A aventura da sobrevivência do espaço periférico num mundo que o ignora e/ou o sevicia



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Encontro06.11.2017
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A AVENTURA DA SOBREVIVÊNCIA DO ESPAÇO PERIFÉRICO NUM MUNDO QUE O IGNORA E/OU O SEVICIA

Márcio Rufino Silva

Amélia Luisa Damiani

Ricardo Baitz


Representando o Grupo de Estudos Lefebvrianos, vinculado ao LABUR – Laboratório de Geografia Urbana -, Departamento de Geografia, Universidade de São Paulo; e à linha de pesquisa A vida Cotidiana e o Urbano, diretório de pesquisa do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico -, Brasil
Para nós, a experiência sobre o urbano e a cotidianidade sintetiza relações acadêmicas e de extensão universitária há mais de uma década, reunindo pesquisadores e militantes na elaboração de livretos, que transcendendo pesquisas individuais e, ao mesmo tempo, contando com elas, sejam direcionados para além da universidade. Estes escritos visam esclarecer os fundamentos econômicos e políticos, que explicam as condições sociais, especialmente as urbanas. Começamos por escrever o livreto O futuro do Trabalho, veiculado a partir de 2006, cujo sentido era negar as ilusões quanto à inserção produtiva possível da população proletarizada. Daí escrevemos sobre a crise do trabalho e do capital como constitutivas da sociedade moderna. Uma nova fase do nosso projeto é um percurso que vai da alienação social e política à alienação espacial. Debates sobre textos clássicos de Marx e dos situacionistas, auxiliam-nos nesta trajetória. O urbano e a cotidianidade são categorias primordiais para a compreensão da mobilidade do trabalho e do habitat, que significam os termos críticos de reprodução de nossa sociedade e, nesta fase de nossa experiência, trata-se de elucidar as formas de consciência produzidas, incluindo a consciência cotidiana. A experiência particular de cada um de nós fundamenta estudos dos espaços periféricos na fronteira maior da metrópole, sujeitos a constantes expropriações, e o reconhecimento das periferias internas ao tecido urbano central. Tratamos de formas de violência: a econômica, não exatamente explícita, em que o desemprego e políticas de crescimento aparecem como ilusão de transparência, e as relações sócio-políticas, explicitadas como violência policial.

A produção do centro implica a produção da periferia, e buscamos revelar o sentido do processo de urbanização em níveis que compreendem o do econômico ao do cotidiano. Pois, para acumular riquezas, a cidade enquanto empreendimento mobiliza, além de recursos, pessoas, repondo-as em outros lugares.

O centro, que aprimora as estratégias de negócios, envolvendo o urbano para produzir a metrópole, dialeticamente produz o avanço das estratégias próprias da periferia, sem que necessariamente se constitua um contra-poder. A interação conflituosa entre centro e periferia, além de repor estes termos, fomenta uma lógica social (sócio-lógica), fazendo com que o centro avance sobre a periferia e essa se reproduza em escala ampliada e aprimorada.

Nos seus limites ou nos seus centros, na metrópole, a segregação urbana é estrutural e estruturante das relações sociais assimétricas.

Nossa contribuição pretende reunir parte de nosso debate num texto síntese, diante do projeto apresentado.
Palavras-chave: espaço periférico, formas de alienação, urbanização crítica, cotidianidade

