Wollen Ich will dir Abschied geben, du arge, falsche Welt; dein sündlich böses Leben durch aus mir nicht gefäll



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Encontro17.01.2018
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Na sala de um apartamento no bairro Jardim São Pedro, em Porto Alegre.



ANETE ( indo até a porta ) – Ah, merda, eu me esqueci de desmarcar a aula de alemão.

( Anete abre a porta . B fica estarrecida olhando para Anete. )



ANETE – Oi, tu deve ser a professora, né ? Entra.

( B entra e olha ao seu redor )



ANETE – Tá uma bagunça ( rindo ) a minha casa é sempre bagunçada, minha vó ia surtar se visse a sujeira.

B – A tua vó mora contigo ?

ANETE ( estranhando a pergunta ) – Eu disse isso ?

B – Não, mas eu pensei...

ANETE – Ela é muito chata.

B – Chata ?

( Anete não entende a reação de B )



ANETE – Olha, eu tenho uma coisa muito chata pra te dizer.

B ( nervosa ) – Anete, eu não queria causar confusão...

ANETE – Como é que tu sabe o meu nome ?

B ( mais nervosa ainda ) – O teu nome...Anete, eu...

ANETE – Ah, é claro. Eles te dizem lá na escola.

B – Que escola ?

ANETE – Tu não é a professora de alemão ?

B ( Aliviada ) – Ah, claro.

ANETE – Tá tudo bem contigo ?

B – Mais ou menos, quer dizer, tudo bem...

ANETE – Acho até bom a gente não ter aula hoje porque tu tá me parecendo com a cabeça num outro lugar, não ia rolar legal.

B – Não vai ter aula ?

ANETE – Não. ( Indo terminar de colocar as roupas sobre o sofá dentro da bolsa de viagem ) Me esqueci de desmarcar. ( Para e olha para B ) Tô indo visitar a minha vó.

B ( imediatamente ) – Me leva junto.

ANETE ( sem entender ) – O que ?

B – Eu quis dizer que eu gostaria de ir junto, Monte Alverne é um lugar muito pacato.

ANETE – Tu conhece Monte Alverne ?

B ( depois de uma breve hesitação ) – Já ouvi falar.

ANETE – Eu não disse que ia pra Monte Alverne.

B – Não ?

ANETE – Não.

( Pequena pausa )

ANETE – Tu pode ir.

B – Contigo ?

ANETE – Tu quer um copo d´água ? Tem cigarro também. Quem sabe um baseado ? Tu fuma baseado ?

B – Um cigarro tá legal. Eu quase nunca fumo, mas vou ter que aceitar.

ANETE – Eu disse que tu podia ir embora. Foi isso o que eu quis dizer.

( Anete alcança um cigarro para B . B pega o cigarro. Anete acende o cigarro para B )



ANETE – Eu vou terminar de arrumar aqui e o meu namorado tá vindo me pegar. Se quiser ficar aí, sem problema. Tu não vai fazer nada mesmo por causa da aula, né ? Pelo menos eles te pagam. Pelo menos isso. O que ia ser a aula de hoje ?

B – Hoje ? ( Traga o cigarro pela primeira vez )

ANETE – Tu tá perturbada.

B – Tô ?

ANETE – Tá. Quer se abrir comigo ?

B ( tomando coragem ) – A minha filha.

( Anete se senta e olha para B )



B – Ela saiu de casa.

ANETE – Normal, todo mundo sai de casa um dia, é o mínimo que se espera.

B ( olhando para Anete ) – Ela engravidou de um cara e se mandou com ele. Os dois eram da juventude luterana. ( sorrindo ) Ela era a organista da igreja. Tocava Bach como poucos. ( séria ) Acho que eles vão se virar sozinhos. Tomara que sim.

( Anete olha para B )



B – Eu queria que ela ficasse comigo, eu queria dizer pra ela o quanto eu amo minha filha e que eu ia assumir essa gravidez junto com ela, porque eu sei como é difícil quando a gente é sozinha no mundo sem ter ninguém a quem recorrer.

( Os olhos de Anete se enchem de lágrimas )



B – Eu amo muito a minha filha. Amo de verdade. E tenho a sensação de tê-la perdido. Para sempre.

( Anete deita a cabeça no colo de B e chora. B afaga os cabelos de Anete. )



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Na sala de um apartamento no bairro Higienópolis, em Porto Alegre.
EUm velho senil, pedante, provinciano, turrão, metódico em demasia.

WILLI – Isto não me interessa. Eu pesquiso as idéias de Kant e não a sua vida pessoal.

E ( ofendido ) – Mas uma coisa está intimamente ligada à outra.

WILLI – De qualquer forma, eu vou para a Alemanha.

E – Ele nunca variava a rota dos seus percursos sabia disso ?

WILLI – Para um filósofo esquemático, nada mais normal.

