Wollen Ich will dir Abschied geben, du arge, falsche Welt; dein sündlich böses Leben durch aus mir nicht gefäll



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Encontro17.01.2018
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Na sala de um apartamento no bairro Jardim São Pedro, em Porto Alegre.

( Anete e o alemão estão fazendo sexo. O alemão goza. Ele rola pro lado. Anete se senta. Anete bebe água. Anete desenrola uma bala e coloca na boca. Ela oferece para o alemão. O alemão ronca suavemente. Anete liga um cd de salmos luteranos cantados em coro.)



ANETE – A música religiosa é a minha música preferida, pra alguns, um delicioso contraste com o meu modo promíscuo de ser. Para os chatos de plantão, é uma ligação com Kant, que escrevia em alemão também, e como ele parece ser a estrelinha da peça, ficamos por aqui.

( Anete olha para o alemão e olha para o público )



ANETE – Conheci esse cara faz duas horas numa festa muito bizarra num galpão abandonado no fim do mundo. Ele é alemão, mas eu não entendo muita coisa do que ele fala. Na verdade eu não entendi quase nada. Não porque meu alemão é ruim, até acho que aprendi bastante com esses professores que vêm aqui, mas ele tem um acento brabo. Parece que tá procurando alguém e não consegue achar. Coitado. Como é que o cara se mete num lugar onde ele não conhece ninguém. Muito esquisito. ( Engole o suco da bala ) Eu transei com ele porque tava a fim de transar com alguém. O professor aquele depois daquele dia nem me ligou mais nem foi escalado pra me dar aula. Bem gostoso ele. ( Engole o suco da bala ) Tô até com pena do carinha aí, vai acordar e nem tem pra onde ir. Mas eu não posso ficar com um estranho no meu apartamento. Ainda mais que eu vou passar o fim-de-semana lá na casa da Oma. ( Pequena pausa . Anete levanta e se espreguiça. Vai até a janela envolta no lençol. O alemão acorda e se senta. )

ALEMÃODarf ich rauchen ?

ANETE ( sem olhar para ele ) – Pode. ( Acariciando a barriga ) Ele não vai se importar.

( O alemão acende um cigarro e se deita para fumar )



ANETE – Cinco bolos cancelados. Deixei de ganhar uma boa grana pra ir ver a Oma. Eu sei que ela vai me xingar e dizer que nunca mais vai querer me ver na frente como ela fez com a minha mãe.

( Pequena pausa )



ALEMÃOKomm mal her, Anete.

ANETE – Ele quer que eu vá me deitar com ele. Não quero. Será que ele não percebe que eu tô com a cabeça noutro lugar ? E nem foi tão legal, ele já chegou metendo e me lambendo. Muito áspera a língua dele.

ALEMÃO – Anete...

ANETE – Vai te fuder.

( Pequena pausa )



ANETE – Que engraçado. De repente senti uma vontade de ver a minha mãe, de olhar no rosto dela. De saber o que ela sentiu quando a Oma expulsou ela de casa. Eu nunca me preocupei com ela. Nunca.

( Pequena pausa. Anete aperta mais o lençol em torno dela. )



ANETE – Como será que ela vive, com quem, será que ela casou, teve outros filhos ? Não é a minha mãe que eu quero ver, eu quero conhecer uma mulher que passou pelo que eu acho que eu vou passar.

ALEMÃO – Es ist mir kalt, darf ich das Fenster mal zumachen ?

( Anete fecha a janela )



ANETE – Cara chato.

( Anete joga o lençol dela por cima do alemão. Anete volta pra janela )



ANETE – Eu não me importo que os vizinhos me vejam pelada. Não vão ver muita coisa mesmo. Aquele daquele apartamento ali se masturba quando me vê. Coitado. Não deve ter ninguém pra comer. ( Olha para a própria barriga ) E agora que eu vou engordar que ele não vai mais querer saber de mim. De nós. ( Com um tom infantil ) Tu te importa que a mami fique peladona aqui na janela ?

