na perspectiva da educação ambiental crítica, transformadora e emancipatória, os temas ambientais não podem ser conteúdos curriculares no sentido que a pedagogia tradicional trata os conteúdos de ensino: conhecimentos pré-estabelecidos que devem ser transmitidos de quem sabe (o educador) para quem não sabe (o educando). A educação crítica e transformadora exige um tratamento mais vivo e dinâmico dos conhecimentos, que não podem ser transmitidos de um polo a outro do processo, mas apropriados, construídos, de forma dinâmica, coletiva, cooperativa, contínua, interdisciplinar, democrática e participativa, pois somente assim pode contribuir para o processo de conscientização dos sujeitos para uma prática social emancipatória, condição para a construção de sociedades sustentáveis. Para superar o caráter informativo em busca de uma educação preocupada com a formação do sujeito ecológico, os temas ambientais, locais – significativos, têm que ser tomados como ponto de partida para análises críticas da realidade socioambiental. Vejamos então, os temas ambientais como geradores da formação crítica como importante diretriz metodológica para a educação ambiental. (TOZONI-REIS, 2006, p.97)
Pensando no debate, na instigação, a EA tem um papel fundamental nesta tomada de consciência e construção de um pensamento filosófico e emancipatório.

Segundo Reigota (2010) A EA é uma ação educativa permanente e uma ferramenta imprescindível para a construção de um pensamento crítico acerca dos principais acontecimentos no meio ambiente para que a sociedade esteja ciente da origem e das consequências das ações que são exercidas pelo homem no espaço onde vive.

O que tem sido proposto atualmente por ambientalistas para os diversos países no mundo é o desenvolvimento sustentável. Porém o que se tem observado, principalmente no Brasil, apesar da grande preocupação em se implementarem políticas ambientais, são ações que vão na contramão de tal pensamento, como; desmatamentos ilegais, queimadas, tráfico de animais, invasão de áreas proibidas e vários outros graves problemas. É preciso que a EA seja desenvolvida de forma que o pensamento reflexivo e emancipatório seja desenvolvido, principalmente a partir do contexto de cada comunidade. É preciso que os educandos sejam capazes de refletir sobre o seu meio ambiente, sobre suas ações e principalmente em como agir frente aos problemas ambientais vivenciados em sua própria comunidade, para fazerem uma melhor relação frente aos problemas globais.

Dessa forma, investigar se utilizar em sala de aula uma abordagem em EA, onde os conteúdos são trabalhados de forma interdisciplinar e contextualizada, tendo o aluno como sujeito ativo neste processo, irá contribuir significativamente para uma mudança de postura dos educadores é fundamental para a reflexão sobre a eficácia das políticas públicas educacionais para o meio ambiente.


Metodologia da pesquisa

A pesquisa foi organizada em três fases: Num primeiro momento foi feita a revisão bibliográfica e análise sobre a política de Educação Ambiental da Secretaria Municipal de Educação, o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola e plano anual da professora da série e realização de entrevistas.

A segunda fase da pesquisa constitui-se no levantamento das percepções ambientais dos alunos através de questionário e no desenvolvimento das atividades práticas pedagógicas em EA com a turma.

Buscou-se antes de tudo, ter um diagnóstico sobre o nível de conhecimento da turma, sobre a questão ambiental, para servir como parâmetro para a análise posterior da relevância das práticas pedagógicas aplicadas, que foi feita através da aplicação de um questionário antes e depois das atividades práticas, com vistas a fazer uma análise comparativa da percepção ambiental dos alunos. Seguindo a recomendação de Oliveira (1995) buscou-se uma interação entre observador e o observado, numa concepção dialógica, onde o pesquisador vê o pesquisado como um interlocutor. Assim a pesquisa contempla as particularidades e as situações que tem impacto na comunidade.



Por último, fez-se a análise qualitativa das práticas pedagógicas desenvolvidas na turma, considerando cada atividade desenvolvida e sua relevância no contexto da turma pesquisada. Posteriormente foram comparadas as respostas dos alunos aos questionários aplicados antes e após o desenvolvimento das práticas, para analisar se houve mudança de postura com relação ao meio ambiente, mais especificamente sobre o olhar dos alunos sobre o Morro do Serrinha.

Caracterização da área pesquisada

Redenção é um município brasileiro localizado no estado do Pará e na sua característica regional e local é cercada por Serras e Morros, o que a faz detentora de patrimônios ambientais valorosos. O Serrinha é um bairro localizado na periferia do município de Redenção. O bairro recebeu este nome, devido ao Morro do Serrinha (Figura 01). O referido morro faz parte da paisagem natural da cidade e dá nome a diversos estabelecimentos comerciais, Estádio de futebol e outros.

Figura 01. Imagem de satélite do bairro e morro do Serrinha. (Fonte: Google Earth)
Segundo a legislação vigente, o Morro do Serrinha é uma APP (Área de Preservação Permanente) e como pode ser observado na figura 01, está entre o perímetro urbano e uma grande área onde se percebe o avanço do desmatamento característico da pecuária muito comum na região ou de loteamentos residenciais, o que coloca em risco a própria existência do morro.

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Carlos Ribeiro, fica no topo do Morro do Serrinha. A turma escolhida foi o 5º ano A matutino. A turma é composta por 32 alunos, onde 90% dos alunos moram no setor Serrinha. A imagem na figura 02. Mostra a proximidade da escola do Morro e revela o quão presente é o Morro do Serrinha no cotidiano desses alunos.