Valcinir A. S. V



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Estudos preliminares da biocompatibilidade de membranas cartilaginosas tratadas em solução alcalina e implantadas na parede abdominal de ovelhas
Valcinir A. S. V.1, Rogério E. R.1, Fabiano J. F. S.1, Vanessa S. F.2, Ana Maria D. P.3, Virgínia C. A. M.3, Juliana F.B.1, Aline M.C.G.4

1Curso de Medicina Veterinária, Universidade Federal de Goiás, Campus de Jataí, Jataí (GO), Brasil

2Departamento de Zootecnia, Universidade Federal do Mato Grosso, Cuiabá (MT), Brasil

3Departamento de Físico-química, Universidade de São Paulo, São Carlos, (SP), Brasil

4Médica Veterinária autônoma

E-mail: aloisiosv@hotmail.com


Resumo. Soluções alcalinas têm sido utilizadas para reduzir a antigenicidade de materiais biológicos, tais como pericárdio, centro tendíneo diafragmático e tendões. Devido ao elevado pH, as células são removidas, preservando a arquitetura do tecido conjuntivo. Neste estudo foi utilizada a solução alcalina com pH 13 para o tratamentoo, durante 72 horas, de cartilagem auricular bovina para ser implantado na parede abdominal de ovinos. O biomaterial foi implantado na parede abdominal de quatro ovinos e em outros quatro, foi implantada tela de polipropileno para atuar como controle. Os implantes foram avaliados clinicamente, usando escores de edema e inflamação e ultrassom, observando-se edema, coágulos sanguíneos e incorporação nos tecidos adjacentes. Foi observado que a cartilagem tratada em solução alcalina, proporcionou edema e hiperemia discreta e integrou-se à parede abdominal. Nos animais que receberam implante polipropileno observou-se edema mais intenso, coágulo em um animal e integração com a parede abdominal. As amostras coletadas durante a retirada do implante serão avaliadas por técnicas histológicas e imunohistoquímicas para verificar o processo inflamatório envolvido. Porém, neste estudo preliminar, verificou-se que a antigenicidade dos implantes de cartilagem auricular tratados em solução alcalina é menos intensa do que a de implantes de tela de polipropileno.

Palavras-chave: Biomateriais, Biocompatibilidade, Implantes, hernioplastia, Cirurgia Experimental.

1. INTRODUÇÃO
Na clínica cirúrgica de pequenos e grandes animais, a incidência de pacientes que apresentam extensas perdas teciduais é significativa. Em situações emergenciais, independentemente se a lesão é de origem traumática ou neoplásica, o grande desafio para o cirurgião veterinário é a obtenção de tecidos viáveis para promover a reparação e restauração das estruturas comprometidas.

No tratamento de injúrias passíveis de correção cirúrgica, como nas rupturas de tendões e hérnias, o método ideal é que se promova a aproximação de tecidos do próprio paciente. Porém, em situações em que não seja possível essa reconstrução, em virtude da ausência de integridade tecidual ou mesmo comprometimento de aponeuroses, o uso dos biomateriais tem sido apontado como alternativa (SILVA et al., 1999; RABELO et al., 2006).

Diversos estudos têm sido realizados empregando biomateriais, sejam estes de natureza sintética ou biológica, com resultados e intercorrências variadas. Para RICHA (1987), implantes de natureza biológica, sejam estes homólogos ou heterólogos, apesar de muitas vezes necessitarem de conservação previamente à sua implantação no receptor, têm se mostrado mais vantajosos em relação aos tecidos de natureza sintética. Tal fato estaria relacionado à maior antigenicidade dos biomateriais sintéticos, culminando em diversas intercorrências, com destaque para a rejeição do implante. Para BRACCIALLI et al. (2001), os materiais de origem biológica, em função das formas de obtenção, conservação e do pouco estímulo antigênico que promovem, apresentam-se como alternativa viável em cirurgias reparadoras.

Em Medicina Veterinária o uso dos implantes biológicos têm sido mais utilizados na reconstrução de defeitos das paredes diafragmática e abdominal, com destaque para a dura-máter homógena em cão, pericárdio equino e bovino em cão (ALVARENGA, 1992), ligamento nucal bovino em cão (DALECK et al., 2000), diafragma homólogo em cão (MAZZANTI, 2000) ou mesmo nas hernioplastias umbilicais em bovinos, com importância para o uso do centro tendíneo diafragmático homólogo e a cartilagem auricular homóloga (SILVA et al., 2004). Destacam-se também, o uso de implantes biológicos, de origem heteróloga ou homóloga, nas tenoplastias do tendão calcanear comum em cães, com uso do peritônio bovino e da albugínea peniana bovina (RABELO et al., 2006; VULCANI et al. 2008).

Além dos tradicionais métodos de conservação, modificações químicas em alguns tecidos animais constituem-se em alternativas de elevado potencial para melhorar ou modificar suas propriedades mecânicas, estruturais ou físico-químicas. GOISSIS et al., (1999) utilizaram solução alcalina em tecidos animais, o que reduziu a imunogenicidade, em virtude da hidrólise dos grupos carboxiamidas e otimizou as propriedades piezoelétricas do colágeno, atuando como estimulador físico-químico de crescimento celular.

PARREIRA (2004) utilizou o processo de hidrólise alcalina em pericárdio bovino em amostras tratadas por 24 e 48 horas e as implantou no subcutâneo de ratos, observando o comportamento de integração tissular até 180 dias. Essas matrizes tiveram diferença significativa em relação ao grupo controle, na redução de fibrosamento e ausência de resposta inflamatória crônica.

Utilizando metodologia similar, VULCANI et al. (2008) processou centros tendíneos diafragmáticos equinos para utilização em parede abdominal na mesma espécie, obtendo implantes que apresentaram menor antigenicidade quando comparados com as membranas conservadas em glicerina a 98%.