( Pequena pausa . A lua ilumina o rosto de Anete )



ANETE – Eu sempre tive que pedir permissão pra tudo. Darf ich isso, darf ich aquilo. Esse verbo eu nem preciso praticar nas aulas, já sei de cor. E se a velha me xingar, vou ficar quietinha ? Minha mãe botou o rabo entre as pernas e se mandou. Será que ela também não achou mais fácil se livrar de mim ? ( Pequena pausa. ) Credo, que maldade a minha, mãezinha. ( Pequena pausa ) Mãezinha. Eu nunca disse mãezinha. ( Pequena pausa ) Que frio. Agora sou eu que tô com frio. Vou pegar um cobertor pra mim.
4
Na sala de um apartamento no bairro Higienópolis.
WILLI – O dramaturgo foi muito gentil conosco. Como na nossa cena os três falam o mesmo idioma, no caso o alemão, ele decidiu traduzir a cena por inteiro, para auxiliar na compreensão, entendem ?

PAI JUDEU – Entendemos.

MÃE JUDIA – Muito simpático da parte dele. Ajuda o público para entender o diálogo.

WILLI – Eu não posso reclamar dele, tem sido muito colaborativo com as minhas cenas. ( Em voz baixa ) Estou muito curioso pra ver como será o meu encontro final com Kant, se vai ser a última cena da peça, o clímax, essas coisas.

( O pai judeu e a mãe judia fazem que entendem com a cabeça )



WILLI – E foi boa a viagem ?

MÃE JUDIA – Ótima ! O dramaturgo nos colocou na primeira classe.

PAI JUDEU – Infelizmente ele esqueceu de solicitar comida kosher.

WILLI – Que pena, mas também, são tantas coisas com as quais ele precisa se preocupar que no final das contas alguma coisa acaba saindo errado...no final das contas...isto não é nenhuma premonição dialógica, espero, ele foi tão gente fina comigo até agora.

PAI JUDEU – O que exatamente você faz nesta peça.

WILLI ( desapontado ) – Ah, vocês ainda não sabem ?

( O pai judeu e a mãe judia se olham balançando a cabeça negativamente )



WILLI – Bom, eu sou um estudante de filosofia que quer muito fazer um doutorado sobre Kant na Alemanha.

PAI JUDEU – Muito bem, parece ser um rapaz muito estudioso.

MÃE JUDIA – E a casa é bem limpinha.

PAI JUDEU – E quem vai pagar o doutorado ?

( A mãe judia dá uma cotovelada discreta no pai judeu )



WILLI – Eu ainda dependo duma bolsa.

MÃE JUDIA – Você é casado ?

( O pai judeu dá uma cotovelada discreta na mãe judia )



WILLI – Não.

PAI JUDEU – E já sabe quando vai ?

WILLI – Depende do dramaturgo. Acho que ainda falta a grande cena com Kant no final.

PAI JUDEU – Então Kant é personagem da peça ?

MÃE JUDIA ( sorrindo amarelo para Willi ) – Ele é muito lento, sabe.

WILLI – Ainda não topei com ele em nenhuma cena, mas acho que sim.

MÃE JUDIA ( para o pai judeu ) – Bem que ele poderia nos colocar junto com este senhor Kant em algum momento, não acha ?

PAI JUDEU – Depois de tudo o que passamos, sim. Seria um consolo.

WILLI – Vocês estão...mortos, não é isso ?

MÃE JUDIA – Sim. Mas esta é a parte trágica da história.

WILLI ( constrangido ) – Ah. Eu imaginei pela palidez dos seus rostos, e pela poeira nos figurinos, e pelos trajes um tanto quanto...

MÃE JUDIA – Éramos comerciantes judeus numa cidadezinha perto de Munique.

WILLI ( animado ) – Sim, Munique tem uma universidade muito importante. É um centro de pesquisa de referência.

PAI JUDEU – Nós estamos procurando o nosso filho.

( Pequena pausa )



WILLI – Ah.

MÃE JUDIA – Não era a nossa intenção misturar o nosso drama pessoal com o seu, que parecem ser de naturezas completamente diferentes, mas se o dramaturgo optou por isso, quem somos nós para contrariá-lo, não é ?

