Woman Hating by Andrea Dworkin



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Woman Hating by Andrea Dworkin

Para Grace Paley e em memória de Emma Goldman

... Shakespeare tinha uma irmã; mas não tente procura-la na vida de Senhor Sidney Lee. Ela morreu jovem – em fato, ela nunca escreveu uma palavra... Agora minha crença é que essa poeta que nunca escreveu uma palavra e foi enterrado no cruzamento ainda vive. Ela vive em você e em mim, e em muitas outras mulheres que não estão aqui esta noite, porque elas estão lavando a louça e colocando seus filhos para dormir. Mas ela vive; pois grandes poetas não morrem; eles são presenças contínuas; eles apenas precisam de oportunidade para andar entre nós. Essa oportunidade, como eu penso, é agora abrangida por seu poder para dar a ela. Minha crença é que se nós vivêssemos em outro século ou assim – estou falando da vida comum que é a vida real e não apenas das pequenas vidas separadas em qual vivemos como indivíduos – e tem 500 libras por ano, cada um de nós e quartos próprios; se nós tivéssemos o hábito de liberdade e a coragem pra escrever exatamente o que pensamos; se nós escapássemos um pouco da sala de estar e vermos seres humanos nem sempre em suas relações pessoais, mas em relação a realidade... Se nós encarássemos o fato, porque é um fato, que não há nenhum braço pra se segurar, mas que nós vamos sozinhos e que nossa relação é com o mundo da realidade... Então a oportunidade vai aparecer e a poeta morta que era a irmã de Shakespeare vai colocar no corpo que ela tem tantas vezes deitado. Desenhando sua vida das vidas de desconhecidos que eram seus antecessores, assim como fez seu irmãos antes da mesma nascer. Quanto a vir sem preparação, sem o esforço de qualquer parte, sem a determinação de quando ela nasce novamente ela acredita ser possível viver e escrever poesia que nós não esperávamos; pois isto era tido como impossível. Mas eu mantenho que ela viria se nós trabalhássemos pra ela, e que por trabalhar, mesmo na pobreza e na obscuridade, vale a pena.


Virginia Woolf, A room of one’s own (1929).

RECONHECIMENTO

Ricki Abrams e eu começamos a escrever este livro juntos em Amsterdã, Holanda em dezembro de 1971. Trabalhamos longa e duramente e por um monte de vida e em seguida, por muitas razões, nossos caminhos foram separados. Ricki foi para a Austrália e em seguida para a Índia. Eu voltei para Amerika. Então o livro, em seus primeiros pedaços e fragmentos, tornou-se meu como a responsabilidade para finaliza-lo. Eu agradeço Ricki aqui pelo trabalho que fizemos juntos e o tempo que tivemos juntos e este livro que veio disso.

Andrea Dworkin

*

Existe um sofrimento em um corpo e um sofrimento na mente e se as estrelas, em qualquer momento em que as observamos, derramam néctar em nossas bocas e a grama tornasse pão, nós ainda estaríamos tristes. Nós vivemos em um sistema em que fabrica tristeza; espirrando-as pra fora da fábrica, águas de tristeza, oceanos, tempestades e nós nos afogamos, e nos afogamos, mortos, muito cedo.



... A revolta é o reverso do sistema e a revolução é a virada das marés.

Julian Beck, The Life of the Theatre

A revolução não é um evento que leva dois ou três dias, em que há tiro e enforcamento. É um longo processo no qual novas pessoas são criadas, capazes de renovar a sociedade, de modo que a revolução não substitui uma elite com outra, mas para que a revolução crie uma nova estrutura anti-autoritarista com pessoas antiautoritárias a fim de reorganizar a sociedade para que seja uma sociedade de pessoas não alienadas, livres de guerra, fome e exploração.

Rudi Dutschke 7 de março de 1968

Você não ensina alguém a contar até oito. Você não diz nove e dez e o além disso não existe. Você dá as pessoas tudo ou eles não são capazes de contar nada. Há uma verdadeira revolução ou nada.

Pericles Korovessis, em uma entrevista em Liberation, Junho de 1973



INTRODUÇÃO

Esse livro é uma ação, uma ação política em qual a revolução é o objetivo. Não tem nenhum outro propósito. Não é para celebrar a sabedoria ou a baboseira acadêmica ou ideias cravadas em granito ou destinado a imortalidade. Faz parte do processo e contextualiza mudança. Faz parte do movimento planetários para reestruturar formas de comunidade e de consciência humana para que pessoas tenham o poder de viver suas próprias vidas, participar ativamente da comunidade, viver em dignidade e liberdade.

O compromisso a abolir o domínio masculino como fundamento psicológico, politico e cultural aos terráqueos é um compromisso fundamental e revolucionário. É um compromisso para transformação de si e transformação da realidade social no mesmo patamar. O âmago deste livro é uma análise sobre sexismo (o sistema de dominação masculina), em qual, explica como ele opera sobre nós e em nós. Entretanto, eu quero discutir brevemente dois problemas, tangenciais a análise, mas ainda cruciais ao desenvolvimento de um programa revolucionário e consciente. O primeiro é a natureza do movimento das mulheres e o segundo tem a ver com o trabalho do escritor.

Até a aparição da brilhante antologia Sisterhood is Powerful e o extraordinário livro de Kate Millet, Sexual Politics, as mulheres não haviam pensado em si como pessoas oprimidas. Muitas mulheres, confesso, ainda não pensam assim. Mas o movimento das mulheres como um movimento radical de libertação na Amerika pode ser datado pela aparição destes dois livros. Nós aprendemos quando reclamamos nossa história das mulheres que existia um movimento feminista em que se organizava ao redor da obtenção do direito ao voto. Nós aprendemos que aquelas feministas eram também ardentemente abolicionistas. Mulheres “saíram” como abolicionistas – saíram de seus armários, de suas cozinhas e de seus quartos; foram a reuniões públicas, jornais e às ruas. Duas heroínas ativistas do movimento abolicionista eram mulheres negras, Sojourner Truth e Harriet Tubman, e elas se tornaram o protótipo de modelo revolucionário.