Seguindo esta tendência de alteração molecular dos materiais biológicos, propôs-se neste trabalho, empregar na abdominoplastia de ovinos a cartilagem auricular bovina submetida ao tratamento alcalino por 72 horas e comparar o método, quanto à sua biocompatibilidade, ao uso da tela de polipropileno para a mesma finalidade.


2. MATERIAIS E MÉTODOS
As peças anatômicas de orelhas de bovinas para obtenção das cartilagens auriculares foram obtidas em abatedouros frigoríficos inspecionados, durante o abate de bovinos, sendo estes da raça Nelore e de mesmo grupo contemporâneo. Após a coleta as peças anatômicas foram transportadas sob refrigeração ao Laboratório de Práticas Veterinárias da Universidade Federal de Goiás – Campus Jataí, onde promoveu-se a separação da pele da cartilagem auricular empregando instrumentais como bisturi, tesoura e pinças. Isoladas, as cartilagens foram lavadas em solução fisiológica, acondicionadas em sacos plásticos, individualmente e congeladas.

Posteriormente as cartilagens foram descongeladas e imersas em solução alcalina contendo dimetilsulfóxido e sais (cloretos e sulfatos) de sódio, potássio e cálcio. Após 72 horas, os sais residuais foram removidos por três lavagens sucessivas com H3BO3 3% e EDTA 3%, congeladas gradativamente, sob temperatura de 15ºC por 12 horas e -15ºC por 12 horas e liofilizadas até apresentarem massas constantes (GOISSIS et al., 1999).

As biomembranas foram acondicionadas em embalagens individuais e submetidas à esterilização de grau cirúrgico em óxido de etileno e acondicionadas em segunda embalagem.

Avaliação da biocompatibilidade por meio da implantação na parede abdominal de ovinos.

Foram utilizados 16 animais da raça Santa Inês, com idade variando de oito a 12 meses e alocados aleatoriamente em quatro grupos (G1, G2, G3 e G4), que diferiram em função do material implantado e do dia da retirada de fragmento. Cada grupo foi composto por quatro animais, sendo que dois receberam o implante de cartilagem auricular tratada em solução alcalina e dois receberam implante de polipropileno. O grupo 1 (G1) teve a retirada aos sete dias pós implantação; o G2 aos 14; G3 aos 21 e G4 aos 35 dias pós operatório. Os animais foram submetidos a uma nova intervenção cirúrgica com o intuito de colheita de espécimes clínicos, seguindo o mesmo protocolo anestésico preconizado na primeira intervenção.

Para a realização do ato cirúrgico para implantação do biomaterial na parede abdominal ventral procedeu-se o jejum hídrico-alimentar de 24 horas e em seguida administrada clorpromazina na dose de 0,1mg/Kg por via intravenosa. Após 15 minutos, aplicou-se tiopental a 2,5% na dose de 6 mg/kg, metade da dose rapidamente e o resto até o desaparecimento do reflexo palpebral, laringotraqueal e da dor. Os animais foram, então, intubados e a anestesia geral mantida com halotano 2,5% (V%) (MASSONE, 2003).

Em área coberta previamente lavada e desinfetada com solução de hipoclorito de sódio a 0,1%, os animais foram contidos em decúbito dorsal em mesa adaptada para a execução do procedimento. Após tricotomia e lavagem com água e sabão, realizou-se antissepsia.



Foi realizada incisão de pele de, aproximadamente, 15 centímetros, tendo por referência a linha alba e a cicatriz umbilical. Em seguida o subcutâneo foi divulsionado para exposição da fáscia do músculo retoabdominal. Retirou-se um fragmento da fáscia do retoabdominal com dimensões de aproximadamente sete centímetros, simulando defeito da parede abdominal (Fig. 1A). Sequencialmente, suturou-se a membrana cartilaginosa tratada em solução alcalina ou a tela de polipropileno com fio de poliamida com quatro pontos reparo em padrão tipo Wolff (Fig. 1B) com o intuito de melhorar a adaptação do biomaterial ao defeito abdominal. Posteriormente, realizou-se a sutura em padrão simples contínuo, também com o mesmo tipo de fio, fixando o implante à fáscia da parede abdominal, de acordo com cada grupo experimental. Efetuou-se redução do espaço morto com fio absorvível orgânico e dermorrafia suturada com fio poliamida e padrão interrompido simples.

Figura 1. Procedimento cirúrgico de implantação dos materiais na parede abdominal de ovinos. Em A, observa-se a retirada de um fragmento circular de aproximadamente sete centímetros de diâmetro, da fáscia do músculo retoabdominal, após incisão da pele e dissecação do subcutâneo. Em B, observa-se os pontos de reparo para a fixação do implante na fáscia do músculo retoabdominal


Por ocasião do pós-operatório, os animais foram mantidos em piquete de Brachiaria brizanta com área de sombreamento natural e fonte hídrica, onde receberam suplementação mineral à vontade em cocho de madeira com cobertura. Como medida profilática à infecção da área cirúrgica utilizou-se antibioticoterapia parenteral à base de amoxicilina tri-hidratada na dosagem de 15 mg/kg por via intramuscular, em intervalos de 24 horas, perfazendo quatro aplicações. Para redução da dor e adequação às normas de bem estar animal, preconizou-se a utilização de dipirona sódica na dosagem de 25 mg/kg, via intramuscular, a cada oito horas, por quatro dia.

Duas vezes ao dia efetuava-se a limpeza da ferida cirúrgica com solução de iodopovidine e curativos locais com pomada à base de penicilina G procaína, penicilina G benzatina, diidroestreptomicina e uréia.


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