Vermelho forte



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Federico Andahazi

O segredo dos flamengos



Para Aída

Para Verita

Parte I


VERMELHO FORTE

I

Uma névoa avermelhada cobria a cidade de Florença. Desde o Forte da Basso até o de Belvedere, desde a Porta al Prato até a Romana. Como se fosse sustentada pelas grossas muralhas que rodeavam a cidade, uma cúpula de nuvens vermelhas mal dava passagem para as luzes de um novo dia. Tudo era vermelho debaixo daquele vitral carmim, que lembrava o grande vitral da igreja de Santa Maria del Fiore. A carne das ovelhas abertas ao meio e penduradas no mercado, e a língua dos cães famintos lambendo poças de sangue que caíam das vacas igualmente penduradas; as telhas da Ponte Vecchio e os ladrilhos desnudos da Ponte alle Grazie; as gargantas crispadas dos vendedores ambulantes e o nariz inchado de cada passante; tudo era encarnado, mais vermelho do que normalmente já era.



Um pouco além, subindo pela ribeira do Arno até a via della Fonderia, uma modesta procissão arrastava os pés entre as folhas secas da parte mais escondida do velho cemitério. Longe dos mausoléus monumentais, do outro lado dos pinheiros que separavam os túmulos das grandes famílias do terreno baldio, semeado de cruzes tortas e lápides deformadas, três homens, curvados mais pelo cansaço do que pelo pouco peso do tosco caixão que de forma desequilibrada levavam, lentamente avançavam até a cova recém-aberta pelos coveiros no chão. Quem comandava o cortejo, carregando sozinho a parte dianteira do caixão, era o mestre Francesco Monterga, talvez o mais conhecido pintor protegido pelo mecenato pouco generoso do duque de Volterra. Atrás dele caminhavam, um de cada lado, seus próprios alunos, Giovanni Dinunzio e Hubert van der Hans. E fechando a procissão, com os dedos cruzados junto ao peito, iam dois religiosos, o abade Tomasso Verani e o prior Severo Setimio.

O morto era Pietro della Chiesa, o discípulo mais jovem do mestre Monterga. A Compagnia della Misericordia havia custeado o pobre enterro, uma vez que o defunto não tinha família. De fato, tal como demonstrava seu sobrenome, Della Chiesa, ele havia sido deixado nos braços de Deus, poucos dias depois de nascer, quando o abandonaram na porta da igreja de Santa Maria Novella. Tomasso Verani, o padre que encontrara o pequeno corpo, roxo de frio e muito doente, e que o batizou, era o mesmo que agora, dezesseis anos depois, com uma voz baixa e monocórdia, lhe desejava um rápido caminho até o Reino dos Céus.

O caixão era feito de madeira de álamo, e por suas frestas já começava a escapar o cheiro nauseante da decomposição que se acelerava há dias, de tal forma que o outro religioso, com um olhar autoritário, ameaçou o padre, para que deixasse de lado os trechos menos importantes da oração. Foi uma oração rápida que terminou com um prematuro “amém”. Imediatamente, o prior Severo Setimio mandou que os coveiros terminassem o serviço. A julgar pela expressão do seu rosto, era possível dizer que Francesco Monterga estava profundamente desconsolado e incrédulo frente ao terrível espetáculo que a decidida indiferença dos coveiros lhe mostrava.

Cinco dias depois de seu inesperado desaparecimento, o cadáver de Pietro della Chiesa havia sido encontrado fora dos muros da cidade, num depósito de lenha pouco distante da vila onde viviam os servidores do Castelo Corsini. Tinha a aparência da escultura de Adônis violentamente derrubada de seu pedestal. Estava completamente nu, rígido e virado de bruços. A pele branca, tensa e cheia de hematomas lhe dava um aspecto semelhante ao mármore. Em vida, tinha sido um jovem de uma beleza frágil, e agora, seus restos endurecidos lhe conferiam uma formosura macabra, ressaltada pela tensão de sua pouca musculatura. Os dentes haviam ficado cravados no chão, mordendo a terra úmida; tinha os braços abertos em cruz e os punhos fechados, numa posição de defesa e de resignação. A cara estava enterrada numa poça de seu próprio sangue, e um dos joelhos estava dobrado sob seu corpo.