PAI JUDEU – Tem toda a razão.

MÃE JUDIA – Como sempre.

WILLI – E...estão gostando do Brasil ?

MÃE JUDIA - Só nos foi permitido conhecer Porto Alegre.

PAI JUDEU ( sussurra para Willi ) – Porto Alegre fica mesmo no Brasil ? A primeira impressão foi que não. Mas depois, sim.

MÃE JUDIA – Muito quente.

PAI JUDEU – E perigoso.

MÃE JUDIA – As ruas são bem sujas.

PAI JUDEU – E os preços das mercadorias !

MÃE JUDIA ( para o pai judeu ) – Isto por que você não viu a quantidade de crianças na rua pedindo coisas.

PAI JUDEU ( decepcionado ) – E muitas poucas sinagogas também.

WILLI – É. Agora vocês entendem porque eu quero tanto sair daqui e tentar a vida na Alemanha.

MÃE JUDEU – Apesar de tudo, nós temos saudade da Alemanha. Era a nossa pátria.

WILLI – Hoje em dia ninguém mais tem esse sentimento patriótico. Terminaram-se os estados, aboliu-se as fronteiras.

MÃE JUDIA – Pois é mesmo, li no jornal que agora existe uma tal de Comunidade européia, o que fizeram com a nossa Alemanha ?

( Ouve-se uma melodia klezmer )



MÃE JUDIA ( emocionada ) – Que simpático...

PAI JUDEU – Como fazemos para agradecer ao dramaturgo estas delicadezas dele ?

WILLI – A gente nunca sabe como contatá-lo. E como Deus, ele existe, mas a gente nunca sabe se ele nos ouve ou não.

( A mãe judia enxuga as lágrimas num lencinho de cambraia. O pai judeu conforta a mãe judia com um abraço. )



WILLI – Eu vou sair agora para...hum...buscar alguma coisa para beber. É sempre assim que os dramaturgos terminam as cenas, não é ? E vocês podem ficar aqui.

( Willi sai de cena )


5
Na sala de um apartamento no bairro Navegantes, em Porto Alegre.
TEODORO ( pensativo ) – Não, não conheço nenhum dramaturgo que tenha nascido em Königsberg...

E ( visivelmente decepcionado ) – Vamos voltar à aula, então. Darf man hier rauchen ?

TEODORO – É uma pergunta de verdade ?

E – Tudo é de verdade.

TEODORO – Tudo ?

E ( enfático )Darf man hier rauchen ?

TEODORO ( inseguro ) – Sim, se o senhor quiser...

E – Por que o senhor não me responde em alemão ?

TEODORO – É que eu sou uma pessoa muito prática, e como eu preciso traduzir esse texto logo, eu passo pro português porque o texto tem que ficar pronto antes que...

E – Mas o senhor tem que obedecer às regras do curso.

TEODORO ( didático ) – Eu não quero obedecer a regras, eu quero traduzir o meu texto o mais rápido possível.

( Pequena pausa )



E – Interessante.

( Pequena pausa )



TEODORO – O senhor se porta desta maneira com todos os alunos ?

E – Os que relaxam na ordenação natural das idéias, sim.

TEODORO – O senhor me interessa.

E ( brusco ) – Wie, bitte ?

TEODORO ( achando graça ) – Calma. Como figura dramática, eu digo. Personagem.

E Darf ich Ihnen mal eine Frage stellen ?

TEODORO – Claro.

E – Por que o senhor não chamou alguém para traduzir este texto. Não seria mais rápido ?

TEODORO – Por sigilo.

E – O senhor trata a questão com muita indiscrição para parecer sigilosa.

TEODORO – Traduza, por favor.

E – Eu poderia ser um espião, zum Beispiel, alguém interessado em roubar-lhe o texto. Teria então me disfarçado como professor de alemão e aqui estaria, bem tranqüilo, sobre a presa.

TEODORO – O senhor faria isso ?

E - Não. Mas outro faria.

TEODORO – Isto é imoral.