Essas iniciais feministas amerikanas pensavam que o sufrágio era a chave para a participação da democracia amerikana e que livres e emancipadas, as antigas escravas iriam de fato serem livres e emancipadas. Essas mulheres não imaginavam que o voto iria efetivamente negar aos negros o mesmo, através de provas de alfabetização, qualificação de propriedades e ação vigilante policias por brancos racistas. Nem imaginavam que a doutrina do “separados, mas iguais” e os usos a qual seriam colocados.

Feminismo e a batalha para a libertação negra foram partes de um todo convincente. Esse todo foi chamado de, talvez ingenuamente, batalha pelos direitos humanos. O fato é que uma vez experienciado consciência, não há como se negar. Uma vez que mulheres experienciaram por si mesmas o ativismo e começaram a entender a realidade e o significado de opressão, elas começaram a se articular politicamente e conscientemente sobre feminismo. Seu foco, seu objetivo concreto, era obter o sufrágio feminino.

O movimento das mulheres foi formalizado em 1848 em Seneca Fall, onde Elizabeth Stanton e Lucretia Mott, ambas ativistas abolicionistas, chamaram a convenção. Essa convenção elaborou A declaração de direitos e sentimentos de Seneca Falls, que até atualmente é uma excelente declaração feminista.

Na batalha para votar, mulheres desenvolveram muitas táticas que foram usadas quase um século depois no Movimento dos Direitos Civis. Na ordem de mudar as leis, mulheres tinham que viola-las. Na ordem para mudar a convenção, mulheres tiveram que viola-la. As feministas (sufragistas) eram ativistas militantes políticas que usaram táticas de desobediência civil para atingir seus objetivos.

A batalha para o voto começou oficialmente com a Convenção de Seneca Falls em 1848. Não foi até 26 de agosto de 1920 que mulheres receberam o direito ao voto por tão adorável eleitorado masculino. Mulheres não imaginavam que o voto iria praticamente vingar, quem diria transformar suas próprias situações como oprimidas. Nem imaginavam que a doutrina “separados, mas iguais” iria se desenvolver como arma do domínio masculino. Nem imaginavam os usos para que seriam utilizados.

Sempre houve feministas individuais – mulheres que violaram a estrutura de papéis femininos, que desafiaram a supremacia masculina, que lutaram pelo seu direito de trabalhar ou pela liberdade sexual ou serem libertas das amarras do contrato marital. Esses indivíduos eram comumentemente eloquentes quando falavam sobre a opressão que sofriam como mulheres em suas vidas, mas outras mulheres, treinadas propriamente para os papéis femininos, não escutaram. Feministas, constantemente como indivíduos, mas as vezes em grupos militantes, lutaram o sistema que as oprimia, analisaram-a, foram presas, foram ostracizadas, mas não havia nenhum reconhecimento genérico entre as mulheres que eram oprimidas.

Nos últimos 5 ou 6 anos, esse reconhecimento se tornou mais difundido entre as mulheres. Nós começamos a entender a extraordinária violência que nos foi feita, que esta sendo nos feita: como nossas mentes abortaram devido ao desenvolvimento de uma educação sexista; como nossos corpos foram violados por imperativos de preparação opressivos; como a policia funciona contra nós em casos de estupro e abuso; como a mídia, escola e igrejas conspiram para nos negar dignidade e liberdade; como o núcleo familiar e o ritual de comportamento sexual nos aprisiona em papéis e formas que nos são degradantes. Nós desenvolvemos sessões de conscientização para tentar medir a extensão extrema de nosso desespero; para tentar encontrar a profundidade e os limites de nossa raiva internalizada, tentar encontrar estratégias para nos libertar de relacionamentos opressivos, de masoquismo e passividade, de nossa falta de respeito próprio. Tinha tanto dor como ecstasy nesse processo. Mulheres descobriram uma a outra, pois real nenhum outro grupo oprimido não havia sido tão dividido e conquistado. Mulheres começaram a lidar com a opressão concreta: se tornar parte do processo econômico, a apagar leis discriminatórias, a ganhar controle sobre nossas próprias vidas e sobre nossos próprios corpos, a desenvolver habilidades concretas para sobreviver em nossos próprios termos. Mulheres começaram a articular uma análise estrutural sobre a sociedade sexista – Milett o fez com Sexual Politics; em Vaginal Politics, Eljen Frankfort demonstrou o complexo e mortal preconceito anti-mulher do estabelecimento médico; em Women and Madness, Dr. Phyllis Chesler mostrou que instituições mentais são prisões para mulheres que se rebelaram contra os papéis tão bem estabelecidos femininos pela sociedade.

Nós começamos a nos ver claramente e o que nós vimos foi terrível. Nós vimos que nós éramos, como Yoko Ono escreveu, os niggers1 do mundo, escravos dos escravos. Nós vimos que nós éramos os niggers definitivos, lambendo, curvando, em situação crítica, tolos confusos. Nós reconhecemos todos os comportamentos sociais como comportamentos aprendido que funcionam como meio de sobreviver em um mundo sexista: nós pintamos a nós mesmas, sorrimos, pernas e bunda expostas, ter filhos, cuidar da casa como nossas acomodações para a realidade do poder político.

A maioria das mulheres envolvidas em se articular quanto a opressão de mulheres eram brancas e de classe média. Nós gastávamos, mesmo se nós não controlávamos ou ganhássemos o nosso próprio dinheiro, uma enorme quantidade de dinheiro. Devido a nossa participação no estilo de vida de classe média, nós éramos as opressoras de outras pessoas, nossas irmãs brancas e pobres, nossas irmãs negras, nossas irmãs mexicanas – e os homens que por sua vez os oprimia. Esse tecido intimamente e entrelaçado da opressão, que é a estrutura de classes e racista que é a Amerika hoje, segura de que onde quer que esteja, era com, pelo menos, um pé pesadamente na barriga de outro ser humano.

Como uma mulher branca e de classe média, nós vivemos em uma casa com o opressor de todos nós, que nos sustenta e nos abusa, nos veste e nos explora, que nos “estima” pelas várias funções que realizamos. Nós somos as mais alimentadas, mais bem vestidas, mais bem mantidas, mais dispostas concubinas que o mundo já conheceu. Nós termos nenhuma dignidade e nenhuma real liberdade, mas nós temos boa saúde e vidas longas.

