Wollen Ich will dir Abschied geben, du arge, falsche Welt; dein sündlich böses Leben durch aus mir nicht gefäll



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Encontro17.01.2018
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Königsberg. 1946.



A – Olhem a ironia : nem Porto Alegre, nem Heidelberg, nem Berlin. Königsberg !

ANETE – Alguém tem um cigarro aí ?

ORIENTADOR ( maravilhado, olhando pela janela ) – Eu nem consigo acreditar que estou aqui...

A – Você não percebe, seu imbecil, que estamos no ano 1946 ?

ORIENTADOR – Eu só percebo o que os meus sentidos me fazem perceber e isto significa um arrepio intenso da cabeça aos pés em imaginar que ele andou por estas ruas e estes prédios.

ANETE – Eu estou cansada de comer marzipã, não tem mais nada pra comer ?

A – O que eu estou fazendo no meio destes dois imbecis ? Eu devia estar morto, morto !

ANETE – Que baixo-astral, porque o senhor não come mais um pedacinho ? ( oferece marzipã para A )

A – Número um, eu detesto marzipã, número dois, a Alemanha acaba de perder a guerra e nós estamos encurralados nesta cidade que nem Königsberg mais se chama, número três, eu devia estar morto ( olhando para os lados ) e a única forma de me matar aqui é me entupindo deste chocolate pastoso de amêndoas.

ORIENTADOR – Será que Kant já passou por esta rua aqui embaixo ?

A – Rua ? Isto são destroços de guerra, como é que o senhor distingue alguma rua aqui ?

ANETE – Gozado, ainda não tinha tido aula com o senhor. ( Examina A ) Por que o senhor foi parar em Porto Alegre ?

A ( nervoso ) – Hum...

ORIENTADOR – Kant era um senhor muito sóbrio e regrado, vocês sabiam disso ?

ANETEQue assunto mais chato, esquece esse cara.

A ( nervoso ) – Algum de vocês dois já pensou como vamos fazer para sair daqui ? Como iremos atravessar a Polônia e a DDR e chegar na minha Alemanha ?

ORIENTADOR – Ninguém vai nos descobrir dentro desta loja de marzipã. A sua prima está sendo muito legal com a gente e não é ela que vai nos entregar pros russos. Eu não acredito que eles vão exterminar toda a população germânica da cidade.

ANETE – Basta um Hitler para a humanidade.

( A olha apavorado para Anete )

ANETE ( para A ) - Tem um cigarro ? Tô sem fumar e sem transar há dois dias.

( A olha apavorado para o orientador )

ORIENTADOR ( animado ) – Não seja por isto.

A – Tá a fim ?

( O orientador olha incrédulo para A )

ANETE – Ai, tá bom gente, eu nem conheço vocês direito, mas cada um tem suas necessidades.

( O orientador se senta próximo de Anete )

ORIENTADOR – Eu tive em Porto Alegre, mas não entendi nada o que as pessoas diziam. Ninguém fala alemão por lá.

ANETE – Eu tô aprendendo alemão. Podia ter aprendido com a minha vó quando criança, mas era preguiçosa. Agora quero recuperar.

ORIENTADOR – E como é que estamos conversando normalmente agora ?

( O orientador e Anete se entreolham sem saber responder )

ANETE – Tô pensando na minha vó que tá me esperando pro fim de semana e eu vim parar aqui nessa cidade com cheiro de peixe e marzipã.

ORIENTADOR – Eu nunca quis vir até aqui, me falavam muito mal de Kaliningrado.

A – Königsberg !

ANETE – Voltou com a corda toda.

A – Eu sou o único preocupado com a situação aqui, vocês ficam conversando deixando o tempo passar, mas não percebem que podemos morrer todos, eu, pelo menos. ( Para o orientador ) E você, por ser alemão, devia estar preocupado também. ( Para Anete ) e com essa tua cara, devia se preocupar também.

ANETE – Tô me lixando.

A – Postura cômoda.

ORIENTADOR – O senhor não pode condená-la, sendo o que é.

A – O que eu sou ? Um cidadão que lutou por um mundo mais justo, menos dependente do capital ?

ORIENTADOR – Uma luta que confundiu as coisas e acabou sendo condenada com justiça pela opinião mundial.

A – Fomos condenados porque perdemos, quem perde sempre é condenado.

ORIENTADOR – Existem atitudes que independem de vitória, a moral antecede a razão.