A causa da morte era uma pequena ferida de arma branca que cruzava seu pescoço do centro até a jugular. A pele do rosto havia sido retirada, deixando expostos os ossos. O mestre Monterga teve muitas dificuldades para reconhecer nesse cadáver inchado o corpo de seu discípulo, mas, por mais que tivesse resistido a convencer-se de que aqueles restos eram de Pietro della Chiesa, as provas eram irrefutáveis. Francesco Monterga o conhecia melhor que qualquer outro e, com muita dor, admitiu que a pequena cicatriz no ombro direito, a mancha alongada nas costas e os dois sinais na nádega esquerda correspondiam, sem dúvida, às marcas particulares de seu discípulo preferido. E, para afastar qualquer dúvida, suas roupas haviam sido encontradas espalhadas pelo bosque.

O estado de decomposição em que se encontravam os restos era tão avançado que nem foi possível fazer um velório com caixão aberto. Não apenas por causa do mau cheiro que exalava o corpo, mas porque, além disso, a rigidez do corpo era tanta que, para colocá-lo no caixão, fora preciso quebrar os braços, que pareciam decididos a permanecer abertos.

Naquele momento, o mestre Monterga, com o olhar perdido em um ponto impreciso, muito além do fundo da cova, recordava o dia em que havia conhecido aquele que seria seu mais fiel discípulo.

II

Num dia de 1474, o abade Tomasso Verani apareceu no ateliê de Francesco Monterga com uns papéis enrolados embaixo do braço. O padre Verani, que dirigia o Ospedale degli Innocenti, saudou o pintor com uma expressão fulgurante, estava mais animado do que nunca, incapaz de esconder sua euforia. Desenrolou com grande expectativa as folhas sobre uma mesa do ateliê e pediu ao mestre sua qualificada opinião. Francesco Monterga examinou sem grande interesse o primeiro desenho que o padre lhe mostrava. Pensando que fosse uma temerária tentativa do próprio abade nos mares da pintura, tentou ser piedoso. Sem nenhum entusiasmo, com um tom que parecia querer desestimular o outro, balançando levemente a cabeça, disse sobre o primeiro desenho:



- Não está mal.

O desenho a carvão retratava os nove arcos do pórtico do orfanato construído por Brunelleschi, e o mestre pensou que podia ser muito pior, por se tratar de um principiante. Chamou a atenção para o bom manejo da perspectiva que dominava a visão do pórtico, ao fundo, o bom traço com que havia sido desenhado o campanário da Santissima Annunziata. O uso de luz e sombra era um tanto torpe, mas pelo menos estava próximo do procedimento usual. Antes que pudesse formular uma crítica mais conclusiva, o padre Verani abriu outro desenho sobre o primeiro, que o mestre ainda não havia examinado completamente. Era um retrato do próprio abade, uma sanguina (N.R.: Giz de cera de cor vermelha.) que revelava um traço inocente mas decidido e solto. A expressão do padre havia sido alcançada no retrato. De qualquer modo, disse o mestre para si mesmo, entre a correção que os desenhos mostravam e o talento de um artista havia um oceano intransponível. Ainda mais considerando a idade do abade Verani. Procurou encontrar as palavras adequadas para, por um lado, não ferir o amor-próprio do padre e, por outro, para não entusiasmá-lo em vão.

- Meu querido abade, é evidente a dedicação que estes trabalhos revelam, mas na nossa idade... - titubeou. - Quero dizer... seria a mesma coisa que se eu, na minha idade, aspirasse a ser cardeal...

Como se tivesse acabado de receber o maior dos elogios, o padre Verani, com os olhos brilhando, interrompeu o veredito:

- E o senhor ainda não viu nada - disse o padre.

O padre Verani tomou o braço de Francesco Monterga e praticamente o arrastou até a porta, deixando sobre a mesa o resto dos desenhos. Levou-o escadas abaixo e, antes que o mestre pudesse falar, já estavam na rua, a caminho do Ospedale degli Innocenti.