O movimento das mulheres não lidou com essa questão pão-com-manteiga e isso é um grande fracasso. Houve pouco reconhecimento que a destruição do estilo de vida de classe média é crucial para o desenvolvimento de forma decente da comunidade, em qual todas as pessoas podem ser livres e terem dignidade. Certamente não há program que lide com a realidade do sistema de classe na Amerika. Ao contrário, muito do movimento das mulheres tem, com uma terrível cegueira, se recusado a tomar qualquer tipo de responsabilidade. Somente o movimento de creches tem de alguma forma refletido, ou agido programaticamente, as necessidades concretas de todas as classes de mulheres. A raiva a administração de Nixon por blindar os fundos de creches é ingênua, no mínimo. Lembrando da estrutura de poder políticos e capital na Amerika, é ridículo esperar que o governo federal atue no interesse das pessoas. O dinheiro disponível para mulheres de classe média que se intitulam como feministas precisa ser canalizado em programas que nós queremos desenvolver e nós precisamos desenvolver. Em geral, mulheres de classe média tem se recusado completamente a tomar qualquer ação, fazer qualquer comprometimento em qual poderia interferia com, ameaçar ou alterar significantemente seu estilo de vida, um padrão de vida em qual é endinheirado e privilegiado.

A análise do sexismo nesse livro explana claramente o que a opressão de mulheres é, como funciona, como ela se esta enraizada em nossa psique e em nossa cultura. Mas a análise é inútil, a menos que seja ligada a consciência política e comprometimento que completamente redefinirá a comunidade. Não se pode ser livre, nunca, nunquinha, em um mundo que não seja livre, e no curso de redefinir família, igreja, relações de poder, todas as instituições em qual habitam e governam nossas vidas, não há meio para se segurar em privilégios e conforto. Para tentar fazer isso é destrutivo, criminal e intolerável.

A natureza da opressão das mulheres é única: mulheres são oprimidas como mulheres, independentemente de classe ou raça; algumas mulheres têm acesso significante a riqueza, mas riqueza não significa poder; mulheres podem ser encontradas em todos os lugares, mas possuir ou controlar por si mesmas nenhum território apreciável; mulheres vivem com aqueles que as oprimem, dormem com eles, tem os filhos deles – nós somos entrelaçados, desesperadamente, ao que parece, no âmago da fábrica e no modo de vida que nos arruína. Talvez, o mais importante seja que a maioria das mulheres tem pouca noção de dignidade ou respeito próprio ou força, uma vez que essas qualidades são diretamente ligadas ao sendo de masculinidade. In Revolutionary Suicide, Huey P. Newton nos fala que os Black Panthers não usaram armas, porque esses eram símbolos de masculinidade, mas encontraram a coragem de agir como agiram, porque eles eram homens, Quando nós mulheres encontrarmos a coragem de nos defendermos, de tomar um partido contra brutalidade e abuso, nós estamos violando todas as noções de mulheridade que já nos ensinaram. O caminho para a liberdade para as mulheres está fadada a ser tortuosa apenas por esse motivo.

A análise nesse livro se aplica as situações de vida de todas as mulheres, mas todas as mulheres não estão necessariamente em estado de emergência primária como mulheres. O que eu quero dizer com isso é bem simples. Como uma judia na Alemanha nazista, eu seria oprimida como mulher, mas caçada e abatida como uma judia. Como uma indígena americana, eu seria oprimida como uma mulher, mas caçada, abatida como uma indígena americana. Essa primeira identidade, aquela que traz consigo como parte de sua definição morte, é a identidade de emergência primária. Isso é um reconhecimento importante, porque libera de uma confusão séria. O fato é, por exemplo, que muitas mulheres negras (mas não todas) experienciam emergência primária como negras, isso não diminui a responsabilidade da comunidade negra de assimilar isso em outra análise de seximo e aplica-la em seu próprio trabalho revolucionário.

Como uma escritora com um compromisso revolucionário, eu estou particularmente triste com os tipos de livros que escritores escrevem, e as razões porquê. Eu quero escritores escrevam livros porque eles estão comprometidos com o conteúdo desses livros. Eu quero escritores escrevam livros como ações. Eu quero escritores que escrevam livros que podem fazer a diferença em como e até porque as pessoas vivem. Eu quero escritores escrevam livros que valem a pena serem presos por, valem a pena lutarem por e deveriam ir a isso nesse país, valem a pena morrer por.

Livros são, pela maior parte da Amerika, empreendimentos comerciais. Pessoas os escrevem para ganhar dinheiro, para ficar famoso, para construir ou aumentar outras carreiras. A maioria dos amerikanos não leem livros – eles preferem assistir televisão. Acadêmicos bloqueiam livros em um emanharado web de baboseira e abstração. A noção é que há ideias, depois arte, depois de alguma forma não relacionada, vida. A noção é que para ter uma ideia decente ou morar é ser uma pessoa decente ou moral. Devido a essa estranha esquizofrenia, livros e a escrita deles se tornaram um bordado de como morrer. Porque há o desprezo pelo processo de escrever, escrever como um meio de descobrir significado e a verdade, e lendo como um pedaço desse mesmo processo, nós destruímos regularmente os poucos escritores sérios que nós temos. Nós nos tornamos em personagens de histórias em quadrinhos, sangramos eles com toda nossa privacidade e coragem e bom senso, exorcizamos a visão deles como um esporte, demandamos que eles nos entretenham ou que sejam ignorados no esquecimento. E é uma grande tragédia, pelo trabalho e pelo escritor que nunca foi tão importante quanto agora na Amerika.

Muitos observam que é uma terra de pesadelos, linguagem tendo nenhum significado e o trabalho do escritor é arruinado. Muitos observam que o triunfo da consciência autoritarista é a habilidade de tornar a palavra falada e a palavra escrita em nada – para que nós não pudéssemos falar ou ouvir outros pensarem. É o trabalho do escritor reclamar a linguagem daqueles que a usam para justificar assassinato, saques, violação. O escritor pode e deve fazer trabalho revolucionário, usando palavras para se comunicar, como uma comunidade.