A SOBREVIVÊNCIA DO ESPAÇO PERIFÉRICO: AS CIRCUNSTÂNCIAS E AS FORMAS DE ALIENAÇÃO

Transdução: segundo movimento do tema1
Marcio Rufino Silva
Torna-se quase um lugar-comum a afirmação de que 2016 foi um péssimo ano. Afora ter-se iniciado, pelo menos no contexto político e social brasileiro, com anúncios mal-ajambrados de uma pretensa reforma da previdência (já em fevereiro, ainda na gestão Dilma Rousseff) e de uma proposta de congelamento de contratações, evoluções funcionais e mesmo reajustes salariais nos setores públicos estaduais, com o Projeto de Lei Complementar 257, em março. Junte-se a isso a evolução das investigações, prisões e delações premiadas da Operação Lava Jato, levada adiante pela Polícia Federal brasileira, que atingiram altas figuras parlamentares e também do empresariado nacional. Uma complexa trama, eivada de paixões (contra e a favor) e um indisfarçável (e mesmo criminoso) protagonismo político de determinados setores do judiciário (sobretudo, o Ministério Público Federal e o Supremo Tribunal Federal), certos agrupamentos políticos (como o Partido da Social Democracia Brasileira, frontal oposição aos governos capitaneados pelo Partido dos Trabalhadores) e, como não poderia deixar de ser, da velha mídia, representada principalmente pela Rede Globo de Televisão, seus satélites empresariais e sua diversificação monopolista de mídias (televisão, internet, jornais e revistas etc.) país afora. Completando o quadro, a instabilidade política culmina com a deposição da presidenta Dilma Rousseff, por intermédio de um impeachment sem caracterização clara de crime de responsabilidade. Essa deposição, ocorrida em etapas, teve o seu start na vergonhosa votação dominical de 17 de abril, na Câmara dos Deputados e o seu gran finale no dia 31 de agosto de 2016, data do referendo definitivo do afastamento da presidenta no Senado Federal. Todos esses movimentos foram largamente narrados e descritos em volumosas e prestimosas análises, sobretudo no meio acadêmico e político crítico-progressista e em uma determinada fração da mídia alternativa às grandes e surradas empresas de comunicação tradicionais de coloração mais ou menos nacional.

Um quadro confuso e extremamente doloroso, porque esteve acompanhado de uma visível deterioração do quadro econômico nacional, com forte aumento do índice de desemprego e mesmo com a penúria fiscal de unidades da federação que simplesmente abdicaram de pagar os salários de seus servidores. Este é o caso, por exemplo, do Estado do Rio de Janeiro, que até o dia 3 de janeiro de 2017 não havia pago um centavo sequer dos vencimentos referentes a novembro de 2016 à maior parte de seu quadro efetivo. E a figura mais visível desse desamparo tem sido a “campanha de solidariedade” de arrecadação e distribuição de cestas básicas às parcelas efetivamente semi-escravizadas do funcionalismo fluminense, que paulatinamente passam à condição de uma vida necessitada de caridade e filantropia para a sua subsistência. O bizarro se desdobra e a linguagem linear de um texto escrito com fins acadêmicos não acompanha e não retrata completamente a dor e o desespero envolvidos nessa trágica situação.

Slavoj Zizek, em “Primeiro como tragédia, depois como farsa” (2011), inicia seu estudo relatando uma provável “maldição” que, na China, costuma ser lançada a alguém que se detesta na vida rotineira: “Que você viva tempos interessantes!” Esses “tempos interessantes”, marcados por “agitação, guerra e luta pelo poder, em que milhões de espectadores inocentes sofrem as consequências” (2011, p. 7), segundo o autor, estavam se tornando paulatinamente a realidade constante nos países centrais, assaltados pela crise do Estado de bem-estar social. Páginas adiante, ainda na introdução de seu trabalho, o autor referenda o potencial revolucionário posto pela economia (a lógica do mercado e da concorrência), e sua imposição gradativa como ideologia hegemônica, sobretudo após 1968. Continuando, afirma que atualmente “vivemos numa época pós-política de naturalização da economia”, na qual, “em regra, as decisões políticas são apresentadas como questão de pura necessidade econômica”, ou seja, “quando medidas de austeridade se impõem, dizem-no vezes sem fim que isso é simplesmente o que deve ser feito” (2011, p. 13). O fatalismo contemporâneo, com o domínio completo da economia política sobre o mais básico e elementar traço de sociabilidade interpessoal, naturaliza até mesmo a “necessidade imediata de reformas da previdência” ou, ainda, os dizeres propagandísticos da “flexibilização” dos contratos de trabalho. A esfera dos direitos submete-se à sobrevivência inconteste das necessidades abstratas do continuum do processo de acumulação.