O mestre conhecia a veemência do padre Verani. Quando metia algo na cabeça, não havia razão capaz de dissuadi-lo de alcançar seus propósitos. Caminhava sem soltar o braço de Monterga, que, enquanto tentava seguir o passo do abade, não se perdoava por ter sido brando em seu veredito. Quando dobraram na via dei Servi, o pintor se soltou da mão pegajosa que apertava seu braço e esteve a ponto de gritar ao padre o que devia ter dito minutos antes, no ateliê. Mas já era tarde. Estavam na porta do hospício. Cruzaram em diagonal a piazza, passaram por baixo do pórtico e entraram no edifício. Armado com um escudo de paciência e resignação, o mestre estava disposto a perder a manhã com o novo capricho do abade. O pequeno cubículo a que foi conduzido era um ateliê improvisado, escondido atrás do ambulatório; era um lugar tão reservado que parecia ser clandestino. Aqui e ali se amontoavam tábuas, telas, papéis, pincéis, carvões e se respirava o cheiro áspero do atramento (N.R.: Tinta escura também usada como verniz.) e de extratos vegetais. Quando se acostumou um pouco à escuridão, o mestre conseguiu ver num dos cantos do quarto as costas de um menino sobre o fundo claro de uma tela. A mão do pequeno ia e vinha pela superfície da tela com a mesma desenvoltura de uma andorinha voando pelo céu transparente. Era uma mão tão pequena que quase não conseguia segurar direito o carvão. Conteve a respiração, emocionado, temendo que o menor ruído pudesse estragar o espetáculo. O padre Verani, com as mãos cruzadas sob o abdômen e com um sorriso santificado, contemplava a expressão perplexa e maravilhada do mestre.

O menino era Pietro della Chiesa e ainda não tinha cinco anos. Desde o dia em que o recolhera, abandonado na porta da igreja de Santa Maria, quase morto, e, contrariando todos os prognósticos, sobreviveu, o padre soube que não seria como os demais meninos do orfanato.



Assim como todos os seus irmãos de infortúnio, o pequeno foi registrado no precário, ilegível e muitas vezes esquecido Registro da Nascita, com o sobrenome Della Chiesa (N.R.: Literalmente, “Da Igreja”, sobrenome dado aos órfãos.). Mas, diferentemente dos outros, cujos nomes correspondiam ao do santo do dia em que ingressavam no Ospedale degli Innocenti, o padre Verani decidiu quebrar a regra e batizá-lo Pietro, em sua própria homenagem, uma vez que se chamava Pietro Tomasso. O menino logo demonstrou uma curiosidade nada comum. Seus olhos, negros e vivos, examinavam tudo com um inusitado interesse. Talvez por ser o protegido do padre, sempre gozou, no Ospedale, de maiores atenções que os demais. Mas o certo é que, muito mais cedo que o normal, começou a fixar seu olhar nos objetos ao seu redor e começou a desenhá-los. Para isso, muito precocemente, aprendeu a utilizar tudo aquilo que pudesse servir para deixar rastros, tanto no chão como nas paredes, em sua roupa e até no próprio corpo. A irmã Maria, uma portuguesa de pele morena que era encarregada dele, dia após dia descobria, escandalizada, as novas peripécias do pequeno. Qualquer coisa era boa para deixar testemunho de sua iniciante vocação: barro, pó, restos de comida, carvão, gesso arranhado das paredes. Qualquer matéria que caía em suas mãos era utilizada de maneira impiedosa sobre qualquer imaculada superfície que estivesse a seu alcance. Se a irmã Maria o colocava de castigo, sempre dava um jeito de não interromper sua obra: insetos amassados pacientemente misturados a seus próprios excrementos eram, para o pequeno Pietro, a mais estimada das têmperas. O grande pátio central era seu mais extraordinário armazém de provisões. Em todo canto, tinha ao alcance da mão as melhores aquarelas: frutas maduras, grama, flores, terra e pólen das mais variadas cores. A paciência e a tolerância de seu protetor pareciam não ter limites. A irmã Maria não conseguia entender por que razão o abade, que costumava manter uma severa disciplina, permitia que o pequeno transformasse o Ospedale em um verdadeiro chiqueiro. Antes de mandar limpar as paredes, o abade ficava extasiado olhando a hedionda obra de seu protegido, como se contemplasse os mosaicos da cúpula do batistério. Um pouco para que a irmã Maria parasse de cacarejar sua indignação e terminasse lançando imprecações em português, um pouco para alimentar a paixão de seu protegido, o certo é que o padre Verani levou para o pequeno um punhado de pedaços de carvão, umas sanguinas, um lápis trazido de Veneza e uma pilha de papéis rejeitados pela imprensa do arcebispado. Foi um verdadeiro achado. O lápis se acomodava à sua mão como se fosse parte de sua anatomia. Pietro aprendeu a desenhar a si mesmo antes de aprender a dizer o próprio nome. E, a partir do momento em que recebeu aqueles presentes, o menino limitou-se à superfície das folhas, mesmo que nunca tivesse abandonado seu afã de experimentar elementos menos convencionais. Os avanços eram surpreendentes, mas as habilidades precoces do menino iam se encontrar com um muro difícil de superar.