E – Os homens são imorais, apesar de saberem que estão sendo.

( Pequena pausa )



TEODORO – Tem toda a razão. Não vou mais comentar com nenhum de vocês sobre a tradução. ( Examinando E com o olhar ) O senhor não é brasileiro.

( E sacode a cabeça negativamente )



TEODORO – Um alemão que considera a humanidade imoral. Um alemão que dá aulas de alemão no Brasil. Um alemão que tenta me abrir os olhos para possíveis concorrentes...

E – Algumas perguntas jamais poderão ser respondidas por nós.

TEODORO – Nós quem ?

E – Mortais.

TEODORO – Eu sou um demiurgo.

E – E eu sou a letra E.

TEODORO – Alguém aqui está tirando outro de bobo.

E – Talvez os dois. Ou a nossa estupidez é tão presunçosa que nos faz acreditar sermos mais perspicazes que o outro.

TEODORO ( derrotado ) – Eu sou a criatura.

E – Ou pior, estão rindo de nós dois, em algum lugar. Alguém.

TEODORO – Isto não tem graça nenhuma.

E – Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e freqüentemente o pensamento delas se ocupa...

TEODORO – Vamos adiante, senhor E, ainda falta um bom pedaço e além disso o senhor está bem longe de Königsberg, bem longe.


Sollen
Wie soll ich dich empfangen,

und wie begegn ich dir,

o aller Welt Verlangen,

o meiner Seele Zier ?
1
Dachau.1943.
MÃE JUDIA – Foi sem dúvida a melhor coisa que podíamos ter feito.

PAI JUDEU ( sussurrando ) – Leise, leise.

MÃE JUDIA – Eu estou falando o mais baixo que eu consigo. Se a gente sussurra alto, eles vêm.

RITA – Isto aqui é a Alemanha ? Por que o Klaus mentiu pra mim ?

MÃE JUDIA – Ele não falou pra ti dos campos de concentração ? ( Para o pai judeu ) Eles fazem de conta que isto aqui não existe.

PAI JUDEU ( para Rita ) – Ele mentiu ou ele simplesmente deixou de mencionar...

RITA – Ele falava em outras coisas, coisas alegres, divertidas...

MÃE JUDIAMänner. São todos iguais.

B – Foi muita crueldade terem me colocado aqui, com vocês dois, sabendo que eu tive que...

MÃE JUDIA – Você não gosta da nossa companhia ?

B – Ter escutado a história do pequeno Gottlieb, como ele conseguiu fugir da fúria da polícia, saber que ele está bem e a salvo...

PAI JUDEU – Eu tenho certeza que você vai encontrar sua filha quando sair daqui.

( Pequena pausa. B olha para mãe judia com um olhar aflito )

MÃE JUDIA ( segurando a mão de B ) – Nós vamos sair daqui.

RITA – Por que eu estou aqui se eu não sou judia ?

PAI JUDEU ( para Rita ) – Por que os judeus estão aqui ?

B – Se eu pelo menos tivesse a certeza que vocês têm em relação a minha Anete...

( Rita chora tapando o rosto )

PAI JUDEU – Vamos imaginar, é só o que nos resta fazer agora.

MÃE JUDIA – Sim, ótima idéia. Rita, pelo menos faz calor, é verão. A Alemanha no verão é deliciosa.

( Mãe judia olha sem graça para B )

PAI JUDEU – Será que o seu ...

MÃE JUDIA – Pretendente.

PAI JUDEU - ...o seu pretendente não é um dos oficiais ? Nós poderíamos perguntar para algum deles.

MÃE JUDIA – O Paul. ( Para B ) É o mais simpático.

RITA – Ele faria isso comigo ?

PAI JUDEU – O humor dos alemães é algo imprevisível.

B – Hoje faz vinte anos.

MÃE JUDIA – Vinte anos que...?

B – Eu resolvi trabalhar naquele curso de alemão porque eu queria conhecer minha filha aos poucos sem que ela soubesse que eu era sua mãe, mas eles nunca me deram uma aula com ela, só Deus sabe por que.