Anselm Jappe, na visceral coletânea “Crédito à morte” (2013), retrata outros desdobramentos sócio-políticos envolvidos na crise estrutural e espetacular da sociedade produtora de mercadoras. A perspectiva do autor, pautada sobretudo da teoria crítica do valor-dissociação, caminha em uma direção ligeiramente semelhante à de Zizek quanto à autonomização da esfera da economia diante da vida social. No entanto, compreendemos que a especificidade da crítica de Jappe coloca o fetiche da mercadoria como centro duro da sociabilidade especificamente moderna e contemporânea. E mais ainda neste crítico início de século XXI, com toda a conjugação de crises (econômica, social, política, cognitiva, humanitária, ecológica etc.) e sua efetividade nas escalas da vida humana atual. O crédito à morte, para o autor, constitui um produto da extensão do crédito e endividamento, como passagem necessária de comprometimento de trabalho futuro. Esse processo, no interior de uma forma econômica que se move no limiar entre a ficção e a realidade, constitui o fundamento da dívida tanto entre indivíduos e famílias, quanto em grupos empresariais e Estados-nações. Não apenas o comprometimento do tempo: o espaço, em sua inteireza, aparece como lastro necessário a uma economia de cassino, destituída mesmo de uma perspectiva de longo prazo. Há que se realizarem os ganhos aqui e agora: pouco importam as espessuras do passado, presente ou futuro. Quanto ao espaço, sequer importam os conteúdos ou espessuras do “território” ou do “lugar”: eis a personificação do espaço-tempo da mercadoria e de seu necessário fetiche. O ápice desse processo, segundo Jappe, é que a humanidade inteira, tornada um “luxo” na perspectiva da valorização do capital, deverá ser descartada em tempos de crise (2013, p. 58); para além de uma “perversão”, enxerga o autor nesse processo para lá de neo-malthusiano uma perspectiva muito lógica em uma sociedade que alçou a transformação de dinheiro em mais dinheiro em sua necessidade mais vital.

Na vida cotidiana, a tragédia se referenda e é observável sob variados ângulos. Por exemplo, em uma padaria no “chique” e “descolado” bairro Jardim Paulista, não muito distante do Hospital das Clínicas, na cidade de São Paulo. Um ambiente da mais alta banalidade: a televisão ligada em um volume máximo, sempre sintonizada na Rede Globo, exibindo as frivolidades das “festas”, “comemorações” e “descidas para a praia” de multidões de paulistanos entediados e ansiosos pelo desfrute do curto recesso de última semana de dezembro. Entre um flash e outro dessas imagens, surge a notícia do assalto de uma joalheria em um bairro “chique” qualquer da cidade; conjuga-se à raivosidade do apresentador do telejornal a raivosidade de alguns funcionários da padaria, que prontamente solidarizam-se com a perda de patrimônio do proprietário dessa loja. Junta-se a isso os aplausos à “eficiente” Polícia Militar do Estado de São Paulo, prontamente propagandeada pela mesma mídia que acriticamente elogia o pretenso “sucesso” da política de segurança pública dessa unidade da federação. Entre um fragmento de “notícia” e outra, o diálogo entrecortado pela televisão no volume máximo inclui “piadas” entre esses funcionários sobre quem estaria ou não na lista das “delações premiadas” da “Operação Lava Jato”. Referendando o que expomos páginas atrás, o cotidiano de terror imposto pelo Estado de exceção acresce-se ao vivido e mesmo ao lúdico da vida. Quem tem dominado a narrativa, aqui?