ANETE – Vocês querem parar com essa discussão idiota ? Ihr sollt Ruhe machen. ( para o orientador ) Vem comigo, vamos fazer o tempo passar de uma forma mais prazerosa.

( Anete puxa o orientador para fora da sala )

A – Preso numa loja de marzipã em Königsberg, tendo que agüentar uma puta e um filósofo. Esse dramaturgo inconsistente e comunista não perde por esperar.
4
Leer, Alemanha.2004.
ALEMÃOLeer.

WILLI – Vazio ?

ALEMÃO Was ?

C – Tô tonta.

WILLI ( para o alemão ) – Leer ? ( para C ) Tu já tinha ouvido falar de um lugar com esse nome ?

C – O velho quase me matou ( olhando para Willi ) , não ele ia me matar.

WILLI – Tu tá repetindo essa história desde que a gente chegou aqui.

C – Tu sabe o que tá acontecendo ?

ALEMÃO ( para C ) – Wo ist Rita ?

C ( para Willi ) – Quem ?

WILLI ( para C ) – Sei.

C – Quem é essa Rita ?

( O alemão se levanta e sai resmungando )

C – Quem é esse cara ? O que é que eu tô fazendo aqui ?

WILLI – A gente chegou num ponto complicado, são muitas histórias se entrelaçando e pra não deixar a coisa mais confusa eu só vou te dizer o seguinte : carpe diem.

C – Isso é um pesadelo, não é ?

WILLI – Olha, eu tô achando bem divertido, apesar de não ter a mínima idéia onde foi que me enfiaram. Será que Heidelberg é longe daqui ?

C – Tem água nessa casa ?

WILLI ( excitado ) – Deve ter água, cerveja, Schnaps e Apfelsaft, tudo o que a gente tem direito.

C ( melancólica ) – Apfelsaft, eu adoro suco de maçã...Tu sabe quem eu sou ?

WILLI – Professora de alemão.

( C olha incrédula para Willi. )

WILLI – Mas eu só sei isso. Mais não me foi permitido saber. Eu sou um filósofo, tudo a gente não tem como saber.

( C se levanta e olha ao seu redor. O alemão volta e se depara com C andando pelo apartamento )

ALEMÃO – Wer bist du ?

C – Eu ?

WILLI – Ele sabe tanto quanto tu. Tá procurando por uma brasileira chamada Rita que se corresponde com ele.

C Sollte ich Rita sein ?

ALEMÃO - Ich suche sie schon seit zwei Szenen.

WILLI – Bela ironia destilada em alemão, tá aprendendo rapidinho.( Para o alemão ) Rita ist nicht hier, wir kennen keine Rita.

C – Tu é professor também ?

WILLI – Não, eu tô aprendendo ainda. ( orgulhoso ) Quero fazer um doutorado na Alemanha.

C – Aqui na Alemanha ?

WILLI ( dando-se conta ) – Aqui. É, aqui. Eu tô na Alemanha !

C ( sentando-se ) – Não posso reclamar também. Fugi do velho enlouquecido. Cara, se tu visse o que era a demência do cara, queria me manter como refém pra se vingar dum outro professor que eu nem sei quem era...que merda aquilo...só por causa duma...

WILLI Wie weit ist Heidelberg ?

C – O andar da carruagem tá tão enlouquecido que se eu fosse tu ficava aqui curtindo essa paz temporária e deixava qualquer plano de lado.

WILLI – Mas comigo não vai acontecer nada de ruim, afinal de contas eu sou um estudante de filosofia, eu não sou um personagem com defeitos nem máculas, até agora eu só passei bem nessa história, até pra Alemanha o cara me trouxe.

C – Quanto otimismo prum filósofo.

( Willi olha desconfiado pra C )

ALEMÃOHallo, ich bin hier !

C – Ai, a gente tinha se esquecido do coitado. Qual é o problema dele mesmo ?

WILLI – Tá procurando por uma tal de Rita. Uma puta que se vendeu. Tráfico de mulheres.

C – Uau, que pesado. E ele entende o que a gente tá falando ?

WILLI – Espero que não.

CEs tut uns Leid über Rita.

( O alemão dá de ombros )

C – Se a gente não entendeu o que aconteceu conosco, imagina ele.

( O alemão coloca três copos de cerveja na mesa. O alemão sai )

WILLI – Ele é simpático. Tu também.

