Wollen Ich will dir Abschied geben, du arge, falsche Welt; dein sündlich böses Leben durch aus mir nicht gefäll



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AULA DE ALEMÃO


de Herminio Müller



Wollen
Ich will dir Abschied geben,

du arge, falsche Welt;

dein sündlich böses Leben

durch aus mir nicht gefällt.
1
Na sala de um apartamento no bairro Floresta, em Porto Alegre.
RITA – Me desculpa eu estar assim, desse jeito.

A – A senhorita está muito bem.

RITA (sem jeito) – Obrigada. O senhor quer beber alguma coisa antes de...

A – Obrigado.

(Pequena pausa.)



RITA (com dúvida) – Quer? Eu nunca entendo quando as pessoas respondem obrigado.

ANein, danke.

RITA (rindo aliviada) – Ah, isso eu entendi. Morrer de fome na Alemanha eu não vou.

A – Disso ninguém morre na Alemanha.

RITA – É por isso que eu quero me casar com um alemão.

(Pequena pausa.)



RITA – É só uma brincadeirinha. O seu nome é...?

A (consultando seu relógio de pulso) – Podemos começar?
2
Na sala de um apartamento no bairro Moinhos de vento, em Porto Alegre.
GOTTLIEBWollt Ihr anfangen?

B – Impressionante!

GOTTLIEB – O que?

B – Eu só lhe dei três aulas até hoje e a sua pronúncia é excelente. E mais, o senhor conjuga o pronome vós com uma facilidade que eu nunca tinha visto em nenhum aluno do nível em que o senhor se encontra.

GOTTLIEB – A senhora está querendo ser gentil comigo.

B (com humor , apontando para Gottlieb) – Não, é o senhor que está me enganando, dá pra ver pelo seu nome.

GOTTLIEB (ríspido) – O que a senhora está querendo insinuar?

B (assustada) – Perdão, eu não tinha a intenção de...

(Pequena pausa.)



GOTTLIEB – Não, fui eu que me exaltei.

(Pequena pausa.)



GOTTLIEB (um pouco envergonhado) – Onde foi que a gente parou?
3

Na sala de um apartamento no bairro Jardim São Pedro, em Porto Alegre.



ANETE – Não foi nada, é só passar um paninho na mesa.

C – Eu não queria deixar transparecer que era a minha primeira aula , mas não deu.

ANETE (limpando a mesa) – Mas tu nunca tinha dado aula de alemão antes? Eu já tô acostumada com esse sistema de rodízio de professores de vocês. Coloca ali essas fotos pra mim, faz favor. Cada dia vem um diferente. Tem uns que eu nem me lembro mais

C (nervosa) – Sujei as tuas fotos?

ANETE – Acho que não.

(Anete olha em volta procurando um lugar para largar o pano.)



C (pegando uma das fotos) – Quem é essa senhora gorda e mal-humorada?

ANETE (sorrindo) – Minha vó.

C (colocando a foto na mesa) – Es tut mir leid.

ANETE – Não precisa te desculpar. Ela era gorda e mal-humorada mesmo.

C – Ela vive ainda?

ANETE (pegando a foto e olhando-a) – Sim. Ela vive.
4
Na sala de um apartamento no bairro Higienópolis, em Porto Alegre.
DWas willst du

WILLI – O que que eu quero, né ?

(D assente positivamente com a cabeça.)



WILLI Ich will...Deutschland. Tá certo?

D Aber was willst du in Deutschland machen?

WILLI – O que eu quero fazer?

D – Hu-hum.

WILLI – Eu quero fazer meu doutorado.

D – Em alemão.

WILLI (levemente irônico) – Sim, porque em português na Alemanha vai ser meio difícil.

DNein, die Antwort auf deutsch! É a resposta que eu quero em alemão!

WILLI – Ah...

D – Tu cansou né?

WILLI – É, vamos parar por aqui. Também, quem mandou se apaixonar por Kant?
5
Na sala de um apartamento no bairro Navegantes, em Porto Alegre.
TEODORO – O que que tu achou do texto?

E – Em relação a que?

TEODORO – Consigo traduzir sozinho com o meu alemão?

E – Sim. A linguagem me parece um pouco...repetitiva, gírias em excesso, mau uso da língua...vais querer mesmo traduzir sozinho? Schaffst du es?

TEODORO (achando graça) – Tu é muito purista pro meu gosto. E além disso duvida demais da minha capacidade como tradutor.

E – Se formos considerar que a realidade é fruto da nossa atividade mental, então...

TEODORO – Wie, bitte?

E – Ah, nada. Reflexões de um velho empoeirado. Apenas isto.

TEODORO – Onde é que o senhor nasceu mesmo? Nunca me lembro do nome do lugar.

E (orgulhoso) – Königsberg. Eu nasci em Königsberg.

TEODORO – Fica na Alemanha ocidental ou na antiga oriental?