As zangas da irmã Maria com Pietro eram tão fortes como efêmeras, em contraste com o carinho incondicional que lhe dava. E, certamente, seus pequenos momentos de ira não eram nada em comparação com a silenciosa fúria que o menino despertava naquele que haveria de se converter em uma verdadeira ameaça para sua feliz permanência no orfanato: o prior Severo Setimio.



Severo Setimio era quem supervisionava todos os estabelecimentos pertencentes ao arcebispado. A cada semana, sem que ninguém pudesse prever o dia e a hora, fazia uma visita surpresa ao Ospedale. Com as mãos cruzadas às costas, o queixo saliente e altivo, percorria os corredores, entrava nos claustros e revistava com cuidado, até debaixo das camas, para que tudo estivesse em ordem. Diante do olhar assustado dos internos, Severo Setimio andava acompanhado pelo padre Verani, que pedia em silêncio que nada irritasse o terrível espírito do prior. Mas as silenciosas súplicas do padre pareciam nunca encontrar abrigo na Santíssima Vontade: uma ruga nas cobertas, um gesto que pudesse revelar falta de respeito, o mais imperceptível murmúrio eram motivos para que, inexoravelmente, alguma coisa fosse apontada e condenada pelo indicador de Severo Setimio. Então apareciam as punições sumárias e inapeláveis: os pequenos eram condenados a ficar horas ajoelhados em grãos de milho ou, se as penas eram mais graves, o próprio prior se encarregava de descarregar o rigor da vara nos dedos dos jovens delinquentes. O fato mais insignificante era motivo para que se criasse uma espécie de tribunal inquisitorial: se, por exemplo, durante a inspeção, um jovem deixava escapar um leve sorriso nervoso misturado com a perplexidade que a figura marcial do prior inspirava, a silenciosa fúria não se fazia esperar. Imediatamente, ordenava que todos ficassem em duas filas opostas e, passando por aquele estreito corredor infantil, examinava cada rosto, ao acaso, e escolhia um fiscal para o juízo sumário. O acusador escolhido devia indicar o culpado e determinar a pena que lhe cabia. Se o infeliz escolhido demonstrava uma atitude de cumplicidade, alegando desconhecer a identidade do responsável, então passava a ser o culpado pelo fato, e outro menino era escolhido para decidir a pena que lhe correspondia. Se o prior considerava que o castigo era muito brando e apoiado na camaradagem, então o indulgente verdugo também era acusado. E assim, condenando inocentes como se fossem culpados, conseguia que alguém confessasse o delito original. Mas os castigos antes indicados eram piedosos se comparados com o mais temido de todos, que despertava nos meninos um terror superior ao causado pela ira de Deus: la casa dei morti. Por esse nome era conhecido o velho presídio, o temido inferno a que desciam aqueles que, por seus graves delitos, eram expulsos do Ospedale. A casa dos mortos era uma fortaleza que ficava no alto de um penhasco que coroava uma montanha sem nome. Cercada por cinco muros que se precipitavam no abismo e por uma fossa de águas negras que paravam ao pé do monte, era impossível sequer imaginar um modo de fugir. De maneira que, por mais cruel que fosse o castigo, cada vez que o prior dava uma sentença para ser cumprida dentro dos muros do Ospedale, o réu soltava uma suspiro de alívio. O inspetor do arcebispado parecia ter um especial interesse no jovem Pietro. Ou, dizendo de outra forma, o antigo rancor que o prior tinha em relação ao padre Verani convertia o preferido do padre em alvo de todo o ressentimento de Severo Setimio. Nem bem havia sabido da recém-descoberta vocação de Pietro, determinou que estava proibida qualquer manifestação em papéis, tábuas, telas e, principalmente, em muros, paredes ou em qualquer superfície do orfanato. E, obviamente, confiscou todos os instrumentos que servissem para a pintura. De modo que, cada vez que a irmã Maria escutava a voz do prior Severo Setimio, se apressava a apagar qualquer marca que ficasse da obra demoníaca de Pietro. O padre Verani fazia verdadeiros esforços para distrair o inspetor do arcebispado, a fim de dar tempo para a religiosa limpar as paredes, esconder os utensílios de pintura e limpar as mãos do pequeno, cujos dedos sujos delatavam o crime. De qualquer forma, mesmo que o prior nem sempre conseguisse reunir provas suficientes, ele sabia que o padre Verani escondia as atividades de Pietro. Na dúvida, de todos os modos, sempre dava uma castigo para o preferido do abade.