Aqueles de nós que amamos ler e escrever acreditamos que ser um escritor é um dever sagrado. Significa dizer a verdade. Significa não ser corrupto. Significa não ter medo e nunca mentir. Aqueles de nós que que amamos ler e escrever sentimos grande dor, porque tantas pessoas que escrevem livros se tornaram covardes, palhaços e mentirosos. Aqueles de nós que amamos ler e escrever começamos a sentir desprezo mortal por livros, porque nós vemos escritores sendo comprados e vendidos no mercado – nós vemos eles vendendo no automático suas mercadorias manchadas em cada esquina. Escritores demais, a fim de manter o estilo de vida da Amerika, venderiam suas mães por um centavo.

Para manter a confiança sagrada do escritor é simplesmente respeitar as pessoas e amar a comunidade. Violar essa confiança é abusar-se e causar danos a outros. Eu acredito que o escritor tem uma função vital na comunidade e uma absoluta responsabilidade para com as pessoas. Peço que este livro seja julgado nesse contexto.

Especificamente Woman Hating é sobre mulheres e homens, os papéis que eles fazem, a violência entre eles. Nós iniciamos com o conto de fadas, os primeiros cenários de mulheres e homens em que moldam nossa psique, que nos ensinaram antes de nós podermos nos diferenciar. Em seguida, vamos para pornografia, onde encontramos os mesmos cenários, explicitamente sexuais e agora mais reconhecíveis, nós mesmos, mulheres carnais e homens heroicos. Nós vamos para a história das mulheres – a ligação dos pés na China, a queima de bruxas na Europa e na Amerika. Nisso, nós vemos as definições de conto de fadas e da pornografia das mulheres funcionando na realidade, a real aniquilação de mulheres – o esmagamento de sua liberdade até virar nada, assim como suas vontades e suas vidas – como elas eram forcadas a viver e como elas foram forçadas a morrer. Vemos as dimensões do crime, as dimensões da opressão, a angústia e a miséria que são consequências diretas da definição de papeis polares, da definição da mulher como carnal, cruel e o Outro. Nós reconhecemos que é a estrutura da cultura que edifica mortes, violações, violência e nós buscamos por alternativas, modos de destruir a cultura como a conhecemos, reconstruí-la como conseguimos imagina-la.

Eu escrevo, no entanto, com uma ferramenta quebrada, a linguagem que é sexista e discriminatória em sua essência. Eu tento fazer distinções, não história dos homens como a história de toda a humanidade, não “homem” como o genérico de espécie, não “masculinidade” como sinônimo de coragem, dignidade e força. Mas eu não tenho sido bem sucedida em reinventar a linguagem.

Esse trabalho não foi feito isoladamente. Deve muito a outras. Eu agradeço minhas irmãs que em qualquer lugar estão se levantando, para si mesmas, conta a opressão; Eu agradeço minhas irmãs, as mulheres que estavam procurando em nosso passado comum, escrevendo para que nós pudéssemos conhecer e nos orgulhar. Eu agradeço a minhas irmãs, essas mulheres em particular em qual o trabalho tem contribuído tanto para minha conscientização e resolução – Kate Millett, Robin Morgan, Shulamith Firestone, Judith Malina e Jill Johnston.

Eu agradeço àqueles que tem, por meio de seus livros e vidas, me ensinado tanto – em particular, Allen Ginsberg, James Baldwin, Daniel Berrigan, Jean Genet, Huey P. Newton, Julian Beck e Timothy Leary.

Eu agradeço a meus amigos em Amsterdam que foram minha família enquanto eu escrevia este livro e que me ajudaram em momentos muito difíceis. Eu agradeço a Mel Clay que acreditou neste livro desde o mais obscuro início; os editores de Suck e, em particular, Susan Janssen, Debora Rogers, Martin Duberman e Elaine Markson que foi simplesmente maravilhosa para mim. Eu agradeço a Marian Skedgell por seu auxilio e sua bondade. Eu agradeço a Brian Murphy que tentou me dizer a muito tempo que O era uma pessoa oprimida. Capítulo 3 é dedicado a Brian.

Eu agradeço a Karen Malpede e Garland Harris por seu apoio e auxilio. Eu agradeço a Joan Schenkar por me empurrar um pouco além do que eu estava disposta, ou capaz, a fazer.

Eu agradeço a Grace Paley, Karl Bissinger, Kathleen Norris, e Muriel Rukeyser. Sem seu amor e amizade, esse trabalho nunca teria sido concluído. Sem seus exemplos de forças e comprometimento, eu não saberia que eu seria ou como eu seria.

Eu agradeço a meu irmão Mark e minha cunhada Carol por sua amizade, cordialidade e confiança. E eu agradeço a meus pais, Sylvia e Harry Dworkin, por sua devoção e apoio por todos esses anos, em qual para eles devem ter aparentar serem intermináveis, onde sua filha estava aprendendo seu ofício. Eu agradeço a eles por terem me criado com real carinho e ternura, por acreditarem em mim a fim de que eu apendesse a acreditar em mim mesma.

Andrea Dworkin



New York City, Julho de 1973

Parte um

OS CONTOS DE FADAS

Você não pode ser livre se você esta contaminado pela ficção.

Julian Beck, The Life of the Theatre

Era uma vez, havia uma bruxa má e seu nome era

Lilith

Eve


Hagar

Jezebel


Delilah

Pandora


Jahi

Tamar


E havia a bruxa má e ela era chamada de deusa e seu nome era

Kali


Fatima

Artemis


Hera

Isis


Mary

Ishtar


E havia uma bruxa má e ela era chamada de rainha e seu nome era

Bathsheba

Vashti

Cleopatra



Helen

Salome


Elizabeth

Clytemnestra

Medea

E havia uma bruxa má e ela era também chamada de bruxa e seu nome era



Joan

Circe


Morgan le Fay

Tiamat


Maria Leonza

Medusa


E elas tinham isso em comum: elas eram temidas, odiadas, desejadas e endeusadas.