Ainda sobre políticas de “segurança pública”, cabe destacar outro flash da banalidade estrita da vida cotidiana. Em uma posse coletiva de conselhos locais de segurança, referentes a todo o estado do Rio de Janeiro, “importantes” figuras dessa pasta naquele estado (por exemplo, os comandantes máximos das polícias civil e militar do estado, bem como o próprio secretário estadual de segurança pública) deslindam-se em longas apresentações de 20 minutos cada um, antes de entregarem as diplomações às centenas de conselheiros que atuarão em todo o território fluminense. Seus discursos, pautados em uma “democracia participativa”, incluindo uma elegia dos “cidadãos conscientes” que abdicam de seu tempo de trabalho ou mesmo de convívio familiar em prol da discussão e elaboração de políticas de “segurança pública”, mesclou-se à execução dos hinos das polícias civil e militar daquele estado. Ao longo de toda essa “cerimônia”, não faltaram os flashes dos “selfies” devidamente registrados entre determinados “conselheiros” ou “cidadãos conscientes” e esses “altos representantes” da “segurança pública” e de uma das polícias mais letais do mundo. Registre-se também os paramentos constantes nas vestimentas desses “cidadãos” que se dirigiram com pouca cerimônia a um local chamado “Cidade da Polícia”, estrategicamente localizada entre a favela do Jacarezinho e o complexo de Manguinhos, uma das regiões mais conflagradas do tenso território composto pela metrópole carioca.

Note-se que naquele mesmo dia, no final daquela cerimônia na “Cidade da Polícia”, funcionários públicos estaduais, que ainda àquela altura não haviam recebido a integralidade de seus salários referentes ao mês de outubro (isso nos primeiros dias de dezembro de 2016!), foram duramente reprimidos durante uma sessão de votação do pacote de “ajuste fiscal” proposto pelo executivo estadual fluminense e encaminhado à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Reprimidos, diga-se de passagem, por elementos daquelas festejadas polícias que faziam a “segurança” da Assembleia Legislativa, que mal recebiam também os seus próprios vencimentos e alimentavam-se, em seus quartéis e batalhões, de arroz e poucos pedaços de carne.2 A miséria se estende aos funcionários da repressão. Naquele dia, inclusive, uma das cenas mais marcantes e que circulou pelas “redes sociais” foi a invasão de policiais à Igreja de São José, no centro do Rio, de modo a posicionarem-se melhor para jogar as bombas de efeito moral nos manifestantes.3

Deslocando-se para um “intermédio” localizado entre ambos centros metropolitanos (São Paulo e Rio de Janeiro), chegamos à borda metropolitana oeste carioca, mais especificamente no município de Seropédica, a cerca de 75 quilômetros do centro da cidade do Rio de Janeiro. Neste município, onde vivem cerca de 82.000 habitantes, localiza-se o campus principal da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), bem como uma unidade descentralizada da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, localmente denominada “Embrapa Agrobiologia”. O território do município é entrecortado por importantes vias de acesso rodoviário nacional e regional: a Rodovia Presidente Dutra (BR-116), a Rodovia Luiz Henrique Rezende Novaes (ou Antiga Estrada Rio-São Paulo, a BR-465) e a Rodovia Raphael de Almeida Magalhães (ou Arco Metropolitano do Rio de Janeiro, a BR-493, inaugurada em julho de 2014). Junte-se a isso a passagem do ramal ferroviário Japeri-Mangaratiba, lindeiro aos terrenos da UFRRJ e paralelo ao traçado do Arco Metropolitano, ambos alcançando e servindo ao Porto de Itaguaí.

