Vinícius de moraes a uma Mulher



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VINÍCIUS DE MORAES

A Uma Mulher

Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito


Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.

O poema trata do último encontro entre dois amantes. A última relação é intensa (estavas trêmula), pois o sofrimento do rompimento é certo. Portanto é preciso abarcar aquele último momento (...era preciso fugir para não perder o único instante); depois daquilo seria a dor (quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne).

Ausência


Eu deixarei que morra em mim
o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar
senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença
é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto
existe o teu gesto e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar
uma gota de orvalho
nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
como nódoa do passado
Eu deixarei...
tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos
e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite
e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa
suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só
como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém
porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar,
do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente,
a tua voz ausente,
a tua voz serenizada.

Comentário:
Diz o crítico Carlos Felipe Moisés que este é um dos primeiros poemas em que aparece a tentativa de representar a mulher amada e a experiência amorosa como ponto de encontro entre a transcendência e os apelos terrenos, entre espírito e matéria.

Poema Dos Olhos da Amada


Oh, minha amada
Que os olhos teus

São cais noturnos


Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus

Oh, minha amada


Que olhos os teus

Quanto mistério


Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus

Oh, minha amada


Que olhos os teus

Se Deus houvera


Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus

Ah, minha amada


De olhos ateus

Cria a esperança


Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus

Aqui o poetinha descreve a intensidade dos olhos da amada, que mesmo longe brilham na escuridão em que vive o eu-poético (Que brilham longe/Longe nos breus). São olhos distantes, mas que dão ao poeta a possibilidade única da esperança (O olhar mendigo/
Da poesia/Nos olhos teus).

A música das almas


Na manhã infinita as nuvens surgiram como a loucura numa alma
E o vento como o instinto desceu os braços das árvores que estrangularam a terra…
Depois veio a claridade, o grande céu, a paz dos campos…
Mas nos caminhos todos choravam com os rostos levados para o alto
Porque a vida tinha misteriosamente passado na tormenta.

A música das almas retoma a morte como salvação.
Este compara a passagem da vida para a morte com uma tempestade, a
chegada da morte com o céu nublando e o vento soprando forte e desta maneira o poema cria uma tensão. Logo chegamos ao clímax, “os braços das árvores que estrangulam a terra”, ou seja, o sofrimento do momento da morte é retomado;
novamente como uma falta de ar crescente.

Invocação à mulher única


Tu, pássaro — mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano — alma desolada da noite sobre o frio das águas — tu
Tédio escuro, mal da vida — fonte! jamais... jamais... (que o poema receba as minhas lágrimas!...)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça, fêmea
Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua...
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas — negações do bem: o Antigo Testamento! — a minha descendência
De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento — afirmações do bem: dúvida
(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oportuna que a caridade
Dúvida, madrasta do gênio) — tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amém!
Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra — perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros — mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias — mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno.
Não me deixes morrer!... eu, homem — fruto da terra — eu, homem —fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir... — as viagens remontam à vida!... e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma — uma montanha imensa e desdobrada — por onde eu iria caminhando
Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!

Nesse poema, Vinícius invoca a figura única da mulher, aquele que está acima de tudo e de todos. O descreve a mulher em sues detalhes carnais (Tu, pássaro — mulher de leite!/ Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito), como um ser superior e infinito em beleza e sensualidade. E aí recorre ao mito de Édipo, aquele que se comporta como um menino frente á grande mãe (numa mistura de amor carnal e ao mesmo tempo maternal). Por final a retratação da mulher como sendo um invólucro da própria natureza (No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!), portanto o todo e a razão de tudo.

Sonata do amor perdido

Lamento nº 1

Onde estão os teus olhos — onde estão? — Oh — milagre de amor que escorres dos meus olhos!
Na água iluminada dos rios da lua eu os vi descendo e passando e fugindo
Iam como as estrelas da manhã. Vem, eu quero os teus olhos, meu amor!
A vida... sombras que vão e sombras que vêm vindo
O tempo... sombras de perto e sombras na distância — vem, o tempo quer a vida!
Onde ocultar minha dor se os teus olhos estão dormindo?

Onde está tua face? Eu a senti pousada sobre a aurora


Teu brando cortinado ao vento leve era como asas fremindo
Teu sopro tênue era como um pedido de silêncio — oh, a tua face iluminada!
Em mim, mãos se amargurando, olhos no céu olhando, ouvidos no ar ouvindo
Na minha face o orvalho da madrugada atroz, na minha boca o orvalho do teu nome!
Vem... Os velhos lírios estão fanando, os lírios novos estão florindo...

Intermédio

Sob o céu de maio as flores têm sede da luz das estrelas
Os róseos gineceus se abrem na sombra para a fecundação maravilhosa...
Lua, ó branca Safo, estanca o perfume dos corpos desfolhados na alvorada

Para que surja a ausente e sinta a música escorrendo do ar!


