A bordo, cerca de dois mil homens regressavam, depois de vinte e seis longos meses, nas longínquas paragens de Angola, nesse tempo, umas das províncias do império colonial português, em África



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Encontro06.11.2017
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Estávamos a quinze de Setembro de mil novecentos e setenta, algures no Oceano Atlântico, o paquete da companhia colonial de navegação, baptizado com o nome de Vera Cruz, navegava a um dia, da chegada ao cais da Rocha de Conde de Óbidos, em Lisboa.

A bordo, cerca de dois mil homens regressavam, depois de vinte e seis longos meses, nas longínquas paragens de Angola, nesse tempo, umas das províncias do império colonial português, em África. Haviam decorrido dois anos, e cinquenta e três dias, desde aquele fim de manhã, princípio de tarde, (meio-dia e dois minutos) do dia vinte e cinco de Julho de mil novecentos e sessenta e oito. Quando o cargueiro Niassa largava de Lisboa, naqueles que foram os doze dias mais longos das nossas vidas. As refeições eram tomadas de pé, com o prato na mão, as necessidades, eram feitas agarrados a um varão, com o rabo virado para o mar, dormir, era um pesadelo! Naqueles porões com tarimbas de madeira, ventilados por uma

enorme manga de lona, o cheiro era indefinido, tanto podia ser a mofo, como a bafio, ou a morte, simplesmente irrespirável. Com uma intoxicação alimentar ao quarto dia de viagem, lá chegamos ao nosso destino.

Agora era diferente, com boas condições, num navio que tinha chegado á quinze dias a Luanda em viagem comercial, nada nos faltava, camarotes para dormir, as refeições no salão, com os empregados de mesa a servir. Tinha decorrido a viagem quase sem darmos por isso. Cheira a Lisboa, catavam em coro, os passageiros daquele estranho cruzeiro, pois só se viam homens … mulheres vinham algumas, poucas, mas em primeira classe, eram as esposas de alguns oficiais, que fizeram questão de viajar com os maridos, outras já o tinham feito de avião. Ao meio-dia toca a sineta para o almoço, todos se apressaram, não só porque as refeições eram de qualidade, como também, porque era o último almoço a bordo --- sentados á mesa, alguém se lembrou, de que o dinheiro que tínhamos, ou se gastava naquela tarde, e noite, ou em Lisboa ia para o lixo. Decidimos que fosse feita uma colecta por todos, para que déssemos uma gorjeta aos garçon que tão bem nos tinham tratado, tarefa logo assumida pelo Alentejano, o meu velho amigo Emiliano, sempre disponível para estas e outras tarefas.

A tarde decorreu lenta, parecia que os relógios tinham parado, o céu de um azul cristalino parecia dar-nos as boas vindas, na minha mente, dois pensamentos contraditórios, por um lado a ânsia de chegar ao cais, abraçar os familiares, finalmente pisar o chão de Lisboa, por outro lado, estranhamente, parecia sentir uma espécie de saudade, ou um outro sentimento parecido por Luanda. Sentia aquela pontinha tão característica dos portugueses, na hora da partida, seja ela qual for! Mas bem no fundo o que eu sentia era uma enorme saudade do “Marchal Tejo”, o cão mais inteligente que conheci, e que infelizmente tive de lá deixar. Chegada a hora do jantar, ao entrarmos no salão, fomos surpreendidos pela orquestra de bordo, que nos recebia entoando acordes de música tradicional portuguesa, temas dos mais ouvidos naqueles tempos, as mesas decoradas com centros de fruta, davam um ambiente festivo aquela noite, que seria a última passada a bordo.

Terminado o jantar, uns foram até aos camarotes, outros aglomeravam-se nas varandas do navio, apanhando o fresco da noite. Naquela noite, apetecia-me estar só, a solidão quando não é imposta, funciona como um convite á reflexão, uma oportunidade para ordenar as ideias, neste caso para me preparar para enfrentar as emoções da próxima manhã. Sem dar nas vistas fui para a proa do navio, encostado a um mastro recebia no peito, o fresco da noite, enquanto mentalmente fazia planos para a chegada. Embora tudo estivesse pendente dos imperativos burocráticos do R. A. A. F. em Queluz, no que dizia respeito á entrega de fardamento, e receber as guias de passagem á disponibilidade.

O tempo passava lentamente, mas mesmo assim quando olhei para o relógio, já passava da meia-noite, olhei por instinto para a minha esquerda, e vejo um a luz intermitente, deve ser o farol de cascais! Pensei para comigo, Lisboa já está perto… mas começo a notar que o navio tinha reduzido substancialmente a velocidade. Cerca das duas da manhã fui para o camarote, mas o sono não chegava, levantei-me, fui tomar banho, quando cheguei acordei o Emiliano, ---- acorda já se vê Lisboa!.. meio ensonado, resmungou, e só me chamaste agora! Tens muito tempo, respondi, tinha rabugem, como as crianças, o diabo do Alentejano, mas lá foi tomar banho, com a maior das calmas deste mundo.