Além das duas importantes instituições públicas citadas acima, e mais a existência da Floresta Nacional Mário Xavier (administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICM-Bio), destacam-se a recente inserção do território do município em uma trama logístico-empresarial, pautada por médios e grandes empreendimentos industriais e “estruturas produtivas condominiadas”, bem como “adequações contemporâneas entre o desenvolvimento-modernização-crescimento econômico e uma suposta sustentabilidade ambiental de escopo atemporal” (OLIVEIRA, 2016, p. 88). Leandro Dias de Oliveira, professor do Departamento de Geociências da UFRRJ, assevera a convivência contraditória entre uma política local de desenvolvimento econômico pautada no incremento da produção industrial (uma “reabilitação ideológica da fábrica em esconderijos espaciais da metrópole”, lida pelos organismos oficiais do município como uma “revolução industrial extemporânea”), um slogan político-eleitoral pautado na “sustentabilidade” (sobretudo na gestão 2013-2016, compreendendo, inclusive, a exportação do “modelo” e “exemplo” de “planejamento urbano” a outros municípios!4) e uma realidade cotidiana duramente marcada pelas precariedades infraestruturais (saneamento básico, energia elétrica, mobilidade urbana, déficit no atendimento à saúde, à educação e outras áreas) e de segurança pública (extensão incrementada do domínio de grupos milicianos e narcotraficantes). Dessa convivência contraditória, floresce uma esquizofrenia identitária no tocante a esse território: a pobreza e a miséria de colorações nitidamente metropolitanas, uma precariedade na vida cotidiana de feição claramente periférica (as ausências e/ou presenças “perversas” de investimentos do Estado) e traços de uma ruralidade resiliente, em vias de desaparição e/ou convivência subordinada a uma lógica metropolitana, e tudo isso aliado a esses grandes investimentos empresariais pautados na confluência logística de grandes vias de escoamento da produção. Uma verdadeira “visão pelo retrovisor” dos grandes caminhões que atravessam e congestionam a BR-465, no “centro” de Seropédica, “sem criação de quaisquer laços locais”, processo esse que “desarraiga a cidade de seus habitantes e suaviza as densidades socioculturais locais” (OLIVEIRA, 2016, p. 92). Seropédica e a Região Metropolitana do Rio de Janeiro parecem sintetizar uma mal-compreendida hipermodernidade5, tão confundida com essa mal-explicada “pós-modernidade”: trata-se de uma realidade regional criticamente marcada pela alimentação constante e permanente da barbárie como a própria subsistência de um ambiente de negócios. Dito de outro modo, a miséria e a violência extrema estetizam-se e mercantilizam-se como imagem. E o descolamento entre o real e o representado há muito tempo já vem sendo criticamente levantado na literatura moderna, principalmente pela tradição marxiana...

Os tempos dessa expressão fenomênica da crise vivida no Brasil de fins de 2016, findado o impeachment e aprofundada a recessão econômica (junto à constatação de que, passados esses dois anos de recessão, a produção econômica brasileira seria quase 10% menor do que em dezembro de 2014!), bem como tendo incrementado o rol de medidas de “austeridade” praticamente imposta pelo grupo protagonista no governo cleptocrata e ultraliberal de Michel Temer, trazem um inevitável conjunto de angústias e incertezas quanto ao presente e ao futuro. Ou, ainda, quanto às “alternativas” propostas em variados leques da “opinião pública”, seja ela mais ou menos progressista do ponto de vista político: desde uma grande e abstrata “repactuação” entre as frações de classe e de interesses políticos até à convocação de uma nova Assembleia Constituinte. A lama que nos retirou o chão do real, junto ao aprofundamento da crise se esvai em saídas espetaculares: desde as imagens em sua mais crua acepção de marketing e propaganda, como as prováveis “candidaturas” do ultra-direitista e militarista deputado federal Jair Bolsonaro ou mesmo o megaempresário e apresentador de televisão Roberto Justus à presidência da República, nas eleições gerais de 2018 até o retorno de um grande “repactuador” nacional, que poderia ser o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (um dos grandes cotados e, simultaneamente, um dos mais ameaçados) ou mesmo o eterno quase-candidato ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes. Enfim, eis a roleta-russa da história em momentos críticos.

Karl Marx, nos seus “Manuscritos econômico-filosóficos” de 1844, aponta para o significado essencial da alienação na sociedade produtora de mercadorias. A partir das anotações de suas leituras de Adam Smith, David Ricardo e outros economistas políticos, e de seu constante diálogo crítico com esses autores, Marx aponta justamente para a negatividade implicada ao processo global de produção. Ou seja: desde o puro e simples embrutecimento da classe trabalhadora,6 denunciado em sua associação ao crescente monopólio do acesso à terra (sacramentado na figura jurídica da propriedade, obtida ou negociada por meios “honestos” ou não...) e dos meios de produção (com a concentração dos capitais), a venda da força de trabalho constitui-se o instrumento essencial na sobrevida da maquinaria social produtiva. A mais-valia, produto da exploração constante desse trabalho vivo, junto ao incremento da massa de trabalho objetivado, acresce a composição orgânica do capital e instiga as novas “fugas para a frente” desse mesmo processo necessariamente ininterrupto de acumulação. O mundo e o universo parecem não ter limites diante do aprofundamento dessas relações sociais pautadas na exploração e realização desse sobrevalor.