Quando alguém entrava no mundo de contos de fadas, procurava com dificuldade onde o lugar atual em que a legenda e a história se distanciam. Querem localizar o momento preciso da ficção que penetrou em nossa psique como realidade e a história começa a espelha-la. Ou vice-versa. Mulheres vivem em contos de fadas como figuras mágicas, como belas, perigosas, inocentes, maliciosas e gananciosas. No persona do contos de fada – a bruxa má, a bela princesa, o príncipe heroico – nós observamos que a cultura nos faz informa sobre quem nós somos.

O ponto é que nós não formamos o mundo antigo – ele nos formou. Nós ingerimos durante toda a nossa infância, tivemos seus valores e consciência impressos em nossas mentes como absoluto culturais bem antes de nós sermos, em fato, homens e mulheres. Nós tomamos o conto de fadas de nossa infância conosco até nosso amadurecimento, mastigado, mas ainda dentro de nossos estômagos, como uma identidade real. Entre Branca de neve e seu príncipe heroico, nossas duas grandes ficções, nós nunca tivemos muitas chances. Em algum ponto, o Grande Divisor tomou lugar: eles (os meninos) sonhavam em montar o Grande Corcel e comprar a Branca de neve dos anões; nós (as meninas) aspirávamos a nos tornar esse objeto de todo desejo necrófilo – a inocente, vitimizada, Bela Adormecida, lindo pedaço da derradeira e adormecida bondade. Apesar de nós mesmas, as vezes sem saber, por vezes sabendo, sem querer, incapaz de qualquer outra coisa, nós agimos conforme os papéis que nos foram ensinados.

Esse é o começo, onde nós aprendemos quem nós devemos ser, assim como a moral da história.



CAPÍTULO 1

Era uma vez: Os papéis

Morte é o remédio que todos os cantores sonham com

Allen Ginsberg

A cultura predetermina quem nós somos, como nós nos comportamos, o que nós estamos dispostas a conhecer, o que nós somos capazes de sentir.

Nós nascemos em um papel sexual, em qual é determinado pelo sexo visível ou gênero.

Nós seguimos cenários explícitos de passagem do parto a juventude a maturidade a idade avançada e, em seguida, nós morremos.

No processo de aderir-se aos papeis sexuais, como uma consequência direta dos imperativos desses papeis, nós cometemos homicídio, suicídio e genocídio.

Morte é nosso único remédio. Nós imaginamos o paraíso. Não há nenhum sofrimento lá, nós dizemos. Não há nenhum sexo lá, nós dizemos. Queremos dizer, não há nenhuma cultura lá. Queremos dizer, não há nenhum gênero lá. Nós sonhamos que a morte irá nos libertar de nosso sofrimento – da culpa, do sexo, do corpo. Nós reconhecemos que o corpo é a fonte de nosso sofrimento, Nós sonhamos com a morte, em qual significará liberdade disto, porque aqui na terra, em nossos corpos, nós somos fragmentadas, angustiadas – seja homem ou mulher, ligados pelo fato de que o corpo é particularizado a um papel, em qual este o é aniquilante, totalitário, que nos proíbe de qualquer real de transformação e de realização.

Contos de fadas são informações primárias da cultura. Eles delineiam os papeis, as interações e os valores, em qual são disponíveis a nós. Eles são nossos modelos infantis e seu medo, o terrível conteúdo nos aterroriza a submissão – se nós não tornarmos boas, então o mal irá nos destruir; se nós não atingirmos o final feliz, então nós iremos nos afogar em caos. À medida em que crescemos, nós esquecemos do terror – as bruxas más e suas malícias. Nós lembramos do paradigma romântico: o príncipe heroico beija Bela Adormecida; o príncipe heroico busca em seu reino Cinderela; o príncipe heroico casa com Branca de neve. Mas o terror permanece como o substrato da relação homem-mulher – o terror permanece e nós não nunca nos recuperaríamos disso ou deixamos de nos motivar por isso. Homens crescidos estão aterrorizados da bruxa má, internalizado em as partes mais profundas de sua memória. Mulheres não estão menos aterrorizadas, porque nós sabemos que não ser passiva, inocente e indefesa é ser ativamente mal.

O terror, então, é nosso real tema.



A Mãe como uma figura de Terror

Seja de forma “instintiva” ou não, o papel maternal na constituição sexual se origina no fato que somente mulheres estão necessariamente presente no parto. Apenas mulheres tem uma conexão confiável e facilmente identificável a uma criança – uma ligação em qual a sociedade pode depender. Esse sentimento maternal é a raiz da comunidade humana.

George Gilder, Sexual Suicide

A mãe biológica da Branca de neve foi passiva, uma boa rainha que sentou em sua janela e bordava. Ela espetou seu dedo um dia – sem dúvida um evento em sua vida – e 3 gotas de sangue caíram na neve. De alguma forma isso a fez a desejar uma criança “tão branca como a neve, tão vermelha como o sangue e tão negra como a madeira do bastidor.” Logo depois, ela teve uma filha com “pele tão branca como neve, lábios tão vermelhos como sangue e cabelo tão negro como ébano”. Então, ela morreu.

Um ano depois, o rei casou novamente. A nova esposa era linda, gananciosa e orgulhosa. Ela era, em fato, ambiciosa e reconhecia que beleza era a moeda em um reinado masculino, que beleza traduzia diretamente em poder, porque significava que receberia admiração de homens, alianças com homens, devoção de homens.

A nova rainha tinha um espelho mágico e ela o perguntava: “Espelho em minha parede, que é a mais bela de todas nós?” E, inevitavelmente, a rainha era a mais bela (tivesse existido uma mais bela, nós podemos presumir que o rei teria casado com ela).

Um dia, a rainha perguntou ao espelho quem era a mais bela e o espelho respondeu: “Rainha, você é muito bela, isso é verdade, mas Branca de neve é mais bela que você”. Branca de neve tinha 7 anos.

A rainha ficou “amarelo e verde de inveja e a partir daquela hora, seu coração voltou-se contra a Branca de neve, e ela a odiava. E inveja e orgulho como ervas daninhas cresceram em seu coração mais e mais a cada dia, até que ela não teve nenhuma paz...”