( O alemão volta abrindo uma garrafa de cerveja. )

C – O que é que nós vamos fazer agora ?

( O alemão serve a cerveja nos copos )

WILLI – Beber e esperar.

( O alemão ergue o seu copo )

ALEMÃOProsit !

( Willi e C erguem os seus copos e se olham )
5
Berlin. 2025.
DIRETOR TEATRALSeu filho duma puta, pelo menos teve culhão de me colocar na tua frente.

TEODORO – Se ainda não ficou claro pra populacha, redundo : eu sou o criador de tudo o que vocês estão vivendo, eu mudo o que eu quiser na hora em que eu bem entender.

DIRETOR TEATRAL – Isso ficou muito claro pra mim na última cena, palhaço.

( Teodoro não consegue conter o riso )



D – E eu faço o que no meio de vocês dois ?

TEODORO – Calma, não apressa a ação dramática, até parece que não conhece os fundamentos da dramaturgia....

DIRETOR TEATRAL – O que é que tu fez com a minha namorada, pegou pra ti de volta, comeu ela, matou ?

TEODORO ( cínico ) – Tanta crueldade não caberia em mim. ( sério ) Não, eu não a matei.

D – Não vai haver nenhuma aula de alemão, é isso ? Tudo é uma mera farsa pra encobrir...encobrir o que ?

TEODORO – Encobrir a vida, D.

D – D ?

TEODORO – É o teu nome. ( para Diretor teatral ) Já olhou pela janela ? Percebeu onde estamos ?

( O diretor teatral e D vão até a janela )



D – É o futuro.

TEODORO – Com tudo o que tem direito. Os detalhes eu prefiro deixar a cargo da criatividade do encenador...

DIRETOR TEATRAL – Vai debochar dos diretores também ? Tu acha que tu teria capacidade de montar aquele texto ? Te falta muita coisa, meu caro, pra chegar onde eu cheguei.

TEODORO – Isto foi há vinte e um anos atrás.

DIRETOR TEATRAL – O que ?

D – O cara é louco mesmo, olha aqui esse calendário. 2025 !

DIRETOR TEATRAL – Eu não quero estar em Berlim, eu não quero que se tenham passado vinte e cinco anos a minha revelia !

( O diretor teatral esgana Teodoro )



DIRETOR TEATRAL – Cadê a minha namorada ?

( D afasta o diretor teatral de Teodoro )



DIRETOR TEATRAL – Precisa dele pra te defender ?

TEODORO – Ele não é o teu cúmplice pra ficar só olhando, seria a ação mais natural de um personagem que vê uma pessoa esganando a outra. ( para D ) E além disso, o problema dele é bem outro, tá com a cabeça na namorada que trocou ele por um alemão.

D ( excitado ) – Ela tá aqui perto ?

TEODORO – Eu já te disse pra não te apressar, tudo tem um tempo certo.

DIRETOR TEATRAL ( cruzando os braços ) – E então ? O que foi feito de mim ?

TEODORO – Digamos que tu te tornaste um diretor constantemente medíocre nas escolhas artísticas.

DIRETOR TEATRAL – O que não muda muito em relação a tua opinião de intelectual fracassado de 2004.

TEODORO – Ganhou bastante dinheiro com produções que apelavam para o mau-gosto e a risada fácil.

DIRETOR TEATRAL ( para D ) – Muito bem. E o que mais.

TEODORO – Não contribuiu para o enriquecimento artístico e ideológico da humanidade.

DIRETOR TEATRAL ( aproximando-se de Teodoro ) – E os dois mortais que te escutam tão atentamente podem saber o que foi feito de ti, virtuoso condutor da verdade ?

( Teodoro se afasta do diretor teatral rindo )



D – E a Rita ?

TEODORO – A última cena dela foi...num campo de concentração.

D ( exaltado ) – O que ?

TEODORO – Calma, é ficção.

D ( partindo para cima de Teodoro ) – Ficção uma ova !

( D acerta um soco no rosto de Teodoro )



DIRETOR TEATRAL ( cínico ) – Pobre dramaturgo, como foi deixar que isso acontece a si próprio ?

TEODORO – Ossos do ofício. Materialização do sentimento da sociedade para conosco.

D – Essa palhaçada vai continuar até quando ?

TEODORO – Palhaçada ?