Nesses manuscritos, ainda, o autor aponta para a radical necessidade de emancipação humana, que só poderia ocorrer por intermédio da supressão da propriedade privada. Em suas palavras, tal supressão significa a “emancipação completa de todas as qualidades e sentidos humanos, tanto subjetiva quanto objetivamente”; continuando, afirma que “o olho se tornou olho humano, da mesma forma como o seu objeto se tornou um objeto social, humano, proveniente do homem para o homem”. Por fim, afirma que, “além desses órgãos imediatos”, como o olho e o ouvido, por exemplo formam-se “órgãos sociais, na forma da sociedade, logo, por exemplo, a atividade em imediata sociedade com outros” (MARX, 2004 [1844], p. 109). Adiante, complementando tal raciocínio, Marx afirma que:


A formação dos cinco sentidos é um trabalho de toda a história do mundo até aqui. O sentido constrangido à carência prática rude também tem apenas um sentido tacanho. Para o homem faminto não existe a forma humana da comida, mas somente a sua existência imediata como alimento; poderia ela justamente existir muito bem na forma mais rudimentar, e não há como dizer em que esta atividade de se alimentar se distingue da atividade animal de alimentar-se. O homem carente, cheio de preocupações, não tem nenhum sentido para o mais belo espetáculo; o comerciante de minerais vê apenas o valor mercantil, mas não a beleza e a natureza peculiar do mineral; ele não tem sentido mineralógico algum; portanto, a objetivação da essência humana, tanto do ponto de vista teórico quanto prático, é necessária tanto para fazer humanos os sentidos do homem quanto para criar sentido humano correspondente à riqueza inteira do ser humano e natural. (2004 [1844], pp. 110-111)
Trata-se de um texto riquíssimo e extremamente instigante, cuja riqueza e diversidade de significados escapa de muitíssimo longe as curtas pretensões desta apresentação. No entanto, apontando para a existência concreta e material das condições de superação da ordem pautada na economia política e na exploração da mais-valia, naquele momento Marx indicava que a resolução das oposições teóricas entre subjetivismo e objetivismo, espiritualismo e materialismo, “atividade e sofrimento” só se efetivaria na prática. Assim, superando uma atitude de contemplação quanto ao real, sobretudo no campo da filosofia, somente a atividade prática realizaria tais necessárias supressões no corpo social. Assim, a luta social, no universo da prática, aparece como uma saída a essas dicotomias ainda tão presentes e tão complexificadas mais de 170 anos depois daqueles escritos!
Referências bibliográficas

CARLOS, Ana Fani; DAMIANI, Amélia Luisa e SEABRA, Odette Carvalho de Lima. O espaço no fim de século: a nova raridade. São Paulo: Contexto, 1999.

DEBORD, Guy. Oeuvres. Paris: Gallimard, 2006.

JAPPE, Anselm. Crédito à morte. A decomposição do capitalismo e suas críticas. São Paulo: Hedra, 2013.

LEFEVBRE, Henri. La Presencia y la Ausencia – Contribución a la teoría de las representaciones. México: Fondo de Cultura Económica, 1983.

LEFEVBRE, Henri. La Production de l’Espace. Paris: Anthropos, 2000, 4.ª edição.

MARX, Karl. El Capital. México: Siglo Veintiuno, 1984, 3.ª edição, tomo III, volume 8.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.

MARX, Karl. Teorías sobre la plusvalía. Buenos Aires: Cartago, 1975, tomo 2.