MÃE JUDIA – Tudo tem uma razão de ser.

B – Foi muito cruel ter me arrancado de perto dela e ter me trazido pra cá, de onde eu não sei se vou sair viva.

RITA – Eu também não entendo como foi acontecer isto comigo: um castigo ? Uma punição ?

( O Pai judeu e a mãe judia se entreolham )

B ( para Rita ) – O amor não vale a pena. Eu arrisquei tudo por causa dele.

RITA – Mas eu não queria vir para a Alemanha porque eu amava o Klaus.

MÃE JUDIA – Não ?

RITA – Não.

B – Mas então...?

RITA – Eu queria fugir do Brasil, porque eu não conseguia mais viver dignamente com o meu salário.

PAI JUDEU – O que você fazia lá.

RITA – Eu era um garota de programa.

MÃE JUDIA ( tapando a boca ) – Oh !

RITA – Vocês não perceberam isso ?

B – E veio parar aqui ? Só pode ser uma punição divina.

PAI JUDEU – Deus não aprecia o serviço que você presta.

RITA – Eu não podia ficar mais lá. O meu ex-noivo estava me ameaçando, me perseguindo. Conhecia uma colega que tinha sido vend...convidada pra vir pra Alemanha, me informei e conheci o Klaus.

B – São coisas difíceis de se entender.

( Ouve-se uma sirene. B e Rita olham apreensivas para o pai judeu e para a mãe judia. )

PAI JUDEU – Vou voltar rapidinho pro repartimento dos homens, se me pegam aqui...( sai apressado )

MÃE JUDIA ( calmamente ) – Chamada para o banho noturno.

B – Teremos que ir ?

MÃE JUDIA ( rindo ) – Só vai quem consegue ficha. Muito disputadas.

B – A senhora vai ?

MÃE JUDIA – E quem agüenta esse calor ?

( Ouve-se a sirene )

B – A senhora não tem medo ?

MÃE JUDIA – Medo ?

B – As câmaras...

MÃE JUDIA – Falam muito. Nunca fiquei sabendo de nada.

RITA ( para B ) – Não me assusta.

( Mãe judia dá um abraço em Rita. Mãe judia dá um abraço em B . Mãe judia sorri para s duas e sai )

RITA – E nós ?

B – Vamos esperar.

RITA – Aqui ?
2
Monte Alverne, RS. 2004.
AVÓ – Finalmente, eu não agüentava mais esperar ! Ele só pode ter alguma coisa contra mim, só pode. E o senhor vai ficar com essa cara amarrada até o final da cena ?

GOTTLIEB – Estou tão irritado quanto a senhora ( para si ) estava fácil demais, eu deveria ter percebido isso.

E – Ele puxa o nosso tapete com muita facilidade, porque tentar superar uma capacidade inexistente em nós ?

AVÓWas soll denn das ?

GOTTLIEB – Não pergunte para mim, sei tanto quanto a senhora. Estavam os dois na minha mira, os dois ! E agora ( aponta para o seu redor ) Isto !

AVÓWieso, isto ? Mais respeito com a minha propriedade. Não fui eu quem convidou o senhor para estar aqui.

GOTTLIEB ( em voz baixa para si ) – Velha idiota.

AVÓ ( em voz baixa para si ) – Velho metido.

E ( rindo ) – Eu já estou achando graça de tudo isso, desta enorme brincadeira que uns graciosamente intitulam destino.

AVÓ – Então o senhor acha que foi o destino que nos colocou aqui frente à frente ?

E ( rindo ) – Se a senhora quiser ( olha para cima ) chamá-lo de destino ...( respira fundo ) hum , so eine frische Luft !

AVÓ – Não é só o ar que é puro ( para Gottlieb ) tudo é melhor do que em Porto Alegre. Credo, não sei como é que conseguem viver naqueles caixotes, um em cima do outro, sem uma horta pra cuidar ( para E ) vou confiar na alface do supermercado ?

GOTTLIEB ( vai até a janela ) – Dachau devia ser tão bucólica como isso aqui.