E (ofendido) – In Preussen. ( sacudindo a cabeça. Irritado) Precisa passar por idiota que não entende de geografia?

TEODORO – O dramaturgo precisa introduzir Königsberg no início da peça, vou fazer o que?

E (decepcionado) - A Alemanha já não é mais o que era.

(Pequena pausa.)



TEODORO (sussurrando) – Ninguém pode ficar sabendo que eu estou trabalhando nesta tradução, alles klar?

E – Sim, eu costumo entender muito bem o que me dizem.

TEODORO (com um sorriso irônico) – Então tá bem. A próxima diversão ficou marcada pra quando?
Müssen
Alle Menschen müssen sterben;

alles Fleisch ist gleich wie Heu;

was da lebet, muss verderben,

soll es anders werden neu.
1
Na sala de um apartamento no bairro Floresta, em Porto Alegre.
E – Na aula passada foi visto o verbo wollen, hoje, nós estudaremos o verbo müssen.

RITA – Mu..mu..mussen.

E – Não, müssen.

RITA – Mussen.

E (sem jeito) – Tem que fazer um biquinho assim com a boca. Müssen.

RITA (desanimada) – Eu nunca vou conseguir aprender esta língua.

(Pequena pausa.)



RITA – Mas eu tenho que aprender, não tem outro jeito.

E – Desculpa eu me intrometer, mas por que é que a senhora quer tanto aprender este nobre idioma?

RITA – O senhor não sabe?

(E não sabe o que responder.)



RITA – Eu achei que vocês ficassem falando sobre a vida dos alunos nas reuniões de professores. Mas pelo jeito não falam, ou o senhor não participa, sei lá.

E – Eu sou uma pessoa muito reservada.

RITA – Eu vou me casar com um alemão.

E – De verdade?

RITA – Se o meu alemão é de verdade? Espero que sim. Por que?

EIch meine...ele é alemão mesmo?

(Rita olha desconfiada para E.)



E – Eu também sou alemão.

RITA (tentando esconder uma risada) – O senhor é muito engraçado.

E – De verdade?

RITA – Ah, agora eu entendi o que o senhor quis dizer com o (imitando a pronúncia carregada de E) de verdade de antes.

E – Falo mal o português.

RITA – O nome dele é Klaus.

(E fica pensativo.)



RITA – Eu conheci ele através da internet. Ele quer me levar embora pra morar com ele na Alemanha.

E (excitado.) – Onde?

RITA (constrangida) – Não sei direito o nome do lugar.

E – Fica perto de que cidade?

RITA (desconfiada) – Não sei.

E – Königsberg?

(Pequena pausa.)



RITA – O senhor é da polícia alemã?

EEntschuldigung?

RITA (nervosa) – Olha, eu vou fazer tudo conforme a lei, eu não to querendo me juntar com qualquer carinha só pra me mandar daqui que nem a Zélia que ficou só dois meses com o alemão dela e depois virou garota de programa.

(E olha atônito para Rita.)



RITA – O que é que eu estou dizendo?

E – Não entendo nada.

RITA – Eu estou um pouco...nervosa.

E – Uma água com açúcar?

RITA – Eu tenho que me acalmar. (Olha para E.) Que vergonha. Além de burra, a aluna é louca.

E – Nunca pensei isso da senhora.

RITA (graciosa) – De verdade?

(Pequena pausa.)



E (calmo) – Tem que ser a Alemanha?

RITA (constrangida) – Dos que eu conheci foi o que eu mais gostei.

E (em voz baixa para si) – Maldita exigência de necessidade do juízo estético.

RITA – Eu não tenho muito tempo.

E – O tempo é um modo subjetivo de ordenar o sensível multíplice.

RITA – Hein?

EIch meine, o tempo não existe por si só, é a gente mesmo que tem a sensação do rápido e do demorado.

RITA – Quem é o senhor?

(Pequena pausa. O telefone celular toca. Rita olha apreensiva para E . O telefone toca. Rita olha para o telefone.)



RITA – É ele.

E – O alemão?

(Rita sacode a cabeça negativamente. O telefone toca.)



E – Quer que eu atenda?

RITA – Desliga essa merda, desliga essa merda.

(Pequena pausa.)



E – A Alemanha é que é uma merda.

RITA – Parou.

E – Tem que existir um outro lugar.

RITA (levantando-se de ímpeto) – O senhor me desculpa, mas eu vou ter que terminar a aula aqui.

(Rita conduz E forçosamente até a porta da entrada. E pára no meio do caminho. E olha para Rita.)



E – Eu só interrompi a aula porque achei que dona Rita fosse o aluno que deveria estar ligado ao meu personagem, mas pelo jeito ao demiurgo não agrada a linearidade e as soluções fáceis...enfim... era apenas uma idéia, ideal irrealizável da razão humana.