DIRETOR TEATRAL ( abraçando D pelo ombro ) – É melhor controlar tua raiva, ele é o dramaturgo.

D ( desvencilhando-se do diretor teatral ) – Que dramaturgo ! Fica brincando com a vida alheia, fazendo o que bem entende, espalhando sofrimento e dor pra tudo que é lado. Essa brincadeira tem que ter um fim.

( D vai até Teodoro e levanta-o do chão.)

TEODORO – Pensa bem o que tu vai fazer, professor de alemão letra d, o meu esfacelamento pode ser muito cruel pra todos vocês, vai terminar qualquer possibilidade de piedade e alegria, porque eu também sou responsável por isso, depois de mim é o caos.

( D arrasta Teodoro até a janela. )

DIRETOR TEATRAL ( preocupado , para D ) – Cara, ele tem razão, espera um pouco.

D – A gente cansou disso tudo.

TEODORO – Tem mais uma cena inteira com todos vocês, todos.

( D tenta jogar Teodoro para fora da janela. O diretor teatral corre até D para evitar o crime )

TEODORO – Morrer em Berlim, perfeito.

( D tenta afastar o diretor teatral da janela enquanto empurra Teodoro para fora da janela )

TEODORO – E ainda por cima feito uma Tosca. É mais uma citação muito intelectual no meu currículo ?

( D consegue jogar Teodoro para fora da janela. D se afasta da janela. Pequena pausa.)

DIRETOR TEATRAL – Não deu pra ouvir o barulho do corpo batendo no chão.

D – Pronto. Missão cumprida. Alguém tinha que bancar o Judas.

( Pequena pausa )

D – E pra que ?

DIRETOR TEATRAL – E agora ? Tu tá preparado pro que vem pela frente ?
Können
Ach Gott und Herr, wie gross und schwer

sind meine vielen Sünden.

Da ist niemand, der helfen kann,

in dieser Welt zu finden.
1
Na sala de um apartamento no bairro Floresta, em Porto Alegre.
( Rita abrindo a porta da sua casa com uma chaleira de água quente na mão )

RITA – Ai, desculpa, professor, essa chuva torrencial, vai entrando que eu tenho que colocar a água no bule ( afastando-se da porta ) eu preparei um chá pra nós, é especial, é de frutas, alemão, imaginei que tu estaria todo molhado.

( D entra sem jeito, com o rosto coberto pelo capuz da capa de chuva )

RITA ( sem olhar para D, derramando a água no bule ) – Tira a capa que eu já coloco no banheiro, ninguém tava contando com essa chuva, não é mesmo ? O cara da meteorologia falou em tempo nublado, mas não em chuva, eu fico possessa quando eles erram.

( D enquanto Rita derrama a água no bule, tira a capa de chuva )

RITA – Esse tempo tá muito maluco, uma hora faz sol, outra faz chuva...isso quando a gente não acaba viajando pelo...

( Pequena pausa )

RITA – Só um pouquinho, já tô terminan...do...deu. Pronto. Agora a gente pode começar essa aula de alemão.

( D observa a movimentação de Rita )

RITA – Açúcar ou adoç...cadê meu adoçante, droga, terminou ( virando-se para D ) tu não te importa...

( D estica o braço com a capa para Rita )

D – Tá pingando todo o teu chão.

RITA – Eu...eu tenho uma aula marcada...o professor deve estar chegando...

D – O professor de alemão sou eu.

( Pequena pausa )

D ( larga a capa no sofá. Sentando-se à mesa ) – Eu não tomo chá com adoçante, pode ser açúcar mesmo.

( Rita continua imóvel )

D ( sem olhar para Rita ) – Hoje a gente termina com os verbos modais, só falta um. Tu deves estar curiosa pra terminar essa lição, pelo menos os outros alunos ficam quando chega o final.

RITA – Quer que eu chame a polícia ?

D – Vou ser preso por estar realizando o meu trabalho ? ( Olhando para Rita ) Eu tenho um trabalho. Digno. Um trabalho que não está ligado a minha vida pessoal. Não costumo misturar as coisas. ( Para si ) A menos que venham me prender por causa daquele idiota...

RITA – O que é que tu já aprontou ?

D – Nada. Bobagem. Tem acontecido muita bobagem comigo nos últimos dias. Desde que eu comecei a dar aula de alemão. Desde que tu ...

RITA ( senta-se perto de D, apreensiva ) – Escuta...