AVÓ – Buco...o que ? Até parece a minha neta. ( Para E ) Eu tenho uma neta que também mora em Porto Alegre.

E – Eu disse que morava em Porto Alegre ?

AVÓ – Apesar destas roupas estranhas, tá na cara.

( Gottlieb ri )



E – O senhor está começando a achar graça da situação ? Obra do demiurgo.

AVÓ – Esse jeito empostado do senhor falar também mostra donde o senhor veio.

E – Eu também estou esperando encontrar uma determinada pessoa.

GOTTLIEB ( espantado ) – Mas então estamos os três na mesma situação ?

E – Aparentemente sim.

GOTTLIEB – Uma armação ?

E – Talvez.

AVÓ – Vocês conhecem a minha neta ?

E – Não.

GOTTLIEB ( ríspido ) – Não. ( Para E ) Nós fomos trazidos por alguém, propositadamente, para ficarmos afastados de Porto Alegre.

E – Ou juntos em Monte Alverne.

AVÓ – Tudo isso que vocês estão falando eu não entendo, só sei que amanhã chega a minha neta e eu não consegui preparar tudo o que eu tinha planejado porque eu acordei com os senhores aqui na minha casa e como eu sou uma pessoa educada, mesmo parecendo grossa, não quis mandá-los embora, mas eu vou pedir licença para fazer o que eu tenho que fazer.

E – A senhora sabe o que tem que fazer ?

( A Avó olha para Gottlieb, depois para E )



AVÓ – Ich sollte Euch wegschicken, mas eu deixarei vocês conversando enquanto eu preparo as minhas coisas.

GOTTLIEB – O único perdido aqui pareço ser eu.

AVÓ – Não poderão dormir aqui. Não tem cama.

( A avó faz menção de se retirar )



E – Ele não conhece a sua neta, mas ele conhece a sua filha.

( A avó para e se vira para Gottlieb )



GOTTLIEB – Conheço ?

E – Uma das professoras do curso de alemão.

AVÓ ( pausadamente ) – Foi para isso que o senhor veio até Monte Alverne ?

GOTTLIEB – Era eu quem deveria estar aqui ?

E – Se está é porque deveria.

AVÓ – Eu não falo mais com a minha filha já fazem vinte anos, o que ela quer de mim ?

GOTTLIEB – Sua filha...eu...não sei...eu estou apenas procurando pelo assassino dos meus pais, eu não sei nada sobre a sua filha...quem é a sua filha ?

AVÓ ( se deixa cair a uma mesa ) – Tanto tempo se passou. Ela vive. Ela vive. Ela vive.

GOTTLIEB – O que eu devo dizer a ela ?

E – Nada. Ninguém deve nada.

AVÓ – Uma criança, mas eu não podia agir de outra forma, porque existe uma moral e esta deve ser respeitada acima de tudo. Ela tinha que pagar pelo que fez, pela irresponsabilidade de ter...Anete não podia crescer num lar que...nem era um lar e nunca poderia ser...Anete cresceu feliz comigo e eu sei disso...minha filha deve ser mais inteligente agora, mais perspicaz, compreende as coisas, os erros...o que sai de mim, e se vai não volta, não deve voltar jamais...mesmo uma criança sabe quando age errado ou age certo, e ela sabia que estava dando um golpe nela mesma...

GOTTLIEB ( emocionado ) – Eu perdi meus dois pais na guerra, e sei que nunca mais vou poder revê-los. A senhora sabe a falta que um pai faz ?

AVÓ ( recompondo-se ) – Não, eu não vou parecer uma velha arrependida na única cena desta peça em que eu apareço. Não. Limpar o quarto da Anete, a cuca de maçã, a carne de porco eu já temperei, spritzbier ainda têm no porão. Falando nisso, os senhores aceitam um pouco ?

E - Eu adoraria ( levantando-se e oferecendo o braço para a avó. ). A senhora precisa de ajuda ?

( E e a avó saem. )

GOTTLIEBPapa ? Mama ? Wie soll ich Euch treffen ? ( Deixa-se cair sobre a mesa )
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