O padre Verani sabia que, se um espírito generoso e piedoso não protegesse o pequeno Pietro, quando ele tivesse idade suficiente seria inevitavelmente levado à casa dos mortos.

III

Naquele distante dia, quando Francesco Monterga conheceu o protegido do abade, não conseguia esconder o assombro, enquanto via a destreza com que o pequeno movia o carvão sobre a tela. O menino se levantou, olhou para o velho mestre e fez uma reverência. Então o padre Verani fez um gesto discreto para o menino, apenas um movimento de sobrancelhas. Sem dizer nada, o pequeno Pietro pegou um papel, comum, não-prensado, subiu em uma cadeira e, ajoelhado, chegou à altura da mesa. Cravou seus olhos no rosto do mestre e o examinou dos pés à cabeça. Francesco Monterga era um homem corpulento. Sua barriga avantajada ficava dissimulada em virtude de sua grande estatura. A cabeça, colossal e completamente calva, parecia de mármore. Uma barba densa e cinzenta lhe dava um ar santo e assustador. A aparência do mestre florentino impunha respeito. No entanto, o tom de sua voz e seus modos contrastavam com aquele porte de lenhador: tinha um tom de voz levemente agudo e falava com entonação amaneirada. Seus dedos, compridos e finos, nunca paravam, e seus fortes braços acompanhavam cada palavra com um gesto redundante. Quando, por alguma razão, ficava nervoso, parecia não conseguir controlar os olhos, que piscavam de modo irritante. Nesses momentos, seus olhos, castanhos e profundos, se transformavam em duas pedras tímidas e evasivas, feitas de incertezas.



E esse era o caso no momento, enquanto inesperadamente posava para o artista precoce. O menino apertou o carvão entre seus dedos pequenos e se dispôs a começar o trabalho. Com certa malícia, Francesco Monterga virou, de repente, a cabeça na direção oposta. Pietro trabalhava concentrado no papel e eventualmente olhava para o mestre, e parecia nem se importar que este tivesse mudado de posição. A vela que queimava sobre a mesa levou mais tempo para queimar do que o menino para terminar seu trabalho. Desceu da cadeira, caminhou até o mestre, lhe entregou o desenho e fez nova reverência. Francesco Monterga olhou para o desenho, e era como se ver em um espelho. Meia dúzia de riscos que resumiam com precisão as feições do pintor. Abaixo da figura, em letras românicas, era possível ler: Francesco Monterga Florentinus Magister Magistral. O coração do mestre saltou no peito e, mesmo sendo um homem de emoções comedidas, ficou comovido. Nunca havia recebido um elogio semelhante; nenhum colega havia se dado ao trabalho de fazer um retrato do mestre. Nem mesmo ele havia se permitido a íntima homenagem de um autorretrato. Era a primeira vez que via seu rosto fora do espelho quebrado de seu quarto. E, mesmo gozando de reconhecimento em Florença, nunca o haviam honrado com o título de Magister Magistral. E agora, enquanto contemplava o retrato, pela primeira vez pensou na posteridade.