D ( ríspido ) – Não, quem vai me escutar é tu. Tu tem idéia o que tem sido minha vida ?

RITA – Eu tenho medo de ti.

D – E eu tenho medo de qualquer coisa que me lembre a Alemanha. Só que a Alemanha tá ( apontando pra sua própria cabeça ) aqui dentro, e eu não tenho mais como tirá-la de mim.

RITA – Não me faz sentir culpada. Eu tinha que escolher entre morrer de fome e...

D – Isso é uma besteira o que tu tá dizendo. Tu não queria mais saber de mim.

RITA – Queria, queria, sim. Eu me arrependi.

D – Então pior do que isso, tu é um ser humano baixo, vil, escroto. Uma oportunista, uma sugadora de homens.

RITA – Não diz isso, tu não sabe o quanto eu sofri longe de ti...

D – E vai sofrer muito mais.

( D vai até o fogão e pega uma caixa de fósforos . Acende um palito e coloca fogo no livro de alemão )

DIch kann´s. Minha epopéia foi um aprendizado. Te agradeço.

RITA – Tu vai botar fogo na minha casa. Tu não pode fazer isso comigo. Eu sei que eu agi errado, mas tu tem que me dar uma outra chance. ( Agarra os braços de D ) Por favor, a gente pode ser feliz como a gente era antes !

D – Esse melodrama barato só vai estragar a nossa cena.

RITA – Não é uma cena, é real ! Eu tô sendo sincera contigo, eu ia te procurar, eu também já tava cheia do pesadelo que me meti.

D – Olha pro livro, Rita. Tá queimando feito a nossa história.

( Rita tenta apagar o fogo com um pano de prato em vão de forma patética )

D – Eu tenho pena de ti. Histórias de amor nunca acabam bem. Pelo menos na vida real.

( Rita chora ao lado do livro queimando )

D – O chá esfriou.

( O telefone celular de D toca )

D – Me dá licença ?

( D se afasta de Rita. D atende o telefone )

D – Oi. Que horas tu pega o ônibus pra Monte Alverne ? Chego aí em dez minutos. Te amo também.

( D desliga o telefone )

D – Me manda um cartão da Al...( com deboche ) daquele país. Tu ainda tem meu endereço.

( D sai. Rita percebe a capa de D no sofá. Rita pega a capa e corre até a porta. Rita pára antes de sair pela porta. Rita se deixa cair no chão agarrada na capa e chorando )
2
Na sala de um apartamento no bairro Moinhos de vento, em Porto Alegre.
GOTTLIEB – Tinha parentes. Em Schöneberg.

A ( animado ) – Minha tia morava em Schöneberg.

GOTTLIEB – Esse Kirschwasser é da melhor qualidade. Se o senhor não prová-lo ficarei muito... ( escolhendo o termo apropriado ) beleidigt.

( A toma um copinho de Kirchwasser de um só gole )



GOTTLIEB – Pelo que vi o senhor gosta de relembrar o passado.

A – Nesta nossa idade ( constrangido ) eu digo na minha, o senhor é bem mais novo do que eu ( animado ) a gente vive praticamente das lembranças. ( Confessando ) Quando a memória não falha.

GOTTLIEB – O senhor tem quantos anos ?

A ( orgulhoso ) – Noventa e três. E muito bem vividos.

GOTTLIEB ( lentamente ) – Então o senhor passou pela guerra ?

A – Sim. Pelas duas. Na grande guerra eu era uma criança, um bebezinho. Eu sou de onze.

GOTTLIEB ( bebericando seu copinho de kirchwasser ) – E na segunda ?

A ( sério ) – Sim.

GOTTLIEBWie, bitte ?

A (um pouco intrigado ) – Eu só não entendi uma coisa.

GOTTLIEB ( servindo mais Kirchwasser no copinho de A ) – Aceita mais um pouco ?

A ( recusando sem sucesso ) – Eu estou trabalhando, eu não devia...

GOTTLIEB – Aqui na minha casa se pode tudo. ( Olhando para A com sarcasmo discreto ) Eu costumo tratar os professores de alemão muito bem.

AWas kann ich dagegen ? ( beberica do copinho )

GOTTLIEB – Eu também atravessei a guerra.

( A se engasga e cospe o líquido sobre Gottlieb . Gottlieb se levanta e bate com bastante força nas costas de A )



A ( afastando Gottlieb ) – Está bem, não foi nada, danke.