OLIVEIRA, Leandro Dias de. “Seropédica sustentável”: transformações ecológico-econômico-espaciais recentes em um lacônico julgamento. In: Recôncavo: Revista de História da UNIABEU, vol. 6, n. 11, jul./dez. 2016, pp. 87-101.

SIBILA, Paula. O homem pós-orgânico. A alquimia dos corpos e das almas à luz das tecnologias digitais. 2ª ed. rev. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015.

THOM, René. Paraboles et Catastrophes. Paris: Flammarion, 1983.

ZIZEK, Slavoj. Primeiro como tragédia, depois como farsa. São Paulo: Boitempo, 2011.

A aventura da sobrevivência do espaço periférico num mundo que o ignora e/ou o sevicia: os três movimentos transdutores






1A transdução metodologicamente opera variações em torno do mesmo tema como modo necessário de compreendê-lo, no processo de superar a dedução e a indução formais. Nossa proposição para o Encontro de Geógrafos da América Latina de 2017 consiste em três variações sobre o tema explicitado no resumo, redigidos por seus signatários que estabelecem uma formação em comum. O primeiro movimento, A sobrevivência do espaço periférico: hiperespaço e formas de alienação (Ricardo Baitz), consiste em um ponto de partida conceitual. O segundo movimento, A sobrevivência do espaço periférico: as circunstâncias e as formas de alienação (Márcio Rufino Silva), articula o plano dos acontecimentos e os conceitos. O terceiro movimento, A sobrevivência do espaço periférico: da alienação social à espacial, momentos do mesmo processo (Amélia Luisa Damiani), no plano conceitual das formas de alienação, introduz a alienação espacial.

2 Disponível em: http://extra.globo.com/noticias/extra-extra/prato-de-policiais-que-fazem-seguranca-da-alerj-so-tem-arroz-pouca-carne-20600205.html. Acesso em 4 jan. 2017.

3 Disponível em: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2016/12/06/pms-usam-igreja-ao-lado-da-alerj-como-base-para-jogar-bombas-em-manifestantes.htm. Acesso em 4 jan. 2017. Ver também as queixas dos comerciantes: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/comerciantes-do-centro-do-rio-se-queixam-de-prejuizos-em-protestos-de-terca.ghtml.

4 Ver: http://www.meon.com.br/noticias/regiao/exemplo-urbanistico-de-seropedica-rj-sera-assunto-no-simposio-de-mobilidade-em-sao-jose. Acesso em 4 jan. 2017.

5Entendida neste texto em seu sentido mais negativo, superando uma certa perspectiva de caráter “iluminista”, segundo a qual a história operaria em seguidos saltos à frente na melhoria constante e cumulativa das condições de vida e das concepções sociais e práticas políticas e econômicas quanto ao mundo. O desenvolvimento progressivo das ciências e das artes, segundo essa compreensão “positiva” da história, conduziria a esse paulatino “paraíso” na Terra. Uma compreensão negativa da história admite, inclusive, uma crítica ao próprio “iluminismo”, cujos “ideais”, segundo Robert Kurz, constituiria “o contexto de ofuscamento de um pensamento crítico da sociedade, que até hoje assim se amarra a si próprio às categorias do sistema dominante da destruição universal” (KURZ, Robert. Razão Sangrenta. Disponível em: http://obeco.planetaclix.pt/rkurz103.htm. Acesso em 30 jan. 2017).

6 “Enquanto a divisão do trabalho eleva a força produtiva do trabalho, a riqueza e o aprimoramento da sociedade, ela empobrece o trabalho até a [condição de] máquina. Enquanto o trabalho suscita o acúmulo de capitais e, com isso, o progressivo bem-estar da sociedade, a divisão do trabalho mantém o trabalhador sempre mais dependente do capitalista, leva-o a maior concorrência, impele-o à caça da sobreprodução, que é seguida por uma correspondente queda de intensidade. Enquanto o interesse do trabalhador, segundo o economista nacional, nunca se contrapõe ao interesse da sociedade, a sociedade contrapõe-se, sempre e necessariamente, ao interesse do trabalhador.” MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos, 2004, p. 29.


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