Agora, nós todas sabemos que as nações vão fazer para atingir a paz e a rainha menos inventiva (ela seria uma excelente chefe de Estado). Ela ordenou a um caçador a levar Branca de neve a floresta, matá-la e a trazer de volta seu coração. O caçador, um rapaz bom e sem inspiração, não conseguiu matar a jovem tão doce, então ele soltou-a na floresta, matou um javali e tomou o seu coração e o levou de volta a rainha. O coração foi “salgado e cozido e a bruxa má o comeu, pensando que esse era o fim da Branca de neve”.

Branca de neve encontrou seu caminho para a casa dos 7 anões, que a disseram que ela poderia ficar com eles “se você manter a casa pra nós, e limpar e lavar e fazer as camas e costurar e manter tudo arrumado e limpo”. Eles simplesmente a adoravam.

A rainha, que pode ser chamada agora de rainha , descobriu através de seu espelho que Branca de neve ainda estava viva e mais linda que ela. Ela tentou várias vezes matar Branca de neve, que caiu em vários sonos profundos, mas não realmente morreu. Finalmente a rainha má envenenou uma maçã e a vigilante Branca de neve a dar uma mordida nela. Banca de neve realmente morreu ou se tornou mais morta que o usual, porque o espelho da rainha má não conseguiu verificar que ela era a mais bela de todas.

Os anões, que amavam Branca de neve, não conseguiram enterra-la a baixo da terra, então eles apenas a enclausuraram em um caixão de vidro no topo da montanha. O príncipe heroico estava apenas passando por ali, quando imediatamente se apaixonou pela Branca de neve por trás do vidro e a comprou (como um objeto?) dos anões que a amavam (como se ela fosse a posse deles?). Os anões, como servos, carregaram o caixão ao lado do cavalo do príncipe, então o pedaço da maça envenenada que Branca de neve havia engolido “saiu por sua garganta”. Logo, ela reviveu completamente, ou para ser mais correta, nem tanto. O príncipe diretamente a colocou na categoria de “coisa” e se casou com ela como era a perspectiva adequada, quando ele a propôs em casamento feliz – “Eu preferiria ter você do que qualquer coisa no mundo”. A rainha má foi convidada para o casamento, que ela atendeu porque o espelho a notificou que a noiva era mais bela que ela. No casamento. “Eles já tinham pronto sapatos de ferro, em qual ela tinha que dançar até ela cair no chão morta”.

A situação da mãe de Cinderela era a mesma. Sua mãe biológica era boa, piedosa, passiva e rapidamente morta. Sua madrasta era gananciosa, ambiciosa e implacável. Sua ambição ditava que suas próprias filhas tinham que se casar bem. Entretanto, Cinderela foi forçada a fazer o trabalho doméstico pesado da casa e quando seu trabalho era concluído, sua madrasta jogava lentilhas nas cinzas do fogão e fazia Cinderela separar as lentilhas das cinzas. A malícia da madrasta para com Cinderela não era irracional. Ao contrário, sua própria validação social se baseava nos casamentos que arranjaria para suas próprias filhas. Cinderela era uma ameaça real para ela. Como a madrasta de Branca de neve, para quem beleza era poder e ser a mais bela era ser a mais poderosa, a madrasta de Cinderela sabia como a estrutura social operava e ela estava determinada a ter sucesso nesses termos.

A madrasta de Cinderela, presumidamente, estava motivada por amor maternal por suas próprias filhas biológicas. Amor maternal é conhecido como transcendental, sagrado, nobre e altruísta. Coincidentemente, é também um fundamento da civilização da humanidade (dominado por homens) e é a real base da sexualidade da humanidade (dominado por homens):

[Quando o príncipe começou a procurar pela mulher, em qual seu pé encaixaria no sapatinho de ouro] as duas irmãs ficaram muito alegres, pois elas tinham pés bonitos. A mais velha foi a seu quarto para tentar calçar o sapato e sua mãe foi junto com ela. Mas ela não conseguia colocar o dedão dentro do sapato, porque o sapato era muito pequeno; então, sua mãe a deu uma faca e disse

“Corte o dedão fora, porque enquanto rainha você nunca terá que ir a pé”. Então, a garota cortou seu dedão fora e enfiou seu pé dentro do sapato; suportando a dor, ela foi até o príncipe. Então, ele a levou em seu cavalo como sua noiva...

Então o príncipe olhou para o sapato dela e viu que dele escorria sangue. E ele retornou em seu cavalo e levou a noiva falsa para a casa novamente, dizendo que ela não era a certa e que a outra irmã deveria tentar o sapatinho. Então, ela foi ao seu quarto para fazer isso e colocou seus dedos confortavelmente neles, mas seu calcanhar era muito alto. Então sua mãe a deu uma faca e disse “corte um pedaço do seu calcanhar, pois quando for rainha você nunca precisará andar a pé”.

Então a garota contou parte de seu calcanhar e colocou seu pé no sapato; escondendo a dor, ela foi até o príncipe que a levou para o castelo como sua noiva...

Então o príncipe olhou seu pé e viu como estava sangrento...

A madrasta de Cinderela entendeu corretamente que seu único trabalho na vida era casa suas filhas. Seu objetivo era ascender socialmente e sua crueldade era condizente com os valores no mercado2. Ela amava suas filhas da mesma forma que Nixon amava a liberdade da Indonésia e com o mesmo resultado. Amore em um mundo dominado por homens certamente é uma coisa esplendorosa.

A mãe de Rapunzel não foi exatamente uma vencedora também. Ela tinha instinto maternal – ela havia “há muito tempo desejado uma criança, mas em vão”. As vezes durante seu desejo, ela desenvolveu um desejo por rampion, um vegetal que cresceu no jardim dos vizinhos, da bruxa. Ela persuadiu seu marido a roubar o rampion do jardim da bruxa e todo dia ela desejava por mais. Quando a bruxa descobriu o roubo, ela fez esta oferta

...você pode ter quanto rampion você quiser, sob uma condição – a criança que virá aso mundo deverá ser dada a mim. Tudo estará bem com a criança e eu vou cuida-la como se eu fosse a mãe.