GOTTLIEB ( intrigado ) – Por que o senhor não fala comigo em alemão, despreza o idioma por algum motivo particular ?

A ( nervoso ) – Não. Não desprezo não.

GOTTLIEB – Pensei que poderia ...

A ( brusco ) – Não há problema algum, se o senhor quiser podemos inclusive parar com o português neste instante, é mais didático inclusive.

GOTTLIEB ( com raiva contida ) – Os meus pais morreram na guerra.

( A olha atônito para Gottlieb. Pequena pausa )



GOTTLIEB – O senhor poderia ter passado maus bocados na guerra, afinal o senhor é alemão, não é ?

A – O que o senhor exatamente quer de mim ?

GOTTLIEB – Por que esta irritação ?

A – Quem é o senhor ?

GOTTLIEB ( irônico ) – Quem sabe uma música para descontrair ?

( Gottlieb se levanta e coloca um Cd com música Klezmer )



A – O senhor não é um aluno de alemão.

GOTTLIEB ( voltando e sentando-se ) – Não, e o senhor não é um professor de alemão.

( A levanta-se e coloca a cadeira no lugar )



GOTTLIEB – Mas a aula vai até às seis e meia...Herr Komandant.

( A olha surpreso para Gottlieb )



GOTTLIEB – Mais um Kirschwasser ?

( Pequena pausa )



GOTTLIEB – A música lhe incomoda ?

( A senta-se )



GOTTLIEB – Minha mãe morreu nos chuveiros. O meu pai...o meu pai eu não sei. Como eu sei disso ? Eles fizeram muitos amigos em Dachau. Um dos sobreviventes veio para o Brasil, veio aqui para Porto Alegre para onde eu tinha sido trazido pela minha tia, quando levaram meus pais. Quando vocês levaram os meus pais.

( Pequena pausa )



GOTTLIEB – Para que lembrar isso depois de tanto tempo ? Porque a minha memória não falha, ela nunca vai falhar, é uma pena.

A – O que pretende fazer comigo ?

GOTTLIEB – Primeiro eu pensei em torturá-lo, como o senhor deve ter feito com os meus pais. E com todos os outros, naturalmente. Mas depois eu pensei melhor, não valeria a pena eu sujar as minhas mãos com um covarde, iria terminar os meus dias na cadeia. Cheguei até a fazer uma pobre professora de alemão de refém. Eu estava aturdido. Tão descontrolado que fui parar numa cidadezinha do interior, nem sei como. Tendo ao meu lado um senhor com uma peruca estranha e uma velha, e acabei sendo colocado no meio de um drama familiar entre mães e filhas sem entender o que acontecia...enfim...o que nos interessa isso agora ?

A Rufen Sie bitte die Polizei mal an.

GOTTLIEB – Ah, este é o homem que eu procurava. Finalmente.

AIch kann es nicht mehr aushalten.

GOTTLIEB – É esta tortura que eu quero, a psicológica. A consciência é o nosso maior inimigo, não existe meio algum de afastá-la de nós.

A Wo ist die Toilette ?

GOTTLIEB– É ali, mas não adianta se trancar, guardei todas as chaves. Prevenção.

( A sai de cena )



GOTTLIEB - Nada vai acontecer diferentemente do que eu planejei, porque o senhor precisa ouvir tudo o que eu tenho para falar, mesmo sabendo que não haverá tempo suficiente no mundo para que a minha dor seja ressarcida.

( Gottlieb se serve de Kirchwasser. Pensativo )



GOTTLIEB – Por incrível que pareça, havia um oficial, um major, eu acho, já nem me lembro mais, que trazia cerejas para a minha mãe escondido. Ela gostava muito de cerejas. No dia em que ela morreu...ele chegou com as cerejas tarde demais...ele nem sabia que ela tinha sido levada...( Gottlieb vê a carteira de A sobre a mesa ) Tudo bem, com o senhor ? ( Gottlieb vai até a carteira, abre-a com cuidado, e procura pela identidade de A ) O senhor precisa de ajuda ? Talvez o senhor conhecesse ele, oficial em Dachau, eram amigos, quem sabe ? ( Gottlieb encontra uma identidade ) O nome dele era Paul. ( Lê em voz alta o nome na identidade ) Paul. Paul ? Paul !

( Ouve-se um tiro fora de cena )


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