Vendo-se no papel, confirmou que era um homem velho. Sua vida, pensou, não era nada mais que uma sucessão de oportunidades não aproveitadas. Podia ter brilhado com a mesma força que Dante vira em Giotto, acreditava ter o mesmo direito ao mesmo reconhecimento de que gozava Piero della Francesca, e certamente merecia a mesma riqueza que Jan van Eyck havia acumulado em Flandres. Como o holandês, poderia ter aspirado à proteção da Casa de Borgonha ou mesmo à de Médicis, e não teria que depender do pobre mecenato do duque de Volterra. Agora, no outono de sua existência, pensava que não havia deixado, em sua rápida passagem por este vale de lágrimas, a semente de sua descendência. Estava completamente sozinho.

Era possível dizer que o padre Verani podia ler nos olhos ausentes de Francesco Monterga.

- Estamos velhos - disse o abade, e conseguiu arrancar do mestre um sorriso amargo.

O padre colocou as mãos sobre os ombros do pequeno Pietro e o aproximou um pouco mais do pintor. Tossiu, buscou as palavras mais adequadas, adotou um ar circunspecto e, depois de um longo silêncio, com uma voz insegura mas decidida, disse:

- Tome conta deste menino.

Francesco Monterga ficou petrificado. Quando conseguiu entender o sentido daquelas quatro palavras, enquanto voltava seu rosto para o padre Verani, seu rosto foi se transfigurando. Até que , como se tive visto o próprio demônio, deu um passo atrás, num movimento espasmódico. A ruga que atravessava suas sobrancelhas revelava uma mistura de espanto e fúria. E pensou ter entendido a razão de tanta homenagem. Francesco Monterga era capaz de passar da calma à ira em menos tempo do que tarda o trovão após o relâmpago. Nessas ocasiões, sua voz ficava ainda mais aguda, e suas mãos desenhavam no ar a forma de sua fúria.

- Era isso o que querias de mim.

Sacudiu o retrato que ainda tinha nas mãos, e não parava de repetir:

- Era isso o que querias...

Então atirou o papel na cara do padre, deu meia-volta e, com passo decidido, se dispôs a sair do ateliê improvisado. O pequeno Pietro, mais decepcionado do que amedrontado, juntou o retrato e tentou alisar a folha com a palma da mão. No mesmo momento em que Francesco Monterga buscava o caminho da rua, o abade, que transformava sua surpresa em indignação, o segurou pelo braço com toda a força enquanto gritava:

- Miserável!

Francesco Monterga parou, voltou-se para o padre Verani e, vermelho de raiva, pensou em um rosário inteiro de insultos e xingamentos. E, justo quando ia soltá-los, viu como o menino assustado se escondia atrás do hábito cor púrpura do padre. Então, engolindo as palavras, limitou-se a agitar o indicador no ar. Tentando recuperar a calma, o padre Verani disse que era um pecado indesculpável condenar o menino outra vez à orfandade e que estava seguro de jamais ter visto tanto talento em uma criança. Pediu-lhe que olhasse o retrato mais uma vez e disse que o mestre jamais se perdoaria por desperdiçar esse potencial que Deus havia posto em seu caminho. Vendo que Francesco Monterga se aproximava da porta para sair, o padre Verani concluiu:

- Aquele que não tem um discípulo não merece ser chamado de mestre.

Aquela última frase pareceu causar um efeito imediato. Os momentos de fúria de Francesco Monterga costumavam ser tão fortes quanto efêmeros; imediatamente as águas voltavam para o curso normal de seu espírito, e a fúria se dissipava tão rapidamente como havia iniciado. O pintor deteve-se no vão do portal, olhou para o pequeno Pietro e não pôde deixar de lembrar de seu próprio mestre, o grande Cosimo da Verona.

Francesco Monterga, de cabeça baixa e um pouco envergonhado, lembrou ao abade que era um homem pobre, que quase não tinha dinheiro para seu próprio sustento; que seu trabalho de decoração do Palácio Médici, sob a direção de Michelozzo, além de acabar com suas costas, não lhe deixava mais que uns poucos ducados.

- Nada tenho para oferecer a este pobre órfão - se lamentou, olhando para o chão.

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