E ( provocativo ) – Desdenhava as mulheres.

WILLI – Problema dele. Eu as adoro. Acabei de conhecer uma fascinante na última cena.

E – Como ?

WILLI – Esqueça, muito...metafísico.

E – Acredita que ele era professor de geografia sem ter jamais saído de Königsberg ?

WILLI – Júlio Verne também nunca foi ao centro da terra. A imaginação faz parte do ser humano, o que vemos depende da nossa consciência. Entende isso ?

( E não consegue esconder um sorriso de satisfação )



WILLI – Só falta ainda o ok do meu provável orientador.

E – Os alemães não entendem nada de Kant.

WILLI – Kant era um alemão.

E – Prussiano.

WILLI – Os prussianos não eram alemães ?

( Pequena pausa )



E – Discussão infrutífera.

WIILLI – Concordo.

( E se levanta )



WILLI – Aonde o senhor vai ?

E – Terminou para mim.

WILLI – Terminou a aula ?

E – A aula. A peça. A minha participação nesta exuberância estética.

WILLI – Nós não podemos tomar este tipo de decisão. Kant mesmo dizia que...

E – Eu já cansei de ouvir o seu nome ser pronunciado. Já se tornou excessivo. ( De pé em frente a Willi ) Afinal o que se sabe sobre ele depois de tudo ? Nada.

WILLI – Kant é muito complexo, precisaríamos organizar um seminário para torná-lo compreensível.

E – Kant é um chato. É o que eu estou tentando lhe dizer desde o início.

WILLI – Desde o início o senhor quer me convencer a não estudar Kant, por que ?

E ( debruçando-se sobre Willi ) – O homem autônomo é aquele que cria o seu próprio universo com as suas próprias leis e alcança desta forma a maioridade. Isto é liberdade.

( E faz menção de sair. Para. Volta-se na direção de Willi)



E – É hora de sacrificar nossos ídolos sagrados. Talvez tu precises ir para a Alemanha para se dar conta disso. Não é por nada que o verbo können ficou para o final. Können é poder. Adeus. ( E vai sumindo na frente de Willi )

WILLI ( depois de uma pausa longa ) – Não é preciso que o homem creia que ele é igual às bestas nem aos anjos, nem que ele ignore um ou outro, mas que ele saiba um e outro.
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Na sala de um apartamento no bairro Navegantes, em Porto Alegre.
C – Isso tudo pra terminar assim, como se nada tivesse acontecido.

TEODORO – Nada ? Tu acha que essa peripécia geográfica Kantiana pelo tempo e pelo espaço não foi nada ?

C – Poderia ter sido bem mais fácil.

TEODORO – Tu me conhece muito bem pra saber que o fácil não me interessa.

( Pequena pausa )



C – A punição termina por aqui ?

( Teodoro ri )



C – Tu já tá satisfeito então ?

TEODORO – Eu te queria de volta.

C – Eu voltaria. Tu sabe que eu voltaria.

TEODORO – Não, eu não tinha certeza.

( Teodoro e C se encaram por um longo tempo )



C – É uma condenação ?

TEODORO – Faz parte do jogo. Eu também faço parte de tudo isso. Eu morri por ti.

C ( constrangida ) – Desculpa.

TEODORO – Morri, de verdade.

C ( olhando para Teodoro ) – Ainda dá tempo de me desculpar ?

( Teodoro pega na mão de C )



TEODORO – Eu exagerei, né ? Fui longe demais.

( Teodoro se levanta e caminha ansioso pela sala )



TEODORO – Chega um ponto que a gente precisa seguir a nossa própria consciência. Chega uma hora que ela é implacável em nos alertar que a gente não pode ser diferente do que se é. Isso é grego ?

C ( sorrindo ) – Mais parece alemão. Uma aula de filosofia em alemão.

TEODORO ( sorrindo ) – Isso era pra ser uma aula de alemão.

C – Viver é uma constante e intrincada aula de alemão.

( Teodoro acha graça de C )



C – Vamos começar a aula então ?

TEODORO – Me diz, eu sou muito mais interessante do que ele, não sou ?

( C assente com a cabeça )



TEODORO – Eu sou mais brilhante, mais criativo...mais...

C – Esquece ele. Ele nem existe mais pra nós.

TEODORO – Eu sei. Já tirei ele do nosso caminho. Foi bom tu ter me lembrado disso. Me deixa mais tranqüilo.

C – O verbo modal de hoje é können.

TEODOROIch kann alles !

C ( sorrindo ) – Essa tua petulância, teu convencimento, é isso que me...kannst du mir einen Gefallen tun ?

TEODORO – Claro, o que tu me pedir, qualquer coisa, tudo !

( Pequena pausa )



C Könntest du mir ein Kuss geben ?

( C e Teodoro se beijam )



FIM





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