RITA – Uma idéia?

E – Adeus, e boa sorte, Fräulein.
2
Na sala de um apartamento no bairro Moinhos de vento, em Porto Alegre.
GOTTLIEBSie müssen mich erkennen.

CWen muss ich erkennen?

GOTTLIEB (irritado) – A senhorita já me perguntou isto três vezes seguidas.

C – Então, was muss Herr Blauberg kaufen? Eu sou casada.

GOTTLIEB – Hein?

C (mostrando a aliança) – Eu não sou uma senhorita, eu sou casada.

GOTTLIEB – Tão jovem e casada?

C – Isto não tem importância, was muss...

GOTTLIEB – Não tem importância ?

C – Agora não.

GOTTLIEB – Ah.

C (olhando para o relógio de parede) – Vamos parar por aqui.

(Pequena pausa.)



GOTTLIEB – Não vai elogiar o meu alemão?

C (constrangida) – Eu tenho que elogiar o seu alemão?

GOTTLIEB – Todo o professor que vem aqui me dar aula comenta sobre a minha pronúncia impecável, só você não.

C (seca) – Parabéns. O senhor esteve muito bem.

GOTTLIEB – Quer saber por que eu aprendo alemão?

C (colocando o seu material de aula dentro da bolsa) – Se o senhor acha que precisa me contar...

GOTTLIEB (segurando o pulso de C) – Por que vocês ainda não me mandaram aquele velho?

C (assustada) – Como é que é?

GOTTLIEB – O velho.

C – O velho?

GOTTLIEB – Eu anoto um por um que vem aqui, nome, tudo. Já vieram mais de trinta e o velho ainda nada. Eu sei que ele faz parte do time de vocês.

C – Eu sou nova na escola, senhor Gottlieb, eu não conheço todos os professores ainda...

(Pequena pausa.)



GOTTLIEB – Eu gostei do verbo de hoje. Müssen.

C – Eu gostaria de ir agora. Eu tenho uma aula marcada pras...

GOTTLIEB – A porta está trancada. Você é a minha refém.

C – Trancada?

GOTTLIEB – Pode até escolher o número.

(Pequena pausa.)



GOTTLIEB – Todo prisioneiro tem um número.

C – Eu não to acreditando.

(C pega o celular da bolsa. C digita o número e olha para Gottlieb. C desliga o celular.)



C – Viado. Não atende. Puto. Foi ele que me botou nessa fria.

GOTTLIEB – Escolheu o número?

C (nervosa) – Que número, que número?

GOTTLIEB – Não precisa gritar. Quer tomar um banho? Vai ter que tomar um banho. Du musst ...

C (estupefata) – Minha quinta aula!

GOTTLIEB - O maridinho não respondeu?

C – Não. Não respondeu. E quer saber mais? Eu nem tinha que estar aqui, tô aqui só por causa dele, porque foi ele que me botou nessa fria. Era pra ter muita grana envolvida, grana entendeu?

GOTTLIEBKohle?

C – Vai fazer o que comigo, posso pelo menos saber?

GOTTLIEB – Contigo nada, eu quero é o velho.

C – Que velho, porra?

GOTTLIEB – Dachau não te diz nada? Não, tu é muito novinha pra ter a mínima noção do que Dachau poderia ter sido.

C – Sei lá do que tu tá falando, o meu negócio é outro, é grana, é coisa concreta, Geschäft, senhor Gottlieb.

GOTTLIEB – Hum, uma boa comerciante, pelo que eu entendi.

C – É a sobrevivência.

GOTTLIEB – Gosto de comerciantes.

C – Eu tenho que ir agora.

GOTTLIEB – Meus pais eram comerciantes.

C (olhando ao redor de si , sarcástica) – E , pelo jeito, ricos.

GOTTLIEB – Comerciantes eram queimados ou morriam à míngua.

(C fica sem entender)



GOTTLIEB – Minha mãe morreu nos chuveiros. Meu pai...como foi que ele morreu mesmo?

(C fica cada vez mais assustada)



GOTTLIEB – O nome Dachau não te diz nada? Aprendeu alemão onde?

C – Eu...sou formada em letras...tradução alemão-português...

GOTTLIEB – Então traduz pra mim...ich muss...

C – Eu tenho que...

GOTTLIEB -...mich gut benehmen.

C -...me comportar...

GOTTLIEB (gritando) – Faltou o gut!

C - ...bem...

GOTTLIEB – Excelente aluna. Agora a senhora vai ligar pra sua escola e vai pedir o número do velho. Vai ligar pra mentir que tem uma aula marcada comigo pra daqui a duas horas e pedir que ele a substitua porque a senhora ficou doente. Eu sei que vocês vivem fazendo isso e nem consultam a supervisora de vocês. Só que a senhora não pode dizer quem é o aluno. E se ele não vier...daí a gente vê o que faz.
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