Mamãe não pensou duas vezes – ela trocou Rapunzel por vegetais. A mãe de aluguel de Rapunzel, a bruxa, não fez muito por ela:

Quando ela tinha 12 anos, a bruxa a trancou em uma torre no meio de um bosque e não havia nem degraus, nem porta, tão somente uma janela pequena. Quando a bruxa desejava a ver, ela gritaria de baixo

“Rapunzel, Rapunzel! Solte seu cabelo!”.

O príncipe heroico, tendo terminado com Branca de neve e Cinderela, agora tinha acontecido com Rapunzel. Quando a bruxa descobriu a ligação entre eles, ela bateu em Rapunzel, cortou seu cabelo e a enclausurou “em um lugar deserto, onde ela viveria em grande aflição e miséria”. Logo após, a bruxa confrontou o príncipe, que caiu da torre e se cegou nos espinhos. (Ele recuperou a visão quando encontrou Rapunzel e eles viverão felizes para sempre).

Hansel e Gretel tinham uma mãe também. Ela simplesmente os abandonou:

Eu vou ter dizer, marido... Nós levaremos as crianças cedo da manhã para a floresta, onde é mais denso; nós faremos uma fogueira para eles e nós vamos dar a cada um um pedaço de pão, então nós vamos para nosso trabalho e os deixamos em paz; eles nunca encontrarão o caminho de casa novamente, e nós não seremos mais responsabilizados por eles.

Famintos, perdidos, assustados, as crianças encontraram a casa de doces, que pertencia a uma velha senhora que é gentil com eles, os alimenta, os abriga. Ela os cumprimenta como seus filhos e prova seu comprometimento maternal através de os preparar para os canibalizar.

As mães dos contos de fadas são figuras femininas mitológicas. Elas definem para nós o personagem feminino e delineia as possibilidades existenciais. Quando ela é boa, ela é logo morta. De fato, quando ela é boa, ela é tão passiva na visa que sua morte deve ser tão mais do mesmo. Aqui nós descobrimos o princípio cardinal da ontologia sexual – a única mulher boa é a mulher morta. Quando ela é má, ela vive ou quando ela vive, ela é má. Ela tem uma real função, maternidade. Nessa função, porque é ativa, ela é caracterizada por extrema malícia, destruidora ganância, incontável avareza. Ela é cruel, brutal, ambiciosa, um perigo para crianças e demais seres vivos. Seja denominada mãe, rainha, madrasta ou bruxa má, ela é uma bruxa má, o teor do pesadelo, a fonte do terror.



O lindo pedaço derradeiro

O que pode fazer? Ele cresce,

Ele sangra. Ele dorme.

Ele anda. Ele fala,

Cantando, “o amor me pegou, me pegou”.

Kathleen Norris

Para uma mulher ser boa, ela deve estar morta ou o mais próximo disso. Catatonia é a qualidade mais apreciada em uma mulher boa.

Bela adormecida dormiu por 100 anos, após espetar um dedo em um fuso. O beijo do príncipe heroico a acordou. Ele se apaixonou por ela enquanto ela dormia, ou foi porque ela dormia?

Branca de neve já estava morta quando o príncipe heroico se apaixonou por ela. “Rogo-vos”, ele proclamou com os 7 anões, “para dar-lhe a mim, porque eu não posso viver sem olhar de cima para Branca de neve”. O despertar não era facilmente distinguível de adormecer.

Cinderela, Bela adormecida, Branca de neve, Rapunzel – todas elas são caracterizadas por sua passividade, beleza, inocência e vitimização. Elas são o arquetípico da boa mulher – vítimas por definição. Elas nunca pensam, agem, iniciam, confrontam, resistem, desafiam, sentem, se importa ou questionam. As vezes elas são forçadas a fazer o trabalho de casa.

Elas têm um cenário de passagem. Elas são movidas, como inerte, da casa da mãe a casa do príncipe. Primeiro elas são objetos de malícia, depois elas são objetos de adoração romântica. Elas não fazem nada para garantir qualquer um desses.

Uma outra figura de mulher boa, a fada madrinha, aparece de vez em quando, dispensando roupas ou virtude. Seu poder não pode se comparar com, apenas ocasionalmente moderar, o poder da bruxa má. Ela faz uma atividade física em que ela é extraordinária – ela balança sua varinha. Ela é bela, boa e sobrenatural. Maioria das vezes, ela desaparece.

Essas figuras femininas boas são os modelos heroicos disponíveis para as mulheres. No fim da história, o objetivo da vida de qualquer mulher. Para dormir, talvez sonhar?

O príncipe, o Irmão Real

O homem de carne e osso; o homem que é bom, sofre e morre – acima de tudo, que morre; o homem que come e bebe e brinca e dorme e pensa e quer; o homem que é visto e escutado; o irmão, o irmão real.

Miguel de Unamuno, Tragic Sense of Life

Ele é bonito e heroico. Ele é o príncipe, ou seja, ele é poderoso, nobre e bom. Ele cavalga. Ele viaja muito longe. Ele tem uma missão, um propósito. Inevitavelmente, ele a atinge. Ele é uma pessoa de valor. Ele é forte e verdadeiro.

Claro, ele não é real e o homem sofrem tentando se transformarem nele. Eles sofrem e matam e estupram e cometem pilhagem. Eles usam aviões agora.

O que importa é que ele poderoso e bom, que seu poder é por essência bondade. O que importa é que ele importa, age, recebe sucesso.

Pode-se destacar que na verdade ele não é muito inteligente. Por exemplo, ele não consegue distinguir Cinderela de suas duas irmãs, embora tenha dançado com ela e presumidamente conversado com ela. Seu recorrente amor de cadáveres não indica uma inteligência dinâmica também. Sua queda da torre aos espinhos nem sugere que ele seja fisicamente coordenado, embora, ao contrário de seus compatriotas modernos, ele nunca caiu de seu cavalo ou aniquilou a aldeia errada.