Vento, ó branco eunuco, traz o pólen sagrado do amor das virgens
Para que acorde a adormecida e ouça a minha voz...

Lamento nº 2 

Teu corpo sobre a úmida relva de esmeralda, junto às acácias amarelas
Estavas triste e ausente — mas dos teus seios ia o sol se levantando
Oh, os teus seios desabrochados e palpitantes como pássaros amorosos
E a tua garganta agoniada e teu olhar nas lágrimas boiando!
Oh, a pureza que se abraçou às tuas formas como um anjo
E sobre os teus lábios e sobre os teus olhos está cantando!

Tu não virás jamais! Teus braços como asas frágeis roçaram o espaço sossegado


Na poeira de ouro teus dedos se agitam, fremindo, correndo, dançando...
Vais... teus cabelos desvencilhados rolam em onda sobre a tua nudez perfeita
E toda te incendeias no facho da alma que está queimando...
Oh, beijemos a terra e sigamos a estrela que vai do fogo nascer no céu parado
É a Música, é a Música que vibra e está chamando!

No primeiro lamento, o eu-poético chora a ausência (morte) da mulher amada e por isso as lágrimas (Onde estão os teus olhos — onde estão? — Oh — milagre de amor que escorres dos meus olhos!). No intermédio pede que a força da natureza acorde a mulher amada. Já no 2º lamento, o eu-poético tem consciência que jamais terá a mulher amada novamente, pois fora para o céu (Tu não virás jamais! Teus braços como asas frágeis roçaram o espaço sossegado).



A brusca poesia da mulher amada


Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor — oh, a mulher amada é como a fonte!

A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo


A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios


E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados...

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.



A mulher amada é enaltecida com fervor romântico, ela é rainha, pois carrega o cetro, ela faz parte da criação do universo, é o poder absoluto. Emblemático o seguinte trecho: “A mulher amada é a mulher amada é a mulher amada”. Nele a coincidência entre sujeito e predicativo, permite inferir que o simples fato de a mulher se amada a torna um ente completo, sem necessidade de nenhum atributo , de mais nenhum adjetivo.













Soneto de Intimidade


Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais


Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em tomo dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume


Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve


Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

Nesse poema o autor expõe a cumplicidade (intimidade) entre o eu-poético e a natureza, afinal somos todos, de uma maneira ou de outra, animais (Nós todos, animais, sem comoção nenhuma/Mijamos em comum numa festa de espuma).

Soneto à lua

Por que tens, por que tens olhos escuros


E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?

Que paixão fez-te os lábios tão maduros


Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me presa


A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:

E és tampouco a mulher que anda na rua


Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!

Nesse soneto Vinícius dirige diretamente sua emotividade a esse astro e começa a perder o pudor diante dessa deusa implacável, diante da luxúria. Ainda assim, como um expediente psicológico imaturo de transferência, o desejo é desviado a uma mulher branca como a Lua.

Soneto de Fidelidade


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento


E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure


Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):


Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

É este com certeza o mais conhecido e apreciado soneto de Vinicius de Moraes. Observam-se nele a clareza e a concisão de linguagem, características clássicas que substituem a tendência alegórica e o derramamento declamatório dominantes na fase inicial do poeta. O soneto fala de um amor verdadeiro, forte, intenso, contraditório, mas que pode acabar com o tempo (Que não seja imortal, posto que é chama). Mesmo assim, deixará profundas recordações e terá valido a pena (Mas que seja infinito enquanto dure).

Poemas para todas as mulheres
No teu branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos...
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o [cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora!

Soneto de Separação


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento


Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente


Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante


Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Este soneto, um dos mais populares de Vinícius, é quase todo composto num jogo antitético, tais como: riso X pranto; calma X vento; triste X contente e próximo X distante. O emprego dessa figura de linguagem, ao longo do poema, revela as mudanças na relação amorosa que se processam de uma forma abrupta e inesperada. O poeta utiliza um outro recurso, num belíssimo arranjo de antíteses, para acentuar o dinamismo que caracteriza o poema: o emprego da forma verbal "Fez-se" e de sua forma contrária "desfez". Esse dinamismo expresso no soneto revela, sob certo aspecto, a própria inconstância na vida amorosa de Vinicius.

Soneto de Despedida


Uma lua no céu apareceu
Cheia e branca; foi quando, emocionada
A mulher a meu lado estremeceu
E se entregou sem que eu dissesse nada.

Larguei-as pela jovem madrugada


Ambas cheias e brancas e sem véu
Perdida uma, a outra abandonada
Uma nua na terra, outra no céu.