Depois de fardados a rigor, arrumados os últimos pertences nas respectivas malas, eram cinco horas da manhã quando subimos ao convés. Era enorme a algazarra, com o pessoal aos gritos! Viva a peluda! As luzes da cidade sobre as colinas, lembravam um imenso presépio, a iluminação da ponte, recordava-nos um arraial, á nossa direita o Cristo-Rei, parecia dar-nos as boas vindas, a gritaria subia de tom --- Viva a peluda, viva, viva a peluda. Os contornos da cidade eram cada vez mais nítidos, e o Vera Cruz cada vez mais devagar, os níveis de ansiedade estavam a atingir o limite, depois de passar a ponte, o navio parou, vinham a caminho os rebocadores, com a sua chegada, iniciavam-se as manobras de atracagem, eram nove horas da manhã do dia dezasseis de Setembro, quando entre lágrimas de alegria, se dava o reencontro com a família. Afinal ao chegar a Queluz, tive sorte… no depósito de fardamento estava um amigo de infância, (que infelizmente já não se encontra entre nós) o Vítor Alexandre… entreguei o saco de lona com todo o fardamento, assinei a guia, um abraço de agradecimento, e lá fui até á rua Morais soares, para casa dos meus tios, onde me aguardava um almoço de boas vindas. Durante o almoço, os meus pais o meu irmão, os meus tios e primos, todos queriam saber como tinham passado aqueles dois anos, pois confessaram que nunca levaram a sério as noticias que eu dava nos aerogramas que escrevia. No dia da partida, prometi aos meus pais que escreveria todos os dias, que era uma forma de sentirem que eu estava junto deles, promessa que cumpri religiosamente. Tinha-me informado no quartel, para ver qual as melhores horas, para levantar a bagagem que veio no porão do navio, disseram-me que a partir das cinco horas da tarde, já não havia confusão. --- Assim fiz, aluguei um táxi, e na companhia do meu Pai, e do meu Tio, fomos a Queluz levantar o que faltava, seguindo para a estação de Santa Apolónia, despachar a mercadoria. Estava decidido, só regressaria a casa no dia seguinte á noite.

Depois de jantar, manifestei o desejo de ir dar um passeio, mas sozinho, pois precisava de me ambientar, até sentia complexos de falar com as pessoas, tantos meses rodeado só de homens, era comum saírem palavrões pouco recomendáveis, mesmo a pessoas minimamente educadas. Compreenderam os meus familiares, e aceitaram de pronto as minhas pretensões, pedi para que não esperassem por mim, deram-me a chave de casa, e parti para reviver o passado. Como tinha planeado ainda a bordo, dirigi-me á estação do Cais do sodré, apanhei o comboio para o Estoril, e apeei-me na estação de Santo Amaro de Oeiras, era o regresso onde tudo tinha começado, era ali que prestava serviço no Forte da Laje, quando fui mobilizado para a guerra. Atravessei a linha do comboio, dirigi-me á cervejaria Caravela, pedi uma cerveja, sentado ao balcão fui bebendo tranquilamente, depois pedi outra, fui logo atendido, dirigindo-se a mim o dono do estabelecimento perguntou? Desculpe, a sua cara não me é estranha! O senhor é daqui! Não, não sou, mas é natural que me conheça, como eu o conheço a si, há mais de dois anos estava aqui no forte em comissão de serviço quando fui mobilizado, cheguei esta manhã, mas como durmo esta noite em casa dos tios, resolvi passar por aqui, pois afinal foi aqui que tudo começou. Estive á conversa com o senhor mais algum tempo, em seguida desci até á marginal, recordei as tardes na praia, com o bugio quase ali em frente, nada tinha mudado, regressei á estação, apanhei o comboio rumo ao Cais do sodré. Estava cumprida uma das etapas, subi a rua do Alecrim rumo ao Chiado, desci até ao Rossio, dali subi a Avenida, destino o Parque Mayer, ainda a alguma distância chegava até mim o cheiro a frango assado, recordava as revistas que ali vi, chegado ao parque, o movimento era grande, estava para breve o fim da última sessão, os rufias esperavam a saída das coristas, os táxis em fila aguardavam os artistas, seus clientes habituais, todo aquele ambiente me era familiar, mas parecia que sonhava, seria verdade, eu estava mesmo ali? As pessoas passavam e olhavam para mim, não conseguia disfarçar aquele comportamento apalermado, concerteza que pensavam, este ainda está nas nuvens.

Olhei o relógio, está na hora de ir dormir, sempre a pé palmilhei a cidade até á Morais Soares, subi as escadas até ao segundo andar, meti a chave na porta, abri, e entrei, para minha surpresa verifiquei que estava tudo de pé, aguardando a minha chegada. O dia seguinte foi dedicado á restante família, que morava noutros pontos da cidade, como tinha prometido na hora da chegada. Finalmente, já noite, Santa Apolónia, o comboio, e o regresso a casa. Passados treze meses casei, ao vigésimo segundo mês, nascia o meu primeiro filho.

Se me perguntarem se sou feliz? Direi! Sou um Homem realizado. Para mim a felicidade, não passa de um mito. Não acredito que alguém possa ser feliz, com tanta miséria no mundo .



Setembro de 2011

Segismundo Aldeia d’ Villa

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