A verdade é que ele é poderoso e bom quando em contraste com ela. Quão pior ela é, melhor ele fica. Quão morta ela é, melhor ele fica. Essa é uma moral da história, a razão da dualidade de papeis e a realidade gasta do homem como herói.



O Marido, o Pai Real

O desejo de homens de reivindicar seus filhos pode ser o impulso crucial da vida civilizada.

George Gilder, Sexual Suicide

Primeiramente eles são reis ou nobre e ricos. Eles são, por essência, poderosos e bons. Eles nunca são responsáveis ou responsabilizados pelo mal feito pelas esposas más. A maioria do tempo, eles nem as notam.

Há, é claro, nenhuma razão lógica para considera-lo poderosos ou bons. Por enquanto eles estão governando, ou reinando, ou qual seja lá o que eles fazem, suas esposas são abatedoras e abusadoras de seus amados filhos. Mas então, em algumas culturas não ligadas ao conto de fadas simplesmente tem suas filhas mortas ao nascer.

O pai de Cinderela a viu todo dia. Ele a viu separar as lentilhas das cinzas, vestida em trapos, degradada, insultada. Ele era um homem bom.

O pai de Hansel e Gretel também tinha um bom coração. Quando sua esposa o propôs abandonar seus filhos na floresta para passar fome ele imediatamente protestou – “mas eu realmente tenho pena dessas pobres crianças”. Quando Hansel e Gretel finalmente escaparam da bruxa e encontraram seu caminho para casa “eles correram pela porta e se lançaram no abraço de seu pai. O homem não tinha parado quieto desde que ele deixou as crianças na floresta [Hansel era, afina, um menino]; mas sua esposa estava morta”. Não me entendam mal – eles não o perdoaram, pois não havia nada a se perdoar. Toda a malícia é originada com a mulher. Ele era um bom homem.

No conto de fadas, o pai casa com a mulher má no primeiro lugar, tem nenhum tipo de conexão com seus filhos, não interage de qualquer modo significativo com ela, a abandona e pior não nota quando ela esta morta, ele é uma figura de bondade masculina. E é o patriarca e como tal ele esta além das leis morais da decência humana.

Os papeis disponíveis para mulheres e homens estão claramente articulados nos contos de fadas. Os personagens de cada são vividamente articulados nos contos de fadas. Os personagens de cada um são vividamente descritos, assim como os modelos de relacionamento possíveis entre eles. Nós vemos que mulheres poderosas são más e que mulheres boas são inertes. Nós vemos que homens são sempre bons, não importa o que façam ou que não faça.

Nós temos uma prestação explicita da família nuclear. Nessa família, o amor de mãe é destrutivo, fatal. Nessa família, filhas são objetos, dispensáveis. O núcleo familiar, como delineamos nos contos de fadas, é um paradigma de homens que estão no mundo, crueldade feminina e vitimização feminina. É cultura sexista cristalizada – a estrutura nuclear dessa cultura.



CAPÍTULO 2

Era uma vez: a moral da história

Foda-se a morte, os mortos são sagrados,

Honre as irmãs de seus amigos.

Pedaços de lixo, pedaços de ações.

Pedaços.

O mais solitário das manhãs

Algo se move sobre o espelho.

Um truque de escravos, sobrevivente.

Eu me lembro pensar, na última vez:

Se você me matar, eu iria morrer.

Kathleen Norris

Eu não posso viver sem a minha vida

Emily Bronte.

As lições são simples e nós as aprendemos bem.

Homens e mulheres são diferentes, completos opostos.

O príncipe heroico jamais seria confundido com Cinderela ou Branca de neve ou Bela adormecida. Ela jamais poderia fazer o que ele faz, quanto mais fazer melhor.

Homens e mulheres são diferentes, completos opostos.

O pai bom jamais seria confundido com a mãe ruim. Suas qualidades são diferentes, polares.

Onde ele é ereto, ela é supina. Onde ele esta acordado, ela esta adormecida. Onde ele é ativo, ela é passiva. Onde ela é ereta ou acordada ou ativa, ela é cruel e precisa ser destruída.

É, pelo menos estruturalmente, muito simples.

Ela é desejável por sua beleza, passividade e vitimização. Ela é desejável porque ela é bela, passiva e vitimizada.

Sua outra faze, a mãe ruim, é repulsiva em sua crueldade. Ela é repulsiva e precisa ser destruída. Ela é a protagonista feminina, a fonte de poder não-masculina que precisa ser derrotada, obliterada, antes do poder masculino possa realmente florescer. Ela é repulsiva pois é cruel. Ela é cruel, pois ela age.

Ela, o personagem cruel, é canibal. Canibalismo é repulsivo. Ela é devoradora e mágica. Ela é devoradora e homens não devem ser devorados.

Há duas definições de mulheres. Há a mulher boa. Ela é vítima. Há a mulher má. Ela precisa ser destruída. A mulher boa precisa ser possuída. A mulher má precisa ser morta ou punida. Ambas precisam ser anuladas.

A mulher má precisa ser punida e se ela for punida o suficiente, ela se tornará boa. Ser punida o suficiente é ser destruída. Há a mulher boa. Ela é a vítima. A postura de vitimização, a passividade da vítima exige abuso.

Mulheres fazem grande esforço para serem passivas, pois mulheres querem ser boas. O abuso evocado pela passividade convence mulheres que elas são más. A má necessidade de ser punida, destruída, para que elas se tornem boas.

Mesmo a mulher que se esforça conscientemente para ser passiva, as vezes faz algo. O ato dela provoca abuso. O abuso provocado por sua atividade a convence que ela é má. A má necessidade de ser punida, destruída, para que elas possam ser boas.

A moral da história deveria, vocês poderiam concluir, se oporia ao final feliz. Ao contrário. A moral da história é o final feliz. Ela nos diz que felicidade para mulher é ser passiva, vitimizada, destruída ou adormecida. Ela nos diz que felicidade para as mulheres que são boas – inertes, passivas, vitimizadas – e que a mulher boa é a mulher feliz. Ela nos diz que o final feliz é quando nós somos finalizadas, quando nós vivemos sem nossas vidas.



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