Mas não partira delas; a mais louca


Apaixonou-me o pensamento; dei-o
Feliz - eu de amor pouco e vida pouca

Mas que tinha deixado em meu enleio


Um sorriso de carne em sua boca
Uma gota de leite no seu seio.

Soneto do Maior Amor

Maior amor nem mais estranho existe


Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste


O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere


E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante


Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

Marina


Lembras-te das pescarias
Nas pedras das Três-Marias
Lembras-te, Marina?

Na navalha dos mariscos


Teus pés corriam ariscos
Valente menina!

Crescia na beira-luz


O papo dos baiacus
Que pescávamos

E nas vagas matutinas


Chupávamos tangerinas
E vagávamos...

Tinhas uns peitinhos duros


E teus beicinhos escuros
Flauteavam valsas

Valsas ilhoas! vadio


Eu procurava, no frio
De tuas calças

E te adorava; sentia


Teu cheiro a peixe, bebia
Teu bafo de sal

E quantas vezes, precoce


Em vão, pela tua posse
Não me saí mal...

Deixavas-me dessa luta


Uma adstringência de fruta
De suor, de alga

Mas sempre te libertavas


Com doidas dentadas bravas
Menina fidalga!

Foste minha companheira


Foste minha derradeira
Única aventura?

Que nas outras criaturas


Não vi mais meninas puras
Menina pura.

A paixão da carne


Envolto em toalhas
Frias, pego ao colo
O corpo escaldante.
Tem apenas dois anos
E embora não fale
Sorri com doçura.
É Pedro, meu filho
Sêmen feito carne
Minha criatura
Minha poesia.
É Pedro, meu filho
Sobre cujo sono
Como sobre o abismo
Em noites de insônia
Um pai se debruça.
Olho no termômetro:
Quarenta e oito décimos
E através do pano
A febre do corpo
Bafeja-me o rosto
Penetra-me os ossos
Desce-me às entranhas
Úmida e voraz
Angina pultácea
Estreptocócica?
Quem sabe... quem sabe...
Aperto meu filho
Com força entre os braços
Enquanto crisálidas
Em mim se desfazem
Óvulos se rompem
Crostas se bipartem
E de cada poro
Da minha epiderme
Lutam lepidópteros
Por se libertar.
Ah, que eu já sentisse
Os êxtases máximos
Da carne nos rasgos
Da paixão espúria!
Ah, que eu já bradasse
Nas horas de exalta-
Ção os mais lancinantes
Gritos de loucura!
Ah, que eu já queimasse
Da febre mais quente
Que jamais queimasse
A humana criatura!
Mas nunca como antes
Nunca! nunca! nunca!
Nem paixão tão alta
Nem febre tão pura.


No poema acima, o autor desvia o foco do amor em relação à mulher e passa a tratar o amor paterno. O eu-poético quer transferir para si a dor do filho doente, febril. O menino que tem apenas dois anos, Pedro, tem um pai que se debruça sobre sua doença e sente a febre do filho penetrar-lhe os ossos e descer às entranhas. O pai aperta a criança nos braços querendo protege-lo da morte, mas sente já as crisálidas em si se desfazerem, e sente sair de seu corpo as larvas a rasgarem a carne. É a tentativa de enganar a morte trazendo para si o filho.













Receita de Mulher


As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.
É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então Que a mulher se socialize elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os menbros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhavel na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferencia grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher de sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação imunerável.

Na poesia Receita de Mulher, o poeta inicia com uma afirmação bem determinada e bastante conhecida: As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental. E ao longo do poema, há uma descrição da beleza de um corpo feminino, em que a mulher necessita lembrar um verso, ter a expressão greco-romana e um rosto de nuvem, mas que a nuvem tenha olhos e nádegas. Uma mulher feita de poesia, mas uma mulher real. Não pode ser apenas idealizada como no Romantismo.

Soneto do Amor Total


Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,


E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,


De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,


É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Na segunda estrofe desse poema encontramos um pouco de contradição em presente na saudade, presente algo atual e saudade algo distante. O mesmo acontece com eternidade e a cada instante, eternidade que remete ao longe e cada instante que remete ao que está sendo vivido, tudo isso sugere um amor vivo no presente e no futuro. A terceira estrofe apresenta um amor animal, irracional e instintivo (bicho). Cheio de desejo carnal. No primeiro verso da última estrofe, seguindo a descrição dos desejos, temos amar assim, muito e amiúde que nos faz lembrar uma grande quantidade em pouco tempo, ou seja, um amor com muito sexo. No último verso Hei de morrer de amar mais do que pude leva a crer em um amor intenso até a morte, com pluralidade de sentidos, que pode também ser morrer de amor, ou intensidade sexual na intimidade até o desgaste físico. O poema descreve um misto entre sentimento amoroso e desejos (entre o amor sublime e o amor pecaminoso).


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